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A Dança da resiliência

História de: Sílvia Lipatin
Autor:
Publicado em: 07/02/2021

Sinopse

Paixão pela dança. Teve uma Cia. De Sapateado. Ganhou prêmios no Festival de Dança de Joinville. Foi atropelada. Operou o joelho. Teve dois filhos. Parto normal e participativo. Formou-se em Educação física e pilates. Teve câncer de mama. Tratamentos alternativos. Quimioterapia. Pôs prótese, teve infecção. Se cuida com alimentação, exercícios. Pretende fazer reconstrução da mama. Viajou para Índia. Redescoberta interna.

História completa

Nasci no dia 14 de setembro de 1970, em Montevidéu, Uruguai. Comecei a dançar já muito cedo. Eu descobri que era isso que eu queria fazer, eu queria trabalhar com o corpo, todas essas mudanças físicas, essas transformações sempre foram muito perceptíveis, muito conscientes, do meu corpo, da minha posição, da minha forma de caminhar, de me locomover, de me posicionar no espaço. Quando eu tinha 15 anos eu já dançava numa academia, e um dia a dona da academia me disse “Silvia, eu acho que você leva jeito”. Ela tinha que viajar, ficou um tempo fora, e acabou me dando algumas turmas dela pra eu dar aula, para eu suplementar o lugar dela enquanto ela estivesse fora. E aí que eu me descobri. Descobri que era isso que eu amava, eu precisava mesmo era lidar com o corpo e lidar com gente. Não era só o corpo físico, mas o corpo emocional. E uma coisa que eu trago comigo, assim, é observar o outro, é perceber o outro através da sua imagem corporal. Eu decidi que queria fazer vestibular para Dança, para a Faculdade de Dança. Na época eu fiz a prévia, porque tinha uma prova prática, passei na prévia, mas o meu pai não me deixou fazer faculdade de dança, eu acabei fazendo vestibular para Engenharia Civil. Passei e fiz um ano da faculdade de Engenharia Civil. Mas o mais incrível é que uns meses após eu ter passado no vestibular da Engenharia Civil, eu tive um acidente de carro, eu fui atropelada e fiz uma lesão bem grave no joelho, tive que fazer uma cirurgia na época, tive que colocar pinos, parafusos no joelho. E de uma forma ou de outra aquilo me impulsionou a falar “não! Eu quero fazer dança mesmo”. Então quando chegou no final do primeiro semestre do curso de engenharia civil, eu estava me recuperando da cirurgia do joelho e falei “não! Eu vou fazer dança”. Eu também já trabalhava, continuava trabalhando com o sapateado. Na época foi muito incrível pra mim eu perceber como eu podia lidar com meu corpo, como eu podia superar as limitações que aquela cirurgia no joelho tinha causado na minha vida, e como eu podia superar aquilo. Porque pra mim a faculdade de dança foi isso, uma superação. Porque no último ano da minha faculdade de dança, eu resolvi abrir a minha própria escola de dança. Então, eu tinha um joelho que era mais ou menos, mas ninguém jamais percebeu, porque eu aprendi a lidar muito bem com essa questão de controle da dor, controle do que eu posso, do que eu não posso, do que eu devo, de amolecer ou enrijecer quando precisa. E no final da minha faculdade de dança eu abri a escola e junto com a escola eu dançava em uma companhia da Universidade Federal do Paraná de dança contemporânea. E nesse período da faculdade, até o final da minha vida como bailarina, digamos assim, que foi até 1999. Então foram praticamente 10, 11 anos de escola. Eu fiz quatro cirurgias no joelho nesse período, porque é claro, meu joelho não era bom, mas como eu trabalhava o corpo, com essa energia vital, eu retornava pra isso com uma vontade, uma ânsia de retomar aquilo que eu amava fazer. E pra mim, sempre foi recomeçar, porque daí eu ia pra cirurgia do joelho, ficar um pouco parada, fazia fisioterapia, trabalhar toda essa questão psicológica, e ‘vamo embora, vamo para frente, não dói’, e voltava a trabalhar, voltava a dançar. E isso pra mim me deu uma força, uma força interior, uma força de vida, uma força de “sério, todo mundo é capaz, basta a gente querer”. Eu casei no ano de 1999. Nessa época eu tava indo pra minha quarta cirurgia do joelho, o meu joelho não ficava bom, não ficava bom de jeito nenhum, o médico falou para mim “Silvia, agora chega. Não dá mais. Trabalhar com dança pra você vai passar de ser uma paixão pra ser um sofrimento”. E realmente era isso que estava acontecendo. Então, de uma forma ou de outra, eu parei de trabalhar com dança, casei e alguns meses depois eu engravidei já do meu primeiro filho. E o parto do meu segundo filho, fui eu que fiz, praticamente. Quando eu cheguei na maternidade o médico perguntou pra mim se eu gostaria de fazer um parto participativo, falei “mas como assim doutor?” e ele “não, se tiver correndo tudo bem, eu vou tirar a cabeça, eu vou tirar os ombros (que é a questão da clavícula que é uma parte super delicada), e nós te levantamos, você faz o gancho na axila do neném e puxa ele para fora”. E realmente foi assim, eles me levantaram e, sério, pensa numa sensação indescritível. Porque, sério, eu tirei ele, na hora que eu peguei aquele bichinho quentinho, tirei ele de dentro de mim. Como é que eu posso te explicar? Mais uma vez eu agradeci, entendi a beleza do corpo humano, a força do corpo humano, da sabedoria do corpo humano. E foi incrível também perceber que a gente pode tudo, controlar tudo na verdade. Não ter controle de nada mas ao mesmo tempo eu no controle de tudo. E fiz a faculdade de Educação Física, junto com o curso de pilates em São Paulo, faltando oito meses pra me formar, eu fui diagnosticada com câncer de mama. Eu estava com 36 anos. E tinha parado de amamentar o meu segundo filho Yuri fazia quatro meses, cinco meses. E na verdade foi muito interessante, porque quando o Yuri nasceu eu coloquei um DIU normal de cobre, mas eu tava tendo muitas reações. Então eu optei por colocar o Mirena, trocar o meu DIU pelo Mirena, e na descarga do hormônio do Mirena na minha corrente sanguínea, eu tive um inchaço nas mamas, na verdade como se eu fosse menstruar. E quando eu apalpei aquele inchaço e eu percebi que eu estava com uns carocinhos, mas como eu tinha amamentado durante dois anos, o segundo filho também, achei aquilo estranho e acabei indo no médico. E realmente, passou 10 dias ele me ligou e falou “olha Silvia, todas as lâminas que foram, vieram diagnosticadas com um câncer de mama já em grau dois e que eu preciso que você marque uma consulta com oncologista”. E lá fui eu, fiz a cirurgia de mastectomia total, todo o tratamento de quimioterapia e radioterapia. Posso te falar, com meu filho pequeno de um ano e meio, quase dois, o meu outro com quatro e meio, quase cinco anos, fazendo curso em São Paulo e fazendo faculdade de educação física. Na época foi bem forte pra mim porque a minha primeira ideia era parar tudo. Mas como te falei no começo, como o professor pode motivar o aluno ou pode destruir a sua vida, né, eu só tive grandes mestres que só me motivaram. Após seis meses que eu parei o meu tratamento, o médico quis fazer um estudo genético, porque ele pegou as características do meu tumor, a minha idade, a minha raiz, e ele descobriu que eu tinha uma mutação cromossômica, num cromossomo específico que se chama BFCE2, que predispõem a câncer em todas as gônadas sexuais, digamos assim. É uma mutação muito interessante que geralmente se dá em mulheres judias. Então ele achou que eu deveria, que eu tinha a obrigação com a vida, fazer uma nova cirurgia para poder retirar, tirar da frente essa possibilidade. Eu acabei tendo um linfedema no ano passado, eu tive um inchaço no braço, o qual me incapacitou de trabalhar, né, porque eu trabalho muito com as mãos. E já se vê que esse linfedema já era alguma questão, alguma pequena infecção que tinha tido ali na prótese. No final, o médico que não queria mexer na prótese, teve que acabar tirando a prótese. Na primeira cirurgia ele não mexeu, não quis mexer mesmo, mas como a infecção veio à tona, e foi uma extensão muito grande, ele achou que a única forma de eu melhorar seria retirando a prótese. E realmente, a infecção estava debaixo da prótese, se ele não tivesse mexido, a gente nem teria como ver. E eu posso te falar, que talvez o ano passado tenha sido a fase mais difícil psicologicamente, como mulher, para mim. Porque após muito tempo no qual eu já tinha me redefinido visualmente e fisicamente, tem uma mutilação muito grande. E isso me pegou muito, me pegou bastante. Mas uma vez eu aprendi que a vida é uma luta de você com você mesmo, todo dia, que todo dia a gente tem que olhar no espelho e falar “tá tudo bem, você tá forte, tá saudável, você tá aí, você tá viva, respira, e toca o barco para frente”, porque o visual, meu amor, a gente se recria, a gente se reinventa. E é isso que aconteceu. Novamente eu tô me reinventando e tô firme e forte. Eu vejo essa resiliência das mulheres porque nós somos o único veículo que traz o ser humano pro planeta, a gente só chega no planeta terra através do corpo de uma mulher, então o significado da resiliência já começa por aí. E já começa nessa questão de você acolher um novo ser dentro de você, alimentar, nutrir, acolher. Então a gente tem força que a gente não sabe nem de onde é que vem, mas que a gente consegue, só a gente pode.

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