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História

A contadora de histórias de vida

História de: Sandra Lessa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2019

Sinopse

Sandra cresceu em Suzano na Zona Leste de São Paulo, ela nasceu em meio às festas de comemoração que seu pai havia ganhado na loteria, mas o verdadeiro presente era ela que definitivamente tem uma estreia na vida no bairro de Suzano, com namorados intensos, família inspiradora e repressora, Sandra navega por entre os sonhos, escuta e realiza o teatro do cotidiano pois é alguém que enxerga a poesia, no palco, na avó, nos vagões de trem. É a história de vida de uma das contadoras de histórias de vida

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História completa

Meus pais tinham dois filhos mais velhos e, curiosamente, eles são mais morenos do que eu. Curiosamente, porque tem motivo. Eles moravam em Suzano e meu pai, naquela coisa, trabalhador: “Eu vou mostrar que eu realmente sou trabalhador e que eu gosto da sua filha”, essas coisas, um homem honesto. Tiveram dois filhos, a coisa começou a apertar financeiramente e aí minha mãe começa a discutir com ele quem vai fazer a operação, você ou eu: “Tá bom, eu faço”. Ela marca a operação de trompas dela, porque ela não ia mais ter filhos. Estava marcada pra dia tal. Uma semana antes meu pai ganha na loteria. Bolada. Ficou tipo rico, de uma hora pra outra. E aí eles ficam tontos com essa informação. Começam a comemorar, comemorar, fazer festa, fazer festa, fazer festa, não vai fazer a operação, engravida de mim. Eu entro aí nessa história. E em nove meses eles perdem quase tudo que eles ganharam.

 

E eu nasci, pra surpresa deles, branca, branca, branca, os cabelinhos pixaim, enroladinhos na cabeça, muito pixainzinho, assim. Aí meu pai ficava passando a mão no meu cabelo e falava: “Está aqui o tesouro da loteria, olha. Todas as moedinhas vieram parar na cabeça da menina”. Então, a gente sempre brinca com essa história. Aí minha mãe deu pra ele o direito dele escolher meu nome, que é Sandra, por causa da Sandra Bréa, que era atriz. Meu pai gostava dela. Mas aí eu falo que eu já nasci com a sorte, que eu sou filha da sorte, já vim junto com a loteria. O meu caminho já foi sempre na sorte

 

 Eu me lembro até hoje do dia em que a gente estava na sala da minha mãe e a gente tentando correr atrás dessa história, tocou o telefone e era uma amiga da minha mãe, enfim, que ligou e falou: “Heronda” – o nome da minha mãe, né? – “mas você não sabe o que aconteceu com sua avó? Então eu vou te contar: a sua vó foi morar em um circo, ela virou cantora de circo e o circo dela circulava pelo Vale do Paraíba”. Aí eu falei: “Não, gente, é muito maravilhoso” pra uma imagem minha, né, pensar em um teatro passando pelo Vale do Paraíba, da filha, da minha vó e a minha bisa, mãe dela, com um circo passando. Duas mulheres artistas que, de certa maneira, também, negaram a imposição de um masculino e foram pra arte e caminhar dessa maneira nômade e simples, porque era uma arte, acho que isso também marca muito minha vida, era simples. Um teatro de fundo de quintal, com toda beleza que tem nisso, da cultura popular ali pulsando e um circo também. Então, essa é a história que eu sinto que me conta muito, né?

 

A minha mãe é uma grande contadora de histórias.  Quase todas as noites ela contava história. Foi isso que me tornou uma contadora de história. E tinha uma coisa que ela adorava fazer, que era contar a história a luz de vela. Isso era demais pra gente! Então, a gente ficava esperando o momento em que a luz apagava ou que acabava a força ou que meu pai saía, que a gente ficava só com ela ou ela ligava aqueles slides e ela só tinha um slide, que era do Patinho Feio, que eu achava bem legal porque eu me sentia muito Patinho Feio, às vezes. Por muito tempo. E aí ela fazia todas as vozes e a gente ficava vibrando naquele cinema. Era o mesmo, ela contou a mesma história durante anos, mas aquele ambiente que ela criava na casa, de luz apagada e ela contando as histórias, nossa, era uma mãe muito mágica! E ela contava histórias de Pedro Malasartes pra gente. A maioria das histórias que eu conheço de Pedro Malasartes foi ela que me contou, que era minha vó quem contava.

 Eu achava muito parada a igreja. Desde criança eu falava: “Mãe, a gente fica lá parado muito tempo! São duas horas parado, ouvindo uma pessoa falar! Eu não gosto disso”. No centro espírita tinha mais diversão porque tinha as incorporações, as pessoas chegavam contando histórias: “Porque eu vim do século passado...”. A gente ficava apostando. A gente tinha as datas dos mais antigos que incorporavam, eu e meus irmãos. “Esse aqui já conheceu Jesus Cristo, esse aqui foi rei”, a gente ficava nessas coisas de crianças, né? Eu lembro que a gente se divertia muito com essa coisa meio misteriosa que apresentava de uma pessoa incorporando o espírito. Isso é uma coisa muito comum na minha família.

 

 Por um texto, um contexto. Aí virou minha vida. Para, um pouco, desespero dos meus pais, também.  Porque eles queriam outra coisa pra mim, né? Principalmente meu pai. Meu pai queria que eu trabalhasse vendendo seguro, inicialmente. Me arranjou emprego, coitado, de vender seguro. Eu não vendi nenhum. Fiquei três meses trabalhando onde ele me arranjou esse emprego, só que tinha que ligar pra vender seguro de vida, você imagina. E aí, você ligava três horas da tarde, só os velhinhos que atendiam e você imagina que eu tinha que vender para o velhinho. A mulher começou a chorar no telefone e falou: “Eu vou morrer”. Eu falei: “Não, minha senhora, pelo amor de Deus, a senhora não vai morrer”. Foi uma situação. Não vendi nenhum seguro. Enfim, não deu certo esse negócio. Eu queria fazer teatro. Mas aí estava esse meu lado teimoso, ele também foi uma proteção, porque eu ia atrás. Eu falei: “Eu vou conseguir de qualquer jeito fazer teatro”. Aí eu comecei a fazer de tudo pra fazer teatro. Ia a pé pra Mogi, Se precisasse, dava um jeito de vender coisa pra pagar o ônibus e, por mais que meus pais, por um lado, estavam preocupados com o que eu estava escolhendo.

 

E meus pais foram porque eu insisti muito pra eles irem. Aí eu lembro de estar na coxia e falar: “É agora, pé. Eu vou colocar você lá”. Era a primeira vez para um público. Aí eu lembro de falar: “Vó Maria, vem comigo” e tum, coloquei o pé. Na hora que eu coloquei o pé, eu senti na lateral aquelas pessoas, vruaaaaaa, aquela multidão. Eu juro pra vocês... minha vó falava uma coisa pra mim que é até bonita. Minha vó falava muitas coisas interessantes. Essa aqui, ela dizia: “Faça como se fosse o frescor da primeira vez, mas com a entrega da última”. Eu falei: “É assim que vai ser”

(…)

 

 Aí a gente entrou, começou a conversar e aí ficamos tentando tirar dela história de Saci, de Saci, nãnãnã, só que não saía. Aí ela começou a contar história dela, de vida dela. Aí fez assim tommm.  E eu fui, assim, olhando pra cara daquela mulher, foi me dando um negócio interno que eu falei: “O que está acontecendo aqui?” Uma história de vida. E ela termina ainda me dando mais uma chave, que ela diz assim: “Mas eu estou vendo que você veio aqui ouvir histórias em São Luiz do Paraitinga, né? Não adianta se empolgar, não, viu? Porque depois que esse clarão de luz elétrica chegou, as histórias de São Luiz do Paraitinga nunca mais foram as mesmas”. Eu saí de lá transtornada. Cheguei em casa, comecei a escrever, a escrever, a escrever, falei: “Gente, ela me contou um mito, um conto, uma lenda, um conto de fadas, muito parecido com a história de Cinderela e ainda com essa chave da luz.

A primeira coisa que eu escrevi foi Os Contos de Fadas e as Histórias de Vida, porque a Dona Adélia ainda estava muito presente na minha vida. E comecei a fazer essa associação,  entrou um pouquinho da memória social nessa época, eu comecei a entender isso. E voltava da faculdade e ia pra faculdade de trem. E o trem é fantástico! Porque agora tem o celular, mas na época não tinha, e diferente de metrô e de ônibus, que tem uma saída - lá 40 minutos, 50 minutos, sentado na frente um do outro, mais próximo do que a gente está, em espaços mais próximos, parado, olhando. E aí eu entendi isso. Eu falei: “As pessoas não têm o que fazer e, por isso, elas conversam. Vou captar história de vida nesse lugar”. E aí o Cassiano começou a falar assim: “A gente vai estudar, então, uma coisa chamada: As Pessoas em Estado de Entretenimento”. A palavra entretenimento vem de entre momentos, estar entre. Está indo trabalhar, saindo do trabalho, essas coisas, indo estudar, mas aquele momento ela não está fazendo, ela só está indo e vindo. Então, a gente vai estudar história de vida em estados de entretenimento, que as pessoas estão mais dispostas possíveis de ouvir e de falar, né? E aí eu conheci o Tiozito, que é a segunda história de vida que faz um cataplaf na minha cabeça, que é um senhor que entra e me conta... ele era genial. Ele tinha a poesia na boca, mas não era em rima. Ele via, tudo que ele via era poesia. Então, ele já começa a contar pra mim as coisas, fala: “Você tem os dois olhos?” Eu: “Como assim os dois olhos?” “O minúsculo e o maiúsculo?” Falei: “Não sei, como é?” Ele falou: “Eu vou te falar: o minúsculo é aquele olho bem pequenininho que a gente vê as coisas miúdas da terra: caminho de formiga, curva de rio. Sabe quando você pega uma folha de uma árvore, vira e tem um mapa? Só que eu não sei onde vai dar, vai ter que seguir. Já o olho maiúsculo é aquele olho que você olha lá pra cima e se lembra, esse céu aqui, agora, em cima da nossa cabeça, está carregado de estrela e atrás delas, minha filha, só o infinito”.

“Tum tum, estação Brás, desembarque pelo lado esquerdo do trem” e eu tinha que descer porque na época eu fazia uma baldeação ali pra ir pra Barra Funda e ir pra PUC e ele ia continuar até a Luz. E aí eu desci sem nem me despedir direito dele, fiquei com aquela sensação, assim, passou um senhor do meu lado e falou assim: “Gostei de ver a atenção que você deu para o moço ali dentro do trem”. Eu falei: “Moço, que atenção que eu dei? Esse homem me presenteou com um monte de poesia, que eu não sei nem o que fazer com isso”. E aí ele saiu de perto de mim e eu falei: “Tudo bem, está tudo certo”. Eu tinha que descer no Brás, tinha que trabalhar e, depois de tanta poesia, o destino do seu Tiozito, com certeza, era a estação da Luz. E essa foi a segunda história de vida mais completa, né, que eu escrevi. E aí eu entreguei, eu comecei a fazer a iniciação científica, nessa época que eu estava na iniciação científica, eu ouço dizer que existe um lugar chamado Museu da Pessoa. E eu falei: “Não é possível que existe um lugar chamado Museu da Pessoa. Como existe um lugar como esse?”. E aí eu vim aqui, conheci o Museu e conheci a Sônia. E fui falar com ela. Falei: “Como existe um lugar que chama Museu da Pessoa? Eu não estou acreditando nisso, é muita beleza”. E ela falou: “O que você faz?” Aí eu falei, era a minha profissão que eu tinha inventado: “Eu conto história de vida”. Ela falou: “Como existe alguém que conta história de vida? Olha, vai ter um evento daqui um tempo que vai ser o Dia Mundial da História de vida. Você não quer vir aqui contar umas histórias pra gente?” Eu falei: “Claro que eu quero!” e aí eu falei: “Gente, eu vou contar uma história no Museu da Pessoa”. Foi aquela coisa, assim. E aí eu contei a história da Dona Adélia, que eu falei: “Acho que é bonito contar a primeira história de vida aqui” e aí aconteceu um encontro, eu falei: “Gente, eu nunca mais quero deixar esse lugar na minha vida!”.

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