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História

A dança muda vidas

História de: Vânia Farias de Queiroz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Vânia Farias de Queiroz conta sobre suas origens e formação e sobre sua atuação no Casarão dos Prazeres onde dá aula de balé para crianças de várias comunidades do Rio de Janeiro.

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História completa

P/1- Boa tarde Vânia. Eu queria começar o seu depoimento com o seu nome completo, o local e a data de nascimento. 

   

R – Meu nome é Vânia Farias de Queiroz, estamos no Casarão dos Prazeres, aqui no Morro dos Prazeres. Eu nasci em 25 de junho de 1970, aqui no Rio de Janeiro.

 

P/1- E sobre sua formação? Nasceu em que bairro foi criada onde?

 

R – Eu nasci em Campo Grande, fui criada em Nova Iguaçu, onde eu estudei a vida inteira. Me formei bailarina em Nova Iguaçu, fiz Escola de Belas Artes e vim morar em Santa Teresa há quatro anos, e foi aqui que eu comecei o trabalho social que agora eu desenvolvo no Casarão dos Prazeres. 

 

P/1- Como é que foi essa sua chegada no Casarão e porque o seu trabalho exatamente nesse espaço? 

 

R – A minha chegada no Casarão, na realidade foi uma sequência de acontecimentos. Eu comecei o meu trabalho social numa comunidade carente aqui em Santa Teresa, e eu vim ao Casarão à procura de espaço para desenvolver esse trabalho. O administrador aqui de Santa Teresa me encaminhou para o Casarão dos Prazeres, onde eu fui muito bem recebida. O espaço é maravilhoso e bem recebida não só pelos funcionários do Casarão, como pela comunidade. A comunidade aderiu muito rápido ao trabalho. 

 

P/1- Como é o trabalho em especial? Como é esse seu trabalho?

 

R -Bom, eu trabalho com balé clássico. Tenho 120 crianças aqui no Casarão dos Prazeres, e essas crianças hoje em dia, a maioria são daqui do Morro dos Prazeres. Mas a gente reúne aqui nessa sala do morro, crianças que vem do Morro da Coroa, do Morro da Mineira, do Escondidinho, do Morro dos Prazeres, e do próprio bairro, das ruas mais tradicionais do bairro. Essas crianças fazem aula comigo, de balé clássico, fazem aula de dança espanhola e fazem aula de história da dança e história da arte. 

 

P/1- Tem nome esse seu balé?

 

R – Tem. É Balé de Santa Teresa. Eu dei esse nome em homenagem ao próprio bairro que é um bairro pelo qual eu sou apaixonada. Eu vim para cá por opção.  Eu troquei um outro bairro tradicional do Rio por Santa Teresa, por opção.  Assim como foi minha opção fazer esse trabalho junto a essas crianças.  Foi um próprio espelho, porque eu tive dificuldade em fazer balé clássico. Minha mãe era professora e para eu me formar, foi uma caminhada longa e dura. Então, eu quis fazer do balé clássico um instrumento transformador na vida dessas crianças. Não que eu vá ter grandes bailarinos aqui. Pode até ser que surjam alguns. Eu já até tenho algumas crianças que são expoentes. Tenho crianças daqui que já estão na escola do Teatro Municipal. Mas o objetivo principal é formar cidadãos melhores. O meu objetivo aqui, é provar para essas crianças, que nós somos capazes de mudar o mundo. 

 

P/1 - Como é a aceitação dessas crianças em relação ao balé?

 

R – Olha, no início, a maioria vem trazida pelas mães. Acho até que por uma questão de encantamento que a bailarina, a figura da bailarina, exerce sobre as pessoas. Aquela figura etérea. Bailarina não tem defeitos. E é isso o que a maioria das mães procura, trazendo as filhas, porque a maioria das crianças são meninas. Poucos meninos, por enquanto. Esse é o primeiro atrativo. Depois, elas vão começando a gostar do que estão fazendo. Eu tive crianças que entraram no projeto, saíram e agora estão na fila de espera para retornar, porque são 120 vagas, quase todas completas e os horários mais concorridos não tem mais vagas. Estamos em lista de espera.

 

P/1- Como você entende isso?

 

R - Eu entendo que as crianças já começaram, tanto as crianças quanto as famílias, a ver resultados na mudança de atitudes e comportamento dessas crianças diante da vida. E como eu tinha alunas mais antigas que vieram para cá comigo, as mais novas, aqui da comunidade, se espelham nessas meninas que já estão comigo há mais tempo. Eu acho que elas conseguem ver aí uma perspectiva de aprender coisas novas. E eu sempre fico lutando com elas, com essa coisa de transformar o mundo. Eu sempre digo para elas: “A hora que eu não puder mudar o mundo, eu morri” Porque essa coisa de: “ Ah. Você não pode mudar o mundo sozinha. ” Eu acho que a gente pode mudar o mundo sozinha sim. Eu acho que as crianças aqui da comunidade dos Prazeres e todas as outras que tiverem essa vontade de mudar o mundo, e tiverem quem dê um empurrãozinho, a gente pode mudar o mundo sim. Pelo menos o nosso micromundo, a nossa volta. 

 

P/1 - Antes de começar a entrevista veio uma menina que foi sua aluna __________

 

R - Aquela menina foi uma das que saiu do balé até influenciada por umas outras e agora está doida para voltar. Só que para voltar ela tem que enfrentar de novo a fila de espera. E provavelmente nas próximas semanas ela já está voltando. As crianças realmente me procuram querendo fazer balé. Aliás, o projeto começou aí. Com uma menina de uma escola pública daqui eu arrumada para dar aula numa academia particular, a menina virou para mim e falou: “Tia, quando você vai dar aula para mim? ” E ela é uma criança do Morro da Coroa, da comunidade aqui de Santa Teresa. Aí, que eu pensei: “Poxa, porque tantas crianças podem ter essa oportunidade e essas não podem? ” Tanto que nesse projeto “Balé de Santa Teresa” a gente não faz prova de seleção, que é uma característica de alguns projetos. Por que eu não faço prova de seleção? Porque essas crianças já são excluídas socialmente. Então, eu não posso excluir. Se a filha de uma pessoa de classe média seja gorda, seja magra, alta ou baixa, tenha até corpo ou não, pode fazer balé, se pagar uma academia, porque uma criança aqui da comunidade também não pode? Aliás, várias crianças que vieram para mim com defeitos físicos, tiveram melhora desses defeitos físicos, comprovada por médicos e uma das meninas que provavelmente não seria aceita em companhia nenhuma de dança – ela tinha uma cifose bastante acentuada quando começou a fazer balé comigo. Hoje está na escola do Teatro Municipal, continua aqui no projeto, e é uma das melhores alunas da escola. Quer dizer, é uma questão de você acreditar na criança, até porque as crianças daqui, acho que como elas têm raras oportunidades, quando você dá uma oportunidade que seja contínua, que não seja falha – porque também tem aquela coisa: você vir fazer o projeto e “Hoje eu não vou, hoje eu estou atrasada” e a coisa não ter continuidade. E aqui as famílias das crianças veem que tem continuidade. Eu não desisto e elas criam uma confiança grande nisso. Então elas ficam confiantes no projeto e autoconfiantes também. 

 

P/1- O que significa o Morro dos Prazeres para você?

 

R – Hoje em dia, o Morro dos Prazeres para mim, significa uma grande satisfação, porque é aqui que eu estou vendo o meu trabalho ter um impulso que até há poucos meses atrás eu não imaginava que fosse acontecer. Hoje, o Morro dos Prazeres significa credibilidade, segurança no meu trabalho. Eu trabalho aqui sem o menor problema. A comunidade, a aceitação da comunidade é ótima. Eu acho que foi uma escolha muito feliz ter vindo para cá. Porque aqui eu estou vendo que o projeto vai dar frutos. Está dando frutos, embora tenha tão pouco tempo que as aulas tenham sido iniciadas aqui, mas eu já consigo ver uma melhora na qualidade de vida das crianças com quem eu estou trabalhando. 

 

P/1 – O que você acha desse projeto de memória e o que você acha também do depoimento que você está dando?

 

R – Eu acho que qualquer projeto que vise a memória é muito importante, ainda mais em um país onde você vive dizendo que não tem memória. Eu acho que o país tem memória sim e o que falta é acesso à memória e acesso à educação. Então, quando o Museu da Pessoa se propõe a fazer um trabalho como esse, ele traz essa memória para as outras pessoas. Compartilha a memória. Às vezes as pessoas estão ali uma ao lado da outra e não conseguem compartilhar essa memória. Acho que é uma rara oportunidade de estar compartilhando essa memória. O registro é fundamental.  

 

P/1- Muito obrigada pelo seu depoimento. 

 

R – Obrigada vocês. 

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