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História

A escola foi crescendo e eu fui junto com ela

História de: Edson Satler
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/05/2011

Sinopse

Esdon Satler é o terceiro de seis irmãos. Nasceu numa cidadezinha de Minas Gerais mas veio ainda pequeno com a família para São Paulo onde, quando seus pais se separaram, ajudava a cuidar dos irmãos menores enquanto os dois mais velhos ajudavam no sustento da casa. Edson conta sobre o seu período escolar e que se lembra do primeiro livro que leu: “Meu pé de Laranja Lima” de José Mauro de Vasconcelos. Edson tinha o sonho de ser jogador de futebol mas ele sempre se deu muito bem com números e foi procurar saber o que era essa tal de “Contabilidade” que tinha visto numa propaganda. Como já trabalhava, pode fazer o curso técnico e, então, começou a trabalhar como contador. Edson já trabalhou faxineiro, garçom e office boy e auxiliar de escritório. Até que começou a trabalhar como contador mesmo mas por conta de um desentendimento com um dos sócios do escritório, Edson foi buscar um outro lugar para trabalhar e viu no jornal um anúncio da Escola Cidade Jardim/PlayPen onde se mantém como braço direito de Guida Machado, fundadora da escola onde hoje também estuda seu filho.

História completa



P - Então bom dia, Edson.

R - Bom dia.

P - Começar primeiro agradecendo a sua vinda aqui pra dar essa entrevista pra gente e pedindo pra você falar de novo seu nome completo, o local e data de nascimento.

R - Edson Satler, 23 de novembro de 1967, cidade Caratinga, Estado de Minas Gerais.

P - Certo. E o nome dos seus pais?

R - Meu pai Eli Satler, a minha mãe Nadir da Silva Satler.

P - E qual é a atividade profissional deles?

R - Minha mãe era do lar, depois começou a trabalhar, mas logo que eu nasci era do lar e meu pai mecânico de manutenção, metalúrgico.

P - Você sabe como eles se conheceram?

R - Não. Ah, eles se conheceram na cidadezinha lá de Minas Gerais. Minha mãe acho que trabalhava numa fazenda e meu pai... A fazenda era do meu avô e eles se conheceram lá.

P - Certo. E o nome de seus avós?

R - Avó materna... Era só Bernadete e paterno era seu Arlindo e Ermindes a avó.

P - Qual a origem da sua família? Eles nasceram aonde? Vieram...

R - A origem, bem remota, é alemã, por isso o sobrenome Satler. E eles vieram primeiro para o Paraná e depois pra Minas. Eu tenho parente em Santa Catarina, também tem algumas pessoas, mas logo eles vieram para o Paraná acho que pra trabalhar em lavoura de café e depois espalhou pra Minas e Santa Catarina.

P - Mas seus avôs nasceram já em Minas?

R - É. Meus avôs são de Minas.

P - Certo. E você tem irmãos?

R - Tenho. Somos em seis filhos. Eu tenho cinco irmãos. Uma menina e cinco homens na família.

P - E qual é o nome deles assim, na escadinha?

R - Na escadinha o mais velho é Odeir Satler, depois vem o Paulo César Satler, aí sou eu o Edson, depois Hélio Satler, depois Elizabete Satler e o mais novo é o Enéas.

P - Ok. E como é que foi a infância lá nessa cidade? Vocês cresceram todos em Minas, como é que foi?

R - Não. Assim, que eu me lembro, remotamente, já me lembro aqui em São Paulo, que meu pai veio trabalhar em São Paulo, não lembro o ano, mas a minha infância que eu recordo foi aqui em São Paulo na casa que a minha mãe mora hoje em dia ainda.

P - Que é aonde? Em que bairro?

R - Que é Santo Amaro, o bairro é Jardim Capelinha.

P - E como que era essa casa? Conta um pouquinho dela pra gente.

R - A casa, pra família numerosa, era pequena. Tipo, era um quarto, a cozinha e uma sala. O quintal grande, mas a casa pra gente era pequena, logo na infância. E a gente brincava muito na rua, porque naquela época dava pra ainda ficar na rua.

P - E você se lembra desse bairro, dessa região de Santo Amaro quando você era criança?

R - Lembro, quando eu mudei pra lá eram poucas pessoas, era um bairro relativamente novo. Depois ele foi crescendo como tudo, mas assim, era um bairro tranquilo, tinham muitas crianças, tinha a turminha da rua. Era legal até.

P - E quais eram as brincadeiras que vocês faziam?

R - A gente brincava de pega-pega, futebol, soltar pipa, pião, bolinha de gude, essas brincadeiras assim.

P - E era você, com seus irmãos e os amiguinhos da rua?

R - É. Os mais velhos já não, porque eles já começaram a trabalhar logo cedo, mas era eu e um deles, porque eram dois pequenos, era eu e o Hélio e a molecada da rua, os amigos da rua.

P - E só uma coisa, essa relação com seus irmãos, esses mais velhos, vocês e os outros mais novos, vocês se relacionavam bem, era...

R - Não era muito boa não. Os mais velhos eram muito autoritários. Meus pais se separaram, depois de 18 anos de casados eles se separaram e aí minha mãe teve que... Ela nunca tinha trabalhado, teve que começar a trabalhar aí a gente ficou muito sozinho, ficava muito sozinho em casa. Os dois mais velhos iam trabalhar e eu, como era o terceiro, tinha que cuidar dos menores. A relação com os menores era... Tinha que colocar ordem também, também não era muito boa, porque cada um queria fazer uma coisa e não tinha muito... Hoje em dia a gente se relaciona melhor do que naquela época, naquela época era difícil, era meio que desgovernado, navio sem capitão, era muito pela gente mesmo.

P - Então seus pais se separaram e vocês ficaram morando com a sua mãe, todos os filhos?

R - É. Todos os filhos morando com a minha mãe. Aí minha mãe começou a trabalhar e a gente ficou sozinho. Eu tinha 11 anos na época que eles se separaram, logo ela já começou a trabalhar e a gente...

P - E como era esse cotidiano de cuidar dos irmãos mais novos, o que você fazia? Quais eram as suas responsabilidades?

R - Era difícil, porque eu não sabia fazer nada assim, sabe? De fazer... A minha irmã que era mulher era muito novinha e aí tinha que fazer comida, tinha que limpar a casa, era difícil. No começo foi difícil porque não sabia mesmo fazer, tive que aprender mesmo na prática. Eles reclamavam muito, a comida era ruim e fazia uma bagunça danada. Tinha vez que fugiam, cada um corria pra um lado e eu falava: “E agora? Eu vou atrás de quem?”. Mas era nesse sentido, foi muito bagunçado.

P - E tinha uma vizinha que ajudava vocês às vezes?

R - Não. Pelo contrário, os vizinhos reclamavam da bagunça que a gente fazia. Não tinha ninguém não, era a gente mesmo, era a gente que cuidava mesmo.

P - E as festas que vocês comemoravam? Natal, fim de ano, aniversário...

R - Então, nessa época a gente se dividia, porque geralmente as férias de escola a gente ia pra casa do meu pai, ficava lá com ele. A gente não comemorava muito assim, sabe? Natal, assim, da minha infância mesmo não comemorava muito, porque minha mãe trabalhava muito. Ela trabalhava, geralmente, ou Natal, ou ano novo ela trabalhava. A gente geralmente jantava, almoçava tal, trocava presente e depois ia dormir. Não ficava esperando até meia noite que nem hoje em dia a gente faz, espera a virada mesmo. Não fazia isso não, ia tudo dormir cedo, jantava mesmo e era só essa reunião no jantar. Mas era desse jeito.

P - E essas férias na casa do seu pai, ele morava aonde?

R - No começo ele morava perto, em outro bairro. Perto, dava até pra ir a pé. Era divertido, porque lá a gente tinha mais liberdade, já tinha uma pessoa pra fazer as coisas, você não precisava fazer comida, essas coisas. Minha madrasta era uma pessoa muito boa. Era divertido, uma época boa. Depois a gente começou a ir todo fim de semana também. No começo, ia só nas férias, depois começou já ir todo fim de semana, todo sábado assim, já ia pra lá, ficava o sábado e o domingo com ele.

P - E a escola? Fala um pouquinho quando que você começou a ir pra escola, como era essa primeira escola.

R - Eu comecei na... Não fiz aquele pré, que antigamente chamava, já entrei direto na primeira série. Estudei nessa escola do primeiro até o terceiro colegial, na mesma escola. Era uma escola legal, no bairro lá era uma das melhores que tinha, era Luiz Gonzaga de Oliveira acho que é nome dela. Uma escola legal. Era escola pública, mas era relativamente boa, o nível dela era bom, pra época era bom. Eu estudei a vida inteira lá praticamente.

P - E como vocês iam pra escola? A pé...

R - Ia a pé.

P - E levava os seus irmãzinhos menores? Eles estudavam lá também?

R - Não. Assim, eles já estudavam mais próximo, porque essa escola não era tão perto da minha casa, mas os meus irmãos já... Porque na época que eu estudava era uma das únicas escolas que tinha, era essa. Aí me matriculei lá, depois o bairro começou a crescer aí já tinha escola mais perto. Meus irmãos já entraram nessas escolas que eram próximas também. Eu acho que não cheguei a levar não, não me lembro de levar. Porque eu tinha outras coisas pra fazer, cozinhar, limpar casa, aí o outro, que era o Hélio, acho que levava os menores pra escola.

P - E tinha uniforme nessa escola?

R - Tinha.

P - Como que era?

R - O uniforme era... Primeiro era uma camiseta com o desenho da escola, depois virou tipo um avental com bolso da escola. A última época eu me lembro desse avental com bolso. Você podia ir com qualquer roupa por baixo, chegava lá colocava o avental com bolso, tinha o emblema da escola, era assim.

P - Essa escola era grande, tinha um pátio, uma quadra, como que era?

R - Tinha. Era grande, eram dois prédios, tinha um pátio enorme onde era o lanche e tinham duas quadras, descobertas, mas eram duas quadras.

P - E você não se lembra do primeiro dia na escola?

R - Do primeiro dia? Não. Lembro pouca coisa assim, acho que eu devo ter chorado muito. Porque eu repeti a primeira série, inclusive.

P - Ah é?

R - É. Sei lá, tinha medo, sei lá.

P - Tem alguma memória marcante nesse começo?

R - Eu me lembro de quando eu repeti que eu reprovei no exame de leitura. Só que eu lembro que foi uma injustiça, porque imagina só a cena, tava uma pessoa lá: “Lê pra mim isso aqui”. Eu tava lendo, aí chegou uma pessoa e entrou pra falar, por exemplo, faz de conta que era ele, começou a falar com ele, aí eu parei de ler. Por exemplo, tinha uma palavra na minha cabeça, eu falei: “Bom, a mulher não tá nem ouvindo o que eu tô lendo”. Eu parei de ler. A mulher conversando com o cara, falou assim: “Olha, a palavra é essa”. Pegou e me... Aí perguntou pra minha mãe, falou assim: “Olha, ele só foi mal na leitura, mas acho que ele é muito novinho, acho melhor ele ficar esse ano”. Aí pegou e me reprovou. Eu fiquei revoltado. Eu falei: “Não, mas eu sabia qual era a palavra”. Eu nem lembro mais qual era a palavra, mas na época eu falei: “Não, mas eu sabia, eu parei porque a senhora tava conversando, eu não ia ficar lendo”. E a mulher não quis nem saber, me reprovou e eu fiquei... Nesse dia eu fiquei... Só que foi com porque eu fiz o juramento de não reprovar mais nenhum ano. Porque é horrível você criança, todos os amigos passam e você fica. Então essa coisa que me marcou lá, nessa primeira infância da escola foi esse fato da reprovação.

P - E quais eram os materiais que vocês usavam na escola?

R - Eu me lembro de uma pasta, dessas pastas... Como é que chama? Polionda? Acho que é polionda. Essas que... Acho que era até verde com elástico, levava tudo dentro dessa pasta e essas coisas, folha de sulfite, lápis, na época era mimeógrafo. Acho que vocês não devem conhecer. Mimeógrafo que era uma tinta azul assim, colocava e... Era como se fosse o xérox de hoje em dia. Era tudo nisso aí, mimeógrafo. E aquela cartilha, aquela Caminho Suave, acho que ainda existe. Todo mundo aprendia com essa cartilha aí.

P - E em sala de aula, o que a professora usava de material?

R - Em sala de aula usava só a lousa, o giz e esses papéis mimeografados, que eram essas fichas de... E a cartilha, que eu lembro mais. Caderno também, caderno de caligrafia, que a minha letra até hoje é horrível, isso me acompanhou acho que muito tempo.

P - E que matérias você gostava mais?

R - Você fala no geral ou só no começo?

P - Vamos pegar então no geral.

R - No geral eu me dava muito bem com matemática, português, física, essas matérias que o pessoal odeia, geralmente eram as que eu me dava melhor. física, química, essas daí.

P - Tinha alguma que você não gostava?

R - Eu não gostava de educação artística, porque eu desenhava muito mal, na medida do possível eu levava tudo pra fazer em casa e meu irmão que fazia pra mim, porque ele já desenhava muito melhor. Mas assim, engraçado que nessa trajetória toda só teve uma professora que descobriu isso, que ela falou assim: “Não é você que faz isso não, você vai ficar comigo aqui agora e vai desenhar...”. Foi só uma, mas as outras passavam batido, nunca ninguém... Mas é educação artística. Apesar de ser legal, de gostar tudo, mas é que eu não ia bem, por isso que eu não achava legal, porque eu não ia bem nela.

P - E como era o tempo nessa escola? Vocês ficavam de que horas a que horas, tinha um intervalo...

R - Normalmente acho que eram quatro horas, quatro horas e meia, assim nessa faixa. E tinha um intervalo no meio do horário, tinha um intervalo.

P - E vocês brincavam nesse intervalo? O que você fazia?

R - Eu brincava. Jogava futebol, pega-pega, essas brincadeiras assim.

P - E você se lembra de histórias que vocês liam, livros que a professora lia pra vocês, contava histórias?

R - Lembro. Eu lembro, acho que foi o primeiro livro que eu li, aquele Meu pé de laranja lima, depois até passou a novela dele, desse livro eu lembro. E de histórias assim, a época que eu mais gostava era do folclore, que ela contava essas histórias do Saci-Pererê, da Cuca, depois também tinha o Sítio do Pica Pau Amarelo que... Não esse de agora, o primeirão lá atrás que era muito melhor. Não tinha tanto recurso de tecnologia, mas era mais a imaginação, isso também me acompanhou a infância.

P - Você assistia isso?

R - Assistia. Assistia todo dia. Assistia e lia também os livros, porque na escola tinha uma biblioteca muito boa e eu sempre pegava, os livros do Monteiro Lobato acho que eu li quase todos. Todos aqueles, Reinações de Narizinho, do Hércules tal, A chave do tamanho, eu lembro até das historinhas. Isso eu gostava bastante.

P - E na hora do lanche? Você se lembra de levar alguma coisa, ou de ajudar a preparar o lanche para os seus irmãos?

R - Então, na hora do lanche eu levava de casa. No começo sim, depois a gente fica um pouquinho maior aí já não quer levar mais nada. Na escola dava umas sopas, bolachas, essas coisas, eu também comia lá. Depois um pouco maior já comia o lanche da escola, não levava. Dos pequenos eu fazia, que eram as lancheiras que usava antigamente, que levava um suco, uma fruta, um pão com alguma coisa. Eu também que fazia para os meus irmãos.

P - E algum professor que tenha te marcado mais?

R - Professor? Eu me lembro de uma professora de História que eu tinha até trazido uma foto dela que tava lá no meio, era... Essa foi assim, dona Nilza, marcou muito porque ela deu aula pra mim acho que... Ela deu aula na sétima, na oitava, depois acho que no primeiro colegial. Ela acho que gostava muito de mim, a gente se dava bem, eu gostava da aula dela, porque ela usava muito assim, pra aprender a... Como que fala? Aqueles fatos da idade média, ela usava muito teatro, a gente fazia muitas peças de teatro. E aí acho que eu me identifiquei muito com ela por essa matéria. E a que eu lembro mais assim é a dela. Lembro também de um professor de Matemática que ninguém conseguia aprender nada com ele e o pessoal achava que eu era... Falava: “Pô, mas como você entende o que ele fala?”. Porque ele era japonês, chamava (Ying?) e ninguém nem entendia quase o que ele fala, mas eu sempre fui bom em matemática, o pessoal... Só eu que tirava nota boa, ninguém tirava e ele... Tipo, o pessoal odiava, queria fazer um abaixo-assinado pra tirar o professor. Eu também coloquei meu nome, o professor teve até uma conversa comigo, falou: “Pô, mas você vai bem comigo, por que você quer me tirar”. Eu fui e falei assim: “Mas eu não posso pensar só em mim, eu tenho que pensar na maioria do pessoal. Eu tenho facilidade em aprender, mas não pode basear por mim. Porque eu vou bem então...”. Aí esse professor... Esses aí. Acho que mais alguém. Eu me lembro também de um professor de Física que chamava Mário que era muito brincalhão. Acho que só esses aí que eu lembro bem, assim.

P - Você se lembra de ter sentido alguma dificuldade de passar do primário com uma professora só para o ginásio que já é maiorzinho?

R - Ah, eu lembro mais assim, acho que foi mais a professora mesmo que falava: “Ah, o ano que vem vai ser assim”. De tanto ela falar: “O ano que vem vão ter vários cadernos. Ano que vem vão ter vários professores”. De tanto ela falar isso, acho que isso marcou também porque... Só que eu nem lembro o nome da professora pra falar a verdade, que era da quarta série. Mas ela... Não sei se era... Já fazia isso pra gente se preparar, mas de tanto ela falar, no começo eu fiquei meio assustado mesmo. Só que depois, com o passar do tempo você vai vendo que não é nada daquilo, acaba entrando na rotina. Mas assustou sim essa mudança da quarta série pra quinta série. Que hoje é do quinto para o sexto.

P - E a relação entre os alunos e os professores, como era?

R - A relação assim, alguns professores camaradas, que eram brincalhões era boas. Agora com os professores que eram mais exigentes, normalmente a relação era... O pessoal falava muito mal dos professores. Eu assim, apesar de... Eu sempre fui um bom aluno, sempre tirei nota boa, mas eu sempre era ligado com aquela turminha lá que o pessoal fala que é a turminha do fundão. Meus amigos ficavam tudo: “Pô, mas você tira nota boa”. Aí queria colar de mim, tal. E eu sempre me dava bem com os professores. Aí tinha essa dificuldade de ser aceito pela turma e se dar bem com professores por tirar nota boa. Tinham algumas professoras que até me tirava de lugar, mudava, colocava lá pra frente pra tentar tirar da turma bagunceira. Mas eu sempre gostava do pessoal que... Eram amigos, assim. A relação era meio tumultuada, sempre foi, todos os anos eram. Uns queriam até tirar professor, discutia com professor, falava... Não chegava igual hoje em dia que a gente escuta, que hoje em dia eles até batem nos professores, mas era meio... Só que a escola lá era muito rígida, tinha um diretor lá que ficou... Acho que o tempo todo que eu estudei lá ele era diretor e ele era bem... Ele entrou lá e não aceitava muitas coisas não. Naquela época expulsavam alunos. Eu lembro uma vez que eles tinham acabado de pintar a escola, pintou a sala e metade pra baixo era uma cor mais escura e pra cima era branco. Aí o pessoal passou a mão no chão, pulou e sujou tudo aquela parte branca, tinha acabado de pintar, aí deu uma confusão, teve que chamar a mãe de todo mundo. Eu tinha um problema muito grande, porque minha mãe trabalhava e não podia ir, na época a escola achava que eu não tinha contado pra minha mãe aí ficou nisso aí. Até que minha mãe teve que dar um jeito de ir lá porque eles não deixavam entrar na escola. Porque a gente teve que depois limpar tudo, mas ninguém contou quem foi, uns por medo, outros por amizade. Foi um pessoalzinho que fez, mas ficou por todo mundo. É isso aí.

P - E você falou dessas peças de teatro da professora de história, tinham mais atividades como coral, fanfarra?

R - Não. Não tinha não. Tinha assim, só jogo, era mais voltada para o esporte. E tinha também... Lá era assim, além dessa professora de teatro, eles valorizavam muito a parte de teatro. Essas datas que têm de história, geralmente, que têm durante o ano, que têm os feriados, eles dividiam entre as turmas e cada turma tinha que fazer alguma peça de teatro com aquela data específica. Tipo Descobrimento do Brasil, dia do Índio e aí ia. Eu me lembro de uma vez que a gente fez do Tiradentes que era 21 de abril e ficava... E no final do ano tinha uma semana que era assim... Não era concurso, mas era como se fosse uma amostra, a gente... Qualquer turma se inscrevia e as últimas duas semanas de aula apresentava peça de teatro, todo dia uma. Os melhores iam apresentar em outras escolas, sempre teve isso aí. Tinham alguns festivais de música, mas aí já era pra turma... Quando eu tava na quarta, quinta série, o pessoal do ginásio que fazia. Teve acho que um ou dois festivais de música. Eles faziam. O pessoal era mais... Mais o colegial que fazia. Mas a gente ouvia falar, porque lá eles sempre faziam bastantes coisas. Tinha uma biblioteca também que era muito boa, que depois os alunos mesmo é que tomavam conta da biblioteca, revezavam. Tinham aqueles grêmios estudantis, todo ano tinha eleição. Era um negócio bem legal, essa parte era boa, acho que mais pelo diretor também, porque o diretor apesar de ser exigente tal, mas ele valorizava. Tinha também aquelas excursões durante o ano, ia visitar... Lembro uma vez que a gente foi visitar uma universidade lá de Lorena. Lorena aquela cidade de plantas, de flores, aí a gente... Sempre tinha Campos do Jordão. Lembro bastante dessas viagens assim também. Tudo era ligado à parte cultural. E aqueles negócios de festa junina, aquelas prendas que arrecadavam e quem arrecadava mais ganhava uma viagem, essas coisas assim.

P - Fala mais da festa junina da escola, como que era? Os pais participavam, vocês ajudavam a organizar...

R - Não. A festa junina era assim, era mais... Eu via na época, mas como uma maneira de arrecadar dinheiro. Porque assim, a gente arrecadava tudo, organizava tudo e depois era tudo vendido, sabe assim? Você participava da organização, mas na hora de usufruir tinha que ter dinheiro pra poder usufruir. E assim, a minha família era uma das que não tinha condições, então praticamente eu ia à festa mais pra olhar tal, pra ficar coisa, mas dinheiro era muito pouco pra... E eu não gostava disso, porque se você, sei lá, participa, organiza, depois... Aí arrecada o dinheiro, não sei pra quem ia o dinheiro, se era voltado pra... Eles falavam que era em benefício da escola, mas sei lá, até então era muito pouco, não via tanto benefício assim não. Mas eram boas, as festas eram boas, tinha quadrilha, tinha um monte de barraca, as festas lá eram... E era aberta pra comunidade, porque todo mundo pagava pra entrar, pagava tudo, mas as festas eram boas. Eu gostava mais das festas juninas de rua, assim, que era no bairro da gente, do que as da escola. Achava as de rua melhor porque as de rua os moradores faziam e gente fazia fogueira. Era melhor do que a da escola.

P - E você falou que chamaram sua mãe uma vez e achavam que você não tinha contado pra ela, como que a escola se relacionava com os pais? Eles telefonavam, tinham reuniões, recados...

R - Não. Normalmente tinha reunião mais pra contar assim o desempenho normal e quando tinha problema de disciplina. Só que assim, eu como era um aluno bonzinho, quase nunca tinha esses problemas. Os contatos mais eram nas reuniões, mas minha mãe nunca ia nas reuniões, era difícil... Às vezes ia um irmão meu mais velho, mas a minha mãe era difícil porque ela não podia ficar faltando no serviço por qualquer coisa. Não que não fosse importante, mas não tinha aquela flexibilidade de trocar o horário de ir. E também as reuniões eram no meio da tarde, aí como é que você faz? Você trabalha... Se for bem cedo de manhã até dava pra pessoa ir, se for à noite também, mas no meio da tarde fica difícil, então... Mas o contato da escola era mais assim com os alunos problemáticos, porque aí mandava bilhetes. Eu tive essa experiência quando aconteceu aquilo lá de sujar a parede, aí eles mandavam um bilhete, apesar da minha mãe assinar, tudo, falar que não podia ir eles não acreditavam, achavam que era... E na época acho que nem tinha telefone, em casa não tinha telefone, desse fato. Na época desse fato não tinha como ligar, entendeu? Porque o telefone era difícil também na época, não era igual hoje em dia que tem celular, tem tudo.

P - Você tinha aula de inglês? Estudava alguma língua na escola?

R - Então, eu comecei com o inglês na quinta série. Tive essas aulas de inglês normais, mas eram bem fraquinhas. Na época mais aprendia o verbo to be, era bem fraquinha.

P - E nessa época da escola do ginásio, do colegial depois, você tinha um grupo de amigos? Eram os amigos da escola mesmo?

R - Tinha. Tinha um grupo... A gente tinha uma turma boa na escola, tinha bastante gente. Tem, deixa-me ver... Sempre assim, todo ano tinha aquela turma, mas no outro ano entravam outras pessoas, saíam outras. Amigos de escola, geralmente, assim... Turma mesmo, de amigos mesmo era do bairro. Escola era só enquanto você está estudando junto, depois fica mais difícil contato.

P - E com esses amigos da escola, do bairro, aonde vocês iam pra se divertir? O que vocês faziam?

R - A gente, normalmente... A escola também final de semana era aberta, eu lembro que a gente tinha na época um time de vôlei. Tava começando a aprender a jogar voleibol, a gente fez uma vaquinha, comprou bola, comprou rede, tudo e começou todo sábado ia jogar vôlei, jogava futebol também. E assim, diversão pra sair pra outros lugares que precisavam de algum adulto acompanhar não tinha muito não. Era mais assim, ir à casa de um, fazer aquelas festinhas na casa de um ou outro, mas pra sair pra ir pra cinema, esses lugares, parques assim, só mais quando eu tava mais velho. Mas pequeno só os passeios mesmo da escola e era mais difícil de depender de algum adulto levar assim, a gente não ia não. A diversão era na casa de um, na casa de outro, fazer essas festinhas. E na escola mesmo praticando esporte.

P - Você tem lembranças marcantes dessa época de adolescência? Algum fato?

R - Eu lembro quando... Deixa-me ver, quando meu pai se separou da minha mãe acho que foi o mais marcante, porque um tempo ele se afastou da gente, aí minha mãe falava muito mal: “Ah, madrasta é assim, madrasta é ruim, ela vai judiar de vocês”. E a gente ficava com medo e eu como era assim, praticamente do meio, os mais novos iam muito para o que eu fazia, aí ninguém procurava o meu pai. Eu me lembro que algumas vezes ele foi à escola lá, na entrada ou na saída pra conversar comigo, só que eu conversava com ele e tinha um amigo meu que sempre ia comigo, aí uma vez ele perguntou: “Quem é esse cara que vem aí falar com você?”. Meu pai tava junto, falou assim: “Ele nunca falou de mim não? Eu sou pai dele. Ele é meu filho, eu sou pai dele”. Meu pai, acho que ele ficou magoado por eu não ter falado que ele é meu pai, depois desse dia ele não foi mais, ele parou. Ele tinha ido várias vezes. Sei lá, um dia eu resolvi, falei assim: “Caramba meu, puta eu sinto falta do meu pai”. Eu fui procurar, fui atrás dele e a gente se entendeu tal. Aí a gente começou a frequentar a casa dele, como os mais novos iam muito para o que eu fazia, aí todo mundo começou a frequentar também. Eu achei até legal, porque era uma casa a mais que a gente tinha pra ir, tipo: “Ah, to enjoado da casa da mãe, vou pra casa do pai”. Só que eu tinha vergonha de falar para os meus amigos, porque naquela época não é igual hoje em dia que é uma coisa assim, normal até. Naquela época era, sei lá, você falar que era filho de pais separados parece que alguma coisa deu errado na sua família, eu encarava assim. Então eu não falava. Eu falava, quando eu ia pra casa do meu pai, tinha um amigo meu que morava lá perto, aí eu saía da escola e ia com ele e falava que era casa do meu tio: “Aonde você vai?” “Eu vou pra casa do meu tio”. Eu não falava. Demorou muito tempo pra eu falar assim: “Meus pais são separados”. Às vezes perguntavam na escola: “Tem alguém que o pai é separado?”. Eu não falava, tinha vergonha disso aí. Isso foi muito tempo. Acho que o fato que mais marcou nessa época foi isso, a separação deles.

P - E nessa fase de jovenzinho para adolescência você já tinha ideia do que ia fazer quando crescesse?

R - Na época, eu pensava em ser jogador de futebol, acho que todo moleque pensa. Porque eu jogava bem pra caramba e o pessoal falava, eu cheguei a fazer teste em time assim e era vontade. Depois quando caiu a ficha, vi que não dava mais, aí como eu me dava muito bem com número, sei lá, eu via assim, passou um ônibus assim e atrás tinha uma propaganda de negócio de contabilidade, aí eu comecei a me interessar, falei: “Caramba, o que é contabilidade?”. Quando eu entrei no primeiro colegial tinha uma aula que chamava Organizações de Técnicas Comerciais, falava muito de contabilidade, a gente até aprendeu algumas coisas. Aí eu me identifiquei com isso aí, peguei e coloquei na cabeça, falei: “Vou fazer um curso disso aí, um curso técnico”. Eu comecei a fazer o curso técnico. Fiz o colegial técnico, comecei a trabalhar, porque aí eu não dependia mais de a minha mãe ter que pagar, que era difícil. Eu comecei a trabalhar e com meu salário eu pagava o curso e fiz esse curso de contabilidade. Foi assim, mas por acaso, sei lá, não que eu planejei: “Ah, vou estudar contabilidade”. Mas acabou acontecendo, eu entrei, gostei e acabou ficando, até hoje.

P - Mas esse curso não era na escola.

R - Não. Ele começou primeiro na escola uma noçãozinha e através dessa noçãozinha eu me interessei, fui atrás de um curso de colegial técnico. Interessei pela contabilidade, fui atrás e fiz o curso técnico. E minha carreira toda foi ligada a isso, até hoje. Mas assim, de sonho era jogador de futebol, mas não deu muito certo.

P - E você começou a trabalhar com quê?

R - Eu comecei a trabalhar com 16 pra 17 anos. Primeiro, eu trabalhei de faxineiro num prédio. Porque assim, minha mãe trabalhava. Desde que o meu pai se separou dela ela arrumou emprego num prédio, era no Itaim Bibi, quer dizer, o prédio ainda existe. Aí teve uma época que uma pessoa que trabalhava com ela sofreu um acidente e eles não sabiam se a pessoa ia se aposentar ou se eles iam ter que pegar outra pessoa definitiva. Na época minha mãe precisava de alguém pra ajudar, aí minha mãe falou pra mim: “Você não tá a fim não? É só um tempo, tal”. Aí eu falei: “Tá bom”. Fui. Eu trabalhei de faxineiro, depois trabalhei de garçom, depois trabalhei de office boy, aí foi.

P - E foi garçom aonde?

R - Eu fui garçom... Eu trabalhava nesse prédio e perto tinha uma lanchonete. Esse prédio era temporário até a mulher voltar. Depois a mulher acho que acabou ficando deficiente física, ela se aposentou e eles iam contratar uma pessoa. Como eu era menor de idade, eu era só quebra galho, aí eles contrataram uma pessoa e como eu frequentava essa lanchonete, na época eles estavam precisando. Servia almoço, era um bar, mas era assim, era grande. Eu peguei, fui lá e fiz um teste, falei pra mulher: “Deixa-me trabalhar um mês aí?”. Que ela achava também que não ia dar certo. Eu falei: “Deixa-me trabalhar um mês, se der certo a senhora me contrata”. Eu fui, trabalhei um mês, ela me contratou e eu trabalhei acho que um ano, um ano e pouco, servindo mesa, servindo almoço. Era bem agitado, correria.

P - E como é que ficava o cotidiano, porque você tinha que então cuidar dos seus irmãos ainda... Nessa época já...

R - Não, mas aí então, nessa época já... Meus irmãos, minha irmã já tava maior e ela que cuidava. E também todo mundo saía pra trabalhar, os dois mais velhos... O mais velho acho que já tinha até casado, o outro tinha mudado para o interior, porque meu pai nessa época mudou para o interior também, foi morar numa cidade no interior, porque a empresa que ele trabalhava foi transferida pra lá e ele foi, perto de Campinas, Sumaré, ele foi pra lá pra essa empresa. Só tinha um mais novo, a minha irmã já fazia tudo, já cuidava das coisas e a gente foi tudo trabalhar, não tinha mais porque as crianças tudo cresceram. E nessa época eu estudava à noite e trabalhava durante o dia. Não tinha mais negócio de cuidar de casa nem nada não. Eu só tinha um combinado com a minha mãe que é assim, quem chegava primeiro, a gente lá em casa, já começava a fazer a janta, já ia pondo a água pra ferver, lavava o arroz. Quem chegava primeiro, às vezes era eu, às vezes era ela, às vezes era a minha irmã. A minha irmã nessa época também foi morar com uma família. Tipo assim, tinha uma família que morava ao lado de casa e a mulher tinha uma menina novinha e ela começou a tomar conta dessa menina, aí começou a morar com essa família. Aí ficaram só eu, meus irmãos e minha mãe em casa. Minha irmã morava perto, mas em outra casa, cuidando dessa menina acabou passando muito tempo lá.

P - E você falou que você foi office boy.

R - É. Eu trabalhei de office boy.

P - Aonde?

R - Eu trabalhei numa empresa também que era perto da... Era uma empresa de construção civil, chamava João Fortes Engenharia. E eu trabalhei nessa empresa levando documento, levava... Porque tinham várias obras em São Paulo e eu trabalhava em uma dessas obras, que era mais ou menos perto da minha casa e tinha o escritório central da empresa na Avenida Paulista, aí eu ficava fazendo esse percurso.

P - E você nessa época já estava acostumado a rodar por São Paulo?

R - Não. Tava não. Aprendi tudo fazendo. Tudo...

P - Se perdeu muito?

R - A gente perguntava muito, mas me perdi já. Uma vez, acho que o lugar mais longe que eu fui foi lá no Brás comprar não sei o quê, não lembro, sei que eu cheguei acho que era quase dez horas da noite na empresa, porque acabei me perdendo. Depois deu tudo errado, cheguei lá a empresa tava fechada, já era bem tarde já, aí tive que voltar. No outro dia depois tive que ir lá de novo e eles queriam que eu trouxesse acho que era câmera de trator, câmera de ar de pneu de trator. Chegou lá era um monte, eu falei: “Como é que eu vou levar isso de ônibus?”. Não podia nem pegar táxi, nada, foi um sufoco também. Mas me perdi bastante, mas também não tinha medo não, assim, tem que ir a tal lugar, eu pegava o guia, olhava, via que ônibus passava perto e ia. Mas me ajudou bastante pra ficar esperto. Porque você aprendendo a trabalhar na rua aprende bastante.

P - Você terminou seu curso de contabilidade...

R - Eu comecei... Eu trabalhei de office boy depois eu enjoei de trabalhar, fiquei acho que três anos trabalhando e eles não davam promoção, promoção e a pessoa que tinha me prometido uma promoção saiu da empresa. Quando ele saiu eu falei: “Agora danou.” Aí eu cheguei e falei: “Olha, o Domingos tinha me prometido...”. Aí o cara que entrou falou assim: “Ele prometeu. Eu não prometi nada, nem conheço você”. Acabou trazendo outras pessoas de fora. Eu peguei e falei: “Quer saber de uma coisa? Eu vou embora”. E saí dessa empresa e comecei... Já tava estudando contabilidade. Entrei numa firma de consórcio, mas na carteira só tinha office boy e pra você procurar emprego, eu comecei a procurar de uma monte de coisa, auxiliar de escritório, porque na época eu já tinha feito o curso de datilografia, tal. Só que aí não achava porque na carteira não tinha experiência, até que eu arrumei essa empresa de consórcio, eles pegaram e me contrataram pra ser auxiliar de escritório, deram essa oportunidade e eu agarrei. Eu já tava fazendo contabilidade. Nesse curso de contabilidade que eu fazia era assim, tinha um cara lá que era dono de escritório de contabilidade, acho que era do pai dele e ele tava fazendo curso também. Como eu era bom aluno, tirava nota boa, ele pegou um dia e me chamou, falou: “Olha, você não quer trabalhar? Vamos trabalhar com meu pai”. Eu peguei, fui lá fiz um teste tal, não sabia nada, só teoria. Aí peguei e comecei a trabalhar nesse escritório que é na Rua Augusta. Esse escritório que foi aonde eu aprendi tudo praticamente de contabilidade. Na época começou sair o computador, que até então nem tinha computador. Eu aprendi também mexer com computador, tudo nesse escritório, foi como se fosse uma faculdade, porque eu aprendi tudo na prática. Eu aprendi a parte mesmo de contabilidade e tinha a parte de departamento pessoal, eu muito curioso comecei aprender como fazia salário, fui atrás assim, parte fiscal também, acabei aprendendo tudo nesse escritório. Foi quando eu saí desse escritório e fui trabalhar com a Guida.

P - Então qual a diferença da contabilidade com computador e sem computador?

R - Qual é a diferença?

P - É.

R - Total. Porque antigamente fazia tudo manual. Eu falo essas coisas assim eu me sinto mais velho do que eu já sou. A gente fazia assim, livro diário, livro diário assim, era onde você registra tudo que acontece na empresa contabilmente, por exemplo, comprou um pneu, depositou no banco, onde aparece tudo escrito. Isso a gente fazia assim, a gente datilografava num papel que eles chamavam a fita copiativa, aí você pegava essa fita copiativa, colocava num... Era tipo um carbono, aí tinha um livro, esse livro diário era um livro, era um papel chamado papel gelatina, meio molengão. Aí você transferia o que você datilografou pra esse livro, era um processo demorado pra caramba, você ia fazendo folha por folha, sabe? Datilografava tudo depois transferia pra esse livro. Fora isso você tinha que fazer tudo manual, fazia o balanço da empresa. Fez tudo, bateu? Tá tudo bonitinho? Tá. Vamos fazer o livro diário? Vamos. Ia lá datilografava coisa por coisa, passava pra esse livro, fazia o balanço, passava pra esse livro, levava pra registrar. Isso fazia o ano inteiro. Com computador é assim, você digita, sei lá vai, um histórico padrão, por exemplo, você quer depositar, tirar um dinheiro do caixa e depositar no banco, você digita lá o histórico padrão já aparece tudo feito. Depois você pede pra fazer um balanço, você aperta um botão já faz o balanço pra você. Então quer dizer, é total a diferença, acho que não dá nem pra lembrar como era antigamente como hoje em dia. Hoje em dia a gente já reclama quando demora, se você vai mandar pra imprimir aí deu algum problema na impressora lá: “Porra, não tá imprimindo”. Reclama. Mas naquela época não era... Assim, não dá pra comparar. É como se de um segundo passasse pra 24 horas, sei lá, a rapidez. Isso em tudo, eu dei esse exemplo só pra... Do livro diário que era uma das dificuldades que a gente tinha em relação à sem o computador e com o computador. Só que minha experiência com computador aconteceu por isso, porque lá nesse escritório que eu trabalhava tinha um cara que assim, eu fazia tudo o rascunho, passava tudo pra ele, ele ia lá e digitava. Aí assim, a primeira vez que tinham colocado o computador, eu não sabia nem ligar o computador, fiz tudo a minha parte, passei para o cara. O cara foi lá, terminou o trabalho dele de digitar e deu uma diferença, tipo, o balanço não bateu. Aí eles me chamaram, falou: “Pô, como é que você manda fazer o negócio e não bater o balanço?” Eu fui, peguei meu rascunho, falei: “Olha, eu não sei o que aconteceu, mas o meu tá aqui e o meu bateu”. Aí o cara: “Ah, mas eu digitei o que você escreveu”. Eu fui e falei: “Olha, eu não posso questionar o seu trabalho como você também não pode questionar o meu, mas eu tenho certeza que o meu tá certo”. O meu patrão pegou, olhou, falou: “Tá batendo”. Eu fui e falei: “Não tem como eu fazer isso aí que ele tá fazendo?”. O cara falou assim: “Mas você tá falando então que eu to fazendo errado?”. O que eu fiz? Peguei todas as folhas impressas dela e fui conferindo tudo que ele fez. Ele tinha digitado um histórico errado, por isso que tinha dado diferença. Aí eu falei para o meu patrão: “Não tem como eu mesmo fazer isso? Porque na hora que digitar o histórico vai aparecer, se tiver errado eu já vou ver, porque eu trabalho com isso”. Ele falou assim: “Mas você não sabe nem ligar o computador”. Falei: “Não, mas eu aprendo”. A partir desse dia eu já comecei eu mesmo fazer... Eu aprendi a usar o computador, usar o programa e comecei a fazer esses negócios aí. Eu achava bom porque assim, apesar de ter mais trabalho, mas um conhecimento que eu fiz... Aprendi usar sem fazer curso nenhum. Você aprendia e o negócio assustava, porque eram aqueles computadores que as letras eram verdes, sabe? Você deve ter visto em algum livro, algum lugar por aí. Você não faz ideia de como era pra gente que nunca tinha visto, era uma coisa fenomenal. Só que eu não tinha medo não, encarei e me ajudou muito, porque talvez se eu tivesse ficado quietinho no meu canto vai saber onde eu tava hoje. Mas é isso aí.

P - Mas como é que foi? Você falou que foi nesse momento então que você conheceu a Guida.

R - Não, então, eu trabalhei nesse escritório de contabilidade por um tempo e eram dois donos desse escritório. Um era um cara bacana, foi quem me ensinou, acho que ele tinha problema com a mulher dele e não gostava de chegar cedo na casa dele. Então ele pegava e falava pra mim assim: “Quer aprender não sei o quê?”. Falei: “Ah, quero, né?” “Então fica aí depois das cinco”. Dava o horário eu ficava lá, ficava aprendendo, qualquer coisa nova, ficava aprendendo. Eu aprendi tudo que eu pude sugar desse cara eu consegui sugar porque ele não se negava a ensinar, só que por outro lado, o outro sócio era muito autoritário, era muito... Eu tive um problema com ele, uma discussão com ele e acabei pedindo a demissão de lá. Eu mandei um currículo para a PlayPen, não sabia que era a PlayPen. Mandei um currículo aí a Guida me chamou pra uma entrevista. Isso foi assim, eu briguei com o cara num dia, na outra semana eu já tava indo lá fazer indo lá fazer a entrevista com a Guida, foi bem na época que ela colocou anúncio acho que na Folha de São Paulo, eu vi o anúncio, mandei o currículo por mandar, não achava que... Ela me chamou pra uma entrevista, eu fui lá, conversamos tal e acertou tudo. Aí eu voltei no... Só que eu falei pra ela, falei: “Vou ter que ir trabalhar pelo menos um mês lá, não posso sair e deixar os caras na mão”. Voltei lá, acertei tudo, saí. O cara que brigou comigo não acreditou, pensou que... Falou: “Pô, por que você tá indo embora?”. Falei: “Você não mandou pedir a... Você falou assim: ‘Você não tá contente pede a sua demissão’. Então tô pedindo agora”. Acabei saindo. Isso foi em 91, eu comecei acho que em fevereiro de 91, foi quando saiu o anúncio no jornal e quando eu fui procurar, aí acabei entrando em abril lá na PlayPen.

P - E foi então pelo anúncio que você ficou conhecendo a PlayPen?

R - Pelo anúncio. A rua, pra você ter uma ideia, eu passava ali direto, mas nunca imaginava que ali se chamava Praça Professor Américo de Moura. Porque tinha uma pracinha assim, mas era bem discreta e nem imaginava que tinha uma escola lá, também nem sabia o que era escola bilíngue, nem... Sei lá, foi totalmente assim, o acaso mesmo. Quando eu conheci lá a escola, tinha uma secretária que trabalhava lá há muito tempo. Eu não sei nem se a Guida a chamou, a Cecília, chamou pra... Essa daí, na época ela que cuidava... Eu hoje em dia sou como ela era na época, que ela era secretária, mas ela cuidava de tudo, aí acho que ficou muito sobrecarregado pra ela, por isso que a Guida contratou alguém pra fazer mais essa parte contábil, departamento pessoal. Ela ficou mais cuidando da parte de matrícula, essas coisas assim, de aluno, professores.

P - E nessa primeira conversa com a Guida, nessa primeira ida à escola, o que você sentiu? Qual foi a sua primeira impressão ali do trabalho deles?

R - Olha, pra falar a verdade eu tava muito... Na verdade eu não senti muita coisa não porque nem pensei também. Eu queria mais era sair de onde eu tava, queria mais era mostrar para o cara que eu podia sair de lá e acabei aceitando tudo, sem pensar o que ia fazer, sei lá, mais por raiva do outro emprego. No primeiro momento foi isso, sendo bem sincero, não foi... Eu me lembro da Guida assim, pouco da entrevista em si, ela perguntou minha experiência, viu meu currículo e ela tinha... Eu lembro que ela tinha comprado um computador acho que nos Estados Unidos e tava dentro da caixa. E ficou lá acho que um tempão, o pessoal todo com medo de abrir a caixa. Ela falou pra mim: “Olha, faz uns três meses que tem um computador aqui. Você acha que tem condição de mexer nele, tal, montar?”. Falei: “Tenho”. Não vou dizer... Comecei já a mexer e foi logo que entrou o Windows e ela pegou e falou... Só que ela não me deu a resposta na hora, fez a entrevista tal e depois de uma semana ela me ligou falando: “Olha, eu quero te contratar. Você quer vir mesmo?”. Porque eu falei pra ela a verdade, falei: “Eu tive uma briga lá onde eu trabalho e...”. Porque eu fiquei com medo também dela ligar, pedir alguma referência e o cara falar: “Ele brigou comigo”. Falei: “Tive uma briga lá meio pesada, por isso que eu tô saindo de lá”. Ela pegou e acabou me contratando mesmo. Quando eu comecei a trabalhar ela tava viajando. Porque ela fazia muitos cursos fora do Brasil, foi bem numa época que ela não tava lá. Eu fiquei acho que um mês trabalhando lá sem me encontrar com a Guida, depois que ela apareceu. Mas a impressão da escola em si era uma impressão bem pequenininha, porque era uma escola... Era assim, algumas... Tinha um portão da entrada lá, tinha um corredor, tipo umas casinhas, sabe? Como se fosse uma casa, um quintal grandão com várias casinhas dentro, mas era pequena, a escola em si era pequena, tinha poucos alunos. Essa é a impressão que eu tive, falei: “Aqui vai ser mais tranquilo”. Porque no escritório de contabilidade era assim, eu ficava fechado dentro de um lugar, não tinha contato com o mundo, ficava no meu trabalho. E lá não, lá eu já achei que ia ter mais contato com mais gente, ver mais... Ia ser melhor, ia ser mais... Contato com pessoas. E lá onde eu trabalhava era muito fechado, era muito restrito. E assim, a impressão da Guida tive de ser uma pessoa muito ocupada, sabe assim, o jeito dela conversando achei que a escola era... Mas eu arrisquei. Na verdade nessa época eu já ia ficar noivo quando eu entrei lá, precisava trabalhar mesmo, não podia ficar sem emprego. E eu vi que no escritório de contabilidade, eu me conhecendo, falei: “Vai acabar acontecendo o seguinte, se eu ficar aqui uma hora vai acabar... Eu vou brigar com esse cara fisicamente, então...”. Porque o cara gostava muito de humilhar, colocava a gente lá embaixo e eu não tava acostumado com isso. Eu tinha medo de ficar lá e vai passando o tempo você acaba ficando, ficando, falei: “Ah não. Não tá bom eu vou procurar outra coisa melhor”. Por isso que eu optei pela escola.

P - E o seu primeiro dia de trabalho, você lembra, lá na escola?

R - O primeiro dia de trabalho eu me lembro do começo, não vou dizer se era o primeiro dia. Mas assim, tinham duas pessoas que trabalhavam na secretaria. Uma era secretária, que era essa Cecília que me passou todo o serviço tal e o outro era um rapaz, o Rogério que tá naquela foto lá que tá junto com a Lurdes. Ele é uma pessoa muito bacana, fiz uma amizade com ele boa e logo de cara assim a gente fica meio tímido no primeiro dia. Então eu tinha a minha salinha que era do lado da sala da Guida, eu entrava na minha sala e fechava a porta. O mundo que se dane lá pra fora. Acho que o ritmo lá da contabilidade... Porque hoje em dia o meu trabalho é diferente do que naquela época, na escola. Naquela época eu cuidava da contabilidade, contratava professores e não tinha muito contato com pai de aluno. Eu também não procurava muito saber o que tava acontecendo em volta. Até que teve um dia que o rapaz que trabalhava lá na frente da escola, atendia telefone até a secretária chegar, ele quebrou o braço e não foi trabalhar. Tinha a diretora, que acho que até vem aí, a dona Ana Maria, ela foi lá à minha sala, bateu na porta, falou assim... Porque como eu fui contratado diretamente pela Guida o pessoal tinha um pouco de medo de mim também, não se aproximava muito. Aí ela falou pra mim: “Será que você pode ficar lá na frente até a secretária chegar? Porque tá tocando o telefone e não tem ninguém pra atender. Você se incomoda?”. Falei: “Não. Tudo bem”. Depois desse dia que eu coloquei o pé naquela secretaria nunca mais consegui tirar, porque virou uma obrigação chegar e tinha que ficar lá atendendo telefone, atendendo pai. Aí a minha cabeça também abriu, comecei a cuidar de outras coisas e essa secretária foi embora, ela saiu da escola, foi tentar uma carreira solo, fazer alguma coisa pra ela mesmo e acabou as responsabilidades dela passando tudo pra mim. Não sei se a Guida se identificou comigo, sei lá, acabei virando meio que secretário dela também, as coisas dela pessoais. Foi nessa época, começou nessa época, depois virou um... A escola foi crescendo e eu fui junto com ela.

P - E esse contato com os pais como que era?

R - O meu contato com eles era mais quando tava devendo, no começo, a pessoa tava devendo, aí vai cobrar, negociar valor. Quando pai pede desconto, nesse sentido. Mas é um cargo normal, tem que defender... Você não pode desagradar o cliente, mas tem que defender a escola, quem tá te pagando. Você tenta fazer o jogo de cintura pra agradar um e agradar o outro também.

P - E em relação ao contato da secretaria depois daquele primeiro passo de atendimento no telefone, passa aquele primeiro momento com eles?

R - Você fala o que, de ficar junto com eles?

P - É. De ter outro tipo de contato com o pai, ou com os pais.

R - É mais assim, atendimento telefônico, pra dar informações da escola, marcar entrevista, nesse sentido. Não sei se é isso que você tá perguntando, mas... Contato mais era assim por telefone e pessoalmente. A pessoa vem, quer saber da escola, quer conhecer, saber o valor de mensalidade, mais assim o nosso contato, dar informação de aluno, informação da escola.

P - E você passa então a ser secretário, que você falou da Guida, ter um contato mais próximo com ela.

R - É porque eu comecei cuidar também dos pagamentos da escola, além dos recebimentos, dos pagamentos também e também dos pagamentos pessoais dela, cuidava do dinheiro, vamos dizer assim, dela, da escola, dela. Foi mais nesse sentido. Porque aí ela, acho que essas informações assim ela não fala mais pra ninguém, só a gente que conversa... E começou desde essa época pra cá.

P - E até hoje é assim.

R - Até hoje é assim. Só que agora com mais responsabilidades, porque a escola cresceu bastante, tem bastantes alunos, bastantes funcionários, a demanda cresceu muito.

P - Então vamos... Você falou dessa coisa do crescimento da escola, vamos entrar no processo então de expansão. Fala um pouco, como é que se deu, quais foram as mudanças, como que ela foi crescendo e...

R - Então, a escola foi crescendo, começou a aparecer bastante aluno e lá era muito desordenada a estrutura da escola, as salas eram muito... O espaço era grande, mas foi aproveitando tudo que tinha. Aí comprou a... Ao lado da escola tinha uma escola de balé, a escola pegou, a Guida comprou a casa do lado e fez o Fundamental II lá. Nessa época ela sentiu a necessidade de organizar esse espaço, porque você acaba tendo um baita de um espaço, mas todo desordenado. Não sei quem falou pra ela do BNDS, ela resolveu fazer um financiamento do BNDS pra construir uma escola nova, porque não ia ter como fazer remendo, porque remendo já tinha feito várias vezes. Ela resolveu fazer uma escola mesmo pra, sei lá, 600 alunos. Derrubou tudo e começou de baixo. Por causa do crescimento, da procura dos pais, pelo trabalho da escola também que ficou mais conhecido. Porque a escola antigamente não fazia propaganda, era mais assim, indicações. Um indicava o outro e aí foi crescendo nisso aí, até que chegou uma hora que ela viu que o espaço não comportava a demanda que ela tinha. Então resolveu partir do zero, fazer outra coisa, projeto novo, escola nova, pra poder atender essa demanda de alunos que ela tinha, que no espaço anterior não comportava, não tinha como mais crescer sem... Como é que fala? Como era tudo emenda, emenda, emenda, tinha uma hora que não tinha mais pra onde emendar. Fala ou começa de novo, faz tudo de novo, ou então para desse jeito.

P - E como é que foi fazer o projeto da PlayPen? Da parte contábil precisa dar um suporte, ou fazer um planejamento...

R - Foi feito. Foi feito um planejamento, foi feito um estudo todinho da escola, da escola como era e da escola como seria, pra poder apresentar para o banco, pra ver se o banco aprovava ou não. Foi bem trabalhoso.

P - E qual a sua participação nesse projeto?

R - A minha participação, na verdade eu vejo como... Pra você conseguir alguma coisa do governo você se tem que ter conchavo com alguém. O que aconteceu? A escola contratou uma pessoa que já tava acostumada a aprovar... Tinha um know how pra aprovar projetos no BNDS. Primeiro a gente teve contato com o banco, o banco indicou essa pessoa, falou assim: “Vou te indicar alguém que vai fazer um projeto que com certeza será aprovado”. Não que a escola subornou alguém nem nada, mas contratou alguém que já tava especializada nisso, como se fosse um médico especialista em alguma determinada doença. Contratou esse cara, um consultor, ele fez todo o projeto e minha participação era alimentar esse cara com as informações que ele precisava. Isso no primeiro momento pra conseguir aprovação, depois era toda a comprovação que precisava prestar conta do dinheiro que eles emprestaram você tinha que mostrar onde que foi gasto o dinheiro. Minha participação foi isso aí, foi ajudar esse cara a... Ele elaborou, mas eu alimentava, ele fazia o que precisava com as minhas informações. (pausa)

P - Eu ia perguntar do processo da reforma. E aí começou a reforma, foi aprovado o projeto e o que foi acontecendo em seguida?

R - Então, foi aprovado o projeto e depois a gente teve que sair da escola porque ia demolir. A gente conseguiu uma casa que era do outro lado da rua, um pouquinho mais pra frente pra ficar provisoriamente até ser construída a escola. Aí foi demolindo tudo, derrubou tudo que tinha, começou a terraplanagem e a gente ficou nesse espaço do outro lado da rua, provisoriamente até terminar. Nessa época foi difícil pra escola, porque tiveram muitos pais que não... Eles queriam uma escola nova, mas não queriam ficar um ano em um lugar menor. Ela conseguiu até uma casa legal, era uma casa, os quartos da casa viraram sala de aula, tinha uma piscina que era um lugar coberto, onde as crianças brincavam. Tinha uma quadra que virou refeitório, ela cobriu e virou refeitório. Uma quadrinha, não era uma quadra, era um espaço vazio, a cozinha tal. Aí adaptou bem eu acredito. Só que assim, como ficou menor, os pais iam esperar um ano, um ano e meio pra outra ficar pronta. Teve gente que saiu, logo desse passo saiu. Depois que a escola foi embargada saiu mais ainda. A gente tinha muitas dívidas pra pagar e pouco dinheiro. Eu acredito que o meu trabalho nessa época foi mais reconhecido, começou talvez a me ver com outros olhos a partir desse momento difícil que a gente passou. Aí eu podia atuar mais ainda, negociar, conseguir desconto. Eu lembro que na época eu.. Todos os serviços que a gente tinha, tipo contabilidade, que a contabilidade que ela tem, o escritório que dá assessoria, eles são bem careiro. Eu sabia que a escola tava com dificuldade, o que eu fiz? Eu liguei pra todos esses caras e falei: “A escola vai passar por um momento difícil tal, não tem como rever esse preço não?”. Quer dizer, sem ela falar nada comigo, eu fiz por minha conta. Algumas pessoas reduziram: “Por quanto tempo?” “Por dois anos.” “Tá bom então. Vamos dar um desconto por esse tempo tal”. Consegui alguns descontos, apresentei pra ela. Acho que nessa época ela começou a ver que eu realmente vesti a camisa da empresa. Ela ficou contente. Depois também com a dificuldade do embargo, com as dívidas que a escola tinha eu também fui negociar com o fornecedor. Porque era muita coisa nas costas dela, todas as pressões nas costas dela, não sobrava tempo pra pensar nessas coisas. Eu fui meio que pegando isso e fui negociando como fornecedor, pedindo prazo, prorrogando pagamento. Fazia isso direto, uma bola de neve. Na minha humilde opinião, nessa época eu achei que a escola fosse quebrar. Até falava pra minha esposa: “Não compra nada não. Dá uma segurada porque a situação não tá boa”. Mas a gente lutava, mas no meu íntimo eu achava que ia ser difícil sair do buraco que a gente tava, que era complicado, na época foi complicado. Eu acho que se não fosse aquele... Não sei se ela falou do doutor Nicolau que entrou como sócio uma época, tá até nos contratos da escola. Se não fosse a entrada desse senhor Nicolau talvez a escola tivesse quebrado mesmo, ele ajudou bastante financeiramente a escola. Ele apostou num negócio, mas acabou ajudando a gente contornar essa situação.

P - Quem era esse doutor Nicolau? Como é que ele entrou, você sabe?

R - Na época a gente tava com a dívida muito grande com a construtora e a construtora apresentou um consultor pra poder adequar as dívidas, pra poder conseguir pagar as dívidas. Esse consultor na época, o filho da Guida conhecia. O filho da Guida acho que trabalha na Bolsa de Valores e ele conhecia esse doutor Nicolau. Ele falou pra mãe dele, falou: “Mãe, eu conheço um velhinho cheio do dinheiro. Por que você não pede um empréstimo pra ele?”. A mãe dele falou: “Daniel você tá louco. Você acha que o velhinho que nem me conhece vai...” “Ah mãe, não custa tentar”. Ela pegou e foi lá falar com esse doutor Nicolau. Acho que é coisa de destino, sei lá, ou o cara quis de repente que a escola se endividasse mais ainda e de repente comprar o terreno, porque ele dono de construtora. Não sei, ele pode ter apostado num negócio que depois pra ele não deu certo. Mas na época era nossa salvação. A Guida o conheceu, acabou pegando o empréstimo com ele, depois vendeu um pedaço da escola pra ele. Porque ele era um investidor na verdade. Então o que ele quis? Ou ele ia ganhar... Ele investiu na escola, a escola melhorou ele ganha, ou de repente se a escola não desse certo ele também ganharia porque ele poderia pegar o terreno de garantia, sei lá. Ele era um negociador, ele apostou num negócio e a escola, também para sobreviver, teve que ter esse sócio para o cara investir dinheiro e a gente reerguer. Porque a gente acreditava que a escola estando pronta, estando tudo, o espaço tudo, o know how a escola tinha, o nome no mercado tudo tinha. O que faltava mesmo era colocar as coisas no lugar e estancar as dívidas. Foi o que aconteceu. O dinheiro dele entrou, as dívidas foram estancadas e a escola começou a pegar aluno, aí a própria escola acabou pagando esse investidor. Acabou se livrando dele, mas ele foi importante porque talvez sem ele não sei como que financeiramente a gente ia conseguir equilibrar as contas até recuperar o número de alunos. Porque isso aí foi com um tempo. Isso que eu tô falando parece rápido, mas demorou dois, três anos, tudo acontecendo, até a escola voltar ao normal e não precisar mais desse investidor.

P - E como é que era ir trabalhar com esse sentimento ambíguo? Achando que a escola podia não continuar, mas com a esperança de que se...

R - Então, é assim, eu achava... Você vendo a situação falava: “Não vai dar certo”. Mas por outro lado você se agarra num fio de esperança que tem. Não era com má vontade, o sentimento era horrível. Eu olhava pra Guida ela chorava, sabe? A gente sabia das contas que a escola tinha, mas ao mesmo tempo eu tentava fazer o meu melhor pra poder, sei lá, eu vou fazer o que tenho que fazer. Eu pensava assim: “Se der errado eu posso perder meu fundo de garantia tal, perder meu emprego”. Mas a Guida ia perder muito mais, porque o apartamento tava penhorado pra garantia do BNDS, os terrenos da escola também. Então quer dizer, ela ia ficar sem nada, então eu falava: “Tem que lutar”. Enquanto tiver... Sei lá, como se tivesse se afogando e você fica se debatendo até conseguir sair. E o sentimento era esse, sabia que era difícil, mas não tinha muito tempo pra pensar: “Daqui um ano...”. Você tinha que pensar cada dia. Eu aprendi isso, que você tem que viver aquele dia sem pensar muito. Pode dar errado, eu sabia. Mas hoje deu certo, amanhã a gente vê o que faz. Era mais nesse sentimento assim, de viver cada dia, sem pensar muito futuro, porque sabia que o futuro era... Só que assim, eu também vejo que a Guida é uma pessoa muito iluminada, porque nas horas certas aparecia... Apesar de todos os problemas sempre na hora tinha uma, sei lá, apresentava-se uma solução. Não era que tá tudo dando errado, só vai dar errado. Mesmo em cada momento aparecia alguma, que nem apareceu esse senhor. Nas horas assim apareciam as coisas pra ela e acabava dando certo. A gente foi vivendo assim, cada dia até que cada vez ia melhorando um pouquinho, melhorando um pouquinho até que saiu, conseguiu sair. Mas acho que nem ela pensava muito como que vai ser. Pensava só naquele dia mesmo.

P - E a negociação com os vizinhos?

R - Então, na época do embargo da obra, o que aconteceu? Eles falaram assim... Uma associação de moradores lá do bairro... Só que não era bem... Sabia que não era assim, eram duas ou três pessoas. Eles falaram que a documentação da escola era toda falsa, que a gente tinha subornado todo mundo e que ninguém tinha aprovado. O que acabou acontecendo? A escola, por orientação do advogado foi de novo nas casas pedir para o pessoal de novo assinar pra liberar a escola. Aí eu me lembro dos professores... Eu não cheguei a ir às casas porque tinham outras coisas pra fazer, mas eu lembro que todo mundo se reuniu e foi, ia na hora do almoço, de manhã chegava mais cedo e ia, ia à tarde, de sábado, de domingo. Foi uma união muito grande, todo mundo que gostava da escola foi atrás, foi atrás das assinaturas pra liberar. E a gente conseguiu, com toda essa luta conseguiu que a liminar lá fosse derrubada. Aí voltou a construção da escola e foi um alívio pra todo mundo. Mas mesmo assim, quando a gente mudou pra lá era um puta de um espaço grandão, salas todas novas, só que não tinham móveis e não tinha aluno. Aí ficava dando uma impressão de um elefante, que eles falam, um elefante branco. Mas aí foi: “Vamos fazer essa sala aqui primeiro”. Ia lá. Foi, foi, foi. Com o tempo, mas no começo foi bem difícil, foi muita luta mesmo, dava vontade de... Não eu, mas a Guida acho que tinha vontade de desistir, porque era muita coisa contra. E a vizinhança lá, nessa época era assim... Na verdade, acho que é uma vizinha só que criou todo o problema, não foi assim... Com as outras vizinhas nunca teve nenhum problema, tanto que a maioria assinou pra liberar a escola. Era mais uma vizinha mesmo que não sei... Sei lá, ela encalhou de querer fechar a escola, tinha muito dinheiro e tentou de toda maneira. Mas foi só isso aí. Mas eu não tive muito contato com eles não, de conversar, de ir lá eu não tive contato.

P - E as medidas que escola tomou pra evitar essa evasão de alunos, como é que ela lidou com isso?

R - A escola sempre falou a verdade para os pais. Fez a reunião, contou o que tava acontecendo e quem teve que ir embora foi embora. Não teve muito assim, nesse momento não teve muito que fazer porque ela podia só oferecer o futuro. Só que o futuro tem gente que não pagou pra ver. Outros acabaram voltando, mas teve gente na hora, que no momento resolveu ir embora porque não tinha muito assim... A gente saiu de um lugar pra um lugar menor, aí fala que é por um ano, um ano e meio, depois acontece aquilo do embargo. Teve gente que falou: “Essa escola não vai se recuperar. Acabou”. E não teve muito que fazer. A gente só falou a verdade, mesmo que de repente saísse todo mundo, mas foi melhor do que mentido. Mas muita gente foi embora e não teve muito que a escola fazer pra segurar, além de falar a verdade e falar que ia conseguir sair. Mas assim, o trabalho pedagógico eles conheciam, a estrutura eles sabiam que era provisória, então a escola não tinha muito que oferecer pra tentar segurar.

P - E quando vão para o prédio novo como que se dá então o processo de recuperação, de trazer os alunos de volta?

R - Então, nessa época foi muito... Meio que... Não sei, acho que muita gente devia estar ligado também na escola eu acho, porque a escola nunca investiu maciçamente em propaganda, pra falar assim: “Fez um trabalho de marketing pra conseguir”. Eu sei que saíram algumas reportagens em revistas, aquele guia escolas também foi muito importante e o trabalho em si da escola por ser a pioneira no bilinguismo, acho que isso aí era mais forte que a gente imaginava. Também a contratação da Célia foi importante porque ela tinha um nome muito grande. Tinha não. Tem um nome muito grande no mercado. O Lyle também na parte do inglês. A Guida não economizou nisso, ela contratou os bambambans pra poder erguer a escola. Aí eles vieram e acabaram sendo importantes pra poder erguer a escola. O espaço tava lá, aí contratou as pessoas certas para os lugares certos, começou investir em equipamentos e esse conjunto das coisas fez a escola reerguer de novo.

P - E o seu trabalho como é que muda nesse momento? O que muda na sua rotina?

R - Então, a minha rotina muda porque com crescimento vêm mais funcionários, vêm mais alunos. Mas eu acho que mudou também, em função desse momento difícil e do trabalho que eu considero importante que eu tive, mudou também o reconhecimento perante Guida. Porque ela passou me ver como importante também nesse processo, sei lá, acho que foi isso. A responsabilidade aumentou, agora a escola tá num outro nível e a gente como funcionário tem que crescer junto, você não pode achar que... Você tem que estar sempre aberto pra tudo que tá vindo. O trabalho aumenta, a responsabilidade aumenta, mas você tem que tá pronto pra isso, pra fazer sempre o melhor, sei lá.

P - O que eu queria perguntar é como que pra um homem da contabilidade, dos números, como que é estar dentro de uma escola, uma escola bilíngue? Como é seu relacionamento com os alunos ou nesse cotidiano de encontrar as pessoas?

R - Você fala na visão geral? Pra falar a verdade foi meio que por acaso, cada dia um aprendizado novo. O relacionamento com as pessoas é sempre assim, eu trato o cliente, o aluno como prioridade, acho que a gente tá lá por causa deles senão não teria escola, não teria... O meu trabalho teria que ser em outro lugar. Mais nesse sentido de ver as pessoas mesmo... Não tratar como se fosse: “Mais um, mais um pagamento”. Entendeu? É ver a importância dele, do aluno pra minha vida também, porque tudo que eu tenho... Meu trabalho, mas tá ali dentro, uma semente que eu plantei, que cresceu junto e eu me vejo engajado nisso, fazendo o meu trabalho, mas eu sei que meu trabalho tem que funcionar bem para os outros setores também. Como se fosse uma peça da máquina, qualquer peça que tiver ruim a máquina no todo vai dar problema. Eu vejo os professores também, meu relacionamento com eles bom, também tem que ser. Procurar sempre agradar todo mundo. Acho que eu vejo assim.

P - E sua relação com os alunos?

R - Com os alunos eu tenho mais contato de conhecer um ou outro. Conheço mais os sobrenomes do que a carinha de cada um, contando os boletos, as notas fiscais, essas coisas. Mas assim, eu não tenho muito assim... Você fala de conversar? É difícil, mais é cumprimento. Quando a escola era menor o relacionamento era maior, porque você acaba conhecendo, acaba sabendo o nome, conhece a família, eles também viam você de outra maneira. Agora como o negócio tá maior não dá pra conhecer todo mundo, não tem mais aquele contato direto, é mais que você passa pelos corredores, encontra no refeitório, encontra na entrada. Mas é superficial, vamos dizer assim, não tem aquele envolvimento. Apesar de saber da importância de todos eles, mas eu não tenho aquele envolvimento como talvez que a Soraia tenha, que ela tá mais ligada diretamente a eles. Eu como fico mais longe é mais de cruzar quando eles vão pra biblioteca, mas é bem superficial, não é profundo não.

P - Não teve nenhum que marcou?

R - Algum aluno? Acho que um aluno que marca, apesar de eu não conversar muito com ela, mas a gente cumprimenta é a Tessa. Porque ela tem um problema, eu vejo a luta dela, o que ela consegue, eu vejo como a escola é importante pra ela principalmente. Eu vejo isso e é uma aluna que acho que marca bastante pelo que ela vive no dia-a-dia, a dificuldade, tá inserida numa sociedade, acho que é ela.

P - E quais outras mudanças você acho que a escola vivenciou nesses últimos tempos que foram marcantes?

R - Mudanças? As mudanças que eu passei lá foi na construção da escola nova. Agora eu vejo a mudança assim, que o pessoal tá meio apreensivo, é uma coisa atual que é a saída da Célia. Porque é uma pessoa que conseguiu bastante coisa da escola, bastante aluno, de repente ela sai, eu vejo que isso pode trazer alguma insegurança por parte dos... Não pra gente que trabalha lá, mas eu vejo assim, para os pais, podem achar que a escola fica meio perdida até achar outra pessoa. Até acho que já achou, mas acho que dá um pouco de insegurança acho que pra gente que tá mais ligado à direção da escola dá um pouco de insegurança. Eu vejo isso, que o pessoal tá meio... Não de não acreditar na capacidade da escola, mais do momento em si, da mudança, sabe assim? Deixa-me ver outra mudança que eu vejo que aconteceu. Acho que o que marcou mais foi isso mesmo da escola nova, dos problemas que tiveram do embargo da obra e agora a saída da Célia. As outras eu não me lembro assim, de grande coisa não.

P - E você, na parte de contabilidade, teve algum envolvimento com as Bienais que eles fizeram?

R - Não. Nas Bienais eu sempre... Você fala na elaboração da...

P - É.

R - Não. Mais é comprando coisa, pagando coisa e trabalhando mesmo no dia. Não também... O pessoal lá, parece que eu tenho um cifrão na minha cara. Em festa junina eu sempre peço, deixa-me ficar na barraca entregando refrigerante, participando... “Não. Vai para o caixa”. Tem Bienal, vai vender não sei o quê: “Vai cuidar do dinheiro”. Parece que você só presta pra fazer aquilo. Não sei se é mais confiança, mas assim, é só isso que eu sei fazer, que eu faço. Nunca... Eu peço: “Deixa-me ficar lá entregando bebida ou numa barraquinha”. Mas não: “Vai para o caixa”. É sempre assim, todos esses eventos que tem eu participo assim, se tem caixa eu tô lá, se não tem eu tenho que comprar, pagar os lugares, só nisso. Elaborando alguma coisa mais profundamente não, nunca participei.

P - E como você vê o envolvimento dos professores e dos alunos nas Bienais, nessa coisa de comprar material, eles pedem muita coisa, tem um envolvimento grande?

R - Tem um envolvimento grande. Mais pela professora Maria Helena, eu acho que ela que puxa, meio que a cara dela essas Bienais porque ela se envolve totalmente. Acho que as outras pessoas não tem tanto igual ela, mas ela consegue extrair o que ela quer. Eles compram bastante coisa, fazem bastante trabalho. É isso aí.

P - E como que é o depois? Porque daí você compra o papel, o material que eles precisam. Com que é ver depois aquilo num painel, num quadro?

R - Pra falar a verdade eu nunca parei pra pensar pra... Eu vejo, acho legal, bonito, mas assim, eu não consigo... Agora você falando eu até penso, mas eu não consigo ver o meu trabalho ali, entendeu? No final. Não dei importância. Nunca olhei por esse aspecto, falar: “Eu que fui atrás disso aqui, comprei isso”. Nunca parei pra pensar nisso não. Não sei se é porque a gente acostuma tanto com o trabalho que você acaba, eu acabei nunca pensando por esse lado. Mas eu gosto, acho legal, acho que a escola se preocupa muito com essa parte de cultura. Descobre, vai saber se um daqueles alunos um dia não será... Acho que é bem por aí, como se investisse em muito pra poder aproveitar um no futuro. Mas é mais assim, não enxergo a minha importância nesse... Nunca até hoje enxerguei nesse... Ao ver o resultado final. Acho que o meu fica tão insignificante que eu nunca parei pra pensar. Penso mais nas crianças, como tem crianças lá talentosas, como que a escola oferece isso. Talvez não seria nem a prioridade da escola, mas ela acaba oferecendo isso para o aluno pra ele poder desenvolver o que ele tem de melhor em cada área. Tem cada coisa lá que você tira o chapéu, às vezes você nem pensa que foi uma criança que fez, mas... Tamanho que é o envolvimento deles. O trabalho fica tão bom, bem feito.

P - E tem alguma história, algum caso pitoresco que você se lembra da escola que você possa contar?

R - Um caso pitoresco? Você fala o quê? Em relação a qualquer coisa? Não sei se é da escola. Você fala do quê? Pode ser alguma coisa que aconteceu comigo?

P - Claro.

R - Mas acho que a Guida vai saber. Uma vez eu... Que a escola tinha alguns pais que pagavam em dólar. Uma vez teve um pai pagou acho que duas mensalidades na época. Aí eu tava assim, peguei o dólar, contei, falei: “Caramba, essa porcaria de dinheiro”. Joguei dentro do lixo. Daqui a pouco quem que entra na sala? A Guida. E eu falei: “E agora, o que eu vou fazer? Vou enfiar a mão no lixo, pegar os dólares”. Porque eu joguei brincando, falei: “Esse dinheiro, tal”. Joguei no lixo. Eu falei: “Ai meu Deus, e agora?”. O rapaz que trabalhava comigo falou assim: “Já pensou se o faxineiro entra agora e quer pegar o lixo”. Eu falei: Isso vai ter que... Eu tive que esperar ela sair de lá pra poder pegar dentro do lixo. Foi engraçado, isso aí, uma coisa que aconteceu engraçado. Outra vez também foi a... Tinha uma secretária que trabalhava lá que era evangélica, chamava Francisca. Foi assim, quando saiu a Cecília, que eu entrei... Entre a Cecília e a Lurdes, antes da Lurdes entrar foi a Francisca, foi bem na época que... Vocês já ouviram falar naquele jogador de futebol, o Müller, que jogou na seleção? Jogou acho que na seleção de 82, 86. Na época ele tava no auge, famosão, ele foi lá pra matricular o filho. E a gente como funcionário... Ele jogou no São Paulo tal, eu não posso chegar lá: “Ou, me dá um autógrafo aqui”. Você tem que manter o respeito a distância. Aí a Francisca pegou, olhou na ficha de reserva dele, viu o nome, o nome dele acho que não tem nada... Não tem Müller, Müller era apelido, era Luis não se o quê de Oliveira. Ela olhou, tava a profissão atleta profissional. Ela falou pra ele assim: “Mas você faz o quê?” “Eu sou jogador de futebol” “Ah é? Jogador de futebol? Luis? Mas que time você joga?”. Eu fui e falei assim: “Francisca, é o Müller”. Ela: “O Müller da seleção?” “É, eu sou o Müller, tal”. Ela falou assim: “É que pelo seu nome, desculpa, é que no seu nome aqui não tem”. Eu tive que dar uma cutucada nela, falei: “Francisca, é o Müller da seleção”. Isso foi uma coisa que aconteceu lá na época. Fora isso acho que não lembro mais nada não. Tem esses casinhos assim, mas nada em relação à coisa da escola, mais coisa que acontece com a gente trabalhando.

P - E quais foram os maiores desafios que você enfrentou na escola?

R - Os desafios é poder acompanhar esse crescimento da escola e não ficar obsoleto. Porque às vezes acontece tanta coisa que a gente não consegue chegar junto. Acho que o maior desafio foi esse aí, encarar o que aparecer sem... Acho que esse foi o maior desafio.

P - E o que você faz pra se atualizar na sua profissão?

R - Eu procuro assim... Eu tenho por trás de mim uma assessoria boa, das melhores, se não foi a melhor. Eu procuro estar sempre... Tudo que sai novo assim, ler, fazer... De vez em quando tem alguns encontros nesse lugar, eu vou. Pra tá assim... Tipo, que tá acontecendo... Porque eu percebo que a PlayPen tá sempre antenada com o que tá acontecendo em matéria de educação. Então na minha área eu tenho que tá ligado no que tá ocorrendo na parte de legislação. Às vezes o que é melhor pra escola, ter que resolver algum caminho, mas nesse sentido de tá fazendo workshop, os cursos e lendo muito, essas coisas.

P - E as maiores dificuldades na escola?

R - As maiores dificuldades? Fala no meu trabalho ou... As dificuldades que vejo maior é o tempo muito curto pra tanta coisa ao mesmo tempo, acho que precisaria estruturar melhor. A administração da escola como um todo. Porque de repente você pega uma estrutura, um tamanho, aí você começa inchar, ela começa crescer, mas a essência dela tá do mesmo tamanho ainda. Então acaba que fica meio desorganizado, talvez não apareça pra quem tá fora, mas pra gente que tá lá dentro a maior dificuldade é essa. Tem que acompanhar esse desenvolvimento, esse crescimento da escola, fazer com que a estrutura interna também cresça junto, aí demanda investimento, tecnologia. Talvez no momento não seja a prioridade da escola, mas acho que tem que chegar uma hora que vai ter que ser prioridade, porque senão acaba meio que atropelando as coisas.

P - Eu tenho uma pergunta. Como é o funcionamento das suas atividades na escola durante o período de férias? Porque a gente imagina a escola sempre nesse momento com os alunos e o que tem pra fazer? Quais são as atividades?

R - Sem ninguém. Então, como eu trabalho, por exemplo, mensalidade, salário, então nas férias também tem. Porque, por exemplo, eu acho que para o professor em si não tem aluno ele não vai dar aula, mas, por exemplo, eu tenho boleto de mensalidade, tem gente que pagou, tem visita na escola pra conhecer. Então, a rotina continua a mesma na época de férias, a única diferença é que não tem tanto atendimento telefônico, as pessoas estão viajando e não ligam tanto pra lá. Mas durante as férias você prepara a volta dos alunos, tem que consertar isso, consertar aquilo, comprar, comprar material. E tem a parte de salário que é o ano inteiro, o meu trabalho em si. Mensalidade, salário, nota fiscal, essas coisas tem o ano inteiro, a rotina permanece.

P - Tá. Então vamos pensar um pouquinho o futuro da escola, como você vê a PlayPen daqui há cinco anos?

R - Como eu vejo a PlayPen? Eu vejo a PlayPen lotada de alunos e com lista de espera pra poder entrar. Na parte estrutural dela, na parte interna quero acreditar que ela estará totalmente informatizada... A gente fala cinco anos, mas cinco anos passa rápido, não é... Espero que a escola esteja melhor, mas eu acredito que ela estará melhor. Estará talvez quem sabe até planejando ensino médio, porque muitas pessoas pedem pra Guida. Pode ser que agora não esteja pensando, assim como ela também não pensava em ter o Fundamental II. Sei lá, de repente formar uma turma boa aí, quem sabe? Que ela consiga investir em tecnologia, nas pessoas também, valorizar os funcionários. Que se torne uma empresa ideal pra trabalhar, pensando em todo mundo, desde o porteiro até ela mesma.

P - E a sua participação na escola nos próximos anos?

R - Minha participação... Meu filho vai entrar o ano que vem lá. Então acho que vai ser como pai também. Tentar fazer sempre o meu melhor. Ver a escola como continuação da minha vida. Dar a importância que ela merece. A partir do momento que eu der a importância que ela já tem, continuar com essa importância, eu estarei sempre fazendo o melhor. Tentar buscar novos horizontes, aprender mais pra poder usar em benefício da escola.

P - E vamos voltar então pra umas questões... Você é casado? Você falou que tava ficando noivo quando entrou na PlayPen.

R - Tava quase noivo já quando eu entrei.

P - Como que você conheceu sua esposa? Fala o nome dela.

R - Adriana. Eu conheci minha esposa porque o meu irmão, o Paulo, que é o segundo depois de mim, o mais velho depois de mim, ele é casado, foi casado com a irmã da Adriana, chama Ione. Nós somos o segundo casamento da família. Eu sempre convivi com ela quando ele casou, como eles moram... Ela morava em Sumaré que é interior de São Paulo, então a gente se reunia mais no final de ano, nas férias, que eu ia pra lá. A gente sempre se encontrou e nunca aconteceu nada. Aí teve uma dessas vezes que eu fui pra lá, de repente a gente foi tomar um sorvete e aconteceu de a gente começar a namorar. Só que depois a gente começar, depois de um tempo meu irmão se separou da irmã dela, mas aí foi o segundo da família. Na época o pessoal ficou contente. Pessoal bom, legal. Acho que deu certo. Foi meio que destino também. Eu me lembro que quando eu conheci a Adriana, conheci assim, que eu já conhecia, mas quando a gente se envolveu mesmo a minha irmã tava morando lá na casa no meu pai e ela tinha acabado de ter neném. Aí eu fui pra lá pra visitar, conhecer o sobrinho, como eles estavam sempre, família sempre reunida, foi até um desses finais de ano, a gente acabou todo mundo almoçando, comendo. Aí a gente acabou sentando perto um do outro, começou conversar, acho que ela ia à igreja e me chamou, falou: “Você não quer ir à igreja comigo? Nós vamos à igreja”. Eu falei: “Vamos”. Aí a gente começou. Só que já começaram a falar assim, a gente tava conversando e pessoal já começou a falar que a gente já tava namorando. A gente nem pensava em namorar, mas aí eu voltei pra São Paulo e falei pra ela: “Liga durante a semana”. Eu pensei: “Se ela ligar é porque ela ficou interessada. Se ela não ligar...”. Ela acabou ligando, eu acabei voltando pra lá, depois ela veio, a família dela veio morar em São Paulo, ficou mais perto, depois eles voltaram para o interior de novo. Foi meio assim.

P - Vocês se casaram aqui em São Paulo mesmo ou...

R - Não. A gente se casou lá. Porque eles já estavam morando lá de novo. Casamos na igreja lá de Sumaré. Porque a família dela era toda certinha, sabe assim? Casar tudo bonitinho, ficar noivo. Pra eu pedir pra namorar eu tive que pedir, pra namorar, não foi nada... Foi tudo... Meu sogro é muito rigoroso, essa parte de família ele bem enérgico. Mas foi tudo assim, tudo... Foi na igreja lá mesmo, na igreja da cidade lá.

P - E você teve o filho que é o Pedro, né?

R - É o Pedro. Mas a gente demorou bastante tempo pra ter filho. Porque eu tô casado há 18 anos, o Pedro tá com cinco anos, então a gente ficou muito tempo sem ter filho. Primeiro eu pensava, no começo eu pensava em melhorar de vida, melhorar... Ela também era muito nova. Só que depois a gente descobriu que a gente tinha alguns problemas pra... Ela não conseguia engravidar, teve que fazer tratamento, depois chegou uma hora que a gente desencanou, falou: “Ah, vamos adotar”. Foi nessa desencanada que ela acabou ficando grávida. Só que o Pedro foi bem difícil dele nascer, ela teve problema de pressão alta, diabete. Só na gravidez, a pressão dela é normal, mas ela passou muito mal, teve três internações. Quando ele tava com seis meses era pra ele ter nascido, ele ia nascer com seis meses, ela passou muito mal, ficou internada mais um mês até ele nascer. Ele nasceu com sete e pouquinho. Foi difícil de conceber, foi difícil de ele nascer. A gente nem pensa em ter outro porque ela passou tão mal que eu fiquei com tanto medo de, Deus me livre, acontecer alguma coisa que acabou parando nele mesmo.

P - E como é que foi ser pai?

R - Acho que não tem palavras pra falar. Acho que eu tive meu pai muito ausente, acho que por isso que eu sei o que representa. Desculpa. É isso.

P - E como futuro pai de um aluno da PlayPen, o que você espera da educação do seu filho? Por que colocá-lo lá?

R - Acho que ele está na melhor escola. Pra ele acho que vai ser o que faltava pra vida dele acho que vai ser lá. Apesar de ele estar com medo, estar meio inseguro de ir, mas acho que lá é o lugar. É onde eu acredito, onde eu trabalho.

P - E como é que vai ser com ele falando... Sendo bilíngüe? Vai todo mundo fazer inglês pra conversar com ele?

R - Não sei. Ainda não parei pra pensar não. Do jeito que ele é ele vai ficar me corrigindo e me ensinando.

P - Mas que é legal também, né?

R - Ah sim. Acho que vai chegar uma hora que vai ter que ser... O básico vai ser isso. Acho que muitas coisas já tem. Acho que tem que estar antenado, não tem jeito. E acho que não tem outro lugar melhor pra ele estudar do que lá. Pelo menos fazer a tentativa, ver se vai dar certo. Porque ele estuda hoje numa escola... Uma escola até boa, mas é uma escola... Pro meu nível tá até legal, mas se você pode dar o melhor, por que não oferecer o melhor pra ele? Eu acredito na escola, acho que pra ele vai ser o melhor. Não poderia oferecer coisa melhor pra ele do que PlayPen.

P - E o que você... Pegando a escola que você estudou lá atrás e vendo hoje, o que mudou na educação no Brasil e vendo agora seu filho podendo estudar numa escola dessas?

R - Acho que mudou sei lá quantos por cento, mudou tudo. Que dizer, eu digo o que eu tô vivendo, não a escola pública, a escola pública acho que piorou do tempo que eu estudava. Porque eu vejo hoje em dia meus sobrinhos, tem coisas básicas que eles não sabem. Eu lembro que quando eu estudava era bem puxado, a escola pública era... Essa escola que eu estudei, especificamente, ela exigia muito da gente, tinha que... Eu lembro que para eu me formar na oitava série eu ficava quase todo dia na escola, na biblioteca fazendo trabalho. Hoje em dia as escolas não... Os professores... Já começa que o professor já não é bem preparado, ele tem que trabalhar em sei lá quantas escolas pra poder ganhar o dinheiro dele e não consegue... Como é que fala? Dedicar-se à nenhuma escola, é tudo meio que levado. Começa pela política do governo da progressão automática que... Como é que se estuda e não é avaliado? É uma coisa que não combina. Essa é a educação pública. Agora, por exemplo, se eu comparar o que eu estudei com o que o meu filho vai ter é outra... É como se fosse outro mundo, muita tecnologia, acho que tudo que ele puder, tiver de capacidade pra poder absorver vai ser oferecido pra ele, então não tem... É uma coisa infinita, eu acho, não tem limite, vamos dizer. O que ele puder, tiver de vontade, ele vai conseguir aprender. Diferente de uma escola pública que às vezes o jovem até tem vontade, tem tudo, mas não tem ferramenta pra poder conseguir aprender. E na escola que ele vai participar tem professores preparados que estão em constante avaliação, tão aprendendo e podem oferecer as ferramentas que ele precisa pra poder aprender. É isso, é outro mundo, por isso que quem estuda na escola pública dificilmente consegue boas oportunidades. Eu digo na escola de hoje. Apesar que tem algumas escolas que são referência, mesmo pública, mas 90% da população não consegue chegar nessas escolas. Tá sempre atrás, vamos dizer, tá sempre com passo atrás.

P - E como que você avalia o impacto da PlayPen na sua vida profissional, na vida pessoal inclusive?

R - Eu acho que foi um casamento perfeito. O que eu procurava, o que fiz, tudo, parece que me preparou pra chegar à PlayPen. Não me vejo assim, se eu não tivesse ido pra lá o que eu estaria fazendo. Talvez eu estivesse num escritório de contabilidade trabalhando, que era o que eu fazia, mas não estaria tão aberto pra novas coisas. Estaria trabalhando, mas acho que com a PlayPen foi assim... Eu vi o que aconteceu na minha vida, que eu melhorei tudo, a escola melhorou também. E eu acho que a escola melhorando eu fui junto, meu nível de vida melhorou. Foi meio que minha vida em função da escola, meio que deu certo.

P - E quais foram os maiores aprendizados que você teve dentro da PlayPen?

R - Os aprendizados que eu tive lá assim, acho que foi aquilo que eu falei de valorizar cada dia, valorizar as pessoas, saber respeitar... Cada pessoa, cada indivíduo é um ser único e você saber escutar, ouvir o que a pessoa fala, respeitar, apesar de talvez não concordar. Pelo menos eu vejo isso, pelo menos respeitar cada um e tentar aprender com cada pessoa, viver cada dia de uma vez.

P - E tem mais alguma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de deixar registrado?

R - Acho que não. Acho que foi até demais. Falei até demais.

P - Então, o que você acho da PlayPen estar comemorando os 30 anos de vida por meio desse projeto, das pessoas virem aqui, contarem as suas histórias?

R - Eu acho assim, o próprio nome do museu, o Museu da Pessoa, acho que é bem ligado à história da escola, mas voltada também pra história de cada pessoa que foi importante dessa trajetória dos 30 anos da escola. E achei legal isso de... É uma maneira de valorizar cada... Assim, escolhendo algumas pessoas, mas pensando em todo mundo que passou por ali, tanto funcionário, como aluno, como pai, como... Eu tô falando pelo Edson, mas acho que também por outras pessoas que talvez não tenham a oportunidade de vir aqui contar, acho que vai ser uma coisa bem marcante mesmo.

P - E o que você achou de ter dado essa entrevista?

R - Eu pensei que ia ser mais chato. Até que foi legal. Sei lá, fiquei pensando: “Será que é o quê? Será que eles vão fazer pergunta...”. Sei lá, fiquei meio sem referência. Só que assim, para as pessoas que vieram eu andei perguntando, o pessoal fala: “É legal, você nem vê a hora passar, você acaba contando coisa até que nem devia”. O pessoal comenta. Mas achei bem formal, achei legal.

P - Então a gente queria agradecer em nome da PlayPen e do Museu da Pessoa pela sua vinda. Obrigada.

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