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A Educação realiza sonhos

História de: João Baptista Domingues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/06/2004

Sinopse

Através desta entrevista, João Baptista Domingues, nos conta sua trajetória, onde os estudos foram fundamentais para o seu sucesso pessoal e profissional. A carreira na Rhodia foi vitoriosa sob todos os aspectos, foram 42 anos de trabalho ininterrupto. Foi o primeiro farmacêutico da Rhodia. Iniciou como Office boy, e terminou como gerente geral de coordenação técnica das divisões Farmacêutica, Veterinária e Fitossanitária. Como professor de faculdade, fez parte de muitas comissões, dentre elas da biofarmácia, do Ministério da Saúde, Ministério da Educação. Após tantos anos de contribuição a sociedade farmacêutica, hoje o seu maior sonho é ver o desenvolvimento dos netos, estar com eles, e ajudar a fazê-los se tornarem criaturas felizes.

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História completa

P1 - Seu Domingues, a primeira questão que a gente tem que fazer é: o nome do senhor, completo, data de nascimento, onde e senhor nasceu. Enfim, uma apresentação geral do senhor, da família.

 

R - Muito bem. Eu só peço que vocês não falem para as meninas, porque o meu nascimento foi no dia 24 de Junho, daí o meu nome de João Baptista, do ano de 1920. Por consequência, eu já completei 78 anos de idade. Nasci em Descalvado e, ainda com três anos de idade meu pai faleceu. Aos oito anos de idade eu comecei a trabalhar em Descalvado. Fiz aquilo que se chamava na ocasião de Grupo Escolar. Mas na minha cidade, Descalvado, não tinha curso secundário. Concluído o Grupo Escolar, pouco tempo depois eu pedi à minha mãe a benção para vir para São Paulo, sozinho, com 12 anos de idade. Vim para São Paulo, só, com a benção de minha mãe, arranjei um emprego em um escritório de engenharia, que era do doutor Ari Schefer Junqueira, e passei a estudar no Ginásio Osvaldo Cruz. Isso foi em 1932.

 

P1 - Ano da Revolução.

 

R - Exatamente. Em 1935 eu fui convocado para uma reunião na Rhodia, para conversar, discutir uma possível admissão na Rhodia, com o então doutor Mark _________, que nós conhecíamos por (Cepí?). Era uma pessoa fabulosa, interessante. E também por indicação do Simões, que foi meu primo, primo muito querido, que faleceu há pouco tempo. Primo-irmão. Nessa reunião que eu tive o Sepí, ele disse que gostaria muito que eu passasse a trabalhar na Rhodia. E eu disse que teria um imenso prazer, mas eu impunha uma condição; concluído meu curso secundário, feito o meu vestibular, se eu tivesse conseguido me vitoriar no vestibular, a Rhodia me facilitasse o estudo para a carreira universitária, curso superior. Com o que ele concordou. Então eu passei a trabalhar em Santo André. Ia de São Paulo todo dia para Santo André. Inicialmente trabalhei como office-boy, quando tinha o Almanaque Rhodia, eu era distribuidor, de porta em porta, aqui em São Paulo. Concluído meu curso ginasial, feito meu exame vestibular, eu consegui aprovação na faculdade de, então chamada de Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo.

 

P1 - Seu Domingues, vamos voltar um pouquinho, para depois a gente entrar na Rhodia.

 

R - Pois não.

 

P1 - Os pais do senhor eram imigrantes?

 

R - Meu pai era libanês, de Miziara, no Líbano. O nome dele, na realidade, o nome original era Salim (Ranma Abdahad?). Quando ele passou pela Espanha, o nome precisou ser traduzido para a língua latina. E, numa tradução incorreta, passou a ser Felipe João Domingues. Salim para Felipe, (Ranma?) para João, corretamente, e (Abd?), que é Domingo, passou para Domingues, e o (ahad?) foi esquecido. E a minha mãe era Aurélia Valente. Ela descendia de família de dórios venezianos, nascida em Castel Franco, Veneto, vicino a Venezia. Muito bonito. Veio para o Brasil também, e foram para Descalvado. Com ela veio também à sua irmã, que era Maria, mãe do Simões. Com eles vieram também o Sílvio, pai do Valente. E em Descalvado ela conheceu meu pai, que era um libanês que se iniciou no Brasil como mascate. Posteriormente, ele montou uma pequena loja, um pequeno bar em Descalvado. Quando ele morreu, mamãe arregaçou as mangas e passou a exercer as funções.

 

P2 - O senhor tem irmãos, irmãs?

 

R - Todos os meus irmãos faleceram. Eu sou o caçula da minha família, 

 

P2 - Eram em quantos?

 

R - Éramos sete. Assim como o Simões também. O Simões era o último dos moicanos, faleceu também. Assim como o Valente é o último dos Valentes. Então, dessas três famílias, restaram como troncos o Valente e eu. 

 

P1 - O senhor lembra-se da infância em Descalvado?

 

R - A minha infância em Descalvado, era uma infância muito gostosa, muito boa, apesar de trabalhar com oito anos. Para que vocês tenham uma ideia, eu com o meu primo, irmão do Simões, Sílvio, que era um ano mais velho que eu, nós fazíamos os nossos próprios brinquedos. Não se comprava brinquedo. Nós fazíamos os nossos próprios patinetes, fazíamos barquinhos de madeira, e colocávamos pequenos receptáculos onde tínhamos álcool, com tubinhos saindo pela traseira, incendiávamos aquilo, e o barquinho ia rodando. Então, todos os nossos brinquedos eram feitos assim. Foi em Descalvado também que eu aprendi a nadar, em rio. Descalvado tinha festas religiosas muito bonitas. Eu era muito namorador, gostava muito de festar com as meninas. [risos] Eu acho que isso é coisa de libanês, de mediterrâneo, pelo menos. Mas a minha infância foi realmente muito feliz, muito gostosa, muito alegre, muito bem vivida, apesar do falecimento de meu pai, que eu praticamente nem conheci. Eu tinha três anos.

 

P1 - Quando sua mãe passou a sustentar a casa, qual trabalho ela passou a ter?

 

R - Mamãe? Ela trabalhava desde às sete horas da manhã até a meia-noite, no bar, que era chamado Bar central, que passou a ser o principal bar de Descalvado, onde ela oferecia de tudo. Depois de certo tempo montou inclusive um pequeno salão de bilhar, onde médicos, farmacêuticos, advogados, etc. se reuniam para jogar xadrez, onde os políticos se reuniam para jogar carteado. Independentemente disso tudo, ela, com empregadas, faziam croquetes, pastéis, quibes, essa coisa toda.

 

P2 - Era dela? Ela que montou?

 

R - O bar? Não, a origem foi com o meu pai, ela continuou e ampliou. Mas aí eu já tinha os meus irmãos mais velhos, que eram os guardiões. O mais velho dos homens não trabalhou no bar, porque ele formou-se em Engenharia. Só que para ele estudar Engenharia, como mamãe havia o feito aprender a tocar violino, ele tocava violino nos cinemas. Era o tempo do cinema mudo. Então ele ganhava a sua subsistência através disso aí. E assim sucessivamente. A minha irmã tocava piano; outra irmã cantava muito bem; o Alberto, que trabalhou na Têxtil, foi um dos eminentes homens da Rhodia Têxtil, ele tocava flauta; o Edmundo, cujo codinome era Demão, e que trabalhou também na Rhodia Têxtil. Enfim, todos eles faziam alguma coisa. O Alberto era o grande homem do bar. Ele era o grande sustentáculo, ele era o grande apoio da minha mãe.

 

P1 - E aí o senhor decidiu vir para São Paulo, com 12 anos de idade?

 

P2 - A escola, o senhor fez lá, né? O primário?

 

R - O primário, sim. Foi no Grupo Escolar, o então chamado Grupo Escolar.

 

P2 - O senhor gostava de ir à escola?

 

R - Eu sempre gostei muito de ir à escola. Eu tenho inclusive fotografias do meu Grupo Escolar, Coronel Tobias. Lembro muito bem dos meus professores, que depois eu reencontrei aqui em São Paulo. Então, tudo isso foi sempre agradável. Agora, chegando a São Paulo, a mãe do Simões tinha uma pensão na... Hoje, como é que chama? É avenida... Aquela perto da Avenida São João, que dá no Largo.

 

P2 - Amaral Gurgel?

 

R - Não me lembro, agora.

 

P1 - No final da São João?

 

R - Não, ao lado. Para quem está descendo a São João, fica do lado esquerdo, perto da Santa Ifigênia. 

 

P2 -  ______________.

 

R – Não, bom não me lembro do nome. É a idade, talvez venha...

 

P2 - Eu moro lá perto, por isso...

 

R - É? Você tem aquelas ruazinhas que, antigamente, era prostituição, inclusive.

 

P2 - Onde tem a Aurora, a...

 

R - Então, qual é a avenida grande que tem pertinho da Aurora?

 

P2 - Que vai dar no Arouche?

 

R - Não, no Arouche, não. Ali onde tem aquela igreja. Que vai dar no Largo Paissandu.

 

P2 - Ah, aquela que é continuação da São João.

 

R - Não, não é continuação da São João, ela é paralela, para o lado esquerdo de quem está descendo para o Correio. É a Visconde do Rio Branco. É agora é avenida, antes era uma rua. Ali, bem perto do Largo Paissandu, a mãe do Simões, minha tia Maria, tinha uma pensão. E eu passei a ser pensionista dela quando cheguei a São Paulo. E aí então eu consegui o emprego, entrei na Osvaldo Cruz, e fiz todo o curso.

 

P1 - Dos tempos do Osvaldo Cruz, o senhor se recorda?

 

R - Olha me recordo muito bem. Não precisava de condução, eu ia a pé até perto do Largo do Arouche, onde fazia o curso.

 

P2 - É onde hoje é a Faculdade Osvaldo Cruz, né?

 

R - Exatamente. Não havia problemas de insegurança. Segurança era total. Tanto assim que, com essa idade, ou pouco mais, do sábado para o domingo, eu ficava passeando por São Paulo a noite toda. Passeava por São Paulo, quando chegava de madrugada, eu ia à Praça da Sé tomar o meu café com leite, que eu achava aquilo uma espécie de aspecto principesco da minha vida. Era uma coisa diferente. E tudo isso me alegrava e muito. Mamãe sempre me mandava, pelo trem, caixotes com doces e salgadinhos que ela fazia. Realmente era uma coisa muito gostosa. Eu começava cedinho a trabalhar. Começava cedo porque, tanto com o engenheiro Ari (Schefer?) Junqueira, mas principalmente depois, na Rhodia, para chegar... Porque eu ia a Santo André, voltava de Santo André e ia para a Osvaldo Cruz. Então eu só almoçava. Eu saía cedinho da pensão, ia para Santo André e voltava, ia para a Osvaldo Cruz sem jantar, não dava tempo para jantar. Eu saía às cinco e meia da Rhodia, tomava o trem, chegava na Estação da Luz e ia direto para a Osvaldo Cruz. Saía da Osvaldo Cruz por volta de onze e meia, meia-noite. Mais tarde, minha família veio para São Paulo e passou a morar na Rua Vitória, ali por perto, portanto. Então ficava a mesma continuidade entre Estação da Luz e Osvaldo Cruz. Até o instante em que eu, já formado pela Osvaldo Cruz, fiz o vestibular, fui aprovado, e então cheguei na Rhodia. E disse: "E agora?"

 

P1 - Essa chegada na Rhodia, como foi? Teve uma reunião...

 

R - A minha primeira reunião foi com o doutor (Cepí?).

 

P1 - O senhor tinha ido para a Rhodia... Como o senhor chegou nela? O senhor já tinha ouvido falar?

 

R - Na Rhodia eu cheguei exatamente por interferência dos Simões. A discussão, o bate-papo que eu tive com o (Cepí?) encantou o (Cepí?), e encantou a mim também.

 

P2 - Quantos anos o senhor tinha?

 

R - Eu tinha 15 anos. Ainda não tinha 15 anos, na verdade, tinha 14 anos e pouco. E então me encantou de tal forma que eu conversei com o engenheiro... Veja, o engenheiro Ari (Schefer?) Junqueira, eu tinha 12 anos quando comecei a trabalhar com ele. Sabe o que eu fazia? Eu fazia toda a parte contábil. Eu fazia todo o pagamento dos operários dele.

 

P1 - Com 12 anos?

 

R - Com 12 anos, 13, 14 anos. Tudo isso. Confiança total. E depois esclarecimento também, pela idade.

 

P1 - Claro.

 

R - Eu ia visitar as obras. É nessa base. Muito bem. Então passei a trabalhar em Santo André e entrei para a faculdade. Fiz o curso. Em 1943 eu concluí o curso. Fui o orador da turma. Foi o primeiro discurso que eu fiz, inclusive, entre os meus alfarrábios, eu encontrei, e achei que escrevia muito bem porque realmente é um discurso magnífico. Esse discurso foi no Teatro Municipal de São Paulo. Muito bem, na Rhodia, então, eu passei a ser um elemento técnico. Fui para a parte técnica, para a parte de produção de especialidades farmacêuticas, onde o chefe era o André ________.

 

P2 - Só cortando um pouquinho... O ginasial que o senhor fez na Osvaldo Cruz já era técnico em química?

 

R - Não, era normal. Tudo normal.

 

P1 - E o período da faculdade do senhor, como foi? O curso de Farmácia, no Brasil, em São Paulo, na USP, como era?

 

R - Bom, para você ter uma ideia, nós estamos comemorando - inclusive eu estive lá, na Terça-feira - 100 anos de ensino farmacêutico na Universidade de São Paulo. Eu tive a grande alegria e satisfação de ter sido homenageado, e muito bem homenageado, inclusive pelo atual secretário de saúde que o é o doutor José Guedes, que fez os maiores elogios a meu respeito, pelas minhas atuações no campo da saúde. Então são 100 anos de ensino farmacêutico. Lá estava reitor, vice-reitor, diretores, secretário de Estado da Saúde, secretário de Tecnologia, ex-reitor, que era o Fava. Todos eles estavam lá. Além, dos professores, além de alunos. Foi lá no anfiteatro da USP, que é um anfiteatro muito bonito, muito agradável. E para mim foi realmente um motivo de satisfação e de alegria porque eu pude reencontrar velhos amigos, velhos conhecidos, velhos colegas professores da USP. Aliás, eu faço condicionamento físico na USP, junto com um grupo de professores, aposentados ou não, de vários institutos da USP. Então, duas vezes por semana, pelo menos, eu tenho esse prazer de estar com eles. Embora, a partir da minha aposentadoria, eu tenha cortado o cordão umbilical no campo da ciência e da tecnologia. Mas, estar com eles é sempre muito agradável, muito bom, muito interessante, e é a revisão da vida. Mas então eu dizia que, formado farmacêutico, a Rhodia me destinou para o campo de produção. Eu fui o primeiro farmacêutico a trabalhar no campo técnico científico da Rhodia. Não tinha nenhum farmacêutico, não tinha nenhum profissional. O único profissional que tinha lá, mas não era farmacêutico, era o André _______.

 

P1 - Isso foi em quarenta e...?

 

R - Isso foi em 1943. Não tinha nenhum, eu fui o primeiro. Entrei logo lá como chefe do laboratório de hipodermia, de soluções injetáveis. Com a continuidade que eu fui dando, eu fui admitindo, com conhecimento e a complacência da diretoria, reconhecimento da diretoria, elementos farmacêuticos que eu conhecia muito bem, e cheguei a formar uma equipe espetacular, de farmacêuticos especializados no campo de produção de comprimidos, drágeas, hipodermia, de análises físico-químicas, bioquímicas, biotério, e depois no campo da fabricação de antibióticos também. Enfim, no campo da pesquisa e do licenciamento de produtos, o farmacêutico que eu coloquei lá, e que foi meu aluno na faculdade, era - eu acho que você já entrevistou ou vai entrevistar - o (Cumer?). O Luis Oscar Cumer.

 

P2 -  ___________ na casa dele.

 

R - Ele era o meu auxiliar que ficava no campo da parte de reformulação, de licenciamento etc. 

 

P1 - Antes da entrada do senhor, como eram os laboratórios antes de 1943, como é que isso...?

 

R - Meu caro são coisas que... Era simples, muito simplesinho, modesto, e quem comandava era o (Ramou?). Agora, a Rhodia precisava ser ampliada, e, com o doutor (Ramou?), eu ampliei a Rhodia, e construímos, nós construímos um novo laboratório lá. Posteriormente, me foi pedido que eu fosse até Pernambuco para projetar e construir um laboratório farmacêutico para a Rhodia, lá na Cidade do Cabo, que eu fiz também. Então, isso tudo foi feito. Agora, com o desenvolver desse laboratório farmacêutico em Santo André, com a equipe que eu fui formando... Porque eu tinha, por exemplo, Osvaldo Richttmann Júnior, no campo da produção, que era um elemento, não só capacitado e competente, mas de uma decência de trabalho, de uma honestidade realmente fantástica. Eu tinha inúmeros farmacêuticos lá, todos eles... Bom, inclusive um deles ainda eu acho que está lá, ou foi aposentado há pouco tempo, que é o Donaldo. Muito bem, formando essa equipe, o Ramou foi se distanciando um pouco e foi passando para a área administrativa da Rhodia. E eu cheguei... Ele era o gerente técnico, e eu passei a ser subgerente técnico. Então eu comandava tudo como subgerente. Agora, em 1952, como foram instalados cursos de pós-graduação na minha faculdade, eu decidi fazer curso de pós-graduação à noite, das seis à meia-noite. 

 

P1 - Junto com o trabalho na Rhodia?

 

R - Trabalhava na Rhodia, saía da Rhodia, só ia almoçar na minha casa, não jantava, ia direto para a faculdade fazer o curso. O curso foi ministrado por mestres dos mais eminentes, internacionais. No campo da farmacotécnica industrial, o professor Carlos Henrique Robertson Liberali. Um gênio, um homem fabuloso, sob todos os sentidos. No campo da farmacologia, o professor Richard Vasik, austríaco, farmacêutico austríaco, de conhecimento internacional, e que também fabuloso. No campo da síntese orgânica, da química orgânica, um elemento que eu sempre recordo com satisfação e alegria, e que sempre quero homenagear, Quintino Mingóia. Italiano, professor da Universidade de Pavia. Tanto Vasik quanto Mingóia vieram para o Brasil por causa da guerra. E aqui eles se desenvolveram, e aqui eles também propiciaram os seus conhecimentos a muitos alunos. Independentemente desses professores, tinha Maria Aparecida ( _____?) Campos, tinha o Lúcio Pena de Carvalho Lima, tinha Paulo de Toledo Artigas. Um no campo da parasitologia, o outro na microbiologia, e a Maria Aparecida, no campo dos alimentos. E tinha mais gente. Mas foi realmente um curso de pós-graduação fabuloso.

 

P1 - Foi o primeiro ano do curso?

 

R - Eu participei do segundo ano. Concluído o curso de pós-graduação, onde eu, inclusive, apresentei uma tese que, sob certo aspecto, revolucionou uma forma de medicamento no Brasil. A minha tese era "Revestimento Entérico de Drágeas". Essa tese, o que ela fazia? Ela procurava fazer com que os princípios ativos dos medicamentos que você ingeria pela boca fossem libertados no duodeno, aos poucos, na medida em que houvesse realmente a necessidade. Com isso, você não precisava tomar quatro, cinco, seis ou oito comprimidos por dia. Tomava um apenas. E essa liberação era gradativa. Então, o organismo estava permanentemente recebendo o princípio ativo, só com um por dia. E não seis sete ou oito. Isso hoje é usado amplamente, mas quem fez o trabalho, quem introduziu a técnica fui eu.

 

P1 - O senhor levou isso para a Rhodia? 

 

R - Levei claro. Isso em 1952.

 

P1 - E qual foi o primeiro comprimido com essa técnica?

 

R - Ah, eu não me lembro. Eu tenho aí o trabalho, inclusive. Feito isto, eu fui, de novo, o orador da turma, da pós-graduação. E como orador da turma, eu fiz um pronunciamento, independentemente do pronunciamento referente aos colegas, aos professores, à faculdade, à ciência farmacêutica e tudo o mais, eu fiz um pronunciamento no sentido de que os farmacêuticos daquela época estavam muito desligados da união da classe, do corporativismo. Há uns 15 ou 20 anos, um farmacêutico, Eurico Brandão, havia proposto a implantação de conselhos regionais e federais de farmácia. Tudo isso ficou no esquecimento dos políticos brasileiros. Em 1952, no meu discurso, eu insisti, pedi, fui muito veemente, para que nós reinstituíssemos isso até a concretização dessa ideia. A partir daí, formamos um grupo que trabalhou a classe farmacêutica e trabalhou o Congresso Nacional. E alguns anos depois, o conselho federal e os conselhos regionais de farmácia foram instituídos por lei. E eu fui um dos elementos que participou da primeira diretoria, e cheguei até ser presidente. Então, esta bandeira... Os conselhos existem hoje, pela bandeira que eu levantei. Fui eu quem levantou a bandeira. 

 

P1 - Da união da classe.

 

R - Exatamente. É uma coisa importantíssima, indiscutivelmente. Bom, concluído o curso de pós-graduação, o professor Liberali... É engraçado como as coisas acontecem. Vou retornar rapidinho... Quando eu me formei, quando eu me graduei em Farmácia, um dos ilustres professores que nós tínhamos na ocasião era Lineu Prestes. Se você for à Cidade Universitária, a principal avenida é a chamada Avenida Lineu Prestes. Lineu Prestes era farmacêutico, foi advogado também, foi senador, e era professor de toxicologia. E nós nos demos muito bem. Ele foi o paraninfo da nossa turma e eu fui o orador. Ao término das comemorações, ele chegou para mim e disse: "Domingues..." Porque lá na faculdade eu sou o professor Domingues ou doutor Domingues, e não João. "Domingues, eu preciso de você." Eu digo: "Professor Lineu, o senhor precisa de mim?!" Veja recém-formado, foi o primeiro convite como farmacêutico, acabava de me formar. Ele disse: "Eu preciso de você. Preciso que você projete, ajude a construir e depois chefie a farmácia do Hospital das Clínicas", que na época estava em fase de término, de implantação. Mas não uma farmácia comum, era uma farmácia semi-industrial lá dentro, era isso que ele queria. E eu então respondi a ele, com muita emoção. Eu disse: "Professor Lineu, eu me sinto realmente engrandecido, emocionado pelo convite, mas não posso aceitar. Não posso aceitar, por quê? Eu tenho um compromisso moral com a Rhodia. Não fosse a Rhodia, eu não seria farmacêutico. E eu tenho esse compromisso moral com a Rhodia, e quero desenvolver esse compromisso com honra em satisfação." Isso, em 1943. Então, em 1952, concluído o curso de pós-graduação, concluídas as homenagens todas, os pronunciamentos e os discursos, o meu querido - já falecido também - professor Liberali, chegou para mim e disse: "Domingues, eu quero que você seja meu assistente em Farmacotécnica." Eu disse: "Bom, eu não posso responder. Vamos dar um tempo." E fui para a Rhodia. Cheguei à Rhodia, na diretoria, e disse que eu havia recebido um convite do professor Liberali, e que esse convite, para mim, era de suma importância porque ele se constituía no primeiro passo da carreira universitária. E eu não sabia como dizer 'não'. Pela Rhodia eu já tinha feito muito. E a diretoria da Rhodia concordou que todo o tempo que fosse necessário para a minha carreira universitária, eu estivesse na faculdade.

 

P1 - Ela concordou.

 

R - Concordou plenamente. E isso em função também do que? Da equipe de farmacêuticos que eu tinha formado. Então eu passei a ser assistente de farmacotécnica do professor Liberali. Decorridos mais ou menos um ano e meio, dois anos, a professora (Puchê?). Campo encontrou-se comigo no laboratório de farmacotécnica, o professor Liberali estava lá, e ela disse: "Liberali, eu sei que você gosta muito do Domingues, mas quem precisa dele sou eu." [risos] O campo dela era bromatologia, alimentos e nutrição. Ela olhou e disse: "O que você acha Domingues?" Eu digo: "Aparecida, não sou eu quem acha, é o professor Liberali." E o Liberali era muito amigo dela, e concedeu. Então, eu passei da farmacotécnica para o campo de alimentos e nutrição. Eu devo à professora Maria Aparecida (Puchê?). Campos, praticamente toda a vitória na minha carreira universitária. Foi ela que sempre me incentivou, sempre me estimulou, e foi com ela que eu galguei todos os degraus. De assistente passei a doutor, por concurso, passei a professor livre-docente, por concurso, cheguei a professor titular, por concurso, fui chefe do departamento, e outras coisas mais. Então eu devo muito a ela, na faculdade, por toda a minha carreira universitária. Como devo também muito ao (Ramou?), na Rhodia, pelo desenvolvimento que eu tive lá. Como devo também muito ao Simões, meu primo, por ambas as situações, porque ele sempre me deu apoio. Na Rhodia, então, e eu havia entrado em 1935, apesar de trabalhar praticamente meio período, eu continuei galgando degraus. Veja bem, em 1961, pela primeira vez, e por iniciativa do (Ramou?), eu fiz uma primeira viagem à França, à ___________, na França. Essa viagem demorou três meses. Nessa viagem eu passei a conhecer todas as indústrias de ___________, e me tornei amigo de todos os pesquisadores e do pessoal da parte de produção, de fabricação, de análise e etc. Mesmo porque, eu apresentava ideias. Sempre apresentei ideias, eu criava produtos, fazia formulações, eu discutia com eles tudo isso. Nessa minha primeira viagem, e isso está no meu relatório - eu estou dizendo isso porque eu li essa parte no meu relatório, a minha grande preocupação, quando eu fui, era o Francês. "Será que eu vou falar um Francês que eles vão me entender?" Chegando ao aeroporto de Orly, tinha lá o representante de __________ à minha espera. Mas antes disso eu passei pela alfândega, e na alfândega eu já comecei a soltar o meu Francês, e fiquei contente vendo que eles estavam entendendo, e que eu estava entendendo o Francês deles. Os primeiros três dias foram realmente um pouco dificultoso, porque eu pensava e imaginava... Mas, a partir do terceiro dia, o meu Francês saía fluentemente, e aquilo que eu ouvia, eu entendia tudo. Então para mim foi uma alegria, uma facilidade. A tal ponto que, a partir daí, eu contava em Francês piadas brasileiras, de portugueses. [risos]

 

P1 - Na França é o belga, né?

 

R - É, é o belga, exatamente. Bom, depois dessa minha primeira viagem em 1961, praticamente a cada dois anos eu ia à França.

 

P1 - Era uma espécie de um estágio?

 

R - Era mais do que um estágio, porque era realmente uma discussão.

 

P1 - Troca de experiências.

 

R - Exatamente. Entre o pessoal da parte científica, técnica e produtiva. Com isso, eu conheci todos os laboratórios da França, conheci a Union ________, na Bélgica, conheci na Inglaterra também um laboratório da qual __________ é associado. Conheci vários outros laboratórios na França, que têm, tinham, pelo menos, uma associação com _________, como __________ e etc. E passei a ser muito bem quisto pelo Instituto Veterinário (Merier?), de Lyon, que é talvez o maior instituto veterinário da França. Depois, aqui no Brasil, ele começou a colocar os produtos. Eu, no Brasil, quando o (Ramou?) passou a ser gerente administrativo, ele abandonou, por consequência, a parte técnica, e eu passei a ser o gerente técnico, no lugar dele, campo que incluía também a fabricação de antibióticos, onde eu tinha, como farmacêutico, João (Guirelli?). Mas, além disso, eu encampei também toda a produção de vacinas veterinárias. A parte de vacinas veterinárias ficava uma pequena parte, em Santo André, que era a vacina contra a febre aftosa, mas feita de uma maneira rudimentar, através de neonatos de coelhos. Para isso, nós tínhamos em Paulínia uma criação de coelhos. Fazíamos com os neonatos... Por vacinação dos neonatos, morte deles etc. A gente fazia a vacina anti-aftosa. E em Paulínia tínhamos o laboratório de outras vacinas veterinárias. Esse laboratório eu ampliei, melhorei, e posteriormente, através do Instituto (Merier?), eu fiscalizei a construção, em Paulínia, do novo laboratório de vacina anti-aftosa, mas aí em cultura de tecido. Um laboratório excepcionalmente bom, bacana, moderno. Eu tive essa satisfação de fiscalizar a construção, e depois comandar também a produção. 

 

P1 - O senhor sempre teve carta branca nessa questão de laboratório, maquinário, equipamento?

 

R - Sempre. Eu ia para a Europa e ia verificar tudo isso. Em Lyon, por exemplo, tinha a ________, (a par de?) __________, mas tinha também o Instituto (Merier?), cujo presidente, cujo dono passou a ser meu amigo também. Eu era recebi lá de braços abertos. Era para mim uma felicidade muito grande. Independente disso veja bem, quando a Rhodia decidiu sintetizar aminoácidos aqui no Brasil, lá na Bahia, no Recôncavo Baiano, eu também fui destinado a resolver os problemas da construção e da síntese. Mas isso já no final da minha estada na Rhodia. Houve ocasiões, pelo menos, em que o presidente de ___________ veio ao Brasil. E numa das grandes reuniões que nós tivemos, pediram que eu falasse, com todos os franceses que não falavam Português nenhum, mais os brasileiros, que eu falasse em nome da Rhodia, principalmente da divisão fitossanitária e da divisão veterinária. E eu, de improviso, larguei o meu Francês em cima.

 

P1 - E se saiu bem?

 

R - Fui muito bem entendido.

 

P2 - Já tava treinadinho?

 

R - Eu gostava de falar Francês. Muitos anos depois...

 

P2 - Foi aprender no colégio?

 

R - Não, eu aprendi por necessidade. Como a Rhodia era francesa, eu tratei de estudar um pouco de Francês, por autodidatismo. E depois, na primeira vez que eu estive lá, os meus ouvidos era como se fora discos que ouviam e gravavam. Então, com isso tudo, eu passei a falar Francês. Tanto assim que, na França, conversando com pessoas fora de ___________, num restaurante, em um trem, nisto ou naquilo, eles diziam: "Mas o senhor é parisiense?" "Não, eu sou brasileiro." "Não, é que o senhor fala um Francês parisiense." [risos] É muito agradável isso. Muito bem. Isso tudo foi feito na Rhodia, ainda trabalhando na Rhodia, e também como professor da faculdade, eu fiz parte de muitas comissões importantes, dentre elas, a comissão de biofarmácia do Ministério da Saúde.

 

P1 - Quando isso?

 

R - Ah, a época eu não me lembro bem, mas acho que durante uns seis anos, três biênios ou coisa parecida. Onde eram reunidos apenas professores de instituições. Professores de Farmácia, de Medicina. Porque nós é que analisávamos, aprovávamos ou não, o licenciamento de produtos, ou a modificação de produtos cujos laboratórios solicitavam. Nós é que fazíamos isso tudo.

 

P1 - A avaliação do material?

 

R - A avaliação, examinávamos tudo, e dávamos a aprovação ou não. Independente disso, nesse meio tempo, eu fui também perito bromatologista de empresas. As empresas chegavam para mim, vamos supor, a Kibon, chegava para mim e dizia: "Professor Domingues, eu estou com um problema junto ao Instituto Adolfo Lutz porque eles estão condenando o nosso produto por isso, isso, isso e isso. O senhor tem que ser o nosso perito." Então eu ia ao Instituto Adolfo Lutz. Porque na colheita de amostras, não se colhe uma amostra, se colhe no mínimo três, que são lacradas. O Instituto Adolfo Lutz analisa uma, e condena ou não. No caso de condenar, uma das outras duas amostras, que está no instituto, vai ser analisada. Eu participei de mais ou menos umas 70 pesquisas nesse sentido, e ganhei todas elas. 

 

P2 - É que o Adolfo Lutz, por exemplo....

 

R - Não, não. O Adolfo Lutz é realmente uma instituição maravilhosa, espetacular. Acontece que há determinadas coisas que, ou não são observadas ou têm que ser verificadas muito. Mas eu fui vitorioso em todas elas, e isso está no meu curriculum vittae. No Instituto Adolfo Lutz existia um colega de turma que, em minha opinião, era um dos profissionais mais inteligentes, faleceu moço, Ernesto Milanesi. Eu fazia parte também de comissões do Ministério da Educação, para analisar faculdades, escolas, cursos. Tudo isso eu fazia. Então, a minha carreira na Rhodia foi vitoriosa sob todos os aspectos, porque eu comecei como office boy, e terminei como gerente geral de coordenação técnica das divisões Farmacêutica, Veterinária e Fitossanitária. Independentemente disto, eu passei a ser também diretor do Instituto Rhodia _______. Todos esses aspectos foram, realmente, para mim, maravilhosos. Em 1975 eu procurei o doutor (Romanou?), que era o superintendente da Rhodia, e disse a ele que eu queria me dedicar exclusivamente à carreira universitária. Só para a carreira universitária. E ele disse: "Não, não posso concordar." Ia sair já, e ele: "Não, não posso. Dê para a Rhodia mais seis anos." Eu digo: "Não, não posso." "Mais dois anos." Eu digo: "Ok, mais dois anos, porém, eu vou redigir um documento e o senhor vai assinar." E redigi o documento.

 

P2 - Dizendo que eram só dois anos

 

R - Exatamente. Então, em 1977 eu me aposentei na Rhodia, e essa aposentadoria, aquelas fotografias todas que tem naquele álbum são da homenagem que me prestaram.

 

P2 - O senhor se aposentou pelo Instituto de Previdência que tinha a Rhodia?

 

R - Não, eu simplesmente não tenho mais nada. Quando eu saí da Rhodia, nós tivemos uma espécie de entendimento, inclusive entendimento econômico, e eu não tenho mais vínculo nenhum. 

 

P2 - Essa aposentadoria não era do _________?

 

R - Não. A única aposentadoria que eu tinha realmente era a do INSS, por tempo de serviço. Agora, na Rhodia eu consegui inúmeras coisas, independentemente de ter, principalmente, por intermédio dela, conhecido o mundo. Porque toda vez que eu ia para a França, eu aproveitava e tirava férias. Eu já estava lá. E de lá eu ia para todo lugar. Eu ia para o Líbano, para a África, Estados Unidos, Canadá, para todos os lugares. Então, realmente, nessa minha vida, ainda na Rhodia, eu participei de jornadas farmacêuticas francesas, de congressos internacionais de bioquímica em Washington, participei em Genebra, participei na Inglaterra. Enfim, fiz muita coisa de... E me recordo sempre de todos os elementos da alta direção da Rhodia, que passaram a ser meus amigos. A tal ponto, que muitas vezes, quando se ia homenagear algum francês que estava retornando à França, eles pediam para que eu falasse. É o caso do (Burê?), o caso do (Genevoá?), e outros mais. 

 

P1 - A visão da Rhodia francesa, em relação à Rhodia brasileira, era das melhores?

 

R - Era das melhores. Inclusive, um dos elementos que trabalhou aqui, na divisão têxtil, chegou a ser presidente de ________, depois que ele retornou. E era meu companheiro, no Guarujá, de tênis de praia. Independentemente disso tudo, na Rhodia, e da Rhodia, eu recebi muitas medalhas, principalmente dos meus colaboradores. Aquela estatueta que está lá, no canto, ela tem uma medalha também; nessa medalha, são os meus colaboradores que estão. Tem outras medalhas por aqui também, que eu recebi deles. Além disso, eu recebi homenagens em jantares, vários jantares, onde sempre a alta direção, inclusive o presidente, o superintendente participavam. Tudo isso era uma alegria. Principalmente quando eu fiz a livre docência, quando eu fiz o curso para professor titular. Principalmente nessas ocasiões.

 

P1 - Eles foram assistir o concurso do senhor?

 

R - O (Ramou?) assistiu, principalmente para professor titular. Mas também eu homenageei vários colegas brasileiros. Não estou me lembrando do nome. Eu tenho inclusive tudo isso. Eu estou até pensando em fazer uma publicação com os discursos que eu fiz, com os vários discursos que eu fiz na minha vida. Tem alguns que foram realmente muito representativos. O menor discurso que eu fiz até hoje, foi por ocasião da morte do professor Liberalli. Ele morreu jovem, e o corpo ficou exposto no salão nobre da faculdade. E foi pedido a mim para dar o adeus. Meu discurso é pequeno, mas fala as coisas do coração. Então, em 1977 eu me despedi da Rhodia, depois de 42 anos de trabalho ininterrupto. De 1935 até 1977. De menino, office boy, a professor titular da USP. A minha carreira universitária, eu a devo, já falei, dentro da Universidade de São Paulo, eu devo muito à professora Maria Aparecida _____ Campos. Mas aquilo que eu sou hoje, indiscutivelmente eu devo à Rhodia. Eu devo à Rhodia porque ela sempre concordou com tudo aquilo que eu solicitei. Veja bem, no decorrer do meu trabalho na Rhodia, eu formulei muitos produtos. Numa determinada ocasião, as formulações que eu tinha feito chegaram a alcançar 30% do faturamento da divisão Farmacêutica.

 

P1 - Quais?

 

P2 - Quais?

 

R - Bom, dentro desses produtos, os que eu posso me lembrar... Tinham vários produtos. Produtos para o intestino. O primeiro que eu fiz foi durante a guerra, ainda, foi a Emultiazamida. Era uma emulsão para queimaduras, que se vendia em bisnagas e em potes para hospitais, de quinhentas gramas. O Vitaminer líquido e drágea. O produto que mais me recorda, porque esse até o nome foi meu, é o Liovitam. Liovitam, por quê? Porque, naquela ocasião, eu dizia: "Não adianta nada as pessoas quererem tomar vitamina líquido e solução porque a vitamina está desaparecendo ali." Então eu idealizei a liofilização de vitaminas. A liofilização é uma preparação que você faz. Você prepara uma solução, depois entra no liofilizador. O liofilizador é alguma coisa que, por auto-vácuo e praticamente sem aquecimento, retira toda a água e deixa aquilo tudo seco. Mas como aquilo estava em solução, aquilo fica como se fora uma teia de aranha, filamentado. Quando você vai redissolver, você colocou água ali, (tchum), a solução é imediata, e a estabilidade do produto é indefinida. Então, eu fiz essas multivitaminas liofilizadas e dei o nome de Liovitam por quê? "Lio", de liofilização, "vitam", de vitaminas. Liovitam. É ainda um dos produtos bons da Rhodia. E teve muitos outros também. Inclusive eu discutia lá na França com eles. 

 

P1 - Com era essa troca de experiência? A pesquisa chegando aqui... O produto chegava pronto, aí se mexia aqui nos laboratórios brasileiros...?

 

R - Os que vinham de lá? Sempre assim: já vinha o produto pronto, de lá, aí entrava aqui na comissão de biofarmácia, do Ministério da Saúde, para receber ou não a aprovação. Mas, antes disso, esse produto tinha que passar aqui por exames clínicos. E com esses trabalhos clínicos é que a gente fazia o pedido de licenciamento.

 

P1 - E isso sofria alguma adaptação? O remédio que chegava da ______, por exemplo...

 

R - Não, em princípio, não. O que muitas vezes ocorria é que eles mandavam um determinado produto novo, e eu achava que aquele produto era só para adulto, e aquilo devia ser feito para criança também, devia ser pediátrico. Então eu formulava, solicitava discussão com eles etc. Era nessa base.

 

P2 - E como era essa relação com a sugestão?

 

R - A relação era muito boa, sempre muito boa. Bom, veja bem, entre pessoas que estão trabalhando dentro de um campo científico e tecnológico, a discussão que você tem não é uma discussão pessoal, não é uma discussão política, é uma discussão da verdade da coisa. E essa verdade só pode existir se realmente não vai ter um efeito colateral, se não vai ter uma distorção física e química ambiental, ou coisa parecida. Fora disso, a discussão é muito gostosa, muito agradável porque você ensina e você aprende.

 

P1 - O senhor participava de todo esse processo da pesquisa, a parte clínica? O senhor acompanhava isso tudo?

 

R - Acompanhava também. A parte clínica veja, no caso, é o de menos para mim, porque o médico entrega ao paciente. Vamos supor, ela constitui um grupo de pacientes, então, para ela, ele entrega o produto mesmo que a gente quer licenciar; para você, e isso eu fazia lá em Santo André, eu entregava o produto igualzinho àquele, só que era farinha, não tinha mais nada, era amido. E vocês dois têm a mesma doença, os dois grupos têm a mesma doença. Agora vamos verificar o resultado. Você sabe que, em determinados casos, o produto que não tem nada dá resultado? E sabe por que dá resultado?

 

P1 - __________. [risos]

 

R - É exatamente. O placebo dá resultado.

 

P2 - Como é a relação com o Ministério, com o Governo brasileiro, para regulamentar a circulação dos remédios?

 

R - Sempre foi feito por meu intermédio. E enquanto eu estive na Rhodia, sempre foi muito decente. Nunca, nunca, em momento algum procurou fazer-se alguma coisa por vias tortas. 'Por vias tortas', eu falo por facilitar isto ou aquilo. Não! Sempre ali! Preto no branco. Escuta, eu conhecia ministros de Estado. Eu fui, na minha vida profissional, a pedido da Central de Medicamentos do Governo brasileiro, eu fui à Índia, para analisar, verificar o desenvolvimento da Índia, no campo da química fina, no campo dos princípios ativos. Trouxe para o Brasil a ideia de como nós poderíamos aqui dar início à produção de princípios ativos, de química fina. A coisa ficou engavetada, não foi adiante. Não sei por que, mas ficou engavetada. Hoje nós somos dependentes do estrangeiro na importação de matérias-primas, que são princípios ativos. Através da Organização Panamericana de Saúde, eu fui à Costa Rica, para resolver problema da produção de medicamentos, para o Governo da Costa Rica. Eu não só dei ideias, formulações, como projetei um laboratório para eles, em Costa Rica. Tudo isso está por escrito, tenho isso tudo aí.

 

P1 - E nessa trajetória na Rhodia, os produtos mais marcantes que tenham passado? O Rodini, por exemplo, o senhor pegou alguma coisa do Rodini, ainda? Gardenal...?

 

R - O Rodini é o produto com que praticamente a Rhodia se iniciou. A boa enfermeira, né? E essa é uma imagem que sempre ficou. A Rhodia, até um determinado tempo, que foi durante a guerra, ela tinha uma espécie de estagnação. Depois ela se desenvolveu, inclusive com produtos até de outros laboratórios como ________________. Realmente, a Rhodia não sabe se ainda existe, mas tinha produtos que eram importantíssimos, como o Sedol, por exemplo. Eram produtos importantes. Porém, o Sedol é um produto que tem que se utilizar com um cuidado excepcional, senão você vicia, passa a ser uma droga. É morfina. Então tem essas coisas todas. A Rhodia teve um campo muito bom também na parte de antibióticos.

 

P1 - Como é que foi essa decisão de implantar a unidade aqui de antibióticos, penicilina? E por que acabou?

 

R - Eu nem sabia que tinha acabado.

 

P1 - Na década de 60 se interrompeu a produção, não?

 

R - 1960? Não. Em 1977 nós tínhamos, quando eu saí nós tínhamos a produção de antibióticos em perfeitas condições. Eu não sabia que a Rhodia tinha interrompido a produção de antibióticos. Mas não foi comigo, não. Eu estava lá. Inclusive, eu fui um dos incentivadores para que a Rhodia fizesse cosmética. E para essa parte de cosmetologia, eu inclusive pedi a um dos meus grandes colaboradores, que fazia a parte de biotério, de laboratório bioquímico, um cara muito bacana, o (Valfrei?) - não sei se conheceu, ou já ouviu falar. 

 

P1 - Conversei com a esposa dele, na verdade.

 

R - Muito bem, ele foi para a parte de cosméticos. Hoje ele tem, inclusive, indústria de cosméticos. O Valfrei é também uma das pessoas que, quando você fala o nome Domingues, ele fica...

 

P2 - Como (é?) o nome dos produtos da linha de cosméticos?

 

R - Olha, eu procuro não guardar nome de nada. [risos]

 

P2 - Não é assim, precisa lembrar. [risos]

 

R - Não! Por que é que eu vou encher a minha cabeça com nomes?

 

P2 - É que alguém comentou que usava e os produtos eram ótimos. A Marisa, que é uma que trabalha lá.

 

R - É eu conheci todo o pessoal, inclusive o chefe do laboratório era muito meu amigo, era um francês também. E o Valfrei era o braço direito dele. 

 

P1 - Na parte de cosméticos?

 

R - Na parte de cosméticos. Na parte Fitossanitária também tinha muitos amigos, na parte veterinária também. Bittencourt, por exemplo, (Névio?), muito gente. Ainda na Rhodia, numa determinada ocasiões me pediram, e eu fiz isso vária vezes, que eu acompanhasse os gerentes da parte comercial para fazer palestras para os nossos visitadores médicos, principalmente no sentido de solucionar dúvidas que eventualmente eles tivessem a respeito dos nossos produtos. Porque é claro, médicos muitas vezes chegam e fazem uma pergunta para... e o fulano não sabe responder. Então eu era muito arguido nesse sentido. E além do mais, antes do lançamento de um produto, eu também fazia palestra. Então eu corri também todo o Brasil.

 

P1 - O treinamento, essas palestras, era dado no Brasil inteiro?

 

R - No Brasil inteiro, ou então em reuniões em Santo André. Mas muitas vezes as reuniões eram em vários lugares. Mas aí então, para continuar a minha vida, em 1977 eu passei à exclusividade na USP. Mas ainda em 1977 - e eu tenho os jornais da época aí -, eu junho de 1977, o então governador Paulo Egydio Martins, juntamente com o secretário da Saúde de então, o professor Valter (Lezer?), que havia sido meu professor, que havia sido uma pessoa a quem eu tinha perguntado algumas coisas, principalmente do ponto de vista estatístico, sobre a minha tese de livre-docência. O governador Paulo Egydio e o professor (Lezer?) me convocaram para uma reunião no Palácio do Governo. E lá, olharam para mim e disseram: "Domingues, você vai ser superintendente da Furp." Já ouviu falar em Furp? Furp é Fundação para o Remédio Popular. A Furp era uma fundação que estava na Rua Paula Souza. Conhece a Rua Paula Souza? Ali perto da Cantareira. Em um prédio de dez andares. Estava falida, totalmente falida. Ela recebia mensalmente dinheiro do Governo, mas estava totalmente falida. O governador Paulo Egydio disse: "Olha, professor Domingues, o senhor tem que ir lá resolver o assunto." Eu fui à faculdade, e a congregação da faculdade concordou em que eu fizesse meio termo, lá e cá. Seis meses depois, eu já tinha saneado completamente a Furp. Não devia mais nada a ninguém. Eu reformulei a linha da Furp em 70%. Era tudo produto velho, porcaria. Eu reformulei em 70% os produtos, quer dizer, tirei 70% da velharia que tinha lá, e joguei produtos novos. Ela era fornecedora também da Central de Medicamentos. Era uma das últimas fornecedoras, lá atrás.

 

P1 - Ela comprava remédios e distribuía?

 

R - Não. Fabricava, lá na Rua Paula Souza. Mas então eu mudei tudo ali, da seguinte forma: o regime de trabalho não era pela CLT, eu exigi e transformei que o regime de trabalho fosse pela Consolidação das Leis do Trabalho. Introduzi normas na parte técnica, na parte financeira e na parte administrativa. Botei no olho da rua uma porção de diretores que tinha lá. Então, não ficou nenhum funcionário público lá. Ficou uma indústria, e ela começou a evoluir e saiu do abismo em que ela se encontrava. Feito isso, Paulo Egydio já tinha saído do Governo, e tinha entrado o Maluf, e com o Maluf, o Adib Jatene, que era o secretário da Saúde. E como a Furp era diretamente subordinada à Secretaria da Saúde, eu levei o meu requerimento de exoneração, de saída da Furp, para voltar integralmente para a faculdade. E o professor Adib disse: "Professor Domingues, vamos fazer uma coisa? O senhor espera pelo menos mais um mês, porque eu estou entrando agora, tenho muita coisa para fazer, e não vai dar tempo de ver o que é a Furp, e eu não quero receber essa sua demissão assim." Em um determinado dia, inesperadamente, aparece lá o secretário da Saúde, na Furp. Apareceu lá, não mandou avisar nem nada. Visitou a Furp. Na saída, ele disse: "Domingues, agora, você é Domingues e eu sou Adib, para você. Você não vai sair daqui. Enquanto eu for secretário da Saúde, você não sai." Eu digo: "Adib, eu quero falar com você, no seu gabinete." "Tudo bem." Marquei uma entrevista com ele e fui para lá. Cheguei lá e disse: "Adib, eu concordo em ficar. Porém, o local geográfico onde a Furp está instalada não é correto, é absolutamente incompatível. Os laboratórios são também incompatíveis com aquele tipo de prédio. Um laboratório farmacêutico trabalha na horizontalidade, e não na verticalidade. Um laboratório de sínteses orgânicas trabalha na verticalidade;  você começa lá em cima, vai descendo, passa pra cá, passa pra lá. Mas ali, não. Muito bem, eu fico, com uma condição. Eu quero fazer uma pergunta: a Secretaria da Saúde tem terrenos?. Ele disse: "Tem, muitos." "Então eu quero um terreno da Secretaria da Saúde. “A partir daí, eu projeto o laboratório.” Ele chamou imediatamente um auxiliar dele e disse: "Acompanhe o doutor Domingues em todos os terrenos da Secretaria da Saúde." E isso foi feito. E eu escolhi um terreno em Guarulhos, uma área de 230 mil metros quadrados. Antes, queria me dar um terreno dentro da Cidade Universitária, ou seja, do Instituto Butantã. O Governo ia me dar mesmo isso aí. E eu fui ao então reitor, que era o professor Paiva, já falecido, e disse: "Paiva, eles querem me dar isso. Eu quero que você, como reitor, negue isso. Porque você já imaginou caminhões de matérias primas e produtos, passando por dentro da Furp para chegar nesse laboratório? E é uma área pequena, uma área de 15 mil metros, eu não posso construir nada." Feito isso, foi eliminada essa parte. Então eu fiquei com o terreno em Guarulhos. Sabe qual a área? Eram 230 mil metros quadrados. Lá, eu projetei o laboratório. Bom, antes disso também teve uma outra coisa, ainda no tempo do Maluf. O Governo tinha um laboratório de vacinas veterinárias em Paulínia, em Campinas. Só que lá nesse laboratório tinha alguns arcabouços de concreto, tinha a administração, tinha diretoria, mas não se fabricava nada, não tinha laboratório. E o Governo, por consequência, só gastava dinheiro. Então o Maluf me chamou e disse: "Domingues, eu estou querendo fazer uma fusão da Furp com o laboratório, e você fica o superintendente de tudo." Eu digo: "Não. Eu já sofri muito para tirar a Furp da falência, renovei a Furp, e não vou admitir que se fizesse uma fusão onde tem elementos outros etc. E fica assim, eu saio da Furp, e o senhor, governador, faça como bem entender. Eu saio da Furp." Algum tempo depois ele mandou me chamar de novo, e disse: "Domingues, e se eu der aquele terreno para você, você aceita e faz o laboratório lá?" Eu digo: "Faço, com uma condição: não quero nenhum dos elementos que estão lá. Nenhum!" E ele concordou. Então, o terreno, os arcabouços e o esqueleto ficaram para a Furp. Nesse ínterim, era época ainda em que nós tínhamos a Ditadura Militar, o General Venturini solicitou do Maluf, lá de Campinas, porque ficava muito bem para o Exército, uma vez que eles tinham, ao lado, um parque de computação, isso, aquilo, e eles queriam fazer daquilo lá uma coisa tecnológica muito bacana. E o General Venturini achava que aquilo seria o ideal. Aí o Adib veio falar comigo: "Olha, o Maluf vai entregar aquilo lá para o Governo Federal." Eu peguei o meu diretor administrativo da Furp e disse: "você vai correndo a Campinas, vai passar pelos cartórios, com a documentação que eu estou lhe dando, e vai fazer com que aquilo que está lá seja oficialmente da Furp. É uma escritura. Seja escriturado, oficialmente." Quando ele me trouxe a escritura, eu fui até o Maluf e disse: "Olha, dar, não pode dar. Quer vender, nós vendemos."[risos] Ele disse: "Você tem que ver isso lá em Brasília." Então, eu e o Adib fomos até Brasília e falamos com o General Venturini. Eu disse: "Olha, não podemos, porque tem escritura, tem tudo. Não podemos, não há possibilidade. O Governo tem que comprar." Aí, o General Venturini disse: "Então falem com o ministro Delfim Neto." Eu conhecia o Delfim Neto porque, numa certa ocasião, indo fazer conferência de palestra em um curso que eu estava dando lá em Campinas, ele também dava em Campinas outro curso, e eu não ia de carro, e ele também não ia de carro, e ele já era gordo, e eu fiquei conhecendo porque tinha uma vaga só dom meu lado no ônibus, e ele que sentou. [risos] Então eu fiquei conhecendo ele nessa viagem. Então fomos ao Delfim Neto, explicamos para ele o assunto, e o Delfim concordou prontamente. Todavia, eu sempre preocupado com as possibilidades das coisas, eu fui até o Centro de... O Governo do estado de São Paulo tem um centro que é representativo de todas as coisas estatais. Não me lembro o nome agora. Eu fui lá e disse: "Acontece isso, isso, isso e isso." Ele disse: "Não, o senhor não pode vender. O que o senhor pode fazer é abrir uma concorrência." Eu digo: "Ótimo! Para mim é melhor ainda." Então eu abri concorrência. Concorreram alguns laboratórios e mais o Governo, e o Governo ganhou. Mas dentro da concorrência, ganhou com o cheque na mão. Este cheque eu depositei exatamente junto a essa central. Naquela ocasião, dinheiro de um dia para o outro perdia, desvalorizava. E isso eu não queria, de jeito nenhum. Eu mandei que fosse colocado como um financiamento, como um sei lá eu... Tem um nome. Para que o dinheiro estivesse sempre, permanentemente atualizado. E isso dentro do Governo do Estado. O que foi feito. E mais: eu disse que ninguém podia mexer naquele dinheiro. Qualquer retirada daquele dinheiro tinha que ter aprovação do presidente dessa coisa aí e do Conselho Deliberativo da Furp. Então ninguém podia mexer. Nesse ínterim, eu preparei o projeto lá de Guarulhos. Um laboratório que até a Rhodia mandou pessoas lá para verificar o laboratório, de tão perfeito que era o laboratório. Um laboratório com 16 mil metros quadrados de área construída. Eu projetei juntamente com... Eu ia dando as idéias para o arquiteto (Fungar?), e ele ia pondo no papel e dizia: "Não, sim, é..." No fim, saiu o laboratório. E esse laboratório foi construído com esse dinheiro. E sobrou muito dinheiro. Eu equipei todo o laboratório com equipamentos nacionais e estrangeiros. E ainda sobrou muito dinheiro, que ficou lá. Eu inaugurei o laboratório em 1982. O Governo era Franco Montoro. Inaugurei o laboratório, não o laboratório, mas primeiro eu pus o laboratório em funcionamento. Funcionava tudo, tudo, tudo. Eu não apenas construí o laboratório, mas eu também fiz lactário, berçário, atendimento médico para tudo e para todos, instrução para crianças para até sete anos de idade, filhos de funcionários, construí biotério, construí a parte de bioquímica, de microbiologia, de tudo, tudo, tudo, tudo de análise, portanto. Tinha análises físicas, químicas, físico-químicas, microbiológicas, parasitológicas, biológicas. Tinha tudo, tinha biotério, ou seja, o biotério significa a criação de animais, e a criação de animais para fazer experimentos. E também reservei uma residência para estagiários de outros lugares do Brasil, que desejassem fazer estágio depois de formados, lá. Então passei a instituir também a possibilidade de estagiários fazerem adaptação, atualização e tudo mais, na Furp. Coisas que estão lá e existem.

 

P1 -  Isso tá lá ainda hoje?

 

R - Tá. Em 1982, com isso, eu pedi, em caráter irrevogável, a demissão do cargo ao governador Franco Montoro. A faculdade não quis que eu me afastasse completamente, então me designou, juntamente com o professor Roberto (Vasik?), como conselheiros representando a congregação da faculdade. E eu fiquei até 1984, 86, fiquei lá. E Santo André foi a minha vida.

 

P2 -  Eu fiquei curiosa para saber como é que era esse treinamento com os propagandistas.

 

R - Bom, o treinamento mesmo é dado pela parte comercial. Eu não fazia esse treinamento, eu respondia às solicitações e perguntas que me faziam, e que eles tinham dúvidas ou não sabia responder. Então eu procurava elucidar essa parte. Porque o treinamento de propagandistas eu acho que tem que começar primeiro com educação. Tem que ser um cara que saiba sorrir e não tomar tempo. Não é verdade? E saiba também ser agradável à assistente do médico, porque, se não for... Mas é isso aí. Agora pode fazer perguntas aí.

 

P1 -  Seu Domingues, como é que era, nesse período que o senhor trabalhou junto à Rhodia, a parte farmacêutica, em relação à Rhodia como um todo, ao grupo? Como era essa relação? 

 

R - Você diz a relação humana?

 

P1 - Atividade, relação humana ______.

 

R - Bom, a relação humana sempre foi perfeita. O entrosamento entre o setor químico, o setor veterinário, o setor têxtil sempre foi absolutamente perfeito. Tanto assim que a Rhodia instituiu lá em São José dos Campos a Rhodia Têxtil. Eu ia para lá e era recebido de braços aberto e tudo o mais. Para qualquer lugar que eu fosse... Eu atravessava o rio para ir na parte têxtil e era  muito bem recebido. Não só eu, todo mundo era bem recebido. Havia um entrosamento perfeito. Sempre houve entrosamento perfeito. Tinha a superintendência geral que dominava todas as divisões, e essa ficava do lado da divisão onde estava a Divisão Farmacêutica.

 

P1 -  A parte de fabricação era separada da parte administrativa?

 

R - No laboratório que eu e o (Ramou?) construímos, nós tínhamos, na parte inferior... Você entrava num saguão bonito, bom, entrava por umas portas enormes, e ali você tinha todo o laboratório, nessa parte de baixo. Porque essa construção foi feita com muita cabeça. Tinha um corredor em forma de "U". Na parte de cima do corredor em forma de "U", circulava toda a tubulação indispensável ao laboratório. Toda a tubulação passava por ali. Lá você tinha encanamentos, vapor, parte elétrica, vácuo, tudo, tudo, tudo, com acessos fáceis. Então o pé-direito era alto. Em cima ficava a parte administrativa, a parte comercial, não administrativa. Porque a parte administrativa do laboratório era lá embaixo também. A única coisa que não ficava neste laboratório era o biotério com as análises microbiológicas, parasitológicas e pesquisas nesse sentido.

 

P1 -  E a integração era entre a parte de produção do laboratório, da preparação do produto para comercializar... Enfim, tudo funcionando...

 

R - Funcionava como se fossem irmãos de uma família. Não tenha dúvida. O Simões era o chefe da parte comercial, o Valente exatamente na parte de propaganda - um cara muito bacana, escrevia muito bem, escreveu tanta coisa, fulano fabuloso, Valente era fabuloso.

 

P1 -  A gente viu um material dele, fiquei impressionado.

 

R - Fabuloso.

 

P2 -  Um artista.

 

R - É. Foi ele que escreveu esse negócio da minha mãe.

 

P1 -  O texto, né?

 

R - É. Toda vez que eu vejo isso aí, eu choro. O que mais? Vocês querem dar uma espiadinha em alguma coisa?

 

P1 -  Já, já a gente vai dar uma olhadinha. Eu queria que o senhor fizesse um apanhado desse trajeto, seu Domingues: quais as principais mudanças e alterações que o senhor atravessou, desde a sua entrada até sua saída. Quais os momentos mais marcantes da Rhodia, nesse período.

 

R - É engraçado... Eu não vejo momentos tão marcantes, porque os momentos marcantes são coisas que diferem um do outro. Eu acho que a Rhodia foi realmente se desenvolvendo de uma maneira gradativa e harmoniosa. Ela era pequena, os laboratórios eram muito mal ajeitados. Era laboratórios que realmente não tinha maior significado dentro do campo farmacêutico. Para a época, sim. Época da guerra, 1943, quando eu entrei para lá. E foi exatamente com o desenvolvimento que nós sentimos que era necessário dar à Divisão Farmacêutica, e às outras divisões também, como a Veterinária, e tudo mais, que nós imaginamos, eu e (Ramou?), e construímos o novo laboratório. E o novo laboratório, realmente, era representativo, um equipamento sempre espetacular, novo, importado ou não. Então, veja, a saída - tem até este aspecto - daqueles laboratórios modestos, insignificantes, para um novo laboratório que era imponente, bom etc, foi feita gradativamente. Tão gradativamente que, quando menos se esperava, estava-se lá dentro do novo laboratório produzindo mais, produzindo melhor, com mais higiene, sob todos os aspectos. É a mesma coisa que acontecia com a vacina de febre anti-aftosa, com o neonato do coelhinho e com a cultura de tecido. E assim sucessivamente porque as modificações que vão acontecendo, elas não representam degraus que você tem que galgar com... não, são gradativas. Veja, quando eu entrei para fazer as minhas primeiras pesquisas na faculdade, principalmente pesquisas de aminoácidos, digamos, em alimentos, proteínas, e depois discriminar os aminoácidos em alimentos, isso era um trabalho violento, um trabalho de química. Você tinha que, a cada aminoácido, fazer uma análise química profunda, enorme, dificultosa, e um aminoácido dificultava o outro, e assim sucessivamente. Com o desenvolver da tecnologia de equipamentos, hoje em dia você faz um digestão em uma proteína, solubiliza aquilo, injeta em um aparelho, e já sai o resultado do outro lado. Essa é a realidade. 

 

P1 - E a mão de obra?

 

R - Bom, a mão de obra vai se adaptando. Veja você: se você tem um operário que trabalha em uma máquina de comprimidos, por exemplo, como as antigas máquinas de comprimidos, onde dois punções batiam, levantava, saía dois comprimido, batia, levantava, saía dois comprimido. Então ele tinha um trabalho desgraçado para ficar olhando aquilo ali. Hoje em dia as máquinas de comprimidos são rotativas, em alta velocidade. Então não tem problema nenhum. Veja, não há dificuldade alguma, porque ali é mais uma questão de fiscalizar, olhar, só, nada mais. E agora fiscalizar com menos complicação. Porque aquela era dois punções só, mas, muitas vezes, o produto que descia para ser comprimido não descia homogeneamente, não era homogeneamente colocado nos alvéolos. Então o comprimido poderia sair menor ou maior. Às vezes até estourava o punção. Hoje em dia, não, é tudo rotatório. A mesma coisa com drágeas, a mesma coisa com cápsulas, a mesma coisa com hipodermia. Hoje em dia é tudo automático. Você entra em uma fábrica, digamos de vinho ou de cerveja, você vê aquelas garrafas todas, elas são colocadas, lavadas, enxaguadas e depois enchidas e fechadas, e acabou. É a evolução, assim como é a evolução no campo das análises físico-químicas etc. Antigamente, para você fazer um exame de colesterol era realmente difícil. Hoje em dia é a coisa mais fácil, não tem problema nenhum.  E qualquer outro tipo de exame químico que você faça. 

 

P1 - E não houve resistência na Rhodia, em relação à entrada dessa tecnologia? Por parte de funcionários, por exemplo.

 

R - Não, não, nunca.

 

P1 -  Das operárias?

 

R - Nunca.

 

P1 - Havia treinamentos para as operárias?

 

R - Claro. E mais, na dependência do desenvolvimento de cada uma, você tinha possibilidade de levá-la a uma condição melhor. Isso não há dúvida nenhuma. O campo da indústria farmacêutica é um campo de higiene, tecnologia e conhecimento. Sem higiene você não faz nada, absolutamente nada. E é um perigo. Para isso é que a higiene existe, tem que existir, e apesar de existir, ela é controlada, altamente controlada. Tudo ali é controlado. Porque você não pode, de forma alguma, colocar uma substância injetável contaminada. Em vez de você tentar melhorar a saúde, você vai complicar? Isso você não pode fazer. Quantos milhões de injeções são feitos por dia? E o que existe de perigoso nisso? Nada, não se diz nada, não se vê nada, não se fala nada. Por quê? Porque a higiene existe. E quando eu falo em higiene, é a higiene e também toda a parte técnica para evitar ou eliminar possíveis contaminações, infecções etc. E depois o controle dessa higiene.

 

P1 - Um controle constante.

 

R - O controle é permanente. Nenhum lote, de qualquer produto, sai sem que o controle tenha sido aprovado. Nada, nada. Isso não pode.

 

P1 - Por que a decisão de instalar uma unidade farmacêutica no Cabo?

 

R - No Cabo foi porque o Brasil é muito grande, né? E como muitas vezes você tem determinados produtos que são produtos que pesam, e o transporte para ir daqui até a região lá do norte é violenta, muitas vezes, na dependência do tipo de produto, pode haver alterações em função do calor, disso ou daquilo. Então, o fato de nós termos pensado em instalar um laboratório lá, foi para que esse laboratório, e para determinados produtos - não era para fabricar todos -, fosse o fornecedor daquela região. Portanto, facilita, e muito.

 

P1 - Quais produtos? O senhor lembra?

 

R - Vamos supor Vitaminer líquido. É um frasco enorme de soluções vitamínicas. 

 

P1 - Carregar isso daqui para lá...

 

R - Pois é. Então esse foi um dos tipos de produtos. Muitos outros foram feitos lá, mas perfeitamente discriminados, e para atender àquela região.

 

P2 - O que significava a Rhodia nesse segmento farmacêutico? Ela era...

 

R - O que significava o segmento farmacêutico para a Rhodia?

 

P2 - Qual era o peso?

 

R - Ele era pequeno. No início era realmente pequeno. Tinha o setor químico, que era maior, e o setor têxtil, que era bem maior. O setor têxtil sempre foi, na Rhodia, o maior setor, indiscutivelmente. Agora, houve ocasião em que a Rhodia, Divisão Farmacêutica, passou a ser bem representativa, não pelo volume financeiro, mas pelos resultados. Na verdade, a Divisão Farmacêutica é uma divisão pequena, em termos de Rhodia, porque a Divisão Têxtil é enorme. A Divisão Química produz em grande escala, muitos produtos, produzia, pelo menos, não sei como é que está hoje. Tanto assim que, só os aminoácidos, que eram para ser produzidos lá na Bahia, já era algo muito importante para o país, porque nós não tínhamos metionina, essas coisa, nós não tínhamos aqui. E a Rhodia ia produzir isso lá na Bahia. 

 

P1 - E o controle de preços interferiu? O senhor sentia isso no cotidiano, na parte farmacêutica, do controle de preços?

 

R - Bom, o controle de preços era da parte comercial. Agora, evidentemente, a produção tinha que ter um determinado custo, porque é a partir do custo que você tem um preço. Então nós tínhamos que ser realmente organizados e enxutos. Sempre fomos enxutos. E foi com o conhecimento dessa forma de fazer a coisa enxuta, que eu liberei a Furp, em seis meses, da falência que ela tinha.

 

P2 - O que significava, para as pessoas, os remédios que a Rhodia lançava aqui? Que impacto que isso tinha na população? Alguns remédios, tipo... Gardenal...

 

R - O remédio, não tem, em princípio, impacto na população, a não ser medicamento do tipo Viagra. [risos] Você pega um Viagra, e isso tem um impacto na população, principalmente na população impotente, seja ela moça ou não. O que acontece? Você pega um Gardenal, como você estava falando. O Gardenal é fornecido através dos médicos a uma determinada população doentia. E essa população, por exemplo, ela não tem muito sentimento daquilo que ela está precisando. Pensa mais quem não precisa do que quem precisa. Ou seja, vamos supor que uma mãe tenha um filho epiléptico. O filho praticamente não sabe o que precisa e não sabe que aquilo vai ser um impacto de bom, mas a mãe sabe. Então, ele, paciente, ele recebe o medicamento, apenas, simplesmente. E às vezes nem quer tomar, às vezes nem quer receber o medicamento, essa é a verdade. Então, o impacto mesmo só existe...

 

P1 - Mas os médicos, por exemplo, quando chegava o propagandista lá da Rhodia...

 

R - Bom, quando chega um propagandista junto ao médico, para apresentar um novo medicamento, há que discriminar o seguinte: é um medicamento realmente novo ou é um medicamento que está sendo apresentado para agir da mesma forma que outros que já existem? Se for para agir da mesma forma que outros que já existem, não tem maior importância, a não ser que o médico tenha uma simpatia maior por este ou aquele laboratório, tenha mais confiança neste ou naquele laboratório. Agora, se é realmente um medicamento para uma terapêutica nova, novo para uma determinada terapêutica, tudo bem. Aí não há dúvida nenhuma, ele quer provar, ele quer experimentar. Veja o caso, por exemplo, Da... Como é que chama? O câncer na próstata, a prostatite. O câncer da próstata existe alguns medicamentos que... Eu, por exemplo, tenho problema de próstata, então comecei a tomar um determinado medicamento - posso até dar o nome dele -, Proscar. Mas um dia eu comecei a ler muito bem a bula, e vi que tinha uns efeitos colaterais. Mas como eu não estava sentindo efeitos colaterais, eu continuei tomando o medicamento. Realmente houve umas melhorias no ato de urinar, todavia, algum tempo depois, eu comecei a sentir qualquer coisa no seio direito. E aí eu comecei a ficar preocupado, porque eu estava ficando com seio de mulher. É! Estava sentindo que estava crescendo. Eu digo: "Isso aqui vai virar peito de mulher!" [risos] Parei com o Proscar na hora. Tempos depois, desapareceu tudo. Então, nesse caso que eu tava falando... “Sai daí, ô! Ô bicha sem-vergonha. Vocês me dão licença? Posso tirar ela daqui?”

 

P1 - Claro.

 

[INTERRUPÇÃO NA GRAVAÇÃO]

 

R - ...grandes possibilidades de melhoria de vida. Não é preciso ir longe. É só a gente voltar 50 anos atrás e verificar, primeiro, o tempo de vida útil da população, em relação ao tempo de vida útil da população de hoje; a mortalidade infantil de 50 anos atrás e a mortalidade infantil nos dias de hoje; o problema de determinadas moléstias que existiam permanentemente, o caso da malária, da hanseníase, e tudo o mais, que hoje em dia são controladas e eliminadas, inclusive. Então, tudo isso é efeito do desenvolvimento científico, que é permanente. Claro, está mudando um pouco a coisa. Se você for verificar o desenvolvimento no campo atlético, você vai ver aquela pobre moça, aquela americana que morreu há pouco tempo. Pois é, morreu há pouco tempo, mas, segundo tudo indica, ela teve as vitórias fantásticas que ela conseguiu por uma questão hormonal. Agora, o hormônio pode, até um determinado instante, ser interessante, mas, a partir de um determinado instante ele vai ser prejudicial. Na vida, eu sempre disse uma coisa: "Em qualquer campo, tudo na vida você tem que fazer de uma forma balanceada, sem exagero. Se você não balancear a sua alimentação, você não tem uma alimentação decente. Porque não é a quantidade que vai te dar maior desenvolvimento ou maior vida, não é, é o balanceamento do alimento. No alimento você tem que ter a proteína, tem que ter a vitamina, os sais minerais. Não adianta nada você comer macarronada só. Você está se empanturrando, engordando, e está se prejudicando. A mesma coisa sucede em qualquer outro campo, até na atividade física da pessoa. Não adianta nada, veja bem, o "atleta de fim da semana". Isso é um perigo. O fulano fica durante seis dias trabalhando, sem fazer qualquer exercício. Chega ao domingo, ele vai jogar futebol, fazer isso, aquilo. Amanhã ele tem um infarto e morre. A mesma coisa na prática sexual. Não adianta você querer exagerar na prática sexual, você vai se prejudicar, vai perder o próprio interesse. Tudo, tudo tem que ser balanceado, tudo na vida. E balanceando, vocês chegarão facilmente, como eu graças a Deus cheguei, até os 78 anos, e com a saúde que eu tenho.

 

P1 - Qual é o seu maior sonho hoje?

 

R - Meu maior sonho? É ver o desenvolvimento dos meus netos, é estar com os meus netos, é saber e procurar ajuda-los a se tornarem criaturas felizes. Esse é o maior sonho.

 

P2 - O senhor mudaria alguma coisa na sua trajetória de vida?

 

R - Na vida que eu tive?

 

P2 - É.

 

R - A vida que eu tive, eu agradeço a Deus toda ela. E agradecendo a Deus, eu não posso mudar nem pensar em mudar. Eu hoje sou um homem feliz. Feliz sob todos os aspectos: por ter trabalhado intensivamente, e ter sabido que esse trabalho intensivo me proporcionou tudo de bom fisicamente e economicamente; porque sou casado há 52 com a mesma mulher; feliz porque, embora tendo apenas uma filha, tenho dois netos; feliz porque, menino pobre conseguiu chegar àquilo que eu considero a realização do meu sonho, que foi a culminância da carreira universitária. O que mais eu posso desejar na vida? Eu tenho tudo, porque riqueza não é felicidade, a riqueza está dentro da pessoa. E a felicidade, essa você externa, inclusive, através da sua alegria, através da simpatia que você tem com as outras pessoas, através do apoio que você dá às outras pessoas, da amizade que você tem. Qualquer pessoa que venha me pedir alguma coisa, eu tenho sempre o maior prazer em atender. Eu gosto, eu estou tendo comunicação, estou fazendo alguma coisa. Veja você, minha querida, eu parei de trabalhar e fiquei parado? Não, eu simplesmente cortei o cordão umbilical da parte de ciência e da parte de tecnologia. Inclusive, a minha biblioteca não existe mais. Tenho só uns poucos livros aí que me são caros por outras razões. O que eu fiz logo que me aposentei? Fui aprender a trabalhar com torno mecânico. Eu hoje tenho torno mecânico aqui para metal e para madeira. Tenho serra elétrica, tenho furadeiras, tenho tudo aí. Faço qualquer coisa. Se for preciso subir no telhado para arrumar uma telha, verificar um caibro, eu subo, vou, vejo e resolvo. Se for preciso fazer um encanamento, eu vou e faço. Se for preciso consertar um ferroelétrico ou uma geladeira, eu vou e faço. Tudo isso eu faço, hoje em dia. Graças a Deus, eu faço. Eu gosto de jardinagem. Por exemplo, esse quadrinho que está ali, fui eu que pintei. 

 

P1 - Esse quadrinho?

 

R - É. Aquela igreja que está lá. Está vendo? Fui eu que pintei. O quadrinho que está aqui fui eu que pintei. Tudo isso a gente vai fazendo. Tem outro quadro de flores por ali que eu fui que pintei. Pintei o meu neto, pintei a minha neta, pintei o rosto da minha mãe. Essa é minha filha, fui eu que pintei. Então, tudo isso se chama felicidade, chama-se alegria, chama-se satisfação, chama-se agradecimento a Deus.

 

P1 - O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa, seu Domingues?

 

R - Vocês é que sabem. A minha vida...

 

P2 - Eu tenho uma dúvida.

 

R - Pois não.

 

P2 - Eu não sei se em algum momento o senhor falou, comentou, e se comentou, me desculpa, mas porque o senhor escolheu fazer faculdade de Farmácia?



R - Inicialmente, eu sempre fui pelo lado das ciências médicas, digamos. Quando eu era criança, em Descalvado, uma das coisas que eu mais gostava era passar pela farmácia de um ilustre farmacêutico, muito competente, que tinha lá, inicialmente por causa daqueles globos coloridos, muito bonitos e que me encantavam e depois pelo fato de eu estar sendo agradável ao farmacêutico, de vez em quando ele me convidava para entrar no laboratório da farmácia. E eu ficava ali, embevecido, o vendo fazer as manipulações magistrais. Porque naquele tempo não tinha indústria, não tia nada, era tudo na base de produção dentro do laboratório da farmácia. Aquilo me deixava realmente estonteante. Eu não vou dizer que isto marcou, não, mas ficou lá dentro e não saiu lá de dentro. Quando eu vim para São Paulo, eu comecei trabalhando em escritório de engenharia, e no escritório de engenharia eu me desenvolvi muito bem e achei que ia indo muito bem. Podia até fazer um curso de engenharia, se houvesse possibilidade de fazer um curso superior. Aí veio o convite da Rhodia. Com o convite da Rhodia, eu disse: "Bom, eu estou no campo farmacêutico." Aí voltei a me recordar sempre daquilo tudo. E de vez em quando eu ia para os laboratórios, embora pequenos, modestos, eu ia e sempre me deslumbrava com aquilo tudo. E eu quis fazer porque, veja bem, o farmacêutico é, na verdade, um profissional que não tem o respaldo do agradecimento da população. Por quê? Porque ele não atende diretamente à população. Quem tem o agradecimento da população é o médico, é o dentista, é o veterinário que vai cuidar dos seus animais, é o engenheiro que vai construir a sua casa, porque está diretamente... O farmacêutico está sempre dentro de um laboratório. Agora, não se esqueça de que aquilo que você está recebendo para melhorar a sua saúde ou para prolongar a sua vida, aquilo foi feito e descoberto pelo farmacêutico, no laboratório. Isso a população não sabe, e por essa razão, ela... Agora, este é o sentimento que eu tenho e que também me propiciou a ida para a faculdade de Farmácia, para ser farmacêutico. Compreendeu? Se você pudesse ler alguns dos meus discursos, você ia verificar muitas coisas nesse sentido. Aquilo que a gente faz é realmente enorme, é grande, é imenso, e é em benefício da sociedade, sempre. Concorda ou não? [risos]

 

P2 - O que o senhor achou de dar esse depoimento hoje, contar a história...?

 

R - Eu achei que vocês fizeram com que eu revivesse muitos momentos da minha vida, e que, em poucas horas, eu me projetasse em 56 anos de trabalho. Fizeram-me recordar, inclusive, do meu primo Sílvio, com que eu fazia meus brinquedos. Farmacêutico lá de Descalvado que me convidava para ver as manipulações magistrais. Tudo isso é um encantamento. Eu posso dizer a vocês que, dentro da felicidade, dentro do homem feliz que eu sou à noite, quando eu estou sozinho - e aqui eu sou mais ou menos um ermitão, e me sinto bem -, agora, à noite, quando eu estou sozinho, e se estou de olhos abertos, eu estou revendo toda a minha vida. Mas não é a minha vida que eu revejo, eu revejo as pessoas que estiveram e que fizeram a minha vida. Desde os meus colegas de Rhodia, desde os funcionários que eram meus subordinados, aos meus professores, aos meus alunos, e tudo isso é uma maravilha, porque eu não tive apenas alunos aqui no Brasil, eu tive alunos no exterior, eu não fiz conferências apenas aqui no Brasil, eu fiz também no exterior. E conheci uma boa parte do Mundo, e conhecendo uma boa parte do Mundo, você fica conhecendo as pessoas. Eu vou dizer para vocês: a população mais gentil que eu conheci, até hoje, foi a população do Líbano. Os libaneses hoje não sabem, mas o libanês era de uma gentileza, de uma delicadeza que você não encontra. Assim como, quando você está com um marroquino e vai comprar alguma coisa no Marrocos, a coisa mais gostosa é a discussão do preço. Você discute o preço, e às vezes você fica uma hora discutindo o preço. Os gestos que o marroquino comerciante faz são gestos teatrais, é coisa simplesmente espetacular. Em uma ocasião inclusive eu cheguei para um deles e disse: "Escuta, um americano entrou aí agora e comprou alguma coisa de você, ele pagou, foi embora, mas você está aqui discutindo o preço comigo e está..." Ele disse: "Bom, o que é que o senhor quer que eu faça? Com o senhor eu estou sendo feliz. Aquilo que eu fiz com o americano, o que adianta? Eu ganhei um pouco mais de dinheiro, mas e a minha felicidade?" Isto para mim é um exemplo. Quer dizer, o marroquino gosta, faz questão de discutir o preço e baixa bem o preço, porque nesta discussão ele fica conhecendo você, fica conhecendo o seu país de origem, fica tomando conhecimento da civilização. Quer dizer, por inculto que ele possa ser, ele é muito culto, mas muito culto. Essas coisas todas valem a nossa passagem pela vida. Não acha?

 

P2 - Acho.

 

R - Olha, o Brasil é um país tórrido, né? No entanto, o esporte que mais me deliciou até hoje foi o esqui na neve. Eu comecei na França, fiz toda a escola de esqui, e esquiava na neve. Esquiava na água também, aqui no Guarujá. Fazia Windsurf, competia em Windsurf. Fui eu que implantei no Guarujá o tênis de praia. Eu jogava tênis, depois tênis de praia, e implantei o tênis de praia no Guarujá, em 1964. 

 

P1 - Em 1964?

 

P2 - Que ótimo.

 

R - Fazia pesca submarina. A pesca submarina, ‘‘e boa deixar bem claro, eu gostava muito de mergulhar e ficar vendo os peixes, eu dificilmente dava um tiro no peixe, jogava um arpão no peixe. Aquilo lá, para mim, é outro mundo, mas um mundo fantástico, um mundo que, sob determinados aspectos, é mais bonito que o mundo que a gente vê aqui. Coisa linda! Então tudo isso é importante. Os contatos que você tem com todas as pessoas... Eu já tinha idade, eu era professor e tudo o mais, eu ia para o Guarujá, eu sentava na praia e ficava reunido com a juventude. Garotas e garotos que ficavam ali queriam conversar comigo, e eu fazia o esporte com eles.

 

P1 - Que maravilha!

 

R - Maravilha. Então, por tudo isso, meu caro, eu agradeço a Deus pelo o que ele me fez e pelo o que eu sou. E hoje, mesmo ermitão aqui, sozinho, não tenha dúvida nenhuma...

 

P2 - O senhor mora aqui nessa casa, com a sua esposa?

 

R - Eu e ela. Ela, agora, muitas vezes, está em São Paulo para ficar um pouco com os netos. Eu vou de vez em quando ficar com os netos. E eu, a São Paulo, praticamente vou só para fazer condicionamento físico. 

 

P2 - Bom, a gente gostaria de agradecer...

 

R - Eu vou só mostrar umas coisinhas ali para vocês...

 

P1 - É a gente vai

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