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História

A descolonização da vida

História de: Sioduhi Paulino Piratapuya
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/03/2022

Sinopse

Sioduhi fala sobre seu povo, sobre a redescoberta de sua identidade indígena, sobre ser LGBT e seu trabalho com moda.

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História completa

(00:23) P\1 - Sioduhi, quero primeiro te agradecer imensamente a oportunidade de você estar contando a sua história aqui para gente, e que ela tenha alguma utilidade para você, para o seu povo, e para quem tiver que chegar.  

Eu queria que você fechasse seus olhos nesse começo, respirasse profundamente, e fosse para sua primeira lembrança. Qual é a sua lembrança mais antiga, a primeira coisa que você se lembra, que aconteceu com você nessa vida? Pode falar de olho aberto.

 

R - A primeira lembrança que eu tenho é de me acordar do período de verão da estiagem, na comunidade de Mariuá no Médio Uaupés, na qual eu sento em cima no morro, e olho as banzeiras levantando no rio do Médio Uaupés. Acho que é uma das lembranças que eu sempre sonhei, que sempre ficou na minha lembrança, é o lugar onde eu nasci, cresci e eu tenho boas lembranças deste lugar.

 

(01:50) P\1 - Qual é exatamente esse lugar em que você cresceu, o lugar que você nasceu?

 

R - Mariuá, que está localizado no Médio Uaupés, no extremo noroeste do Amazonas, na Cabeça do Cachorro.

 

(02:05) P\1 - Eu queria te pedir… Quando a gente está contando a nossa história, sempre tem as pessoas que vieram antes de nós, então eu queria que você voltasse, se possível, e contasse resumidamente um pouco a história do seu povo. O que você sabe?

 

R - O meu povo é Piratapuya. O povo Piratapuya está localizado entre duas fronteiras: parte está no Brasil território do Pindorama, e outra parte está na Colômbia. Os Piratapuyas, eles têm uma língua original deles, que com o tempo acabou se perdendo também. É uma língua misturada com wanano e um pouco com o tukano original. Os Piratapuyas se desenvolveram no rio Papuri e é um povo que sempre teve uma ligação muito forte com o povo Dessana - inclusive a minha mãe é Dessana, sou filho de uma Dessana e um de Piratapuya - mas com o tempo, devido ao êxodo, a gente foi descendo e chegou ao Médio Uaupés, onde foi criada a comunidade Mariuá. Muitos Piratapuyas chegaram lá, trabalharam, se desenvolveram, e sempre com uma aliança muito forte com o povo Dessana até o dia de hoje. O povo Piratapuya, como bem sabe, são um povo muito ligado, um dos povos que que subiram na Cobra Canoa durante a evolução.

Eu sou do terceiro clã do povo Piratapuya. Eu carrego esse nome devido ao meu avô, mas eu descendo também do meu avô paterno Piratapuya e da avó paterna Pariana. E da parte da minha mãe, avós maternos, meu avô Dessano e minha avó Siriana. Esses são os meus ancestrais, que todos os dias estão comigo.

 

(04:23) P\1 -  Queria que você contasse um pouco o que você teve de contato com seus avós, se você teve algum contato. Que lembrança você tem dos seus avós? 

 

R - O dia dezenove de abril foi o dia que nós perdemos a minha avó. Eu perdi a minha avó materna e foi a única avó que eu tive contato direto vivo, porque os três avós foram muito cedo, e eu não estava vivo ainda porque eu sou o caçula da família. Essa lembrança que eu tenho da única avó materna, do povo Siriano, até lembrei no dia 19 de Abril, dia da resistência dos povos indígenas, que ela morreu no dia que a comunidade Iauaretê - é o município que eu fiz o ensino fundamental - estava comemorando esse dia, estavam preparando o dabucuri [cerimônia de oferecimento de alimentos e produtos artesanais realizada por todos os grupos da região]. A minha avó neste dia estava muito debilitada - isso em 2009 - olhando para minha mãe. Minha mãe foi visitá-la, ela estava no lugar guardadinho, descansando porque ela estava demais debilitada. Ela falou para minha mãe bem assim: “Vocês estão pintando para entrar em dabucuri?” E a minha mãe disse: “Sim, estamos.” A minha avó disse para ela: “Por favor, pinte o meu rosto também que eu quero entrar na dança com vocês. Na verdade, já, já vou entrar na dança com vocês.” A minha mãe disse para ela: “Como que você vai entrar na dança com a gente, se você está tão debilitada desse jeito?” Ela falou bem assim: “Mas eu já, já vou entrar com vocês.” Dizendo isso, foi a última palavra antes dessa partida.

Essa ligação, esse é o ponto que eu sempre recordo. Por isso que dia dezenove de abril, além de saber que estamos em processo de resistência, de luta pelos nossos direitos, é um dia que eu perdi a minha avó, e o dia que também é aniversário da minha prima, que está em uma das fotos que eu expus aqui para o museu. É um dia de celebração e ao mesmo tempo de um pouco de luto, de recordação dessas lembranças.

 

(06:50) P\1 - Na sua infância mesmo, na sua vida, você lembra como era seu dia a dia com uns quatro, cinco anos?

 

R - Sim. A nossa vida era muito com contato com a natureza. Nós tomávamos banho de rio na época da estiagem. Eu falo muito da estiagem, porque é o momento que ficou na minha mente, um momento além de banzeiras e de canoa, visitar as praias de água doce, de ter contato com argila, porque a argila só aparece quando o rio está baixo. Esse contato com a natureza extrema que eu tive, de ir para roça com os meus pais, de poder ajudar os meus pais na plantação de maniva para a colheita da mandioca, de fazer a alimentação mesmo, de assar, por exemplo, o cará no fogo a lenha, dentro do fogo no meio da roça - é com esse tipo de cuidado que eu cresci com a minha mãe, de ter muito acesso a natureza, e de ter que lidar também com os cuidados dos meus pais para comigo. Apesar de ter nascido numa era pós-colonial, meu pai sempre estava nos benzendo, para que a gente pudesse fazer essa transição. Mesmo que fosse para ir a Iauaretê, que é um distrito de dez mil habitantes, meu pai sempre nos benzeu, teve esse cuidado. Eu não entendia muito sobre isso, mas ele fazia isso pra gente. 

Uma das maiores lembranças que eu tenho quando criança é sobre as histórias que minha mãe contava, da evolução das mulheres, das mulheres que desde o início tiveram uma grande história, processo de evolução, só que elas foram censuradas, e essas histórias que eu carrego para que eu não me perca hoje em dia fazem todo o sentido, de como a sociedade está passando. A história da cobra e do deus, que a esposa traiu o deus para se relacionar com a cobra [e] quando ela teve filho, o próprio filho comeu ela. São coisas que elas contam conforme a ilha que a gente ia passando, e toda ilha que passávamos  tinha uma história, que ela relacionava nesse processo. “Olha, nessa praia aconteceu esse fato histórico aqui. Essa é a trilha onde a mulher descia com a panela dela, e a cuia lá dentro batendo, para chamar atenção da cobra, para que eles pudessem se namorar. Aqui aconteceu quando ele matou a cobra”, por exemplo. São histórias que ela me contava desde criança até os meus doze anos, nessas viagens de seis horas de rabetinha, até chegar em Iauaretê. 

Por meio dessa ancestralidade que ela contava, esse espírito muito matriarcal da parte dela, de contar histórias, sempre ficou muito presente na minha vida, da minha mãe em específico. Do meu pai, só depois que ele foi amadurecendo que eu fui me aproximando mais dele, mas da minha mãe eu sempre fui muito apegado, nesse sentido das histórias.

 

(10:04) P\1 - Essas histórias que ela contava tinha algum momento específico? Era no fogo ou era há qualquer hora, tinha alguma ritualística quando isso acontecia?

 

R - Era nas viagens, porque fazia muito mais sentido. Eram seis horas de viagem de rabetinha, na canoa de madeira. Eu ficava deitado no colo dela. Quando a gente estava subindo no rio ela fazia demonstração, ela contava a história demonstrando esses locais onde houve essas passagens, e das pedras, que tem uma importância muito grande na nossa história. Ela apresentava, e muita coisa ela contou. Eu preciso resgatar isso também. 

Eu era muito criança quando ela contava esse processo de evolução. Melhorava mais ainda quando a gente ia para São Gabriel; como a gente vinha da Cobra Canoa, ela contava todos os pontos que a Cobra Canoa… Ela ia passando desde a distribuição, evolução, então nesses pontos eu tenho muita lembrança da minha mãe, desde criança. 

 

(11:15) P\1 - Sua mãe era Dessana. Qual era a diferença que você sentia da cultura da sua mãe para a cultura do seu pai?

 

R - Meu pai… Esse é um ponto que me dói um pouco de falar. Meu pai é do povo Piratapuya. O meu avô da parte do meu pai era muito próximo dos padres e, consequentemente, a imposição dele foi muito alta para com o meu avô. Isso desencadeou também na perda da cultura em si do povo Piratapuya, em específico para com o meu pai. Com essa censura, o meu pai se delimitava muito a contar as historias para mim quando era eu criança, enquanto que a minha mãe já tinha essa história de uma certa forma já obtida, já tinha esse ouvido mais aguçado, porque o meu avô paterno ele contava mais histórias para minha mãe e minha mãe, consequentemente, ouvia mais histórias da minha avó materna, então elas iam compartilhando essas histórias. 

A minha mãe passava mais histórias para mim do que o meu pai, porque meu pai já tinha esse bloqueio colonizador. Isso para mim foi algo muito dolorido, porque eu acabei perdendo muito dos Piratapuyas, mas o bom aqui é recordar que lá no Alto Rio Negro, dos 23 povos, pelo menos uns vinte vivem de uma forma muito mais compartilhada. Quando a gente fala de Dabucuri, a gente não está falando apenas do povo Piratapuya. A gente está falando dos Tukanos, Dessanos, Wananos, de todos os povos que estão lá. Esse ponto a gente precisa recordar bastante, porque era uma coisa muito compartilhada. 

Um dos pontos também do Alto Rio Negro, é muito importante ressaltar, que os povos não podem se casar entre os mesmos povos. Eu, como Piratapuya, não posso casar com um Piratapuya. Isso porque era uma proteção ancestral, porque nós sempre fomos muito nômades, trabalhadores de fazer roça, pescaria, caça. Nós não teríamos tempo de cuidar de crianças portadoras de deficiência, e isso é consequência tão ancestral que eles não explicavam o porquê, mas era uma forma de proteção, porque eles sabiam que se nós casássemos com as pessoas do nosso mesmo povo poderia nascer crianças com deficiência. 

Assim começou com o povo tukano. O povo tukano infelizmente não aceitou essa orientação dos anciões. Acabaram se casando entre eles e surgiram os primeiros portadores de deficiência, mas ainda bem que hoje, com toda a informação que temos, a gente tem todo o cuidado, então esse ponto é muito importante a gente ressaltar. Hoje também eu compreendo isso e a importância dessa proteção.

 

(14:07) P/1 - Eu queria também tocar um pouco nesse ponto dos padres que você falou. Você, pequeno, o que você via na sua vida dessa influência missionária? Como era isso no cotidiano?

 

R - Nesse ponto, é muito importante falar do termo que eu utilizo muito, que é o “coma colonial”. A gente já nasce nesse berço pós-colonial. O meu tio foi ministro, o meu pai foi ministro, que é um cargo de catequizandos e tudo mais. Existe capela para comemorar dia de santo x, época de não sei o quê. Era muito forte essa influência católica, de santo não sei aonde, dia de não sei o que, Páscoa de não sei aonde, Natal. Todo esse berço cristão católico era muito desenhado, só que em nenhum momento eu me questionava, porque eu nasci no berço que não era para ser questionado esse tipo de comportamento, esse tipo de fé que foi imposta, e a minha mãe supercatólica… 

Uma das coisas que é muito fácil de perceber da minha mãe, apesar dela ser uma pessoa muito católica, muito fiel: ela foi uma das pessoas que me repassou os conhecimentos ancestrais que eu tenho hoje, então por mais que a gente diga que nasceu em um berço pós-colonial, o nosso espírito não nega a nossa origem. Por mais que a gente tente se moldar a algo diferente, ao pós-colonial, nosso espírito grita. A gente sabe de onde veio, a gente questiona isso. Até um ponto, por exemplo… Quando eu digo que é falar, que eu cresci no “coma colonial”, até os meus 21 anos eu tinha depressão por não saber de onde eu vinha, qual era o meu valor na sociedade, e por que isso tudo tinha que funcionar dessa forma. A gente tinha que ir para a missa, cumprir o domingo desse jeito e acabou, sem questionar -  fora isso era punição. Sendo que historicamente isso já vinha trazendo vários traumas, desde os meus tataravós, desde os meus avós, desde os meus pais até a mim. 

Esse é um dos pontos que eu sempre ressalto, que a gente nasceu nesse berço, que é tudo desenhado praticamente para ir para igreja, para ir para oração, para fazer novena. Eu nasci com tudo isso desenhado para mim, mas com o tempo fui questionando e compreendendo porque isso tudo estava acontecendo. Não é que eu invalide a religião; eu sei que tudo precisa ser respeitado, as limitações, mas no momento que você tem abismo espiritual, só a pessoa sabe como ela sofre para se encontrar nesse caminho, que é algo muito mais profundo do que a gente vê, o externo, que é essa organização social que eles propuseram ou impuseram durante a implementação do integracionismo.

 

(17:14) P\1 - Então como funcionava isso, você ia à missa todo o domingo?

 

R - Sim, nós éramos obrigados a ir à missa, fazer catequese, fazer crisma, casar, e consequentemente isso tudo já vinha moldado na gente, mas quero fazer um retorno aqui, rapidinho, desse processo inicial da implantação do catolicismo. O Mariuá não era Mariuá ali onde era, na beira do Rio Médio Uaupés. Mariuá antes era em cima, onde tinha um outro igarapé, um pouco mais adentro, um foz adentro, onde vivia uma sociedade maloca. Lá está nossa história original, onde tem cerâmicas, onde tem rastros de fogueira, de tudo que você possa imaginar, e cemitério também indígena lá. Quando os padres implementaram essa organização social, eles tiveram que separar as famílias em casas separadas, e no meio uma capela, e esse formato de organização sobe o Médio Uaupés inteiro, essa era a ordem. 

Quando os missionários chegaram, não veio apenas a imposição da religião, veio também as doenças; quando eles se mudaram, chegaram no Médio Uaupés, a minha mãe sempre falava… Ontem mesmo veio essa lembrança muito forte para mim: via-se aqui em Mariuá os vasos de barro feito sendo jogados pelas casas, cheios de sangue oriundo de tuberculose; assim muitos dos meus ancestrais, meus avós, meus tios morreram. A minha avó materna Tariana, Ana Moreira, ela morreu de tuberculose, oriundo de pessoas que vieram de fora e trouxeram essas doenças. Não foi apenas algo implantado no sentido de religião, apenas invasão territorial; [foi] também o estupro espiritual e físico, foram também doenças que chegaram e causaram esse tipo de transtorno. Eu, particularmente, carrego isso em mim tão claro… 

Ainda bem que hoje, com a mente mais consciente da minha história, eu carrego isso e tenho plena noção do que aconteceu. É uma dor, e esse processo de descolonização é um processo de cura, justamente para gente recordar isso - não como uma forma de entristecer, mas sim de fortalecer, para que possamos resistir de forma sadia emocionalmente.

 

(19:56) P\1 - Como funcionava  essa coisa de ser obrigado, quem é que ficava obrigando por exemplo a ir a missa?

 

R - Esse é um dos pontos que doem bastante em mim, porque é um ponto que eu comentei no início. Tem dois parentes indígenas - é uma charge isso, de indígenas conversando - vem um missionário e coloca uma agulha ou uma faca nele, para furar aquela bolha de conversa que está acontecendo. É uma charge que não me lembro onde vi, agora pela manhã. Basicamente [foi] isso que aconteceu: a oralidade era muito ancestral, a oralidade era algo essencial para toda a sobrevivência dos povos do Alto Rio Negro, pelo menos do Médio Uaupés de onde eu vim. Benzimento, organização, cerimônia, tudo era feito por meio da oralidade, cognição. 

Quando eles chegaram lá, o que eles fizeram? A primeira coisa que eles fizeram foi instalar a igreja, falar que estava chegando uma nova era - esse foi um termo muito utilizado pelo meu avô paterno. “Está chegando uma nova era, vocês não precisam mais aprender isso.” Os pais eram obrigados a colocar seus filhos dentro do internato, porque eles tinham que estudar e ser cuidados pelos padres. Os mais velhos poderiam ficar na comunidade, mas as crianças não, tinham que ficar no internato obrigatoriamente em cuidado desses missionários, padres e irmãs. 

No meio desse domínio tinha os olheiros - os olheiros são aquelas pessoas que eram submissos pelos missionários. Quando eles viam rastros de cerimônia, rastro de pessoas bebendo alguma coisa, rasto de pessoas usando ayahuasca, por exemplo, [ou] o carpi, eles iam lá denunciar para os padres. Consequentemente, pessoas ligadas a esse tipo de movimento, que era contra essa imposição da religião, não poderiam pisar na igreja da missão e também fazer trocas de alimentação na dispensa - troca de alimentação, de roupa, de açúcar, de arroz e tudo mais, eles não poderiam aceitar. Por exemplo, eu estou fazendo uma cerimônia de dabucuri, ou tomando ayahuasca ou carpi; se eles soubessem que eu estava fazendo esse tipo de prática, eu não poderia ir com meu urutu, com minha cesta e ir na dispensa trocar, porque era uma punição. Eu não poderia trocar comida, roupa nem nada, era punição total. 

Assim eles foram dominando, manipulando por meio desses olheiros, por meio de censura, e quando menos esperávamos, já dominaram inteiro, por meio dessas missões da igreja, dessas implantações. Isso não foi em nível nacional, foi em nível internacional. Lá em cima, na Colômbia, também, o governo de lá estava fazendo a mesma coisa que aqui no Brasil. Como a gente estava na Cabeça do Cachorro, na fronteira com a Colômbia, não tinha para onde os parentes fugir; foi de cima para baixo, juntaram e assim conseguiram dominar rapidamente.

 

(23:25) P\1 - Quando você cresceu, o que você olhava e permanecia na sua cultura? Porque pelo que eu entendi, várias coisas foram sendo proibidas. O que você via que ainda permanecia? Você contou da sua mãe contando histórias; além disso, o que permaneceu? 

 

R - O que permanecia bastante para gente… Eu nasci em uma área pós-colonial. É o Dia do Índio que eles criaram, que o governo promulgou lá com esse termo muito racista, com esse termo muito colonialista; veio lá uma lei que rege isso, com Getúlio Vargas veio mais reconhecer a conferência no México e tudo mais. Era o único dia em que eles queriam promover a cultura [indígena]. 

Para você ter uma ideia [de] como a cultura ocidental chegou lá também, ao ponto da gente só recordar desse dia nesse dia, toda uma história tentando [se] resumir nesse dia, nesse meio tempo o que eles fizeram? Uma lembrança que eu tenho da Escola Estadual São Miguel - toda escola tem que ter nome de santo. Lá durante o dia do índio eles separavam - vou usar esse termo, Dia do Índio, porque hoje é considerado assim, mas posso falar dos povos indígenas, que é o mais correto - eles dividiam a escola em povos: você é do povo Dessano, você é do povo Tukano, você é do povo Tariano, você é do povo Piratapuya, como era o meu caso. Eles separavam para que a gente pudesse fazer algo do povo, por exemplo, cantar a nossa música de capiwaya, específica nossa. Na época ainda tinha uns anciãos vivos, foi uma forma de recuperação que eles fizeram. 

Isso já foi em 2009, 2008, por ai, quando a igreja tentou fazer essa coisa de interculturalidade, tentando repor todo o holocausto que eles causaram. A partir disso que eu percebi que nós, os Piratapuyas estamos sumindo; quando eles faziam essa separação percebi que não chegava nem a vinte alunos do povo Piratapuya. Desses mais de quase mil, dois mil alunos dentro da escola de São Miguel… Isso foi em 2019 que eu percebi, que os povos Piratapuya estavam começando a sumir, e o povo mais dominante é o Tukano, o Tariano, que são mais fortes, estão mais fortalecidos, mas o povo Piratapuya, assim como os outros povos, será um dos povos entrando no processo de extinção. 

Na época eu nem me questionava, foi a minha prima que foi comentar, porque você carrega o nome da sua marca, como fosse Piratapuya. É fruto dessa lembrança que eu tenho, porque apesar de tudo que aconteceu eles tentaram retomar, mas não é a mesma coisa. O resultado disso foi o que eu vi, que o povo Piratapuya hoje em dia é muito pequeno, é um número consideravelmente pequeno, comparado com os outros povos da Cabeça do Cachorro.

 

(26:37) P\1 - Isso que você falou, por exemplo, que o seu pai Piratapuya te benzia. Ele benzia reza cristã ou reza Piratapuya? 

 

R - Reza Piratapuya. Não posso dizer Piratapuya em específico, porque os benzimentos também são compartilhados entre os povos. Lá não tem algo unilateral, no Alto Rio Negro é muito compartilhado de diferentes povos, diferentes benzimentos.

 

(27:05) P/1 - Você falou que seu pai era ministro também?

 

R - Isso, nesse ponto que eu quero chegar. Quando ele se casou com a minha mãe, ele percebeu que não tinha nada de benzimento. Ele teve que recorrer, voltar ao tempo, procurar os anciãos para aprender a benzer, porque ele estava vendo que poderiam acontecer tragédias - por exemplo, eu nascer sem o nome de benzimento, sem proteção, e não sobreviver por muito tempo, porque a gente bem sabe [que] quando [houve] o processo de evolução da Cabeça do Cachorro, pelo menos no Alto Rio Negro, antes da gente chegar já existiam outros seres celestiais, outros seres lá protegendo a terra antes de nós, humanos chegar. Esses donos, espíritos da floresta, poderiam matar a gente, e quando a gente nasce, quando a criança é filho de indígena, povo Dessano, povo Piratapuya, praticamente a minha alma está exposta a esses espíritos. Como é que você, como um pai, e sabe disso tudo vai proteger seu filho? Não basta os ensinamentos cristãos, ele tinha que recorrer de uma certa forma para nos proteger, para nos benzer, dar o primeiro banho, dar o banho com breu, colocar um coração forte, para que pudéssemos resistir espiritualmente, crescer e não morrer. A primeira alimentação, a puberdade, tudo ele tinha que saber, ou seja, tudo que ele não aprendeu com meu avô ele teve que aprender depois de casado. Hoje em dia meu pai é benzedor, antes do casamento não sabia de nada e hoje ele sabe.

 

(28:53) P\1 - Você estava falando que seu pai aprendeu a benzer e tudo depois de casado?

 

R - Sim, e a partir disso ele teve oito filhos. Eu sou o caçula da família. Desse esforço que ele fez para proteção dos seus filhos, ele conseguiu criar todos eles vivos, sadios. Esse é o ponto que eu falei no início também: por mais que seja imposta uma religião diferente, roubem suas terras, te estuprem espiritualmente, você mesmo, seu espiritual, nunca vai se perder, ele vai estar intacto. Uma hora ou outra você vai precisar se reconectar. É esse um dos exemplos que eu trago do meu pai, de que ele realmente precisou correr atrás de tudo e conseguiu nos criar - pescando, é claro, cuidando, fazendo roça, um cara muito trabalhador, mas tudo isso também ele teve que aprender, porque fazer roça não é chegar lá e roçar, derrubar a floresta, não. Até pra fazer roça você precisa benzer para a proteção daquele lugar, que é a área você vai roçar, para que não tenha uma jararaca, para que não tenha uma caba, qualquer coisa que possa… Ou um acidente, cair uma árvore em cima de uma pessoa. 

Como ele iria sobreviver nesse meio todo espiritual, se ele não soubesse desses benzimentos? Não era só proteção dos filhos, era proteção de si também, para sua família inteira, para o sustento, por exemplo, nesse caso das roças. Então, por mais que nascemos em um período pós-colonial, nós tivemos que nos reconectar e catar os cacos para realmente resistir.

 

(30:57) P\1 - Você falou que o seu pai não tinha aprendido com o seu avô, mas essas coisas vêm do seu pai retomando isso? Você ia também aprendendo com o seu pai as coisas?

 

R -  Sim. Eu conversei com a minha mãe porque ela me ensinou muita coisa que eu sei hoje. O restante eu aprendi a partir de 2016, 2017, em que eu comecei a me aproximar muito mais do meu pai. Hoje eu pergunto de coisas e sei de coisas porque eu questionei ele. Se fosse por ele não poderia me contar. 

Não é porque eles não querem nos contar, é porque eles querem nos proteger de uma realidade que não nos aceita. Na visão deles é melhor a gente se moldar nesse “coma colonial” do que a gente saber tudo isso, e afrontar com esse nosso pensamento originário. A partir disso, por exemplo, mês passado eu perguntei: “Pai, qual é o significado do meu nome, Sioduhi?” E ele sempre me enrolando. Há um ano ele não sabia me explicar, eu insistindo, uma conversa pessoal e mais de três ligações para ele explicar. Ele não sabia o que significava. Na quarta ligação eu respirei fundo e perguntei novamente qual era o significado do meu nome e ele respondeu: “O seu nome significa neto daquele que está sentado e cantando.” Na tradução original não faz nenhum sentido, por exemplo… (fala em sua língua).  

Ele que compôs as músicas que estão no capiwaya, as danças de Maracá, e para isso, para que ele pudesse explicar, ele tinha que cantar para mim. Dentro dos meus 25 anos eu nunca vi meu pai cantando capiwaya e nem canto de Maracá, e teve que cantar para mim pelo telefone com uma voz supertímida. Nesse ponto que a gente fala que muitas vezes o colonizador está na gente, com a gente. O espírito colonizador está nos intimidando. Por mais que diga que não tem ninguém nos intimidando, todos os dias, nas cidades, espiritualmente está, porque os traumas que a gente carrega, os nossos ancestrais, isso sucede até hoje. Não teve ninguém do meu lado falando “não canta, senão você vai apanhar”, “não canta, senão você vai levar uma taboada na mão”, “não canta, senão você vai ser queimado vivo”. Ninguém estava falando pra ele, mas na sua lembrança estava isso, então eu vi como isso tudo influencia nessas feridas coloniais que a gente carrega até hoje, dos pontos que eu sempre levo do meu pai. Levaram muitos anos, 25 anos até eu entender o significado do meu nome, isso porque falei com meu pai para que saísse da zona de conforto, para que cantasse para mim, para que pudesse fazer com que a explicação dele fizesse sentido.

 

(34:44) P\1 - Você falou de várias passagens de cantos, de puberdade, cantos de roça. Quais foram os rituais que você passou do seu povo, que você vivenciou?

 

R - O primeiro de tudo é o do meu nascimento, que é o primeiro banho, no qual a mãe tem que carregar o bebê com breu protegendo, porque espiritualmente tem toda uma proteção de animais limpando o caminho pela frente, até que desse o banho, esse primeiro banho. Eu estou com o coração desse ancestral que é Sioduhi, ele habita no meu coração; a partir disso eu estou protegido, esse foi um dos primeiros rituais que eu passei. 

O segundo ritual é na primeira alimentação. Até onde eu sei, é claro, não sei detalhadamente sobre como podem ter sido os outros, mas nunca foi me contato exatamente. Os que eu sei são esses da alimentação: [em] uns seis, sete meses eu vou começar a comer uma comida sólida, então o meu pai precisa benzer, para que meu corpo receba diferentes tipos de alimentação no meu estômago. Por exemplo, se eu comer um peixe surubim, que é um peixe liso, se eu comer sem benzimento eu posso ter vários tipos de coceira, vários tipos de problemas de pele, então o meu pai precisa me benzer, preparar o meu estômago, para que eu não tenha esses problemas - isso no âmbito geral, para que eu não tenha nenhum problema de alergia quando for comer, ingerir qualquer tipo de alimentação. 

O terceiro que eu lembro é o da voz. Quando começo a entrar na parte da puberdade, pelo menos o meu pai, ele [me] benzeu para que eu pudesse usar a minha voz de forma natural, porque tem jovens que engrossam muito a voz [e] não conseguem se comunicar, ou tem jovens que ficam nesse meio termo de criança para jovem, algo muito desequilibrado. Pelo que meu pai me benzeu foi focado muito na voz, durante a minha puberdade na transição da voz, e eu não entendia o porquê disso. Acho que agora entendo porque que ele fez isso, por causa do meu espírito ancestral que era músico, para que eu pudesse usar minha voz. Isso faz um pouco de sentido hoje; agora, nesse exato momento, faz um pouco de sentido. O foco dele durante a minha transição da puberdade foi focado na voz, tanto é que ele benzeu, ele deu mingau quente para que eu pudesse entrar em equilíbrio com minha voz adulta e tivesse uma voz limpa. 

Sem falar que todos os anos a gente passa por uma renovação espiritual, que é a proteção do coração, para que a gente possa fortalecer e tudo mais. Assim é o rito, anualmente. Preciso voltar sempre, ou procurar alguém que saiba fazer e que conheça também o meu espírito, que é o Sioduhi.

 

(38:05) P\1 - Você ia à escola também?

 

R - Sim, sim. Com certeza.

 

P/1 - Como era na escola, do que você se lembra? As vivências na escola? Quem eram os professores? Como era a educação na escola?

 

R - Era uma escola comum, que a gente aprende o abecê e tudo mais. Sabe aquela escola muito com hábito colonial? Era assim: você aprendia o português, aprendia a escrever, depois você ia para o ensino fundamental. A princípio… A escola que eu cresci inclusive era regida por irmãs, pelos padres ainda na época, então você deve ter uma ideia de como era o formato. Ainda tinha rastros do internato da época do integracionismo, ela gerenciava naquela época, era muito normal irmãs e padres indo e vindo dentro das escolas, e aos poucos professores indígenas tomando espaço. 

A princípio eram professores muito ligados a esses padres, essas irmãs; eram indígenas, mas ligados a eles, ou seja, se seguisse a cartilha deles, eles tinham incentivo para poder dar continuidade como professores. Tinha essa ligação, mas não ensinavam tukano. Na época que estava no processo da conquista da demarcação, com a conquista já da educação indígena também, aí eles ensinavam tukano dentro das escolas, mas isso foi uma época mais recente, ainda estava em processo de maturação. Isso foi em 2008 para 2009. Eu cresci nesse meio muito embranquecido, podemos dizer mesmo; isso eu não posso negar, porque o meu processo de descolonização se deu aos 23 anos, para você ter ideia como que eu nasci moldado nesse “coma colonial”.

 

(40:22) P\1 - Você tinha contato com algum ancião do seu povo?

 

R - Não, mas eu quase consegui com o Tatá. Inclusive, um dos anciões é o do povo Piratapuya, o irmão mais velho de outro casamento do meu pai, seu Laureano Cordeiro. Ele que veio a óbito por causa da covid-19 no ano passado - em julho do ano passado, se eu não me engano. Ele era um dos anciões muito fortes do povo Piratapuya, [uma] biblioteca viva. Hoje eu estou com 25, mas nos meus 23 comecei meu processo de descolonização e tentei me encontrar várias vezes com ele, mas nos desencontramos; na vez que eu cheguei próximo, ele acabou sendo infectado pelo covid-19 e eu perdi uma informação muito grande. Foi por causa da perda que a gente teve do povo Piratapuya que eu decidi nomear minha marca como Piratapuya, por que o nosso maior ídolo se foi. Ele é muito venerado pelo meu pai, muito respeitado pelo meu pai, para vocês terem uma ideia do nível de importância desse meu tio, do outro casamento da minha avó, para o povo Piratapuya.

 

(41:45) P\1 - Vamos trazer um pouco da memória dele, não através dele. O que você sabe sobre ele, sobre a história dele?

 

R - O meu tio Laureano foi um dos anciões mais fortes do povo Piratapuya, como eu bem disse. Fez parte do documentario Rio de Leite, que conta o processo de evolução dos povos da Cabeça do Cachorro do Alto Rio Negro, da qual provém na Cabeça do Cachorro. Ele é um dos que explicam esse processo, onde houve a passagem até a evolução, que é em Urubuquara e em Ipanoré, lá está no nosso campo de evolução. Esse meu tio fez parte desse documentário muito importante, que está disponível no YouTube, e ele sempre foi muito defensor da causa em especial pelo povo Piratapuya, benzendo, ensinando, inclusive, o meu pai após o casamento dele;  [ele] aprendeu praticamente muitas coisas com meu tio. 

Por que você acha que meu pai conseguiu proteger a família inteira dele? Por causa dele, é essa lembrança que eu tenho. Infelizmente eu não consegui ter contato com ele, mas eu faria de tudo para poder sentar e conversar com ele na verdade hoje. Eu faria de tudo, mas infelizmente a covid-19 veio tirando muitos anciões, não só ele. Ele virou um mito nacional, ele tem sido ferramenta de genocídio desse governo criminal.

 

(43:41) P\1 - Você cresceu - eu não entendi - no município ou era na aldeia?

 

R - Na aldeia, já em formato de comunidade, naquele formato que eu te falei.

 

(43:55) P\1 - Antes dos missionários se organizarem dessa forma de comunidade com casas separadas, como é que seu povo se organizava?

 

R - Aldeia, maloca.

 

(44:05) P\1 - As pessoas moravam todas juntas na mesma casa, todas as famílias?

 

R - Sim, exatamente. Os missionários chegaram lá alegando que eram fruto de orgia, pecado, e falaram que observaram esses comportamentos dentro da maloca, e que eles tinham que separar para cumprir a missão deles, que seria purificar a terra.

 

(44:36) P\1 - Nessa aldeia que você cresceu, não tinha anciões na aldeia?

 

R - Não exatamente, mas era um conhecimento daqui e ali, muito indiretamente, algo muito escondido, tudo misturado com o catolicismo. Meu tio, que era ministro, meu tio e padrinho, também era músico. Era tudo muito bagunçado, é nesse ponto que eu quero chegar. Quando a gente fala da importância do diálogo, da oralidade… Hoje que eu consigo compreender a importância do carpi, que é ayahuasca, e como ele é ponto de equilíbrio e o ponto de espiritualidade para esses povos, e que foi tirado. A gente veio nascendo de forma muito rasa na nossa comunidade, a gente tinha essa natureza, tinha esses benzimentos, mas era muito específicos, algo muito escondido porque o que tinha que ser exaltado era a espiritualidade católica, o que tinha que ser exaltado era os ensinamentos cristãos; fora isso a nossa espiritualidade, os benzimentos eram feitos debaixo do pano, é nesse ponto que eu quero chegar. 

Quando eu li um pouco do artigo da minha parenta Rose Yacon, que é uma pesquisadora também muito importante na academia, que ela conta que os dabucuris aconteciam de duas a três semanas - a cerimônia de dabucuri, na qual vinha diferentes parentes… Por exemplo, nós, Piratapuyas, vamos convidar nossos parentes Dessanas - que são aliados fortíssimos - a família grande de Dessana, para passar um dia na nossa comunidade. Eram duas a três semanas de cerimônia direto: caxiri, bebidas, aluá, que a gente fala, que é bebida com abacaxi, caxiri de todos os tipos. Mas sempre com intermédio do carpi ou ayahuasca, assim mantendo a cerimônia inteira de forma respeitosa e equilibrada, sem briga, sem atrito, evitando vícios, evitando guerras. Era uma semana de troca de experiências, de benzimento, de tipos de artesanato, de alimentação, que seria culinária, dentre esses convidados e os anfitriões. 

Até que ponto a gente chegou, para gente perder esse equilíbrio! Porque o principal foi nos retirado, que seria o carpi, essa espiritualidade de respeito. O que ficou na gente foi apenas bebidas, os vícios, a violência entre nós mesmos, porque esse foi o plano desenhado pelo colonizador; quanto mais a gente se autodestruir, melhor pra ele.

 

(47:52) P\1 - Como era a questão do álcool? Existia a presença da bebida alcoólica dentro da comunidade, pessoas que tinham um problema de vício?

 

R - Problema de alcoolismo antes não existia, mas na minha  época já existia, porque eu nasci no pós-colonialismo, e um dos tios, inclusive hoje, meu tio tem problema altíssimo com isso. Ele é um cara referência na ciência, física, estudado, graduado, e hoje ele está perdido nisso, devido ao alcoolismo ter entrado dentro das aldeias, fruto dessa invasão, dessa destruição que aconteceu. Meu pai também, muito novo foi escravizado - hoje eu entendo que ele foi escravizado, foi trabalhar na Colômbia [na] época [de] seringal, voltou muito viciado. Até quando eu tinha uns quarenta anos, infelizmente ele praticou violência doméstica. Até que ele se entendesse como pessoa foi um tempo, um diálogo entre nós dois. Hoje em dia nós somos muito amigos, hoje em dia ele não bebe mais. 

Para você ter uma ideia [de] como tem esses traumas coloniais até hoje, essas feridas coloniais, em nenhum momento algum colonizador perguntou se estávamos bem, e praticamente poucos sabem o porquê disso tudo; Muitos preferem julgar: “Ah, indígenas estão aí jogados no chão, bêbados, sujos”, mas ninguém questiona o que resultou isso, porque muita gente está nessa “coma colonial”, preferem negar essa história inteira que a gente conta hoje para poder tentar se justificar com o superficial. 

Hoje infelizmente existe um nível de alcoolismo muito alto no Alto Rio Negro, consequentemente a depressão. Em 2012 houve também alto índice de suicídio.

 

(50:15) P\1 - Como era o índice de suicidio? Você via isso acontecendo, seus amigos se suicidando? 

 

R - Sim, eu já perdi alguns amigos que se suicidaram, mas a maioria dos povos que vieram a isso foram os povos de recente contato, os povos Hupdesi e Hupdexi (?) e alguns que ficavam na cidade também, fora os Tukanos e tudo mais. O mais incrível é que afetou os pré-adolescentes de onze anos até os idosos.

 

(51:07) P\1 - E você já passou por depressão, como é que foi?

 

R - Sim. É um processo dolorido não sabermos quem somos, são feridas que a gente sente na gente. A minha mãe também tem inclinação para depressão, e eu também consequentemente tenho. Isso acontece bastante porque a gente não é ensinado a entender como indígena, principalmente o nosso valor para com a sociedade. A gente é ensinado a se moldar e não entender como identidade, é forte o suficiente para a gente não se moldar, ou desvalorizar a nós mesmos. 

Hoje em dia, infelizmente, quando eu falo que descolonização é algo muito desafiador e algo muito gostoso também, eu estou falando que descolonização também é um processo de cura, porque hoje eu me entendo como uma pessoa. Quem eu sou? Indígena do povo Piratapuya. Eu tenho ancestralidade, eu sou fruto de uma Tariana, uma liderança feminina, fruto do meu avô Dessano, minha avó Siriana, meu avô Piratapuya. Apesar de todas as censuras que ele passou, também compreendo ele, pelo menos eu sei de onde eu vim, da minha história, meu pai, minha mãe, meus tios, a importância deles, e consequentemente isso faz com que eu tenha autoestima e [saiba] que eu não sou qualquer pessoa, que eu tenho a mesma potência de qualquer pessoa, independentemente do que seja. Mas quantos indígenas sabem disso? Quantos indígenas sabem, nesse exato momento, dessa história toda que é escondida sistematicamente? 

Acho que o processo de depressão para mim foi algo muito fruto desse estupro físicoespiritual. Hoje eu me entendo, hoje eu consigo compreender isso, e emocionalmente posso dizer que eu estou muito mais sadio, com a autoestima de saber quem eu sou. É uma coisa muito legal. 

Eu acho que esse processo - eu sempre falo descolonização, não sei se vocês, alguns ficam desconfortáveis, mas eu falo dessa forma para justamente ter esse peso, nesse sentido que eu levo. Eu tive depressão, quase entrei em ápice de suicidio também e isso é dolorido. Hoje em dia eu agradeço muito aos meus ancestrais que cuidam de mim, que ainda bem que me guiaram, para que um dia eu pudesse retomar o que foi escondido.

 

(53:56) P\1 - Me conta um pouco como foi essa depressão. Ela começou você tinha quantos anos?

 

R - Eu comecei a ter depressão com uns doze a treze anos, quando eu não conseguia entender o mundo como era, porque eu saí de Iauaretê e em Iauaretê falava tukano. Eu falava [tukano] com meus amigos 24 horas, com meus pais tukano, brincando e rindo. 

Quando eu fui para São Gabriel, entendi que São Gabriel era já uma cidade muito colonizada naquela época, em 2010; eu vi que a maioria das pessoas odiavam, não gostavam de indígenas, faziam piadas muito sem graça; [havia] etnocentrismo também, eu fui humilhado no ensino médio por não saber falar português direito, não era fluente. A partir disso também [me] compreendi como pertencente à comunidade LGBT, minha orientação sexual. Isso tudo foi uma junção de coisas, de autoestima, da orientação sexual, da censura, por que não poderia falar minha língua mais, nem na cidade [de] São Luiz da Cachoeira, nem no supermercado. Eu tinha que me adaptar àquela cultura, de ser uma pessoa que fala português, uma pessoa que tem que fazer amizade, me adaptar aquele mundo embranquecido, ou me tornar hétero para me adaptar a tudo isso, então isso tudo acabou acarretando em coisas que eu não sabia como lidar. Não tinha base da minha história, não no sentido da história local, mas também da história nacional, então isso tudo foi [se] somando.

Entrei na faculdade, indiretamente sofria alguns pontos racistas, e também pontos preconceituosos, mas naquela época eu deixava tudo passar porque não tinha como me posicionar. Eu não tinha informações para me posicionar. Hoje eu compreendo o que eu passei para poder ter o resultado que eu tenho hoje: “Poxa, eu passei por racismo. Poxa, aquele professor dentro da faculdade fez isso comigo, não foi legal.” Isso tudo veio [se] somando, foi uma longa história. 

Nós indígenas, saímos da cidade… Não é só sair da cidade, mudar de local, ok? É toda uma cultura envolvida, é todo um processo da gente se realocar, a gente ter que se adaptar. A cultura ocidental, a cultura do Brasil paralelo… Ele é muito diferente. Por mais que as pessoas digam “somos todos iguais”, os indígenas, tudo o mais, não são não, é diferente.

 

(56:54) P\1 - Como foi você também descobrir a sua orientação sexual?

 

R - Creio que desde o princípio eu já sentia isso em mim. Eu tinha um lado muito mais feminino, também um pouco em mim, um lado mais… Eu sempre fui uma pessoa, uma criança muito feliz, solta; gostava de brincar de boneca, casinha e essas coisas assim. Eu criava as coisas, tinha uma mentalidade muito feliz. 

Isso tudo acabou, vendo que na adolescência eu era homoafetivo, que eu era gay. Só que em compensação, por ser gay, eu não ia ser aceito de jeito nenhum, tanto na minha roda de amigos, tanto na sociedade em geral, e também na minha família, porque minha família, como eu disse, nasceu em uma era pós-colonial, totalmente catequizada, que Adão e Eva… [Tinha] toda uma história já montada, já era uma pressão eles terem que praticar a espiritualidade originária. E agora eles vão ter que ver esse lado a mais, novamente? 

Acho que entendo eles, porque também foi um desafio muito grande. Hoje em dia eu converso muito com eles, minha mãe sabe sobre mim. Entender que não é sobre orientação sexual, no final de tudo, é sobre a pessoa no geral. Acho que esse ponto que eu levei para com eles, pra recordação do Timbira, primeiro indígena LGBT que foi colocado no canhão e partido em pedaços, a partir daí a gente vê que o primeiro crime de homofobia, desde a invasão, já existiu. Já que eles vieram purificar a terra, por que eles vão aceitar esse tipo de normalidade? É esse ponto que a gente tem que pensar, sabe? Será que realmente o que eu estou vendo, o que eu estou fazendo agora, faz sentido para mim? Será que historicamente isso faz sentido mesmo? Acho que [são] esses questionamentos que a gente precisa fazer hoje.

 

(59:20) P\1 - Mas, aí você pensou assim: “Eu estou me atraindo por homens.” O que você pensou na hora? “A minha família vai me reprimir. Meus amigos vão me reprimir.” Como é que foi para você naquele momento? Você fez uma análise hoje da sua cabeça sobre aquilo, mas na época como é que você lidou com isso?

 

R - Na época eu fui muito desorientado, foi muito tenso. É um dos pontos que também somou: além do racismo, além do preconceito, foi também por eu ser LGBT. Eu entrei em desespero, essa é a real; eu estava sem apoio nenhum, nem emocionalmente, nem nada, uma pessoa totalmente fora de controle. 

Praticamente no dia que eu ia me suicidar, um professor de filosofia, o professor Francileudo - eu nunca vou me esquecer dele - veio conversar comigo. Foi uma das pessoas que salvou a minha vida, um dos pontos-chave para que eu pudesse estar onde estou hoje. Ele me viu na sala totalmente abatido, veio conversar comigo no ensino médio, me aconselhando de várias coisas, coisas que eu não percebia antes. Tem uma coisa que ele falou: “Já que as igrejas dizem que vão para o inferno, pode dar a mão para mim que eu vou também para o inferno junto com você.” Um professor que ninguém daria nada por ele, porque ele era PCD, portador de deficiência; ninguém dava nada por ele, mas ele era um ser humano gigantesco, ele salvou a minha vida no ensino médio em São Luiz da Cachoeira. Foi o ponto que eu tive de ajuda, mas fora isso foi um desastre, porque eu não sabia o que estava acontecendo emocionalmente, não sabia para quem recorrer ou o que fazer, porque a gente é criado dentro do sistema [em] que não se pode aceitar essas aberrações. A partir disso acabei virando a minha chavinha, adentrando com o pensamento um pouquinho melhor, um pouquinho mais moldado já na faculdade. A faculdade foi outra experiência também, que veio novamente me desafiar. 

 

(1:01:55) P/1 - Nesse momento que você estava passando por esses desafios psicológicos, esse desespero, esse professor te ajudou, mas você chegou a assumir isso publicamente?

 

R - Na verdade, eu fui me assumir publicamente já na faculdade, e foi algo muito necessário para eu falar, é claro. Hoje em dia eu penso que ninguém é obrigado a assumir também, porque ninguém pergunta para uma pessoa se você é heterossexual - “hoje eu acordei, vou falar que eu sou heterossexual, que eu vou casar com uma menina”, ninguém fala. Por que a gente vai ter a necessidade de fazer isso hoje? 

Hoje eu tenho esse outro pensamento, que ninguém é obrigado a falar da sua orientação sexual em público - primeiramente porque é algo muito íntimo, porque ninguém vai viver em prol do que você se relaciona na sua intimidade, mas eu falo disso publicamente porque eu nunca tive essa voz para ter como referência. Hoje em dia, quando um indigena LGBT vem falar comigo, eu prefiro muito mais fortalecer, inspirar e ensinar, porque no passado eu não tive nenhuma pessoa que pudesse fazer isso por mim. Isso é viver em coletividade. 

Acho que esses pontos fazem com que eu fale da orientação sexual abertamente hoje em dia. Não tenho medo. Na minha família também falo sempre porque não adianta a gente julgar um LGBT se ele pode ser também um agente de mudança na sociedade, dentro da aldeia, dentro dos centros urbanos, porque a minha referência sempre teve… Eu acho que meu tio que é o Dessano - Patrício, que eles chamavam - um cara muito bom, que dominava culinárias, afazeres femininos de uma tal forma, de uma tal maneira, que fazia muita coisa legal, uma coisa muito bem feita, ele era LGBT, mas muitos fizeram que ele tivesse um casamento heterosexual. Por que? Por que ele foi obrigado, mas demorou muito, ele teve que se separar porque era algo que ele não se identificava, aí vieram piadas sem graça, humilhações. Quem quer passar por isso? Ninguém, nenhum ser humano merece passar por isso. 

Por que a gente vai fazer isso? Por que eu hoje, com a inspiração que eu tenho hoje, como o aprendizado que eu tenho, vou fazer isso com as outras pessoas? Por que vou reproduzir isso para a próxima geração? A próxima geração precisa aprender a viver em pluralidade. Como Ailton Krenak disse, “o totalitarismo não tolera pluralidade, ele não tolera os gêneros”, e esse ponto que a gente tem que carregar hoje, dos aprendizados que eu tive.

 

(1:05:25) P/1 - Depois que você fez isso na faculdade, como é que a sua família e o seu povo reagiu? 

 

R - Hoje em dia ainda é um tabu muito grande falar de orientação sexual, de gêneros, dentro do Alto Rio Negro, mas precisa ser falado. Já vi parentes lésbicas que foram obrigadas a se relacionar com homem, por justamente a gente caber nessa cartilha do colonizador, uma cartilha que é moldada para a gente também, o que a gente pode ser, o que a gente pode ter, o que a gente pode fazer, onde podemos estar. Minha família hoje, apesar das diferenças, elas respeitam - é claro, com todas as limitações; minha mãe é católica, fala de Adão e Eva, Deus criou Adão e Eva, ainda tem essa cartilha - mas eu quero que um dia as próximas gerações conheçam a história do Tibirá também, da mesma forma que conhecem a história de Adão e Eva.

 

(1:06:55) P/1 - Falando de faculdade, como foi, que faculdade você foi fazer?

 

R - Eu sou formado em Administração por universidade particular, ganhei bolsa. Na faculdade eu sempre fui muito esforçado, desde o princípio - primeiramente, por entender que eu era LGBT, eu tinha que me esforçar o dobro, para poder suprir isso, para os meus pais se orgulharem, mas com o tempo percebi que não era tão sadio fazer isso. Não foi muito diferente na faculdade, lá foi um ponto que fui aluno de destaque sempre, muito aprendizado; eu tinha um nível de performance bem alta comparando com outros alunos, mas mesmo assim persistiam alguns comentários racistas, nas falas principalmente diziam: “Mim ser índio, quem fala mim é índio.” “Você é índio, por acaso?” Um dos pontos que eu tive que fazer foi levantar a minha mão e dizer: “Olha, professora, eu sou índio, e agora de aula em aula eu falo perfeitamente [em] todas as exposições e apresentações. Eu não falo ‘mim’. E agora, o que a gente faz, professora?.

 

(1:08:22) P/1 - Foi a professora que falou isso, “mim ser índio”?

 

R - Ela falou.

 

(1:08:25) P\1 - E como foi a reação dela?

 

R - “Ah, desculpa, não sabia”. Por que não sabe, se a origem de tudo foram os indígenas? Por isso que a minha preocupação hoje em criar conteúdos é isso também. “Mim ser índio”? Quantos foram punidos para aprender a falar essa língua que a gente fala hoje? Quantos foram humilhados e machucados psicologicamente? Hoje em dia a gente não precisa mais referenciar esses termos tão racistas para conosco, tão horríveis conosco. Eu prefiro… Eu gosto muito de falar disso e é necessário falar disso, necessário falar historicamente sobre isso, porque muitos ainda não têm conhecimento dessas comparações que são feitas.

 

(1:09:20) P/1 - A faculdade era onde?

 

R - Era em Manaus.

 

(1:09:25) P/1 - Como foi essa mudança, você foi sozinho?

 

R - Quem me acolheu foi minha irmã, que mora lá há um tempo, já. Depois eu tive que morar com a minha prima também, depois fiz a mudança. Foi um período muito de desafio, porque eu tinha bolsa, mas eu tinha que me sustentar também fazendo estágio, passando de empresa para empresa. 

Eu sempre corri atrás das coisas que eu quis, sempre tive essa força de vontade, isso me ajudou bastante. Eu tive que sobreviver em uma cidade grande, eu não sabia como funcionava, mas o racismo mesmo era diário, até dos meus vizinhos que saíam: “Índio aqui! Agora vai ser dessa forma, índio agora quer estudar, índio quer falar bonito agora”, algo do tipo. A minha irmã também sofreu com isso, até dos próprios inquilinos dela - ela tinha um lugarzinho para alugar. Ela sofria preconceito com essas coisas. Manaus, rodeada pela floresta Amazônica, [com] imensa diversidade cultural de povos indígenas, é assim. Imagina em nível nacional, multiplicado por cem. É fruto de um pensamento muito colonizador.

As informações que eu crio hoje são 0,005% [do] que poderia ser feito. 

Acho que eu tive essas experiências desagradáveis em Manaus, na faculdade, fui acolhido pela minha irmã, sim, mas os desafios vão muito além disso, muito mais. Como diz o pessoal, “o buraco é mais embaixo”. É um caminho realmente necessário, descolonizar. Estar na faculdade já é um desafio [com] a nossa presença e consequentemente, quando você está na capital, a sua identidade é colocada também em questionamento.

 

(1:11:43) P/1 - Descolonizar esse processo que você disse que passou, foi na faculdade?

 

R - Não, isso foi aqui em São Paulo, em 2019.

 

(1:12:00) P/1 - Por que você foi pra São Paulo? 

 

R - Pra estudar Moda.

 

(1:12:04) P/1 - Como foi isso de querer estudar Moda?

 

R - Eu sempre gostei muito. Desde criança, desde os doze anos eu via a minha tia costurando, meu tio sendo alfaiate. Eu sabia disso e sempre quis trabalhar com isso, achava legal, só que tinha aquela questão, costurar é coisa de mulher, trabalhar com roupa é coisa de mulher. Tinha isso em mim, sabia que eu era homoafetivo, trabalhar com moda, ainda? “O que vai ser de mim? Vou ser esculachado, vou ser expulso pela minha família, sei lá, excluído pela minha família.” 

Com o tempo eu fui criando uma identidade, independência. Fui pensando: “Pronto, é agora.” Até que eu levantei em São Gabriel, trabalhei com saúde e higiene, inclusive na parte de compras, porque era formado em Administração; também em comunidade, em projetos sociais. 

De São Luiz da Cachoeira eu vim pra São Paulo, peguei meu dinheiro da rescisão e vim para cá, só que aqui era uma realidade totalmente diferente. Tudo muito caro, não sabia que uma faculdade custava três mil reais, por exemplo. É uma realidade totalmente diferente do Amazonas, em geral. Vim aqui, me desafiei, passei por vários perrengues pelo meu sonho, pelo meu projeto, até que um amigo meu me acolheu aqui em São Paulo, cedeu a casa para que eu pudesse concretizar os meus sonhos de ter uma marca autoral.

 

(1:13:41) P/1 - Como é que foi nascendo essa ideia de ter uma marca? Como foi essa coisa de você querer ter uma marca autoral?

 

R - É porque eu gosto de criar. Gosto da moda no sentido geral, mas vale a pena ressaltar aqui: ainda tentei entrar na faculdade particular aqui de São Paulo, só que no geral a moda é utilizada de forma muito rasa, algo muito glamurosa, algo que é bonito de se ver, que a gente vê nas passarelas e tudo mais, e isso tudo acaba criando uma certa futilidade. 

Desisti do curso, praticamente, deixei meu sonho de lado. Já estava pensando em mudar de área quando a minha segunda mãe, que é a mãe do meu amigo, que me adotou como filho também, ela falou: “Vai ter um vestibulinho da ETEC.” Eu estava desistindo já de moda. 

Fiz a inscrição. Quando chegou a prova, acordei e fui embora fazer a prova. Não estudei nada. Quando eu cheguei lá, a prova inteira praticamente era sobre conhecimentos tradicionais indígenas - escassez de peixe, afazeres indígenas de alimentação, tudo que você possa imaginar. Coisas do Brasil, do cupuaçu, da área Amazônica. 

Como que a proteção ancestral é tão grande na gente? O que é para ser, é. Eu fiz a prova, saindo de lá eu já sabia que ia passar, e eu não tinha estudado nada para isso. Passei em sexto lugar na ETEC e hoje faço o curso de Modelagem pela ETEC. A partir daí, eu já entrei com um corpo docente também especializado; eles me orientaram fortemente. Eu fiz um módulo só, fui me desafiando, e já no primeiro semestre eu fiz uma coleção inteira, praticamente a base que eu tive em um semestre. Eu tive que criar uma coleção de dez peças para Piratapuya, tive que colocar em risco tudo, praticamente aprender tudo sozinho, trabalhando até de madrugada em prol da marca para que eu pudesse concretizar. Modelagem, costura, fornecedores, tecidos, eu não sabia de nada, e fui fazendo de forma muito intuitiva, sempre sensível às orientações dos ancestrais, aí foi indo. Quando  menos esperava tinha saído a coleção, tinham saído as minhas ideias. Eu não sabia que  tinha essa possibilidade de fazer, hoje em dia eu consigo e eu sei fazer. 

Vi que o resultado disso é Piratapuya hoje. Já está crescendo, está sendo admirada pela mensagem que eu trago sobre a descolonização, falar das minhas experiências no Alto Rio Negro e trazer essas informações que pouco se sabe. 

Moda não é sobre roupas, moda acima de tudo é sobre pessoas, comportamento, então essa é a essência que eu carrego para comigo. Moda não é aquela coisa futil, moda é aquilo tudo que também foi ferramenta de genocídio, ferramenta que aprova e desaprova beleza, ferramenta na qual, por meio de roupas, na época da SPI - Serviço de Proteção de Índio - foram entregues roupas infectadas com varíola, sarampo e gripe, para os povos de Cinta Larga; a roupa esteve no meio. Como é que vou transformar essa ferramenta de genocídio em uma  ferramenta de resistência? Acho que é essa mensagem que eu carrego bastante pela Piratapuya, então não foi só apenas uma coisa fútil que eu pensei, mas sim, hoje em dia, cada vez mais, abre a minha mente para ver que eu estou no caminho certo, levando a mensagem que é necessária.

 

(1:18:14) P/1 - Ainda falando sobre moda, o que você sentia? Você disse que observava sua tia costurando. [Qual] a diferença da cosmovisão da moda indígena para a moda que você teve acesso na faculdade?

 

R - Primeiramente, quero falar que História da Moda, na moda é um desastre. Não existe nenhuma referência na hora da aula de moda. Eu tive que dar aula praticamente, falar sobre as experiências que eu tive, pessoais. A moda agora é focada para fora, que é a Europa. 

Quando eu faço meu recorte… [Em] um dos recortes que eu faço, que eu fiz em uma conversa, eu falo que a exportação da Belle Époque para o Pindorama, aqui no Brasil, na qual aquelas roupas francesas, imensas, camadas e camadas de tecido, foram exportadas para o Brasil, na capital do Rio de Janeiro, na época, e essa cidade inteira, que era rica de aristocratas, teve que usar essas peças, igual à França, no clima tropical. Muitas pessoas passaram mal, colocaram sua saúde em risco [com uma temperatura de] 35, 45 graus. Como é que você vai usar um troço desse no país? 

Até hoje em dia, é um reflexo disso que a gente vive hoje, tentar se moldar à visão europeia em um país tropical, um país que tem ancestralidade indigena. Hoje em dia a gente vê também que valoriza-se muito mais uma Louis Vuitton, uma marca de alta costura, do que uma peça manual feito pelos povos indígenas. A moda nem se esforça um pouco para diferenciar mostruário, figurino, indumentário, por meio dessa falta de informação. Hoje em dia eles falam: “Vocês, indígenas, estão roubando nossas roupas.” A moda tem um papel grande para isso, mas ela não faz questão. A partir disso que a nossa ancestralidade vem - por exemplo, eu não uso grafismo porque ainda não estudei sobre grafismo. Preciso estudar mais sobre isso, é um campo seríssimo, espiritual. Eu sou indígena Piratapuya e não uso grafismo, porque eu não estudei, por enquanto. Por que outras marcas usam então? Não-indígenas, marcas grandes. Forma desrespeitosa! Vão utilizando como entenderem? Essa é a reflexão que eu trago, o recorte que eu tenho de lá até hoje. 

É claro que eu nasci em uma época pós-colonial, isso é muito importante ressaltar. Eu tenho muita influência da alfaiataria, que foi após a chegada dos missionários. O meu tio foi alfaiate, a minha tia costureira; tenho essa influência ainda, mas hoje em dia essa é a mensagem que eu trago. Como posso usar essa ferramenta chamada moda em prol do processo de descolonização e resistência?

 

(1:21:31) P/1 - E você já vivenciou a sua marca, que histórias tem com ela?

 

R - A Piratapuya tem um ano de planejamento. Estamos hoje em abril de 2020, tem um ano de planejamento. Vai completar um ano da primeira coleção em dezembro. Das experiências que me deixam muito feliz, a Piratapuya é vestida pelos indígenas de todo o Brasil - norte, nordeste, sul, sudeste e centro-oeste; hoje em dia a Piratapuya está chegando para eles e pra mim isso importa muito. 

É claro que também tem não-indígenas que apoiam a luta, que estão na luta, e vestem as peças também da Piratapuya. Para mim é muito gratificante levar a minha mensagem para esses parentes de todo o Brasil, de todo Pindorama, com essa ferramenta muito forte para me comunicar com eles. E sempre lembro, por exemplo, dessa questão do SPI, quando eles entregaram as peças todas infectadas com sarampo, gripe e varíola. 

Como hoje em dia mudou, porque a Piratapuya, até hoje em dia, é muito de pessoa para pessoa, é um dos valores da Piratapuya. Como é que eu vou embalar, preparar aquela peça, que tipo de informação aquela pessoa vai levar para a pessoa que está vestindo? Essas experiências têm me trazido muita felicidade, muita realização, porque não é apenas uma marca, e sim uma marca que trata pessoas como pessoas, e sempre, acima de tudo, respeitando a singularidade de cada povo índigena do Pindorama inteiro. Eu sou indígena do povo Piratapuya do Alto Rio Negro, trago recortes de lá, mas isso não quer dizer que eu fale por todos. Acho que essa clareza mental, [essa] clareza que eu tenho de consciência também é muito importante, faz parte do DNA da Piratapuya.

 

(1:23:48) P\1 - Tem alguma coisa que você não contou e acha que é marcante na sua trajetória, que você gostaria de contar?

 

R - É voltada para Piratapuya, mesmo. João, porque é uma marca agênero? Eu falo que é um desafio meu. Isso foi algo muito natural também. Eu sempre vou usar essa palavra ancestral. Na comunidade pós-colonização… Na mesa, durante a comunidade, quando se reuniam para reunião, a mesa ficava no centro do Centro Comunitário. A comunidade [se] reunia e colocava toda alimentação na mesa, e do lado a mesa de bebida. Sabe quem eram os primeiros ali a comer, os primeiros a se levantar para comer? Os homens. Depois dos homens eram as mulheres, levantavam com seus filhos e iam comer e beber. Por que eu vou repetir isso? Eu não concordo com essa questão de que o homem precisa estar sempre à frente de tudo. Porque a minha Piratapuya traz a mensagem do agênero, dessas crianças agêneras? Para justamente a gente repensar a forma que estamos vivendo nossa vida. Eu não concordo, desde criança que a mulher é um ser inferior, que o homem é um ser superior. Historicamente também é explicado durante o processo do Rio Negro, quando as mulheres roubaram os Urubu-Kaapor; é um instrumento muito sagrado, que elas pegaram antes dos homens porque eles foram desobedientes aos pais, por serem preguiçosos. Elas dominaram, governaram o Alto Rio Negro por um tempo, no qual [eles] tiveram que recuperar esses instrumentos para tomar a liderança de volta, e as mulheres vieram embora, saíram do Alto Rio Negro e foram para os rios abaixo. Na minha concepção geral, elas foram as Amazonas, a liderança feminina. Hoje em dia a gente persiste em questionar a liderança feminina; acho que por meio do DNA, também agênero, eu trago muita essa mensagem, dessas lembranças que eu não aceito e que não precisam ser mais reproduzidas.

 

(1:26:40) P/1 - Você disse que passou um momento de descolonização. O que foi isso?

 

R - O processo de descolonização, ele vem e provém… Uma das cantoras que eu considero muito é a Kaê Guajajara, para mim, nesse processo de descolonização. Ela fala bem assim: “Alô, mãe, você sente a minha falta? Porque eu também sinto falta de mim.” Até que ponto? Quando é que eu vou parar de sentir falta de mim? Quando eu entrar nesse processo de reconectar e descolonizar e sair desse “coma colonial” e dizer: “Espera aí, as coisas não funcionam assim, dessa forma!” 

Nós precisamos nos desconstruir e nos reconectar. Esse processo é importante, e é de cura, como eu falei no início. A gente nasce em uma sociedade que tem ficais de id [identidade] 24 horas, questionando se nós somos indígenas de verdade, perguntando de onde a gente veio, ou pelo menos não querendo que a gente não saiba de onde a gente veio. Esses fiscais de id estão 24 horas dizendo o que a gente pode fazer, o que a gente não pode fazer. 

Esse processo de descolonização vem afrontar e também curar a nós, que estamos aqui na sociedade - especialmente nós, indígenas que estamos em centros urbanos, então para mim é um processo de cura. Foi uma chave na minha vida que trouxe, além de curar essas feridas emocionais que eu contei, um processo de reencontro para comigo mesmo. Creio que eu, como um indigena do povo Piratapuya, por meio do meu trabalho, tenho uma responsabilidade muito grande, não só para comigo, não só para com essa geração, mas também com as próximas gerações que estão chegando.

 

(1:28:36) P/1 - Falando nisso, nas próximas gerações que estão chegando, como foi para você contar a sua história hoje?

 

R - Para eu contar minha história hoje, é muito de lembranças, é algo que está muito conectado a mim e muita gente. Felizmente os indígenas falam que se inspiram comigo e já vejo também as mães indígenas falando que os filhinhos querem trabalhar com moda, por exemplo, que querem adentrar nesse mercado que é totalmente eurocentrista, elitista; a gente está lá resistindo, abrindo esses caminhos, para que a próxima geração venha e cheguem sem estranheza. 

A minha mensagem, normalmente, ela vem com o intuito de respirar, levantar e fortalecer em coletivo. Quando falo de mim, eu falo em coletivo porque é a nossa visão; a gente está interconectado, desde da planta que a gente toca, desde a pessoa que a gente fala, desde a pessoa que a gente toca. Aí vai depender como você faz isso - se você faz de forma devastadora, ou você faz de forma humana ou desumana. A gente vive em rede, isso é uma verdade. Ninguém pode dizer que se eu fizer isso aqui não vai desencadear em algo, em efeito dominó. Ninguém vive desta forma, essa é a essência que eu carrego dentro de mim e essa é a mensagem que eles também recebem, de que tudo é em coletivo, tudo é em rede.

 

(1:30:23) P/1 - Eu queria pedir… A gente começou de olhos fechados. Vou fazer uma última pergunta. Se você pudesse levar só uma memória desta vida para a eternidade quando você se fosse, se você levasse só uma memória, qual memória de tudo que você viveu você levaria?

 

R - Creio que a memória que eu levaria para minha vida seria esse senso de coletivo, jovens que estão caminhando nesse senso de coletivo, um levantando para falar com outro. Nesses dias eu vi que muita juventude está fazendo isso, e isso é muito bom de se ver. Espero que essa caminhada continue de geração para geração.

 

 

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