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História de: Luiz Carlos Soares de Souza Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu relato, Luiz Carlos Soares de Souza Rodrigues relembra momentos importantes de sua carreira como seu primeiro emprego na Cia. Telefônica Brasileira, sua ascensão no BNDES, onde se tornou diretor e viu os resultados de seu trabalho no crescimento do banco.

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História completa

P1 - Boa tarde, senhor Luís Carlos, eu gostaria de começar nossa entrevista pedindo pro senhor dizer seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Meu nome Luís Carlos Soares de Souza Rodrigues, nasci no Rio de Janeiro, em 30 de julho de 1926.

 

P1 -O nome e a origem dos seus pais?

 

R- Alberico da Cunha Rodrigues e Augusta Soares de Souza Rodrigues, todos do Rio de Janeiro.

 

P1- A profissão do seu pai?

 

R- Era engenheiro civil e durante muitos anos engenheiro do Ministério da Marinha, no arsenal de marinha do Rio de Janeiro.

 

P1- O Sr. nasceu em que Bairro?

 

R- Eu nasci em Laranjeiras, por isso sou tricolor.

 

P1- Costumava ir a Laranjeiras assistir o jogo?

 

R- Sim, eu frequentava o Fluminense, muito.

 

P1- Alguma memória especial do Bairro, na sua infância?

 

R- Olha, memória eu me lembro da época de carnaval, tinha uns blocos locais que eram muito interessantes, não era desfile como hoje, mas era muito movimentado tinha os coretos, aquelas batalhas de confete, isso eu me lembro muito bem. E também tinham as festas juninas, que em Laranjeiras eram muito atendidas, balão pra tudo quanto é lado nas ruas.

 

P1 - E quais foram as escola que o senhor estudou?

 

R - No primário e ginásio foi no Colégio Antônio Maria Zacarias, depois eu completei o científico no Colégio Santo Inácio. E depois superior na Escola Nacional de Engenharia, ainda no Largo São Francisco, na Universidade Brasil.

 

P1- E a opção de cursar engenharia foi por quê?

 

R- Olha, em parte por meu pai, que era engenheiro, eu gostava daquela ocupação e também por minhas atividades desde garoto eu gostei muito de mexer em instalações elétricas, em consertar aparelhos, achava que tinha seguir a carreira de Engenheiro e de fato segui. Primeiro fiz Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Engenharia de fundações e solos, Engenharia Rodoviária, enfim várias especialidades. Mas a que eu fiquei mais tempo mesmo foi na área de eletricidade.

 

P1- Seu primeiro emprego foi onde?

 

R- Foi na Cia. Telefônica Brasileira, eu era estagiário e depois passei a Engenheiro, na antiga CTB. Depois fui Engenheiro eletricista do Ministério da Marinha e em seguida Engenheiro de uma antiga firma de construção Construtora Genésio Gouveia, aí fui como engenheiro Civil, e de lá vim para o BNDES, mas pelas minhas atividades no setor elétrico, na época estavam procurando engenheiro com experiência no setor elétrico.

 

P1- O Sr. veio em que ano pro BNDES e o que significava, profissionalmente, estar ingressando no Banco?

 

R- Olha, eu vim em 54, fui entrevistado no Banco, também queria saber bem o que era o Banco porque  era novo, eu não sabia bem o que eu ia fazer e também profissionalmente, por ser um órgão novo eu achava que podia fazer carreira nessa instituição, entrar num órgão mais antigo é sempre mais complicado. O Banco tinha dois anos e pouco quando eu entrei, depois fui designado interino e em 1956 fiz o primeiro concurso público para o Banco na especialidade de Engenharia elétrica, passei e aí fiz sequência de atividades no Banco, fui chefe de setor, fui chefe de divisão de eletricidade, depois chefe do departamento de controle, chefe do departamento de projeto, fui responsável pelas construções do Banco, tanto em Brasília como no Rio, esse prédio aqui estava sob meu comando, na época eu era diretor e...

 

P1- E como surgiu a ideia de construção desse prédio?

 

R- O Banco no início, quando eu entrei estava espalhado, tinha na Sete de Setembro era a principal, depois ele comprou aquele prédio na Rio Branco e ali não cabia o Banco todo, tinha outros andares alugados, estava muito separado. Quando foi oferecido ao Banco, em leilão, esse terreno onde está o prédio, os  diretores acharam bom o negócio, compraram o terreno e ficamos com a obrigação de construir num certo prazo e aqui de fato dava pra acomodar o Banco todo e as subsidiárias que nasceram depois daria. Eu fui encarregado, já tinha acabado a obra em 53, que eu fiz e aí me jogaram pra fazer essa aqui também, chefiar uma comissão que conduzia a obra desse prédio, eu saí do Banco o prédio não estava ainda totalmente pronto, estava quase pronto.

 

P1- O que significava participar desse projeto de criar um Banco deste tamanho?

 

R- Olha, a coisa começou no próprio setor de energia elétrica, que o Banco participou dos maiores projetos do país na época, foram financiados pelo Banco, Três Marias, Furnas, foram dois maiores projetos na época no setor de energia elétrica e então a gente sentia-se trabalhando no Banco como parte da realização desses projetos, então achava-se que o mérito do projeto era em parte sua, da sua dedicação, acompanhamento e isso tudo me  fez continuar no Banco nesse tempo todo porque no início da minha vida eu não era de ficar muito tempo num mesmo lugar, e eu atribuo também que eu fiquei esse período todo porque eu mudei dentro do Banco. Eu comecei com a parte de projetos, depois fui pra parte de controle, depois cheguei a diretor me jogaram com áreas administrativa e financeira, então eu sofri uma variação enorme de atividade e isso me prendeu porque cada uma que eu entrava eu sentia um motivo pra me empenhar. Na parte administrativa, que todo mundo tinha horror de lidar, eu tive de enfrentar, alterar, na época em 72 por aí, foi o antigo regulamento geral era um plano novo de pessoal, depois que eu sai acabaram com ele, fizeram outras coisas, não sei, mas na época eu entendia que aquilo é que atendia melhor ao Banco, porque permitia que o indivíduo crescesse na sua profissão, sem obrigatoriamente, ter que passar a ser um executivo. Porque na minha época eu estava sentindo é que a maioria pra melhorar de condições financeiras se dedicava a ser executivo porque conseguia subir e o técnico ficava prejudicado na sua carreira, então eu fiz um plano que um técnico podia chegar a salários muito próximos dos executivos do Banco, pra que ele fosse estimulado a continuar como um profissional não precisava ser um executivo. A Fundação, a FAPS, fui eu que defendi a FAPS, a diretoria pra implantar a FAPS, coisa que me honra muito.

 

P1- Tinha alguma reticência com relação a isso?

 

R- Havia muita dificuldade porque o Banco era um órgão público e a Fundação tinha que ter a participação de empregados e do Banco, então o problema da participação do Banco foi muito delicada e discutida em nível de ministros e presidência da República para se fazer uma coisa que não desse margem a contestações futuras e de fato as únicas questões levantadas, nós ganhamos tranquilamente. Inclusive no Tribunal de Contas da União, que levantaram lá, um camarada que levantou o problema nós ganhamos por sete a zero, todos os ministros deram que a FAPS estava absolutamente correta em todos os seus processos. E talvez tenha sido uma das primeiras fundações a equilibrar contribuição patronal e de empregado, primeiro dois pra um e depois um pra um, pouco antes do governo exigir isso a FAPS já estava com essa paridade.

 

P1- Nesses 30 anos de Banco, muitos projetos envolvidos, tem algum que tenha lhe marcado mais?

 

R- Eu citei esses dois de energia elétrica. A USIMINAS, quando eu assumi a parte de chefia de departamento, foi um projeto que marcou porque foi uma experiência única dos japoneses num país tão distante como o Brasil, eles participaram acionariamente e financiaram, eu fui ao Japão discutir aumento de capital pra USIMINAS, três vezes, então esse é um projeto que me marcou muito. E outro que eu destaco porque foram colegas meus, eu estava ainda na chefia de departamento, foi o projeto da Mafersa, uma empresa que estava muito mal e que conduzida por funcionários do Banco, sem nenhum favorecimento da administração do Banco, eles disputaram crédito no meio financeiro normalmente, eles conseguiram recuperar a empresa, tornar ela lucrativa e ela passou a dar dividendos ao Banco. E para concluir, desses projetos que me chamaram a atenção, eu vou citar um que foi um dos primeiros que eu participei, que foi a compra de ações da Light, companhia estrangeira, não podia receber financiamento do Banco a não ser autorizado pela presidência da República e na época o presidente autorizou que o Banco não financiasse, mas comprasse  ações. Houve muitas críticas, que isso não seria bom pro Banco, eu defendi o caso e acabou sendo aprovado e compraram ações da Light. Isso foi em 50 e poucos depois veio a correção de ativo, essas ações compradas por um, passaram a valer 20 e tantos então foi talvez o maior negócio do Banco, em termos acionários, a compra de ações da Light. Eu sabia que a energia elétrica retribuía bem, mas ninguém podia imaginar que uma medida de correção de ativos o negócio fosse dessa ordem, então foi um salto enorme.

 

P1-  Pro Sr. o que é o BNDES?

 

R- Olha o BNDES, você vê a minha história aqui dentro, faz parte da minha vida né e eu quando eu fiz concurso, eu estava casado há cinco anos, foi uma aflição tremenda porque se perdesse aquele concurso, perdia o meu emprego e depois a minha ligação com o Banco se tornou cada vez mais próxima pelos ideais que o Banco defendia e eu também defendia. E uma grande coisa no BNDES,  sempre deixou se pensar livremente, cada um pensava e opinava como queria, não havia imposição de cima pra esse ou pra aquele lado. Então isso pra mim teve uma influência muito grande, porque eu não gostava de trabalhar, eu trabalhei na Marinha e o Almirante quer, um negócio impositivo, eu nunca gostei disso. E aqui eu me senti muito bem, porque em todas as administrações, as melhores, as piores, as que não são perfeitas em virtude, nunca nenhuma obrigou um técnico a dizer o que ele não queria dizer. Os projetos mais difíceis em épocas, que o governo Federal queria que se aprovasse e que a opinião técnica não era a favor, acabamos armando operações com condições prévias que atenderiam o objetivo do Banco e que atendia também o governo e aprovamos a operação, só que a operação não seguiu porque o interessado não conseguiu cumprir as condições impostas então conseguimos o que nós queríamos. Essas coisas que fizeram ficar no Banco e principalmente, acho que o progresso do país está intimamente ligada à atuação do Banco. Se não fosse o Banco, não teríamos aqui indústrias siderúrgicas que nós temos hoje, a indústria naval já teve sua época áurea também com apoio do Banco, a indústria automobilística menos, mas a Volkswagen teve financiamento, inicialmente, do BNDES. A indústria metalúrgica e de bens de capital, todas tiveram apoio do BNDES, então é muito difícil separar o progresso do país da relação de atividade do Banco, ele participou de quase todos os grandes empreendimentos do país, senão de todos. Seja diretamente, seja por agente, seja pelo financiamento da Finame, bens de capital, as máquinas de Itaipu, foram financiadas pela Finame, então isso de fato deixa a gente orgulhoso, do país e da atividade do órgão que serviu.

 

P1- Pra finalizar, o que o senhor achou de ter dado esse depoimento pro Projeto Memória, 50 anos do BNDES?

 

R- Olha, eu acho muito interessante porque muitas vezes a gente esquece as coisas. Evidentemente, pelo período que eu passei nessa casa eu poderia ficar falando com a senhora horas e horas, mas temos que ser concisos. Eu acho uma excelente ideia, é uma forma de não se esquecer daqueles que fizeram a grandiosidade dessa Instituição, porque hoje o Banco, não era quando eu entrei, já era bem grande quando eu saí e hoje tá muito maior ainda. Geralmente, a gente fica muito ligado nos últimos dois, três anos e esquece do passado, então fazer isso dá margem para que os atuais se lembrem que outros, que  já passaram por aqui fizeram um trabalho ou tiveram seu esforço dedicado a entidades.

 

P1- Muito obrigada pelo seu depoimento.

 

R- Obrigado a senhora. 

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