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História

A curiosa história de um médico que foi parar na Companhia Antarctica, indústria de bebidas

História de: Antônio Henrique Martins Santos
Autor: Sophia Donadelli
Publicado em: 13/06/2021

Sinopse

Doutor Antônio Santos, médico, foi pioneiro no caso de cesárea pós-morte da mãe, com sobrevivência da criança. Ao chamar o elevador de um hospital, não sabia, mas conheceu dona Erna, que presidiu a Fundação Antonio e Helena Zerrenner Instituição Nacional de Beneficência, de quem recebeu, posteriormente, o convite para trabalhar na Fundação. Em sua atuação como médico, ao atender um paciente que estava aguardando atendimento no hall de um hospital, nem imaginou que após este atendimento, surgiria o convite para trabalhar na Antartica. No momento desta entrevista, tinha completado 40 anos de dedicação na Antarctica.

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História completa

Projeto: Memória Viva AmBev

Entrevistado por: Beth Quintino e Ana Elisa A. Viviani

Depoimento de: Antônio Henrique Martins Santos 

Local: São Paulo
Data: 26/10/2006
Realização: Instituto Museu da Pessoa
Código: AMBEV_HV030
Transcrito por:  ?

 Revisado por: Cristiane Yayoko Ikenaga Fernandes

 

 

P1 – Bom dia, Antônio. Obrigada por você estar nos recebendo. Gostaria de começar a conversar com você, pedindo para falar o seu nome completo, data e local de nascimento.


R – Meu nome completo é Antônio Henrique Martins Santos. Nasci em Itapetininga, Estado de São Paulo.


P1 – Em que ano foi?


R – Em 11 de julho de 1940.


P1 – E você veio para São Paulo como? Quando criança ou já adulto?


R – Não, não vim quando criança. Itapetininga é muito próxima da região Sul do Estado de São Paulo. Então, naquela época, Itapetininga era um centro de ensino muito forte. Foi a segunda escola normal, colégio estadual, do Estado de São Paulo. Primeiro, foi Bauru. Até ficou conhecida como Atenas do Sul, muito mais forte, inclusive, do que Sorocaba, cuja distância, para nós, era de 80, 90 km. Bom, o que que acontecia? Nós fazíamos o ginásio, o colegial sempre no ensino governamental e, depois, o pessoal migrava para o Sul, principalmente para o Paraná. Quase que não vinham para São Paulo em busca das escolas superiores. Eu tinha interesse em fazer Medicina e eu estava servindo, em 1958, em Itapetininga, e teria dificuldade, durante um ano, no preparo para o vestibular. E eu resolvi pedir transferência para Sorocaba. Então, terminei o meu serviço no Exército, em Sorocaba. Paralelamente, comecei a frequentar o cursinho preparatório que tinha em Sorocaba, para o vestibular para Medicina. Na véspera de me desligar do Exército, no dia 19 de novembro, data do Dia da Bandeira, veio um colega de Curitiba - que tinha sido colega do primeiro ano do colegial em Itapetininga e que acabamos muito amigos enquanto ele esteve em Itapetininga - e ele disse que eu fiz uma promessa que eu iria para lá, no término do colegial. Eu relutei um bocadinho, mas ele não se desligava de mim. E eu precisava estudar. Então, liguei para a mamãe, em Itapetininga, e falei: “Escuta, está acontecendo isso”. Ela sempre foi uma pessoa muito viva, muito inteligente, apesar de não ter cultura e me disse o seguinte: “Filho, diz a ele que você vai com ele. Você passa o Natal conosco e no dia 26 você vai. E, em seguida, você arruma qualquer pretexto para voltar porque eu acho que a sua vida, agora, está do lado de cá”. Bom, eu fui e realmente tive alguma dificuldade de adaptação. Tinha duas escolas funcionando naquele momento, duas faculdades: a Federal do Paraná e a Católica. E eu me inscrevi nas duas. Prestei o vestibular na Federal e, como eu realmente não estava muito bem acomodado em Curitiba – se bem que é uma cidade maravilhosa –resolvi não fazer na Católica e vim embora. Vim para Itapetininga, aguardando o vestibular de São Paulo, que eu deveria prestar aqui. Nesse intervalo, esse meu amigo aparece novamente em Itapetininga com o resultado da faculdade, que eu tinha entrado. E entrei muito bem na escola, muito bem situado. E daí, ele me entusiasmando: “Não, você não vai fazer em São Paulo. Vai comigo para lá. Eu entrei também. Vamos juntos”. E realmente acabei voltando para Curitiba, me formei lá. Foi uma grata resolução minha, com certeza.


P1 – Só, voltando um pouquinho, depois a gente volta para Curitiba, eu queria que você falasse um pouquinho da sua família. Como foi, se eles eram da mesma cidade...


R – É, eles eram da mesma cidade e era uma família muito humilde. Eu sou muito grato a eles porque nós éramos em seis. Perdemos dois irmãos, um logo depois que nasceu e outro, com 10 anos de idade. E, dos quatro que restaram, eu me formei em Medicina, meu irmão em Engenharia – o mais novo. A Maria Aparecida fez Engenharia também e a outra irmã, Ciências Contábeis. Todos com nível superior. Isso, a gente tem uma gratidão enorme pela luta deles de nos proporcionar os diplomas de curso superior, apesar do nível, da humildade deles e dos parcos recursos.


P1 – Antônio, os seus pais faziam o que? Eles eram de Itapetininga? Eles eram brasileiros?


R – Brasileiros, de Itapetininga, de famílias de lá.


P1 – Aí depois você foi para Curitiba. Você tinha quantos anos quando entrou na universidade?


R – Eu entrei na faculdade no começo de 1960. Eu me formei no colegial em 1958. Em 1959 fui servir, fiz o cursinho e, logo em seguida, entrei na escola, em 1960, junto com a inauguração de Brasília. E deixei Curitiba, apesar de convites para permanecer, no final do curso. Tem uma passagem que eu sou muito feliz de ter contribuído: o primeiro caso de cesárea pós-morte da mãe, com sobrevivência do feto, foi meu. É uma história muito bonita. Se vocês permitem, eu conto.


P1 – Por favor.

R – Nós estávamos no final do curso e chegou a fase de estágio na Ginecologia-obstetrícia. E a gente chegava no Hospital das Clínicas – lá, Hospital de Clínicas – muito cedo. Nós éramos em dez colegas. Então, logo que entramos na área em que permaneceríamos fazendo estágio naquele dia, o professor Braga e um anestesista do grupo - ele era comandante da Obstetrícia e professor nosso – nos reuniu para apresentação de um caso que eles estavam tomando decisões de como seria a melhor forma de conduzir. E a exposição do professor foi a seguinte: “Nós estamos com uma paciente aqui do norte do Paraná, ela tem um tumor no tórax – era um linfoma – e está grávida de seis meses”. E colocou todos os dados referentes a essa paciente e qual seria a opinião de cada um. Eu perdi de nove a um. Aliás, nove não, porque o professor também era contra e o anestesista também. Eu achei que poderia haver uma tentativa de retirada dessa criança com vida. As coisas não acontecem por acaso. A primeira cesárea do dia, eu fui chamado para fazer junto com o professor e depois fiquei na lista de espera porque teria que todos passarem por um ato cirúrgico idêntico ou outro para que realmente eu tivesse a oportunidade de voltar a um procedimento. E às 16 horas, 16h30, todos entraram em cirurgia, todos os colegas, só eu de fora. E eu fui para a sala do professor para assistir à aula porque eu queria acompanhar a cirurgia dele com o colega meu. Eu fiquei de frente para ele, numa escadinha desse tipo, de dois degraus, porque eu sou pequeno. Subi e fiquei assistindo à cirurgia. Nisso, entra uma auxiliar de enfermagem chamada Zael – nunca me esqueço. Chegou: “Professor Braga, Professor Braga, a paciente do leito tal está morrendo”. Ele levantou a cabeça, deu comigo e falou: “Antônio, vá e faça o que você acha que deve fazer”. Bom, eu subi correndo com a Zael, chegamos em uma enfermaria – acho que tinha três ou quatro leitos, não me recordo – e a paciente, realmente eu examinei e ela estava falecendo. E eu falei para a Zael: “Zael, não tem material aqui?” Ela falou: “Olha, o pessoal da cirurgia veio aqui para fazer uma traqueostomia, em uma tentativa de aliviar a parte respiratória dela - que também eram colegas meus que estavam estagiando na área de cirurgia – mas eles chegaram à conclusão de que não teria resultado porque o tumor era baixo e não adiantaria nada fazer uma abertura superior na traqueia”. E o material estava nos pés da mesa, em uma mesa móvel que as pessoas utilizavam para levar o alimento para o paciente. Eu trouxe a mesa, abri e tirei a criança. Nesse momento, tinha um colega meu, o Hiroshi, que estava fazendo estágio na Pediatria e Berçário – ele estava do meu lado -, eu entreguei a criança para ele, cortei o cordão e ele saiu correndo com a criança. Bom, parou a enfermaria. Foi um quadro inusitado. Imagina fazer alguma coisa em cima de uma cama nessas circunstâncias. Eu fechei a paciente, tudo, não voltei para a Obstetrícia, fui para o vestiário e daí eu comecei a chorar. Pensei: “Será que eu tinha o direito de fazer isso?” Eu me troquei e nisso entrou o Braga, me cumprimentou e falou: “Antônio, parabéns, você tirou a criança”. E eu pedi a ele que gostaria de ficar alguns dias porque aquilo tinha me chocado um bocado. E ele me deu alguns dias, dois ou três, e eu vim para Itapetininga ficar com os meus pais e relatei o fato. E papai, do jeito que ele era, aquela humildade, junto com a mamãe, falou: “Olha, você volta para lá e, se for possível, nós temos a intenção de adotar essa criança”. Eu voltei, mas o pai não quis nem me receber. Aliás, não quis nem me conhecer. Respeito total. Isso foi em novembro. Acho que foi dia 25 de novembro. No final de dezembro, nós colamos grau. Foi dia 18 ou 20 de dezembro. Fui embora. A gente era pobre, eu não estava colocado lá. Lá, eu tinha convites, inclusive na Obstetrícia e na Pediatria, que eu fiz um curso razoavelmente bem. Até o professor da Pediatria tinha me dado uma carta de apresentação aqui no Hospital São Paulo. E antes que isso acontecesse, acabei caindo no São Lucas, o que eu estava falando para ela, para o serviço de cirurgia. Mas, passados alguns meses, eu quero crer que foi no mês de maio, eu estava descendo a (Rua da) Consolação – eu fui morar ali num prédio com ajuda de amigos na Rua Caio Prado, em um edifício bem perto da Consolação. Eu desci – era uma manhã – fui em direção à Praça Roosevelt e encontrei com uma professora de Pediatria no caminho. Foi uma festa. Nós dois... e ela me contou: “Eu tenho uma notícia boa para você. Aquela criança que nasceu com 600 gramas saiu viva, foi embora. Teve alta com quase 3 kg no Hospital de Clínicas. Isso foi uma alegria enorme para mim. Mas é um fato inusitado, que marcou muito a minha vida. Acho que aquilo era um chamado para eu ser cirurgião. E foi o que aconteceu.


P1 – E que ano você chegou aqui em São Paulo?


R – Em 1966.


P1 – 1966?


R – No dia 2 de janeiro de 1966, com uma mala que eu não sabia nem para onde ir. Não sabia. Não tinha onde ficar. E no ônibus encontrei com um colega do colegial. Ele me perguntou: “Ô, Santos, você está indo para São Paulo? O que você vai fazer?” “Fazer eu não sei?” Ele estava terminando Direito– um advogado famoso, Dr. Nelson Barti, falou: “Escuta, as minhas irmãs estão de férias. Você não quer ficar no apartamento?” E eu fiquei lá dois dias. No terceiro, eu consegui uma vaga no sanatório, no Hospital São Lucas – era conhecido como Sanatório São Lucas também, serviço de Eurico Branco Ribeiro, que foi um cirurgião famosíssimo e que também me recebeu para fazer estágio lá. Até a minha chegada, todos os que procuravam estágio no São Lucas, tinham que pagar o estágio. Eu fui o primeiro que foi recebido sem necessidade de pagar estágio. As coisas, quando têm que acontecer, acontecem. E eu fiquei praticamente morando ali. No fim do mês, tinha um plantonista que tinha sido meu contemporâneo de escola, de faculdade. Eu fui calouro dele, Antônio Carlos Pântano, que hoje trabalha em Itatiba. Por sinal, um excelente profissional também. E ele soube que eu estava lá e apareceu uma vaga aqui no Santa Helena como plantonista. Daí ele me convidou. Eu vim aqui, conheci. Daí eu fui ao Eurico. Falei para ele: “As minhas condições financeiras são precárias. Surgiu essa oportunidade também. Não vai alterar nada porque é na parte da tarde e nos fins de semana, alternadamente nos fins de semana, como plantonista. Me ajudaria financeiramente”. E o Eurico também me deixou. Foi quando, no dia 2 de fevereiro de 1966, eu entrei no Hospital Santa Helena. Agora vocês querem saber como o Antônio encontrou o Santa Helena?


P1 – Exatamente!


R – Eu tenho várias passagens, mas não vou tomar realmente o tempo de vocês. Vou procurar resumir ao máximo.


P1 – Não, pode contar.


P2 – Pode ser bem detalhado.


R – O diretor daqui chamava-se Fernando Cunha, um português, muito complicado em termos de comunicação, mas acabou me recebendo, aceitou a minha chegada, já me colocou para o trabalho e a gente estava começando a se adaptar ao serviço. Bom, o Hospital Santa Helena, para vocês terem uma ideia, era simplesmente maravilhoso se comparado com outros hospitais daqui do Planalto. Não vou citar nomes. Não existia o Sírio ainda, não existia o Einstein, mas do resto, nós tínhamos uma posição invejável. Não só de área física, de centro de material. O material cirúrgico era todo importado, de primeiríssima qualidade. Tanto que eu, que comecei no São Lucas, onde o material não tinha o mesmo nível daqui, fiquei assustadíssimo. Assustadíssimo. E aqui circulavam os maiores nomes da Medicina daquele momento em São Paulo, que frequentavam e internavam os seus pacientes no Hospital Santa Helena. Um hospital essencialmente cirúrgico. A área de internamento era maravilhosa, muitíssimo bem cuidada. Sobravam funcionários. Todos eles, em geral, com descendência, com um link com a raça alemã. E era impressionante. Para vocês terem uma ideia, porque esse pessoal frequentava, não só pela qualidade do serviço, pela apresentação do serviço, mas foi também o primeiro hospital de São Paulo a ter centro cirúrgico.


P1 – Foi o primeiro hospital?


R – Aqui. Então, imaginem vocês o momento que eu estava vivendo. Eu permaneci muito pouco tempo como plantonista. Graças a Deus, fui galgando conhecimento, relacionamento com o pessoal daqui. Descobriram que eu tinha, que estava me encaminhando para a formação cirúrgica no serviço do Eurico, e logo, logo, fui convidado para ser assistente de cirurgia. E, gradativamente, acabei cirurgião. Não vou entrar em detalhes porque foi uma ciumeira enorme. Mas o Antônio acabou. Bom, para vocês terem uma ideia, para não ter conflito com outro cirurgião, com outros cirurgiões, eu fui colocado em dias diferentes para fazer a parte clínica cirúrgica e a atividade cirúrgica, para não ter choque. A ciumeira era enorme, a ponto que eu fui colocado à disposição do serviço duas vezes.


P1 – Nossa!


R – Por uma questão de estrela, realmente eu vou contar para vocês de onde veio essa estrela. E novamente lhes digo que as coisas não acontecem por acaso. Um domingo - era umas 10 horas da manhã e o meu mundo era o Santa Helena e o Sanatório de São Lucas – entra uma senhora, já de alguma idade, magra, muito bem maquiada, com o cabelo muito bem arrumado – era começo já de outono, ou começo de inverno naquele ano de 1966 – e eu estava no saguão do hospital, ali onde hoje é a capela. Tinha um elevador pequeno e um elevador que conduzia pacientes. E ela foi em direção ao elevador pequeno. Eu me antecipei e chamei o elevador. E ela ficou olhando para mim e disse: “Quem é o senhor?” – com sotaque alemão. Eu falei: “Eu sou o Antônio. Sou médico plantonista aqui”. E ela estava acompanhada de uma outra moça e falou assim para mim: “Eu gostaria que o senhor me acompanhasse. Eu vou visitar um paciente”. E lá vou eu. Subi no elevador, fomos para os andares e no apartamento de um paciente um bocadinho humilde. Quando ele a viu, ele não acreditou. “Mas a senhora aqui veio me visitar?” Ela falou uma porção de coisas, elogiou, enrolado com o alemão dela, e encerrou aquela visita. Desci novamente com ela e também aproveitei e fui até o pátio, onde o carro estava estacionado. Até me recordo bem, era um Landau. Eu fui abrir a porta. O motorista veio e falei: “Não, deixa que eu abro”. Ela entrou com a outra moça e foram embora. E aquilo ficou por isso mesmo. Passado mais ou menos uma semana, ela me mandou chamar na Antarctica. Ela era irmã do dr. Belian e comandava a Fundação. E ela me disse, do jeitinho dela, que tinha ficado muito impressionada comigo. Contou-me algumas coisas da Fundação. Ela tinha uma paixão pela Fundação e eu realmente estava participando dela. E ela queria que eu fosse um cavalheiro da Fundação. “Tá bom. Eu vou ser”. Logo em seguida, acabei sendo muito amparado por essa criatura porque eu estava vivendo aquela fase de crescimento profissional e eu tinha um filho de 3 anos, loirinho, de olhos azuis, de uma inteligência notável. Notável, com coisas que impressionavam a conduta dele. E eu cheguei uma tarde em casa e notei que o andar dele estava diferente. Chamei minha ex-mulher e falei: “Escuta, o que que está acontecendo com o Adriano? É fralda? Alguma coisa?” Ele tinha vindo na minha direção. Era umas quatro e pouco da tarde, a hora que eu fui almoçar. Aquele andar me impressionou. Eu tinha formação cirúrgica e de Pediatria também porque, como eu lhes disse, eu vim com a intenção de dar continuidade na minha formação pediátrica. Eu peguei o telefone e liguei para um neurologista infantil. Não vou mencionar o nome. Falei: “Escuta, amigo – eu me identifiquei – eu cheguei em casa agora e notei o andar do meu filho de 3 anos e realmente fiquei impressionado. Ele deve estar com alguma patologia central”. Aí levei uma dura: “Ah, filho de médico. Pai médico é sempre assim, sempre pensa o pior”. Eu falei: “Tudo bem, doutor. Tudo bem. Dá para o senhor dar uma vista de olhos, dar uma olhada?” Ele foi muito atencioso: “Pode trazer”. E aí a minha ex-mulher levou. Eu não fui. Ele pediu em caráter de urgência um raio X do crânio, um exame de líquor e um eletro, que eu fiz em caráter de urgência. E recebi uma ligação dele. Seu filho está com uma hipertensão craniana e precisa ser operado imediatamente. Foi aí que começou todo o meu amparo. A dona Erna, quando soube, me ajudou muito - não financeiramente, mas com carinho, de mandar alimentação, tentando – ela era muito espiritualista – procurando, dentro do espiritualismo dela, um apoio. Pessoas iam, até espíritas iam em casa. E foi todo aquele amparo. Para encurtar toda essa situação e esse momento, eu acabei perdendo a criança. Então eu tive que reformular a minha vida em termos de formação profissional: “Vou continuar como cirurgião geral e não vou fazer carreira universitária”. E me apeguei à Fundação. Realmente era para ser um lutador da Fundação.


P1 – E, Antônio, antes de você conversar com a dona Erna, na Antarctica, a primeira vez que você foi, você já conhecia a história da Antarctica e da Fundação?


R – Nada.


P1 – Nada?


R- Nada porque eram os primeiros meses que eu me encontrava aqui. E a Antarctica não vivia o hospital. Mandava os pacientes, mas a gente não sentia. Existiam as reuniões da mesa administrativa da Fundação, mas era o pessoal da Fundação que vinha. Era feita aqui, na sede a reunião. E, de vez em quando, vinham algumas pessoas que eram da Antarctica, mas que não tinham um link com a Fundação também. Então a gente não tinha contato. Era o hospital aqui e a Antarctica lá. Bom, daí vem o segundo momento. Bom, e daí? Como é que o Antônio foi parar na Antarctica?


P2 – Posso perguntar uma coisa, dr. Antônio? Em que ano que o senhor se tornou, então, oficialmente cirurgião da Fundação?


R – Em 1967 eu já era...


P2 – 1967?


R – Já era cirurgião da Fundação. Porque eu tinha a minha formação cirúrgica lá. Grandes nomes da cirurgia lá também. E muita gente que ia fazer estágio com o Eurico aqui. Da América do Sul, da América Central, e também da Europa. E ele era muito conhecido pelo que escrevia. Ele fazia cirurgia gastroenterológica. Eu não vi ninguém operar mais rápido que o Eurico em toda a minha vida. Ele cronometrava. Ele tinha uma enfermeira que cronometrava. Ele começava a cirurgia e falava para ela: “Posso começar?” Ela dizia: “Pode, professor”. Ele operava um estômago em 20 minutos, de pele a pele. Eu nunca tinha visto uma coisa igual. A gente tinha que ter uma habilidade para trabalhar com ele... Impressionante! Impressionante! Então, isso me ajudou muito. Tivemos outros grandes cirurgiões que passaram por aí, ligados à Universidade de São Paulo também e a gente foi aprendendo. Então, isso ajudou um bocadinho na minha ascensão aqui. Mas, um pouquinho antes... era isso o que você queria saber?


P2 – Oi?


R – Era isso o que você queria saber?


P2 - É, eu queria saber quanto tempo que...


R – Eu ia passando pelo hallzinho da sala de espera que tinha aqui no Santa Helena e vi um senhor com uma pessoa, uma senhora. Ele era magro, baixo e estava recolhido, num tremor... Eu não estava dando consulta como plantonista. Era na parte da tarde e por um motivo qualquer eu estava aí. Eu me compadeci dessa criatura e fui lá: “O senhor não foi atendido ainda?” A mulher falou: “Não, ele não foi”. Ele fez “assim” com a cabeça. Eu fui até o consultório, abrir - eu vi que o consultório estava livre – e botei ele para dentro. Botei para dentro, examinei e cheguei à conclusão de que ele estava com uma infecção urinária grave. Naquele momento, o laboratório do Hospital Santa Helena estava terceirizado, então, o pessoal vinha de fora fazer a coleta do material na parte da manhã e levava de volta. Então, eu não tinha o amparo do laboratório. O que que eu fiz? Eu recolhi a urina dele. Sondei ele. Botei num frasco estéril e saí. Fui lá no São Lucas. O chefe do laboratório estava lá – era o Eric - e eu falei: “Eric, estou precisando ajudar uma pessoa”. “Não, Antônio, está aqui”. Pegou o material, preparou e falou: “Antônio, só não dá para dar informações da cultura porque isso aqui eu vou semear, mas ele está com uma infecção urinária extremamente grave”. Eu voltei, falei para ele: “Olha, eu vou medicar o senhor”. Porque era assim, quando a gente internava alguém, a gente, na parte geral, a gente não colocava no nome da gente. A gente colocava no nome do clínico geral, que era chefe do serviço. Só que ele só iria ver essa criatura no dia seguinte. Então, eu entrei com a primeira medicação. No dia seguinte, ele passou a ser visitado pelo clínico geral da casa, mas eu continuei acompanhando. Assim eu ia lá, perguntava para o clínico e, no fim, acabamos grandes amigos, eu e o dr. Ernesto de Azevedo. Famoso até pelo nome: Azevedo. É, daquele pessoal do centro da cidade. E o Ernesto permitiu que eu fosse lá e visitava esse senhor. Ele chamava-se dr. Pupo Nogueira. Ele foi até Secretário... era militar, da Polícia Militar, e foi, inclusive, Secretário de Segurança em São Paulo. Mas uma criatura extremamente agradável. E eu ia lá, me comunicava com ele, tudo, mas em uma das últimas vezes, ele estava para ter alta, fui visitá-lo e ele me disse: “Antônio – chamou de doutor...” “Não, sou o doutor de lá, dr. Pupo”. E ele falou assim: “Você gostaria de trabalhar na Antarctica?” “Nunca me passou pela cabeça, mas tudo o que vier para somar...” Já estava com quatro filhos, três filhos encostados. Pensei: “Preciso de dinheiro, preciso arrumar minha vida.” Ele teve alta, tudo e um belo dia recebi um convite para me apresentar para uma entrevista. Fui lá e a pessoa, acho que não estava com muita vontade que eu fosse, colocou uma série de obstáculos, mas daí, um cidadão médico, que era amigo do diretor aqui, resolveu voltar para Portugal. O cidadão não teve outra alternativa a não ser me recolher. E daí eu nunca mais saí. Saí depois, com a fusão. E diminuí também o ritmo porque em 1995, fui convidado para ser diretor do hospital. Então, dia 2 de fevereiro, eu fiz 40 anos de casa.


P1 – Nossa!


R – Então eu conheço aqui muito, muito, muito, muito.


P1 – E, Antônio, como que era essa preocupação que a Antarctica tinha com os funcionários dela?


R – É, veja bem, Beth, a Antarctica, por esse espírito do dr. Belian e da dona Erna, ela foi muito.... carregava o pessoal no colo. A atenção, o amparo que nós tínhamos e continuamos tendo, nós, beneficiários, porque eu faço parte, pela idade e pelo tempo de casa, mas sempre tivemos um amparo enorme. E eu, aqui, continuo sendo um indivíduo que procuro intermediar todas essas situações difíceis junto ao Conselho, junto às superintendências, no sentido de colocá-los rapidamente a par do que acontece para que essa ajuda venha. Eu tenho liberdade, dentro da urgência, de tomar a iniciativa que eu tiver que tomar. Eu acho que isso é muito importante. Depois eu relato, participo, porque devo satisfação a eles, com certeza.


P1 – De quando você entrou, que tem 40 anos, foi na década de 60, 66, 67, o Santa Helena era o que é hoje, em termos físicos, de leito... eu queria que você falasse um pouquinho o quanto atendia.


R – Não. Eu vou entrar numa área realmente para pisar em casca de ovos. Com a minha vivência aqui dentro, eu sempre tentei sensibilizar o Conselho Orientador, que ficava na Antarctica, a mesa administrativa na Fundação, que era na Avenida do Estado, para que voltassem os olhos para cá porque... o que que aconteceu? Que Deus os tenha, como diz o Gabilan, se eles assim o merecerem, eram indivíduos que não tinham vivência fora do Hospital Santa Helena. Então, o Hospital Santa Helena ficou atrás de uma barreira. E aquilo que eu falei para vocês da minha chegada, que eu fiquei impressionadíssimo com aquilo que eu encontrei, aquelas figuras de alto nível na esfera médica, frequentando, operando, internando aqui, de repente o hospital começou... a área física a deteriorar, o material não era reposto no mesmo esquema, havia uma preocupação de não estar importando mais, só aquilo que era extremamente necessário, em busca de recursos dentro do país e a gente começou a sentir que realmente o nível começou a cair. Não só a área física, como aqui dentro também, o material todo e os recursos técnicos. Para se ter uma ideia, os pacientes aqui, no início, na minha chegada, e em alguns anos que se seguiram, eles eram atendidos com baixela de prata. Alimentação de primeiríssima qualidade. Se esbanjava realmente. A fartura era enorme.


[continuação]

... só tínhamos enfermarias, quartos com banheiro no corredor, acesso direto do elevador no centro cirúrgico, tudo isso que eu achava umas aberrações. A sorte é que o serviço ainda mantinha gente bastante qualificada que cuidava da manutenção, da assepsia, da limpeza. Isso nunca faltou internamente. Isso nunca faltou. Sempre foi prêmio em cima de prêmio, se tivéssemos realmente concorrido com alguma coisa. Mas o hospital começou a sofrer todo esse desgaste. Imaginem vocês que, quando eu cheguei aqui, a gente emprestava material para o Santa Catarina, para a Beneficência Portuguesa, para o Hospital Santa Cruz, que é dos japoneses, e para o Osvaldo Cruz. Chegaram a fazer pedidos para nós de material. E nós os amparamos muitas e muitas vezes, para vocês terem uma ideia da qualificação desse serviço. E, de repente, eu, que vivi essa situação, esse momento, eu comecei a sentir que as coisas não iam bem. Começou a deteriorar tudo. Eles eram pessoas que não tinham vivência lá fora. A Beneficência começou a crescer, o Hospital Osvaldo Cruz começou a se aprimorar, o Santa Catarina começou num investimento enorme, surgiu o Einstein e o Sírio Libanês. E a gente não assistia nada acontecendo aqui. E essa era a minha revolta com relação ao pessoal da Antarctica e da Fundação.


P1 – Mas, dr. Antônio, isso começou a acontecer depois do falecimento da dona Erna?


R – Primeiro, o dr. Belian. Eu acho que a morte do dr. Belian – isso eu tenho uma revolta também porque a gente, na vida, não pode ser muito importante, principalmente quando depende de procedimento médico. Com a formação que a gente tinha... eu era da opinião que o dr. Belian tinha que ser operado imediatamente por causa da idade dele. Ele não poderia ficar deitado em uma UTI, uma UTI que estava começando aqui e da qual também tenho participação porque ela só se implantou porque um parente de um secretário da dona Erna, uma senhora, veio necessitar de um serviço de amparo maior, de urgência e de nível. E ela realmente acabou sendo transferida. Aí foi o marco de abertura para que se criasse aqui – dona Erna era viva e conhecia muito o casal - e houve uma abertura para que se instalasse a UTI, mas começou se instalando gradativamente. E logo em seguida o dr. Belian sofreu uma fratura, veio para cá e houve a ingerência de muita gente, querendo trazer pessoas de fora, espiritualistas, para conduzirem dentro da espiritualidade a cura dele, e eu assistindo àquilo. Eu, pequeno, dentro do sistema, fui ao diretor clínico e ao clínico geral e disse: “Meu Deus, esse homem não pode ficar no leito”. E os dias foram se passando, ele teve uma pneumonia e faleceu. Realmente houve mudanças com a morte do dr. Belian. Foi instituído um colegiado e realmente as coisas começaram a se voltar mais para lá do que para a Fundação. A gente sentia isso, mas ainda tínhamos o respaldo da dona Erna. Apesar da idade, ela estava sempre atenta ao Hospital.


P1 – Ela vinha muito ao hospital?


R – Ela, sempre que possível, vinha. Ela vinha ao hospital. Ela e a Elisa, que era uma filha adotiva dela e da qual eu tenho uma história muito interessante também, e que se for possível, eu conto a vocês. Foi a terceira vez que eu fui colocado à disposição do hospital. Ela ainda era viva. Mas o hospital começou a deteriorar e eu, pelo menos, vivia extremamente irritado de ver a sequência das coisas. Muitos convênios vieram para cá. Convênios que não tinham nível, e o processo de deterioração continuou com maior velocidade. Daí aconteceu em 1995, quando o Victório resolveu tentar mudar as coisas. O diretor, naquele momento, daqui, já tinha um bocadinho de idade também, e surpreendentemente ele me convidou. Sabia que eu tinha os olhos voltados para uma melhoria daqui, me apoiou e eu acabei vindo como diretor. Me desliguei de tudo e vim como diretor. Também, pelo amor que eu tinha à casa. pelo amor que eu tinha à casa. Mesmo porque, já não conseguia conviver com o ambiente, procurei me afastar e ficar na Antarctica só e só vinha operar os casos aqui que eu selecionava na Antarctica. Eu marcava minhas cirurgias aqui e vinha no dia, só, da cirurgia. Mas o vínculo empregatício deixei de lado. Daí voltei em 1995, depois de dois, três anos, não sei, como diretor. E realmente falei: “Não, se é para...” O Hospital Santa Helena era como construção de igreja: sempre vivia com reforma. Nunca acabava, mas nunca dentro de um Plano Diretor. E foi isso o que começamos a fazer. Me cerquei de alguns técnicos, engenheiros, calculistas, tudo, e fui tocando quase ou sem nenhum apoio da Fundação. E porque o Conselho Orientador havia me convidado, mas não deu satisfação para a Mesa Administrativa. Eu não sei se devo continuar nisso, mas a grande verdade é essa. Então, eu tive um bocadinho de dificuldade nesses cinco anos, de realmente conduzir a coisa aqui dentro. Mas estava iniciado o processo de modernização do Santa Helena. Até com dificuldade enorme, os resultados começaram a aparecer, não só na área física. Me cerquei dos melhores nomes de grupos médicos que tinha no momento, que eu conhecia o padrão, o nível. Começamos com trabalhos extraordinários aqui dentro a ponto de publicações no exterior já tivessem começado e por quê? Porque a cabeça minha era o seguinte: fazer disso aqui um hospital de referência para todo o Brasil, para todo o Grupo Antarctica – naquele tempo não tinha Brahma. Essa era a minha cabeça: de trazer para cá ou coordenar toda a medicina no Brasil, de todos os pontos onde nós estivéssemos situados. E, em cima disso, eu fui modernizando a coisa até o ponto que, num período muito próximo à fusão, eu havia recebido uma carta, que eu tenho até hoje, do Conselho Orientador, elogiando o início do resultado financeiro do Hospital Santa Helena. Só que o resultado financeiro do Hospital Santa Helena não era só do Santa Helena, era da creche, era do ambulatório. Então, realmente, a Fundação, naquele momento – porque o repasse de verbas da Antarctica para a Fundação tinha caído muito – então, era aquela fase que precedeu. E eu havia recedido já uma carta elogiando o resultado, que só não era melhor por causa do envolvimento da parte financeira estar sempre envolvida com essas outras áreas. Depois veio a fusão e eu fui uma das pessoas que lutou para que a Fundação fizesse parceria com a Unimed Paulistana que, no meu tempo, já mostrava que era um bom parceiro. E alguns grupos, por fora, estavam tentando fazer parceria aqui dentro, para ficar com o hospital, mas, graças a Deus, procurei mostrar ao Conselho Orientador que o caminho deveria ser realmente com a Unimed Paulistana. E, hoje, eu sou grato aos resultados e fico feliz de a Fundação estar com esse grupo.


P1 – O Hospital Santa Helena sentiu muito com a coisa da fusão ou não foi algo que atingiu diretamente?


R – Olha, foi uma boa pergunta, viu, Beth? Porque aquela parte humanitária nossa, que prevalecia na Antarctica, na Fundação, essa cultura nossa. Todo indivíduo, quando vinha ao hospital por um motivo qualquer, dizia: “Esta é minha casa. Este hospital é nosso”. E, às vezes, até impunha ou criava situações que dificultavam até a administração da gente. Agora, imagine o hospital na mão de terceirizada. E nós tivemos aqui, eu, Antônio, auditor e essas moças que estão aí, uma dificuldade enorme para administrar isso. Foi muito difícil. Hoje, graças a Deus, a gente tem a coisa totalmente sob controle. E as pesquisas de satisfação, enfim, todas as enquetes que são feitas mostram claramente que essa é uma boa situação. E que, realmente, essa dificuldade do ciúme desapareceu.


P1 – Antônio, só voltando um pouquinho. Você falou que ficou um tempo afastado do Santa Helena, ficou mais na Antarctica. Era um ambulatório que tinha na Antarctica?


R – Era um ambulatório. Veja bem, eu era médico do trabalho e sempre gostei de fazer clínica. Na Antarctica, numa determinada época, não se utilizava muito do médico de trabalho. Ela se utilizava do supervisor de segurança, de engenharia de segurança do trabalho. Isso aí, eu fiz questionamentos muitas vezes. Eu não era contratado como clínico, mas acabei, por vontade própria, e porque foi se avolumando o número de clientes que me procuravam, fazendo medicina assistencial para a Antarctica durante todos esses anos. Como eu fazia aqui, passei a fazer lá. Mas, realmente, apesar de ser médico do trabalho, com certeza, eu sempre fui muito mais clínico do que médico de segurança do trabalho.


P1 – E como que era essa época que você trabalhava lá dentro, na fábrica? Mudou muito, não? Você saiu do hospital, do Santa Helena, foi trabalhar lá...


R – É, mas a população de lá era grande e a que frequentava aqui. Então, eles também passaram a me procurar lá. Eu continuei tendo a minha clientela sempre muito grande. Graças a Deus, muito grande.


P2 – E o senhor tinha dedicação exclusiva... naquela hora que o senhor estava falando que parou. Dedicação exclusiva à Fundação, depois foi para a Antarctica e aí voltou para cá...


R – Que era toda a mesma população. A gente continuava não parando.


P2 – E agora, então, o senhor está aqui...


R – Aqui só como consultor e auditor da Fundação. Eu acho que esse novo momento, essa cultura da Brahma, não tinha espaço para mim. Mas eu estou bem. Hoje já não faço parte do quadro porque existe aí uma normatização. A gente, aos 65 anos, passa a ser velho. Então... se bem que lá fora isso não acontece. Os limites são bem mais altos.


P1 – Deixe-me perguntar uma coisa para você. Quando você voltou, que veio para cá como diretor, você sentiu falta do que você vivia antes, lá dentro da fábrica, da Antarctica, ou...


R – Também não, viu, Beth, porque o pessoal passou... vinha aqui. O pessoal não encontrava o Antônio lá e vinha aqui. Me telefonava, agendava. Quando não agendava, eu parava meu serviço para vir atender.


P1 – Agora, só parando um pouquinho como médico, você, que viveu 40 anos na Fundação Santa Helena, mas totalmente voltada à Antarctica, você ficou um tempo lá dentro da fábrica.


R – Bastante.


P1 – É. Como é que esse lado sem ser médico, o lado produto das coisas da Antarctica, de uma cerveja, de um refrigerante?


R – Bom, essa parte aí, Beth, a gente não vivia muito porque como eu falei para vocês, se, por acaso, eu, como médico do trabalho, tivesse sido forçado a me envolver mais dentro da fábrica, eu acho que teria condições muito mais de estar dizendo isso para você. O que eu posso dizer para você, ou para vocês, é que o trabalho lá dentro era muito sério. Muito sério, muito higiênico e que realmente tinha como resultados os bons produtos aí. O que veio depois, que aconteceu, acho que foi a falta do velho comando. Eu tenho a minha concepção e ela gira em torno disso: que o colegiado sempre tem mais dificuldades. Isso no meu foco. De repente, vou ter uma aula de alguém que diga assim: “Olha, eu vi isso o que você tá dizendo e não é verdade”. Mas eu continuo com a minha opinião. Essa minha dedicação à população nossa... Essa minha posição reflete puramente o meu conceito de Fundação e aquilo que eu prometi para a dona Erna. Eu detesto injustiças. Uma ocasião, na véspera de Natal, eu cheguei e tinha um moço na porta do elevador velho, que certamente estava me aguardando, porque no que eu... “Preciso falar com o senhor”. Ele era um auxiliar de enfermagem. E eu: “Porque você está assim nervoso?” Ele me falou – ele era uma criatura bastante humilde –  “O dr. diretor aí – que eu não vou dizer o nome – me mandou embora”. Mas o Ari era um menino maravilhoso, sempre procurando dar apoio à enfermagem circulante de sala, tudo, que eu conhecia. “Mas, Ari, o que que você fez?” “Não fiz nada”. E aquilo me abalou profundamente. Eu parei, subi até o centro cirúrgico, sentei, tomei uma água ou um café, desci, peguei o carro e fui para a Antarctica. Fui falar com o primeiro provedor da Fundação que, naquele momento, era o dr. Celso Florence, criatura maravilhosa. Eu cheguei para o professor e falei: “Professor” – primeiro pedi para ser recebido, se bem que, graças a Deus, eu nunca tive dificuldade pelo relacionamento, pela dedicação que sempre dei em todos os níveis da organização, eu nunca tive dificuldade de falar com ninguém, nem com o dr. Belian, nem com a dona Erna, nem com o seu José, nem com o Victório, nem com ninguém e, também, naquele momento, nem com o professor Celso Florence. Ele falou: “Antônio, o que o traz aqui?” Falei: “Pois é, professor, eu cheguei no hospital hoje e o senhor sabe que eu tenho uma vivência enorme lá dentro como profissional”. Ele falou: “Sei, Antônio”. “Pois é. Está acontecendo isso: eu cheguei e esse moço estava chorando na porta do elevador porque foi mandado embora. Se ele tivesse até um motivo para ser mandado embora! Dr. Belian e dona Erna nunca mandaram ninguém embora do emprego na véspera do Natal”. “Antônio, você tem razão”. Pegou o telefone, ligou para o hospital e falou com o diretor. “Esse moço tem que ser reintegrado”. E ele foi. Na mesma hora. Então, Beth e Ana, essa sempre foi a minha luta com relação à população. Eu, muitas vezes, deixei a parte médica em busca dessa luta. E aqueles casos também, graças a Deus, sempre através da medicina do trabalho. Eu, como clínico, o indivíduo vinha consultar comigo, vinha uma vez, consultava duas, consultava três... Como é que esse indivíduo não melhorava? E daí eu sempre fui aquele indivíduo que levantava e trancava a porta do consultório. Não importava quem estava lá fora esperando porque eu não tinha horário. E eu acho que os outros também não podiam ter. “O que que está acontecendo?” “Não, não está acontecendo nada”. “Vamos lá”. Ia apertando, apertando daqui, dali, até que o indivíduo trazia. Ou o problema estava lá em casa ou estava dentro da organização. Eu, como médico do trabalho, tinha obrigação de procurar, em nível de chefia, o amparo para ele, colocar, discutir o caso. E isso, acho que ajudou muita gente e, interiormente, a mim. Isso eu sempre fiz. Então, eu gostaria de ter feito mais. Infelizmente, os limites chegaram. Mesmo quando não tinha recurso aqui dentro, eu, como na saúde pública, eu pegava o pessoal daqui e levava para lá porque eu fui diretor do maior serviço ambulatorial de especialidades em São Paulo, que foi o Maria Zélia. Eu implantei o Maria Zélia também em 1985, na época, com o Ministro Jarbas Passarinho. Fui diretor lá, mas eu tinha uma liberdade enorme porque eu tinha uma equipe muito grande. Então, realmente, o Maria Zélia está lá até hoje. Eu deixei o Maria Zélia em 1995, quando eu vim para cá. E como a saúde pública tinha muitos recursos, que às vezes nem o Hospital das Clínicas daqui tinha, a gente fazia uso. E como na Fundação os recursos técnicos não tinham chegado no Santa Helena, infelizmente tinha parado no tempo, eu pegava o pessoal daqui, levava para lá e fazia os exames todos por lá. Isso sempre foi a tônica da coisa. Isso até em nível de diretor, para que realmente... Eu acho que isso ajudou porque realmente eles percebiam que era um indivíduo que tinha os olhos voltados para cá, no sentido de, realmente, colocá-lo sempre no lugar que merecia e que deveria estar.


P1 – Com a fusão, os funcionários hoje da AmBev... como que é essa relação com o hospital? Eles são atendidos como funcionários ou através do convênio Unimed?


R – Veja bem, a AmBev selecionou a Med Service para eles. Naquele momento, até participei de algumas reuniões. E a Unimed se propôs a manter a Med Service aqui dentro. Só que a Med Service não concordou com os níveis do convênio. Os valores eram um bocadinho maiores e a Med Service não quis. Então ela deixou de participar da Unimed aqui dentro. Uma pena. Hoje, os funcionários da Fundação e os beneficiários também têm direito à Med Service. Por que? Porque o serviço centralizado aqui desagradava muita gente, até estava contando para a Ana. O indivíduo no ABC precisava de uma assistência médica e, realmente a Unimed Paulistana não está lá, mas a Med Service está. E, de repente, nós abrimos para a Med Service, também, o convênio. Então, hoje, o pessoal pode se utilizar da Med Service. Eu acho que, Beth e Ana, eu coloquei alguma coisa que possa ter interessado a vocês.


P1 – Não, tudo foi interessante.


R – Agora tem uma passagem curiosa que eu queria deixar.


P1 – Ah, por favor.


R – Vou querer deixar porque... São duas.


P2 – São três. Vou lembrar o senhor de uma terceira.


P1 – Tem mais uma.


R – Vamos lá. Para vocês verem como eu era visado. Tenho um paciente, um funcionário que hoje está aposentado, é beneficiário nosso, cujo nome é Antônio dos Santos. Eu cuidei desse funcionário fora da Fundação com grandes especialistas ortopedistas do HC (Hospital das Clínicas), que eram meus funcionários lá, famosos. E fizeram diagnóstico, tudo, da patologia da perna dele, tudo. Só que ele precisava, por orientação de lá, de uma medicação cujo correspondente nacional não era eficaz. E eu passei a receitar e a Fundação dava. Até que um dia, um diretor médico da Fundação olhou a receita: “Antônio dos Santos tomando essa medicação importada?” E foi à diretoria, foi ao conselho e entregou a um determinado conselheiro que vocês conhecem porque ele deu o depoimento aí... E ele achou um absurdo. Só que o paciente estava sem o medicamento, eu tinha pedido o medicamento através do ambulatório da Antarctica e o medicamento não vinha. Então, eu fui ao supervisor do ambulatório e falei: “Escuta, amigo, essa receita já tem mais de mês! Sempre foi fornecida para esse paciente. O que que está acontecendo? Por que que o diretor médico da Fundação não me liga e não me coloca a par? Porque eu acho que, financeiramente, para comprar essa medicação, eu acho que não tem problema. Deve ter algum outro motivo”. O supervisor da área, que não era médico, do ambulatório falou: “É, realmente. Está com diretor lá e ele levou para a diretoria”. “Poxa, mas foi sempre fornecida a medicação”. “É, mas está parada”. “Então, você vai fazer uma gentileza para mim. Você veja onde está parado esse processo, essa receita, esse pedido”. Ele olhou bem para mim, puxou a gaveta e falou: “Está com esse diretor”. Ele me passou o telefone e falei com a secretária dele: “Ele está aí?” “Está”. “Diz para ele – eu sempre fui conhecido por ‘tio’ e já conto por que eu era conhecido por ‘tio’, não era pela idade – diga a ele que o ‘tio’ está subindo”. “Tá bom”. Subi e fui lá, me sentar com ele. Falei: “Meu amigo, tudo bem? Tudo bom?” – sempre grandes amigos... e falei: “Tem uma medicação aqui parada contigo”. Ele relutou de maneira como tinha que enfrentar uma situação, pegou, abriu a gaveta. “Antônio Santos para Antônio Santos? Eu não estou entendendo isso”. Falei: “Em primeiro lugar, essa medicação sempre foi doada, foi fornecida. E esse Antônio Santos que você está vendo aqui não é o Antônio Santos. É cunhado do seu colega de diretoria. E vai ficar muito desagradável se ele souber que você está segurando aqui”. Bom, não preciso dizer para vocês o que aconteceu. Houve... Foi lá para baixo. Pegou o diretor médico da Fundação e alguns diretores da Fundação também que, na hora, deram os dólares para o rapaz muito conhecido ir buscar. Infelizmente, ainda naquele dia, estava fechada a casa de câmbio e eles não puderam pegar o remédio naquele dia. E daí ficou uma situação muito ruim. Para vocês verem como o Antônio era visado. Mas o que mais me marcou, porque os ciuminhos, a primeira vez em que fui colocado à disposição, a segunda vez, e no fim sempre apareceu a dona Erna aqui dentro falando: “Não, espera aí. Esse aí não.” Era a estrela que eu não sabia de onde veio e como veio. Bom, chegou em um determinado momento que a coisa aqui era sacrificada como cirurgião. Por que? Como o corpo era muito pequeno e eu sempre lutando para ampliar, nós estávamos, o diretor... o cirurgião-chefe passou a ser diretor do hospital e ficamos em dois cirurgiões e um obstetra. Então esse obstetra, que tinha um bom conceito com a diretoria, precisava descansar. Sabe o que aconteceu? Sábado e domingo, sim, e sábado e domingo, não, nós alternávamos. Anos e anos. Sem ser remunerado. Então nós começamos a fazer a ginecologia e a obstetrícia no sábado e no domingo. Cansei de fazer cesárea. Graças a Deus, eu tinha uma boa formação. Um belo dia... lembra que eu falei que tinha uma bela moça que acompanhava a dona Erna? Essa moça se casou. Ela se casou e engravidou. Fazia acompanhamento com o obstetra daqui. Naquele tempo, o pessoal fazia muito uso do litoral paulista. Como eles eram médicos bem colocados, com certeza era um Guarujá da vida. Só que era só a (rodovia) Anchieta que tinha. E a Anchieta tinha uma coisa: quando chovia, as barreiras. E teve uns dias que tinha chovido realmente no fim de semana. Era um domingo. Eu não estava de plantão na obstetrícia porque... Não sei por quê. Mas tinha o outro cirurgião e um colega já de idade que estava... teve sua passagem por aqui, mas estava encostado na Fundação e que era amicíssimo, tinha um link muito grande com o obstetra. Então, eu recebi uma ligação – eram umas sete horas da manhã: “Dr. Antônio, aqui é a Vera”. “Oi, Vera, tudo bem?” Era uma moça maravilhosa. Ela falou: “Olha, a dona Elisa internou e o parto não vai dar. Tem que ser cesárea”. “E daí? Não tenho nada que ver com isso”, falei para ela. “Acontece que o dr. obstetra está preso, lá no litoral. Eu mantive contato com ele e não há como”. Falei: “Então chama o chefe, o diretor” – que também era um excelente cirurgião, também obstetra. Tinha uma clínica maravilhosa em São Paulo. Falou: “Ele também está preso lá no Guarujá”. Falei: “Muito fácil. Chama o cirurgião”. “Ele não quer”. Falei: “Mas tem a doutora tal, tal da ginecologia. Ela faz bem” – era cirurgiã-obstetra também. “Ela não quer”. Falei: “Tem o doutor também, que é amigo do homem”. “Ela quer o senhor aqui”. “Tá bom! Ela quer?” “Ela quer”. Passei a mão no carro. Antes, telefonei para o meu assistente e falei: “Estou indo fazer uma cesárea. Não é meu dia, não sei se é o seu, mas eu preciso de você”. “Não, Antônio, não tem problema. Vamos lá”. Nesse intervalo de tempo, o dr. que era amigo do obstetra, já de idade, se propôs a entrar comigo, só que eu não sabia. Quando eu cheguei e fui me paramentar, ele chegou para se paramentar também. Ele falou: “O senhor vai entrar em cirurgia?” Falei: “Vou”. “Vou com você”. “Dr., comigo não. Eu não sabia e chamei fulano. Ele está na garagem, até.” Ele tirou as coisas e foi embora. Fui lá, tirei o nenê, tudo em ordem, graças a Deus, bonitinha. Dona Erna virou bicho: “Vou mandar embora o diretor, o obstetra”. Eu fui na casa dela, nesse mesmo domingo, conversar com ela. Falei: “Olha, dona Erna, por favor, não faça isso”. E ela, revoltada... era a Elisa, a filha dela. “Isso acontece. Podia ter acontecido comigo. Infelizmente houve uma queda de barreiras”. Expliquei, expliquei, expliquei e ela entendeu. “A seu pedido, não vou mexer”. “Ótimo, o nenê está bem, a Elisa está ótima”. Bom, o que que você esperava? No dia seguinte a paciente estava em meu nome e eu fiquei esperando os dois. Eles não conseguiram subir na segunda-feira. Eu fui lá, fiz a visita, mediquei, fui ver o nenê. Na terça-feira, era o meu dia no consultório aqui. Aquele silêncio, ninguém falava comigo. Ah, o obstetra passou junto com o velhinho por mim e nem me cumprimentou. Foi em direção à diretoria. Já eram umas 11 horas, quase meio dia e, de repente, no alto falante: “Dr. Antônio, dirija-se à diretoria”. Me botaram numa salinha e veio o diretor para mim – o diretor do hospital: “Antônio, infelizmente você faltou com a ética. Você teve um comportamento muito ruim”. “Ah, eu tive?” “É.” “Por que? O que aconteceu?” “Aconteceu isso, isso, isso. Você fez a cesárea, deixou o dr. de fora. Você não podia ter feito isso”. Falei: “Tudo bem. O senhor dá licença?” Fui lá e tranquei a porta do quarto, botei a chave no bolso e falei: “Agora o senhor chame o doutor obstetra aqui”. Ele tinha saído. “Eu lamento profundamente que o senhor tenha tomado essa atitude comigo. Nem como profissional, nem como meu amigo. Eu nunca imaginaria. Eu quero que o senhor saiba que, a partir desse momento, eu deixo de ser médico do Santa Helena por tudo quanto eu vou dizer para o senhor. O senhor me disse tudo isso, que eu faltei com a ética”. Peguei o telefone e mandei chamar a folha médica, prescrição, tudo completo, o prontuário. “De quem é a paciente?” “É dele”. “Tá aqui. Meu nome. Isso aqui, nós vamos para o Conselho Regional de Medicina” – abri a folha: “Ele passou e prescreveu nessa ficha, hoje, terça-feira, sem pedir ordem para mim. Então, o senhor, como diretor, e ele, como obstetra, vamos sentar no banco do Conselho Regional de Medicina. Eu lamento profundamente que eu tenha que viver esse momento com o senhor”. Agora eu já tinha me colocado à disposição também. “Não, não precisa não, porque a partir desse momento eu não faço parte mais do quadro.” Desci, peguei meu carro – liberei ele. Já era uma hora da tarde, mas eu falei tudo o que eu queria. Falei: “Vou botar os dois no Conselho”. Fui lá. Eu só devia satisfação a uma pessoa, que era a dona Erna. Pedi para entrar. Ela mandou entrar. Era assim, graças a Deus. “É o ‘tio’ que chegou”, “É o dr. Antônio”, vai para lá. “Dona Erna, vim aqui não só cumprimentá-la, mas me despedir da senhora”. “Como assim?” – sempre enrolado em alemão. “Aconteceu isso, isso, isso, que a senhora sabe melhor que eu. Eu que fiz a cesárea”. “Claro, está tudo muito bom”. “Pois é, mas eles fizeram essa reunião e decidiram que eu faltei com a ética dentro da casa e eu vou embora. Não quero mais ficar”. Dona Erna parou, pegou o telefone e mandou chamar o secretário dela: “Manda preparar o carro que estou indo ao Hospital Santa Helena e mandem chamar o dr. Fulano, que é o diretor. A partir de hoje eles não fazem parte do quadro mais do Hospital Santa Helena”. Daí, novamente o Antônio tem que entrar no circuito para dizer “Não”. “Essa não é a melhor maneira. Eu quero que eles continuem”. Mas para evitar que fossem ao conselho, mandaram me chamar e pediram desculpas. E depois ficaram sabendo de tudo o que eu tinha feito por eles, antes e depois.


P1 – Nesses anos trabalhando aqui, tem alguma coisa assim que você lembre, que teve um fato inusitado, muito engraçado, algo pitoresco?


R – Sem dar nomes.


P1 – Sim, não precisa...


P1 – Um que eu achei muito engraçado... você está gravando? Ah, não tem importância. Logo depois que eu entrei aqui como médico plantonista, o diretor me ligou. Percebeu que eu fazia ginecologia também, tinha formação clínica, e ele: “Dr. Antônio, o que que é bom para dismenorreia – tensão pré-menstrual?” Eu estava na ponta dos cascos. Tinha saído da escola, falei: “Olha, a gente está acostumando fazer – fazia no Hospital das Clínicas – a fazer uma programação com anticoncepcional com bons resultados. Expliquei direitinho para ele. Isso era uma hora da tarde, uma e meia da tarde. Eu saía dali mais ou menos seis e meia, sete horas e tocou o telefone: “Por favor, doutor, venha na minha sala. O senhor é um irresponsável”. “Meu Deus do céu, que será que eu fiz lá?” Fui lá. Nem me mandou sentar. Fiquei em pé na frente dele. “Como é que o senhor me manda dar uma medicação para uma paciente que não existe no mercado?” “Eu não estou entendendo, doutor.” “O senhor não me disse que era para dar anticoncepcional para a paciente em um programa assim, assim, assim?” “Exatamente”. “Pois o motorista percorreu São Paulo e não existe essa medicação.” “Deixa eu ver a medicação que o senhor procurou”. “Anticoncepcional”. “Meu amigo, isso é um nome genérico de uma ação farmacológica que existe no mercado com nomes comerciais”. E dei uma relação de nomes de anticoncepcionais a ele. Coisas da vida. Mas eu não vou tomar o tempo de vocês que senão eu falo aqui até amanhã.


P1 – Não, Antônio, nós já estamos chegando ao finzinho. Você gostaria de falar alguma coisa que nós não conversamos?


R – Não, eu acho que comentei tudo. Fico feliz de vocês terem dado essa oportunidade. Eu confesso a vocês que eu não tenho muito o hábito de dar entrevista. E sempre procurei... a não ser acontecimentos que realmente que eram impossíveis da gente ficar de lado. Eu sempre fui um indivíduo muito tímido, com certeza. Briguento, mas tímido.


P1 – Mas como você vê essa iniciativa da AmBev?


R – Maravilhosa. Aquilo que eu falei para vocês antes de gravar qualquer coisa. Eu fico muito feliz do Victório estar por trás disso. Eu conto para vocês uma passagem que tinha um pediatra aqui muito bom, maravilhoso, que morreu muito jovem. Foi acometido de um tipo de tumor que o levou muito rapidamente. E nós tínhamos a pediatria com berçário e tudo. Eu fui ao provedor, que também já morreu e como diz meu amigo lá, “que Deus o tenha, se assim ele merecer” e “Vamos botar o nome” – pediatria e berçário eram separados – “Vamos botar o nome dele”. Menina, você não sabe o que eu ouvi. Nunca se admitiu uma história. Então, nós temos grandes nomes que serviram esta casa e, recentemente, morreu um que foi diretor administrativo com 94 anos. Morreu aqui, esses dias, aqui dentro desse hospital e eu quero crer que não tenha ido uma pessoa da Fundação nesse féretro, nesse enterro, pelo menos de órgãos superiores. Essa história que me magoa. De não ter alguma coisa que valorizasse a passagem dessa gente que se doou aqui dentro, em nome dessa Fundação, dessa parte humanitária. E não foram poucos que dedicaram sua vida aqui. Essa é a grande mágoa que eu tinha. Agora estou feliz porque a AmBev assume essa situação e tenta esse resgate. Eu fico muito contente, com certeza. E, olha, prazer e privilégio de ter sido também um dos colaboradores.


P1 – Nós é que agradecemos a você pelo seu depoimento.


R – Imagine só. Muito bom!

 

--FIM DA ENTREVISTA--

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