Busca avançada



Criar

História

A escola do empreendedorismo

História de: Lilian Roques Silva Felipe
Autor: Ana Paula
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

Lilian fala de sua infância em Gurupi e as dificuldades enfrentadas, mas fala também dos momentos bons; as brincadeiras sua convivência com tribos indígenas. Também sobre como foi estudar na Fundação Bradesco e posteriormente trabalhar no banco, e como isso influenciou a abrir seu próprio negócio.

História completa

Projeto Fundação Banco do Brasil Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Lilian Roques Silva Felipe Entrevistada por Marllon Chaves e Damaris do Carmo Palmas, 09 de janeiro de 2006 Código: FB HV001 Transcrito por Caroline L. Carrion Revisado por Jordana de Oliveira Pradal P/1- Boa tarde, bom dia. Eu gostaria que você começasse se identificando com o seu nome completo, local e data de nascimento. R- Bom dia, meu nome é Lílian Roques Silva Felipe, nasci no dia 15 de dezembro de 1966, em Gurupi, Tocantins. P/1- Seus pais? R- Antônio Roques Silva e Maria Pereira Chaves Silva. P/1- Qual é a profissão deles? R- Meu pai é chefe de seção e minha mãe, do lar. P/1- E você viveu em Gurupi até que idade, assim? R- Nós, é, eu acho que até... Com cinco anos nós fomos morar no Porto do Piauí, que é lá perto da Fundação, da Fazenda Canuanã, né, falando assim, e de lá, como era uma região muito carente, que não tinha escolas, nós tivemos a sorte de sermos selecionadas para estudar em Canuanã. P/1- Ah tá. E como é que era essa região nessa época em que você vivia? R- A região é muito carente. Lá a gente vivia praticamente da pesca, né, nossos pais também não tinham condição nenhuma; era aquela simplicidade, aquelas casinhas de palha, casinha de sapé, que eles falam hoje. E meu pai muito, com muita vontade de crescer, de trabalhar, para dar sustento aos filhos, mas as oportunidades lá eram muito poucas. P/1- E você teve quantos irmãos? R- Sete irmãos. P/1-E se, você se lembra, assim, da infância mesmo, você consegue descrever a sua casa, como é que era, como é que era a rotina da casa? R- A rotina da casa era assim, é... Antes, também, de ir pra, lá pra Porto Piauí, a gente ficava em fazendas, né, aí criava galinha,porco; era, a planta. As frutas que tinha na época eram manga, laranja, aquele feijão de corda que plantava tudo lá, porque meu pai sempre foi muito trabalhador, né? E, sentada debaixo daquele pé de manga, chupando a manga; ela escorrendo na barriga [risos], né, chupando laranja também. Era assim, a fartura, porque o que a gente tinha na época era tudo muito, né? A gente não chegou a passar fome, mas não tinha essa carne que tem hoje, era tudo de lá, era, o pato, era a galinha, porco, era o que era criado lá, né? E quando era fruta da época, que era laranja, melancia, e manga, né, então... O arroz, não tinha máquina de beneficiar, era o arroz pisado no pilão, pra descascar, pra fazer. Mas, enfim, já tinha a criatividade daquela época, também, deles, né? P/1- E os seus avós, você lembra? R- Não, meus avós não, eu não cheguei a conhecer, porque meus pais vieram aqui pra Gurupi e como a... eles eram, assim, não tinham condição de pagar passagem pra sair daqui do Tocantins pra ir lá pra Maranhão, né? P/1- Seus pais eram do Maranhão, de que região? R- Maranhão, de Bacabal. P/1- E você sabe mais ou menos a trajetória deles, por que eles saíram de lá, como é que eles resolveram ir pro Gurupi? R- Eles saíram para buscar melhoras, né, porque ele tinha, quando ele saiu de lá já tinha dois filhos, que eram gêmeos, também, né, a Sheila e o Luís, e lá era mais pobre ainda do que aqui no Tocantins, tanto é que depois de 50 anos, ano passado agora, é que meu pai voltou pra conhecer a família, e lá é do mesmo jeito, ainda continua aquela mesma deficiência, entendeu? Não tem rede de esgoto, iluminação, você entendeu? É a mesma, mesma deficiência da época. Meu pai ficou horrorizado de ver, né? Como ele melhorou de situação, já tem um carrinho, já, né, trabalhou, tem a casa dele, e a família dele continua acomodada do mesmo jeito, né. P/1- Você chegou a ir lá? R- Não, não cheguei a ir. Eu tava até querendo, agora que a gente vai pra, pra Fortaleza, e passa lá, então eu queria ir assim, pra mim conhecer a origem, porque hoje eu cito muito o exemplo, falo pros meus filhos, levo eles, assim, em lugares, creches; levo eles em lugares para conhecerem a realidade que a gente viveu também, como hoje eles têm a oportunidade boa, né? P/1- E aí a infância, de que vocês brincavam lá, nessa época? R- Naquela época não tinha nem brinquedo, brinquedo que a gente tinha era que, quando matava gado, a gente fazia, aquele ossinho da vaca, aquilo ali, a gente brincava de fazenda, era boizinho, o carrinho era... a gente pegava lata, fazia, entendeu? Não tinha nada ali. P/1- Essa do ossinho era aquela que pegava da pata da vaca... R- Da pata da vaca, é. P/1- Aí o maior… R- Era, não sei se você já... P/1- Mas conta, conta isso pra gente, descreve, que eu acho que o pessoal de lá não sabe dessa brincadeira, eu acho que é típica do Tocantins. R- É típica do Tocantins. Quando matava o gado, né, a vaca, aí o pé, que tem aquele casco, o osso dele, a gente… Aquilo ali tudo era aproveitado, entendeu? [risos]. O osso, a gente brincava de fazenda. Do pé, ali onde tinha o casco, era o cavalo, e os bois, as vacas, né, o boi era aquele ossinho maior, que dá junta, né, e a vaca era aqueles ossinhos menores, entendeu? P/1- E os pequenininhos? R- E os pequenininhos eram os bezerrinhos. Então era isso que a gente brincava, era o que tinha pra brincar na época. P/1- E o que mais? Que brinquedos vocês inventavam? R- Inventava também carrinho, que pegava lata, né, sobra de lata de óleo, que era muito pouco, isso era uma novidade pra gente, quando aparecia uma lata de óleo, porque na verdade o que a gente comia era aquela carne enlatada, né? Pegava, matava o porco ou a vaca, cozinhava a carne, guardava dentro das latas, né? Aí a lingüiça também, porque não tinha geladeira. O fogão era fogão à lenha também. P/1- Conservava na banha, não é? R- Conservava na banha do porco. Então uma lata que chegava, né, assim menor, sei lá, de óleo, aquilo ali era uma novidade, aquilo ali a gente já fazia era um carrinho! Já usava a imaginação pra fazer isso. P/1- E as bonecas, como eram feitas? R- Boneca feita de panos. A gente fazia, fazia roupa, costurava o cabelo, né? Hoje eu acho que eu sou assim mais criativa porque você tinha que fazer alguma coisa, né? Então fazia boneca e, lá, depois que nós fomos pra Fundação, aprendi a fazer também mais, assim, uma coisa mais sofisticada, do que a mãe da gente ensinava. Lá eles ensinavam, tinha aula de artes, né, que ensinava a fazer bordado, tricô, crochê. P/1- Tá, e aí, você foi crescendo ali, e como é que foi essa ida pra Fundação, como é que foi essa… R- Pra gente ir pra Fundação, a gente tinha que ir de canoa, lá do Porto do Piauí, remando, né, o papai eu e os meninos, juntava com aquelas famílias carentes também, e, no rio Javaé, até chegar lá na Fundação. Quando não tinha estrada, e quando, às vezes, não dava pra ir de canoa, porque tava chovendo muito e ficava perigoso o rio, a gente ia de animal, ia a cavalo por dentro da ilha. P/1- É, por… R- Comendo farofa. P/1- Explica pra gente onde era o porto mesmo, assim, naquela região da ilha, lá no... R- Porto do Piauí é depois, é, ali é na Ilha do Bananal, o Porto do Piauí. Hoje foi desativado, hoje é aldeia indígena. P/1- Descreve pra gente como é que era a ilha nessa época, a Ilha do Bananal. R- A gente não tinha nem visão da grandeza que é a Ilha do Bananal, né, que hoje é conhecida. Lá era cheia de fazendas, que também hoje não pode mais, né, que foi desativada, cheia de fazendas, tinha... O comércio era muito precário também, né, tinha uma farmácia, tinha uma pensão, tinha uma loja de, que vendia tecidos, né, e vende, vivia lá de vender peixe pros turistas que iam lá, né, o pessoal de Formoso, de Gurupi. Era bem índio mesmo. P/1- E vocês conviviam com a tribo ali? R- Muito! Muito mesmo, tanto lá quanto na Fundação. A aldeia dos índios javaés era do outro lado. P/1- Você tem alguma história desse tempo, das crianças, de vivendo ali, tendo uma tribo do lado, as histórias? R- Não podia muito os índios frequentarem lá, aí sabe o que que a gente fazia? É, menino, é gostoso, atravessava o rio nadando! Hoje eu fico olhando, gente, como que eu atravessava esse rio aqui nadando. Coisa de menino, né? E era proibido, isso a gente fazia escondido da Santa, que era a diretora. E, pra trocar com os índios, quando os índios iam lá também, a gente trocava sabão, que o sabão a gente fazia, era o sabão caseiro, né, vinha da matriz, mas fazia lá na Fundação. Trocava sabão por mandioca. Vocês vão conhecer agora, vocês terão a oportunidade! Os índios, eles fazem “gambira”, troca tudo, entendeu? Vocês vão tá lá, eles vão tá lá vendo, visitando vocês. Trocava sabão, trocava, assim, roupa que a gente não queria mais por macaúba, mandioca, colar dos índios, brinco, era isso aí, era a diversão da gente, né. Era o máximo! P/1- E, assim, essa viagem que você falou de, quanto tempo vocês levavam de canoa, como é que era essa, pegava canoa? R- Saía cedo, ia chegar à noite, aí ia comendo farofa, parava às vezes, assim, onde tinha areia, né, pra descansar. Solzão quente, também, né? P/1- Então era um, uma aventura mesmo, vocês ________... R- Era uma aventura! P/1- E a cavalo? R- O que os pais da gente não faziam pra dar um futuro melhor pra gente, né? P/1- E a cavalo, quanto tempo era? R- A cavalo eu acho que era umas quatro horas de viagem, ou mais. Assim, eu não tenho muita lembrança, porque eu era muito criança nessa época, eu tinha seis anos, né? P/1- E aí, conta essa passagem de casa para Fundação, como foi? R- Da casa? Logo que nós fomos pra Fundação também, aí o papai, é, conseguiu emprego pra ele lá, né? Aí já começou a melhorar, já tinha um salário, porque até então não tinha salário, né? A gente vivia igual índio lá, também, no meio dos índios. P/1- E aí seu pai foi trabalhar lá de quê? R- Foi trabalhar lá mexendo com; ele era na época inspetor de alunos, aí depois que ele foi mexer nas máquinas de beneficiar arroz. P/1- Tá. E como é que era esse comecinho lá de Canuanã? Você tem lembrança da escola, dessa movimentação? R- Eu lembro de uma época que apareceu na... Lá não tinha televisão, também, lá na Fundação, mas tinha energia, tinha esgoto, né, tinha, assim, foi uma, uma educação muito voltada pra gente. Tinha a diretora, que era a Santa, ela era praticamente, assim, não tinha essa pedagogia toda, essa psicologia toda que tem hoje, era como família mesmo, o tratamento que ela dava pra gente era de mãe pra filhos, né? Mas valeu muito. P/1- E como é que era, assim, descreve pra gente... É que você ia pra Fundação, você não ficava na sua casa? R- Não, tinha que ficar no alojamento, junto com as outras. P/1- Por quê? Era uma norma, como é que era essa história? R- Era norma da escola. Eu acho que era pras outras crianças não se sentirem discriminadas ou sentir a falta do pai, né, tipo assim: “Ah, a sua mãe tá aí e eu que não tenho mãe”, né? Então tinha que ficar tudo junto. Aí lá a gente tinha o horário de ir pra escola e tinha o horário do trabalho, né, que era o quê? Não era um trabalho, mas que foi a melhor coisa que eles fizeram, era uma ocupação pra gente. É, cada um tinha um setor para trabalhar, era, que era o lema deles, que era fixar o homem ao campo, né? Então a gente cuidava da horta, cuidava de lavar os bandejões, né, tinha horário de estudo, tinha horário da escola, tinha horário de fazer... Cada, seu tempo era praticamente todo ocupado, né? Você imagina mil e tantos alunos sem fazer nada, sem ter uma ocupação, o que é que não ia virar? Então quanto mais ocupassem a cabeça, mais a gente ia tá aprendendo, né? P/1- E como é que você entrou, assim, é, como é que a sua mãe ficou sabendo da Fundação, como é, porque a escola chegou lá e o pessoal todo morava longe, né? Como é que foi essa comunicação: “Olha, vai ter uma escola”? Como é que todo mundo ali sabia? R- Abria a inscrição, né, abriam as matrículas. Aí eles avisavam, falavam: “Ó...”. E o sonho do meu pai era colocar a gente lá, porque como que a gente ia estudar lá em Porto do Piauí, não tinha nem escola direito pra estudar, né, aí o sonho dele: “Não, vou colocar meus filhos todos na Fundação, eles vão estudar, vão se formar.” E aí conseguiu. Aí logo que ele conseguiu colocar a gente, ele ainda conseguiu um emprego também. P/1- E assim, você tem, é que você era muito novinha, né, mas, é, que que a população falava da Fundação, assim, pro seu pai ter querido botar ele lá, só era por que era uma escola, como é que era? R- Às vezes tinha gente que falava assim que: “Não, não vou deixar”, aqueles que têm a cabeça menor, né, que não tinha visão do que era a fazenda Canuanã, do que era a Fundação, né? “Não, eu não deixo meu filho ir pra lá, porque meu filho não vai estudar lá, que é internato”, eles já tinham assim, aquela, né... Papai: “Não, eu vou dar oportunidade pros meus filhos, eles vão estudar e vão se formar”. E os que não foram, hoje são os que moram lá, são “peões”, não cresceram, não estudaram, até por ignorância, né? Que a gente só tem a agradecer, graças a Deus nós temos alguma coisa ou nos sobressaímos, porque teve a Fundação Bradesco, teve a fazenda Canuanã, se não fosse, a gente tava lá, dentro da fazenda, que é o quê? Como os outros que não foram tão lá. Cada um com, só filhos, também, né, sem oportunidade de estudar. P/1- E todos os meninos da sua turma da escola eram todos dessa região? Aí, como é que, como é que era essa turma toda, essas mil pessoas convivendo juntas, as crianças todas? R- Era, era uma família. Primeiro que não tinha televisão, né, então a gente seguia os passos tudo direitinho, era assim...Era uma... a educação era uma educação exemplar. Eu não sei, hoje eu não sei como que os alunos são, mas naquela época se falasse: “Olha, vocês têm que estudar tal hora, tem que fazer isso, tem que fazer...”, todo mundo obedecia, igual aqueles soldadinhos, sabe? Hora de dormir, hora de estudar, hora de ir pra recreação, hora de fazer atividade, né, que era bandejão, limpar o refeitório, que era cada um separado, né. Eles tiveram um ensinamento fora de série. P/1- E teu pai conseguiu botar todo mundo lá dentro. R- Todos. P/1- E, assim, as brincadeiras lá, que que vocês faziam, essa criançada toda junta? R- A gente brincava de corda, né, brincava muito de corda, aí já foi melhorando um pouquinho. Eu não me lembro muito bem quando veio a televisão, né? Brincava de dançar, tinha aquela recreação. Naquela época estava na moda o carimbó. Aí juntava aqueles meninos: “Não, vamos...”. Levava a radiola, né, naquela época, e tinha apresentação, dia das mães, ensinava, é, teatro, era tudo muito novidade pra gente. Ensinava a cantar também. Ah, era uma maravilha! [risos]. P/2- E na comemoração do dia das mães, as mães iam pra lá? R- Iam pra lá. E a gente, ensinava a recitar poesia, ensinava, ensinava tudo. Essas coisas da escola mesmo. P/1- E elas dormiam, por exemplo, pelas distâncias... R- Não, tinha... ia, assistia à apresentação e voltava. Não podia ficar. P/1- Ah tá. E que eventos assim, você mais... Dessa primeira fase, a gente ainda tá nessa fase da criança ainda, né, que você cresceu lá dentro. Você tem alguma lembrança assim, ou de um evento, ou de um professor, alguma coisa que te marcou, sabe aquelas lembranças que a gente tem da criança? Um evento ou um professor, um colega? R- Eu tenho uma lembrança que ficou na minha memória, que, nessa apresentação... Ai, eu era muito saída, sabe? A hora que falava, tem uns que são tímidos, né, aí: “Não, vamos fazer uma apresentação” e aí eu já queria, já queria tá lendo, né, ela levava. A Santa levava o padre pra lá, fazia a missa, né, aí eu sempre queria tá na frente, lendo. Agora que eu fiquei mais tímida, depois que eu cresci, né. Aí nesse dia da apresentação era dia das mães, aí cada um tinha que cantar uma música, ou era uma seleção, parece, pra talentos, tipo assim, pra talentos, né? Aí eu escolhi uma música, falei: “Não, eu vou cantar aquela música do Jessé.” “Qual música você quer cantar?” “Ah, vou cantar ‘Se o veleiro’, né?” Aí comecei: (cantando) “Se o veleiro repousasse Na palma da minha mão Sopraria com sentimento” (para de cantar) Aí uma, num trecho da música fala assim, né: (cantando). “No estado do meu grito” (para de cantar) E o microfone fez assim “Tuuuuuuuuuuuuu” [risos]. A hora que o microfone fez isso, ali eu já encerrei minha carreira de cantora [risos]. Gente, era tanta gozação, mas esses meninos, a hora que eu ia passando, né, falava assim: (cantando) “No estado do meu grituuuuuuuuuuuuuuuuuuu”, aí começavam a gritar todos [risos]! Essa aí eu não esqueço não, foi aí que eu encerrei. Daí pra frente nunca mais eu quis apresentar nada. Mas aonde que eu passava eles começavam a gritar, sabe? Gozação de aluno, né? P/1- Você tava falando dos apelidos, você falou já do apelido seu aí, conta pra gente essa história [risos]. R- Ah, eles chamavam... Tudo era motivo pra eles chamarem a gente de apelido, né, e colocaram um apelido em mim e na minha irmã. Chamavam a gente de alfinete, chamava de perna de pau. A gente ficava... adolescente naquela época, os pais não tinha tanto, assim, ensinamento pra tá conversando com a gente como têm hoje, essa psicologia toda, eles falavam era assim: “Não, menino rei!” Não é assim que eles falavam aqui? Eles não tinham esse negócio de falar: “Não, não importa pra isso, meu filho, é porque é criança, da sua idade”, não tinha aquele jogo de cintura todo, né? Aí, pronto, aquilo ali já gerou um complexo de inferioridade, a gente não queria mais vestir saia, tinha que ir só vestida de calça, porque ficava com vergonha pra eles não ficarem chamando de apelido. Ali qualquer coisa, se você risse, assim, com a cara torta, eles já te colocavam apelido. Era apelido pra todo lado, os meninos, né? P/1- Você lembra de alguns apelidos engraçados, lá? R- Ah, chamava os outros de macaco, era perna de pau, era gabola, era, tudo, tudo, tudo, tudo era motivo pra essas coisas. P/1- Aí a turma se manteve a mesma? P/1- Do início até o final, né? P/1- Eram sempre os mesmos? R- Eram sempre os mesmos, assim, eram como irmãos. Até hoje eu tenho os meus colegas que estudaram juntos comigo que a gente considera. Todo lugar, quando a gente vê ou vem aqui, que a gente se encontra, que eram os mais, assim, que tinha mais afinidade, é como se fosse irmãos. Todo lugar que a gente vê ou tá sabendo de alguma dificuldade, você quer ajudar. Fala: “Olha, oh Lílian, tô indo praí.” “Vem cá, fica aqui na minha casa”, né, ou vai pra algum lugar. É, é praticamente irmão, a gente lembra hoje que foi criado tudo junto, sabe, eram irmãos mesmo. O respeito era muito grande, primeiro que não podia namorar, lá era proibido namorar. P/1- E não acontecia de ninguém quebrar regrinhas [risos]? R- Às vezes até acontecia, mas se, era rígido, né, então se descobrisse, a gente morria de medo de ser expulso, porque, também, não era bobo, sabia que se saísse dali não ia ter oportunidade, porque os pais da gente não tinham condição, né? E o medo de decepcionar os pais também. Eles eram muito carrasco também, então você temia muito. P/1- E, mas assim, essa turma, foram quantos anos de convivência? R- Foram dez anos de convivência, todo dia! P/1- Dormiam juntos... R- Dormiam juntos no alojamento, só os homens que eram separados, né, com as meninas. Dormiam juntos, iam pra escola juntos, iam pra recreação juntos, para as tarefas juntos. Era isso. Só ficavam separados na época das férias, que eles liberavam pra ir pras casas. P/1- E como é que era, assim, na coisa de... é que a gente andou vendo que, assim, a chegada pros... os pais indo buscar vocês, era um momento especial, era super bonito. Todo mundo fala: “Ah, por que vocês não vão nas férias?” Conta pra gente como é que era essa chegada dos pais, depois de tanto tempo longe pra esses meninos. R- Ah, era, a gente... eu, porque já tava lá, né, mas tinham meninas que às vezes queriam falar que tavam com saudade e tal, mas você percebe que aquilo ali, a realidade em casa era outra, que lá era bem melhor, né? Tinha roupa lavada, ganhava roupa, né, da Fundação, ganhava calçado, ganhava creme dental, ganhava sabonete, ganhava tudo! Em casa eles, com a necessidade que os pais tinham, não iam ter aquela mesma regalia que eles tinham lá. P/1- Roupas além dos uniformes? R- Era... não, roupas, todas roupas da Fundação, era tudo Fundação Bradesco, Fundação Bradesco. P/1- Então, isso, na realidade, pra eles, aquele mês com os pais era um mês de privação e tudo? R- Era bom porque estava indo ao encontro da família, mas eu particularmente acredito que não tinha aquela regalia que a gente tinha lá. P/1- Então eles, na realidade, era meio que __________? R- É, ficava alegre porque ia ver o pai, a família, os irmãos, entendeu, mas a realidade era outra, né? P/1- Como é que eles lidavam quando havia, assim, alguma briguinha entre os colegas? R- Eles, quando tinha briga, assim, às vezes já ia lá, já contava pra professora ou contava pra diretora, ou os próprios alunos mesmo apaziguavam, entendeu? “Não, você não pode brigar.” E brigava mesmo, porque não deixa de acontecer, né? P/1- Menino é menino [risos]. R- Menino é menino [risos]. P/1- E, assim, você lembra de algum desses daí que...desses que eram, ficavam lá na ilha, que eram bem pobrinhos, não sei o quê? Você lembra de algum desses daí que hoje tá, mudou a vida? R- Não, não tenho lembrança, assim, não, mas todos eram a mesma situação financeira dos pais, não tinha nenhum mais rico, outro mais pobre, até porque se eles fossem assim, teriam mais condição e não estariam naquela região, né?_____ Aí a carência era da região. Eles iam tá em outro lugar, iam tá em São Paulo, em Goiânia, né, já tava ali por falta de opção. P/1- Porque assim, na realidade não só o pessoal da ilha, mas Formoso. Como é que era a região como um todo ali, Formoso, assim, mesmo com um projeto, como é que era, como é que...do que vivia aquela população? R- Em Formoso tinha o projeto, né, Rio Formoso, que eles vendiam arroz, mas eu não tinha muito essa lembrança não, porque eu ficava mais lá. P/1- Mas a região em si não dava oportunidade? R- Não, a região não tinha tanta oportunidade. Até hoje eu acho que eles não têm tanta oportunidade. Já cresceu, já evoluiu muito de 1985 pra cá, mas… P/1- O acesso pra cidade, como é que era? R- Tanto é que pra ir pro Porto Piauí até hoje não tem asfalto, né? É pertíssimo de Formoso, então eles tinham que ver isso, enxergar; que hoje tem asfalto, pra todo lado, né? P/1- Tá. E aí assim, e como é que foi o ginásio, o primário é uma coisa, assim, e o ginásio, aquela coisa de novas matérias. Como é que foi essa mudança pra você? R- O ginásio, naquela época, era em dois anos, né, que era quinta e sexta, sétima e oitava. Era bem puxado, né, mas eu, assim, nunca tive problema, porque toda vida eu fui muito...minha responsabilidade, eu já sabia que eu tinha que passar, então nunca dei trabalho pros meus pais com isso. P/1- E você tem alguma lembrança de algum professor dessa época? Porque ginásio é aquela coisa, são vários, né, a gente… R- É. P/1- Como é que eram eles ali? R- Tinha a dona Ana, tinha uma professora que era excelente, chamava dona Noêmia, era esposa de um médico, dr. Alfredo, pessoas maravilhosas. Tinha um professor de inglês que chamava Abraão, tinha a dona (Be?), que era uma pessoa maravilhosa também; tinha a Patrícia. Eu me lembro de todos. P/1- E tem algum que te marcou, assim, alguma coisa que te marcou nessa época do ginásio? R- Hum hum. P/1- Nada? R- Não tenho muita lembrança não. P/1- E aí, assim, além das atividades, dessas atividades que falou, tinham palestras de alguma coisa de educação, educação sexual, como é que era essa coisa? E como é que era essa coisa de educação sexual num estado tão conservador como era o Tocantins naquela época, como é que os pais recebiam isso, né? R- Ah, eles ensinavam pra gente, assim, educação sexual, explicar mesmo como que era Aids, essas, isso aí não tinha nada, né? Porque, primeiro que era proibido, então eles não... eu acho que eles não falavam muito sobre isso até pra não despertar as crianças, né? Mas a educação que a gente tinha lá era falar sobre menstruação pra menina, sobre a adolescência, que ia mudar, ensinar a se proteger, isso aí tudo eles ensinavam pra gente, você entendeu? Mas falar sobre sexo mesmo, abertamente, isso aí eles nunca ensinaram. P/1- E que outro tipo de preparação, eles... essa preocupação que vocês iam sair daqui um tempo, tinha algum, alguma coisa assim, ou… R- Nada, nem os pais da gente não ensinavam pra gente, você entendeu? Você, naquela época, se você fosse falar em namoro, você fazia era apanhar, né [risos]? P/1- Você, quantos irmãos homens e quantas mulheres? R- Dois homens e cinco mulheres. P/1- E como é que era essa relação, assim, de familiar lá na escola? Porque era assim, eram os irmãos, os irmãos, os irmãos. Como é que era isso, como é que … vocês dormiam juntos, como é que era a coisa de ter os meus irmãos no internato, a mãe morando ali, era meio... [risos]. R- Não tinha muita, que era tudo igual, não tinha esse negócio de meu irmão, minha irmã, era tudo... era como se todos fossem irmãos, entendeu, não tinha aquele laço familiar, que hoje eu faço pros meus filhos, assim. Tinha o laço familiar, o pai, a mãe, os filhos, tinha tudo, né, mas era mais todos juntos, com alunos, com tudo, né? Porque hoje, por exemplo, eu ensino pros meus filhos, né, a gente toma café da manhã juntos, já tem esse prazer, né, de almoçar junto, aquela coisa da família, de viajar junto, não abrir mão, entendeu? Então até a condição financeira favorece isso, né? P/1- Tá. E como eram os alojamentos? Descreve pra gente, assim, como é que era a rotina de dormir, quantos ficavam no teu quarto, como é que era essa distribuição, assim, lá? R- Eu não lembro, assim, de quantidade, mas era bastante, viu. Eram, cada alojamento acho que devia ter umas. (pausa) Eu não tenho, mas eu acho que devia ser umas 40 bicamas, mais ou menos, devia ser uns 80 em cada alojamento. P/1- E como é que era… R- Era bem ventilado, aquele banheiro, é muita pia, tudo organizado, limpinho, né? Tinha os vasos também. P/1- E vocês dormiam, tinha alguém que ficava com vocês, adulto? R Tinha, tinha o (?) P/1- Como é que era essa, essa rotina, assim, “hora de dormir”, como é que vocês faziam? R- Não, era separado assim, de tantos anos a tantos anos era num alojamento, de tantos no outro, crianças no outro, né? Aí o nosso já era beliche, os pequenininhos já dormiam nas redes, que eram aqueles redondinho, aqueles alojamento que tem lá, vocês vão conhecer. E o nosso já era... tinha uma, duas, três, acho que três alas masculinas e três femininas. Era muito bom, organizado, sabe? Lençóis, colchão, tudo muito organizado. P/1- E essas crianças menores, elas se adaptavam, saíam da casa dos pais, iam pra lá, como que era essa aceitação, essa adaptação? Choravam muito? R- Choravam, né, tinha criança que às vezes ficava difícil se adaptar, mas ali ou você se adaptava ou adaptava, que não tinha outra opção. [risos]. Não tinha muita opção não. P/1- Que idade tinha? R- Era, na época era sete anos, agora eu não sei quantos anos que as crianças vão, porque eu acho que lá na escola tem até jardim agora, não sei se é só pra filhos de funcionários. P/1- E aí, depois do ginásio você foi fazer o colegial lá? R- Depois do ginásio, nós fizemos o segundo grau, né? P/1- E como que foi? R- Já foram três anos. Aí você tinha o curso de magistério ou agropecuária. As mulheres faziam magistério e os homens, agropecuária. Aí depois você podia, tanto mulher fazia agropecuária como homem. P/1- E como que foram, como é que foi esse período, assim? R- Era profissionalizante, né, o curso. P/1- E como é que eram as aulas, a rotina, essa nova rotina agora? Colegial, técnico... R- Era bem técnico, né? Era, era, mais que era fixar o homem ao campo, né, então mais era ensinando. Lá a gente tinha, podia dar aula até pra quarta série, então era muito voltado pros ensinamentos da escola também, né? P/1- E a escola aproveitava vocês, assim? R- Aproveitava, os que terminavam já ficavam lá. Às vezes , dependendo se sobressaísse, né, da minha turma mesmo, acho que tem uns dois ainda lá, ou três. P/1- Dando aula? R- Que são professores lá. Só que hoje eles já fazem, acho que já fizeram faculdade em Gurupi, né, então… P/2- Tem uma... R- Aquela dificuldade toda. P/2- Tem a comemoração do 7 de setembro, que os alunos citam muito nas escolas, né, e nós temos essa curiosidade de saber como é que era lá em Canuanã. R- Ah, era, era, assim, bem organizado também, tinha, é, organizava aquela florista ____ na frente, é, desfilando, as bandeiras, era muito organizado. P/1- Mas e… R- As fanfarras, ensinava a gente tocar, sabe? Era, todo ano tinha esse desfile, também, de 7 de setembro. P/2- Você participava. R- Eu participava? P/2- E vocês iam pra Formoso, para apresentar? Onde vocês se apresentavam? R- Apresentava lá na Fundação. P/1- Na Fundação. P/1- Pro pessoal da fazenda? R- Pro pessoal lá, era os alunos que apresentavam pros funcionários, pros outros alunos que não estavam participando, né. P/1- E vocês tinham muito, vocês faziam atividades em Formoso, por exemplo, ou era... R- Tinha, eu me lembro que uma época a gente fez uma competição lá de corrida, parece, aí colocava aqueles fogos, assim, pra você, não sei como é que é o nome. P/1- Tocha? R- É, aquela tocha. Isso daí já não era muito meu forte não. Porque tinha aula de educação física, né, então eles iam competir, competir em Formoso, competia em; às vezes em Gurupi, jogos, né, pros meninos. Incentivava muito o esporte também. P/1- E a sua parte qual era? R- A minha era mais... [risos] mais artista. P/1- E aí, como é que você desenvolveu essa parte lá, assim? R- Não, aí eu encerrei minha carreira de artista neste dia da música, lá [risos]. Já não queria mais. P/1- E as artes manuais? R- E as artes manuais, né, que era tricô, bordado, crochê, fazer boneca, fantoche, essas coisas. P/1- E aí você... R- Isso até hoje eu gosto, gosto muito de mexer, trabalhar com a parte de decoração, né? P/1- E como é que despertou, assim, foi já lá na Fundação que despertou esse seu lado confeiteira? R- Não, esse aí foi mais um sonho do meu esposo, a panificadora. Porque até então, eu não tinha muito envolvimento, assim, com alimentação, não sabia, mas nós casamos, ele tem, o sonho dele, era de montar a panificadora, né? Então eu, com meus ensinamentos, eu já tava, trabalhava no banco tinha acho que 10 anos, eu falei: “Agora eu tenho que aprender também”, né? Aí comecei a aprender e me dediquei, sobressai. P/1- Então assim, o colegial puxado, tudo, e a formatura do colegial? Tem aquelas fotos lá, todo mundo com aqueles cabelos lindos, como é que foi essa preparação toda? R- Ah, a formatura, a formatura foi chiquérrima! Contrataram uma cabeleireira, lá, um pra fazer maquiagem na gente [risos], lindo [risos]. Uns, mandaram fazer os vestidos em Gurupi, né, aí tudo era importado lá, cabeleireiro de Gurupi, maquiador que fazia maquiagem, e era um sucesso. Era uma festa que a gente ficava ansioso, esperando a formatura do segundo grau, aquilo ali era uma novidade pra eles. Pra gente também, né? P/1- Como foi a festa? Descreve pra gente, assim, como foi, pra gente ter a noção de como era uma formatura _______, toda a cerimônia, você lembra dela, da rotina dessa cerimônia? R- Não tenho muita lembrança mais, assim, da formatura não, só que a gente dançava, já podia ficar até tarde, podia... já tava assim, tipo assim: “Ah, tô livre, agora eu posso namorar que eu já formei, vou sair” [risos]. P/1- E como foi essa saída, assim, depois de tanto tempo vivendo com esse povo? Porque eu lembro, foi uma, a pior coisa da formatura é saber “não vou ver mais as pessoas”. R- Não vou ver mais mesmo. Ah, aí fomos pra Goiânia, né, eu fui pra Goiânia. Você podia optar por onde tinha vaga, na escola ou no banco, né? Eu fui pra Goiânia, comecei a... foi assim, foi difícil pra mim, porque da escola, aquela família muito fechada, para uma realidade duma cidade grande, né? Como não tinha, assim, tanto aquela preparação pra vida, enfim, cidade grande é o quê? Assalto, é medo, né? violência. E na época Goiânia não era tão violenta, mas a gente estava acostumado lá era dormir com a janela aberta, era, assim, foi meio, foi complicado pra gente, né? Mas adaptei, mas sinto muita saudade daquela tranquilidade lá, aquela privacidade que você tinha, né, não tinha medo, não tinha violência. P/1- É, isso é uma coisa também que eu acho que é muito do Tocantins, assim, que as casas dormiam abertas, era...ninguém tinha preocupação. Conta isso pra gente, como é que é, porque assim, a gente não, nem tem noção disso, uma cidade que tudo era aberto, né? Conta... R- Até Palmas também, quando nós saímos de Goiânia, que viemos aqui. Lá nos alojamentos, porque era muito quente, lá na Fundação, a gente dormia com a janela toda aberta, sabe não tinha... Mas tinha guarda lá, né. Só que aqui, quando nós já viemos de Goiânia pra cá, que eu vim trabalhar aqui no banco, também vim transferida, quando nós montamos a panificadora, a gente dormia com a janela aberta aqui. E, em 1994, tinha... P/1- Era comum, né? R- Era comum. Não tinha violência, não tinha roubo, não tinha assalto, não tinha nada. P/1- E como é que é essa história, assim, o banco selecionava, como é que era isso? Tinha já, todos vocês já sabiam que iam ter encaminhamento, como que era? R- Já tinha, porque a gente falava, né, pra onde que queria. Eles perguntavam, né, a diretora. P/1- Era um programa do banco para encaminhar... R- De manhã, encaminhar os alunos, né, de, era o fixar o homem ao campo, né, e aí, na medida que ele saía da escola, ele ia pro banco. Hoje ainda é assim, né, tem muitos, aqui da turma. Agora hoje acho que a seleção já é diferente, porque tem muito, muito aluno, eles vão pegando os melhores, acho que os três melhores da turma ou os quatro melhores, aí os que se sobressaem, que tirarem só nota boa, aí eles já arrumam pra trabalhar no banco. P/1- E na sua época como foi? R- Na minha época era pra... foram todos trabalhar. Ou, se não foram pro banco, foram para as escolas. P/1- E aí Goiânia, como foi? R- Ah, Goiânia foi o máximo, porque você sempre queria falar que ia, tava na capital, que, né, você queria conhecer outra vida também, todo adolescente tem essa, essa vontade, né, de ter independência, de sair de perto dos pais, né? Mas chegar lá foi complicado, porque é muito diferente você ter tudo lá na Fundação, para poder enfrentar a vida, mas, com um pouquinho de vontade e de sabedoria, você consegue, né? P/1- Tá. Então agora a gente vai dar um pouco uma pausa dessa fase, assim, da saída, que a gente ainda vai insistir um pouco no seu tempo da Fundação, depois a gente vai... E seu Amador Aguiar? Você conheceu, né? R- Conheci seu Amador Aguiar, ele sempre visitava lá a Fundação e era, assim, a Fundação, para ele era menina dos olhos, né, que ele falava. Aí quando ele ia visitar, às vezes, assim, a gente sentava na porta da escola e tava aquele tanto de aluno, aquilo ali, pra ele, eu acho que era um prazer imenso, sabe? Ver de onde a gente tinha saído e o que ajudava, porque se não fosse ele, hoje a gente não, eu não sei como é que seria o nosso futuro. P/1- Como é que vocês se relacionavam com ele, as crianças? R- A hora que eles falavam, assim, não dava pra conversar com todos, tudo com ele, né? Falava: “Ah, amanhã seu Amador Aguiar vem, vem”, que era como se fosse Deus chegando, entendeu? Aí todo mundo já se arrumava pra tirar foto com seu Amador Aguiar, pra tirar foto da escola, era bem interessante. P/1- Era um evento, assim. R- Era um evento quando seu Amador Aguiar ia na escola. P/1- E aí... R- Ou qualquer pessoa de São Paulo, né? “Ah, amanhã vem o seu...”. (pausa) Outros, lá, que eu nem me lembro. P/1- Antônio (Peja?). R- É, ahã, seu Antônio (Peja?). P/1- João (Carrier?). R- João (Carrier?). P/1- Carlos de Oliveira. R- Ahã, isso, todos eles, ahã. P/1- E aí vocês, assim, conta mais do seu Amador, você tem alguma lembrança dele caminhando, como é que ele se relacionava com as crianças, como era a reação dele, assim, com vocês mesmo. R- Ah, e visitava o refeitório, ia, assim, ia falando, né, alguma coisa que: “aqui nós vamos fazer isso, nós vamos aumentar o refeitório, vamos fazer não sei o que lá mais, vamos, é, colocar tantos blocos”, entendeu? E ia andando, conversando, aquela... P/1- E você ia atrás. R- E nós atrás, exatamente [risos]! P/1- Então o tempo que ele ficava lá era cercado por crianças? R- Era. P/1- E, assim, que você pessoalmente, assim... o que que você achava dele, da figura, assim “eu, criança, vendo aquele homem tão importante”? Você tem uma lembrança disso, da cabeça da criança vendo aquilo? R- Acho que a gente achava, assim, que era chique demais, né: “Aí, seu Amador Aguiar veio de São Paulo!”, não tinha nem noção onde que ficava São Paulo, você entendeu? “Da Cidade de Deus”, que a gente conhecia, assim, ouvia falar, falava da matriz, né, sempre tava ouvindo, mas aquilo ali, pra nós, na nossa cabeça, era muito chique, né, tá perto do seu Amador Aguiar. P/1- E vocês assistiam pela TV o dia de Ação de Graças, como é quê? R-Tudo! Quando foi pra lá, né, televisão, eles passavam tudo pra gente. P/1- E aí vocês viam... R- É, deixava a televisão lá num galpão que tinha e a gente ia assistir. Sentava aquele tanto de menino assistindo à televisão. P/1- Aí vocês viram a Cidade de Deus? R- Conhecia, conhecia tudo. Foto também, tinha aquele caderninho do Bradesco que ia, né? Aí tinha uns, assim, uns cadernos que atrás tinha escrito lá, assim, é: “Só o trabalho produz riqueza. Escola tal, tal.” Ih, cheio de fotos, assim, da escola, é, Bodoquena, é isso, aquilo, entendeu? O que que a Fundação fazia pelos alunos, né? P/1- Vocês tinham acesso a toda essa documentação? R- Tinha, porque vinha no próprio material da gente, né? Tinha o lápis, tinha a borracha, tinha tudo. P/1- E quando vocês se viam nesse material, Canuanã, porque ia também, né? R- É. Nossa, aí a gente ficava super orgulhoso, porque: “Ih, nossa escola aqui, né, Fundação.” E ficava, assim, orgulhoso também de saber que era uma escola que era a menina dos olhos dele, que a dona Santa sempre falava pra gente, né? Então você queria fazer tudo pra agradar, agradar eles é como se estivesse agradando os pais da gente, né? P/1- E, assim, é, você tem alguma lembrança, assim, de uma capa, alguma coisa, sabe, porque a gente vê, assim, acho que 80% é Canuanã nessas capas. R- É, ahã. P/1- Vocês se viam, você: “Olha aqui eu! Olha aqui eu!”, como é que era essa coisa? R- Eu lembro uma época que eles foram passar uma filmagem que eles ficaram com a gente lá, né? E chamava, sentava aquele tanto de aluno, colocava lá na televisão e ia ver. Aí, eu olho, o que eu olho lá, tá a minha irmã, a Cárita, com duas macaúbas assim do lado [risos]. Que a gente adorava macaúba, não sei se vocês conhecem, né, e lá tinha muito. Aí tava ela lá. Cada aluno que olhava, acho que deve ter esse documentário até hoje na escola, cada um com aquela macaúba do lado, aqui. Isso aí era... P/1- Explica pra esse pessoal que não conhece o que é macaúba. R- Macaúba é um coco. Você não conhece não, macaúba? P/1- Não. R- É um coco e tem uma, assim, deixa eu ver como é que eu vou te explicar, tem uma, como se fosse uma manga, só que ela é cheirosa, bem cheirosa mesmo, sabe? Aí você tira aquela polpa dela, né, que é bem firme também, você, pra comer ela, você tem que colocar na boca e ficar roendo, né depois você quebra o coco e come. P/1- Gostoso. R- É gostoso, eu adorava. P/1- Era o chiclete da região, né? R- Era o chiclete da região na época lá [risos]. P/1- Ninguém passava... R- Os índios vendiam também, a gente trocava as coisas também com os índios por macaúba, né, também que eles tinham muito na aldeia, trazia, vendia. P/1- Tá, eu, outra coisa que a gente queria ver assim é dessa, dessa época do seu Amador Aguiar, não sei o quê, e os alunos índios, tinham alunos índios? R- Era muito pouco, só tinha, nessa época, que não era nem da minha série, né, tinha um que chamava acho que (Tchicauaré?), só tinha esse lá, que eu conhecia, não tinha tanto não. Agora eu acho que tem mais, né? P/1- E eles se adaptavam? R- Se adaptavam também. Esse era filho do cacique lá, do Eliseu. P/1- E tem notícias do (Tchicauaré?)? R- Ele mora aqui, hoje, em Palmas, esse índio. P/1- Ele faz o quê? R- Ele trabalha, não sei se é na (Ruraltins?), ele passou num concurso aí, trabalha no Estado, parece. P/1- Tá, e você tava falando outra coisa aí que eu te cortei? R- Não. P/1- Do (Tchicauaré?)? R- Desse aluno? Não, falei que o pai dele era o cacique lá, chamado Eliseu. P/1- Ah, tá bom. E aí, assim, é, Goiânia, trabalhando no banco, casou? R- Casei. P/1- Conta essa fase pra gente aí, pós-Fundação. R- É, ahã. Goiânia, fui pra estudar, mas na verdade não estudei nada, né, conheci meu esposo, que era gerente de treinamento lá na, é, era, primeiro era na praça do Bandeirante, depois ele foi transferido para Brasília, né, que, recursos humanos que eles chamavam. E namoramos quatro anos, tivemos filho, casamos, ficamos mais quatro anos em Goiânia, depois que nós viemos pra cá. Aí aqui, que era o sonho dele, ele saiu do banco também, né, e o sonho dele era montar a panificadora, e eu junto, nós dois, ajudando ele a realizar o sonho, né? E montamos a panificadora. No início passamos muita dificuldade aqui em Palmas, depois saí do banco e conseguimos sobressair também com comércio, agradecendo sempre, sempre, que a gente não esquece, os ensinamentos do Bradesco. P/1- E como foi essa, essa ideia de montar, como é que vocês, como foi a batalha mesmo? Conta um pouco essa rotina de montar, abrir um novo __________? R- Porque a gente já, já era bem empreendedor, que no banco tinha os produtos, né, que você tinha que aprender a vender também, que era capitalização, seguro, né? Então ali você já tinha noção. E era um treinamento atrás do outro, era falando do atendimento, qualidade dos produtos, né? Então, assim, a gente saiu bem preparado. Aí montamos a panificadora e conseguimos também sobressair pelos ensinamentos do Bradesco, que a gente usa lá. Por exemplo, a gente contrata funcionários, ensina, né, os funcionário, e não, não contrata funcionário com experiência, é, ensina, prefere ensinar o funcionário, porque a gente já coloca ele do jeito da gente. E dando prioridade ao atendimento e qualidade de produtos, porque hoje, no mercado de trabalho, você não precisa só atender bem o cliente, você tem que, atender bem é normal, hoje você tem que superar a expectativa do cliente, você tem que ter um diferencial no mercado, né? Atender bem é a obrigação de todos. P/1- Então, assim, você tá falando, assim, você acha que, esse fato de ter sido aluno da Fundação, assim, você teve muito mais oportunidade pra esse mundo que tava se fazendo aí? R- Muito mais oportunidade! Todos os ensinamentos que eu tenho e que aplico hoje na minha empresa, foram os que eu aprendi na Fundação, de escola a banco. P/1- Você pode citar um exemplo pra nós? R- É, esse exemplo, o exemplo é esse, de não contratar funcionários, é, com vícios, né, a gente contrata o funcionário pra ensinar, que no banco era assim, né? Dá prioridade ao atendimento, qualidade dos produtos. Tudo isso foram coisas que nós aprendemos no banco. P/1- E aí, assim, como foi essa, porque a padaria foi crescendo, como é que foi a hora em que ela apareceu? Como é que... R- Aí quando ela apareceu eu tive que sair do banco, né, e comecei a me dedicar mais à panificadora, porque também pra mim já tava complicado, que eu tive gêmeos, né, então eu acordava cedo todo dia, fazia a parte de confeitaria, de bolos da panificadora, e ia trabalhar, entrava no banco dez, saía às quatro. Quando eu saía do banco, eu ia pra panificadora, às vezes eu não tinha nem tempo de tomar banho, eu tinha que ir direto pro atendimento, né? Aí com criança ali perto, então foi tudo, assim, foi fechando o cerco pra mim, eu tive que sair, eu falei: “Não,eu vou ter que sair do banco porque não tenho mais condição de ficar”, né? P/1- E aí? R- Aí saí do banco e, e comecei a me dedicar mais também, à panificadora, fui crescendo. Hoje, graças a Deus, a gente tem nome aqui em Palmas. P/1- Você, você fez alguns cursos de preparação, você saiu de Palmas pra fazer algum deles? R- Vários, nós fazemos até hoje, né? Sempre nós estamos viajando, porque, na verdade, quando a gente viaja, agora você sempre vai com o objetivo, que é o quê? Trazer produtos novos, trazer novidades pra panificadora, isso aí é o diferencial da gente, né? É não ficar, não cair na mesmice, é sempre ter um diferencial de mercado, né? P/1- Numa daquelas fotos você falou daquele concurso. Como é que foi participar desse? R- Ah, foi, na época , foi, a gente sempre, assim, por tá inovando, né, e foi muito gratificante, porque ficar, né, no curso de confeitaria. Palmas não era praticamente nada, eles não acreditavam, né? Então conheceram, viram que Palmas também tem talento, porque na maioria dos lugares que você ia, eles falavam assim: “Você é de onde?”. “Sou de Palmas”. “Palmas, aonde que é Palmas?”, né? Como foi pra vocês Palmas, aqui, vocês acharam que era assim, chegaram a andar, conhecer? P/1- A minha família mora aqui [risos]. R- Ah, mora aqui! P/1- E, assim, como foi isso, vocês foram chamados? Como é que foi participar, vocês se inscreveram, como é que foi? R- Fizemos a inscrição. P/1- Queria ver, assim, a rotina, assim, "aí, eu assinei, aí eu fui pra lá”... R- É, aí você tinha que fazer uma, uma receita, criar uma receita, eu fiz a torta Colombo, que até hoje eu faço na panificadora né, que é uma salada de frutas com uva, morango, cereja, kiwi, pêssego, né, e fiz uma cobertura, assim, bem legal. Aprendi também. Foi muito interessante. P/1- E aí como é que era o julgamento? R- Era produtos, né, você tinha que, é, fazer tudo com aqueles produtos da Nestlé. P/1- E aí você ficou em? R- Aí nós fomos aprovados, né, ficamos em 3º lugar e foi legal. P/1- Tá, e nessa época, você tava falando dos filhos, da família, a confeitaria crescendo. Conta essa fase agora, assim de consolidação do seu trabalho. R- É. Foi um sonho, né, que a gente realizou e hoje nós já pensamos em partir pra patentear, tamos pensando em abrir outra loja também, né? Tá nos planos. É muito trabalho; o trabalho da padaria não é pouco, é muita dedicação, mas nós vamos, já, praticamente com o sonho realizado, porque sair de onde a gente saiu pra tá hoje com essa loja, estabilizado, com nome, já foi assim muito, né? E a gente não, uma coisa que a gente não perde é a humildade, porque meu esposo também, ele é, a família humilde, a família dele. P/1- Ele é, seu esposo é, quem é o seu esposo? Você falou, falou, falou e a gente nem sabe o nome ainda. R- Meu esposo é João Damasceno Felipe Filho. P/1- Ele é de Goiânia. R- Ele é de Goiânia, trabalhou na Fundação Bradesco no recursos humanos. P/1- Da Fundação? R- Da Fundação. E saiu do banco também. E a gente aplica os conhecimentos na, na panificadora. P/1- E, assim, desses seus colegas, é, tem alguém especial, dos colegas da Fundação? R- Da Fundação? Tem, têm muitos! Que a gente lembra com muito carinho, né, tem a Olga, tem o Paulo, Isabel, têm todos! Todos, todos, todos a gente lembra com muito carinho. P/1- Por exemplo, Olga saiu de onde, tá fazendo o que hoje? R- Olga passou num concurso da Caixa Econômica Federal, saiu, trabalhou no banco também, casou, saiu do banco, hoje ela passou no concurso da Caixa Econômica Federal. P/1- E o outro? R- Tem, é a Isabel. Eu não tenho muito contato com ela, que é de Formoso. Tem a Creusa, que é uma pessoa maravilhosa também, que tão... A maioria deles estão em Formoso do Araguaia. P/1- Tá. Isabel é a que foi a secretária do município? R- Eu acho que é. P/1- A gente vai entrevistar então. Tá, e assim, você acha, assim, que a Fundação, ali naquela região, assim, embora seja um negócio, ela fez a diferença? R- Ah, tudo! Porque eu acho que a educação vem de berço, né, e a educação é a base de tudo também, então a base que a gente teve foi a educação, foram os ensinamentos da Fundação. P/1- E, assim, desses ensinamentos, assim, qual é aquele que sempre vem na tua cabeça, assim, por exemplo, o trabalho... R- O trabalho, a organização, a responsabilidade, a humildade, são coisas que eu quero tá passando pros meus filhos também. P/1- E como é que eles passavam isso pra vocês, era no dia-a-dia? R- Era no dia-a-dia, era organização, eram as tarefas, né? Era tudo muito organizado. P/1- Tá, e Palmas, assim, é, como foi? A gente, era Goiás, né, como foi essa coisa de mudar, essas perspectivas de novo estado, como foi isso na cabeça de vocês? Porque exatamente você tava saindo, eu acho, que da... R- É, porque a gente, como tinha muita vontade de sobressair, nós poderíamos muito bem ter montado essa panificadora lá em Goiânia, porque eu já trabalhava lá e tal, né? Mas qual foi a nossa intenção de vir pra Palmas? É porque Palmas a gente poderia ser um dos melhores, e lá em Goiânia a gente ia ser a padaria, e aqui a gente ia ser, podia ainda, tinha a oportunidade de fazer um diferencial e ser o melhor, como hoje, modéstia parte, eles conhecem muito bem a panificadora Colombo, que tem um diferencial, que é uma das melhores, né, e lá, em Goiânia não, a gente ia ser a mesma que os outros, né, porque o mercado é muito saturado. Então aqui a gente conseguiu sobressair. Aí agora o que a gente faz é manter a qualidade, manter o atendimento, né, pra poder conservar o nome. P/1- Você tem quantos filhos? R- Eu tenho três filhos, o Rafael, a Fernanda e o Frederico. P/1- Frederico... R- Frederico e Fernanda são gêmeos. P/1- E como é essa relação, assim, eu tenho meus filhos, eles tiveram aquela, eu tive uma vida muito difícil, conta isso. R- Hoje a gente tá na fase de passar o exemplo pra eles. Eles são muito curiosos, sempre eles tão perguntando. Semana passada mesmo a gente tava conversando com eles sobre isso, né, porque uma coisa que a gente preserva muito é a, é a humildade, então, por eles serem criados num padrão de vida completamente diferente daquele que a gente teve, a gente tem uma preocupação muito grande em mostrar pra eles que a gente tem que ter humildade, que nós, quando nós começamos, nós crescemos, mas que a gente não tinha nada. Conta aquela história, como eram os brinquedos, que eu contei pra vocês, que a gente não tinha oportunidade, que os ensinamentos dos pais não eram os mesmos. Hoje um menino de, como os meus, tão com oito anos, você tem que falar abertamente pra eles sobre sexo, você não pode bloquear, porque se você não fala em casa, o coleguinha vai falar, então ele já vai ensinar de uma maneira errada. Então é melhor prevenir. Eu tenho lido muito sobre isso, que o grande erro é o pai sempre tá querendo deixar a coisa acontecer depois, você tem que explicar quando tem oportunidade, surgiu a oportunidade, você já explica pros seus filhos, porque aí se alguém for explicar, ele: “Epa, peraí, mas meu pai e minha mãe falou que é assim”, né? Então hoje é um diálogo bem voltado pras crianças, a educação é completamente diferente daquela que a gente teve. Não tem, naquela época a gente apanhava, que os pais batia, tudo era bater, né; hoje não, hoje você já ensina de outra maneira, já tira alguma regalia que a criança tem, enfim, é exemplo, é falando muito sobre o que a gente foi, como era, pra eles sentirem também, né, pra eles aprenderem a dar valor nas coisas. P/1- E eles têm curiosidade de conhecer a escola lá? R- Muito! Eu já levei lá pra conhecer, só que eram pequenininhos, né, agora eles sempre... O meu menino adora lá, o Rafael, fala: “Mãe, a Fundação deve ser um paraíso”, né? Porque você dormir com a janela aberta, pescar, que ele adora também, ele gosta muito, assim, dessa coisa de natureza. P/1- E, assim, você pretende manter essa ligação? R- Muito, muito, sempre! Uma coisa que eu nunca esqueço é de falar pros meus filhos. P/1- E você vai lá na Fundação, você tem contato com esse pessoal de lá ainda? R- Tenho contato. Só que não tenho, assim, você não pode chegar e visitar e ir entrando, tem tudo, tem toda aquela regra, tem que marcar, sabe? Mas eles, eu tenho certeza que o dia que eu for lá com a minha família, eu quero levar meus filhos, né, meu esposo, eu vou ser muito bem recebida lá. P/1- E, você, é, quando você voltou lá pela primeira vez, assim, como é que foi? “Aqui que eu estudei”, você tem uma lembrança da primeira vez que, do primeiro retorno? R- A gente tem muito orgulho. Ah, quando você, meu irmão mesmo, Leonardo, esse que tá aqui, que ele fala assim: “Lílian, lugar pra gente viver é na Fundação. Oh tempo que não volta atrás nunca mais!”. Tudo dele, assim, pelas dificuldades que ele passou e que a gente passa também, né, que não tem aquela vida igual a que a gente tinha lá, né, tudo muito ensinado, mas ganhando tudo. P/1- E aí, como foi a volta, o que que você, assim, aquela lembrança do momento mesmo, eu quero que você dê uma puxada... R- Você quer, você quer rever os amigos... P/1- Sabe, “cheguei em frente ao portão”, sabe aquela sensação? R- É, aí quando a gente chega lá agora que os alunos vê a gente assim, quando vai, faz tempo que eu não vou lá, não visito, né, eles falam: “Ah, aquela ali é a Lílian, filha da dona Maria”, igual a gente fazia, né, quando ia alguém de fora. “Ah, ela tem uma panificadora lá em Palmas, estudou aqui”, fica assim, aquele zum-zum-zum, os alunos todos atrás, né, você vai passando: “Hei, você mora aonde? Lá em Palmas? Você tem uma padaria?”, começa, sabe, do jeito que a gente fazia. P/1- E aí, que, como é que era a sensação disso? R- Ah, a gente fica orgulhoso. Eu fico muito orgulhosa. P/1- E os seus irmãos, o que fazem agora? R- Minhas, eu tenho duas irmãs, uma trabalha comigo, trabalha uma irmã e um irmão comigo. Outro trabalha em Formoso, ainda continua lá, no projeto. É, uma é pedagoga, trabalha aqui no município, e a outra trabalha em Gurupi, e mais, outra também, a Sheila trabalha em Gurupi também. P/1- Que que elas fazem, essas irmãs que trabalham em Gurupi? R- Elas fizeram pedagogia, uma é supervisora, outra é orientadora e a outra trabalha na escola. P/1- E esse curso de, que você fez, de turismo, como é que foi, você resolveu fazer turismo? R- É porque eu, na verdade, quando eu vim aqui pra Palmas, com a família e a dificuldade e, e eu não tive tanta assim, já com a panificadora, eu não tive mais oportunidade. A oportunidade que eu tive de estudar foi quando eu fui pra lá mesmo, pra Goiânia, que em vez de estudar, eu fui namorar, né? Então as portas foram se fechando pra gente, então só agora que eu to, assim, numa fase mais tranqüila, que já tô; já cresci, a panificadora é só manter aquele padrão, aí o que é que eu vou fazer? Vou estudar, porque eu tenho que dar exemplo pros meus filhos também. Meu esposo estudou, ano passado ele terminou, né, fez história, e agora, como ele terminou, não pode os dois estudar ao mesmo tempo, porque nós temos que administrar a panificadora também, né, aí ele terminou e eu to entrando na faculdade. P/1- E por que a escolha do curso de turismo? R- Porque tá bem ligado à minha área agora, que é o, é a gastronomia, a hotelaria, né, e viagem, que eu adoro. P/1- Vai tá juntando o útil... R- Tudo, o útil ao agradável. P/1- Tá, e assim, e como é o reencontro dessa sua família agora, que, assim, vocês viveram praticamente, 10 anos sem uma rotina familiar, né, porque, por mais que o pai morasse longe, não dormiam juntos. Como é a reunião da família agora? R- Nossa, esse final de semana nós fomos lá pra Gurupi, né? É tudo muito unido, um pelo outro, não têm aquelas “brigaiadas”, sabe? É muito bom falar: “Esse aqui é meu irmão, ele me ajuda, trabalha comigo” ou “eu tô ajudando meu irmão”. É só humildade mesmo. P/1- E com o pai? R- Papai também. De olhar pra ele e meu esposo, meus cunhados falar: “Lílian, seu pai é um guerreiro”, porque sair de onde ele saiu, com sete filhos, sem ter uma casa pra morar, vindo do Maranhão, com a mala na cabeça, e hoje ele tem a casinha dele, graças à Fundação, que ele trabalhou, o dinheirinho, que ele ainda trabalha, é lá que ganha, tem a casa, tem o carrinho, tem uma vida tranqüila. Nossa, a gente só tem a agradecer! P/1- Eu queria voltar um pouquinho na época de infância, vocês conversando na escola, vocês conversavam sobre o sonho, o que queria ser quando crescer? R- Conversava [risos]. Meu sonho era só ____ pra artista, queria ser cantora, atriz, morar no Rio de Janeiro [risos]. P/1- E outras crianças, você lembra? R- Não, as... (Troca de fitas) P/1- Na realidade, assim, a gente falando agora até parece que não é nada, mas, assim, na realidade você foi, é, pioneira numa cidade que foi construída no meio do nada. R- Do nada aqui. P/1- Como foi esse, essa época aqui, porque foi muito importante pra esse estado. Como foi isso? R- Saí da Fundação, fui pra Goiânia, aí já tava mais atualizada, acostumada com muita coisa boa, com cidade grande, que você acostuma com aquele ritmo, né? Quando chegamos aqui em Palmas, não tinha nada, nada, nada, só poeira. Você, pra ter uma idéia, a gente morava num quartinho ao lado da panificadora, e não tinha fogo. Quando a gente deitava, forrava a cama, lençol branquinho, né, acostumado já com a civilização, deitava, se você ficasse quieta ali, se não mudasse a posição, no outro dia você podia olhar que você tava fotografia, de tanta poeira que tinha aqui. Quando eu ia pro banco, você não tinha nem prazer de arrumar, vestir uma roupa, porque na hora que você descia no ponto de ônibus pro banco, redemoinho pegava, você já chegava lá com cabelo duro. A única avenida que tinha asfalto, era na Teotônio e na JK. Não tinha nada. Aqui também a gente dormia com a janela aberta, né, quando chovia, alagava tudo, né? E o povo vinha pra cá, era muito aventureiro, eles achavam: “Ah, Palmas, então vou pra Palmas, vou ficar rica, vou ganhar dinheiro”, esquecia que pra você conseguir alguma coisa, você tem que trabalhar, você tem que, que lutar, que dinheiro não cai do céu, não é da noite pro dia, entendeu? Aí o que acontecia? Os comerciantes, aqui, anoitecia e não amanhecia, você entendeu? Montava aquela coisa e quando via que não tinha cliente pra isso, porque, pra começar, você tem que ir começando aos poucos, você tem que ir crescendo, fazendo seu nome, não é da noite pro dia que você cresce. Não, uma empresa é muito difícil, né, muito, aliás, eu acho que não existe uma empresa crescer da noite pro dia, né, ela tem que ter uma história, como a gente tem a história da gente também, né? P/1- E aí, como é que era a população, ela cresceu, foi uma cidade que “explodiu”, né? R- Cresceu muito. P/1- Como foi essa trajetória desses 10 anos da cidade, você crescendo junto? R- Ah, foi muito gratificante, hoje a gente olha, assim, também, e lembra, fala pros meninos: “Ah, quando nós chegamos aqui não tinha nenhum prédio, não tinha asfalto”. Energia, acabava todo dia energia, a gente ficava sem energia, às vezes perdia os produtos que fazia, aí ficava sem água também, água sempre tava acabando, enfim, era muita dificuldade. Teve, tivemos que ser guerreiros mesmo. Mas hoje é gratificante. P/1- Queria voltar um pouquinho, queria saber, lá na escola de Canuanã, é, aniversário dos alunos, como é que era a comemoração? Cantava parabéns, tinha algum bolinho? R- Tinha sim, o que as professoras faziam, né? Por exemplo, da sala de aula, juntava todas as salas, aí cantava parabéns, fazia um suco. Tinha às vezes, quando não fazia na sala, aí fazia lá na recreação, que era onde você ia fazer os bordados, crochê, tricô. Sempre eles estavam preocupados em dar carinho pra gente, tá dando atenção. P/1- Era comemorado aniversário individual ou era... R- Não, era todo mundo junto, não tinha... P/1- Do mês. R- Era do mês, tudo junto. P/1- Era uma vez por mês que comemorava os aniversários? R- Era, ahã, era. P/1- O que, quem fazia tinha sorte, né [risos]? R- Tinha [risos]. P/1- Agora, assim, uma avaliação, assim, você estudou numa escola, num internato, numa escola que era para pessoas carentes, com uma educação rígida e tal. E os seus filhos hoje estudam numa escola, acho que boa, tudo, você tem uma comparação do ensino, como é que era o, como é que era... Você acompanha, como é que é a diferença? Que que você sente dessas duas comparações, assim? R- Hoje, na educação, ela mudou muito, assim, até nível, é... Na época, a educação era muito boa, porque ela teve uma evolução muito grande. Hoje, coisas que eu vi lá em 4ª série, 5ª série, por exemplo, verbo, meus filhos estão vendo no primeiro, primeiro ano, né? Então o ensino, pra época, era excelente, era a oportunidade que a gente tinha, só que hoje a evolução, ela, com a evolução, a educação, ela melhorou muito, eles tão muito mais preocupados em trazer conhecimento a cada dia pro aluno. E lá também já melhorou muito dessa época. Na época, nós éramos considerados os melhores, porque até nas fazendas, assim, onde se ensinava a ler o bê-a-bá, o a-e-i-o-u, que era isso que você aprendia, né, a carência, você só aprendia aquilo ali até fazer seu nome. E lá não, lá já ensinava tudo, tinha caderno, ensinava caligrafia, que era novidade, né, que a gente não tinha isso, a gente, não, os alunos que estudava, assim, em fazenda, que não tinha oportunidade de ir pra lá, que alguém ensinava, era assim. Então lá já estava muito evoluído, muito à frente. P/1- E, em relação a valores, você acha que o valor, os valores que se passam hoje na escola, e os valores que passaram naquela época, tem um, assim, alguma diferença, porque a Fundação sempre foi muito forte nos valores, né? E hoje, como é que tá essa nova escola? R- Eu acho que os valores são assim, cada dia que passa vai se atualizando, né? Mas, assim, como hoje, por exemplo, eles já, já fazem, já ensinam sobre sexo, eu acho que o namoro não é tão proibido lá, né, não pode ter isso, mas eu acho que não tem aquela coisa, que eles nem se falavam, né? E, até porque lá tem televisão, então aí eles já tão mais “avançadinhos”, já tão sabendo tudo, né? Mas a preocupação deles em trazer bagagem, conhecimento pros alunos, né, sempre foi muito grande. P/1- Lá da Fundação. R- Lá da Fundação. P/1- E na escola dos seus filhos, você percebe essa preocupação também, ou você acha que assim “pô, na época da Fundação”... R- Não, a escola dos meus filhos também é muito boa, eles, é uma preocupação que eu tenho também, né, de ter uma base boa pra eles, é; as oportunidades deles são outras também, eles são, tipo internato também, que é das irmãs, das freiras, o Sagrado Coração de Jesus, que é o Madre Clélia (Merloni?). P/1- Você procurou alguém parecido com o que você _________. R- É parecido com, já pensando nessa responsabilidade que a criança tem que ter, na educação que a criança tem que ter na escola. Lá eles fazem também oração, eles fazem tudo que a gente fazia, apresentação, tem a religião, eles, é, ensinam a, a orar antes do lanche, depois do lanche, enfim, toda aquela preocupação que a gente tinha, que eu acho isso muito interessante, você colocar Deus nos seus filhos, né? P/1- Então, pra você, assim a escolha da educação dos seus filhos... R- Foi baseada na que eu tive. P/1- E por que isso? R Porque eu acho que valeu a pena, que hoje eu cresci, sou alguém, sou uma pessoa que consegui me realizar, que eu tive berço, eu tive uma educação. P/1- É meio óbvio uma coisa assim [risos]. E que que você acha, assim, da Fundação Bradesco em relação à educação no Brasil, o que, qual é a comparação, assim, a Fundação Bradesco, ela foi, assim, preponderante, ela faz uma diferença, ela, ela, por que que, pra educação do Brasil? R- Olha, eu acho que a Fundação Bradesco, ela, pra Brasil, ela foi tudo e continua sendo tudo, porque senão fosse os ensinamentos da Fundação, hoje o índice de analfabetismo seria muito maior, que muitas crianças como eu, meu pai mesmo fala: “Olha, se a gente não tivesse conhecido a Fundação, hoje, meus filhos, eu acho que vocês eram analfabetos, porque que oportunidade que vocês iam ter? Então agradeçam”. Meu pai é bem consciente sobre isso também. P/1- E, pra você, você acha que, assim, ela foi preponderante na sua transformação enquanto pessoa, na transformação de ascensão social? R- Eu acho. Tudo, a minha base foi a Fundação, foi o banco também. P/1- Te prepararam para o mundo. R- Ahã. P/1- E o que que você fala, assim, e hoje, o que que você falaria, assim, avaliando a pessoa que você é hoje, uma avaliação de você? R- Eu, assim, eu sou muito agradecida à Fundação Bradesco, ao banco também, tudo que eu aprendi eu agradeço a eles, né, hoje me considero uma pessoa, assim, que me sobressai, usando os ensinamentos deles. Uso porque sei que são certos, e eu sou suspeita pra falar, que eu sou a maior defensora da Fundação [risos]. P/1- E o que que você achou dessa iniciativa da Fundação de tá fazendo a história dela, mas a partir da história das pessoas que viveram essa história? R- Eu acho que serve de incentivo pros outros, né, porque tem gente que não dá valor, então eu acho que ela tá trazendo a realidade dela pra mostrar pras outras crianças, que você querendo, é querer, poder e conseguir, você vai conseguir também da mesma forma que a gente conseguiu. P/1- Tá. E tem alguma coisa que a gente não deixou, assim, não perguntou que você acha importante falar, alguma coisa que passou despercebida pela gente, ou um causo ainda que você lembrou, que você queira contar? R- Não, tá bem completo. P/1- Tá, então assim... P/1- E ter participado dessa entrevista pro projeto de memória oral, como é que foi, seu sentimento, você recebeu a notícia? R- Ah, só de agradecimento, e, pros filhos, é um exemplo muito grande também, né, cada coisa que você participa, você da exemplo pro seu filho, falando: “Tá vendo, eu fui uma boa aluna, eu sobressai, hoje eu trabalho, então eu quero que você seja assim também, né?” Pros filhos é um exemplo muito grande também. P/1- Tá, então em nome da Fundação Bradesco, em nome do Museu da Pessoa eu gostaria de agradecer essa entrevista que você nos deu. R- Obrigada vocês. P/1- Obrigada a você. -----FIM DA ENTREVISTA----
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+