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A condução da vida

História de: Aldair Marcos de Jesus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/07/2020

Sinopse

Aldair Marcos de Jesus nasceu em 09 de agosto de 1974 no Jardim Rosana, próximo ao bairro do Capão Redondo, zona sul da cidade de São Paulo. Desde muito cedo, presenciou a violência do pai e cresceu admirando o esforço da mãe para criar sozinha os oito filhos. Para ajudar em casa, abandonou a escola e trabalhou como feirante, faxineiro, office boy, motorista até parar no transporte público, como cobrador de ônibus, o trabalho que marcou sua vida. Aldair perdeu a visão de um olho devido a um acidente de trabalho, teve relacionamentos difíceis dos quais nasceram seus dois filhos, Matheus e Laryssa e vivenciou também, traições e o coma decorrente de ter sido baleado durante um assalto enquanto trabalhava. Atualmente, divide-se entre a profissão de cobrador e motorista de aplicativo. Nesse depoimento ao Museu da Pessoa, Aldair conta sua trajetória de vida, desde a infância, passando pelos relacionamentos que viveu ao longo dos anos e também reflete sobre seus sonhos para o futuro.

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História completa

Meu nome é Aldair Marcos de Jesus, eu tenho quarenta e cinco anos, nasci em 9 de agosto de 1974, sou de São Paulo. 

 

Meu pai era Antônio dos Santos de Jesus e Durvalina Rosa do Nascimento de Jesus, ambos os dois são falecidos já. Meu pai era vendedor e a minha mãe era doméstica. É meio difícil de falar, mas eu vou falar primeiro da minha mãe. Meu pai eu não era muito fã, eu vou ser bem franco, eu nunca fui fã do meu pai, mas a minha mãe é uma excelente pessoa, é um exemplo de mulher, entendeu? Que era ela muito agredida pelo meu pai… Bom, não vou começar a chorar aqui não, hein gente? E hoje eu tenho ela como espelho, de onde ela estiver, e eu tenho certeza que ela está em um lugar muito bom e… É, é isso que eu posso dizer para você, eu tenho ela como espelho. Minha mãe era muito guerreira, criou oito filhos, um não era dela, era da parte do meu pai com outra mulher. 

 

A minha infância, eu vou falar para você, foi de ver meu pai muito agredindo a minha mãe, né? Então não tenho muito o que descrever, praticamente eu não tive infância. Quando a minha mãe se separou do meu pai, eu comecei a trabalhar muito cedo, com oito anos eu estava começando a trabalhar como feirante, e eu não tive muita infância, entendeu? Meu trabalho na feira era levantar todo dia às três horas da manhã e ir de moto, porque um amigo meu me levava de moto, né, ou, às vezes, em cima do caminhão e era isso aí. Fiquei seis anos, trabalhei seis anos nessa rotina. Eu trabalhava porque precisava trabalhar mesmo, né. Tinha só minha mãe que trabalhava na época, meu irmão era muito novinho, também, meus irmãos… E a gente se virava né? Quando meu pai vendeu nossa casa com a gente dentro, minha mãe, a gente foi morar em um barraco que molhava tudo dentro de casa e a minha mãe cobria a gente com uma lona, minha mãe nem dormia, ficava cuidando da gente a noite inteira, porque pingava mais dentro do que fora. E depois, em um certo dia eu conheci uma pessoa muito especial nas nossas vidas, que foi meu padrasto durante trinta e cinco anos, que ele cuidou dos oito filhos dela. Meu padrasto mora no Grajaú, naquele CÉU Cocaia, tenho um convívio com ele. Quando dá, eu vou lá visitar ele. Está bem velhinho já. Foi um paizão, tomou conta da gente, namorou com a minha mãe, não fez discriminação, ele assumiu todos os filhos da minha mãe e cuidou da gente, criou a gente, então esse é meu verdadeiro pai, né? Porque pai não é aquele que faz, não, pai é aquele que cria você, te dá carinho, te dá respeito.

 

E hoje eu sou o homem que eu sou porque eu me esforcei muito, eu conheci uma pessoa muito boa na minha vida, o nome dela é Silvia e o marido dela é Gabriel e o que eles puderam fazer por mim na minha adolescência, eles fizeram para mim. Eu era feirante na época, e eu conheci essa Sílvia, ela tinha um bazar e papelaria, chamado Bazar e Papelaria Silvia em Interlagos e eu fazia entrega para ela todo final de semana, toda quarta-feira que tinha feira perto da residência dela e ela me pegou como filho. E hoje conheço ela ainda, não faleceu nem ela nem ele, eu tenho praticamente quatro irmãs por parte deles e é isso aí. 

 

A Sílvia viajava bastante no final de ano com as filhas dela. Até aí, eu não conhecia as filhas dela ainda direito. E eu ficava tomando conta da loja dela. Todo ano, eu ficava tomando conta da loja dela, que ela viajava para descansar e eu cuidava da loja para ela e era isso. A  minha relação com as filhas da Sílvia é muito boa! Muito boa! Essa é a melhor parte. Antigamente, não. Quando ela pegou… O marido dela começou a me chamar de filho preto, né? As meninas não gostavam, não. Mas hoje a relação da gente é muito boa. Sempre nós conversamos, quando dá tempo de conversar, sempre que dá eu vou lá também, em Itanhaém, onde a Silvinha mora. Mas minha relação com elas é muito boa, de irmão mesmo. Elas não tem irmão homem, só tem eu, neguinho aqui. Então é muito bom. O pai delas me trata excelente, muito bem. A mãe delas me trata muito bem, muito bem mesmo. 

 

Não fui à escola, por isso estou falando para vocês. Eu estudei até a oitava série, aí quando eu conheci essa Sílvia, ela me colocou no eixo. Aí eu fiz até a oitava série e o primeiro ano só, depois eu não quis mais estudar porque eu tive que ajudar minha mãe, né? Estudei até o primeiro ano, sim. Com a Silvia ainda. Ela que me ajudou bastante. Depois eu não quis mais, porque eu quis ir alavancar. Tipo, procurar alguma coisa para trabalhar para ajudar minha mãe, na época. Mas eu tinha bastante amigos. Estudei em duas escolas em Interlagos. Uma chama Plácido de Castro, que ainda existe hoje, e Calhim Manoel Abud, que é na Avenida Rio Bonito.

 

Depois da feira, eu trabalhei com a Sílvia. Trabalhei com a Sílvia durante seis anos, e o marido dela, na época, trabalhava na Pepsi Cola, e aí, um dia, eu estava… Minha mãe arranjou emprego para mim e eu ia e me escondia. Quando minha mãe saía, eu me escondia para fugir, porque eu não gostava daquele emprego. Aí quando chegou uma época, minha mãe falou: “Cadê o seu dinheiro?” Eu falei: “Olha mãe, eu não estou mais trabalhando na empresa. A senhora ia e eu fugia.” Aí foi um dia que eu tomei a decisão de eu mesmo arranjar meu próprio emprego. Aí eu trabalhei seis anos na Transfab, que hoje, o lugar lá chama Gomes da Costa. E em 1990, essa empresa faliu, e eu não desisti. Fiquei procurando emprego e trabalhei de várias coisas já. Aí fui trabalhar em uma empresa que chama ISS Servisystem, que era uma empresa de limpeza. Limpava, não tenho vergonha. Eu trabalhava de limpeza de privada mesmo, de peão. E quando, um certo dia, um gerente viu eu limpando aquele banheiro ali, falou que ali não era meu lugar e me colocou para trabalhar na Coca. Eu trabalhei na Coca um ano e sete meses, na Coca Cola, que era Spal antigamente. E de lá para cá, eu vim trabalhando. Saí de lá porque eu não quis mais ficar lá, naquele lugar. E fui trabalhar no aeroporto, na SATA, trabalhei um ano e seis meses. Depois, eu fui trabalhar na Matec Engenharia, trabalhei cinco anos e seis meses lá. Depois de lá, de cinco anos e seis meses, eu vim para o transporte público. Fiquei no transporte público até 2003, quando a Marta fechou as empresas, e fui para uma empresa chamada Viação Tupi. Lá eu trabalhei treze anos, saí de lá em 2014. 

 

Morei com a minha mãe até meus vinte anos. Já estava trabalhando no transporte público, foi quando eu conheci uma PM, uma policial feminina militar dentro do ônibus, ela era minha passageira. Aí nós fomos morar juntos e hoje tenho uma filha com ela, de 16 anos. Foi quando… Agora que é a pior hora. A gente ficou morando nove anos, e em 2003, quando eu estava trabalhando, acho que eu tinha falado um pouquinho para a ela… Em 2003, quando a empresa foi fechada, eu fui trabalhar na Viação Tupi. Com três para quatro meses, eu fui baleado nessa empresa e fiquei seis meses em coma. E quando eu acordei do coma, voltei a trabalhar de novo e minha mulher me traiu. Aí eu mudei meu lar, e fui morar em pensão. E depois, mais ou menos com seis meses que eu estava morando nessa pensão, eu conheci um rapaz, um amigo meu, trabalhava na Viação Cidade Dutra. Ele pediu para eu morar com ele. Eu fui morar com ele até o ano retrasado, quando ele arranjou uma pessoa na vida dele, e eu também decidi morar sozinho. Hoje eu moro sozinho. Vejo a minha filha muito pouco, meu filho morar no interior. Tenho um menino de 21 anos, mora no interior. E é isso aí.

 

Meu filho Matheus foi um relacionamento mal desejado com a mãe dele. Mas como ele é meu filho, eu apoio as decisões dele. Não sou fã da mãe dele, de jeito nenhum. A mãe dele, para mim… Ela foi perversa comigo. Mas meu filho está aí, e eu gosto muito dele, sabia? Ele mora no interior. Quando dá para ir, eu vou. Quando não dá, ele liga para mim. A gente não tem muito relacionamento, muito convívio. Eu não tenho muito convívio com o meu filho. Com a Laryssa, sim. A Laryssa foi desejada. A Laryssa é a caçula. Com a Laryssa eu tenho mais, assim... um pouquinho mais do que o Matheus. Com a Laryssa eu convivi, eu dei banho nela quando ela nasceu, entendeu? E o Matheus não, o Matheus foi mais indesejado. Quando ele nasceu, tinha 25 anos. Nunca fui casado no papel. Depois disso, depois que ele nasceu que eu arranjei essa namorada, que é a mãe da Laryssa.

 

Eu fui baleado no trabalho. Quando eu fui baleado, estava dentro do ônibus, trabalhava na Viação Tupi já. Era na época dos passes, tinha muito passe nessa época. O bandido começou a brincar de roleta russa pensando que eu tinha dinheiro na gaveta. Não tinha dinheiro na gaveta, e ele pedia dinheiro, eu falava que eu não tinha dinheiro, ele engatilhava o revólver na minha cabeça. Engatilhou três vezes e eu reagi. Nesse “reagimento”, me deu um tiro no pescoço e mais dois tiros nas costas. (choro) É isso aí. Em 2011, eu fazia carro direto da Viação Tupi e, descendo a Brigadeiro Luís Antônio, eu comecei a sentir muita dor. Muita dor, parecendo que estava tendo um filho, não sei nem a dor do parto de vocês. Foi que a bala tinha andado e caiu na minha bexiga. Essa bala quase me matou, mas graças a Deus, Deus é maravilhoso comigo, estou aqui. Desculpa, gente. (choro) É isso aí. Eu estou aqui hoje. Estou aqui para contar essa história. Mas estou bem.

 

E 2014, no mesmo mês que eu saí da Viação Tupi, em setembro, dia 9 de setembro, eu saí de lá e fui trabalhar na Pullman, na Raposo Tavares, e trabalhei um ano e meio também lá. Depois vim para a Gato. Estou há dois anos aqui na Gato Preto, uma empresa muito boa, não tenho nada de falar dela. Ela abriu as portas, porque eu entrei como especial lá, e estou lá. No dia que a ela pegou carro comigo, eu não quis divulgar nada, porque meio constrangimento, para mim, eu sou deficiente visual, do lado direito.  De repente, ela podia ficar com medo de o rapaz deficiente visual conduzir ela até a residência dela, entendeu? E é isso aí, eu sou especial. (choro)  

 

Meu primeiro dia como cobrador… Minha primeira empresa que eu trabalhei foi na Viação Santo Estevão, que é o Grupo São Judas, que foi que a Marta fechou as empresas em 2003. Eu era office boy nessa empresa, lá na Santo Estevão, na zona leste. Eu fiquei pouco de office boy. Como a empresa começou a mudar muito de nome, aí foi mudando, falaram se eu queria passar para cobrador, eu falei que queria, porque ganhava um pouquinho mais. Aí foi quando eles fecharam de vez e eu vim para a zona sul, que é a Viação Transleste, que até o final do… Que a Marta fechou as empresas, se tornou Viação Santa Bárbara. Era bom. Era bom, ganhei dinheiro naquela época. Aí depois fechou as empresas e eu vim para essas outras empresas que eu trabalhei. Essa é a minha terceira empresa que eu trabalho, empresa de ônibus. 

 

Na Santa Bárbara, que era transleste, eu trabalhei na linha do Jardim Miriam a Santo Amaro, e essa aqui do 516M, que é o Jardim Miriam, que hoje é Dom Gastão. Fiquei na linha Dom Gastão um ano e sete meses. No Jardim Miriam, eu trabalhei três anos. Santo Amaro a Jardim Miriam, que era 546M. Hoje eu trabalho… Faço a linha da Cidade Universitária a Princesa Isabel. Tem uns sete meses que estou nessa linha. Eu trabalhava, estava na reserva, e aí a Gato trocou as linhas dela, que eu fazia Socorro, 856R. Aí ela trocou com a outra empresa, que tem duas garagens. E as garagens das linhas da Cidade Universitária ficaram para a gente, aí eu trabalho nela. Pego dezesseis horas e largo uma hora da manhã, que é quando eu vou fazer as corridas do Uber. 

 

Sendo cobrador, eu gosto dos idosos. Eu vou ser bem franco com você, eu gosto dos idosos, porque quando você vê aquelas cabecinhas brancas dentro do seu ônibus, que te falam bom dia, e te tratam muito bem, é gratificante. Seu dia se transforma de um jeito que só Deus sabe. E tem uns outros também, tipo vocês assim, que entram… jovens, que entram na USP. Tem gente que é muito mal educada. Tem muita gente mal educada. Eu não, porque eu trato os passageiros como eles me tratam. Se eles me tratarem como bom dia, eu vou tratar como bom dia. Mas arrogância, jamais.

 

Antigamente, as pessoas não eram gentis. Hoje está sendo melhor. Hoje, a tendência é muito melhor. Quando eu trabalhava na Tupi, eu fazia ali nas Perdizes. Era muito idoso que eu pegava, muito. Hoje, não. Hoje, na USP, já é diferente. O pessoal te trata muito bem. O jovem te trata muito bem. Todo mundo, em si, assim, né? Trata você muito bem. É bom dia, é boa tarde. Então isso já é uma coisa que leva você a fazer um serviço de perfeição, entendeu? Trabalhar com qualidade. E eu gosto do que eu faço. Eu vou falar para você uma coisa, eu não gosto de ser cobrador, eu trabalho como cobrador, eu exerço as minhas atividades com perfeição porque eu sou pago para fazer aquilo, e eu nunca vou tratar o passageiro mal porque é através dele que vem o meu pão de cada dia, mas falar para você que eu gosto… Quando eu saí do transporte em 2014, fui trabalhar na Pullman. Vou chegar na situação daqui a pouco. Em 2014, eu saí da Tupi e fui entrar na Pão Pullman, que é a Bimbo do Brasil, e meu sonho era ser motorista lá. Meu sonho era enorme, ser motorista, só que eu não tive o respaldo do meu chefe na época, na Viação Tupi, de passar para motorista, aí eu pedi para sair da empresa. Eu fiz acordo, e fui trabalhar na Pullman, e lá eu fui trabalhar como motorista vendedor, eu trabalhava de segunda à sábado, trabalhava dentro da favela do Heliópolis, lá no São Caetano, e lá o negócio era feio. Nunca fui assaltado, trabalhei um ano e meio como vendedor lá dentro, foi quando eu sofri o acidente da visão. Fui abrir a estanteria, lá tem tipo uma janelinha, aquelas “travessinha” de janela, de fechar janelas, eles adaptaram ali e tinha uma mola. Essa mola estourou e pegou no meu olho, então ela cortou minha retina. Então aí eu não consegui mais exercer a minha atividade lá, que era trabalhar vendendo e dirigindo, eu dirigia aqueles furgãozinhos. Aí eu tive que voltar como cobrador de novo, foi quando eu entrei na Gato Preto. Eu entrei como PCD lá, estou lá até hoje como PCD. 

 

Eu me sinto seguro no meu trabalho. Por enquanto, estou me sentindo seguro, né? É igual eu estava falando com você aquele dia, eles vão acabar o cobrador, mas eu não estou esquentando a cabeça com isso não, porque eu sei me virar para outras coisas, outras áreas, entendeu? Não vai durar muito tempo, não. Pelo andar da carruagem aí, agora com esse negócio de cartão de crédito, de débito aí… Acho que agora vai. Vão ficar poucos, viu? Mas eu me viro, eu me viro. Estou com uns projetos de dar emprego, entendeu? Por enquanto vou deixar primeiro fluir, para ver o que vai acontecer.

 

Como PCD, eu sou tratado como igual, né? Porque se você olhar para mim hoje, se eu não te falar que eu sou deficiente, você não ia saber que eu era deficiente, entendeu? Então me tratam como igual, eu sou tratado que nem você é tratado com ela, ela tratada a você, não tem diferença. Eu sou um funcionário que nem… Se você é cobrador, se você é motorista, eu sou tratado igual, eu não sou tratado diferente.

 

Converso bastante com os passageiros. Eu sou um cara que converso bastante. Se me chamar para conversar, nós vamos conversar. Converso bem. Tem aqueles passageiros que não gostam de conversa. É só “bom dia” ou “boa tarde” e vai lá para o fundão dele. Mas sempre tem os passageiros que gostam de conversar com você. Porque tipo assim, tem passageiro que, às vezes, a gente é o psicólogo dele. Às vezes, eles vêm, querem conversar. Principalmente os idosos. Ele começa a conversar com você, praticamente fala a sua vida todinha para você, entendeu? Aí a gente se sente como psicólogo. Mesma coisa a gente, às vezes estamos conversando… entendeu? E vice-versa.

 

Uma história marcante dentro do ônibus foi quando eu fazia a linha do aeroporto a Perdizes. Entrou um deficiente dentro do meu carro. Na Tupi, eu não tinha problema de visão ainda. Ele falou assim: “Ô cobrador, quando chegar na Avenida Paulista, você me dá um toque?” Desculpa, eu fazia a linha do Jardim Miriam, 5178. “Quando chegar na Paulista, você me dá um toque?” Eu falei: “Dou sim.” Quando chegou na Avenida Paulista, eu falei assim: “Chegou seu ponto, você vai para onde, meu amigo?” Ele falou assim: “Eu vou atravessar a Paulista para pegar o Perdizes.” Aí foi uma coisa inusitada, que foi de mim mesmo, espontâneo, que eu peguei, saí da minha catraca, fui lá, desci pela porta de trás, fui lá e peguei ele, atravessei a avenida, e quando voltei, fui xingado, muito xingado. Aí tinha um passageiro que falou assim: “Gente, vocês tem que dar graças a Deus, porque nenhum cobrador faz isso.” Eu atravessei ele, o ônibus ficou mais ou menos quinze ou dez minutos, mais ou menos. Eu atravessei ele da Brigadeiro Luís Antônio até o outro lado da Paulista e deixei ele no ponto. Quando voltei, fui xingado pelos passageiros. Só uma mulher foi a meu favor e o resto, todos ficaram bravos, porque o carro ficou parado lá o maior tempinho, e eu atravessando deficiente, mas eu nem liguei, não liguei. E a outra vez, eu fiquei meio sem graça, foi com uma idosa. Nessa época, eu estava trabalhando na 5175, Praça da Sé. Na Brigadeiro Luís Antônio, fui atravessar ela também, quando voltei, o pessoal começou a bater palma, eu fiquei sem jeito. Mas é muito bom.

 

O carro que uso no Uber, eu consegui comprar, adquiri ele. Adquiri ele tem 25 dias.

Eu rezei para Deus, para que Deus abençoasse alguma coisa coisa para mim, porque eu quero trabalhar. Eu adquiri ele, estou pagando ele e vamos que vamos. Adquiri ele há pouco tempo.

 

A minha relação com as pessoas no Uber é boa, porque eu acho que se você entrou ali no aplicativo para exercer o que você está querendo, você tem que fazer com perfeição, porque vai entrar vários tipos de gente, entendeu? Que nem… Vamos supor, eu vou pegar você e vou te levar na sua residência, eu não conheço seu bairro, vamos supor que é uma periferia. Se tocar a campainha lá, eu não vou pegar, porque eu não conheço quem eu vou pegar dentro da favela, dentro da periferia, entendeu? Mas fora isso, de boa. 

 

O tratamento das pessoas no Uber e como cobrador é igual, porque vai da sua pessoa. Se você é tratado bem, por que você vai tratar a outra pessoa mal, entendeu? Eu, por mim… Eu trabalho aqui de cobrador no transporte público desde... Vamos colocar que tem uns treze anos. Tem uns treze anos que eu trabalho no transporte, ou mais. Eu trato a pessoa como ela me trata. Graças a Deus, eu nunca tive arrogância, não. Pessoa arrogante, que me tratou não… Sempre me tratou bem. 

 

Eu era taxista no ponto da Washington Luís. Então eu adquiri experiência, porque na época, quando eu trabalhava na Tupi, eu trabalhava com um motorista chamado Carlinhos de final de semana. E ele falou: “Ô Marcos, vamos fazer um curso de taxista, vamos fazer um curso de taxista!” “Não vou fazer, não.” Um dia ele falou: “Vamos, meu!” Porque ele queria companhia, aí eu fiz o curso de taxista com ele. Aí eu fui querer tirar experiência, já tinha o curso: “Vou tirar o CONDUTAX, para eu saber, né?” Aí fui, tirei o CONDUTAX, e fui ter experiência. Muito boa, mas já tive umas reações bravas, aí. Já fugi de bandido, já. Capotei uma Livina X- Gear 2014, e vou falar para você, é uma sensação muito louca: o bandido estar atrás de você, você fugindo, o carro não tinha seguro, e o carro capotar com você dentro e você não se machucar, não acontecer nada! Foi o que aconteceu comigo, eu fugindo do bandido na Maria Cândida, na Zona Norte, quando eu cruzei aquele do farol piscante, o carro me pegou no meio da porta e me capotou o carro e eu não morri, não aconteceu nada comigo. Então o Uber já trouxe isso aí. Já pouco tempo que eu estou no Uber aí,  eu tive só um constrangimento, tem uma semana e pouco, peguei uma mulher no Hospital Campo Limpo, e ela me levou em uma bocada e eu fiquei com medo. Mas depois disso, não. Fora isso, tranquilo. Mas é muito bom, a sensação é muito gostosa, trabalhar e ver o pessoal falando assim: “Ô Uber, você me leva para tal lugar?” Entendeu? Muito bom. Sensação excelente. De pessoas… Tem as pessoas más e tem as pessoas ruins, você não sabe quem é quem à noite. Depende só de Deus mesmo.

 

Importante para mim hoje é minha filha e arranjar uma namorada (risos). Porque eu moro sozinho. Mas minha filha em primeiro lugar. Vai querer fazer faculdade de medicina e eu estou no Uber por causa disso. Quero dar o melhor para a minha filha. Apesar que a mãe dela é militar, é polícia militar. Mas eu tenho que ajudar também, porque eu sou o pai. E por isso que eu entrei na Uber, para eu ter um conforto para mim e ter um conforto para eu poder ajudar minha filha, que agora que ela vai precisar de mim. 

 

Tenho um sonho que eu estou esperando aí faz um tempinho já, que meu advogado deu entrada no meu benefício. Eu não recebo benefício nenhum do governo, porque perdi a visão e hoje sou PCD. Eles não… Eu tive que entrar com advogado para receber. Já ganhei a causa. Estou esperando duas causas, uma da Tupi, que eu botei na justiça. E quero montar minha empresinha e comprar meu apartamento. Tenho um sonho muito grande.

 

Quero ter uma empresa de transporte. Quero dar emprego, já que está faltando emprego. Tipo, você compra um celular pela internet, eu vou lá e entrego na sua residência. Tem vários mercados nesse segmento aí, só que o Mercado Livre não trabalha com carro descategorizado, e essa empresa que eu estou vendo aí, trabalha. Então quero comprar mais uns dois carrinhos, sair esse dinheiro, comprar mais uns dois carrinhos e colocar alguém para trabalhar. E esse do Uber, eu vou fazer o Uber tipo: de dia faço Uber, ou trabalho à noite, para ter um pouquinho de refresco. Esse é meu sonho.

 

Contar um pouco da história foi um alívio. Foi um alívio muito bom. Estou aliviado, porque quando ela me falou que queria conhecer um cobrador para fazer, eu falei: “Estou aí!” Estou muito aliviado, porque eu nunca contei essa história para ninguém, sempre guardada aqui no meu coração. 






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