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História

A educação como instrumento de transformação social

História de: Francine Vilela Marcondes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2013

Sinopse

Francine Vilela Marcondes afirma que a educação tem o poder de impactar vidas. Formada em Comunicação. Sonho de fazer faculdade fora do interior. Comunicadora no Consórcio Gastau. Trabalhou na empresa Camargo Corrêa no setor de Responsabilidade Social. Aprendeu também a como impactar os diferentes públicos com que trabalhava.

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História completa

P/1 – Francine bom dia, primeiro nós gostaríamos de agradecer por você ter aceito vir aqui pra essa conversa, pra essa entrevista e pra começar eu queria que você falasse para nós o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Eu nasci no interior de São Paulo, Taubaté, meu nome é Francine Vilela Marcondes, eu nasci em 13 de julho de 82.

 

P/1 – Francine fala pra gente o nome dos seus pais.

 

R – Mário Vilela Marcondes, Neide Vilela Marcondes.

 

P/1 – E conta um pouquinho do que eles faziam, seus pais.

 

R – A minha mãe trabalhava numa escola e o meu pai trabalha numa empresa de alumínio, atualmente chama Novelis e eu acho que o que eu posso considerar como maior presente que eles me deram, foi a educação, que foi uma coisa que eles sempre priorizavam, sempre. Isso tanto pra mim como pra minha irmã, pro meu irmão e é uma coisa que pra gente hoje é muito importante, a gente valoriza e é o que possibilita muita coisa.

 

P/1 – Então vocês são em três irmãos?

 

R – Isso.

 

P/1 – E você está em que lugar na escadinha?

 

R – Sou a caçula.

 

P/1 – Está certo. E você falou da valorização da educação, conta pra gente como foi o seu processo de formação. Como que você foi caminhando até a escolha da profissão.

 

R – Eu me formei em Comunicação, mas na verdade eu nasci em Taubaté, eu sempre tive vontade de fazer faculdade fora e sair um pouco pra conhecer outros lugares e aí o que que eu pensei em fazer? Tem uma faculdade grande na cidade onde eu nasci e eu vi um curso que eu achava que não tinha na faculdade que eu pudesse prestar e fazer faculdade fora. Eu escolhi o curso de Veterinária. Eu sempre prestei Veterinária, fiquei tentando passar dois anos, não consegui e aí no último ano eu prestei Veterinária, e prestei um vestibular só, pra comunicação, pra Relações Públicas e eu passei. E tinha na minha cidade, mas eu fui fazer fora. Fui fazer no interior de São Paulo, em Bauru, na Unesp [Universidade Estadual Paulista] e aí eu foi até uma coisa que meu pai ficou bravo, né, ele falou: “Mas tem relações públicas aqui, por que você vai fazer fora?” Mas enfim, e aí eu acabei indo fazer faculdade fora, que eu acho que é uma outra experiência também, que serviu de experiência de vida. Você tem outro tipo de experiência quando você faz uma faculdade fora.

 

P/1 – E o que te levou a escolher o curso de relações públicas?

 

R – Na época porque eu tinha interesse também pela área de Comunicação. Na verdade acho que quando você presta vestibular você fica um pouco perdida. Eu prestei Veterinária, prestei Comunicação, mas sempre tive interesse pela área de humanas. E na faculdade eu sempre fui desenvolvendo as atividades voltadas mais para o que a gente chama de relações públicas comunitárias, que é uma linha mais voltada à comunidade ou para realizar trabalhos pro terceiro setor, enfim. 

 

P/1 – E como é que se deu a sua entrada no mercado de trabalho? Então foi fazer a faculdade, quando que você começou a trabalhar? Qual foi o caminho que você foi seguindo nas relações públicas?

 

R – Eu comecei estagiar lá em Bauru, fiz um estágio numa assessoria de comunicação que a gente prestava assessoria pro Pão de Açúcar, depois eu entrei numa ONG [Organização Não Governamental] chamada Vidágua, que trabalhava voltada para questões ambientais, em Bauru. Depois eu saí porque eu não queria mais continuar na cidade, e voltei pra casa. Comecei a procurar emprego e consegui, eu fui morar em São Paulo, trabalhar em Guarulhos, numa organização também do terceiro setor, que trabalhava com atendimento à criança e a mulheres com vulnerabilidade social. Saí de lá, fui indicada pra entrar na obra por uma amiga que fez faculdade comigo, que tinha recebido uma proposta de trabalho e ela não quis. E aí ela falou: “Olha, tem uma vaga.” E ela me ligou, eu já tinha saído dessa ONG, e ela me ligou, falou: “Olha, tem uma vaga pra você. Você quer?” Fui, fiz a entrevista pra trabalhar numa obra em São José, que foi o Consórcio Gastau, entrei, fui trabalhar como comunicadora voltada à comunidade que era impactada pela obra. Fiquei um ano e nove meses, saí de lá e vim pra cá pro CNCC onde eu estou há quase três anos.  

 

P/1 – E conta pra gente como é que foi essa primeira experiência com obra? Como fazer essas relações institucionais, mas com a comunidade que está sendo impactada, como que foi essa primeira experiência?

 

R – Primeiro quando você entra numa obra você tem um susto, porque é um outro mundo. Quando eu fazia faculdade de comunicação eu nem sabia que tinha comunicação voltada para obra. Aí no momento que você entra você vê que tem uma possibilidade muito grande, tem muita coisa a ser feita e eu particularmente gosto muito de trabalhar com comunidade, porque você nessa outra obra, como era uma obra que a gente chama de obra linear, obra de duto, que foi a primeira que eu trabalhei. A refinaria ela é uma obra mais pontual, a gente está sempre no mesmo ponto. Obra de duto é diferente, a gente vai caminhando, vai passando de cidade em cidade. Então a gente impacta muito a comunidade e o nosso objetivo lá era realmente minimizar, mitigar os impactos que eram gerados. E nós costumávamos dizer que éramos a voz da comunidade dentro da obra. O nosso objetivo era realmente fazer com que eles não sofressem tanto com o impacto que a obra causava naquele momento. Eu gosto muito de trabalhar com comunidade. Acho que você estabelece relações, você conhece as pessoas, você sabe quem é da família da pessoa, as pessoas te reconhecem. Então cria-se uma relação diária enquanto estamos trabalhando ali, porque literalmente entrávamos dentro da casa das pessoas.

 

P/1 – E como que foi a primeira vez que você entrou na casa de alguém? Os primeiros desafios dessa comunicação?

 

R – O primeiro desafio é você entender a obra, pra você poder explicar a obra para as pessoas de forma que elas entendam primeiro qual é o seu papel ali, o que você está fazendo ali, por que você está entrando na casa delas? Exatamente para explicar o que vai acontecer, que a rotina dela vai mudar. Trabalhamos em comunidades muito rurais, que não tinham movimento quase de carro ou de caminhão e a partir do momento que a obra chega, ela começa a ter um movimento de mais de 50 caminhões/dia, rodando. Então precisávamos explicar, inclusive para que eles estivessem cientes dos riscos, quais eram os cuidados que eles tinham que ter com as crianças, como seria a obra. Inclusive para que eles não se assustassem com a mudança toda que vai ter. Então acho que o nosso principal, umas das principais atividades iniciais é explicar isso para que eles tenham ciência de toda a transformação que vai passar pelo bairro, ou pela rua deles. Para você entrar, no começo é muito difícil, mesmo assim, até mesmo porque quando eu entrei, eu não sabia, não entendia de obra e eu tinha que explicar como era a obra. Mas é um processo que você vai vendo a obra acontecer e enfim, você vai estabelecendo as relações. Eu gosto muito de trabalhar com comunidade, mas no começo você tem que criar empatia e tem que fazer com que as pessoas confiem em você, no seu trabalho. Porque o objetivo realmente é apoiarmos, é evitarmos que a comunidade sofra... Deixa eu achar uma palavra... Que a comunidade assim, ela vai ser impactada, isso é fato. Então nosso trabalho é minimizar esse impacto.

 

P/1 – E que tipo de atividades nessa primeira obra que vocês fizeram? Ou estabeleceram?

 

R – Nós  tínhamos atividades tanto de ... Primeiro que tínhamos uma exigência que toda mudança de status da obra tinha que ser comunicada. Então nós comunicávamos a fase inicial da obra e o que aconteceria no meio da obra. Isso a fazíamos tanto em visitas ou íamos lidando diretamente com os líderes de associação de bairro, de escola... As reuniões eram periódicas, para irmos informando a comunidade qual seria o próximo passo, qual seria a próxima mudança. Então tínhamos reuniões periódicas com a comunidade como um todo, assim como diariamente fazíamos as visitas, víamos como que estava a obra, se estava tendo algum problema. Coisas de sinalização de estrada, que nós sempre sinalizávamos a estrada toda, inclusive porque tem um... Como o movimento é muito grande de carros, e tínhamos que ter um cuidado com a velocidade, existe uma velocidade máxima que pode ser trafegada pelos nossos motoristas. Então verificávamos tudo isso. Então assim, desde reuniões a visitas e atividades que  fazíamos na comunidade, tínhamos um evento que chamava Gastau Cidadania, que era como se fosse uma Ação Global, próxima. Então levávamos alguns órgãos, como o Procon para dar informação. Teve um que levamos para fazer parceria com a prefeitura e tirar carteira de trabalho, fazer algumas atividades relacionadas à saúde, à segurança no trânsito. Esse evento era realizado mensalmente, cada mês numa comunidade diferente. 

 

P/1 – E aí depois que o duto foi construído, acabou o trabalho?

 

R – Isso, acabou o trabalho. Porque o duto como era uma obra Petrobras, aí quem é responsável em fiscalizar e manter esse tipo de contato é a Petrobras. Nós chegávamos, construíamos e íamos embora. Então assim, nesse processo de construção em que estávamos envolvidos, tínhamos esse trabalho junto à comunidade. Depois que acabou a obra, a obra é da Petrobras, aí ela quem é responsável.

 

P/1 – E como é que foi pra você esse término? Então, construiu toda uma relação, com todas aquelas pessoas. Como é que foi deixar e de repente vir pra cá? Como é que surgiu a proposta da mudança de obra?

 

R – Eu já tinha interesse em vim para cá e aí eu conheci, eu vim pra cá porque eu conheci a Rosana, que atualmente não está mais aqui, mas ela me chamou porque ela foi fazer uma visita lá no Gastau, pra ver qual o trabalho nós desenvolvíamos com a comunidade e depois veio pra cá e eu tive um contato com ela foi uma vez só. Foi só um dia que ela me acompanhou e  visitamos as comunidades, expliquei como que desenvolvíamos o trabalho e depois ela veio pra cá pra ser Coordenadora de responsabilidade social. E eu nem tinha chegado a comentar com ela que eu tinha interesse em vir pra cá, nem ela sabia que viria pra cá, que ela morava na África. E aí depois ela veio pra cá e me chamou pra trabalhar com ela, na área de responsabilidade social pra acompanhar diretamente os projetos do instituto. Uma das ações, fora da RS [Responsabilidade Social] interno, uma das ações era acompanhar os projetos do Instituto. É assim, você sente falta da comunidade quando você sai. Você está se despedindo porque você, eles fazem parte do seu dia a dia. Não só a gente faz parte do dia a dia deles, mas eles fazem parte do nosso. Eu fui, há um tempo atrás, eu passei próxima à região onde eu trabalhava, você olha, você fica com saudade. Você vai olhando os lugares, lembra das pessoas, você sente saudade, porque era a tua rotina. Mas isso aqui, você vai pra outro lugar e como você trabalha com comunidade você estabelece também outras relações aqui, que foi o que, por acompanhar os projetos do Instituto, você conhece outras pessoas, você conhece os próprios grupos dos programas com um todo. E aí você estabelece relação com eles aqui e assim vai.

 

P/1 – E, só uma pergunta pontual pra eu não cometer nenhuma gafe. Essa primeira empresa já fazia parte do grupo da Camargo?

 

R – Já, já era Consórcio Camargo e... Não lembro se era Galvão ou Queiróz Galvão, mas era Camargo.

 

P/1 – Tá. Então pra você como é que foi a chegada aqui nessa obra, né, entender um outro processo, uma obra pontual? Qual que é a diferença da ação pra obra em linha?

 

R – É muito diferente porque primeiro que lá a gente tinha que trabalhar obrigatoriamente com comunidade. A gente não pode falar o nome Petrobras. Tá, no vídeo, porque tem que pedir autorização pra eles. Eu tô falando, mas aí só pra anotar que a gente não pode utilizar.

 

P/1 – Qualquer coisa escreve na ficha de sessão, não tem problema.

 

R – O que dá pra gente fazer de repente, é pedir autorização deles pra usar o nome.

 

P/1 – A gente coloca em observação na sessão, e aí pra você ficar tranquila.

 

R – Eu vou mudar, vou falar cliente, melhor. Daí fica, vocês conseguem trabalhar melhor com o vídeo.

 

P/1 – Tá.

 

R – Então, na outra obra de duto nós tínhamos, inclusive era uma exigência da nossa cliente, que  trabalhássemos com a comunidade. Aqui onde estamos hoje, não podemos trabalhar com comunidade, é a cliente que trabalha, por algumas restrições. E aí nós como assistentes assim, diretamente, conseguimos uma abertura com a cliente para trabalhar com a comunidade e os projetos do Instituto. E... qual foi a pergunta mesmo?

 

P/1 – Qual que é diferença da ação com o cliente nessa obra que é pontual, pra outra que tinha um movimento, que...

 

R – O que é que acontece? Como a nós estamos não impacta tanto a obra em si como é uma obra pontual e como a comunidade era impactada. Nós passávamos o duto literalmente no quintal da casa das pessoas. Aqui nós estamos num ponto fechado. O impacto que, existe um impacto sim, positivo e negativo, mas ele acontece de uma forma mais assim, da movimentação, da chegada de pessoas que vêm psra trabalhar na obra. Então você promove também essa questão do desenvolvimento econômico. Você vê que assim, algumas estruturas já melhoraram. O impacto ele é diferente. A obra ela está num ponto e a comunidade ela é muito mais impactada pela chegada das pessoas e o que isso gera. 

 

P/1 – E tem alguma outra aproximação? Por exemplo, sei lá, tem gente das redondezas ou das comunidades do entorno que estão nessa obra? Que trabalham?

 

R – Sim. A gente tem uma média de 60 por cento dos profissionais que trabalham conosco são da região. Então tem uma parcela significativa que trabalha dentro da obra e que são da comunidade, são da região. Então é mais de 50 por cento da obra, é formado por profissionais daqui da região.

 

P/1 – E vocês tiveram alguma dificuldade com treinamento, com capacitação?

 

R – Você fala em sentido assim das pessoas não...

 

P/1 – É, do pessoal do entorno, pro trabalho na obra, se eles...

 

R – Como é uma região que nunca tinha tido uma obra desse porte, tinham pessoas que nunca tinham trabalhado, que falamos até que é carteira branca, que não tinha nem registro em carteira. Então nós temos um trabalho até muito forte em relação à segurança, porque as pessoas não estão acostumadas a utilizar os equipamentos de segurança de proteção individual. Muitos eram cortadores de cana. Então assim, nunca trabalharam em obra ou não estão acostumados à rotina. Então tem assim, nós temos que fazer muito treinamento para promover, para sensibilizar os profissionais ao trabalho. Porque muitos, a maioria não tinha experiência com trabalho em obra.

 

P/1 – E como é essa relação da construtora com o Instituto, que aqui vocês têm uma relação mais próxima ou tão fazendo os trabalhos sociais mais alinhados? Como é que funciona esse relacionamento.

 

R – Só perguntar uma coisa. Você quer que fale dos programas que nós temos pontualmente?

 

P/1 – Não. Pode...

 

R – Só fala que nós temos o Futuro, Infância, para delimitar pra vocês entenderem?

 

P/1 – Ah, pode fazer uma introduçãozinha, sim. 

 

R – Pra vocês saberem depois como é que... Aqui nós temos os programas em parceria com o Instituto que é o Infância Ideal, o Futuro Ideal e o Ideal Voluntário. E dentro dos objetivos nossos como empresa, é exatamente manter um diálogo com o que chamamos partes interessadas, ou o que podemos dizer também stakeholders e aí nesse processo que nós temos, que procuramos manter essa comunicação, não preciso definir o que é partes interessadas?

 

P/1 – Bom, pode definir então. Definir quais são as partes interessadas.

 

R – Depois vocês cortam. É porque não sei se for usar é mais fácil. O que que são partes interessadas? É qualquer pessoa ou comunidade ou que é envolvido de qualquer forma, com a execução da atividade, da obra. E aí o nosso interesse é manter uma comunicação com eles e dentro, o projeto do instituto ele contribui para que tenhamos uma maior eficácia nisso. Porque o processo de implantação do Instituto ele envolve vários atores sociais. Então eu acho que uma coisa que é bem interessante é que é assim: os projetos do Instituto eles não são feitos para a comunidade. Eles são feitos pela comunidade. A forma como eles são implantados e nós sentimos muito isso, principalmente no CDC, que é o Comitê de Desenvolvimento Comunitário daqui, quando nós chegamos e teve esse início do processo de implantação que era discussão sobre quais eram as necessidades do município, a fase que nós estávamos fazendo o diagnóstico, os grupos se dividindo e tentando entender o que o município precisava, eles se questionavam muito assim: “Por que que o Instituto não chega com o projeto pronto para nós, e aí realizamos?”, ou: “Por que que nós não apresentamos já o nosso projeto e o Instituto financia?” Porque esse processo de implantação que você realmente envolve as pessoas, ele demanda mais tempo. Teve um projeto nós demoramos quase dois anos só na parte de elaboração, para que ele fosse implantado. E aí isso também gera um desgaste que as pessoas ficam: “Ai, será que vai acontecer? Será que não vai?”. O projeto ele foi implantado, ele foi finalizado agora há um ano e quando você conversa com as pessoas que participaram você percebe, e hoje eles entendem que eles atingiram, dentro desse processo de aprendizagem, uma maturidade muito maior. E nessa conversa que nós temos, eles falam: “É, agora nós entendemos porque o Instituto implanta os projetos dessa forma, e não como achávamos que tinha que ser no começo, que era simplesmente chegar com o projeto pronto e  executar, ou entregar o nosso projeto e o Instituto financiar”. Então assim, eu, que pude acompanhar desde o início, amadureci e você percebe que as pessoas amadureceram também nesse processo de implantação dos projetos. E o que eu acho que é interessante e contribui também, é que assim, a articulação do Instituto e a execução é sempre muito em parceria com quem realiza os projetos e essa transparência. Teve até um Dia do Bem Fazer que nós fizemos ano passado, e nós, o grupo de voluntários que chama, o nosso grupo de voluntários aqui, eles fizeram uma arrecadação dentro da obra e conseguiu, com o dinheiro arrecadado com os profissionais, doar sete cadeiras de rodas para uma organização aqui de Porto de Galinhas que trabalha com a inserção de pessoas com deficiência. E aí hoje essa parceria possibilitou para nós também uma parceria na execução de um programa interno nosso, que é um programa que chamamos de Oportunizar PCD, pessoa com deficiência, e é um programa num processo de inclusão de pessoa com deficiência dentro da obra. Essa ONG hoje ela ajuda em um processo de acessibilidade, ela dá palestras sobre isso tanto dentro da obra como nos nossos parceiros, no programa. Isso foi uma relação que foi criada a partir do programa externo, do Instituto, que foi o Dia do Bem Fazer, entre outras atividades. O que mais?

 

P/1 – Eu queria que você contasse um pouquinho como é que, o que o município precisava. O que foi definido como as prioridades, como as necessidades, nesse processo de diagnóstico. Tão importante pra você começar esse projeto, os projetos sociais ou as pessoas também se sentirem parte desse processo de implantação?

 

R – Isso, esse processo do diagnóstico, ele foi feito junto ao CDC, que é inicialmente voltado pro programa do Infância. E os grupos definiram que, o que o município necessitava na época que os projetos foram elaborados? Tanto a questão do lazer pras crianças como o que foi o primeiro projeto, que foi Casa de Brincar, que ele foi desenvolvido em Porto de Galinhas e Camelo, como também uma necessidade de formação de algumas instituições. Nós conseguimos uma parceria dentro do projeto que é um segundo projeto que é A Minha Cidade Tem Creche, que era a questão de melhoria da educação e fizemos. O projeto ele teve a formação de profissionais e adequação do espaço físico das instituições que estavam dentro, participando do CDC. Então um foi pro lazer, outra a questão da educação e o terceiro que é um projeto de articulação da rede de atendimento da rede Criança e Adolescente, que é um projeto que nós temos ainda uma certa dificuldade, que precisamos envolver vários atores,nós não conseguimos engajar todo mundo nesse projeto ainda. Mas os outros dois eles já começaram e finalizaram esse ano.

 

P/1 – E qual que é participação de cada agente, né? Então, da construtora com o Instituto, com a comunidade, com os parceiros, os clientes? Qual que é o papel de cada um?

 

R – O Instituto ele dá as ferramentas para que a comunidade consiga desenvolver o projeto e quando nós falamos em ferramentas, são oficinas de capacitação, oficinas voltadas para a conscientização do que é o CDC. Qual é a função que as instituições têm no município? Isso é o Instituto, ele possibilita que essas ferramentas, nós fazemos o acompanhamento dos projetos mais diretamente também, a empresa está no local. E a cliente não tem relação. E são as pessoas que desenvolvem. Nós fazemos um acompanhamento disso. Nós participamos desse processo de desenvolvimentos dos projetos, mas basicamente quem elabora os projetos, é a comunidade, são as pessoas que participam dele.

 

P/1 – E como é que aconteceu o primeiro contato com a comunidade? Como é que foi?

 

R – Eu não estava aqui, mas eu sei um pouco da história. Eu cheguei logo depois. O projeto ele faz uma reunião onde ele chama todos atores locais. O Poder Público, as organizações sociais, os conselhos de direito, e é aí onde ele apresenta a proposta dele. Isso eu estou falando especificamente do Infância Ideal, porque o Futuro ele é diferente. Há a apresentação a proposta e aí as organizações que têm interesse em participar continuam no desenvolvimento e entram e aí se cria o Comitê de Desenvolvimento Comunitário. E aí onde tem reuniões para poder se discutir como que está o município e o diagnóstico é feito a partir das pessoas que participam do CDC, que são pessoas da comunidade local. O Futuro Ideal já é diferente. É feito um diagnóstico no município. Eu não sei se interessa falar do Futuro. É feito um diagnóstico no município e aí, aqui foi feito, nós tivemos um parceiro local, o parceiro executor, que ajudou nesse diagnóstico para poder fazer levantamento dos grupos. E ele trabalha com o Instituto, ele trabalha com grupos minimamente organizados, ou seja, que já têm algum produto, e ele vai melhorar a gestão, o produto e aí que foi feito um diagnóstico e, dentro desses critérios, foram escolhidos alguns grupos pra participarem do projeto do Futuro.

 

P/1 – E quais são os benefícios que você enxerga nessas ações de responsabilidade social com a comunidade, que você vem acompanhando? O que você viu que mudou assim efetivamente?

 

R – Eu acho que isso primeiro foi, eu acho que antes de tudo, as pessoas e inclusive assim, porque você percebe o processo delas de... Eu, é o que eu falei, eu amadureci, as pessoas amadureceram também com isso. Eu acho que esse trabalho até quando eu cheguei aqui, foi minha primeira obra trabalhando com o Instituto e essa forma de lidar transparente, forma transparente com as pessoas que participam dos projetos, foi uma coisa que contribui inclusive para minha formação profissional e aprendi muito com isso. Acho que primeiramente o que muda são as pessoas, que você consegue perceber. Nós temos um grupo de artesanato que antes elas não acreditavam no que elas faziam. Hoje em dia é um grupo que trabalha, que tem autoestima, que já consegue participar de feiras. Elas conseguem ir atrás mais da venda dos produtos delas. Fora a técnica, que é a técnica que elas aprendem com o projeto, mas acho que o que mais muda são as pessoas mesmo, assim de acreditar naquilo que elas podem fazer.

 

P/1 – E como é que funciona, de um modo geral, a área de responsabilidade social dentro da obra, da construção? Porque aí tem as atividades externas, de relação com a comunidade, mas o que mais que essa área enfoca?

 

R – Fora as atividades externas, focando só nos programas, temos os programas internos que é pra trabalhar com os profissionais. Atualmente estamos com 6.500 profissionais dentro da obra. Nós somos um dos maiores contratos dentro da refinaria e temos programas de inclusão de pessoa com deficiência, programa de inclusão de aprendizes. Nós temos programas em que trabalhamos a questão da diversidade dentro da obra, porque mais de 60 por cento da obra é daqui, mas existem muitas pessoas de fora. Inclusive essa questão do trabalho voluntário ajuda a trabalhar isso porque tanto os profissionais que são daqui percebem que a empresa que eles trabalham investe na comunidade, mas como os profissionais que são de fora, uma oportunidade que eles têm de se integrar mais ao lugar onde eles estão morando agora. E aí a partir disso você até consegue puxar algumas coisas como respeito aos costumes, à diversidade, que são temas que a nós trabalhamos dentro da obra também, exatamente porque tem gente do país inteiro aqui, trabalhando junto. Então são temas que nós conseguimos trabalhar também. Fora essas, tem programas de... nós temos um programa de inclusão de pessoa com deficiência, aprendiz, tem um programa voltado para a diversidade, tem o programa Grandes Obras Pela Infância também, que nós trabalhamos a questão da exploração sexual de crianças e adolescentes. Dentre outras atividades que nós desenvolvemos, campanhas, ações de sensibilização, eventos. Enfim, é uma gama de atividades que  desenvolvemos lá dentro.

 

P/1 – Qual que é a importância de uma empresa desse porte numa obra desse porte, desenvolver ações de responsabilidade social?

 

R – Eu acho, primeiro que... a responsabilidade social ela nem é item contratual. Na verdade a responsabilidade social aqui nessa obra que estamos, ela é um investimento da empresa. Então se nós, a cliente não exige que nós tenhamos uma área de responsabilidade social. Geralmente assim, nas obras você tem o que se exige em contrato. Então eu preciso de uma área de planejamento, eu preciso de uma área de produção, isso é contratual, tem que ter. Área de responsabilidade social não. Então primeiro a empresa já investe, ela não recebe por isso, para nos manter aqui nessa obra. Nós temos um... Peraí, deixa eu pensar. Eu acho que é uma forma que nós temos, a área de responsabilidade social, também de mostrar tanto essa questão da transparência que a empresa tem e do que como ela se importa. Na relação dela com os profissionais, com a comunidade que ela trabalha, com a sociedade de uma forma em geral e do meio ambiente. Extrapola, a responsabilidade social, acho que ela extrapola só os projetos sociais externos, ela é mais do que isso, é você ter uma relação talvez, procurar ter uma relação mais humana dentro da obra. Porque nós estarmos numa obra e quando se fala em obra, as pessoas pensam em máquinas, mas na verdade ela é feita por pessoas. Então acho que é isso que nós precisamos, eu acho que é nessa parte que é importante uma constante responsabilidade social para que a empresa tenha um olhar a mais para que ela, não que ela tenha, mas que ela desenvolva ações mais voltadas nessa área. Tanto quando nós falamos em... quando  conversamos com os profissionais, deixamos muito claro que não existe uma diferença entre a vida profissional e pessoal, é uma coisa só. Então se nós não tivéssemos interesse em formar o profissional, nós não teríamos interesse em formar as pessoas. Esse é o nosso objetivo quando nós trabalhamos com responsabilidade social dentro da obra. Não é só fazer com que o... Técnica todo mundo aprende, a nossa ideia é sensibilizar e trabalhar com eles questões que extrapolam a obra, extrapolam o aprender a usar o equipamento de proteção individual. É mais do que isso, porque afinal de contas são mais 6.500 pessoas juntas trabalhando. Então é, eu acho que essa que é uma das grandes importâncias de se trabalhar em RS.

 

P/1 – E pra você, como é acompanhar os resultados desse investimento social, ainda mais não sendo contratual, sendo uma iniciativa da própria empresa? Então como é ver aquele grupo de artesãos agora com autoestima, com os produtos mais alinhados, e por outro lado a creche montada, paramentada para receber as crianças ou então fazendo uma campanha contra a exploração? Como que é ver tudo isso, essa coisa acontecendo?

 

R – Eu gosto muito de trabalhar com RS. Eu acho que você não só ver, mas você participar disso é muito bom, na verdade, porque você acompanhar os grupos e você vê que o resultado daquilo que não eu estou fazendo sozinha, mas que na verdade todo mundo. Porque são elas que fazem, né? Nós damos um apoio, quem faz são elas. E você vê que elas estão num processo de melhoria, assim como os grupos que participam do CDC, que eles amadureceram. Você os escuta falando isso, eles falam isso declaradamente. Como eles amadureceram, como eles mudaram até a postura da forma em lidar no dia a dia. Eu escuto muito isso de uma, da Fabiana que ela trabalha, que ela é da organização do maracatu. Ela fala que ela aprendeu muito com os projetos do Instituto e que ela mudou a postura dela no dia a dia. E eu acho que você aprende muito, que você não tem que ter aquela postura. Assim, o que eu aprendi muito com os projetos do Instituto e que as pessoas talvez tenham uma visão, quando  nós falamos em investimento social, é que você... A empresa chega para financiar o projeto, então a empresa ela dá o direcionamento. Na verdade a forma como nós implantamos os projetos não é assim e as pessoas participam, nós participamos, então na verdade o resultado é de todo mundo. Muito mais dos grupos do que nosso, porque são eles que na verdade topam participar conosco disso. Então é uma construção coletiva mesmo e foi isso que eu aprendi muito aqui. É como você trabalhar com os grupos e as pessoas, às vezes, têm uma visão assim: “Ah, a empresa vai chegar, então ela vai financiar um projeto, ela vai querer só fazer a prestação de contas e nós vamos trabalhar, presta conta e acaba.” Não é assim. Nós acompanhamos o desenvolvimento, apoiamos e participamos, vemos como as pessoas cresceram e também crescemos junto com isso, aprendendo muito. Eu aprendi muito a trabalhar com... Você aprende a respeitar o tempo do outro, a entender que o projeto, mesmo a tendo um cronograma que a  que seguir porque a obra um dia ela vai acabar, então queremos ver as coisas acontecerem, aquilo vai atrasar porque cada um tem o seu tempo. Eu sou do interior de São Paulo. O tempo é diferente. Então assim, você aprende muito a entender essa dinâmica.

 

P/1 – Em que pé que está a obra agora? Está em que fase, assim, está mais ou menos?

 

R –  Estamos com uma média de, eu não tenho certeza agora pra te dar um... Vamos colocar mais de 50 por cento da obra concluída.

 

P/1 – E quais são as perspectivas de próximos passos para a área de RS?

 

R – Atualmente nós acabamos de divulgar que estamos em um processo agora de divulgação do nosso balanço social do ano de 2012, que é exatamente um demonstrativo do investimento que a empresa faz tanto na sociedade, nos profissionais, em relação ao meio ambiente, segurança. É um documento que  nós  publicamos, aberto a todas as partes interessadas. Então a comunidade tem acesso, os nossos fornecedores e subcontratados, para nós é um dos principais marcos desse ano, que é a divulgação do balanço social também. Fora isso pretendemos continuar desenvolvendo os projetos em parceria com o Instituto e os nossos programas internos também, voltados para os profissionais. É basicamente isso assim, a obra ela vai logo assim, estamos em um momento de pico da obra, mas logo vamos começar a desmobilizar também, então… 

 

P/1 – E pra você, em termos profissionais, quais são as suas perspectivas?

 

R – Difícil responder essa. Essa eu não sei por que acaba essa obra, nós não sabemos aonde vai outra obra, quando vai ser. Aí essa pergunta já é... Pelo menos em relação a obra é mais difícil. E nós nunca sabemos para onde nós vamos. Não sei se já conversaram com gente de obra ou não. 

 

P/1 – Não.

 

R – Não? É, como são contratos, então acaba o contrato, você espera aparecer outra obra. Então você nunca sabe: “Ah, daqui eu vou pra outra obra.” É sempre uma surpresa. Tanto é que eu estava no interior, vim pra Recife. E assim vai.

 

P/1 – E como foi mudar pra cá? O que mudou pra você vim de São Paulo, do interior pra cá pra Recife?

 

R – Eu adoro Recife. Eu gosto muito de Pernambuco. Gosto da cultura daqui. Eu acho que um dos motivos que eu queria vim morar aqui, porque eu já tinha algumas afinidades com a região, principalmente em relação à música. Faz quase três anos já que eu estou aqui, eu gosto muito de morar aqui. Não tive grandes problemas para me adaptar, mas também sinto saudade de São Paulo.

 

P/1 – E quais são as coisas mais importantes pra você hoje?

 

R – Mais importantes? Vou ser bem honesta, é o meu trabalho. Que eu estou aqui pra trabalhar. Eu acho que família. Eu gosto muito do que eu faço e exatamente por poder trabalhar com as pessoas. Eu acho que isso é muito bom. Tem alguns momentos que... Porque você sai de casa, eu vim morar aqui sozinha, sem família, e estou há três anos. Aí tem alguns momentos que você fala: “Nossa, o que eu estou fazendo aqui, né? Vim trabalhar.” Mas não só trabalhar porque eu quero, eu vivo aqui. Eu falo que agora aqui é minha cidade, não mais a casa dos meus pais. E em alguns momentos que você está com as pessoas ou até teve uma despedida que nós tivemos em um dos anos com um dos grupos do projeto, e você vê as pessoas e aí é umas coisas que você entende porque que você sai da sua casa pra morar tão longe e é quando assim, faz sentido quando você vê o porquê você está ali, a relação que você tem, a relação de amizade e carinho que você estabelece. Porque isso é, se estabelece isso com as pessoas. Então é, acho que é uma mistura de tudo assim. É difícil.

 

P/1 – Tá certo, Francine. Acho que com isso nós encerramos. Muito obrigada.

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