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História

A esperança de uma sociedade mais bonita

História de: Paulo Freire (Paulo Reglus Neves Freire)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/03/2014

Sinopse

Mudança de Recife para Jaboatão. Convivência com filhos de camponeses. Fome. Discriminação. Indagações quanto ao poder. Entrada no Colégio Oswaldo Cruz. Faculdade de Direito. Professor de História e Filosofia da Educação, na Universidade do Recife.“Pedagogia do Oprimido”. Alfabetização em Angicos, RN. Plano de Alfabetização Nacional, em Brasília. Exílio. Morte da esposa Elza. Luto. Relacionamento com Nita.

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História completa

Meu nome é Paulo Reglus Neves Freire, sou conhecido como Paulo Freire, nasci em 19 de setembro de 1921 no Recife.


A grande crise de 29 teve uma influência e repercussão grandes sobre a minha família que era de classe média, relativamente bem aquinhoada.

 

Me lembro que começamos a ter uma experiência, mesmo que discreta, ainda que não tão dramática, de limitação ou de diminuição na própria comida em casa, quer dizer, passamos a comer menos.

 

Em 1932, minha avó perdeu a casa grande onde eu nascera, em Casa Amarela, um grande sítio, não houve possibilidade de recuperá-la, e dessa maneira, a família, eu era menino, foi obrigada a largar o Recife e a se adentrar um pouco para o interior, numa espécie assim de solução mágica, pra ver se saindo do centro urbano mais forte, era possível sobreviver. Minha família se muda para Jaboatão.

 

Me lembro do dia da mudança. Fui com o meu pai num caminhão, com os últimos teréns da gente, possivelmente no segundo ou terceiro caminhão, e era um dia todo, não havia calçamento sequer. Fomos num lugar chamado Morro da Saúde. E lá então tive uma experiência, a primeira continuidade da crise que até se agravou mais ainda. Meu pai, por questão de saúde, não trabalhava, e passava o dia em casa ou lendo, ou trabalhando numa oficinazinha que montou, fazendo gaiolas, e a gente ao lado dele. Então nós tivemos a vantagem de ter tido a presença paterna, numa sociedade com uma cultura machista como a nossa.

 

Em Jaboatão aprendi muita coisa, em primeiro lugar, a ampliar o meu mundo. Na Estrada do Encanamento onde nasci, se restringia ao quintal, mesmo grande da casa, e lá esse mundo cresceu um pouco. Fui morar na beira de um rio. Meninos ficaram meus amigos, filhos de camponeses ou filhos de trabalhadores urbanos.

 

Eu via como os meninos de classe média abastada discriminavam os meus colegas, os meus amigos, filhos de camponeses. E nos encontrávamos no sítio, num terreno, em um campo de futebol. No bate-bola havia uma convivência que escondia as discriminações. Mas eu entrevia e percebia. Talvez mais do que entendesse, sempre me pus contra.

 

A experiência da fome cresceu de um lado, mas era fome de produtos do mercado (risos). Aí a gente não tinha dinheiro pra comprar. Não havia a fome rigorosa porque a gente tinha as frutas em abundância para comer.

 

Eu era um menino que tinha uma constante de ser curioso. Eu vivia a curiosidade. Me indagava muito, muito mais a mim mesmo do que aos outros. E me perguntava, eu procurava. Para entender porque eu não comia e outros comiam.

 

As memórias de mim mesmo, isso que eu chamo de tramas, me ajudaram a me entender nas tramas de que eu fiz parte e a descobrir a dimensão política e ideológica disso tudo, e a questão do poder.

 

Entrei no primeiro ano com 16 anos de idade. Quer dizer, exatamente quando colegas meus, de geração, estavam entrando na universidade. Mas eu não estava escolarizando-me na escola, estava educando-me no mundo.

 

Com muito sacrifício fiz um exame de admissão e eu não tinha dinheiro e minha família não podia pagar uma escola privada.

 

Terminei o primeiro ano de ginásio e fiquei na iminência de não ter a continuidade.

 

Minha mãe procurava, quase todo dia, com uma grande ternura, ver se achava uma escola privada que me desse uma bolsa de estudos.

 

E foi aí que eu entrei no Colégio Oswaldo Cruz.

 

Fiz lá então do segundo ano do ginásio até o último do curso chamado pré-jurídico. Terminei fazendo Direito. E eu tinha um gosto muito grande, que continuo, preservo hoje, por problemas de linguagem, e estudei muito a chamada gramática, ou a sintaxe da língua portuguesa, e me tornei professor do próprio colégio.

 

A minha primeira causa, ainda para me formar em Direito, foi com um jovem dentista que comprou um equipo dentário e não pôde pagar. E eu era advogado do credor dele. E chamei-o ao meu escritório, ele veio, começou a conversar comigo, era um sujeito da minha idade e disse: “É Dr. Paulo, eu não posso pagar e o senhor não vai poder me acionar contra, não pode tomar meus instrumentos de trabalho”. A lei não permitia, realmente. “Nem tampouco minha filhinha, mas os meus móveis o senhor pode tomar”. E eu deixei de ser advogado naquele dia.

 

Terminei sendo professor de História, de Filosofia da Educação, da Universidade do Recife, onde defendi uma tese universitária: “Pedagogia do oprimido”. E ganhei legalmente o título de doutor em pedagogia. Essa tese se chamou “Educação e Atualidade Brasileira”, foi ou teve núcleos centrais básicos, que se desdobraram depois no livro “Educação como Prática da Liberdade”.

 

Coloquei tudo em prática e aprendi a perceber a teoria dessa prática quando trabalhei no SESI. Foram dez anos de intensa pesquisa, ao lado de um estudo muito sistemático, teórico, que eu fazia constantemente comigo mesmo. Ora assessorando grupos que trabalhavam em escolas primárias, ora trabalhando diretamente, com adultos, em educação popular.

 

Aquele período dos fins dos anos 40 e todos os anos 50, foram profundamente fundamentais do ponto de vista da minha formação política, científica e ideológica.

 

Em 1961, creio, em 1962, fizemos um grande trabalho em Angicos, no Rio Grande do Norte. Alfabetizaram-se 300 e tantas pessoas num período de 2 meses, por aí.

 

Levei a minha equipe da Universidade do Recife pra Natal, e lá capacitamos a equipe central dos estudantes, que por sua vez capacitou outras.

 

Durante aquele trabalho, houve a primeira grande greve de operários da indústria. Uma coisa linda. Eles se juntaram, se mobilizaram, em função da discussão política que tinham, e partiram para defender seus direitos. No começo até houve uma tentativa de os municípios vizinhos a Angicos remeterem os seus empregados pra lá em caminhões pra acabar com a greve, pra fazer o fracasso, e os estudantes, que eram os educadores, souberam disso e foram com os próprios operários para o meio da estrada e paravam os caminhões que vinham das outras cidades e faziam preleções aos outros operários e eles voltavam e, e aí a greve vingou.

 

Eu criei o serviço de Extensão Cultural da Universidade de Pernambuco, formação de quadros pra professores, pra jovens, estudantes até chegar o governo de (João) Goulart quando, sendo o Ministro da Educação Paulo de Tarso me carrega pra Brasília pra eu coordenar o Plano de Alfabetização Nacional, em 1963.

 

“Professor, eu acho que o senhor defende uma pedagogia sem valores”. Eu nunca esqueço desse papo com o Castelo Branco. Não, ele falou uma “pedagogia sem hierarquia”. E eu disse: “Não, o senhor está equivocado. Defendo valores e os valores estabelecem hierarquias. Agora, o que eu acho é que a hierarquia que está aí montada e estabelecendo princípios, pra nós, está precisando mudar. Acho que está montada em bases injustas, etc.”. Ele falou pra mim: “E o senhor aceita de falar pra nós no IV Exército?”. “Falo onde o senhor quiser”. Mas não deu mais tempo. Isso deve ter sido junho de 1963. O golpe foi em abril de 1964.

 

Na primeira experiência de casamento nasceram: Madalena, Fátima, Cristina, Joaquim, Lurdes. Eu era muito jovem, 23 anos. Encontrei um dia no mundo Elza, que é a mãe dos filhos meus. E nós fizemos um bem assim enorme um ao outro. Um apaixonamento profundo, e vivemos 42 anos juntos.

 

Depois do golpe, a solidariedade absoluta que ela teve comigo. Elza ia me visitar na cadeia e nunca disse a mim: “Você está vendo, Paulo, se você tivesse pensado mais...” Nunca.

 

Minha vida foi com ela, que me deu um apoio extraordinário, uma força enorme. Costumo sempre dizer que Elza me provocava e me desafiava até no silêncio. Fui para o exílio e ela foi comigo e os filhos. Me acompanhou e viajou muito comigo, tanto quanto pôde, porque eu sempre defendia essa tese de não viajar só. Eu não gosto de dormir só. Ficava com ela o tempo todo.

 

Tive essa experiência trágica de perder Elza no meu corpo, no meu peito. E foi uma coisa dramática. Senti um desgosto de viver, houve uma ruptura enorme que se pôs diante de mim, entre mim e o mundo, entre mim e a vida. E eu me desencantei. E me amofinei. E meus filhos, meus amigos mais próximos, mais íntimos, duvidavam até de se eu era capaz de dar o salto depois.

 

Muita gente estranhou que eu me casasse de novo.

 

Hoje estou convencido de que quanto mais você amou, tanto mais você pode continuar a amar. E quanto menos você pode amar, tanto menos você continua a poder amar. A minha experiência com Elza tinha sido tão plena, tão enorme e tão fantástica, que eu não pude ficar só. Não dava. Quer dizer, eu tinha que continuar amando.

 

Exatamente nesse clima emocional e pouco racional também, afetivo, crítico, ingênuo etc., que Nita, que tinha sido aluna minha, menina, enviuvou e me procurou para orientar sua tese. Descubro que Nita podia ser mais do que a amiga. Aí nos acertamos para viver, uma vida diferente.

 

E, essa coisa não é fácil. Você tem que enfrentar a análise dos demais, as críticas, restrições, eu respeito muito a opinião dos outros, mas aí é preciso ver a minha e a dela, e nenhum filho meu tinha o direito de interferir nisso.

 

O meu sonho fundamental é pela liberdade que me estimula a brigar pela justiça, pelo respeito do outro, respeito à diferença, ao direito que o outro tem de ser ele ou ela mesma. Quer dizer, o meu sonho é que inventemos uma sociedade menos feia do que a nossa de hoje. Menos injusta.

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