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História

A educação não escolhe idade

História de: Liane Vizzotto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/06/2020

Sinopse

Liane fala sobre memórias de infância, brincadeiras, família e vida no campo. Conta sobre o Magistério e sobre a mudança de Administração para Pedagogia. Fala sobre a experiência com alunos em situação de vulnerabilidade e com deficiências. Conta sobre o trabalho na Secretaria de Educação de Concórdia. Fala sobre o ensino de tecnologia nas escolas, parcerias público-privadas e capacitação de professores.

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História completa

P/1 – Liane, pra começar, eu vou pedir pra você falar o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

R – O meu nome é Liane Vizzotto. Nasci em Concórdia no dia 20 de outubro de 1977.

P/1 – Liane, queria que você falasse um pouco da casa da sua infância, a casa em que você cresceu. Descreve ela pra gente. Como é que ela é?

R – No município do interior existem várias localidades rurais. Então foi numa dessas que eu nasci. A minha casa era uma casa grande, justamente característica dos imigrantes italianos. Cresci com seis irmãos, quer dizer, com mais cinco. Nós somos em seis. Mas era uma casa muito arborizada, com bastantes animais, com bastantes plantas. Os meus pais eram agricultores, e isso fez com que eu me inserisse nessa cultura interiorana, que a gente chama aqui agrícola. Mas foi uma infância bastante interessante, diferente da que nós vemos hoje, justamente porque o tempo não é o mesmo, né? No entanto, eu vivi, recordo da infância como momentos muito felizes, como momentos de grande aprendizado porque tinha um diferencial interessante: já que a gente é filho de agricultores, nós nos inserimos no trabalho também. Ao mesmo tempo em que nós brincávamos e estudávamos, nós também trabalhávamos.

P/1 – Então me conta um pouco desse cotidiano da casa, como é essa coisa do trabalho, da escola? Como é o dia a dia?

R – Então, o dia a dia é marcado por rotinas. A rotina é justamente o fato de você ter um trabalho em cada horário do dia. Então geralmente eu estudava no período vespertino, à tarde, em uma escola muito próxima de onde nós morávamos. E pela manhã eu acordava e ajudava minha mãe com o trabalho com o gado. Nós tínhamos vacas de leite, então eu ajudava na lida, como a gente chamava. Depois nós íamos fazer o alimento desse animal. Depois almoçava e ia à escola. E à noite era o tempo que a gente tinha dedicado aos estudos. Depois da janta, era rotina. Era fazer o tema, geralmente sozinha. Meus pais nunca tomaram o tempo deles pra fazer o tema comigo, e, no entanto, a gente sempre sabia que havia um olhar deles. Hoje, adulta, analisando o tempo, havia um olhar deles atento ao estudo. Inclusive, em conversa recente com a minha mãe, eu perguntei por que eles foram morar naquela localidade que era tão próxima à escola porque eles moravam numa comunidade rural muito distante, em que tudo era distante. Inclusive hoje, devido à usina hidrelétrica de Itá, essa localidade não existe mais. Ela está embaixo d’água. Aí ela disse: “Quando o seu pai foi escolher a localidade onde iríamos morar, primeiro olhou se tinha escola perto”. Isso é um fator muito bacana que fez com que a gente se aproximasse mais dos estudos, porque a ele não foi dada esta oportunidade de estudar. Ele queria muito estudar. Tanto que ele foi pra colégio de seminário. Enfim, seminarista. Mas deu aos filhos essa dualidade entre trabalho e estudo, mas com foco também no estudo, né?

P/1 – Liane, fala um pouco sobre seus pais. Você falou um pouco sobre eles. Queria que você falasse como eles eram no dia a dia, como era sua relação com eles nessa infância.

R – Então, interessante falar sobre isso justamente porque é o diferencial que se tem de hoje dos pais, né? Eu cresci com meu pai e minha mãe o tempo todo comigo. O meu pai, como trabalhava na lavoura, ele estava em casa de manhã, ao meio-dia, à tarde. A gente acompanhava ele e a minha mãe da mesma forma. Então, eu cresci junto com eles. Aliás, acompanhando o trabalho deles, aprendendo tacitamente esse trabalho deles. Então foi um crescimento na minha infância, com os pais presencialmente 24 horas por dia. O único tempo em que eu me afastava deles era justamente o tempo em que eu estava na escola. Isso é um fator por que a gente não esquece os detalhes da vida na infância, né?

P/1 – Bacana. E as brincadeiras de infância? Do que vocês brincavam? O que vocês faziam?

R – Esta é uma outra coisa muito interessante porque um fator, a gente não tinha costume de ter brinquedos. Eu tinha irmãos mais velhos. Eles faziam carrinho de rolimã, ou, aqui na nossa região existem alguns coqueiros que têm uma espécie de uma canoa, como a gente chamava. Então nós utilizávamos disso pra deslizar em grama. Aqui a gente chama a pastagem do gado de potreiras. É uma característica, um espaço onde o gado fica, que tem grama, e a nossa região geográfica dá condição de ter bastante morro, então a gente brincava muito com isso. Nós brincávamos muito com atividades que nós mesmos inventávamos. Pra você ter ideia, eu tive um ursinho de pelúcia e guardei ele pra minha vida adulta. Tinha boneca. Eu, que era menina, era raro, porque eram mercadorias extremamente caras ao acesso de um agricultor. É diferente de hoje, que tudo é fácil de acesso. Parece que tudo está democratizado. Naquele momento, a gente não tinha acesso a isso. E o meu pai tinha privilégios de manter a família, alimentar bem a família. Nós tínhamos casa, nós tínhamos carro, nós tivemos uma vida que nunca faltou nada em termos de necessidades básicas. No entanto, essa visão do brinquedo, nós mais construíamos do que comprávamos. Pra você ter uma ideia, uma vez eu ganhei uma boneca que eu tanto quis, mas aquela boneca me cansou. Eu arranquei a cabeça dela, porque ela era enorme, pra jogar bola. Eu gostava de fazer atividades ao ar livre. O espaço era extremamente grande, então proporcionava isso pra nós. Então eu arranquei a cabeça dela pra fazer uma bola. Fazíamos muita bola de meia, brincávamos muito com as plantas. Enfim, era uma atividade muito, muito diferente de hoje a nossa brincadeira. Muita brincadeira… Elástico é uma atividade que a gente coloca o elástico, pula corda. No barro, muita brincadeira com barro, muita brincadeira em árvore.

P/1 – E, Liane, quais são as suas primeiras lembranças de escola? Primeiro dia, primeiro contato...

R – Eu me lembro muito da escola da minha primeira série e da minha Educação Infantil, quando eu tinha 4 anos. Eu entrei na escola com 4 anos, na Educação Infantil, e tinha que dormir. Tinha o momento da tarde em que precisava dormir, e eu não gostava de dormir. O colchão era de palha. Então, quando eu deitava, fazia barulho. Esta é uma lembrança das atividades da Educação Infantil: que tinha que dormir e que a gente brincava de roda. E o uniforme, que era justamente vermelho e branco. E, nos anos iniciais, que é a primeira série, eu me lembro muito, desde o A que eu aprendi no quadro, com a professora fazendo as linhas do quadro. Primeiro fazendo uma espécie de C, depois complementando com a letra A, fechando o C e formando a letra A e as primeiras palavras. A primeira palavra que eu aprendi a escrever e a ler foi a palavra macaco, porque a professora trouxe um macaco pra sala de aula, pra nós vermos. Então essa foi a primeira palavra que eu aprendi, justamente por ter sílabas simples. O método, na época, exigia que fosse desta forma, então esse foi um fato que a gente nunca mais esquece, né? Todos os anos seguintes… Eu tenho excelente lembrança da escola.

P/1 – E como é que era a escola em si? Era multisseriada? Fisicamente, como era a escola?

R – A escola era grande na época. Seriada. Nós tínhamos, em média, 20 alunos. Nós tínhamos, como material didático, eu lembro — hoje a gente sabe que é um material didático — as cartilhas. É o Barquinho Amarelo, depois os Brinquedos da Noite. Mas era uma escola em que existia uma organização estudantil, inclusive. No momento em que eu tive idade para entrar nessa organização estudantil, eu entrei. A gente tinha lideranças de sala. A gente tinha ginásio, quadra de esportes, quadra de areia. Tinha uma atividade física chamada espirobol, que é um poste, e tem uma bola. O objetivo é enrolar a bola nesse material, nesse poste. Enfim. Então, a escola era muito organizada. Uma escola mantida pelo Governo do Estado de Santa Catarina. O que é diferente de hoje é que nós não tínhamos alimentação. Não tinha lanche todo dia. Mas isso não era problema. Nós mesmos levávamos, né? E, enfim, os professores da época, formados na formação limitada daquele tempo, né? Início da década de 80, a maioria de magistério. Mas foi uma escola bem organizadinha, bem bacana.

P/1 – E, ao longo da sua vida escolar, tem algum professor que te marcou mais, que você lembra com mais afinco?

R – Sim. Primeiro professor acho que é um impacto bastante grande. Professora de alfabetização e da Educação Infantil foram as professoras que mais me marcaram. E, no decorrer do Ensino Fundamental, nos anos finais, a professora de História e Geografia. E a de Matemática, logicamente, por ser uma disciplina que ela dizia para nós que, se nós não aprendêssemos, ela abriria a nossa cabeça e colocaria o conteúdo dentro. Então tem algumas frases que nos impactam enquanto sujeitos daquele momento histórico. Qual momento? Década de 80. Qual o sujeito? Pré-adolescência, né? Então isso é interessante porque nós carregamos ao longo da nossa vida, né?

P/1 – E você falou dessa coisa de representação escolar, dos grupos. Como é que foi essa fase mais pré-adolescente, adolescente?

R – Muito interessante que naquele momento nós, enquanto alunos, nós nos organizamos pra várias atividades na escola. Nós tínhamos grupos dentro da sala de aula, e justamente por participar da organização estudantil, nós éramos responsáveis por várias coisas, por várias atividades, inclusive pelas atividades culturais da escola. Então, na escola de Ensino Fundamental, nós apresentamos teatro nas horas cívicas, que era o momento em que tinha que cantar o hino, tal qual hoje se canta devido a uma legislação que obriga as escolas a fazerem essa atividade. E isso foi permanente em todos os anos finais do Ensino Fundamental. Então, é interessante fazer uma análise no seguinte sentido: de que nós tínhamos o compromisso com o estudo, que era o nosso trabalho de estudante, mas nós tínhamos um compromisso, digamos, social com a escola. De organização, daquela coisa fora do âmbito das disciplinas da sala de aula.

P/1 – Você falou dessa questão cultural. Tinha festas típicas, alguns costumes folclóricos do local?

R – Sim, nós tínhamos as festas típicas que justamente eram fortes naquele momento. Festas juninas, tínhamos que dançar, que organizar. Nós tínhamos a festa da escola, que era o momento que a escola interagia com a comunidade, e eram essas duas as mais fortes que eu lembro que nós participamos, inclusive trabalhando. Quando eu digo trabalhar é ser responsável por determinado setor da festa, seja pesca na festa junina, seja dança. E o Sete de Setembro não era festa, mas era um evento em que nós marchamos. Nós marchamos com linha delimitada no chão e declamavamos poesias. Poesias de Olavo Bilac, pra você ter ideia do que era esse momento. Eu lembro muito bem de eu declamando essa poesia na escola.

P/1 – E aí eu queria saber um pouco mais do Segundo Grau. Você frequentou o Magistério? Como é que foi seu avanço?

R – Devido a morar na zona rural e o ensino público oferecer duas opções de dia, o meu pai não achava interessante eu estudar o Ensino Médio, antiga Escola Agrotécnica, que hoje é o local em que eu atuo, que é o Instituto Federal. Eu gostaria de estudar lá e ele não quis, porque na época existia um preconceito com relação a meninas estudarem em um lugar onde havia muitos meninos. A minha opção foi justamente ou escolher fazer o Magistério, ou escolher fazer a Educação Geral. No entanto, a gente pertence a uma camada trabalhadora. Quanto antes vem a profissionalização naquele momento, melhor seria. Por isso eu escolhi o Magistério. As minhas outras irmãs já tinham escolhido Magistério também. Na época, ele durava quatro anos. Então eu vinha pra unidade urbana, pro centro urbano da cidade aqui de Concórdia e voltava todo dia de ônibus. Estudava pela parte da tarde. Fiz quatro anos de Magistério, me formei professora e já comecei a atuar na Educação.

P/1 – Você colocou essa relação interior e cidade que vocês falam. Como é essa relação? É muito diferente a vida de quem vive um pouco mais longe do centro? Como é que era essa relação?

R – Pra comparar com os dias atuais, é justamente a gente observar o acesso às coisas na cidade do interior com, por exemplo, a nossa capital. Não significa que você não possa fazer, mas você tem dificuldades de acesso. A dificuldade de acesso implica, inclusive, em condições financeiras. E isso pode prejudicar aquela pessoa, aquele indivíduo que mora na zona rural. No entanto, eu não estou dizendo que eu valorizo a cultura urbana. Eu estou dizendo que, no mundo em que nós estamos hoje, a inserção que existe no urbano é importante também. Então não se poderia delimitar. Mas, na época, a questão, quando eu falo em zona rural, era justamente a dificuldade de acesso porque, em algum momento, havia estrada que não era asfaltada. Era estrada que a gente chama de chão batido, de chão, de pedra, e isso também dificultava a nossa vida e tornava o caminho mais longe.

P/1 – E, Liane, dessas coisas da questão do acesso, quando você vem pra cidade tem alguma coisa que você conheceu pela primeira vez, que te impactou, que te surpreendeu? Alguma coisa muito diferente?

R – A organização, o comércio. Porque, pra você ter uma ideia, nós vínhamos, na década de 1980, com 9 anos. Era muito raro a gente vir pra cidade. A gente chamava de cidade. Em alguns momentos a gente chamava Concórdia, como se lá não fosse Concórdia, mas nós vínhamos pra dentista e médico. E o que impacta realmente é o comércio, é a fascinação do produto, a quantidade de diversidade de mercadorias no supermercado, na padaria, porque na zona rural a gente não comprava o pão, a gente fazia o pão. A gente não comprava o bolinho, a gente fazia o bolinho. Então, o gosto de comer alguma coisa que não era feita pela mãe foi diferente, e isso impactou porque, toda vez que a gente vinha pro centro urbano, você tinha que comprar alguma coisa daqui. Nem que fosse banana. Por incrível que pareça, nós não tínhamos pé de banana e o pai comprava muita banana pra nós comermos, aqui na cidade. É um pouquinho estranho falar isso hoje, mas eu lembro muitas vezes que o pai trazia as bananas, como nós éramos muitos filhos, trazia muitas bananas, e trazia muita bala. E bala de banana [risos]. Então essa questão logicamente, pra uma criança, ou gostar do alimento, enfim, isso chama atenção. Brinquedo também, mas mais essa questão da alimentação. O impacto da cultura urbana com a cultura nossa.

P/1 – Bacana. E me conta um pouco do desenvolvimento do Magistério. Como funciona o curso de Magistério? Quais os conteúdos que vocês aprendem?

R – O curso do Magistério é um curso que prepara professores durante quatro anos. Eu acho que a gente foi muito bem formada. Nós tínhamos um compromisso político. Analisando hoje, a gente conclui que houve um compromisso político da equipe de docentes pra formar professores para atuar nos anos iniciais, na Educação Infantil. Eu aprendi bastante com relação ao conteúdo de ensino que eu iria ministrar para os alunos, e muito, muito, muito sobre metodologias de trabalho com a criança. Então, justamente o Magistério foi o momento que focou para o trabalho para profissionalização. No primeiro ano, nós tínhamos disciplinas gerais como Física, Química, Matemática, tanto quanto no outro curso. Agora, nos três últimos anos, eles focaram pra formação na qual nós iríamos atuar depois. Foi um curso denso.

P/1 – E quando você tem sua primeira experiência profissional? Como foi a primeira vez numa sala de aula?

R – A primeira experiência profissional é impactante porque o meu primeiro local de trabalho como professora de uma turma de alunos de segundo ano do Ensino Fundamental se deu numa comunidade economicamente com problemas. Enfim, as casas ainda, algumas, eram de chão batido, existia um pouquinho de índice de criminalidade. Havia muitos animais nas casas. Eu fiz uma pesquisa com os alunos justamente pra estudar a questão da saúde. A gente identificou muitos dos animais e muitos problemas de não aprendizagem e de indisciplina. Então, o meu primeiro trabalho foi impactante justamente por estar numa realidade cujo estrato social é economicamente desfavorável. No entanto, talvez por ter impactado tanto, quando a gente começa pelo mais difícil, talvez a gente aprenda mais. Então, nesse sentido eu vejo que o trabalho naquele ano abriu possibilidades para enxergar outros mundos, outras realidades, e entender que nem todas as crianças aprendem no mesmo tempo e do mesmo jeito. No entanto, todas as crianças têm que aprender. A escola existe pra quê? Pra trabalhar o conhecimento universal. E, se a escola não faz o seu papel, e naquele papel nós discutiamos isso, não existiria nenhum outro locus organizado, inclusive financiado pelo Estado, que faria esse trabalho. Isso foi uma experiência que justamente a gente começa a pensar nas camadas que não têm acesso à Educação escolar, ou, quando têm, precariamente, resultado de um processo social já fracassado. E, consequentemente, um segundo fracasso, e é isso que a gente não pode deixar acontecer. Então, o primeiro impacto foi bastante grande justamente porque eu estava trabalhando com o segundo ano e a minha aula foi preparada para alunos que sabiam ler e escrever no primeiro dia. Só que os alunos não sabiam ler e escrever. Eles não sabiam a letra, que a gente chama dentro da Pedagogia, de cursiva, que é a letra popularmente falada emendada. Eles não sabiam. Então, o meu primeiro dia de aula não foi nem um pouco de sucesso. Muito pelo contrário. Tive que pensar. Pensar a ponto de: “Será que eu quero ser professora mesmo?”, fazer esse tipo de questionamento.

P/1 – E como foi o desenvolvimento do ano com essa primeira turma? Você já falou de alguns resultados das pesquisas com os animais. Como é que foi? Qual foi o jeito que você deu?

R – Nessa primeira turma eu observei... Hoje eu observo que eu falhei bastante em termos de organização. Talvez pelo pouco embasamento teórico, pela pouca prática, mas sempre com muito planejamento, muita orientação da direção que já tinha experiência com aquela comunidade. Ah, 90% das crianças liam, escreviam, produziam texto, calculavam, mas teve dois ou três alunos, inclusive eu lembro os nomes deles, fisionomia deles, de dois alunos, e eles não tiveram o sucesso que eu desejei, e um deles reprovou. O outro passou, mas com limitações. Foi um ano bastante difícil.

P/1 – E, quebrando um pouco, eu queria te perguntar, você lembra o que você fez com o primeiro salário desse primeiro emprego? Onde que você empregou?

R – Com o primeiro salário eu paguei a mensalidade da faculdade. Aliás, os quatro anos de trabalho pós-Magistério foram pra pagar a faculdade. O primeiro ano de faculdade não foi Pedagogia. Eu comecei o curso de Administração de Empresas. Fiz um ano de Administração de Empresas. Nesse ano em que eu trabalhava nesta escola, fazia Administração de Empresas. E, nesse ano mesmo, eu fui trabalhar em uma escola especial, a Apae [Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais] aqui no nosso município. E, devido ao trabalho com crianças com necessidades especiais, hoje chamadas crianças com deficiências, eu mudei o curso de Administração de Empresas pra Pedagogia. Eu era uma boa aluna na Administração, mas eu me tornei mais realizada na Pedagogia.

P/1 – Então deixa eu dar um passo pra trás. O que te levou a escolher Administração de Empresas?

R – O impacto da condição salarial da categoria profissional e do medo de não conseguir trabalho. Naquela época, tinha muito professor formado. Aí, na década de 1990, eu me formei no Magistério em 1996. Em 1997 comecei a atuar, e eu vi as minhas colegas saindo do Magistério com dificuldades de ter trabalho. Então, eu fiquei com medo. No entanto, o curso de Administração de Empresas é um curso maravilhoso, legal, facilita muito, tanto na contabilidade quanto nas disciplinas específicas do curso, mas eu me dei com Pedagogia. O dia em que eu fui fazer a transferência de curso, a secretária acadêmica me olhou e disse: “Você tem certeza que você quer fazer isso?”. Eu disse: “Tenho. Por quê?”, “Porque você é a primeira pessoa que faz esse tipo de coisa. É comum mudar de Pedagogia pra Administração. Agora, Administração pra Pedagogia, você é a primeira”. Eu disse: “Não tem problema”. Só que, no que eu mudei, eu peguei a grade totalmente nova da Pedagogia. Não aproveitei nenhuma disciplina e fiz mais quatro anos de Pedagogia.

P/1 – E me conta um pouco como foi esse trabalho na Apae, por que foi por ele que você mudou. Então, me conta como foi o envolvimento.

R – Ah, trabalhar com criança especial é você reconhecer um sujeito que, até então, eu não conhecia, e reconhecer que esse sujeito tem condições de aprender tanto quanto qualquer outra pessoa. Dentro daquilo que a limitação biológica dele, física inclusive, faz. Eu gostava muito de trabalhar com eles. Eu trabalhava com dois alunos em um período e com seis no outro. Esses dois alunos tinham problemas, tinham muito comprometimento. Eu acho que foi um trabalho em que eu via possibilidade de desafio. Eu via que, se eles conseguiam falar uma palavra, era bastante grande o sucesso deles. Se eles conseguiam escrever um nome, em um ano, era possibilidade de sucesso. Na outra turma, em que os alunos tinham sérios problemas físicos, além do mental, logicamente, se eles conseguiam fazer uma atividade motora diferente do dia anterior, também. Então, eu fiquei, a gente impacta no momento: “Ah, a piedade. Eu tenho piedade desses alunos”. Na verdade, não. No primeiro momento, você tem pena, você tem dó. Você desejaria que ninguém fosse uma pessoa com deficiência. Em um segundo momento, você entende isso com maior objetividade e se coloca no papel da docência mesmo. O que é ser professor para aquelas crianças, para aqueles adolescentes e para aqueles adultos. E a gente era tratado muito bem. Era um lugar em que nós estávamos em constante conversa com a direção, com professores, com as famílias dos alunos. Por isso é que eu entendi que a minha profissão poderia mudar naquele momento, e eu mudei.

P/1 – E como foi a faculdade de Pedagogia e o desenvolvimento profissional?

R – Eu não tive o privilégio de estudar de dia. Eu não sei se isso seria um privilégio, mas, enfim, como a universidade era privada, comunitária, né, tinha que pagar mensalidade e eu trabalhava o dia todo e estudava à noite. O fato de eu ter uma experiência na docência fez com que alguns conhecimentos pudessem ser entendidos com o olhar de quem já está na docência. No entanto, foram quatro anos de muito estudo e trabalho porque aluno que é trabalhador é diferente de aluno que não é trabalhador. Então, a gente sabe das limitações que teve depois que saiu da faculdade. Quando digo limitações, são limitações referentes a alguns aspectos teóricos que a gente vê que outros colegas que estudaram em outras instituições tiveram. Mas isto também eu enxerguei justamente porque eu compreendi esta relação. Talvez tenha gente que não compreenderia, mas foram quatro anos de bastante trabalho e estudo. Foi muito bom, eu me senti muito feliz na Pedagogia.

P/1 – Legal. E aí você ficou na Apae durante quanto tempo? E depois foi pra onde?

R – Durante dois anos só. E aí fui pra gestão. Gestão de uma escola na zona rural, afastada a 25 km daqui do centro da cidade. Eu fui diretora com 21 anos. Inclusive um dia um pai chegou na escola e pediu que queria falar com a diretora. Eu disse: “Olha, você pode falar comigo”. Ele me disse: “Não, eu quero falar com a diretora”, “Mas eu sou a diretora”, “Mas você é uma criança”, ele me disse. Então, o sinônimo de que a gestão tem que ser feita por pessoas de 40, 50, 60 anos. Professora de óculos, cabelo mais branco [risos]. Brincadeira. O que eu quero dizer é que você tem uma figura do gestor naquele momento, em 2000, como se fosse uma pessoa mais velha, como se uma pessoa mais nova não pudesse ser. Aí, eu saí da Apae, saí do ensino regular, trabalhava meio período em cada, e fui pra gestão. Uma escola de 300 alunos, muitos problemas estruturais, enfim. Depois, no ano seguinte, fui pra uma escola de 800 alunos que tinha Educação de Jovens e Adultos. Da Educação Infantil à oitava série, na época, hoje nono ano, e ainda a EJA.

P/1 – E como é que aconteceu essa transição de sair da sala de aula pra ir pra gestão?

R – Quando eu recebi o convite pra ser diretora, que não era eleição ainda na época. Hoje os diretores aqui na rede municipal são eleitos. Foi de uma escola municipal. Porque eu era efetiva, passei em concurso da rede municipal. Então, eu recebi o convite da secretária. Na hora eu disse que não. Imagina, eu não tinha nada de experiência. O que eu iria fazer? Aí, eu liguei pra minha mãe, e a minha mãe disse: “Mas como que não vai? Por quê? Tu tem que ir”, “Tá bom, então”. Liguei pra secretária: “Vou”. Depois que eu tinha dito pra secretária de educação da época que eu iria, liguei pra minha outra irmã que era prof, que já tinha mais de nove, dez anos na docência. Ela falou assim: “Liane, você é louca de ter aceitado. Você não faz ideia do que um diretor faz, o compromisso que o diretor tem, a responsabilidade, o que se incomoda”. Eu disse: “Não tem problema. Agora o dito tá dito. Eu disse que sim e vamos lá”. De fato, tem muita coisa que a gente assume, que você gesta financeiramente, você gesta pedagogicamente. Só que, depois daquela experiência, eu não saí mais da gestão. A não ser agora que eu sou professora do ensino superior (troca de fita).

P/1 – Liane, você estava comentando sobre a gestão. Qual é a diferença da sala de aula pra gestão?

R – Ah, sim. Na sala de aula, você tem a gestão da sala de aula. Teu compromisso é com o processo de ensino e aprendizagem daquela turma, bem como com o projeto maior da escola. Então, você tem um olhar mais pontual, e é um olhar mais pedagógico, tanto com a tua turma, quanto com a escola nos projetos em que você é parceira com os demais professores, enfim. Na gestão, o teu olhar, além de pedagógico, é administrativo, porque você tem que gestar o recurso. Você tem que conversar com família, promover reuniões, promover eventos, deixar a escola a ponto de estar organizada pra não ocorrer nenhum problema, não ocorrer falta de material naquilo que você pode oferecer, estar à disposição dos pais, estar à disposição dos professores. Acudir, talvez “acudir” os professores que, às vezes, têm algum problema com os alunos. Então, o olhar da sala de aula eu classifico ele como mais restrito, no entanto não menos responsável. No entanto, a gestão é um olhar mais amplo pro trabalho coletivo porque você não tem o grupo de alunos. Você tem todos os alunos, todos os professores, toda a comunidade escolar e um órgão gestor acima do seu. No caso, a Secretaria de Educação.

P/1 – E, Liane, você já deu um exemplo de situação com o pai de aluno. E como era a sua relação com os outros professores, sendo tão nova?

R – Então, eu procurava conversar muito com os professores em reuniões pedagógicas. Nós tínhamos uma sistemática de nos reunirmos a cada 15 dias, e eu ajudava muito na questão do planejamento. Então isso nos aproxima. Eu, enquanto diretora, principalmente na primeira e segunda série do Ensino Fundamental, eu mesma dava a recuperação paralela aos alunos com dificuldades de leitura e escrita. E tentava ao máximo. Professor pedia um livro, pedia um material diferenciado, na medida em que isso era possível fazer e providenciar, a gente fazia, né? Agora, a burocratização te consome no trabalho escolar. Então, quando eu digo burocratização, são todos os passos que têm de registro e escrituração, documentação, legislação. Hoje, principalmente hoje, está bastante diferente. Existe uma cobrança muito maior. O professor precisa se sentir seguro na sala de aula, e como você dá a segurança pro professor? Oferecendo as condições de trabalho e se colocando à disposição, que é isso que às vezes o professor também precisa, né?

P/1 – Aí você ficou como diretora nessa escola por um ano e depois foi pra outra, novamente como gestão. Como é que foi nesta outra que tinha uma escola maior, tinha essa questão de Educação de Jovens e Adultos, que acho que é uma novidade até então pra você também.

R – Então, nessa outra escola eu trabalhava os três turnos, na escola onde tinha a Educação de Jovens e Adultos, a EJA. Nós tínhamos 380 alunos na EJA. Era o momento em que houve um boom de escolarização dos trabalhadores em função das empresas terem em seus quadros de funcionários trabalhadores com níveis de escolarização que fossem pelo menos o Fundamental. Então, eles vinham procurar a EJA. Era semipresencial. O aluno fazia seis meses e dava conta de um ano. Em dois anos, ele terminava os anos finais. Foi bastante interessante porque, naquele momento, em 2001, nós tínhamos alunos de EJA adultos trabalhadores. No último ano que eu trabalhei na Secretaria de Educação, em 2011, a maioria dos nossos alunos de EJA eram adolescentes. Então, em dez anos, o foco da EJA se inverteu justamente para um processo de juvenilização da EJA. Mais jovens estão na EJA do que adultos. Mas nós formamos, naquele ano, 140 alunos na oitava série porque o aluno vinha com o histórico escolar e a gente posicionava ele na turma que ele parou. Muitos na quinta série, na sexta série. Alguns precisavam só da oitava. Então existia uma rotatividade de alunos bastante grande. A escola que eu trabalhava naquele ano tinha 80 professores.

P/1 – Você mencionou agora que você trabalhou na Secretaria. Como é que você vai pra Secretaria de Educação?

R – Então, no ano seguinte da gestão dessa escola maior, eu recebi um convite pra trabalhar na Secretaria de Educação. Num primeiro momento, também não aceitei. Aí depois eu: “Não, vou ir. Já que...”. E trabalhei na Secretaria de 2002 a 2011. Inicialmente eu tinha um... A gente tem cargos dentro desse serviço público. Nesse cargo que eu ocupava, tinha muitas atribuições. Se chamava Chefe de Departamento da Educação dos Anos Iniciais. Eu era responsável pelas escolas de anos iniciais.

PAUSA

P/1 – Então, Liane, quando você chega na Secretaria, eu queria que você me desse o panorama da sua primeira impressão em relação à Educação em Concórdia. Você chega e a educação municipal estava como? Como você toma conhecimento da Secretaria?

R – Eu chego na Secretaria no momento em que há uma transição de governo. Historicamente entre um governo que a gente chama de popular, democrático. Historicamente isso nunca havia acontecido. E num momento histórico em que, na educação, a partir das definições da legislação nacional, estão sendo implementadas muitas atividades para os municípios. Então, com a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional], vem o Fundef. Na época era o Fundef, o Fundo de Desenvolvimento para a Educação Fundamental. Então, isso era um ganho salarial para os professores, o que foi muito positivo. Um momento histórico que havia poucas escolas municipais, comparado às escolas estaduais, que hoje há um processo de municipalização, né. Educação infantil é só do município. Naquele momento não tinha. E também não tinha muitas crianças na Educação Infantil, modalidades Creche e Pré-escola. Diferente de hoje, dessa cobrança que os municípios têm. Então, o panorama foi de uma visão leiga, na verdade. Eu não tinha uma visão do que seria a gestão dentro de uma Secretaria de Educação, né? O foco do trabalho foi o processo de formação de professores. Por quê? Porque a formação começou a ser compreendida pelo Ministério da Educação com relação aos Parâmetros Curriculares Nacionais… Depois, em 1997, 1998, que veio pros municípios com muita intensidade, e o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores, que nós chamávamos de Profa, também um programa do MEC [Ministério da Educação), que eu tinha que desenvolver... Tanto um, quanto outro, além de todas as atividades relacionadas à organização do Ensino Fundamental. Eu não tinha essa dimensão da totalidade de uma Secretaria de Educação justamente porque eu trabalhava num departamento. A minha visão era a de uma pessoa que estava na Educação há apenas quatro anos, no máximo. Então, uma visão um tanto utópica talvez ou de querer fazer diferente, né? Eu acho que a formação de professores foi o primeiro diferencial que aquela equipe que ali estava começou a desenvolver, né?

P/1 – Legal. Então, em relação à formação de professores, você traça um pouco desta trajetória dentro da Secretaria porque chegou a formar, ter um grupo pra formação lá na Secretaria.

R – Isso.

P/1 – Como é que aconteceu isso?

R – Então, o Ministério da Educação fazia os programas de adesão aos municípios, que tinham que aderir a esses programas, e a gente recebia recurso pra isso. O recurso era mais material, do material em si, da formação. E, como havia pouca formação continuada... O que é formação continuada? É aquela em que o professor rotineiramente debate sobre o seu trabalho docente, sobre a prática educativa. A gente, enquanto grupo de trabalho, definiu que uma das prioridades e uma das grandes frentes da Secretaria da Educação a partir de 2002 fosse a formação continuada de professores, que iniciou por meio do Profa e da Formação dos Parâmetros Curriculares Nacionais. E eu fui uma pessoa que atuei nesse programa de formação, e recebi a formação pra dar a formação.

P/1 – Nesse momento da educação continuada, como vocês avaliam, qual a importância da formação continuada pro professor?

R – Olha, foi tão boa que, quando acabou o Profa, por exemplo, se desejava ter mais. Porque as turmas eram sempre, no máximo, 35 alunas. Era no período extra do trabalho dos professores. Não era formação continuada em serviço, mas os professores participavam. Por quê? Porque eles compreendiam que, além deles terem um embasamento teórico e metodológico, mas principalmente metodológico, do trabalho que eles desenvolviam dentro de sala de aula, era um momento de troca de experiências para ver se o outro professor estava também fazendo o que ele fazia. Então, era uma medida em que você verificava, você, enquanto professor, se o seu trabalho estava sendo bom ou não. Era um momento de encontro e de troca de experiências também, que se deu isso nos dois anos seguintes.

P/1 – E no plano maior, Liane, qual você avalia que é o papel da Secretaria de Educação?

R – Olha, o papel de uma Secretaria de Educação é oferecer condições de trabalho. Porque as questões salariais também são condições de trabalho. As questões estruturais são questões de trabalho. E as questões de formação são condições de trabalho. Então, uma Secretaria de Educação, a partir dos recursos que tem e do montante que tem pra gastar, pra investir, eu digo, em Educação a partir dos limites da lei, da arrecadação do município e daquilo que um governo entende que pode colocar na Educação, investir na Educação, a Secretaria de Educação deve fazer o máximo esforço possível. Eu digo o máximo porque, às vezes, você faz milagre [risos] com o recurso, né? Então, em todas essas frentes, frente estrutural, frente de formação continuada e frente de financiamento enquanto salário, enquanto condições. E, quando eu digo salário, não é só o vencimento-base. São as estruturas de carreira para que você possa ascender. Você faz o curso, a Secretaria precisa aumentar, dar um plus no salário do servidor justamente pelo plano de cargos e salários. Então, o papel da Secretaria é oferecer condições para que a educação do município se desenvolva, eu digo, na esfera municipal, se desenvolva da melhor forma possível, o que não é uma tarefa fácil.

P/1 – E, Liane, entrando agora para falar em Professores em Rede. Eu quero que você primeiro me fale como surge esse projeto Professores em Rede.

R – O Professores em Rede foi um projeto em que a então denominada Sadia, em 2008, se não me engano, chama o Secretário de Educação para uma conversa oferecendo um trabalho que pudesse ser desenvolvido na área educacional do município. A escolha do município de Concórdia, porque quando eu digo a Sadia, não foi a Sadia de Concórdia, foi o Grupo Sadia, que entendeu que Concórdia seria o local em que pudesse ser desenvolvida essa atividade educacional. Por que Concórdia? Por ter sido a matriz. Aqui é onde foi o berço da Sadia. Então se queria, historicamente, retribuir tudo o que Concórdia ofereceu a esta empresa, e esta empresa, neste momento então, retribuiria e faria uma parceria. Num primeiro momento isto nos deixou preocupados porque nós, enquanto Secretaria, em 2008, após um processo de amadurecimento de qual o nosso papel, especialmente na formação, nós tínhamos uma proposta de Educação, nós montamos uma proposta de Educação com fundamento teórico, etimológico, metodológico, com alguns autores que nós estudávamos. Nós não queríamos desvirtuar isto. Então, se viria um programa de fora, a nossa preocupação justamente era que esse programa fosse com uma proposta diferenciada daquela que até então nós seguíamos. O que nós fizemos? Uma contraproposta. “Ótimo, a gente quer... Nós precisamos nos inserir na Tecnologia. É uma necessidade. Nós já temos laboratórios de informática”. Nós tínhamos ideias de fazer várias coisas, né? No entanto, nós ajudamos a construir a proposta. Aí, logicamente, foi bem bacana. A Sadia, por meio do Instituto Klick, nós montamos a proposta, nós capacitamos, nós montamos a proposta, os módulos. Quem seriam os sujeitos, são alunos de quê, quais os temas. Os nossos professores... Então, a gente fez um  processo de escolha entre os professores que seriam da rede municipal e dariam continuidade e trabalhariam com os alunos. Então, nós tivemos a princípio, se não me engano, dois professores, e escolhemos algumas escolas cujo critério era vulnerabilidade social. E essas escolas tinham que ter, obrigatoriamente, a sala de informática funcionando, porque, ainda em 2008, não eram 100% das escolas que tinham. Foi feita, na época, se não me engano, em duas escolas com o grupo Klick. Então era uma parceria Sadia-Klick. Eles dois, logicamente, nos convênios entre eles, e a Secretaria de Educação. Firmamos um convênio com divisão de responsabilidades, tarefas, tempo, prazo, quantidade de alunos. A Secretaria com responsabilidade de encaminhar esses professores pra São Paulo pra receber essa capacitação. E eu vou dizer pra você que, a partir daí, nasceu uma coisa, uma tarefa, um trabalho que talvez, se não tivesse nascido aí, nós talvez não teríamos esse Centro de Formação. O Ministério da Educação não teria nos oferecido mais material porque a gente começou a se inserir nos programas do Ministério da Educação, com relação a receber equipamentos. E os professores que foram sendo os multiplicadores começaram a ser vistos diferentes. “Porque eu também quero ser que nem ele”. “Eu também quero usar a plataforma”. “Eu também quero que o meu aluno goste de ir na aula”. Os alunos iam no contraturno. Acho que hoje a rede municipal tem tecnologia nas escolas. Eu vejo que está bem servida disso, e talvez tenha que melhorar, logicamente, mas eu entendo que, naquele momento, em 2008, quando a Sadia nos chama, quando a gente faz uma proposta em conjunto com aquela instituição, Klick, aquela preocupação de convencer os pais de que os filhos tinham que vir no contraturno aprender Tecnologia... Mas, ao mesmo em que aprendia Tecnologia, aprendia Língua Portuguesa, aprendia Matemática, aprendia a escrever, aprendia conceitos de valores porque tudo ele relacionava com isso. Porque justamente o computador, a internet, foi um instrumento, foi o meio, e não o fim. Então, em 2008, a gente conseguiu aliar um instrumento como meio e o fim, a aprendizagem. Com o intuito de reforçar essa aprendizagem, resultado daquele processo de sala de aula, fazer essa junção. É uma pena que a gente não conseguia ter isso em todas as escolas porque, afinal, a gente teve um bom sucesso mesmo.

P/1 – Liane, você falou que uma coisa fundamental foi essa parceria público-privada. O que teve pra essa parceria ter dado certo? Quais são os fatores que você destaca dessa parceria?

R – Então, a gente pensa muito nisso enquanto educador, e enquanto professor hoje também. Porque o Estado é responsável pela Educação. E, quando se coloca o Estado como responsável pela educação pública, deveria subsidiar todas as formas, de todas as formas. No entanto, a gente sabe que isso não acontece. A gente precisa fazer o quê? Buscar dentro da comunidade, dentro do ambiente local, aqui no caso Concórdia, essas instituições que também estão preocupadas com a educação. Ou com a cultura, ou com o meio ambiente. Hoje, também nesses ramos. Então essa parceria público privada, ela vem em um momento em que os dois ganham, porque você nunca vai fazer uma parceria quando um vai ganhar mais do que o outro, né? Então ela é importante justamente pra tapar uma lacuna, digamos assim, de que historicamente o Estado nunca conseguiu subsidiar totalmente uma educação que a gente entende de qualidade. E a gente sabe que essa qualidade é cada vez mais exigida pelas transformações sociais que ocorrem. A educação precisa acompanhar isso. Mas ela não precisa acompanhar somente. O conteúdo é histórico. O conteúdo é um eixo que não cai de moda. No entanto, é a imersão do mundo tecnológico, do mundo cada vez mais digital. Se a escola ficar de fora, nós estamos, nossa, perdendo um monte. O que eu quero dizer com isso? É que a parceria público-privada fez com que a educação escolar pública da rede municipal de Concórdia pudesse entrar nesse mundo digital, que talvez a gente pudesse estar excluído até hoje em determinadas circunstâncias.

P/1 – E Liane, qual é o papel, de fato, da BRF, então Sadia? Ela é financiadora? Ela é articuladora? Como ela atua?

R – Então, ela foi financiadora, articuladora e companheira. Por que eu digo companheira? Porque a então Sadia, hoje BRF, designou uma equipe pra que acompanhasse porque ela não queria saber apenas. Eu lembro muito bem de duas funcionárias da BRF, na época, elas ligavam pra nós: “Como está o curso? Os alunos estão indo?”. Nós emitimos frequência. Nós fazíamos reuniões de avaliação porque não começamos o curso, começamos e terminamos ele naquele ano, no caso, em 2008, porque depois teve a sequência nos anos seguintes e ampliado pra outras escolas. Mas eles foram parceiros no sentido de compreender que, de fato, aquela parceria não fosse apenas um trabalho a mais, mas que ela tivesse aquele objetivo inicial que nós traçamos. Então, é um compromisso muito mais do que financeiro. Logicamente que, pra nós, o financeiro foi muito importante enquanto rede municipal. Agora, nós também nos sentiríamos sozinhos se só nós cuidássemos disso porque o parceiro que financiou não se interessa pelos resultados. Inclusive, eles falavam com os alunos, eles foram nas formaturas. Eu acho que isso é bastante importante.

P/1 – E aí, destacando também o papel, a Secretaria fornece o quê? Qual foi o papel da Secretaria?

R – A Secretaria forneceu o espaço físico, forneceu os equipamentos, organizou pra que tudo isso de fato acontecesse. Selecionou professores, que isso era novidade pra nós. Tirar professor de sala de aula pra um trabalho desse exigiu que nós fizéssemos uma consulta jurídica, porque tem toda uma questão legal por trás disso. Se é professor, poxa, ele é professor de quem? Quantas aulas ele vai dar? Não vai bater contra o plano de cargo de salários, que professor tem que dar tantas aulas? Mas por que só para aqueles alunos? Então, a gente teve todo um trabalho de organizar legalmente para que esse professor saísse da sala de aula, recebesse financiamento pra se deslocar daqui a São Paulo, por exemplo, que não é... O custo pra nós, não é uma rotina isso, enfim. Então, as parcerias dividiram responsabilidades também financeiras da Secretaria. Agora, a maior responsabilidade financeira foi, de fato, da BRF em função de que a plataforma em si na época foi um instrumento um tanto oneroso, né?

P/1 – E, Liane, eu queria que você destacasse também o papel dos institutos. Na época, o Instituto Klick, depois o Jaborandi... O que eles forneceram? Como eles participaram?

R – O Instituto Klick, depois Jaborandi, foi fundamental para o desenvolvimento metodológico do trabalho. Eles já vinham vindo com algumas parcerias em outros municípios e com a experiência deles. Nós queremos isso, no entanto nós não sabíamos como fazer. A BRF dizia: “Não, nós temos tanto. Podemos ajudar nisso, só que a gente precisa desenvolver”. Então, você percebe que cada um dos parceiros tinha uma responsabilidade delimitada. E o Instituto Klick, na época, ele foi o definidor pra definir a plataforma, a metodologia e capacitar os professores.

P/1 – E agora já no plano metodológico, Liane, qual é a questão, quais as contribuições que as novas tecnologias colocam pra educação? Qual o papel da tecnologia pra educação?

R – O papel da tecnologia na educação é ser meio para o processo de ensino e aprendizagem de forma simples. Compreendo desta forma. Eu não compreendo uma escola, uma instituição de ensino, que ela não seja estruturada. E, quando eu falo em meio, não é só o laboratório de informática, não é só a internet. São todos os mecanismos que o professor utiliza para desenvolver a sua aula. E, quando eu digo que a formação do professor hoje, que hoje a rede municipal teve, através do Instituto Jaborandi, que foi a formação dos Professores em Rede, é porque esse professor precisa querer usar isso. Ele pode  ser o melhor professor do mundo em termos de domínio de conteúdo, no entanto ele vai ficar desolado, ou descolado, do uso da tecnologia e o seu aluno vai ter aquele referencial apenas da fala, do quadro, do livro didático. Então, a tecnologia é meio. E isso vem desmistificar quando que se entendeu, em algum momento histórico, que o computador, a figura do computador, a peça do computador, iria substituir o trabalho do professor. Claro que não. Em algum momento se chegou a cogitar isso no debate que a gente tinha na formação inicial. E a gente percebe que não, que justamente isso é um instrumento. Como é um instrumento você utilizar o giz, como é um instrumento você utilizar o livro didático. Agora, como é que eu não vou ter esse instrumento se o aluno está imerso em um mundo digital? Ele vai no banco, ele tem isso. Ele vai no mercado, ele tem isso. Ele vai no shopping... No dia a dia, você não faz nada que não seja imerso a um modelo de desenvolvimento tecnológico. Então a escola não pode ser diferente porque, se não, a escola estaria atrasada quantos anos, né?

P/1 – E qual é a recepção dos professores a esta tecnologia? Como você sente que os professores se integram ao projeto?

R – A gente observa que houve uma grande adesão dos professores e, ao mesmo tempo que eu percebia na época e percebi até 2011, é que eles entenderam que, se eles não usassem, não é que eles perderiam o aluno, que o aluno não vai sair da escola, mas seria mais difícil trabalhar. Então, pra você ter uma ideia, teve professores que solicitaram que nós déssemos cursos nas reuniões pedagógicas. Nós precisamos aprender a usar. Nós precisamos desenvolver dentro, com o uso da tecnologia, programas, atividades, softwares que pudessem dar conta do trabalho docente. Então, quando o professor nos chama, o que está dito por trás? Nós queremos aprender. Então é por isso que, quando a pessoa quer aprender, tu tem que correr contra o tempo pra achar alternativas. E vou te dizer também que há professores que não queriam aprender. Não teve condição de querer, não teve fala, não teve conversa. “Não, pra mim tá bom assim. A minha aula é desse jeito”, e deu. Agora, não é a maioria. A gente precisa sempre considerar a maioria. E, talvez, esses que não quisessem naquele momento, hoje estão entendendo que é necessário, né?

P/1 – Você colocou a questão do temor de perder os alunos, né? Como é a recepção, ainda que você não estivesse lá na sala de aula, como você percebe a recepção dos alunos a essas novas tecnologias implementadas dentro da sala de aula?

R – A gente percebe bastante pelo relato dos professores. Os alunos produziam mais trabalhando com o uso da ferramenta. E, quando eu digo produzir, é justamente porque o professor pensou a aula, organizou a aula previamente pra desenvolver. Então, o aluno se sente muito à vontade pro conhecimento. O que eu quero dizer com isso? O aluno se sente com vontade de querer aprender, que isso é um problema muito sério hoje. A gente observa que existe um grande, eu não sei se é um problema ou um desafio, vou colocar como um desafio, da educação é fazer com que o aluno queira aprender. Queira entender que aquele conhecimento que a escola ensina é importante pro seu desenvolvimento social, seu desenvolvimento intelectual, seu futuro trabalho. Então, eu entendo que, observando as falas dos professores, a tecnologia, o uso de recursos que oferecem condições de inserção digital faz com que o aluno se aproxime do conhecimento mais do que simplesmente velhas metodologias de ensino, né?

P/1 – E em relação ao projeto no geral? Quais foram as maiores dificuldades ou maiores desafios?

R – As maiores dificuldades. Nos primeiros anos não foi a dificuldade, foi o medo, né? Medo de não dar certo, dos alunos desistirem. Os alunos que se matricularam no contraturno no projeto, a gente procurou fazer reunião com os pais e eles juntos. Deixar bem claro o que eles iriam ter. E a gente teve dificuldade porque nós não tínhamos vagas pra todos. Essa foi a dificuldade. Porque, quando os colegas começaram a ver, porque nós oferecemos pras sétimas e oitavas séries, as da sexta série queriam também. Essa foi uma dificuldade. No ano seguinte, nós ampliamos bastante e nós tivemos vários pólos. Então nós tivemos que contratar mais professores, capacitar mais. A dificuldade é o desafio de você tentar fazer. E, nesse segundo ano, ao contrário do primeiro, em duas escolas, nós estávamos em quatro. Houve um pouquinho de evasão, mas é porque a gente colocou justamente em estrato social com bastante dificuldade. O que significa isso? Que aquele aluno que, às vezes, o pai não está garantindo o acesso, uma responsabilidade da família, que não estava de olho, ele já com dificuldade do entendimento do conhecimento em si próprio, do trabalho escolar, ele também não queria. E o que também segurava muito os alunos era ter o material. Era a comunidade ter o lanche, de ter a prof diferente, de poder ter seu e-mail. Simples, ter seu e-mail, montar um texto e dividir ele virtualmente. Então, a maior dificuldade no primeiro ano foi de não ter vagas para todos e, no segundo ano, foi um pouquinho de evasão em escolas pontuais porque, nas outras que já eram tradicionais, sempre faltavam vagas.

P/1 – E, Liane, esse projeto, o Professores em Rede, continua. Eles estão com formação na Lousa Digital. Eu queria entender como que você acha que a Secretaria incorporou esse projeto de forma a virar uma política pública.

R – Exatamente. Eu entendo que hoje formação de professor é uma área de política pública. Formar professores... Eu entendo que um dos braços desta política de formação é a formação tecnológica. Então, a Secretaria não se entende mais enquanto formadora de professores continuada se não tiver o viés da tecnologia. Não dá pra parar agora. É como você estar num nível de evolução... Parar seria retroceder, né?

P/1 – E, quando você encerra seu trabalho na Secretaria e sai, como é que está a educação em Concórdia? Você falou daquele começo: poucas escolas, laboratório em poucas escolas. Qual o panorama agora?

R – Olha, eu vou te dizer que, em 2011, no dia 15 de dezembro foi meu último dia de trabalho na Secretaria de Educação. A rede mais do que dobrou, principalmente em número de professores. Políticas novas foram implementadas, especialmente na área de Educação Especial e Educação Inclusiva. Muita estrutura física e muito aumento no número de alunos na Educação Infantil. Processo de municipalização ocorrendo e debates acerca do plano de cargos e salários. Então, é num momento histórico que recurso financeiro sempre limitado... A gente sabe que tu teria trabalho e condições de desenvolver um trabalho talvez um pouco maior, mas não se tem. Eu entendo que o ano de 2011 e os anos que antecederam, que é o tempo em que eu fiquei na Secretaria, eu acho que a educação pública de Concórdia, a rede municipal, tem um diferencial, sim. Prova disso é o número de alunos que a gente tem nas escolas, a conversa com os pais, o retorno, a vontade dos professores em aprender e querer ensinar. E, ao mesmo tempo, a gente percebe... Não dá pra ser romântico, né? A gente percebe a luta por mais condições de trabalho. Pra você ter uma ideia, pelo que eu sei, hoje os professores vão ter um dia de atividade de flexibilização. Oito horas em que eles não precisam ir pra escola. Talvez isso seja uma conquista. Uma outra conquista que a gente teve durante os anos foi no plano de cargos e salários de professores. Ter garantia de sair pra mestrado e doutorado com financiamento. São coisas que parecem elementares, mas, se tu fizer comparações, isso não é comum encontrar em outros municípios. E uma coisa que eu prezava muito quando trabalhava na Secretaria, era que os professores, os gestores e a própria comunidade escolar nos enxergassem como parceiros, e não como alguém que mandasse fazer algo. Por isso que nós tínhamos uma prática de que as decisões maiores fossem feitas por meio de conferências. E a última foi sobre avaliação e que mudou a organização da avaliação na rede municipal.

P/1 – E uma pergunta mais pessoal, como você avalia a sua contribuição, Liane, pra Secretaria?

R – Olha, eu sempre brincava que quando eu estava na Secretaria eu tinha dedicação exclusiva [risos]. Porque eu entendo que, quando você está lá na escola e tem um problema, você vai recorrer a quem? Ao diretor. Mas o diretor vai recorrer a quem? Então, se a creche abre às seis e meia da manhã, o Cmei [Centro Municipal de Educação Infantil], que a gente chama aqui, instituição de educação infantil, alguém teria que estar na Secretaria às seis e meia. Se uma escola faz uma atividade cultural com a família, a Secretaria tem que participar e ver em que medida pode colaborar e pode auxiliar. Mas, como eu disse antes, o papel da gente, da gente quem? Nós, grupo gestor da rede municipal, é oferecer as condições. Se, às vezes, você não tem a condição de oferecer fisicamente ou financeiramente, a condição de fazer um debate, como fazer então? Qual o outro caminho seguir, onde buscar? Eu acho que talvez um pouco isso tenha sido a nossa contribuição. E também de pedir pros professores nunca desistirem. Nunca desistirem dos alunos. Os diretores nunca desistirem dos professores, dos seus pais. Eu acho que esse é o papel permanente da gente, né? Muitas vezes a gente escutava: “Não é você que está na escola”. “Pois é, não é você que está na Secretaria. Então, o que nós vamos fazer? Não é dizendo que o que eu estou dizendo é bom. Eu estou dando uma sugestão. Nós temos que conversar, dialogar pro melhor caminho”. Agora uma coisa que a gente sempre tinha bem e que dava segurança pra nós, eu falo de mim, quando eu falo nós é a equipe em que nós trabalhávamos, era ter explicação fundamentada teoricamente. Por que nós estamos fazendo mudança na avaliação? Só porque a gente acha que é necessário? Não. Porque a gente acha que tem fundamento teórico, uma análise da realidade. Enfim. Estar por dentro de toda legislação educacional do país, compreender os processos pelos quais a educação se transforma e como isso impacta em municípios como Concórdia e na rede municipal e eleger prioridades. Pra você ter ideia, nós éramos invadidos semanalmente de propostas de venda de formação continuada, de livro apostilado, sistemas apostilados, de produtos, propostas que têm que ser inseridas na educação como se nós tivéssemos que fazer tudo isso. Nós tínhamos critérios de seleção pra tudo isso. Por quê? Porque nós tínhamos uma proposta de educação. “A gente não faz isto devido a isto”. Então acho que foi bem bacana. Pra você ter ideia, a Educação Especial, na perspectiva da Educação Inclusiva, quando a gente fechou a resolução... É o órgão normatizador que faz isso, o Conselho Municipal... Ela foi debatida nas escolas, a Secretaria sistematizou, mandou uma proposta pro Conselho e a gente fechou. E ali a gente entendeu que um dos grandes dilemas era assim: “Tem um aluno que não aprende, eu preciso de um segundo professor”. “Não, mas veja, você precisa de um segundo professor quando?”. Como professor auxiliar, que a gente chamou na época. “Quando o aluno tem deficiências, não dificuldades”. Eu estou dando um exemplo de que a conversa, o diálogo, é a construção coletiva entre nós e os professores. E o que é sempre mais difícil é quando os professores enxergam o órgão gestor como opressor. A gente não pode ser opressor porque tem toda uma questão política de governo, de proposta. Mas, por outro lado, eu acho que dá pra fazer muito bem. O que mais pega é a questão salarial. O que mais pega é a questão salarial. A gente entende e sabe é que o salário do professor não é o adequado para todo o trabalho e a formação que o professor tem hoje.

P/1 – Eu já estou fechando, Liane. Eu só queria te perguntar quais os desafios que você entende pra Educação. Pode ser num plano mais geral.

R – É. A gente vem discutindo isso muito com os alunos da Educação Superior. O primeiro desafio que eu vejo, inclusive essa foi uma pergunta que eu fiz aos meus alunos, né? Aí, nós chegamos à conclusão de que o primeiro desafio é possibilitar que as pessoas queiram ser professores. Nós não temos professores. Numa turma mesmo de Licenciatura, você pede quantos querem atuar na docência, você às vezes não enche uma mão. Então, o primeiro desafio é fazer uma campanha a nível Brasil... Eu sei que isso já existe, mas é querer ser professor. Só que o querer ser professor vem acompanhado de uma série de fatores, e não é simples essa análise. É justamente política de valorização, política de capacitação e política de estrutura. O maior desafio da Educação é melhorar qualitativamente. E, melhorar qualitativamente, não sejamos românticos a ponto de achar que sem financiamento se faz. Como eu disse, o melhor professor sem instrumentos, sem condições, ele pode continuar sendo um bom professor no conteúdo, mas talvez não seja um professor que poderia ter um desempenho dez por ter as condições estruturais necessárias, tá?

P/1 – Então, pra fechar aqui agora. Na sua vida profissional e pessoal, quais as coisas mais importantes pra você hoje, Liane?

R – Olha, na minha vida profissional é a minha capacitação permanente. Dizia isso ontem mesmo pros meus alunos, que, quando você está na docência, você não pode parar de estudar. Ou em escolarização, em níveis, ou em formação continuada, procurar participar de todos os debates da tua linha, da tua área. E na minha vida pessoal, o trabalho não se sobrepõe e nem é o único elemento. Eu quero dizer que, quando a gente está bem no trabalho, a gente está bem também na vida pessoal, né? Então, os projetos de vida, eles incluem os projetos de trabalho, né? Eu tento sempre passar isso pros alunos e tento passar que o amor à educação a gente constrói. Porque o discurso do dom de ser professor, ele não cola mais, né? A gente sabe que isso foi em um momento que se precisava implementar escolas e que o professor leigo, que tivesse um pouquinho mais de escolarização, tinha o dom de ensinar. A gente desenvolve a capacidade de ser professor, mas esse desenvolvimento se dá pelo estudo. Então, eu acredito muito nisso. Tento transmitir isso aos meus alunos da Educação Superior pra que justamente, na vida pessoal, eles sejam pessoas bem resolvidas. Sejam professores bem resolvidos.

P/1 – Bacana. E seus sonhos? Quais são seus sonhos?

R – Ah, o meu sonho, eu sempre digo que, na minha área da educação, é que todos tenham acesso à educação. A gente sabe que, por mais que tenha acesso a essa educação, tem uma lacuna na questão da terminalidade, da qualidade. E é contribuir pra que a educação do país melhore. Sei que a gente talvez seja uma formiga num universo tão grande, mas talvez seja um jargão falar isso, né? Talvez seja popular demais, mas, enfim, é aquela história de que cada um tem um papel, e esse papel tem que ser bem feito. Eu, enquanto professora do Ensino Superior, você enquanto gestor. Enfim, e tentar abrir o caminho ou abrir o olhar do aluno para que ele veja que a educação é muito mais do que o processo de ensino e aprendizagem. Quando eu digo muito mais é pra entender que o processo de ensino e aprendizagem é decorrente de vários fatores, né? Que não só deste momento, da prática em si. Prática em si é um elemento de um todo maior, né?

P/1 – E pra fechar, eu queria te perguntar como é que foi contar um pouco da sua história de vida, ser entrevistada... Como é que você se sentiu?

R – Eu nunca contei minha história de vida assim, tão detalhadamente. Eu conto muito pros alunos a minha trajetória acadêmica, principalmente, acadêmica e pessoal, pra que eles compreendam que as dificuldades que eles estão passando eu também passei e que justamente eu não morri por isso. Muito pelo contrário, a gente sempre busca o aperfeiçoamento. Então, foi bacana contar pra uma pessoa estranha ao meu dia a dia, uma pessoa desconhecida e a uma possível divulgação disso, mas eu entendo que é justamente um modo de socialização. Eu sempre digo pros alunos: aquilo que a gente não socializa, o conhecimento que a gente não socializa, ele se torna um conhecimento inválido, né? Afinal de contas, é meu e serve o que? Só pra mim? Então eu preciso socializar. Espero que esse princípio da socialização seja a minha explicação pra ti da tua pergunta.

P/1 – Tá certo, Liane. Eu agradeço pela entrevista.

R – Eu que agradeço ao convite. Obrigada.

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