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História

A engenheira elétrica que se apaixonou pela Eletropaulo

História de: Maria do Carmo Marini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2005

Sinopse

Nesta conversa, Maria do Carmo fala sobre a descendência da sua família, faz uma pequena descrição da sua cidade natal e relembra, com nostalgia, a sua infância e brincadeiras da época. Sublinha a imaginação como um traço marcante na sua infância. Diz sobre sua relação com os seus pais, irmãos e avós. Traz para esta conversa a época de colégio, o gosto pela leitura e literatura e a admiração pelos professores. A importância da escola privada e pública na sua formação. Fala porque decidiu optar pelo curso de engenharia e da experiência de ser a única mulher numa classe de 40 alunos. Nos conta como foi a sua vinda para São Paulo e como foi difícil conseguir emprego como engenheira por ser mulher. Ela foi a engenheira eletricista da Volkswagen, na época.  Destaca o processo de cisão e privatização da Eletropaulo e sua participação nesse processo.

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História completa

P/1 – Bom dia, para começar a entrevista, diga por favor o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome completo é Maria do Carmo Marini, nasci em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no dia 11 de abril de 1951.
 
P/1 – E o nome dos seus pais?

R – João Pedro Guedes e minha mãe Maria Catarina _________( ? )  Guedes, e sou Marini porque sou casada com Antônio Carlos Marini.

P/1 – Qual a origem dos seus pais?

R – A família do meu pai é uma mistura de espanhóis e portugueses, lá daquela Região Sul, uma característica daquela região. E a família da minha mãe tem uma mistura de imigrantes italianos e alemães. Além dos portugueses e espanhóis lá do sul, que compõem quase todas as origens lá.

P/1 – Seus avós eram imigrantes ou  já nasceram aqui?

R – Meus bisavós maternos vieram da Alemanha. Minha bisavó veio  quando criança, e meu bisavô veio jovem pro Brasil, na faixa dos 20 anos.  E  dos outros, as origens são meio perdidas de quando vieram.

P/1 - Quantos irmãos você tem?

R – Tenho cinco irmãos. Duas irmãs e três irmãos. Sou a mais velha.

P/1 – Como é Santa Maria?

R – É uma cidade central, no Rio Grande do Sul, que durante muito tempo foi um entroncamento ferroviário no estado, muito importante, inclusive, porque lá passavam os trens que iam até a fronteira com o Uruguai e Argentina. E nos últimos 30 anos se caracterizou por ser uma cidade que tem muito estudante. Tem uma universidade federal grande, que recebe estudantes do Rio Grande do Sul e de outros estados. É uma cidade média, tem por volta de 150 mil habitantes. Era muito divertida quando eu morava lá [risos]. Era uma cidade de muita gente jovem, muita festa, muito agradável.

P/2 – Você passou sua infância lá?

R – Sim.  Estudei lá,  saí com 22 anos, quando saí da universidade.

P/2 – Você se lembra da casa onde vocês moravam?

R – Era uma casa grande [risos], pois a minha  família era enorme. E a casa ficava  num terreno em comum com o dos  pais da minha mãe. Eles tinham um terreno ao lado, tinha um quintal enorme, com árvores frutíferas. Quando eu era criança, para mim,  era uma aventura andar por lá, porque eu tinha uma imaginação muito fértil e viajava naqueles lugares...Tenho grandes lembranças  de momentos muito excitantes no quintal da minha casa [risos].

P/1 – Que brincadeiras você  brincava com seus irmãos?

R – Olha, brincávamos de imaginação, de viagens, de esconder, de pega-pega. Mas, o mais significativo foi  fantasiar grandes viagens. E isso tem muito a ver comigo, porque eu gosto de viajar. Acho que a melhor coisa que tem é você conhecer novos lugares, novos mundos, novas formas de viver. Desde criança tenho essa grande paixão.

P/2 – E esse quintal, você tinha a sua parte preferida, uma árvore?

R – É, tinha uma árvore preferida. No Rio Grande do Sul têm umas árvores grandes que são os cinamomos. Teve uma, específica, que foi cortada, um tronco enorme, e ao redor nasceram novos galhos. Então ela tinha uma plataforma e ao redor dessa plataforma, galhos, que a escondiam. Esse era o meu lugar predileto.

P/1 – Seu pai trabalhava com quê?

R – Meu pai era comerciante, teve  loja de móveis durante muito tempo, e depois, numa época que eu já era adolescente, começou a plantar soja também, a gente tinha uma fazenda de plantação de soja. Meu pai morreu muito jovem. Morreu com 53 anos.

P/2 – Você tinha que idade, nessa época?

R -  Eu tinha 28, acho. É, meu filho já tinha nascido.

P/1 – Como era o seu pai?

R – Meu pai... No começo, quando a gente era pequeno, ele tentou ser um pai durão. Mas,  ele era extremamente amoroso, e começou a rever todos os conceitos que tinha sobre educação a partir da discussão conosco e se transformou numa pessoa extremamente liberal. Era um sujeito bonito, dançava bem, era o confidente que eu tinha, muito mais que a minha mãe, dava pra falar qualquer coisa com ele, era mais aberto, compreensivo. A minha mãe era mais preocupada com o que os outros iam dizer,  o que a sociedade acha disso, mas meu pai não. Achava que a gente tinha que ser feliz, tinha que buscar o caminho da gente, o destino, era uma pessoa muito interessante.

P/1 – E a sua mãe?

R – Minha mãe era uma pessoa mais...Tensa. Mais preocupada com as regras sociais, em proteger a gente de... Maledicências de cidade pequena. Mas era uma pessoa extremamente amorosa. Ela não era uma mãe muito típica para a geração dela, porque trabalhava fora, não era a mãe que fazia comidinha pra filha, essas coisas. Era um pouco diferente. E isso em alguns momentos da vida... Ela questionou se tinha feito a  opção correta, mas para nós foi formidável, pois desde cedo aprendemos a cuidar de nós mesmos e foi muito interessante.

P/1 – Ela trabalhava em quê?

R – Era funcionária pública, trabalhava no Correio.

P/1 – E vocês tinham empregada em casa?

R – Tinha, normalmente, minha avó morava do lado, dava uma assistência, olhava as crianças e tal. Tínhamos empregada que cuidava do dia a dia, cozinhava, cuidava da gente.

P/2 – Você era a única mulher entre os filhos?

R – Não, tenho duas irmãs. E três irmãos.

P/1 – Como era o seu relacionamento com os irmãos quando vocês eram crianças?

R – As minhas irmãs e eu éramos mais próximas por causa da faixa etária. Os meninos  já são um pouco mais moços, mas a gente se dava bem. Brigava, porque irmãos sempre brigam, né? A minha irmã, que nasceu logo depois de mim, e eu  brigávamos bastante quando crianças, muito mesmo. Ela é do tipo mais provocativo e eu do tipo mais ... De reações mais rápidas, e então eu batia nela [risos] e meu pai batia em nós duas quando brigávamos. Então ela apanhava duas vezes [risos] ... E ela reclama disso até hoje.

P/1 – E a escola?

R – Estudei em escola de freira até a quinta série primária. Eu não tinha idade para entrar no segundo grau, e aí fui para uma escola pública. Naquela época as escolas públicas eram muito melhores. Precisei fazer um exame que chamavam de admissão, uma espécie de vestibular naquela época, que era uma coisa assustadora. Meu pai não queria que eu fosse pra escola pública, achava que  tinha que  continuar no colégio de freiras, e fizemos uma aposta. Eu ia pra escola pública, ia passar no exame, ele achou que eu não ia passar. Fiquei em primeiro lugar no exame e entrei. A partir daí  meus irmãos começaram a trocar de escola,  a ir pra escola pública, porque a família  descobriu que escola pública era boa também [risos].

P/1 – E nessa escola de freira…

R – Comentava-se que nas escolas particulares era mais fácil, pois estavam mais interessados em manter os alunos, o que facilitava a vida. Não sei se era verdade, porque eu  era uma aluna muito estudiosa. Adorava a escola. Sempre gostei muito de ter informação e a minha maior fonte de informação era a escola e os livros. Eu sempre li muito, aprendi a ler sozinha, antes de ir para escola, com cinco  anos. Sempre adorei ler, gosto até hoje. Eu  era rato de biblioteca. Então se a escola era mais fraca não chegava a sentir muito, pois eu aprendia de qualquer maneira, né? Na escola pública era mais pesado, mas sempre fui uma aluna top de linha. Das  primeiras da classe.

P/2 – Essa fase inicial de leitura, qual o livro que mais te marcou ?

R – Robin Hood. Eu não me lembro nem o autor. Eu devia ter uns seis, sete anos. Ganhei o livro... Era branco, escrito em verde, lembro perfeitamente. Li acho que umas dez vezes pelo menos. É o meu livro de criança que lembro mais. Sempre estabeleço uma relação de carinho com os meus livros. Inclusive não empresto livros, não peço livro emprestado. Você sabe que não empresto livro [risos], porque tenho ciúme dos meus livros,  mas esse Robin Hood foi o meu primeiro amor literário [risos].

P/1 – E os professores, tem algum que te marcou no colégio?

R – Tive alguns que gostei muito. Minha professora da primeira série, do primeiro ano primário, era uma professora que eu gostava muito, uma freira muito legal, animada, alegre, não me lembro o nome dela, lamento profundamente, até hoje. Lembro, também, de uma outra freira que achava parecida com a minha unha. Eu olhava a minha  unha e achava a cara da freira. Eu tinha essas coisas quando era pequena. E depois, lembro da minha professora de matemática, no científico, que era superinteressante, gostava imensamente dela. Tive um professor de português no primário, lembro das regras de português até hoje. Eu gostava dele, era um excelente professor, e sei as regras da gramática até hoje. E uma porção de outros...

P/1 – Você tinha uma turminha no colégio?

R – É, tinha uma porção de amigos. Amigas que às vezes ainda vejo, quando vou pra Santa Maria encontro, que estão por lá.

P/1 – E família você não encontra?

R – Não, meu pai e minha mãe já morreram. Meus irmãos quase todos saíram de lá. Só tenho uma irmã em Santa Maria,  a mais moça delas  e uma tia, irmã da minha mãe, que foi uma espécie de mãe auxiliar, que ainda mora lá. Eventualmente vou visitá-las.Tenho quatro irmãos aqui em São Paulo e um outro em Santa Catarina. E então a família toda foi saindo de Santa Maria. Tenho tios, tias ainda lá,  gente que gosto muito e que vejo de vez em quando.

P/ 1 – E as brincadeiras na cidade, Santa Maria é uma cidade pequena…

R – É uma cidade média, mas que  brincadeira, que tipo de brincadeiras?

P/1 – De rua... Com outros coleguinhas…

R – Isso era uma coisa que existia muito. Mas, eu não era muito autorizada a brincar na rua. A minha família não permitia muito essas coisas. Não ando de bicicleta porque minha mãe achava que uma mocinha não devia andar de bicicleta. Para ela uma mocinha deveria tocar piano [risos]. Então, a gente não tinha muito essa coisa de brincar na rua. Em geral os nossos amigos vinham na nossa casa, ou nós íamos na casa deles. Mas na rua eu não costumava brincar.

P/2 – E o piano?

R – Estudei piano até os 14 anos, aí abandonei. Hoje não toco nada de piano. Por alguma razão apaguei as minhas aulas de piano. Inclusive, há alguns anos meu marido me deu um piano pra ver se eu voltaria a tocar, não voltei. Daí a gente teve que comprar casa, precisava de mais dinheiro, vendi o piano [risos]. Mas, aprendi,  porque era meio obrigatório.

P/2 – Me conta como uma freira poderia se  parecer com uma unha.

R – Não sei. Achava parecida [risos]. Sempre tive muita imaginação. Quando eu  era criança minha imaginação corria solta. Hoje,  controlo um pouco mais. Mas hoje, que tenho quarenta e poucos anos, chego a um  restaurante,  sento, fico olhando as pessoas e pensando na história que elas têm e invento uma história com a maior facilidade para cada uma delas. E talvez tivesse até sido bem sucedida se entrasse nessa linha de escrever,  porque é uma coisa que gosto muito. Quando eu era adolescente, até cometi algumas barbaridades. E então... Tenho memória olfativa, por exemplo. Lembro dos cheiros  de quando eu era criança. Tenho um móvel, na minha casa, que era o que o meu avô usava para pôr os livros de contabilidade dele. Ele fazia a contabilidade da família, escrevia com caneta tinteiro, e tinha um cheiro característico. O móvel está na minha casa e lembro do cheiro  da tinta. Então... a unha parecia com a freira.

P/1 – Seu pai tinha comércio. Vocês frequentavam ____( ? ) o comércio do seu pai?

R – Íamos visitá-lo na loja.  Ele começou trabalhando numa loja, virou gerente,  depois teve sua própria loja. Meu pai era assim ... Quando jovem fez um monte de coisa. Foi motorista de táxi, se virou muito até chegar a ter seu próprio  negócio.

P/2 – Você lembra de alguma passagem que tenha sido fundamental em termos de relacionamento contigo ?

R – Meu pai sempre me deu tranquilidade. Ele deixou muito claro para mim, e acho que  para todos os filhos, que não importava o que acontecesse na vida, ele estaria sempre presente. Sempre. Acho que ele  foi sempre aquela presença de me dar sossego. Realmente sinto muita falta dele, acho que se ele estivesse por aí, em alguns momentos difíceis que passei, teria sido muito mais fácil. Era pegar o telefone e dizer : “Olha, tô mal”, e ele estava sempre disponível.

P/ 1 –Você disse que fez o ginásio num colégio estadual. Qual colégio era?

R – Colégio Estadual Manoel Ribas.

P/1 – E como é que foi sair de um colégio de freiras, teve algum choque de cultura?

R – Não, foi maravilhoso [risos]. Adorei. Foi muito bom, a escola era muito animada. E era assim, quando eu estava no colégio de freira,  estudava pertinho da minha casa. No colégio estadual eu tinha que atravessar a cidade. Eu ia, andava, via e conhecia gente, foi maravilhoso. Adorei. Tenho boas recordações, grandes colegas, gente superinteligente. Foi muito legal.

P/1 – Aí você terminou o ginásio, e foi…

R – Fiquei no mesmo colégio. Fiz o científico, e depois fiz vestibular para a escola de engenharia na Universidade de Santa Maria. Sou engenheira eletricista.

 P/ 1 – E como é que foi? Porque escolheu esse curso?

R – Quando eu era garota, as pessoas que eram destacadamente inteligentes, ou iam pra escola de medicina, ou de engenharia, ou de direito. Os outros cursos todos não eram assim tão... A escolha para engenharia...Teve  uma época  que minha mãe dizia que eu ia ser médica. Até pensei, quem sabe vou ser médica, mas fui duas ou três vezes  num ambulatório e desisti na hora. Não tinha nada a ver comigo. Daí a escola de direito... As pessoas não acreditam, mas sou extremamente tímida. E, não acredito que eu daria uma boa advogada para ficar lá na frente discursando,  não dava certo. Então pensei em engenharia, porque sempre gostei muito de matemática, física e foi um caminho meio lógico a escola de engenharia. Fiz vestibular e me classifiquei bem. Na minha turma de engenharia entramos em dez e fui a única mulher que se classificou entre os 40 primeiros. A gente tinha duas turmas de 40 alunos. Eles dividiam o primeiro ano de engenharia. Tirei o sétimo lugar, acho. E inclusive fiquei dois anos sendo a única moça da classe, até que no terceiro ano…A gente dividia por especialização, né, mas nos dois anos de básico eu era a única moça da minha classe com 39 rapazes. E era ótimo isso.

P/2 – Com todo esse pendor literário, você acabou optando por uma carreira de exatas. Como você vê essa mudança?

R – Ih, então, eu tenho essas veleidades literárias, mas sou uma pessoa lógica, não por formação, mas por natureza. Então, acho que a formação tem um pouco a ver com o meu jeito de ser. Gosto de ser lógica nas coisas, apesar de deixar a imaginação correr solta etc. tudo meu tem uma certa lógica. Não fica ponta solta. Tenho uma certa lógica mesmo nas coisas de imaginação correndo.

P/1 – E por que era tão bom ser a única mulher na turma?

R – Naquela época, primeiro eu não sabia como as mulheres são interessantes. Ë uma coisa que aprendi com o tempo. E eu era muito paparicada. Já era mimada desde criança, não falei pra vocês do meu avô. Meu avô foi o primeiro grande amor da minha vida, antes do meu pai, meu avô me mimava muito, quando eu era criança. Meus avós, mas especialmente meu avô. E aí, quando você é a única moça numa turma de rapazes você é muito mimada. E isso era muito gostoso. Muito gostoso.

P/2 – E dessa época de adolescência, qual é aquele flash, aquele sentimento que você guarda até hoje?

R – De adolescente [suspiro], uma coisa que lembro até hoje, já falei que gostava de ler. Na minha casa nós não tínhamos o hábito de comprar muito livro, então eu era uma frequentadora assídua da biblioteca. Uma coisa que lembro muito, é que duas vezes por semana, quando estava no ginásio, eu saía às 4h15min.da manhã. Tinha dias que eu saía cedo, em os outros dias eu saía tarde. Então andava uns oito  quarteirões, em cinco minutos, pra chegar na biblioteca às 4h25min. para ter meia hora pra ficar lendo na biblioteca. Ia para a área de revistas em quadrinhos e ficava lendo naquela meia hora, até que batia o sinal pra gente ir embora. Isso lembro até hoje. Era uma corrida.

P/1 – E namorado?

R – Bom, o meu primeiro namorado eu tinha nove anos. Nós éramos do mesmo bairro, e já tinha me apaixonado por ele quando tinha sete anos. Aí, tinha desistido e tal e aos 11 anos a gente começou a namorar um pouquinho. Acho que uns dois meses, ele era muito tímido e eu também. Então, não foi um namoro muito animado [risos]. Mas foi engraçado, divertido. E ele hoje é casado com uma grande amiga minha, que era minha amiga já no tempo em que estávamos no colégio [risos].

P/1 – Mas como é que era esse namoro, naquela época? Falava que era namorado, só?

R – É, a gente se encontrava no clube, ficavámos sentados conversando e não tinha muito assunto, até porque era uma coisa muito tensa, nós dois éramos muito tímidos, e assim, tinha toda uma regra de... Um mês pra pegar na mão, quando pegou na mão ficou muito pesado, acho, daí ficou uns três meses naquela coisa de pegar na mão. E quando já era época pra passar pro próximo estágio, nossa timidez foi maior e a gente acabou terminando, porque não sabíamos o que fazer daí pra frente [risos]. Depois tive uma porção de namorados. Eu gostava de namorar.

P/1 – Tem algum que tenha marcado mais?

R – Tive um namorado, vamos dizer, firme, quando estava no último ano de faculdade. Ele terminou o curso um ano antes de mim, então saiu da cidade, acabou devido a distância. Era um namorado que as famílias se envolveram, a expectativa era de que a gente até casasse. Mas, cada um foi para um lado e acabou dando em nada. Então, esse foi o namorado mais firme. Namorei um dos meus primos, quando eu tinha 16 anos, alguns colegas de escola, nada muito importante, não.

P/1 – Que você fazia, saía  à noite, baile?

R – Lá em Santa Maria tinha um hábito que a gente ia pro cinema, no domingo à noite, saía do cinema e tinha um quarteirão, uma rua ali perto dos cinemas, que fechava pro trânsito, e a gente andava. As meninas andavam e os meninos ficavam de pé na rua, esperando a gente desfilar. E eventualmente, quando queríamos começar um namoro, passavámos por lá, e o rapaz se destacava da turma e vinha conversar com as meninas. E ficávamos andando por essa rua, era o nosso grande programa. Depois, quando eu já estava na faculdade, essas coisas já não aconteciam tanto, porque daí a gente se encontrava muito, fazia grandes reuniões, conversas, discutíamos livros, estudávamos política, fiz um pouco de política estudantil nos diretórios acadêmicos. Então basicamente acabou o tempo da paquera, do footing. E os namoros também surgiam muito nesses ambientes de política universitária mesmo. Lá a gente fazia também uma porção de festas, na época que eu estava na universidade, o diretório central dos estudantes, de que fiz parte um tempo, montou uma boate, que naquele tempo boate era um lugar que as pessoas iam dançar. E nós fazíamos festas dançantes, sábados, domingos, sextas, e íamos dançar muito, sempre gostei muito de dançar. Esse era um programa que se fazia bastante. E os namoros aconteciam por ali.

P/2 - ____________(inaudível  CTG, né, que eram aqueles _____________ ( inaudível) , ambiente mais universitário…

R –É. A coisa de CTG [Centro de Tradições Gaúchas] é muito  específica, porque no geral, os CTGs são clubes que têm um grupo folclórico. E o grupo dança essas danças. As pessoas normalmente não dançam essas coisas. Porque são.....

[troca de lado de fita]

... São danças características, com passo marcado, com roupa  específica. Então nesses CTGs...Em geral tem salão que tem baile normal, as pessoas vão lá e dançam rock , agora não é mais rock, eventualmente, na década de 1960, 1970, mas dançam as músicas do padre Marcelo ou o que estiver na moda.

P/1 - _________________________(Inaudível).

R – Trabalhei um pouco no Centro Acadêmico,  cuidei mais da parte cultural. Como eu sempre tive esse viés pra leitura, então sempre gostei  mais de cuidar da parte cultural do Centro da Escola e do Centro Acadêmico Central de Santa Maria. Cuidei mais dessa parte cultural, de organizar debates, biblioteca, peça de teatro...

P/2 - _____________________( inaudível)

R – Engraçado, né, a minha vida na universidade foi uma coisa tão intensa que perdi muitas memórias, porque era  tanta coisa, as coisas aconteciam muito naquela época. Então, não tenho uma memória muito específica de quem que a gente levou lá, realmente não lembro. 


P/1 – Você fez faculdade em que ano?

R – Nos anos 1970.

P/1 - ___________ ( inaudível).

R – Ainda tava. Ainda estava fechado. Tive alguns problemas, mas assim, basicamente fui tratada como indisciplinada e não como uma ativista política importante. Primeiro, porque a minha atividade não chegou a ser tão pesada a ponto de eu  ser presa e segundo, como me relacionava muito bem com as pessoas que, de certa maneira, comandavam o processo lá  dentro da universidade, inclusive, eles me olhavam mais como, a filha do Guedes: “É, ela está metida com esse povo, mas...”de uma certa maneira eu era tratada mais como indisciplinada do que como significativamente política. 

P/1 - _________________ ( inaudível).

R – Não, não. Nem por falta de interesse. Foi falta de oportunidade, porque saí da universidade e vim pra São Paulo e fui trabalhar, eu precisava trabalhar pra me manter. Daí fui pra indústria automobilística, e você acaba mudando  o foco. Só voltei a ter alguma atividade  mais  política a partir da campanha do dr. André Montoro para  o Senado, porque daí a gente começou a se relacionar com essas pessoas ligadas ao governador  Montoro. E começamos a fazer algum trabalho político, principalmente nas campanhas. Meu marido trabalhou bastante, aliás, ele trabalha até hoje nas campanhas do PSDB [Partido da Social Democracia Brasileira],  temos   bastante  relacionamento dentro do PSDB e somos militantes desse partido. Naquela época, éramos  do MDB [Movimento Democrático Brasileiro] .

P/2 – E sua vinda pra São Paulo, como foi _____

R – Quando saí da engenharia, saí  decidida a  fazer uma vida  por  minha conta, deixar de ser a filha do meu pai e provar que era capaz de fazer a minha vida e... Fui estimulada pela minha família a fazer essas coisas, eles sempre achavam bonito isso. Ser independente, ser ... Então, a melhor perspectiva de trabalho pra um engenheiro eletricista só era São Paulo. Ainda enfrentei uma porção de lugares que não me aceitaram pelo simples fato de ser mulher, mas a perspectiva de trabalho melhor era São Paulo, e vim pra cá por causa disso.

P/1 – Você tinha alguma coisa em vista?

R – Vim sem nada em vista. Tinha alguns ex-colegas da escola que já trabalhavam aqui, eles me ajudaram. Fiquei na casa de alguns amigos até arrumar emprego, eles me indicaram possibilidades, bati bastante perna atrás de emprego, fiquei uns dois meses, naquele tempo que era mais fácil ter emprego. Mas, mulher engenheira eletricista, sabe, teve um lugar que cheguei, uma firma, nunca esqueço, uma firma chamada Selaneve ( ? ) que era numa estrada lá em São Bernardo, que hoje é super movimentado, tem bastante coisa, mas naquela época era no meio do mato. Daí fui lá e o rapaz falou: “Não, mas nós não podemos aceitar mulheres, porque só temos banheiros para homens”. [risos]. A Toshiba também. Estava pedindo engenheiro eletricista recém-formado. Também não me quiseram porque era mulher. E mais alguns. Não me lembro o nome.

P/2 -  _______________( inaudível ).
 
R – Foi essa perspectiva de trabalho, mesmo. Ah, endereço em São Paulo. Olha, enquanto eu não arrumei emprego, fiquei num apartamento que meus colegas alugavam na rua Augusta. Ali naquele lugar que é bem barra pesada, pra baixo da rua ____ ( ? ) ali. Eu levantava de manhã, ia tomar café e era a hora que as prostitutas chegavam do trabalho e também iam tomar café na esquina, era uma coisa interessante isso. Depois que arranjei meu primeiro emprego, na Volkswagen, fui morar num pensionato na rua Cardeal Arcoverde.

P/1 – Como é que foi sua entrada na Volks?

R – Eu tinha alguns ex-colegas que trabalhavam na Volkswagen, me avisaram que  tinha vaga lá, fui fazer um teste de admissão, e uma entrevista com o chefe do departamento da área elétrica, que era um alemão gordão  ( ? ) , todo mundo tinha  horror. Ele me fez uma porção de perguntas do tipo: “Você teria coragem de fazer isso? Você teria coragem de fazer aquilo?” Coisas que falei que tinha, mas que  realmente não tinha, e nunca precisei fazer as coisas que ele aventou na entrevista, exemplo: na Volks tem uma coisa que se chama canal de cabos.  São uns canais por onde passam uns cabos de eletricidade, e que muito eventualmente, alguém  precisa fazer manutenção e passar lá dentro. Então, é um túnel, pequenininho, onde os cabos estão. Eu nunca passei num canal de cabo. Mas, é um lugar que tem bicho, aranha, sabe, um lugar... Deve ser terrivelmente assustador _______________?  “Você passaria num canal de cabo?” Nunca esqueci disso não. “Você vai lá e anda lá?” Falei: “Vou”. Imagina. Morria, mas não ia. Se bem que quando eu tinha 20 e poucos anos era extremamente corajosa.

P/1 – E você entrou na Volks em que ano?

R – Em 1974. Eu era engenheira trainee, no primeiro ano. Fazia projeto de instalação elétrica. Aliás, todo o tempo que estive lá fiz esses projetos de instalação elétrica. Nós projetávamos muito em cima de padrões alemães, porque as coisas vinham semi-prontas da Alemanha, e daí acompanhávamos  a execução dos projetos  referentes a partes da fábrica. Trabalhei também em  projetos de instalação de  telefone.

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R – Eu era a única engenheira eletricista da fábrica inteira  da Volks. Era a única mesmo. Eles até fizeram uma entrevista comigo para o jornal da empresa, pra eu contar um pouco a minha história _____.( ?)

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R – Fiquei dois anos na firma. Daí soube que a CESP [Companhia Energética de São Paulo] estava precisando de engenheiro, fiz um teste na CESP e fui admitida. Saí da Volks.

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R – Trabalhei na engenharia de distribuição e também em projetos. Nos primeiros meses já  peguei um projeto específico pra montar, um sistema de acompanhamento de desempenho  de materiais, engenharia de distribuição. Foi uma coisa interessante.

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R – Fiquei na CESP  até 1998. Era funcionária da CESP quando fui pra Eletropaulo, fui emprestada. Aliás, eu já tinha sido emprestada pela CESP pra ficar na secretaria de energia. E dali fui pra Eletropaulo.

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R – Olha, comecei como engenheira assistente, depois fui pro departamento comercial. Andei todos os passos da carreira da CESP. Fui até o último nível antes de diretoria. Fui assistente de diretoria, foi o meu último cargo na CESP. Tem uma porção de níveis, tinha, porque nem sei como é hoje  a estrutura de carreira. A gente era engenheiro assistente, depois sênior, depois engenheiro especialista, depois passava a ser especialista um, dois, três, especialista em administração. Acabei  na linha técnica, sendo especialista em administração  e na carreira administrativa, assistente de diretoria.

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R – A CESP era uma empresa de engenheiros, basicamente dominada por engenheiros, que nós no setor elétrico chamamos de barrageiros. A CESP era uma empresa muito rica, evoluída, eles investiram bastante em treinamento de pessoal. O pessoal era  de excelente nível técnico, bastante conservador do ponto de vista social, mas tecnicamente bastante evoluído. Era uma empresa muito boa de se  trabalhar. Depois, quando a empresa  começou a ficar endividada, pra resolver o problema do caixa do estado as coisas começaram a ficar mais complicadas, mais tensas. Mas, de qualquer forma, existia um espírito de corpo na empresa bastante interessante, existia um tipo de colaboração, também, de autoproteção da corporação bem pesada, acho que ainda existe.

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R – Meu marido foi uma coisa interessante. Eu morava com uma amiga num apartamento na Frei Caneca. Nós saímos pra jantar num domingo à noite, e quando estávamos voltando, subindo a Rua Augusta, dois rapazes pararam num carro. Naquele tempo a gente só pegava ônibus (?) na Rua Augusta. E os rapazes no carro falaram com a gente, minha amiga se interessou por um rapaz e falou:“ Não, vamos conversar com eles”, e meu marido e eu sobramos um pro outro. E estamos juntos até hoje. Faz 22 anos. Por 15 dias a minha amiga andou vendo esse rapaz amigo do meu marido, mas acabou, não deu certo. E a gente continuou, nos casamos e temos o nosso filho de 20 anos, já .

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R – Ele é empresário. É administrador de empresas, mas tem uma gráfica. Trabalhou uma época no governo, no tempo do governador Montoro foi trabalhar em secretaria do governo, depois foi ser assistente de gabinete do dr. André, a gente sempre teve uma relação de muito respeito e carinho por ele. E depois que ele saiu do governo meu marido também saiu, e aí ficou ainda um tempo com o dr. André. Montou uma gráfica, começou com uma maquininha e hoje é uma gráfica pequena ainda, mas em franco progresso.

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R -  Quando começou a campanha do dr. Mário Covas, reunimos um grupo pra fazer um programa de governo pra área de energia. E como a tendência internacional de privatização estava muito forte, começamos a montar um programa nessa linha de privatizar o setor elétrico, por várias razões. Primeiro, estávamos extremamente endividado, no fundo do poço  do ponto de vista econômico-financeiro. Segundo, havia a necessidade de novos investimentos, a gente sabia que num prazo relativamente curto ia precisar de investimentos e o estado não tinha. E o estado precisava de dinheiro pra investir em programas,  outros que obrigatoriamente deveriam estar nas mãos do estado. Então, começamos a montar esses programas de governo já nessa linha de saneamento financeiro das empresas e de mudança do papel do estado, sair de um estado produtor para um estado mais regulador. E reunimos um grupo de pessoas e nesse grupo os que estavam destacados pra assumir a secretaria ________(?), nós éramos um grupo de várias pessoas, umas 30. Mas, basicamente tinha um pequeno núcleo que era quem escrevia, quem apresentava as propostas, esse era um grupo menor,  de umas dez pessoas. E, quando o Davi assumiu a secretaria,  quando o governador Mário Covas assumiu o governo, chamou ele pra ser secretário, e ele levou essas pessoas para a secretaria. E uma delas foi eu, fui ser assessora dele.

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R – Fiquei quase dois anos na secretaria. Desde o começo do governo até 1997, quando fui pra Eletropaulo.

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R – É. Quando a gente foi pra secretaria, a palavra de ordem era saneamento financeiro das  empresas e preparação para privatização. Então, esboçamos a lei de privatização, que depois se transformou na lei do PED [Programa Estadual de Desestatização]. No princípio começamos a pensar em setor elétrico, depois destinamos essa parte pra um pessoal que realmente acabou fazendo a lei. Eles aproveitaram num capítulo da lei maior, que previa a  privatização de todos os setores. Trabalhamos para preparar isso e também esboçar qual seria o modelo de divisão das empresas, porque já existia, também, uma orientação do governo federal de que nós tínhamos que dividir e desverticalizar as empresas, separar geração, transmissão e distribuição em atividades distintas. Então  fizemos na secretaria um primeiro esboço de como dividiríamos as empresas em geração, distribuição e transmissão. E eventualmente dividir as distribuições, as transmissões e gerações em partes para diminuir um pouco as escalas das empresas,  todas enormes. Era muito difícil entrar num processo de privatização do jeito que elas estavam. Fizemos um primeiro esforço na secretaria.

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R – É, a Eletropaulo, nos primeiros dois anos de governo, passou por um processo pesado de saneamento econômico-financeiro e de preparação. Mas, teve um momento que, assim, agora tem que ser privatizada a Eletropaulo, precisa dar um novo modelo. Então o Eduardo Bernini foi convidado para ser presidente. Ele era secretário adjunto e  quando aceitou ir para a Eletropaulo para ser presidente, me convidou pra ir junto, pra ajudar a coordenar esse processo de cisão e desestatização da empresa.

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R – É, primeiro fazer uma cisão para depois partir pra privatização. Quer dizer, o processo é um processo de privatização que implicava uma cisão no meio do caminho para facilitar até a privatização.

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R – Hum, hum...É verdade. Olha, a primeira coisa que tínhamos claro é que tinha que dividir a geração, a transmissão e a distribuição. Esse foi o primeiro corte que tivemos que fazer. E a distribuição, num primeiro momento, nos estudos  da secretaria, tinha  possibilidade de ser dividida em  até seis empresas de distribuição. Regionais, porque a Eletropaulo está numa área que não é completamente contínua, né, ela tem várias áreas, então, num primeiro momento, pensamos em dividir em até seis empresas. Daí, quando começamos a estudar e reunimos um grupo de pessoas dentro da empresa pra fazer um estudo técnico, depois administrativo, depois...Todos os temas que envolviam o processo de cisão, chegamos à conclusão que dividir a empresa em seis blocos ia ser uma coisa tecnicamente muito difícil. E os nossos consultores que estavam formatando a cisão, do ponto de vista de venda, do interesse que poderia despertar no mercado internacional, inclusive, sugeriram que a gente dividisse a distribuição em dois grandes blocos. Um bloco da região metropolitana, que tinha uma solução técnica razoável pra existir, e um bloco com as partes dispersas da empresa, que virou a Empresa Bandeirante de Energia. Criamos um grupo de trabalho, um grupo coordenador e esse grupo eu que chefiava, e um grupo mais amplo com representantes de todas as diretorias para estudar todos os temas envolvidos no processo de cisão. E os nossos advogados, nossa área jurídica também dando apoio quanto ao procedimento legal de cisão. Foi um processo extremamente complexo, muito complexo, a qualidade dos técnicos da empresa ficou bastante clara, porque assim, primeiro, a Eletropaulo foi o processo de privatização maior da América Latina. A Metropolitana, que é uma parte, era a maior empresa da América Latina e também do hemisfério sul. Então, envolvia números enormes, envolvia  muita gente, muitos consumidores, muita gente dentro da empresa, né, mexeu com a vida de muitas famílias, foi um processo extremamente pesado do ponto de vista emocional também, porque a gente precisava ignorar amizades, admiração, respeito técnico, porque algumas atitudes bastante duras precisavam ser tomadas. Precisamos fazer  um plano de aposentadoria em que a gente forçou a barra para as pessoas saírem mesmo, gente amiga que não queria sair foi empurrada e isso foi muito doloroso pra nós que ficamos cuidando do processo que era absolutamente necessário. Sabíamos que a empresa tinha gente demais, e que de qualquer maneira essas pessoas acabariam sendo cortadas numa situação muito mais complicada. Tivemos que fazer um esforço muito grande nessa área de Recursos Humanos. Trabalhamos muito com treinamento, tentou dar-se  apoio de requalificação, mas acredito que tem gente que vai morrer sem entender o papel que desempenhamos lá. E isso é lamentável. Do ponto de vista técnico, a situação também era extremamente complexa porque a empresa é centenária, e ser centenário não significa apenas que você tem uma história, longa, mas significa que você tem muita coisa tecnicamente obscura. Então você tem que ir atrás pra verificar como é que está, exatamente. Foi bastante difícil achar todas as soluções técnicas pra isso, várias coisas ainda ficaram dependendo de contrato entre as partes, as empresas novas que foram criadas, mas a gente conseguiu. E do ponto de vista administrativo teve um esforço fantástico, porque todos os contratos, todas as licitações, todas as prestações de serviço tiveram que ser  divididas proporcionalmente  pra cada uma dessas empresas, assim, do ponto de vista dos serviços e do ponto de vista financeiro também. Então, tinha dia que tinha, sei lá, 200 contratos pra assinar, porque de 50 contratos tudo já era multiplicado por quatro. A diretoria realmente teve trabalho, também, mas basicamente os técnicos que prepararam todas essas coisas tiveram um trabalho insano. Nós trabalhamos uma média de 15 horas por dia e trabalhamos muitos finais de semana. Muitos.

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R – Os principais obstáculos, primeiro foram esses obstáculos técnicos, que tivemos que achar solução técnica para todas essas questões. Mas, os obstáculos técnicos, de um jeito ou de outro, você consegue resolver, porque os técnicos são bons, e também porque, no limite com o investimento, você resolve a questão técnica. A questão administrativa foi muito complexa, um obstáculo grande basicamente pela complexidade e pela quantidade, mesmo, de processos administrativos que  precisaram ser divididos. A resistência das pessoas acho que foi a coisa mais complicada. Porque você está mexendo com as pessoas, com os sentimentos delas, com as famílias, com coisas que você não pode tratar com absoluta frieza. Tem que ser com respeito, e nós tentamos, na medida do possível, dar o máximo de explicações e apoio  para as pessoas, mas de repente tem coisas que são difíceis, mesmo. Nós tínhamos gente que chegou na minha sala, por exemplo, e disse: “ Bom, eu sou aposentado, posso sair, mas quero sair se você passar meu salário de x pra cinco x. E daí vou sair melhor”. E até você explicar pra ele que isso não é uma coisa que dá pra fazer porque a empresa tem regra de promoção, e que  não pode fazer porque também tem todo um esquema de aposentadoria que não prevê essa mudança de salário,  as pessoas jamais entendiam que não era uma implicância pessoal. Que não dava pra ser feito. Então, tive vários desses pedidos que bateram na minha sala e que eu disse não, e que tenho certeza que as pessoas me odeiam até hoje. Tem também aquela coisa de gente que já se aposentou...

[troca de lado da fita]

...Mas que não quer sair porque a gente está lá, a vida da gente acaba sendo uma extensão do trabalho, né, a hora que você para, você não é mais a Maria do Carmo da Eletropaulo, você é Maria do Carmo só, e daí você perde um pouco da sua identidade, é extremamente difícil mesmo para... Eu encontrei um ex-colega lá da Eletropaulo  e  que se aposentou uns meses atrás, e ele me disse que estava em casa, e ele estava com a esposa no Shopping Center, e ela falou: “Mas ele precisa arranjar alguma coisa pra fazer, porque fica lá em casa, não tem um  papel lá em casa e fica me incomodando...”Então, as pessoas acabam não tendo muito lugar em casa pra ficar. Precisam achar saídas. É uma coisa muito difícil. E pra nós, que tínhamos que empurrar as pessoas pra sair foi muito duro,  apesar de alguns acharem que não (riso). Mas foi muito duro mesmo. Esse, acho que foi o maior obstáculo da cisão e da privatização.  Do ponto de vista legal, também, a questão foi muito complexa, porque tem muitos detalhes, todo o processo de cisão implicava em prazos  que não podiam ser perdidos em nenhum momento, e nós tínhamos coisas que não dependiam da gente. A gente precisava de um atestado do Ministério da Fazenda. Então ia lá buscar. De manhã saía com uma configuração, que precisava ser resolvida, e daí os advogados saíam correndo iam resolver aquilo lá, à tarde saía com as coisas que os advogados tinham resolvido, resolvidas. Mas novas coisas, porque os sistemas são muito complicados. Tipo,  no dia 31 de dezembro de  1997, o Conselho estava reunido pra aprovar a cisão  e daí, o representante dos empregados levantou a seguinte questão: “Eu vou protestar, mas não saio daqui enquanto não vejo o documento da ANEEL [Agência Nacional de Energia Elétrica] autorizar  a cisão”. Porque a ANEEL precisava autorizar a cisão. E eu estava na sala ao lado telefonando pra ANEEL, 31 de dezembro, na hora do almoço, porque eles não tinham me mandado ainda o fax com a assinatura do diretor geral da ANEEL autorizando. Então, a reunião passando ali e eu precisava do documento, e os caras já  comemorando o ano novo, já estava a maior festa e eu no telefone. Aí chegou o fax, levei na sala da reunião do conselho, eles fecharam a reunião, porque se não tivesse fechado aquilo o nosso cronograma ficaria  todo comprometido e a gente precisaria começar a contar novos prazos legais. Teve uma porção de eventos assim. Então, os últimos meses foram de absoluta tensão. Teve uma reunião de diretoria que nós terminamos à uma hora da manhã, e todos os diretores, mais eu e o Roberto  Di Nardo e mais as três secretárias que estavam lá conosco fomos tirar xerox dos documentos porque de manhã cedo ia alguém pro Rio de Janeiro levar documentos para os conselheiros que estavam lá. E outras pessoas, aqui, em São Paulo iam distribuir para os conselheiros, porque precisavam ver no fim de semana aqueles documentos... Sabe? Cheguei na minha casa às duas horas da manhã, numa sexta-feira, meu marido estava muito bravo [risos], e imagino que as esposas dos outros também : “Que que vocês estão fazendo até essa hora? ”E a gente estava todo o mundo trabalhando... Muito. Muito, mesmo.

P/2 – E pro governo foi boa a privatização, em termos financeiros?

R – A Eletropaulo foi a privatização que, do meu ponto de vista, deu o dinheiro pro governo resolver a questão de suas dívidas  bastante significativamente. Quando esse governo começou, a Eletropaulo tinha uma dívida de seis bilhões de dólares. E a parcela que o governo detinha na empresa valia 600 milhões. Então [risos], era pó, para o governo. Depois de todo esse saneamento financeiro, e da cisão, quando a gente fez a cisão, a Eletropaulo tinha uma dívida de 1 bilhão e meio de dólares, e o governo vendeu a Eletropaulo Metropolitana por quase 2 bilhões, e vendeu a Empresa Bandeirante de Energia por 1 milhão e meio, e então fez quase 4 bilhões com essas duas, e ainda vendeu uma parte da EPTE [Empresa Paulista de Transporte de Energia Elétrica] para a CESP por cento e oitenta e poucos milhões, então o governo fez 4 bilhões com a empresa, que foi passada com essa dívida de 1 bilhão e meio. O acerto econômico-financeiro da Companhia foi feito internamente, com o esforço dos empregados da empresa, mesmo, esforço de mostrar que a empresa estava no rumo certo para os investidores, isso valorizou a empresa,  os três presidentes que atuaram nesses tempos tiveram uma ação de mostrar a empresa para o mercado internacional, nacional, mostrar que era uma empresa de valor significativo e isso valorizou muito a participação do estado na empresa. Então o governo do estado  fez bastante dinheiro com a Eletropaulo.

P/2 – E pra sociedade, o que pode _____

R – Olha, Arnaldo, acho que a sociedade ainda não tem tanta clareza da vantagem da privatização, né? Os setores privatizados, hoje, estão melhorando significativamente a disponibilidade dos serviços, acho que ainda tem alguns problemas de qualidade de atendimento, mas é claro, evidente, que os serviços estão mais disponíveis hoje. Sem que o estado esteja pondo dinheiro nisso, né? Acho que brevemente, no setor elétrico, vai haver uma competição bem livre, a gente vai poder escolher que nem o telefone. Assim, olha, não quero comprar energia da Eletropaulo, que é muito cara, vou comprar do seu Zé, que é barata, ou vice-versa, acho que a iniciativa privada tem mais liberdade de ação, não tem as amarras estatais. Então facilita algumas coisas fundamentais do ponto de vista de tecnologia, de ampliar tecnologia, esperava até que fosse mais depressa, mas eles estão indo em melhoria tecnológica... Por exemplo, quando eu estava na Eletropaulo, nós tínhamos um problema enorme com o atendimento, com 196, e o esforço que nós fazíamos, qualquer esforço que fosse, não dava certo, não funcionava, todo o mundo reclamava. Então, sei exatamente o tamanho do problema, né? Há uns dois meses eu estava na minha casa e caiu o disjuntor da rua e desligou a força da minha rua. Liguei para o 196 e fui atendida, coisa que, no tempo que era estatal, a gente não conseguia. Fui atendida por uma moça extremamente gentil que perguntou onde eu estava, disse que ia tomar providências, e pediu o meu  telefone. Em 40 minutos,  não só a energia foi restabelecida, como o atendente ligou pra minha casa pra saber se estava tudo bem, se o problema estava resolvido. Achei isso fantástico. É uma prova que vai melhorar, tenho certeza, e acredito piamente que a privatização foi um bem para as companhias e pra sociedade.

P/2 – Juntando a literatura com a engenharia, esse projeto é um “case”. Não há pretensão de colocar em algum livro?

R – Você sabe, lamento profundamente não ter tomado notas disso tudo. Porque,  assim,  eu fico aqui contando e simplifico muito. Mas teve momentos e detalhes, alguns sofridos, outros folclóricos, outros magníficos e gostaria de ter escrito um livro sobre isso, talvez algum dia a gente conte tudo isso, acho que tem que pegar o depoimento de muitas pessoas pra escrever esse livro porque a visão de cada um do processo foi de uma perspectiva, mas acho que daria um grande livro.

P/2 – Você se apaixonou pela Eletropaulo?

R – Me apaixonei. Sou uma pessoa apaixonada. Me apaixonei pela Eletropaulo, tenho saudade do tempo que trabalhei lá, conheci gente incrível, tenho grandes amigos que fiz lá, nesse tempo, é uma empresa muito interessante, muito legal de trabalhar, tem uma história fascinante, me apaixonei pela Eletropaulo.

P/2 – Qual a diferença entre CESP e Eletropaulo?

R – É um enfoque diferente. A CESP é uma empresa mais baseada na eficiência técnica, numa excelência tecnológica, a Eletropaulo é uma empresa mais baseada em pessoas, em relacionamento interpessoal, tem muito isso que na CESP é mais distante. CESP é mais orgulho da eficiência. E Eletropaulo é mais orgulho da história.

P/1 – Depois que terminou esse processo, que passos deu na sua carreira profissional?

R – Olha, saí já da Bandeirante em julho de 1998, daí fiquei seis meses recompondo minha vida pessoal porque tinha ficado muito tempo trabalhando demais, então dediquei mais tempo a assistir meu filho, que fez vestibular, fui para os Estados Unidos e fiquei lá um mês estudando inglês, organizei um pouco a minha casa... E a partir de janeiro deste ano, montei uma consultoria na área de ação institucional, comunicação, administração, tem algumas pessoas que trabalharam comigo na Eletropaulo e em outros momentos que têm se associado a mim em outros projetos, a gente trabalhou em publicações institucionais também, e a minha intenção é continuar nessa coisa de consultoria e, na medida do possível, ir agregando esses amigos e colegas que cruzei na vida e que têm interesse em estar por perto, pra gente trabalhar em alguns projetos interessantes. Têm várias pessoas dispostas a isso, sou uma pessoa de grupo, gosto de trabalhar em grupo, e tenho me envolvido com pessoas muito interessantes que quero manter por perto e espero que isso só cresça, daqui pra frente.

P/1 - ____________( ? ) Você mudaria alguma coisa na sua vida, e o que mudaria?

R – Quando eu era garota, queria aprender a dançar, fazer balé, minha mãe não deixou. Depois de muitos anos, depois de adulta, falei pra ela: “Ah, você não me deixou aprender a dançar” e ela disse: “Nem me lembro disso”. Então, o que mudaria na minha vida é que teria insistido mais com a minha mãe ( risos) pra dançar balé. É o que mudaria na minha vida.

P/1 – E você tem algum sonho…

R – Ah, tenho muitos sonhos. Quero conhecer tudo o que puder do mundo, ainda, acho que tem tanta coisa pra se conhecer, quero ter muito conhecimento, muita informação, quero saber bastante coisas. Meu sonho é muito nesse sentido, de absorver informação, sentimentos, então meu sonho é de circular bastante. Quero viver até mais tempo [risos].

P/1 – O que achou de dar esta entrevista?

R – Ah, achei legal. Gostei muito É a primeira vez que sento na frente de uma câmera e falo. Achei que ia ser pesado, que ia ficar tensa, mas fiquei muito à vontade, gostei, achei extremamente gratificante ser chamada pra dar esse depoimento para o trabalho da ADC [Associação Desportiva Cultural Eletropaulo] , acho que isso aí me compensa um pouco de todos os sofrimentos que tive, que achei que as pessoas não teriam entendido e , de uma certa maneira, acho que é uma forma de dizer para as pessoas que não sou aquela bruxa que maltratou um monte de gente, quero que as pessoas até saibam que compreendo os péssimos momentos que passaram, e quero dizer  que também passei, e esse processo foi apaixonante, acho importante que eu esteja falando sobre ele aqui. E fiquei muito contente e gratificada de ter sido convidada a vir aqui.

P/1 -  Você quer ainda falar alguma coisa que a gente não perguntou?

R – Vocês não perguntaram o nome do meu filho. Ele se chama Felipe, é um rapaz de 20 anos, estudante ainda, faz administração, é uma figura incrível, meu marido também é um grande parceiro, depois de todos esses anos, me apoiou muito nesse processo, apesar de ficar bravo, às vezes, se os dois não estivessem por perto eu não teria segurado as pontas, acho que não teria conseguido.

P/2 – Você falou do seu avô, ______ e seu pai e seu filho, eles têm as mesmas características físicas, assim, por exemplo?

R – Não. O meu avô era o meu avô materno, então não tinha e o meu filho é muito parecido com o meu marido. A única coisa que meu filho tem de parecido com a minha família é esse olho que chamo de olho de pedinte. Que é um olho meio caidão [Associação Desportiva Cultural Eletropaulo], mas ele é parecido com o pai. Mas o que eles têm de parecido, o que eles têm em comum, é que amo eles profundamente.

P/1 – Nós agradecemos então o seu depoimento.

R - Obrigada.
 

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