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A Escolinha que estudei

História de: João Ivo Caleffi
Autor: João Ivo Caleffi
Publicado em: 28/10/2019

Sinopse

São lembranças da escolinha que estudei na minha infância, que trago no meu coração, na minha memória afetiva.

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História completa

     As vezes fico pensando na primeira escolinha que estudei. Meu primeiro contato, com a educação formal, na minha vida. Busco na memória e traz uma doce lembrança.

    Hoje, como educador, fico pensando, porque será que este meu primeiro momento, de contato com a escola, marcou-me  tanto e traz tão agradáveis lembranças?

   Era na área rural do município de Marialva, no Estado do Paraná. Eu tinha apena oito anos de idade. Foi no ano de 1971, que tudo começou.

   A escolinha Municipal Isolada Reunida Getúlio Vargas, criada no ano de 1954 e nomeada no ano de 1960, como Escola Municipal Isolada Getúlio Vargas, ficava na beira de uma estrada, a estrada Marialva, no quilômetro dez, há uns dois quilômetros, de distância, do sítio que eu morava com minha família, meus pais, avós, tios, tias e muitos primos e primas, de uma grande família de italianos, no sítio que era de meu avô Santo Caleffi, vindo do Norte da Itália, da Província de Mantova, na Região da Lombardia, da Comuna de Poggio Rusco. De lá, liderado pelo meu bisavô Teodoro Caleffi, migraram para o Brasil, no ano de 1898, saíram do Porto de Gênova no dia 30 de setembro e chegaram no Brasil, no Porto de Santos, vinte dias depois, no dia 19 de outubro de 1898, passando primeiro pelo Sul de Minas Gerais, morando no município de Monte Santo e Guaranésia, onde meu meu bisavô Teodoro Caleffi ficou e terminou seus dias. Meu avô Santo Caleffi, continuou a sua vida de migrante e chegou ao Paraná. Minha avó Maria Frania Uzae Caleffi, também era italiana, vindo da Ilha da Sardenha, passando também primeiro pelo estado Minas Gerais.

    Antes, de chegarem no sítio de Marialva, eles migraram e moraram algum tempo, a partir de 1944, na cidade de Cornélio Procópio e Cambé, sempre de empregados, até poderem comprar seu pedaço de terra, no ano de 1948, no município de Marialva, na gleba Aquidaban, a onde chegaram no ano de 1951, para derrubar a mata e formar o sítio. Foi ali que nasci, no dia oito de fevereiro de 1961.

   Eu ia a pé para a escola. Antes de chegar até a escolinha, tinha que percorrer dois quilômetros. Atravessava um rio, numa pequena ponte, nos fundos do nosso sitio e caminhava por entre algumas casas, pastos com criações e grandes plantações de café, subia morros, muito verde e liberdade. Tinha contato direto com a natureza Ir para a escola era um verdadeiro passeio e liberdade, em contato com a natureza. Era o meu mundo, de intimidade entre nós, eu e a natureza, tal como se fosse gente, tal a intimidade entre nós. Foi o meu primeiro mundo, minha primeira escola. Era o meu mundo, que eu ia lendo, a natureza e o mundo ao meu redor, com minha sensibilidade de criança e intuição, havia uma integração, total intimidade entre nós. Sintia-me, como se fosse o centro desta natureza maravilhosa, que explodia em vida por todos os lados, eu e ela, cheio de fantasia, sem nenhum limite, as vezes até demais. Mas era apenas uma criança, descobrindo o meu mundo, um novo mundo. Aprendendo. Ia fantasiando sem pressa. A escolinha foi construída pela comunidade, minha família ajudou no que pôde, assim como todas as outras famílias. O terreno foi doado por um sitiante. O material para a construção foi doado pela comunidade. A construção feita em mutirão. Com pouca ajuda do poder público. Havia muito identidade com a escolinha, pois foram eles que a construíram. A escolinha ficava no meio de um cafezal, bem na curva da estrada que seguia adiante. Era de alvenaria. Tinha apenas uma sala grande para todos os alunos. As carteiras eram de madeira e bem grande, a onde sentavam-se dois alunos. Tinha espaço para lápis e um tinteiro, mas o tinteiro já não usava mais. A caneta era proibida, só usava lápis. A sala tinha uma grande porta de madeira e a sala era dividida em filas de carteiras. Cada fila tinha uma letra, por exemplo: A,B,C,D. A letra A era para os alunos mais adiantados e assim por diante. A diretora da escolinha, Dona Arlinda Silvestre, morava, com sua família, numa casa de madeira velha, que ficava no patio da escola, sempre que chegava na escola eu via ela lá, com um sorriso no rosto, esperando os alunos. Ela além de diretora da escolinha, era também nossa professora. No pátio da escolinha havia um poço com sarilho, em que com um balde amarrado numa corda se tirava água para todos. A escola era cercada por muros e tinha grandes janelas, o pátio era pequeno, onde havia um pequeno espaço livre coberto. Perto da escolinha havia uma venda, que ficava bem na curva da estrada, uma casa de madeira velha, bem grande, que ficava fora do pátio da escola, onde sempre morava algumas famílias, havia também uma igrejinha, a Capela Santa Luzia, um grande salão de festas, um campo de futebol e uma cancha de bocha. Eu passeava, com meus colegas, por todos esse lugares, as vezes junto com a professora. Uma professora, era vizinha do sítio, onde residia minha família e as vezes, ela ia junto com a gente, para a escola e voltávamos juntos, depois das aulas. Era a professora Maria Medeiros. A professora Maria Medeiros era nossa amiga, gostávamos muito dela, ela chegava a apostar corridas carreador abaixo com a gente. Ela sempre ganhava da gente. Mas era tudo alegria. Algumas vezes quando chovia muito, quando estávamos voltando das aulas, encontrávamos o rio cheio, com enchente, tínhamos que esperar o rio baixar. Doces lembrança! Quantos aprendizados! Na escolinha tinha uma servidora, Dona Luzia, que fazia a nossa merenda, mas era só duas vezes por semana, o resto dos dias tínhamos que levar o nosso próprio lanche, que as mães preparavam em casa, colocavam num embornalzinho de pano. Nos dias em que Dona Luzia fazia a nossa merenda, era muito bom, porque as vezes, ela assava pães caseiro no forno de barro que a escola tinha. Era uma festa nestes dias. As vezes os pães eram servidos ainda quentinhos, em fatias dentro de uma bacia grande de alumínio. Era muito bom! Era o melhor dia! Como esquecer tudo isso! Que aprendizado, para sempre, inesquecível. Lembro que dos poucos materiais que tínhamos, da cartilha "Caminho Suave". Mas, para o da bem da verdade, o que nos encantava mesmo era o convívio, a liberdade, a amizade com os coleguinhas, com as professoras e o contato com a natureza, que na verdade era a nossa vida e o que nos chamava a atenção de verdade.

     Mas não foi tudo maravilha assim.Um dia estávamos todos na escolinha estudando, em silêncio e de repente todos escutam alguém batendo na grande e única porta, de madeira, da escolinha. A professora vai abrir a porta e ver quem era. Ai todos nós vemos entrar alguns homens estranhos, para nós, de guarda-pó branco, carregando algumas maletas na mão. Eles entram e fecham a grande e única porta, de madeira, da nossa escolinha. Um deles ficou estrategicamente cuidando da porta. Estanho! Silêncio total. Ficamos todos espantados, assustados, curiosos, quase em pânico, sem saber o que estava acontecendo. Os homens estranhos, cochichavam baixo entre si e olhavam para nós, enquanto preparava o material. Não devia ser coisa boa não, o que traziam. Quando a professora, constrangida, anunciou que era vacina, foi pânico geral, desespero mesmo, pegaram todos nós de surpresa. Que coisa! Neste momento, só via criança chorando em desespero. Fecharam também, as grandes janelas da escolinha. Imagina! Ai começou a sessão de vacinação e choro a vontade, geral, corredeira de crianças dentro da sala, tentando fugir dos homens da vacina, pânico. Meu primo, que era menino ainda, mas era bem grandão, enorme, conseguiu abrir uma das janelas, no descuido de um dos homens. Ele pulou a janela da escolinha e subiu na primeira árvore que encontrou no pátio da escola. Os homens estranhos, tinham enormes seringas, com agulhas enormes nas pontas. Eles vinham, pegavam um a um os alunos no colo e aplicava a injeção nas nádegas, doía muito, mas o que realmente mais doía, era o medo, o pânico, daquela cena, em ver aquelas seringas e agulhas, vindo para o nosso lado. Imagine! É cada coisa que acontece com a gente e nos marca na memória para sempre. Velhos tempos. Outro fato, que não foi muito agradável, que lembro, que ocorreu na escolinha que estudei, foi o dia que vieram, da cidade de Marialva, professoras aplicar provas nos alunos da escolinha. Só que foi menos traumático, que a cena da vacina, pois não tinha injeção. Neste caso, nós já estávamos sabendo e preparados, pela nossa professora. A professora avisava antes e nos preparava, dentro do possível. Mas mesmo assim, era meio apavorante, assustador, porque eram pessoas estranhas, que nós não conhecíamos, nos assustava, criava uma certa apreensão e medo em nós. Mas tudo bem. Era o jeito da época. Não sei se pedagogicamente era correto aquilo, mas era coisa daquele tempo. História, memórias.

    Estudei nesta escolinha os três primeiros anos de minha vida escolar, foi o meu primeiro contato com a escola, com a educação formal. O que não esqueço mesmo era o amor e a sensibilidade das minhas professoras. Me marcou para sempre. Lembro também, que quando chegava da escolinha, meu pai Inísio Caleffi, pedia-me, para que sentasse em seu colo e olhava todo o meu material. Quando ele folheando meu caderno ou livro, encontrava uma folha em branco, passava a mão na folha carinhosamente, com olhos brilhando, me dizia: "Filho aqui dá para escrever muitas histórias" Que saudade! É impossível esquecer isso! Como não aprender esta lição?!

   As vezes, hoje como educador, penso que o que nos falta é um pouco mais de humanismo, diálogo, sensibilidade, amor, contato com a natureza, respeitar o ritmo de cada um. Acima de tudo, falta-nos, um pouco de sonho.

    Hoje quando vou visitar minha velha escolinha de tantas história vivida e a vejo abandona, desativada me dá uma tristeza danada. Quantas doces lembranças! Quantas história vividas! Quantas pessoas foram marcadas para sempre por esta escolinha! Quero aproveitar esta oportunidade, para homenagear a minha escolinha, onde estudei e marcou minha vida para sempre, onde tudo começou. A escolinha Municipal Isolada Reunida Getúlio Vargas, da estrada Marialva quilômetro dez. Que saudade!

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