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A costura me escolheu

História de: Ana Karina
Autor: Guilherme Fernandes Silva
Publicado em: 22/10/2019

Sinopse

Os pais de Ana se separaram quando ela ainda era um bebê, questão de meses, e seus avós lhes pediram sua guarda para criá-la. Sua mãe aceitou e foi para São Paulo buscar seus sonhos. E Ana ficou. Inicialmente, no povoado de Penedo, no Maranhão, e quando fez seus 6 anos, hora de entrar para a escola, seus avós resolveram se mudar para Teresina, capital do Piauí. 

Em Penedo a casa ficava no alto, era enorme, de labirínticos cômodos, ela mesmo, em sua tenra idade, nunca chegou a conhecer todos os seus cantos. E o quintal era ainda muito maior. Sua circulação era limitada pelo muro que bordejava a propriedade, mas, já mais velha, conheceu a cachoeira e o rio que beiravam o terreno. 

A mudança para o Piauí não foi fácil, pois se mudaram para uma casa muito pequena. Ana destaca a abnegação de seus avós para o investimento em sua formação. Eles venderam tudo o que tinham no Maranhão para poder comprar uma miniatura de casa no Piauí, e tudo isso por pensar em seus estudos, em seu futuro. Foi algo que eles não fizeram pelos seus filhos, todos eles foram encaminhados para casa de parentes. Com a neta deles, não, eles não iriam mandá-la para a casa de ninguém!

Seus avós eram muito religiosos, as orações escalonadas faziam parte do cotidiano da casa. Ao acordar, uma oração e a benção; às 18 horas também, uma oração em conjunto, com todos unidos, e antes de dormir a última oração e benção do dia. 

Com 13 anos, Ana pensou que havia chegado a hora de pedir alguma coisa a Deus, o que queria ser, o que queria ter, o que queria de seu futuro. Lembra que em seu momento de oração, em seu momento privado com Deus, suas preces pediam por um marido. Ela pensava assim: "Eu quero um marido, que não precisa ser bonito, não precisa ter muito dinheiro, mas que eu só quero que seja inteligente”. Ela achava que um homem inteligente seria capaz de conseguir tudo e superar todas as dificuldades, isso, por ser, obviamente, inteligente. Suas rezas também pediam por felicidade e dois filhos. Ana pensava: “dois filhos, nem menos e nem mais!”

Em sua adolescência, Ana foi muito tranquila em relação aos namoros e saídas. Conta que não arrumava um namorado do jeito que queria, e também se atinava muito magra. Na verdade, tinha muito medo de decepcionar seus avós, não queria perder sua confiança. Já a partir dos 19 anos, Ana passou a ir em festas, baladas, sempre acompanhadas de suas primas, e nessa época, se tornou um pouco mais rebelde, mas nada que tenha durado muito. 

E de repente veio a mudança, com seus 25 para 26 anos. Ana conta que lhe veio à cabeça de que tinha que se mudar para São Paulo. Ela não sabia o que esperar, não sabia o que iria encontrar, mas precisava partir para a terra da garoa. 

Sua primeira vez em solo paulistano, por volta de 1996, lhe deixou com uma péssima impressão. Achava a capital uma grande loucura. Mas quando retornou, decidida a ficar, já veio com outra visão, e agora não troca a cidade por nenhum outro lugar. 

Ana chegou em São Paulo e foi morar com sua mãe, pode-se dizer que foi quando a realmente conheceu. Logo acabou arrumando um trabalho como recepcionista em um consultório odontológico. Foram apenas dois meses na clínica, mas foi tempo suficiente para conhecer seu futuro marido. E divertidamente brinca que suas preces foram atendidas, pediu tanto um marido inteligente que Deus lhe deu um marido japonês! Isso, fora as duas filhas queridas.

Ana saiu do consultório e foi trabalhar em uma oficina de costura na Freguesia do Ó. Passou um ano trabalhando e, perto do nascimento de sua filha, pediu para sair. Nesse intervalo, ficou trabalhando em casa e se dedicou a sua família. 

Em sua casa, fazia consertos, barras e coisinhas bem pequenas. Com o passar do tempo, uma amiga “lhe descobriu”, e ela começou a fazer roupas para a loja dela. Isso expandiu seus contatos e começaram a surgir mais clientes, concomitantemente, com suas filhas já maiores, passou a trabalhar também em uma oficina. 

Sua filha lhe inscreveu na rede CriaNorte. Conta que a princípio não entendeu nada, mas que aceitou a proposta da descendente. Certo dia, na casa de uma cliente, toca o telefone e lhe é dada a informação de que passara no processo seletivo do projeto. Muita felicidade! Ana conta que depois que entrou para a Rede, tudo se abriu, os caminhos todos foram muito bons, inclusive, por também trabalhar como professora de corte e costura.

Hoje, Ana tem uma vida corrida, mas não reclama nem uma vírgula. Sonha para o futuro, o crescimento de seu negócio. Ter um ateliê, um lugar fixo, porque hoje ela usa sua casa toda. E também torce para a Rede crescer, tornar-se bastante conhecida e ser cada vez melhor.

 

Ana Karina Borges Silva é mãe, esposa, costureira, artesã, moradora do Jardim Modelo, Jaçanã, zona norte de São Paulo, e esse foi um recorte de sua história. 

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História completa

Eu cogitei em ser psicóloga, porque as pessoas gostavam muito de conversar comigo, então, pensei assim, por que não? Mas a moda também me atraía muito, eu adorava costurar. Minha tia se separou e foi morar junto com a gente, com os meus avós, e eu a via costurando, e eu amava tudo aquilo, queria deixar de ir para escola só para eu poder ficar ali.

Eu passei a ler sobre o assunto e comecei a fazer as costurinhas de mão para ela, umas coisinhas bem pequenas. E aí, com o passar do tempo, quando menos esperava, eu estava sentada na máquina de costura. Nas minhas férias, eu ia para Amarante e minhas primas arrumavam trabalhos para mim, e eu comecei a costurar para algumas pessoas. E no interior, elas não tinham dinheiro para dar para a gente, então elas pagavam com galinha, feijão, essas coisas, e eu adorava tudo daquilo, para mim era muito divertido. Foi assim que eu passei a costurar com a minha tia, ela cortava e eu costurava, e foi quando eu decidi ser costureira. Ou melhor, a profissão me escolheu.

Minha tia tem o maior orgulho de mim, porque eu aprendi tudo com ela, a cortar, costurar, então, quando eu falo o que estou fazendo hoje, que eu me tornei professora de corte e costura, nossa, ela está muito feliz, muito feliz mesmo. Ela diz assim: "Nem minha filha teve esse interesse!”  Ela está muito orgulhosa de tudo isso.

 

A sensação de contar sobre a minha história, sobre meu passado, foi muito boa. Hoje, eu vejo assim, eu fui muito carente de coisas materiais, não em relação ao alimento, isso não, meus avós nunca deixaram faltar, eles se preocupavam muito com isso, mas eles tinham que fazer uma escolha, ou eram as coisas materiais, a roupa, o calçado, ou o alimento, e eles optavam pelo prato em cima da mesa. Hoje, nada disso me falta, eu até brinco com as minhas amigas, eu estou precisando de espaço para colocar meus sapatos, estou precisando de mais cabides... Graças a Deus, meu marido me deu um guarda-roupa enorme! Então, eu digo assim, o que me faltou no passado, hoje eu tenho. Tenho o alimento, tenho de tudo, tudo o que eu pedi, hoje eu tenho. E fico emocionada ao falar dos meus avós, eles foram duas pessoas especiais para mim, e eu vejo o quanto eles me fazem falta, e que eu não soube aproveitar sua presença. Mas eles me deixaram o mais importante, o amor.  Assim que eu vim para São Paulo, meu avô faleceu, em janeiro de 2002, e a minha avó em 2006. Então, desde que me mudei para São Paulo, eu não cheguei mais a vê-los, não deu tempo, mas eu digo que eles sempre vêm me visitar, porque eu estou sempre sonhando com eles.

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