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História

A coragem deles me levou

História de: José Eduardo Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Em sua história, José fala de como seus pais se conheceram e sobre sua infância em São João Del-Rey - o dia a dia da casa, o humor de seus irmãos, o Carnaval, etc. Em seguida, versa sobre as descobertas da adolescência e suas primeiras experiências com rádio e jornal ainda no interior de Minas. Conta também a respeito do caso Herzog, que lhe inspirou definitivamente a ir para a capital estudar comunicação, na PUC-MG. Descreve o ambiente combativo da faculdade, sua entrada no O Globo, as experiências no ramo da comunicação empresarial e, por fim, sua família atual e a concepção do projeto “BH: a cidade de cada um”, voltada para a memória da cidade.

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História completa

Eu já tinha essa coisa com a Arte, uma certa sensibilidade para me expressar desse jeito. Como eu era muito caladão, tímido, eu gostava de escrever, desenhar - acho que nunca fui um menino brigão. Na verdade, a única briga para a qual eu fui convocado, eu fugi dela. Tenho uma vergonha disso até hoje: Nossa Senhora, eu tenho uma vergonha desse troço! Esse cara, eu lembro dele, é meu conhecido até hoje, a gente se encontra, se abraça, claro, somos dois adultos, dois senhores. Não sei nem se ele lembra desse episódio mas, para mim, foi um negócio horroroso porque eu sabia que eu era franzino - sempre fui magrinho - o cara era forte para diabo, não sei o que aconteceu lá no colégio estadual e tinha esse negócio de chamar para a briga: “te espero lá fora”. E você sabe que eu fugi dessa briga? Que horror, que vergonha, cara, confessar isso. Mas eu fugi daquela briga porque sabia que ia apanhar muito, eu tive medo de apanhar, tive medo de chegar em casa... Eu caí fora. ele deve ter brigado com gente para caramba, mas com o Zé Eduardo que fugiu do pau não: eu fugi mesmo, uma vergonha, um troço inconfessável. Em novembro de 1975, quando eu entrei na agência de jornais, tinha um jornal alternativo, naquela época tinha Movimento, Opinião, vários jornais alternativos de esquerda contra a ditadura militar, que já estava começando a dar sinais de que não ia longe. Mas ela estava no auge e foi quando mataram o Herzog. Eu já consumia esse tipo de notícia lá em São João Del Rey, então, quando eu entrei na agência, tinha um jornal que chamava Ex: E, X, que foi um jornal super combativo - eu tenho esse jornal também até hoje (isso tudo que estou te falando, eu tenho imagem). E o jornal trazia na capa, ou na última capa, a foto do suicídio, entre aspas, do Herzog. Cara, quando eu peguei aquele jornal, eu falei assim: “Eu não quero fazer outra coisa na vida”. Ainda quero fazer em jornal, quero trabalhar com essa coisa. Eu já tinha decidido ali que eu queria ser, eu já tinha decidido que eu queria escrever: escrevia cartas, escrevia discurso para os outros, fazia um monte de coisas. Mas quando eu vi aquele troço, aquilo ali foi decisivo para mim, mexeu na minha alma completamente: é isso que eu quero mesmo. E não tinha outra forma a não ser vir para Belo Horizonte, não é? Era ir para BH para estudar, fazer cursinho e tentar a Universidade. Foi a coragem dos jornalistas que me levou. Foi a coragem daqueles caras de peitar, não é? Porque a capa era: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”. Linda, com esses versos lindos, que é um poema, não é? Eu falei: “Caramba, esses caras estão fazendo isso”. Então tinha aquele sentimento, assim, de um jovem de 17 anos, indignado com as coisas e com o que a gente sabia que estava acontecendo, com a violência, essas coisas marcam muito. Então, eu tinha certeza de que eu queria ser jornalista para isso, para poder ter também aquela coragem, que, vamos dizer assim, eu não tinha do ponto de vista físico, de enfrentar os meninos mais fortes, mas que eu sabia que com a palavra eu podia ter, que eu podia, que eu podia prevalecer, que eu podia ser melhor em alguma coisa. Tem isso, eu não era o mais forte, não é? Não era o mais rico, não era o mais conquistador, mas eu podia ser... O meu poder de sedução estava um pouco nisso de saber usar bem as palavras, ter um jeito com isso, que as minhas professoras falavam: “Nossa, escrevia tão bem”. Eu gostava de ler, não é? Eu acho que é isso que faz a diferença, a leitura. Então eu achava que tinha que fazer Jornalismo mesmo. Foi isso. E o empurrão final foi essa notícia da morte do Herzog, que é como você fala no 11 de setembro de 2001: todo mundo sabe o que estava fazendo no 11, eu sei o que eu estava fazendo lá, em novembro de 1975.

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