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História

A espera de um lar

História de: Gilda Ferreira Garcia
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/04/2014

Sinopse

Gilda Ferreira Garcia nasceu em Getulina, Estado de São Paulo em 1938. Ainda adolescente mudou-se para a capital em busca de um emprego melhor, pois desde a infância trabalhava na roça. Em São Paulo se empregou, casou, teve filhos e acabou indo morar numa comunidade pobre do ABC Paulista, a Favela do Naval. Depois de passar por incêndios, enchentes e outras desgraças típicas de uma comunidade de favela, ela aguarda ansiosamente pela prometida casa, onde acredita que vai poder viver mais feliz e tranquila perto dos filhos.

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História completa

Gilda Ferreira Garcia, sou de 1938, dia seis de Abril, de Getulina, Estado de São Paulo. Quando eu ia completar 27 anos, eu mudei de lá. Trabalhava muito... Tinha vez de eu começar a trabalhar na segunda - na roça que eu trabalhava, né? Começava a trabalhar na segunda, da segunda ia até o sábado. Eu ia com cinco anos de idade, eu ia pra limpar os troncos de pé de café pra rastelar e montoar o café, e pegar a peneira pra abanar. Eu ia na escola, e quando chegava da escola eu ia trabalhar, eu ia ajudar meu irmão. Naquela época tinha minha mãe viva.

Aí a gente mudou pra cidade, perto da cidade, não era bem na cidade, era uma fazenda também. Chamava Fazenda Boa Esperança. E, assim, eu ia trabalhar na roça também. Aí meu irmão separou a casa, ficou eu e minha mãe, a gente trabalhava junto na roça. Nessa época trabalhava na roça, a gente ia de caminhão. Era pau de arara. Sabe o que é que pau de arara? Tinha aqueles pauzinho, aquelas tabuinha, a gente ia sentada assim na carroceria do caminhão. Tinha bastante espaço da gente sentar, como se fosse um ônibus, né, pra ir trabalhar. E era bastante gente. Quando era de tarde o caminhão pega a gente, a gente vinha embora. Tinha vez de chegar em casa oito horas da noite. Era longe, cinco e meia a gente tinha que tá no ponto esperando o caminhão.

Levei a vida toda assim. Quando era solteira, né? Aí depois que eu vim embora pra São Paulo, casei, aí mudou. A minha mãe ficou no interior e eu vim pra São Paulo pra ver se pegava, se arrumava um pouco de dinheiro a mais, sabe? Por isso que eu fiz isso. Era sempre mudando, caçando melhora, né? (risos) Fazia de tudo!

Aí depois que eu casei, que eu trabalhei mais seguido aqui em São Paulo. Aí passei trabalhando em restaurante, comecei trabalhando no clube da Mercedes, fica ali na Vila São José. O clube da Mercedes, aonde que a gente conheceu ele, era um matagal. Era só eucalipto que tinha lá. Aí depois derrubaram e fizeram o clube, mas depois de bastante tempo, sabe? Eu fui a primeira faxineira que trabalhei lá.

Já morava ali, perto da Mercedes, e depois desci pra Vila São José, na Naval.  Depois que eu entrei na Naval, nunca mais eu saí. É coisa de muito tempo. Porque meus filhos tudo nasceram lá na Naval. Lá embaixo, na Naval, aonde tem os prédio agora, os apartamento lá, ali não tinha uma casa. Era um mato mais ou menos uma altura assim, e era brejo. Depois que começou fazendo barraquinho, de barraquinho, foi aumentando, aí fez a favela. E eu morava um pouquinho pra cima, já, quando aconteceu isso.

Aí nessa época teve uma enchente muito grande, a gente andou perdendo as coisas, tudo.

E quando foi dia 28 de Outubro, veio o fogo. Nunca a gente ficou sabendo, porque nunca ninguém contou como é que aconteceu aquele negócio do fogo. Eu sei que dessa época, até uma criancinha morreu. Eu tinha ido na igreja, e quando eu vou chegando da igreja, eu vi as pessoa correndo. Uns com botijão, outros correndo, eu falei: “O que que tá acontecendo? Esse pessoal tudo correndo?”. Aí minha sobrinha olhou pra mim e falou assim: “Tia, o que que você tá fazendo sentada aí, não vai dar seus pulos?”. Quando eu olhei pra fora, todo mundo correndo, eu só fiz catar meu netinho, e saí correndo com ele. Eu deixei o menino, e fui correndo pra casa, pra ajudar a socorrer alguma coisa, mas não deu pra socorrer quase nada. Veio bombeiro, mas só que era muito longe, não tinha espaço pro bombeiro, pra borracha alcançar. Ele jogou muita água e tudo, de longe, mas não dava pra alcançar tudo pra baixo, porque não tinha espaço pro carro entrar. Não tinha. Agora não, hoje em dia tem espaço pra tudo. Tem rua, tem tudo, mas naquela época não tinha.

Aí quando surgiu o fogo aí a prefeitura mandou fazer as casa no mesmo lugar que tava. E ajudou pra gente fazer, deu todos os “material”. Foi muito bom. Moro no mesmo lugar, mas não tô na mesma casa. Porque até hoje não saiu minha casa ainda. A prefeitura tá enrolando demais com a gente, tá sendo duro demais pra mim. Meu sonho é minha casa sair logo, é o que eu quero. 

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