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História

A curiosidade de conhecer o novo e não se limitar

História de: Luciana Brandi dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2021

Sinopse

A infância com os avós em Santos e as reuniões de família no bairro José Menino. Lembranças do Porto e do pai trabalhando como conferente de navios quando era criança. As mudanças de escola com a irmã e a juventude em Santos. Trabalhos em lojas e a decisão de cursar o ensino superior. O trabalho na agência do Bradesco e a faculdade de Direito. A loja própria no Shopping. O convite do pai para o curso de conferente e seu interesse pela função. A rotina dinâmica do trabalho como conferente de navios. O primeiro dia de trabalho no Porto de Santos. A realização do sonho profissional de trabalhar na BTP. O apoio de sua equipe e as mudanças positivas na segurança do trabalho. Momentos desafiadores em sua trajetória no Porto. A ‘troca de figurinhas’ sobre o trabalho com o pai. O amor incondicional pelo filho. Impacto do Porto para a cidade de Santos e em sua história. Sonhos pessoais e profissionais.

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História completa

P/1 – Primeiro eu queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, a cidade e o local do seu nascimento.

 

R – Tá. Meu nome é Luciana Brandi dos Santos, eu sou de Santos. (risos) 

 

P/1 – E qual é a data do seu nascimento?

 

R – A data do nascimento? 14 de fevereiro de 1975.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – José Roberto dos Santos e Sônia Brandi dos Santos.

 

P/1 – E o que eles faziam?

 

R – A minha mãe tinha clínica de estética, era esteticista, mexia com beleza, assim, trabalhava com beleza. E o meu pai é conferente de navios.

 

P/1 – E de onde eles eram, eles eram de Santos mesmo?

 

R – De Santos, os dois.

 

P/1 – E como você os descreveria?

 

R – Ai, a minha mãe é maravilhosa. Uma pessoa muito sábia, tem muita sabedoria. É uma mãe maravilhosa, presente. É minha melhor amiga. Ela é muito importante pra mim, em vários sentidos. Na parte de evolução, como pessoa, como ser humano. E ela também é um, assim, retrato de trabalho, de esforço, de acreditar nas coisas, que você vai conseguir as coisas. Ela é toda, assim, muito positiva, ela trabalha muito com isso, eu acho muito bacana. E o meu pai é extremamente trabalhador, uma pessoa muito inteligente, uma pessoa que estudou muito e ele sempre transpareceu que gosta muito do que ele faz. Porque até hoje, ele já é aposentado e continua trabalhando como conferente. Ele gosta bastante do trabalho, é uma pessoa muito amorosa. E é isso. São meus amores (risos).

 

P/1 – Você sabe como eles se conheceram?

 

R – Na verdade, eles já são separados. Mas eles são muito presentes na minha vida. E eu não sei como eles se conheceram, ao certo, mas foi, na época, amor à primeira vista, tal. Eles se casaram. Eu tenho um irmão mais velho. Por parte de pai e de mãe, eu tenho um irmão mais velho, aí depois eu apareci. (risos) 

 

P/1 – Eu ia te perguntar exatamente isso: se você tem irmãos e como é sua relação com eles.

 

R – Eu tenho esse irmão de pai e mãe, que é mais velho, José Roberto Brandi dos Santos, que é uma pessoa incrível. Ele tem até dois livros do Santos Futebol Clube. Ele tem o trabalho dele e tal, mas ele é pesquisador do Santos, ele está engajado nesse assunto aí, que ele gosta demais. E é um irmão amoroso, um irmão presente, é o meu amor. E eu tenho… o meu pai casou-se novamente, minha mãe casou-se novamente. Por parte da minha mãe, eu tenho irmãs gêmeas, Mariana e Ana Lucia. E, por parte do meu pai, eu tenho a Roberta e a Michele. Então, eu tenho cinco irmãos que eu amo. A gente tem uma relação muito legal, muito próxima. É muito legal a nossa relação e eu tenho, acho que eu tenho um jeitinho de lidar com eles e eu sempre… eles sempre estão, assim, a gente sempre tem muita união. Somos muito unidos, sempre. É muito legal. Não tem essa diferença de pai, de mãe, é só elucidativa porque, na realidade, a gente tem muito, um vínculo muito forte.

 

P/1 – E, Luciana, você sabe a história, você conhece, você chegou a conhecer os seus avós?

 

R – Conheci, conheci. Por parte da minha mãe, a minha mãe trabalhava muito, quando eu era criança, ela trabalhava demais e quem ficava comigo era minha avó e meu avô, por parte de mãe, o José e a Venina. (risos) E eles tiveram uma influência muito importante. De caráter, de retidão na vida, de ser leal, de ser correto, de honrar pagamentos de contas, de detalhes, de estilo de vida, do que você fazer, do que é certo, do que é errado, limites, tudo. Eles tiveram uma influência muito forte de caráter, incrível na minha vida. Eu sou muito grata. E muito amor, muita dedicação. Eles sempre estavam comigo, o tempo todo. Eles são pessoas maravilhosas. Já não estão aqui, nesse plano, mas continuam no meu comportamento, no meu estilo de vida. Eles estão sempre presentes comigo. A gente leva com a gente. E aí tem, por parte do meu pai, a avó Amélia e o avô Joaquim. O avô Joaquim era uma doçura e a avó Amélia era uma pessoa, assim, muito engraçada, extrovertida. E é isso.

 

P/1 – Você lembra de alguma história marcante com eles, da sua infância?

 

R – Ah, eu lembro que, quando eu era pequena, eu era meio, assim… a minha avó brigava muito comigo, eu ficava muito revoltada. Aí, depois, uns doze, treze anos, eu fui amadurecendo e enxerguei aquilo como um presente, como gratidão, do quanto que ela brigou comigo… do quanto que ela me batia, sem saber. Eu chegava da escola, teve uma vez que eu pedi pra ir ao banheiro - eu tinha quatro anos, eu não esqueço - a professora não deixou. Eu implorei pra ir ao banheiro, ela falou “não”, aí eu fiz. E me colocaram num tanque da escola, me deram um banho na frente de todo mundo, no intervalo. Eu cheguei com um saquinho, quando eu fui abrir a boca pra explicar: “Vó, eu pedi, mas…”. Nossa, ela já me bateu. Ela era brava, enérgica. E, depois de um tempo, eu falei: “Gente, como foi bom isso. Estabelecer limites pra uma pessoa, respeito”. Era um respeito que ela olhava pra mim, eu já falava… alguém oferecia pra mim, alguma coisa, numa festa, ela olhava assim pra mim, eu dizia: “Não, obrigada”. (risos) Porque era um respeito, uma coisa que é rara hoje em dia. Então, quanto a isso, eu tenho muita gratidão dessa experiência na minha formação.

 

P/1 – Todos eles eram de Santos?

 

R – De Santos. Sim. Todos de Santos. Meu avô veio de Campinas. Mas todos de Santos.

 

P/1 – E na sua infância, você lembra de algum costume familiar? Seja uma comida, um cheiro que lembre da sua infância ou uma data comemorativa que era importante pra sua família.

 

R – Ah, eu lembro que nós nos reuníamos em família. Eu tinha, eu tenho uma tia, irmã da minha mãe, os meus primos, eles vinham de São Paulo pra cá, a gente ficava esperando na janela e brincávamos muito. E eu lembro deles bem presentes na minha infância também, meus primos Marisa e Ricardo. E eles vinham muito em casa. Nós tínhamos almoço em família, era muita gente junto, era muito divertido, era muito gostoso. Eu lembro disso. Eu lembro dos encontros que meu pai vinha domingo, com as minhas irmãs, pra me encontrar. Ah, eu adorava. E brincar com as minhas irmãs, porque eram mais novas. Uma tem um ano de diferença de mim e a outra tem sete, salvo engano, sete ou nove... nove. E nós brincávamos muito, a gente tinha uma ligação muito forte. Era uma ansiedade pra chegar o domingo. Muito bacana. Nós viajávamos… tinha o sindicato, uma colônia do Sindicato dos Conferentes. E nós íamos pra lá também, andávamos a cavalo, brincávamos, fazíamos muita bagunça, aprontávamos bastante. E tem muitas lembranças boas, muitas, muitas. Minha infância foi maravilhosa. E eu sou uma pessoa, assim, muito brincalhona. Eu sou muito séria quando tenho que ser séria. E muito brincalhona, quando tenho que ser brincalhona. Então, parece que eu sempre brinco Eu falo: “A minha infância foi tão boa, que eu continuei um pouco nela, né?” (risos) Porque foi muito boa a minha infância.

 

P/1 – Você sabe a história do seu nascimento e como foi escolhido o nome “Luciana”?

 

R – Eu nasci um pouco prematura, tal. E quem escolheu o meu nome, pelo menos há uma certa divergência aí, mas eu acredito que foi a minha avó que deu a opção de Luciana. Porque tinha uma música, na época, que falava o meu nome. Ela achava a coisa mais linda o meu nome. E aí, acabou colocando Luciana. Tinha uma música na época. Aí foi isso.

 

P/1 – E você lembra da casa e da rua onde você passou a infância? Como é que era?

 

R – Eu passo lá até hoje (choro). Uma coisa que me emociona até hoje. Até hoje eu passo lá, a Rua Álvaro Peres, nove, apartamento 21. E eu sempre passo lá na frente, lembro. Meu avô, do amor incondicional que os meus avós tinham por mim, sabe? A criação que eu tive, os meus amigos. Até hoje eu passo lá e lembro de tudo, lembro do cheiro, da casa, do azulejo do banheiro, que eu tinha que lavar. Minha avó era fogo, ela me colocava pra participar das coisas e eu achei excelente porque, hoje em dia, eu tenho uma posição na vida muito participativa, eu sou muito proativa e eu aprendi isso com a minha avó, porque eu sempre tinha que participar das atividades. Eu sempre quero ajudar, onde eu tô eu quero ajudar alguém, eu quero fazer alguma coisa, eu quero participar e isso daí veio da infância, da minha criação. Aí eu lembro dos sofás, da mesona que nós ficávamos sentados. De tudo, do tanque, porque eu tomava banho no tanque com meu irmão, uma diversão, no calor. (risos) Então, era muito bacana. É uma coisa que me emociona muito, porque era muito amor que tinha naquela casa. Aí é isso. (risos) 

 

P/1 – E que bairro que era?

 

R – José Menino, bairro José Menino. Hoje em dia está bem diferente, mas o predinho permanece lá, tão bonitinho (risos).

 

P/1 – E que diferenças que aconteceram, que você percebe?

 

R – Em relação ao quê?

 

P/1 – Em relação ao bairro, à vizinhança também, queria te perguntar como era e como você vê hoje.

 

R – Tá. Quanto a diferença que eu vejo hoje em dia, é a que está no mundo. O crescimento, muitos prédios no entorno, onde tinham muitas casinhas. Tem muitos prédios. Um crescimento da cidade, do bairro, teve um crescimento muito grande. Quanto à minha vizinhança, éramos todos amigos. Pulávamos o muro de um prédio para o outro, brincávamos muito na rua. Assim, eu mais assistia. Meu irmão jogava taco na rua, jogava bola na rua. Mal tinha carro pra passar, era um barato. E, hoje em dia é diferente, já não pode fazer isso.

 

P/1 – Eu ia te perguntar exatamente sobre isso também: quais as brincadeiras que eram as brincadeiras que vocês gostavam de brincar, naquela época? Se você tinha bastante amigos, como era a sua infância, assim?

 

R – Eu tinha minhas amiguinhas, mas eu era meio restrita, porque eu tinha horário pra entrar, horário pra sair, horário pra chegar. Tinha coisas que eu não podia ir, era meio limitado, assim, o meu acesso às pessoas. (risos) Eu tinha horários certos. Minha avó era muito... tinha um rigor, mas um rigor saudável, saudável, de cuidado. Mas eu tinha minhas amiguinhas lá no bairro. Engraçado falar assim, né: “As minhas amiguinhas, coleguinhas”. E eu brincava muito, brincava… eu fui uma pessoa que eu brinquei até tarde com boneca, com Barbie, eu inventava casinhas, eu fazia cortinas, eu ficava brincando horas. Todo mundo brinca comigo, meu pai, minha mãe: deixava eu num canto, eu ficava o dia inteiro lá, quietinha, criando, eu estava criando alguma coisa. E eu brincava muito. Gostava de jogar vôlei, gostava de jogar queimada. Era muito boa em queimada, em vôlei. Trouxe a minha… isso daí foi bom, de queimada. Porque, no meu trabalho, eu tenho que ficar bem esperta. (risos) E eu gostava de brincar de várias coisas. Andar de skate. (risos)

 

P/1 – E você tinha o hábito, assim, de ir à praia, de frequentar o Centro? Como que era?

 

R – Mas isso na infância? Na infância? É, eu ia na praia com a minha família na infância. Ia na praia. Centro eu ia muito com a minha avó, porque tinha uma época, naquela época, o Centro era muito fomentado, não tinha Praiamar, não tinha... shopping era, assim, uma vez ou outra, tal. E nós íamos muito pra lá, que tinham lojas de departamento e a minha avó adorava ir pra lá e eu sempre ia junto. Meu irmão não gostava desse passeio, mas eu gostava, eu ia junto com a minha avó, nós íamos muito ao Centro, bastante.

 

P/1 – E desde pequena, desde que você era pequena, seu pai era conferente, né?

 

R – Sim, sim. Ele fez o concurso e desde… e iniciou, desde que eu me recorde…

 

P/1 –  Você pode repetir, por favor, porque eu não ouvi você contando do seu pai.

 

R – Desde que eu me conheço por gente, ele é conferente. Desde que eu era pequenininha, é um trabalho que ele gosta bastante. Eu sempre tive essa influência, de vê-lo no trabalho, turno, virando turno. Cada semana era um horário que ele ia trabalhar. É uma coisa muito dinâmica. Eu lembro muito disso. E a gente tinha muita curiosidade para saber o que ele fazia, porque conferente de navios e como é que… o que ele fazia, naqueles navios enormes? Passava pela orla da praia, via os navios e falava: “Meu pai trabalha no navio (risos)”. E eu achava muito interessante.  sempre falo isso. (risos)

 

P/1 – Eu ia te perguntar, você me contou um pouco agora, mas eu queria entender: então, desde pequena você sabia que tinha um porto na cidade, assim, porque, assim, até entender que, de fato, existia… você sempre teve essa percepção?

 

R – Sim, dos navios pararem. De ter descarga de mercadorias, de coisas. Era assim que eu entendia, quando eu era pequena, que vinham as coisas no navio, para poder colocar nas lojas, nos lugares e vender. Era uma ideia assim que eu tinha, na época. Mas, ao mesmo tempo, eu achava que era perigoso, que tinha muito risco, porque o meu pai andava com o capacete. Falei: “Gente, por que ele usa capacete? Colete refletivo? Pra onde ele vai, né, porque ele precisa dessas coisas? Bota especial”, que são os EPIs. E aí eu ficava curiosa, assim, pensava que devia ser perigoso, sei lá, era essa ideia que eu tinha.

 

P/1 – Eu ia perguntar: você tem lembranças de como era o porto? Se você deixa… passava lá? Você tem alguma lembrança dessa época, da infância mesmo. Como que você via?

 

R – Na infância, eu não tinha dimensão do que representa, do que é. Do que movimenta, eu não tinha noção. Eu só achava que era um lugar meio perigoso. Meio inacessível, né? Que você atravessava trilhos de trem e tudo. Quando eu era pequena, eu tinha essa visão. E que era um lugar pra trabalhar, de trabalho e que não eram muitas pessoas que poderiam ir. E eu tinha uma ideia bem restrita. Como se fosse um lugar à parte, que algumas pessoas poderiam ir e eu não podia, porque eu queria saber, né, como era o trabalho do meu pai, tal e eu achava que eu não podia ir, porque eu era criança, tal e eu entendia isso. 

 

P/1 – E seu pai contava alguma história do porto, do trabalho lá?

 

R – Ah, não, não contava muito. Ele chegava… ele sempre foi muito, assim, era muita agitação. Porque era muito trabalho, trabalho de turno e ele não contava muita história. Contava história dos embarques, que era muito embarque, muita descarga de containers e assim. Dos amigos, ele fazia muitos amigos no porto. Essas coisas assim. Que eu era muito criança, ele comentava mais coisas, assim, superficiais, mesmo.

 

P/1 – Você tinha um sonho, assim, antes, de pequena, de ser alguma coisa, alguma profissão, ou não passava ainda pela sua cabeça?

 

R – Ah, eu digo que eu tive vários pensamentos. Tinha uns pensamentos. A única certeza que eu tinha: desde cedo eu trabalhava, eu sempre trabalhei, eu sempre tive as minhas coisas, meus trabalhos. Às vezes, dois, três trabalhos acumulados. Eu vendia coisas, eu era muito, eu gostava de trabalhar. Sempre gostei de trabalhar, porque precisava trabalhar também. Mas, quanto à formação acadêmica, eu cheguei a pensar em medicina. Aí eu falei: “Ah, medicina. Cuidar das pessoas, que legal. Ao mesmo tempo, todo mundo machucado na minha… eu não tenho, eu vou chorar, eu não vou ajudar, eu não vou ser muito boa”. Aí eu fiquei pensando,  em publicidade, talvez, porque eu sempre fui muito comunicativa. E fisioterapia, dentista… eu passei em várias, porque eu não tinha muita noção do que eu queria. E aí acabei fazendo Direito. E achei muito bacana fazer o curso de Direito, foi muito bom, porque você aprende coisas que você leva pra vida também. Não são só as questões…

 

P/1 – E, voltando um pouquinho, antes de chegar no Direito, você me contou um pouco, mas eu queria saber mais, assim, quais são suas primeiras lembranças da escola.

 

R – Da escola? Ah, eu gostava de ir pra escola, eu era uma criança que gostava de ir pra escola. Gostava, me arrumava toda, ia toda… aquela saia plissada. Eu lembro disso. Tinha os concursos de junho, que era de princesa caipira, eu adorava aquilo, aí eu ganhava. Minha mãe comprava uns convitinhos, eu acho. (risos) Mas eu ganhava os concursinhos, eu tinha minhas amiguinhas. E eu me lembro da minha lancheira, que tinha uma lancheira laranja, com a tampa branca. E eu sempre sentia o cheirinho, quando eu abria a lancheira, eu falava: “Ai, que delícia, tem…”. Aquele cheirinho daquela lancheira, até hoje, eu adorava aquela lancheira. E os meus amigos. Eu ia de perua. Eu ia de perua e um tempo antes, eu ia, meu avô me levava. Nós íamos andando e conversando e era uma longa caminhada, viu? Era quase meia hora caminhando. Mas a gente ia pelo meio da rua, naquela época, conversando e tal. Eu adorava que ele me levasse, eu ficava encantada com ele, porque ele era uma pessoa supertranquila, sabe? Ele sempre estava cantando. E ele tinha uns olhos verdes claros de doer, era uma pessoa tão legal, o meu avô. Muito bom. (risos)

 

P/1 – Teve algum professor ou professora que foi marcante?

 

R – Ah, eu tive bons professores. Mas, marcante mesmo, foi a minha do pré. A minha do pré. Não sei o que que eu falei pra ela, ela pegou minha trancinha e “pum”, me jogou no chão. Eu fiquei tão traumatizada, fiquei triste com aquilo e eu não tive coragem de contar pra ninguém na minha casa, só fui contar depois de mais velha. Achei horrível, porque eu falei... gente, eu olhava pra ela e falava: “Uma professora, como é que ela pode agir assim com uma criança?” E foi na frente das minhas amiguinhas, eu fiquei super chateada. Tenho essa lembrança esquisita, né? Mas que, depois, se tornou engraçada pra mim. Que eu era bem brincalhona, gostava de brincar, não parava quieta. (risos)

 

P/1 – Como que seguiu sua formação? Você passou por outras escolas? Como que foi?

 

R – A minha, primeiro eu estudei numa escola até a quinta, sexta série. Aí depois eu fui pra outra escola, pra estudar junto com a minha irmã, com a Roberta. Aí, depois, nós fomos pra outras e fomos pra várias escolas. (risos) Acabou acontecendo de colocar em outra escola, tal. E, durante o período dos meus estudos, eu estudei com a minha irmã. Uma numa classe, outra na outra, porque ela tem um ano de diferença. Mas aí nos encontrávamos no intervalo. A gente, nós somos muito unidas, as irmãs, meu irmão, desde a infância a gente trouxe, até hoje, muito carinho, amor, abraço, beijo, é muita coisa assim.  Essa pandemia aí foi torturante. (risos)

 

P/1 – E como foi passar a juventude em Santos?

 

R – Ah, eu… foi muito legal. Uma cidade muito gostosa, eu ia muito pra praia, muito, muito, muito. Eu trabalhava e aí, no outro horário, eu queria ir pra praia. Sempre gostei de praticar esporte, muito. Fazia biatlo, teve uma época de biatlo, que eu fazia. Sempre pratiquei muito, muito esporte. Sempre gostei do dia. De aproveitar o dia, de passear, de fazer as coisas.

 

P/1 – E, nessa época, assim, você tinha lembrança de sair com seus amigos, ou você era mais, assim, você fazia mais esportes? Como que era?

 

R – Eu gostava mais de treinar, de ir pra academia, de trabalhar… Eu nunca fui de sair muito, eu nunca, não gostava muito… cada um tem o seu jeito, né?  Eu tinha um jeito, assim, parecia que eu estava um monte, no meio de um monte de gente, mas como se eu estivesse sozinha, sabe, nos lugares. Então, eu saía, claro, não sou um ET. (risos) Mas, era muito raro, era muito… algo tranquilo, algo mais com família. Com as minhas irmãs eu saía bastante. Eu saía, algo mais com família, algo mais… ou com as minhas amigas, mas uma coisa, assim, mais… não tipo balada… muito embora eu goste. (risos)

 

P/1 – E quais foram esses seus primeiros empregos? Você falou, né, que desde muito nova, começou a trabalhar.

 

R – Eu trabalhava em lojas. Eu trabalhei em lojas, eu ficava um tempo numa e depois de um tempo… eu sempre trabalhei. Trabalhava em lojas e vendia coisas também, vendia semi jóias, vendia roupas, fazia feiras com as minhas amigas, pra vender. Aquelas feiras que tinham, de roupas, de coisas, eu fazia aquilo também. Eu sempre gostei muito de trabalhar. De ganhar meu dinheiro, de ter minhas coisas. Aí eu trabalhei durante um tempão, até que um dia lá, foi o meu limite, quando eu estava trabalhando na loja de calçados. Aí a moça jogou um sapato pra lá e falou: “Vai pegar, coloca no meu pé!” Sabe aquelas pessoas assim? Você vê, as adversidades que nos fazem crescer, né, querer mais. Falei: “Gente, como é que… eu acho que eu preciso estudar, pra não passar por isso, eu preciso fazer alguma coisa, eu preciso…”. Aí eu comecei a guardar dinheiro pra estudar, porque eu queria fazer uma faculdade. Aí, entrei na faculdade, logo assim, no mesmo ano eu já me inscrevi… desse fato, assim, que foi uma somatória de coisas, não por nada, mas eu queria algo melhor. Eu falei: “Eu vou estudar, né? Porque eu não vou conseguir ficar vivendo isso aqui, credo!” Não por nada, porque tem lojas maravilhosas pra se trabalhar, eu conheço amigas minhas que adoram. E hoje a dinâmica é diferente. Acho que essas pessoas são exceções, hoje em dia. E é muito legal, não é nada contra, mas eu sentia necessidade de fazer uma faculdade. Tem gente que faz curso, tem gente que faz... Aí eu fiz, comecei a faculdade. Até estava meio atrapalhada, pagava um mês sim, um mês não, nos primeiros meses. E, depois, eu já consegui entrar no Bradesco, que foi uma coisa, porque eu adorei trabalhar no Banco, adorei aquela agência, os meus colegas, os meus amigos de trabalho. Foi uma dinâmica muito legal, de muita união. Muito legal, as pessoas bacanas, sabe? E eu comecei a trabalhar lá. E eu me organizei a minha vida, organizei minha faculdade. Trabalhava no Banco, vendia minhas coisas ainda e ia correndo pra faculdade. E era uma loucura. E eu gostei bastante de ter feito essa faculdade. A gente vai expandindo a mente, aprendendo coisas novas, novos modos de pensar. A leitura é muito importante. Você vai crescendo, né, como pessoa, assim, em vários sentidos. Foi assim.

 

P/1 – E, nessa época, você pensava já em seguir carreira advogando? Como que era?

 

R – Não, eu fiz já destinada a entrar numa magistratura, no Ministério Público, fazer concurso. E, na época, até fiquei por algumas questões, eu quase passei, o “quase” não existe. E aí, graças a Deus até, eu não enveredei por esse caminho que eu queria, porque eu queria. Mas eu nem conhecia qual era a dinâmica, qual era o dia a dia. Então, eu achei legal eu ter tentado, ter experienciado isso, mas eu acabei enveredando para um outro lado, que eu sinto que é mais o meu perfil, sabe? Que me traz mais satisfação, que é a minha profissão de hoje.

 

P/1 – Voltando um pouco, como que foi no Bradesco? Como era essa rotina, na época?

 

R – Ah, era uma delícia, eu adorava trabalhar lá, receber as pessoas, atender as pessoas, ajudar as pessoas que não conseguem entender como mexer numa máquina. Os idosos, eu adorava os idosos, adorava. Eles me enchiam de bombom, de bolo, de coisas, umas gracinhas. E eles não sabiam, eles chegavam nervosos. Aí eu chegava pra eles e falava: “Calma, eu vou te ajudar, vem cá, senta aqui”. E aí, eles só queriam atenção, sabe? E aí eu fiquei feliz de ter trabalhado no Bradesco, porque eu acho que eu consegui, assim, acalmar, ajudar, resolver algumas coisas. E a turma era muito legal. Foi uma experiência muito legal. Eu aprendi muitas coisas interessantes. Foi muito bom.

 

P/1 – Você lembra do seu primeiro dia de trabalho lá, como foi?

 

R – Em relação ao Bradesco, no Bradesco?

 

P/1 – Sim.

 

R – Ah, foi assim: eu estava super entusiasmada. Ao mesmo tempo, eu estava super concentrada, para assimilar os conhecimentos, para poder fazer as coisas da melhor maneira. Eu sempre fui assim. Eu faço uma coisa: “Como é que eu posso fazer isso melhor? Como é que eu posso fazer isso melhor?” Eu sempre quero me superar. Para entregar sempre o melhor. Então, o primeiro dia foi de bastante ansiedade, de bastante novidade, conhecendo setores, as pessoas com quem eu ia trabalhar. E eu fiquei lá até me formar. Até me formar.

 

P/1 – Daí, como que seguiu sua trajetória profissional? Como que foi?

 

R – Aí eu me formei. Me formei, já passei na OAB. E aí, comecei a estudar para concurso, fiquei um tempo dedicada nisso. Estudando bastante, tal. Aí, chegou um momento, que eu falei: “Eu não sei se é isso.” Porque a gente tem essas coisas de mudar de pensamento, mudar de caminho e não é ruim, é bom, é bom. Você pega um caminho melhor, de repente, mais adequado. Que as pessoas vão mudando. A gente vai, dia a dia a gente vai se transformando, né? E aí eu acabei falando: “Não, acho que eu não vou dar continuidade, porque eu também preciso trabalhar.” Aí, depois, eu montei loja, tive loja em shopping, tal. Aí, depois, surgiu essa oportunidade que eu fui, mais como curiosa, inicialmente. Falei: “Nossa, deve ser interessante a profissão do meu pai, né? A maioria são homens e como é que eu vou chegar lá?” E foi uma coisa mais para sanar a curiosidade. Porque eu tive muito interesse nisso. Essa curiosidade de conhecer o novo, diferente.

 

P/1 – E antes, a loja que você tinha era do quê?

 

R – Ah, semi joias. Aí eu tive uma esmalteria. Eu vendia coisas. Coisas bem bonitas. Eu facilitava e eu fazia amizade, eu faço amizade rápido. Então, eu fazia amizade com as pessoas, as pessoas se tornavam minhas amigas e era muito legal.

 

P/1 – E daí, como que foi quando, assim… em que ano você começou a atuar no porto? Como que foi?

 

R – Então, em 1996, salvo engano, foi o último concurso que teve para conferentes. E não teve mais concurso. Aí, o que acontece? O sindicato abriu um banco de conferentes que tinham que passar por um treinamento interno, para possibilitar a continuidade dessa função importante, né? E aí, meu pai perguntou pra todos os filhos, perguntou pra todo mundo: “Filha…você quer fazer? Vai ter um curso de conferente”. Eu falei: “Nossa, conferente?” E eu sempre fui muito assim, eu gosto de desafio, sabe? Eu gosto de aprender, eu gosto de desafios. Aí eu falei na hora: “Eu vou, o que precisa? Onde eu vou?” “Olha, você tem que fazer o curso de vistoria também, vistorias em containers e você vai tal, vai ter tal dia, tal”. Fui, peguei o caderno, peguei não sei o quê, falei: “Não, eu vou”. E fui e comecei a conhecer lá de verdade. Porque, até então, não trabalhava, não tinha nem ideia da dimensão que é, é incrível. Aí, naquelas aulas, eu fiquei encantada. Os professores, um deles era o meu pai e eu fiquei muito orgulhosa dele dando aula, dele explicando. Fiquei orgulhosa dele e fiquei interessada. Aí eu fiz, aí surgiu a oportunidade de conhecer essa função, de trabalhar nisso.

 

P/1 – Nenhum dos seus irmãos quis ir pelo mesmo caminho, ou foi?

 

R – Não, não. É que tem aquela coisa. Às vezes, a pessoa fala: “Porto”.  Já leva pra algo perigoso, algo difícil, algo complexo. E não deixa de ser, né? Mas eu tive interesse e fui fazer o curso.

 

P/1 – Como é o trabalho de conferente de navio? Como é sua rotina, com o que você trabalha?

 

R – Bom, primeiro já começa que não existe rotina. Não existe rotina. A gente trabalha com os EPIs, que é o equipamento de proteção individual, capacete, refletivo. Saio que nem um… meu filho fica olhando: “Mamãe, onde você vai?” Desde pequeno ele falava: “O que isso, mamãe, o que aconteceu? Por que você está assim?” Porque eu saio com a roupa de casa, não tenho vergonha, nada. Porque é estranho, né? As pessoas olham, com refletivo, cor fluorescente. Eu vou trabalhar, tal. E é muito interessante, cada dia eu me reinvento, eu me reinvento. Cada dia tem um navio atracado, com exigências diferentes, tem um plano de navio a seguir, tem produtividade, tem a segurança que tem que ser cuidada, não só minha, como a dos meus colegas. Eu gosto de cuidar de todo mundo, então, pra mim, segurança eu levo à risca, porque é importante. É uma profissão de risco, né? Carga suspensa… tem várias questões assim. Carretas passando com containers. É um lugar, que você trabalha no sol, você trabalha na chuva e você tem que coletar os containers, têm que ver onde eles vão, qual a posição deles, qual que foi carregado versus qual que você vai embarcar. Aí tem as cargas perigosas, tem os tipos de containers. E você tem que ir formando aquele ‘lego’. Eu falo ‘lego’. Formando dentro do navio, do porão, do convés e com muita atenção, tem muitos detalhes, encaixe de containers que precisam das castanhas e outros que não precisam. Onde você vai colocar, qual lugar, qual o sequenciamento do trabalho. É muita atenção, é muita informação, é rádio, é a posição pro operador de container, é a castanha que vai ser colocada no navio, mudança de plano e você tem que ser super flexível porque, de repente, você está trabalhando em um lugar, você vai pra outro. E você tem que ter tempo. Tudo é tempo, tempo, tempo. Levei muito isso pra minha vida, assim, de organizar, de planejar meu tempo, do time das coisas, assim, isso aí me mudou bastante, esse trabalho. É um trabalho muito dinâmico, muito dinâmico. De fazer acontecer. Você não pode ficar tranquila. Você tem que ficar [atenta], é aquela adrenalina, eu acho incrível, eu acho muito bacana, eu gosto bastante. Mesmo com as adversidades, com chuva, sol, eu gosto, eu gosto bastante. É bem desafiador e, ao mesmo tempo, eu tenho que sempre estar fazendo de uma forma melhor. Entregando meu trabalho de uma forma melhor. Eu gosto bastante.

 

P/1 – E como foi seu primeiro dia no porto? Foi a primeira vez que você entrou, ou você já tinha entrado antes? Como você se sentiu?

 

R – A primeira vez que eu entrei, na primeira empresa que eu entrei, foi como nas outras. Interesse em aprender, né? Aprender, adquirir conhecimentos específicos de uma área que eu não conhecia. Eu acho que tudo é possível. Se você tem interesse, se você tem disposição para aquilo, a coisa realmente acontece. E isso daí, o primeiro dia, pra mim, foi assim, de muito interesse em aprendizados. Em conhecer o assunto, ir além, do que eu…: “O que eu posso aprender mais? O que eu posso aprender mais?”. Isso, foi isso. Foi também incrível ver aqueles navios enormes, cheios de carga, a forma, a dinâmica, né? Porque é tudo um ciclo. Todo mundo está participando daquilo, pra fazer acontecer, toda a equipe tem que participar. O RTG tem que carregar o container, o container tem que chegar, a carreta tem que vir direitinho, o container tem que estar bem, o conferente tem que estar bem para dar posição, os estivadores, que são pessoas muito especiais nessa parte, porque eles fazem, eles soltam o container para descarga, eles prendem pra sair seguro o navio, mexem com castanha, com tudo. Eles cuidam dessa segurança das cargas. E eles participam, efetivamente. E isso tudo aí foi muito interessante conhecer todos os detalhes da operação.

 

P/1 – Quando você entrou, assim, lá na primeira empresa, assim, quando decidiu que você ia ser conferente, você teve apoio da sua família, das suas amigas?

 

R – Ah, sim. As minhas amigas sempre me apoiavam, minha família também. Minha mãe que achou esquisito no começo, ela falou: “Filha, mas você é mulher, é perigoso”. Sabe aquela coisa de preocupação, né? Mas foi tranquilo, foi tranquilo.

 

P/1 – Eu ia perguntar isso: tinha outras mulheres, na época que você entrou, sendo conferentes? No próprio porto.

 

R – Não, eram bem raras. Na primeira empresa em que eu trabalhei, entraram comigo até, no processo seletivo, Mariana e a Valesca. São meninas incríveis, você vê que o perfil delas é um perfil, assim, o perfil que precisa pro porto. Dinâmica, que faz acontecer, porque tem que ter um perfil diferenciado. E éramos nós três, a princípio, né? Nós três. E eu sabia que a Carina trabalhava também, a Carina foi a que entrou no último concurso, que era, acho que foi a primeira mulher conferente, algo assim. E a Carina também trabalhava pelo sindicato. Eu sabia disso. De mulheres, era essa a informação que eu tinha. Depois cresceu um pouco. Mas ainda são poucas, né? Tanto é que, no porto, as pessoas já nos conhecem. Às vezes, eu nem conheço a pessoa, mas a pessoa: “Ah, você que é a Luciana? Você que é tal?” E a gente acaba se conhecendo. Porque acaba sendo uma minoria.

 

P/1 – E como que era trabalhar, assim, sendo mulher, trabalhar num ambiente, assim, que por muito tempo, assim, foi considerado masculino, né? Como que é?

 

R – Sim. Eu digo que, quando eu entro na empresa, eu me transformo. E eu sou muito profissional. Lá não, lá é para fazer o trabalho acontecer, responsabilidade, é muita coisa assim. E, eu digo, eu prefiro me projetar pra hoje. Hoje eu estou na BTP, uma empresa que foi um sonho pra eu entrar, um sonho, um sonho. É o maior terminal da América do Sul. É uma empresa super diferenciada, tanto na sua formação, diretores, coordenadores, supervisor. Meu supervisor é maravilhoso, eu aprendo com ele dia a dia, né? Que é o meu superior imediato. E eu aprendo com ele inteligência emocional, saber lidar com as adversidades, coragem pra tomar as decisões. Eu aprendo muito e eu gosto muito. E a BTP foi, assim, a primeira empresa que eu quis entrar. Era meu sonho trabalhar na BTP, porque era, pra mim, o máximo. E eu não consegui. Aí eu fiz as provas, passei, porque tem prova de inglês, conhecimentos específicos, tem toda umas exigências, pra poder ingressar. E aí eu não entrei. Aí depois eu fiz de novo a prova, não entrei, eu falei: “Ah, não, gente”. Aí eu trabalhei em outro lugar, trabalhei na Libra, que foi uma escola, de aprendizado, assim, aprendi muito lá, a equipe maravilhosa, uma família. E eu fui até fechar. Fechou a Libra, aí surgiu, fiz de novo a prova, não me chamaram, passei em tudo, não me chamaram. Aí, apareceu, agora há pouco, assim, todo mundo me mandando WhatsApp, meus colegas, minhas colegas, falando: “Lu, tem, vai, se inscreve, vai ter, não sei o quê”. Todo mundo me chamando, falei: “Gente, eu nem, nem…”, já estava desacreditada, né? Eu falei: “Tudo bem”. Aí eu mandei meu currículo, tal, fui chamada. Fiz a entrevista, fiz as provas, deu tudo certo, eu estou trabalhando na empresa. E a recepção, assim, melhor impossível. É um ambiente muito respeitoso, é a segunda família. Eu sou a única, da minha equipe, mulher. E eles me tratam com o maior carinho, com o maior respeito, sabe? E é maravilhoso, maravilhoso. Todo mundo se ajuda, é muito bonito, é muito incrível pra mim, porque poderia ser de outra forma. Porque são poucas mulheres trabalhando em porto, podia ter um preconceito, alguma coisa assim, mas comigo, eu não posso reclamar, eu não posso reclamar. Eu tenho um relacionamento muito bom com a minha turma, com a minha equipe.

 

P/1 – Há quanto tempo que você trabalha na BTP?

 

R – Eu entrei há pouco tempo. Faz quatro meses. Desafio é desafio. Ainda estou em processo de conhecer, explorar, melhorar, mas está incrível. Muito bom. Foi um sonho realizado de trabalhar com o que eu gosto, numa empresa que eu acho o máximo, eu acho o máximo, acho o máximo a filosofia deles, a responsabilidade deles, a eficiência, sabe? Eu achei incrível.

 

P/1 – E em todo o tempo que você trabalha no porto, durante esses anos você consegue perceber quais foram as principais mudanças que se passaram, assim, em torno, assim, de tudo, de tamanho, de tudo? O que mudou no porto, desde que você entrou?

 

R – Ah, houve um crescimento. A demanda é maior, pelo menos no meu, no terminal que eu atuo hoje, a demanda é maior, o crescimento é maior, a responsabilidade é maior. Uma coisa muito importante que, pelo menos, todos os terminais pregam, e o meu, com excelência, a segurança, pra evitar… porque, há um tempo atrás tinham muitos acidentes. Muitos incidentes. E, hoje em dia, reduziu isso, porque o investimento em segurança é muito grande, hoje em dia. Eu vejo uma diferença, hoje em dia não se faz a coisa de qualquer jeito, porque tem o risco. Como diz a minha empresa, a carga mais preciosa somos nós. Então, eu acho que teve um crescimento muito grande, de demanda, de trabalho, de navios. E, ao mesmo tempo, cresceu muito, por parte da empresa, esse cuidado com o colaborador, com muita segurança, envolvendo muita segurança. Para cuidar das pessoas que atuam, porque é um trabalho de risco, né? É perigoso.

 

P/1 – E parece que você, falando assim, é como se, apesar de ser perigoso e da visão, né, que quando você era pequena, você tinha, que o porto parecia perigoso, eles fazem como se, assim, uma minimização de riscos.

 

R – Isso, isso, isso. Isso, exatamente. Então, se você leva à risca. Tem os lugares que nós temos que ficar, tem os cuidados que nós temos que ter. Se você seguir à risca, você fica seguro, você não corre risco. E a empresa prega muito isso pra gente e a gente procura sempre levar à risca, isso. É muito importante. Sempre cuidar. Porque, a partir do momento que você se acomoda, “que é o meu dia a dia, tudo bem”, não, não tem “tudo bem”, né, todo dia tem aquele cuidado especial com quem trabalha comigo e comigo. Pra gente fazer acontecer a coisa de uma maneira segura. Porque é muita movimentação de carga, é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

 

P/1 – Você já trabalhou com seu pai? Você já o viu passando no porto, ou só se encontrou naquela época das aulas?

 

R – Não, não tive a oportunidade porque, assim, ele é aposentado, mas ele está trabalhando, ele continua trabalhando em outra empresa, como empregado. Então, tem os conferentes do sindicato, que vão em várias empresas, fazer turnos. Mas eu vejo meu pai pelos conferentes que vão, sabe? Porque é a mesma idade, mesmo estilo, mesmo jeito que eles vêm do sindicato. E tem uns conferentes, assim, que são umas graça. Super dinâmicos, superinteligentes, super descolados. Eu fico imaginando meu pai neles, em vários que vão lá, dessas pessoas que vão do sindicato, das antigas, que tem todo um jeito de lidar com as coisas. E eu sempre uso para aprendizado e imagino meu pai lá.

 

P/1 – E você sente, assim, você já teve algum momento que você achou que foi desafiador, na sua trajetória no porto?

 

R – Vários momentos, vários, vários, vários momentos. Inicialmente, lidar com… porque não é só minha equipe, eu não trabalho só com a minha equipe, vem pessoal de fora, que eu nunca vi na vida e eu estou trabalhando com eles. E, às vezes, eles te enxergam lá e falam: “Nossa, mas eu trabalho há vinte anos aqui, o que ela está falando, o que ela está…”. Teve algumas questões, assim, que eu consegui que se transformassem. Ao ponto da pessoa se tornar meu colega de trabalho mesmo, admirar o meu trabalho, porque a gente é o que a gente faz, não o que a gente fala. E quando você vê a atitude da pessoa, o perfil da pessoa, o que a pessoa está fazendo, como ela está fazendo, aí você passa a ter empatia, a ter amizade, a ter respeito. Então, teve alguns momentos bem desafiadores, né? Uma das questões mais desafiadoras do dia a dia é lidar sob pressão. Autocontrole, assim, inteligência emocional, porque está tudo acontecendo ao mesmo tempo, todo mundo falando, todo mundo… e você tem que respirar e falar: “Não, qual é a prioridade nesse momento?” E focar, deixar falar, resolver e fazer acontecer. Tem muita coisa e eu vou trabalhando isso no dia a dia.

 

P/1 – E tem alguma história marcante, de algum sufoco, ou até uma história engraçada, que você tenha passado?

 

R – Tem, tem duas histórias até, pra te contar, marcantes e engraçadas. Na primeira… é porque tem uma equipe, uma turma que vem do Ogmo, que são os avulsos. E aí eles trabalham no meu termo e eu nunca vi na minha vida e tenho que fazer acontecer: “Olha, solta esse container, tal, faz isso, castanha aqui o piso do convés”, coisas específicas. Aí, chegou pra mim, já estava meio esquisito, sabe, você vê o perfil, né? Tinha um lá que estava meio rígido pras coisas, tal. Aí teve uma parada e o supervisor foi conversar com ele, pra ele fazer o trabalho, tal. E ele parou o termo, falou que o termo é uma parte do navio que a gente trabalha. Cada termo tem um conferente e embarques específicos, descargas específicas, naquelas ‘bays’, que são os porões, tal. E aí ele parou o termo e a gente não pode parar. A produção, a produtividade é hora em hora, minuto a minuto, é uma coisa que tem que acontecer. Faz parte do porto, esse dinamismo. E aí ninguém… todo mundo falava com ele, ele parou no meio da tampa assim, pro portainer não entrar com container, ele falou que ninguém ia trabalhar lá, ninguém ia embarcar nada, porque não ia embarcar nada e o supervisor, na época, de outra empresa, foi lá conversar com ele e não conseguiu. Ele falou: “Não, ninguém vai trabalhar, porque não é assim, porque…”. Aí eu fui conversar com ele e aí eu falei na linguagem dele, eu falei: “Olha aqui, quem está perdendo é você, você está parando o terno, você produz por unidade. Então, é tudo cheio. O que você está fazendo? Você está perdendo tempo, vai, sai daí”. Aí eu, sabe? Aí eu conversei e consegui…

 

 

P/1 – Vou te perguntar de onde você parou, que eu não ouvi. Que era na hora que ele tinha parado.

 

R – E aí, então, eu consegui fazer com que ele voltasse ao trabalho. Na conversa, sabe? Usando informações importantes, eu consegui transformar esse cenário, eu achei legal, eu achei bacana. E o outro foi que eu estava andando pro navio e o… tem os agulheiros. Que vem uma escada que você desce pro porão e você não pode... que, se você cair naquilo, é fatal, né? E aí, ele estava podre, eu caí. Só que, na hora de eu cair, eu não sei o que me deu, que eu abri e travei no joelho e parei lá. Aí, tinha um estivador do lado, meu colega até, falou assim: “Eu não vou nem mexer em você”. Falei: “Não, me tira daqui, que eu vou cair, eu tô segurando”. E aí ele me tirou pro lado e não foi um descuido meu, o agulheiro estava podre, desceu como um elevador. Ele falou, até o meu colega, que estava comigo: “Se fosse eu, teria ido direto, eu não teria conseguido me segurar”. E aquilo foi e eu ainda deitada, ainda estava coletando container, não queria parar o trabalho, eu sou muito assim. Mas não aconteceu nada, fiquei com um pouquinho de dor no joelho e deu tudo certo. Foi uma sorte, foi uma sorte porque eu tive de conseguir me segurar lá, naquele momento e continuei o trabalho até o final. Fiquei com o joelho um pouquinho ruim e tal, mas não foi nada, deu tudo certo, assim, sabe? Foi o único sufoco que eu passei. Porque trabalhar borda do navio, ele tem umas coisas que você tem que tomar muito cuidado. E foi desafiador, foi muito bom eu ter conseguido me segurar e num problema que era do navio. Não fui eu que não tomei cuidado, porque eu sou muito cautelosa. Eu sou muito cautelosa no meu trabalho, comigo e com meus colegas de trabalho, eu sempre tô olhando por eles também. Aí, uma coisa que poderia ter acontecido algo grave, eu consegui sair, ainda continuei coletando, trabalhando, o container saindo e eu lá, continuei. Aí ele falava pra mim: “Luciana, pelo menos levanta, pra continuar”. Falei: “Não, não, não pode parar aqui”. Eu sou meio… eu me entrego ao trabalho. E foi bem legal, eu ter conseguido, ter sido esperta, pra mim. Aí que eu falo da prática de esportes, da prática, é muito importante, né, a atividade física também, porque lá eu tenho que subir, descer na carreta, para coletar lacre e isso tudo, pra mim, é muito tranquilo, eu não fico cansada, nada. É super gostoso, sabe? Porque tem que ter um cuidado nessa parte também, para esse trabalho. Porque você tem que ser esperto.

 

P/1 – E você e seu pai, assim, apesar de não se encontrarem lá e, assim, não trabalharem juntos, vocês trocam experiências? 

 

R1 – Nossa! Totalmente, totalmente. Desde que eu fiz o curso com ele, eu sempre tirei dúvidas, inicialmente e depois eu contei casos, contei histórias e ele também. A gente conversa muito desses assuntos. Hoje em dia não mais, a gente conversa, só que… eu adoro o meu trabalho, ele adora o trabalho dele até hoje. E a gente fala de alguns casos, assim. Mas teve uma época, no início do meu trabalho, a gente conversava muito. Aparecia umas coisas novas, porque lá todo dia tem alguma coisa nova, pra você aprender ou pra você aprimorar. E eu trocava muita figurinha com ele, assim, ele me explicava muita coisa: “Não, filha, é assim mesmo, tal, não sei o que. Tem isso, tem os tipos de castanha que tem que encaixar no navio e tem assim e assado”. E nós conversamos muito sobre isso também. A gente tem uma relação muito próxima. E nós conversamos bastante sobre trabalho.

 

P/1 – Você lembra de alguma história marcante que seu pai contou, do porto?

 

R – Eu lembro que ele tinha muita amizade com os tripulantes, na época, que ele ia tomar café da manhã, que eles o chamavam pra tudo e que ele andava no navio inteiro, que ele trabalhava no navio, que ele, na época, eu acho que tinha uma dimensão maior de cuidado. Não tinha… ele cuidava de tudo, ele ia pro navio, tal. E ele contava as histórias, as conversas, coisas engraçadas, que ele falava em várias línguas, então, às vezes, ele conversava e contava pra gente, tal, conversava em inglês e aí, depois, ele descia, conversava com as pessoas daqui e era uma dinâmica, assim, muito, muito grande.

 

P/1 – E quais foram os momentos que você - agora, pensando em tudo, desde que você começou a trabalhar - considera mais marcantes, assim, na sua trajetória profissional? Agora, pensando desde o seu primeiro trabalho, quais foram os momentos que você considera mais marcantes, de toda sua trajetória profissional?  

 

R – Ah, eu ter entrado na Libra. Uma empresa que eu me apaixonei, que eu trabalhava a bordo, que era diferente. Eu trabalhava a bordo, eu trabalhava nos navios. Eu lidava com os tripulantes, os oficiais dos navios. Era uma coisa muito nova, de subir e descer aquelas escadas de marinheiro e conhecer o navio todo. Que foi muito incrível pra mim. E, atualmente, ter entrado na BTP, né? Pra mim, foi uma realização, assim, eu fiquei emocionada, eu fiquei feliz, eu queria conhecer mais a empresa, eu quero conhecer mais as pessoas e eu me deparei com pessoas muito legais, muito com um perfil forte de decisão, os supervisores lá, os coordenadores. E tem uma pressão, mas uma pressão saudável, sabe? Porque a gente tem que produzir, tem que ter resultado, mas é algo muito legal, muito eficiente. Não tem perda de tempo, tem muito respeito, muita união. Eu achei muito bacana a empresa e, para mim, foi um dos melhores momentos atuais, agora. De eu ter conseguido entrar na empresa, estar aprendendo, estar tendo essa oportunidade. Isso, pra mim, foi incrível. Todo dia eu entro naquela empresa e falo: “Gente, que gostoso, vou trabalhar, vou me divertir com meu trabalho”. E, quando eu vou embora, eu falo, reflito todo dia : “Nossa, como é que eu posso fazer melhor? Como é que eu posso melhorar? Como eu posso…”. Sempre, sempre, sempre, porque eu acho que a humildade é a melhor amiga da sabedoria. A gente só avança quando a gente tem humildade de que a gente está em constante aprendizado constante. E as mudanças no porto, tudo é muito dinâmico. Você tem que estar participando disso. Antes era documentação na mão, agora têm, até tem alguma documentação na mão, mas o tablet com as informações e tudo vai se transformando e você tem que estar se adequando, para receber essas informações e continuar desenvolvendo trabalho.

 

P/1 – Eu queria saber quais foram os maiores aprendizados que você tira da sua trajetória profissional.

 

R – Ai, se reinventar todo dia, ter um autocontrole emocional, ser mais dinâmica, mais proativa, flexível, porque as coisas mudam, as coisas se transformam, o dia a dia, cada dia que eu vou trabalhar é um cenário novo. Não existe rotina, não existe, não tem nada de rotina no meu trabalho (risos). Cada dia aparece, surge uma situação e eu tenho que resolver, participar, colaborar para produtividade, colaborar em todos os sentidos e isso me fez uma pessoa mais ativa ainda do que eu sou, mais interessada em estudar e aprender mais. O senso de equipe, que eu tenho muito forte, se aprimorando cada dia, porque equipe é equipe, ninguém faz nada sozinho. Ai, ele é operador, ele é chefe do termo, ele é o supervisor... todo mundo é uma equipe, todo mundo tem que participar, pro resultado ser favorável. Então, eu tenho muito isso de equipe, de ajudar uns aos outros. Não tem isso de competição, de um querer ser melhor que o outro, não há necessidade disso, que a gente tem que ser melhor do que nós fomos ontem e sempre ir avançando conosco mesmos. Não existe essa coisa de [competir], isso aí acho que é falta de conhecimento mesmo, a pessoa achar isso. A gente não precisa competir com ninguém. Então, isso aí também está aprimorado. E essa coisa de superação, de todo dia estar vendo um cenário, a chuva, o tablet encharcado e você tem que lançar, como é que você faz e manter aquele controle, de não ficar: “Ai, meu Deus, ai”. Não, como é que eu posso fazer pra resolver isso? Vou fazer assim, e ter aquela coisa, sabe, aquele foco. É muito interessante, o meu dia a dia é muito interessante, ele é muito dinâmico, é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. E, se você não está preparada para lidar com a pressão disso, desse mundo, desse cenário que é o porto, você realmente não aguenta. Tem que ter um perfil. E eu não digo muito, assim, de ser mulher, ser homem. Eu acho que a pessoa tem que ter o perfil. De querer aquilo pra si. E de se adequar àquela situação, né, de novidade, de mudança, de equipe, de saber lidar com as coisas. É uma dinâmica muito legal, muito interessante pra mim. (risos)

 

P/1 – E como você consegue conciliar as suas demandas, assim, pessoais, de ser mãe e o fato de trabalhar no porto? Como é, você consegue bem, como que você lida?

 

R – É, toda semana, praticamente, não é bem semana, mas ele vai mudando a escala, eu tenho as minhas folgas. Final de semana é um por mês, então não existe muito final de semana, semana. E, pra mim, não faz diferença, porque a gente se adequa a tudo na vida. A tudo que a gente quer e que seja bom, né? E eu me adequo super bem. Tem um cansaço, porque trabalho, existe isso, trabalho é trabalho. Mas eu consigo adequar bem, consigo fazer o que eu posso, com os recursos que eu tenho no momento. E tem o meu filho, que é o meu amor da minha vida. Tem o meu noivo, tem a minha família. Tem todo um cenário. Minha casa, que eu gosto de cuidar. E tem o condomínio que eu moro também, que eu gosto de participar de algumas coisas. E tem a academia, atividade física, que eu gosto muito de fazer, que eu fico até irritada quando eu não faço. Eu fico pouco irritada, (risos) eu sou tranquila. E é isso. Eu vou conciliando. Na verdade, o conferente de navios precisa se antecipar aos fatos. Pra não chegar a coisa: “Ai, o que que eu vou fazer agora?” Não, não. Se acontecer, eu já chego assim: “Se acontecer isso, é isso; se acontecer aquilo…”. Então, nós nos antecipamos. Então, eu levei isso pra minha vida pessoal, eu sempre me antecipo. “Ai, na minha folga eu vou fazer isso”. E equilíbrio. “Eu preciso dar mais atenção pro meu filho agora. Preciso dar mais atenção pro meu noivo. Preciso ver a minha família”. Eu vou tentando me equilibrar, assim, porque a vida precisa de equilíbrio, porque senão uma coisa não funciona sem a outra. “Ai, eu trabalho muito, eu só penso em trabalho”, então o seu trabalho não vai ser tão bom, porque você precisa ter o equilíbrio dos outros setores da vida, né? Isso eu aprendi muito no porto também, no trabalho, a antecipar. E aí eu me antecipo, me planejo e acabo conseguindo fazer uma coisa harmônica. Pra mim e pros que estão ao meu redor.  E as minhas coisas particulares: estudar inglês, que eu adoro, sou apaixonada, até hoje eu tenho aulas particulares. E fazer minha academia, fazer as coisas que eu gosto, viajar. Eu vou me programando antecipadamente, dá tudo certo.

 

P/1 – E quantos anos seu filho tem?

 

R – Meu filho tem onze [anos].

 

P/1 – E qual é o nome dele?

 

R – Yuri.

 

P/1 – E como foi se tornar mãe do Yuri?

 

R – Ah, foi a melhor experiência da vida! A melhor experiência da minha vida foi o meu filho, um amor incondicional. Eu aprendi o que é amor incondicional mesmo, recebido, foi da minha avó, da minha mãe, da minha família. Da minha família toda. E o dar do amor incondicional eu aprendi com meu filho. Porque é um amor, assim, fora do comum. É o meu maior presente. E ele é super interessado, viu? Pra saber, pra conhecer. Ele até participou, na BTP, eles têm muitos projetos. Eles são muito engajados, em todas as questões, é  muito legal. E aí, ele participou de um projeto de desenho que tinha que começar do porto e mencionar os perigos que envolvem o porto, tal, as regras da empresa, enfim. Ele desenhou, fez um desenho lindo e ele perguntou do prêmio, aí eu falei que tinha um prêmio, de uns brinquedos, alguma coisa assim e que talvez ele poderia conhecer o local que a mamãe [trabalha]… ele ficou super ansioso nessa parte também, de conhecer o trabalho, de poder ir lá. Ele tem muita curiosidade de saber: “Minha mãe trabalha em navios, porque ela usa essa roupa. Como é o lugar lá?” Porque ele já foi me buscar na porta, mas fica dentro do carro. Então, ele não conhece. Então, ele está super curioso pra conhecer. Ele é bem participativo.

 

P/1 – Você quer contar um pouco como você conheceu o seu noivo?

 

R – Ah, o meu noivo, na verdade, (risos) desde a época da faculdade, ele falou que ele ficava me vendo e eu passava e ele me achava linda e ficava me olhando. Eu não lembro dele, eu não me recordo. Eu acho que eu trabalhava tanto, saía correndo do Banco, vinha pra faculdade. E eu não me recordo muito dele. Aí, depois, passou a faculdade, passou tudo e eu não estava namorando, estava solteira e aí nós começamos a conversar (risos) pelo Messenger, pelo Facebook. Ele: “Ah, eu lembro de você, tal”. Começamos a conversar. Até, na época, eu não quis conversar com ele, porque eu vi uma foto lá, eu falei pra ele: “Não, mas você… eu não gosto de gente compromissada, tal”. Aí começamos a conversar e ele tem o mesmo perfil de ser muito alegre, assim, muito brincalhão. Porque a vida a gente tem que levar de uma maneira leve. Não dá pra ter rigor, assim. Já não basta a responsabilidade do trabalho, coisas importantes, que a gente tem que levar à risca, porque eu sou muito pragmática, muito séria em questões de trabalho, assim, tal. Mas aí a gente teve uma afinidade muito grande e muito respeito, muita lealdade, muita parceria. E aí foi isso, foi muito bacana. Ele tem uma relação muito legal com meu filho, eles são muito assim: tudo fazem juntos, conversam, querem fazer tudo juntos, é muito legal. E é isso.

 

P/1 – Luciana, como que a pandemia, assim, alterou a sua vida, seja profissional, ou pessoal, assim, suas questões?

 

R – Assim, não é brincadeira isso que está acontecendo. Eu acho que agora a gente já está meio que finalizando esse ciclo, se Deus quiser. As vacinas, aconteceu tudo isso, mas, assim, uma das piores coisas da pandemia foi ficar longe da minha família, não poder ver as pessoas, ver as minhas afilhadas, que eu tenho uma afilhada número um, tenho afilhada número dois, tenho afilhada número três. Tenho três princesas. Já que eu tenho um filho, aí eu tenho três afilhadas que fazem a linha do mundo rosa. E eu adoro as minhas, sou apaixonada por elas. Eu senti muita falta de encontrar com a minha família, ver a minha família, não poder abraçar direito, não poder… porque tem que levar à risca a coisa. Pelo menos, desde o começo. E teve a perda da minha sogra por conta da pandemia. Muitas pessoas indo embora assim, né? É uma coisa muito triste, foi isso. Eu cheguei a ficar com isso, nem sabia que eu estava com esse Covid aí, mas aí, depois, eu não tive sintomas, eu não… eu fiquei bem, tive um pouco de febre, logo fiquei bem. Mas isso aí põe à prova muita coisa. Eu acho que tem a parte de evolução como ser humano. Saber que a gente está só de passagem, que a gente tem que dar o nosso melhor, que a gente tem que fazer o nosso melhor pelos outros também, que a gente só está de passagem, que tudo aqui é emprestado. A gente tem que querer o melhor do mundo sempre, mas as pessoas vêm na frente das coisas, assim, alguns valores que foram postos, creio eu, à prova, pras pessoas melhorarem. E alguns aproveitaram, outros não, enfim, aí cada um, cada um.

 

P/1 – Luciana, e você percebe, assim - você sendo moradora de Santos desde pequena - o impacto do porto na cidade e quais são eles, assim?

 

R – Não, hoje, mais do que nunca, desde que eu entrei no porto e entendi a dimensão, ele praticamente movimenta a cidade e a região. A região toda, ele movimenta, gera empregos, gera oportunidades, movimenta a cidade, simplesmente. Uma coisa que eu achava que era uma coisa um tanto perigosa, restrita, quando eu era criança, pra algumas pessoas, tal, tem uma dimensão imensa de sustentar, de movimentar a cidade. Tem uma importância muito grande. Ele, praticamente, movimenta a cidade. Tem o turismo, tem uma série de questões. Mas ele é o que movimenta a cidade de Santos, é o porto. O porto é muito importante. Ele é importante, sai tudo de lá, vem tudo de lá, vai tudo pra lá. E são navios de outros países, esse intercâmbio de mercadorias, de coisas, é tudo o porto. Porque é um acesso rápido, é um acesso fácil, de um país pro outro, que a gente recebe a maioria dos navios, são de longo percurso, longo curso. E que vêm de outros países e tem os cabotagens também, que são do país, interno. Mas a gente vê muito essa movimentação, esse intercâmbio de mercadorias. É muito importante, é mais importante e tem uma dimensão maior do que as pessoas imaginam, né? Porque se projeta além de Santos, bem além.

 

P/1 – E o que representa, pra você, ter gerações de pessoas, na sua família, ligadas ao porto, trabalhadoras do porto, assim?

 

R – Ah, eu acho muito legal, acho que é um cenário bem desafiador. Porque você tem que… é bem desafiador. Eu fico muito feliz de poder ter seguido o que o meu pai fez. A função dele de conferente de navios, que eu achava incrível e aí, hoje em dia, eu tô fazendo isso e gostando do que eu faço. É uma oportunidade pra mim, que surgiu e casou com o meu perfil, com a minha satisfação de trabalhar com isso.

 

P/1 – E que o porto de Santos representa na sua história, o que significa pra você?

 

R – Ah, representa a superação, representa oportunidade, representa crescimento, representa um papel fundamental para história toda, né? Tem o café. Eu trabalho com containers, mas tem os grãos, tem os cafés, tem essa movimentação de mercadorias, de coisas e o dinamismo, as mudanças que você tem que estar acompanhando, pra você continuar. E representa uma parcela muito importante da economia do país. É muito importante, eu acho muito importante. É um cenário, assim, bem de transformação, de intercâmbio com outros países. É uma coisa que vem pelo mar, é rápido, não tem muito… e eu acho muito bacana, muito interessante.

 

P/1 – Luciana, e o que é importante pra você hoje, na sua vida?

 

R – Importante? Ah, número um, pra mim, é meu filho. Meu filho depende de mim, então, eu tenho que dar o melhor pra ele. É o meu filho, minha família, né? E abrangendo meu noivo. E também ter uma vida de saúde, de paz, de fazer as coisas que eu gosto também, esporte, que é bom pra saúde e poder viajar, poder estudar, porque eu continuo estudando bastante, não só inglês. Gosto de estudar. Poder equilibrar minha vida. E a minha família, meus amigos, as pessoas que eu gosto, ter uma vida bacana no dia a dia, sabe? Um bom relacionamento no trabalho, como eu tenho. Os meus amigos, meus colegas de trabalho. E isso é que é importante pra mim. Ter saúde, ver minha família com saúde, meus amigos com saúde. E que essa pandemia logo passe, que logo acabe isso.

 

P/1 – Quais são os seus sonhos para o futuro?

 

R – Ah, eu estou aberta a possibilidades, assim, de avanço na empresa, quem sabe, a gente não pode se limitar. Eu sou bem curiosa, ao ponto de aprender qualquer coisa que seja necessário. E eu quero ficar bem na empresa. Eu gosto sempre de poder participar de outras formas, de repente, uma outra oportunidade. Mas eu gosto do que eu faço, né? Eu gosto de ser conferente de navios. E eu tenho sonhos mais pessoais, assim. Viajar, realizar coisas pro meu filho. Eu tô noiva, pretendo me casar em breve. E ter a minha família perto. Essas coisas assim. (risos) 

 

P/1 – A gente já está chegando ao fim, faltam só duas perguntas. A primeira, eu queria saber se você queria acrescentar alguma mensagem que eu não perguntei, acrescentar alguma passagem que eu não tenha perguntado, ou deixar alguma mensagem, seja ela qual for. Esse momento é seu.

 

R – Não, a única mensagem que eu posso dar é assim: que as pessoas nunca se limitem. Que elas nunca se limitem, que elas sempre acreditem, que elas sempre acreditem que elas possam realizar o que elas querem, sem limitação. Porque, se eu fosse limitada, eu ia falar: “Imagina, vou trabalhar em porto, é perigoso, só homem, imagina, que medo, que isso, que aquilo”. Eu não tenho medo de nada, sou super corajosa. Eu tenho cuidado, mas medo eu não tenho. E eu consegui fazer uma coisa que, de repente, é rara. São poucas mulheres que trabalham… na minha empresa, acho que são eu e mais duas só, conferentes. Tem bastante conferente, a gente movimenta muito. Então, foi um desafio, né? Já tive outros desafios também e a única mensagem que eu tenho, assim, é pras pessoas sempre acreditarem e fazerem a sua parte, pra coisa acontecer, porque no tempo certo, ela acontece.

 

P/1 – Na verdade, eu queria saber o que você achou de ter dado essa entrevista hoje, de ter contado uma passagem da sua vida, da sua trajetória. Eu sei que não é muito, mas é um recorte que eu acho que abarcou bastante do que é a Luciana. O que você achou?

 

R – Ah, eu gostei, gostei dessa experiência. Gostei de conversar com vocês, gostei das pessoas. Eu sou bem observadora, as pessoas são bem profissionais. Eu cheguei aqui, já estava tudo bonitinho aqui. E o jeito como a Duda conduziu o convite pelo WhatsApp. E conversar com você também, você tem muito carisma, você é muito simpática e eu fiquei muito à vontade, isso foi muito legal. A princípio, né: “Nossa, vou falar da minha vida, vou…”. A gente fica um pouquinho assim, tal. Mas você me deixou tão à vontade, como se eu te conhecesse há muito tempo, as pessoas aqui também. Então, eu fiquei muito à vontade de conversar. Às vezes, talvez eu não tenha passado tanto porque são tantas coisas, tantas, que a gente acaba deixando, né? Não dá pra conversar sobre tudo. Mas você foi bem completa, assim, nas perguntas até. Bastante… nós conversamos bastante. Não sei se eu passei, eu… que eu, talvez, eu sou aquela pessoa que se cobra, se auto cobra. Talvez eu poderia ter passado coisas mais interessantes, mais legais. Mas eu fiquei tão à vontade, que eu simplesmente deixei acontecer a entrevista, a conversa. Foi muito gostoso, eu agradeço. Eu agradeço e desejo muito sucesso pra vocês.

 

P/1 – Muito obrigada, Luciana. Foi incrível. Você foi incrível, de verdade. A gente – assim, falo por mim, mas falo pelo museu mesmo - gosta de pessoas assim, que sejam simpáticas, que estejam à vontade para contar a história e você foi incrível mesmo. Fiquei muito feliz de ter feito essa entrevista.

 

R – Eu também.

 

P/1 – Foi um belo começo de sexta-feira.

 

R – Com certeza.










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