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História

A espontaneidade e a democracia do Centro

História de: Camilo Bianchini Casoli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2020

Sinopse

As diferentes experiências que se pode ter no centro. Os diferentes tipos de arte. A diversidade e democracia do centro. Os personagens curiosos. O cuidado necessário com a segurança e a preservação da riqueza cultural.

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História completa

P/1- Boa tarde.

 

R- Boa tarde.

 

P/1- Por favor, seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R- Meu nome é Camilo Bianchini Casoli, eu nasci em 28 de abril de 1979, aqui em São Paulo.

 

P/1- Camilo, qual é o seu centro aqui na cidade? Aonde você frequenta, onde você anda...

 

R- Bom, eu acho que a minha vida... ela tá no bairro em que eu moro, que eu vivo, né? Eu vivo nas Perdizes e é onde fica minha universidade. Então basicamente meu dia a dia eu passo por lá, mas eu frequento muito o Centro de São Paulo e outros lugares da cidade também.

 

P/1- Que lugares especificamente?

 

R- Eu frequento o centro e frequento muito a região da Paulista, dos Jardins... frequento bastante. 

 

P/1- Aqui no centro, propriamente dito, você vai em que locais, teatros, praças, em que…?

 

R- Aqui no Centro, eu me interesso muito pelo... eu vou muito... eu não sei, eu acho difícil localizar um lugar no centro, porque eu me interesso muito pelo Centro em geral. Eu frequento, eu gosto de andar da Praça da República até a Praça da Sé. Então eu passo pelo Anhangabaú, eu venho, assim que... quando eu tenho oportunidade, eu tenho vindo, me interessa muito o Centro, eu acho que São Paulo tem um movimento muito interessante no Centro ainda.

 

P/1- Esse seu interesse é voltado ao que? Às pessoas, à arquitetura, ao...

 

R- Bom...

 

P/1- Ao lazer, à...

 

R- Tudo. Eu acho que o Centro de São Paulo tem uma... assim, acho que tem desde as coisas que se comercializam no centro, acho uma coisa muito diferente das outras regiões, as pessoas são muito interessantes no Centro e a arquitetura também. O Centro de São Paulo ainda precisa... está degradado hoje, né, mas eu acho que tem que se encontrar um jeito de restaurar esse centro, mas de manter, ao mesmo tempo essa característica, essa diversidade dele, né, e que essa diversidade de pessoas, de coisas acontecendo...tem sempre desde o pregador evangélico da Praça da Sé até aquele cara que pula no meio das facas, ali na Rua 24 de Maio. Assim pra mim tudo é muito interessante.

 

P/1- É um personagem que te marca muito?

 

R- São...

 

P/1- Conta mais um pouquinho pra gente desses personagens que você vê pela rua.

 

R- Ah, eu acho que aqui no centro... outro dia eu parei um final de semana, eu fiquei assistindo o show daquele rapaz que fica pulando. Na verdade, eu sempre assisto esse show e nunca vi ele pular no meio daquelas facas, porque ele sempre faz um... enrola, enrola, vende umas pomadas pra dor muscular, não sei o quê, e sempre dura, assim, 40 minutos. Eu fico olhando e é muito interessante, ele é um... é um artista muito talentoso, essa coisa de entreter o público, de conseguir vender tanto o produto como a imagem dele é muito forte, e...mas, nunca dá tempo de assistir finalmente ele pular no meio daquelas facas, né, e são personagens muito interessantes assim. Eu tô atrás, até pra um trabalho que eu tô desenvolvendo agora, né, que é o meu projeto de conclusão de Jornalismo, da pessoa que pinta os letreiros daqueles cinemas da São João, que é uma coisa que em São Paulo só sobrou ali. É muito interessante aquilo, às vezes é até muito diferente o rosto dos artistas, tudo lá, mas acho que é um tipo de arte que era típica do centro de São Paulo e que hoje tá acabando.

 

P/1- E agora, conta pra gente uma história que você vivenciou aqui ou que você assistiu a uma passagem com alguém, uma coisa que te chamou atenção, que guardou na memória.

 

R- Eu me lembro, quando eu era criança, eu vinha às vezes...bastante, eu vinha com meu pai aqui no Centro, ele me trazia. Meu pai sempre gostou muito também daqui e eu me lembro um dia, eu nem tenho... eu tenho uma lembrança, nem é tão forte disso, é meio infantil até, eu nem sei o quanto é verdade, o quanto é minha imaginação, mas eu sei que uma vez nós estávamos naquela galeria da 24 de Maio e tinha uma mulher na quarta laje, assim, querendo se suicidar, pular. Isso é uma coisa muito forte, porque é o Centro... a mulher tava querendo pular, a polícia embaixo e as pessoas olhando, as pessoas começaram a ficar nervosas, porque as pessoas queriam ver o espetáculo acontecer, não sei se era ver ela ser salva ou pular de fato, as pessoas começaram a gritar pra ela pular...

 

P/1- Ah, é?

 

R- ...sabe: “Pula, pula”? Quer dizer...

 

P/1- O pessoal incentivava...

 

R- …é, um grande espetáculo, né? Na verdade, independente do resultado daquilo as pessoas estavam interessadas em ver acontecer alguma coisa diferente, né, e o Centro tem isso, né, todas as... qualquer fato, por menor que ele seja, ele mobiliza uma atenção absurda. Se alguém começa a olhar, junta um bolo de gente, eu imagino como foi essa semana, que houve essa explosão no prédio da Praça João Mendes, né, se... o que parou de gente só pra olhar, não haveria a menor... podia não estar acontecendo mais nada lá, mas tava todo mundo esperando algo acontecer, né? Que é essa coisa que pra mim me interessa no Centro, porque, na verdade, acho que São Paulo aconteceu dos bairros, a ser um fenômeno... você olha nas grandes cidades, os centros ainda são vivos porque existe uma concentração comercial no centro, então as pessoas vão ao centro e vivem de fato o centro. Aqui em São Paulo, acho que com a criação dos shoppings centers, criou um espaço de segurança que, assim, as pessoas começaram a temer vir ao Centro e evitar isso. Então, eu acho que é muito diferente o que acontece no Centro, se você tá acostumado a ir no shopping, por exemplo, o Centro é um espetáculo perto do shopping, porque o shopping é super programado, e o Centro tá sempre com alguma coisa por acontecer. Eu acho que isso é muito importante pras cidades, independente de haver realmente problemas de segurança no Centro de São Paulo, eu acho que o Centro tem que encontrar um jeito de se revitalizar, mas, ao mesmo tempo, de manter essa espontaneidade e essa democracia do Centro, que eu acho que os shoppings simplesmente criaram um espaço seguro, mas nada democrático, porque as pessoas que frequentam o shopping são pessoas de poder aquisitivo mais alto. E, assim, de histórias eu não sei muito, mas essa coisa de sempre estar acontecendo alguma coisa diferente, desde as pessoas anunciando as vendas das lojas nas ruas... tem um cara, sempre interessante, é um personagem aqui do centro, eu acho forte, tá na Rua Direita sempre, é um palhaço que fica sentado anunciando os produtos da loja e tal, eu acho muito... isso é uma coisa completamente oposta à frieza dos shoppings, né, que é aquele ambiente que tudo é programado, nenhuma surpresa pode acontecer.

 

P/1- Conta pra gente agora, a mulher se jogou ou não se jogou do...

 

R- Não se jogou. 

 

P/1- Não se jogou?

 

R- Não, aliás, eu não me lembro, porque eu fui embora antes, eu não sei, mas eu acho que não se jogou, eu acredito que não e acredito que isso seja uma coisa muito comum aqui no Centro, né, sempre há essas... isso que eu tô falando, o grande espetáculo, as pessoas estão sempre à espera disso, né...

 

P/1- Camilo, nas suas caminhadas pelo Centro, nessa vivência que você tem daqui, que música você lembra, o que você escuta sempre por aqui?

 

R- Eu acho o centro... eu gosto muito de música brasileira, agora o centro de São Paulo tem uma... essa coisa dos... não é o que me lembra… eu me lembro de um episódio muito interessante, essa coisa dessa venda de CD pirata acaba acontecendo de estar tocando a mesma música e todos os ambulantes estarem tocando a mesma música, ao mesmo tempo no centro, né? Então é possível você fazer esse percurso da Praça da República até a Praça da Sé ouvindo trechos da mesma música, o tempo inteiro... e foi uma coisa engraçada, eu me lembro que eu até contava pra alguns amigos isso: eu um dia peguei, fiz esse percurso e tava no sucesso aquela música horrível Moranguinho do Nordeste, que é uma coisa horrível, né? E houve várias gravações diferentes disso, desde forró, sertanejo, tinha a gravação original, e eu consegui cruzar a região ouvindo as mais diversas versões, nas mais diversas barracas, mas da mesma música.

 

P/1- Interessante.

 

R- É, foi uma coisa curiosa, assim, mas daqui do Centro eu... apesar de gostar, mesmo gostando muito de música, eu acho que o Centro de São Paulo não tem uma música que eu... existem grandes músicas, do Paulo Vanzolini falando do Centro, por exemplo, mas representam pra mim muito mais a cidade de São Paulo do que o Centro de São Paulo, mesmo falando do Centro.

 

P/1- Tá certo. E, Camilo, o que você... você já viu a exposição aqui de baixo, a exposição que o Museu da Pessoa tá fazendo, o que é que você tá achando disso?

 

R- Eu acho muito interessante, acho que consegue captar perfeitamente essa diversidade do Centro, desde aquele rapaz que vende cartões telefônicos, que é muito famoso, em todas as copas ele aparece na TV, né? Eu até, sinceramente, não gostava muito dele, porque ele é corintiano e eu sou palmeirense...

 

P/1- [Risos].

 

R- … e ele é corintiano fanático, então sempre que o Corinthians é campeão ele aparece e eu fico bastante nervoso com ele, mas eu li a história dele e gostei bastante, achei muito interessante. A próxima vez que eu passar ali onde ele vende os cartões, com certeza eu vou tá atento, eu vou prestar mais atenção na figura dele ali. E achei a exposição muito boa e acho que São Paulo precisa muito disso.

 

P/1- E agora pra terminar, Camilo, o que é que você tá achando de participar dessa exposição?

 

R- É, eu me sinto... eu acho bastante gratificante, exatamente por ter esse interesse pelo Centro e achar que é muito importante todas as pessoas se mobilizarem pra, de fato, transformar o Centro num lugar mais seguro, num lugar mais frequentado da cidade, mas ainda num lugar dessa diversidade, que eu acho que é a coisa mais interessante, que acho que a exposição aborda muito bem. Não é a arquitetura que faz do Centro de São Paulo uma coisa diferente, mesmo porque eu acho que o Centro tem coisas horríveis, o Centro de São Paulo, eu acho assim... eu sou muito crítico quanto... São Paulo foi uma cidade que não teve planejamento urbano nenhum, né? Na frente do Teatro Municipal, que é uma coisa impressionante, é lindo, você tem aquele prédio do Mappin, que hoje é o Extra, e que eu acho uma coisa horrível, como em qualquer cidade do mundo, seria muito difícil você construir e mesmo tendo aquele prédio horrível, a prefeitura permite que se coloque um outdoor gigante com o nome do Extra lá, e na frente... isso é uma coisa... eu não sei, então eu acho que a gente tem que... essas iniciativas são importantes pra que o Centro de São Paulo possa se revitalizar de certa forma, mas mantendo essa característica da diversidade. Isso é o mais importante.

 

P/1- Muito obrigado por sua colaboração e se quiser registrar mais alguma coisa, esteja à vontade.

 

R- Não, fica pra uma próxima. Pra daqui a alguns anos de Centro.

 

P/1- Tá bom.

 

(fim do cd 1).

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---





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