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História

"A comunidade está reagindo bem. E as doenças estão diminuindo"

História de: Ivânia Maria Sotta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/08/2018

Sinopse

Nesta entrevista, feita em 1997, Ivânia nos conta sobre os problemas que teve ao não fazer pré-natal na primeira gravidez e como hoje atua prevenindo esta e outras questões como agente comunitária de saúde. 

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História completa

P/1 - Ivânia, vamos começar assim: você me fala o seu nome completo, a data de nascimento e o local em que você nasceu.

 

R - Ivânia Maria Sotta. Nasci em Saltinho, Rodeio Bonito, em 19/6/67.

 

P/1 - Ivânia, eu queria que você começasse falando um pouco sobre suas origens. O que você sabe sobre seus avós do lado de pai e do lado de mãe? Vamos começar pelo lado de pai.

 

R - Os meus avós vieram de Erechim; são os dois italianos, de origem italiana. Vieram de Erechim morar em São José Planalto, onde residem até hoje.

 

P/1 - Eles ainda são vivos?

 

R - Ah, não. O meu avô já é morto; a minha avó está viva.

 

P/1 - E o que eles faziam na vida?

 

R - Eles trabalhavam na agricultura, na roça também. Eram agricultores.

 

P/1 - Eles tinham terra?

 

R - Tinham.

 

P/1 - E o que plantavam?

 

R - Plantavam milho, feijão, mandioca, soja. Viviam da agricultura. Criavam vaca de leite, vendiam leite, faziam queijo.

 

P/1 - E você sabe se foi seu avô que veio da Itália ou seu bisavô?

 

R - Acho que foi o meu bisavô, meu avô é que não foi. (risos)

 

P/1 - Seu bisavô… Seu avô já nasceu no Brasil.

 

R - Ele já nasceu no Brasil aqui, sim.

 

P/1 - E pelo lado da mãe?

 

R - Da mãe, meu avô e minha avó vieram de Cruz Alta. Meu nonno e minha nonna. Vieram morar em Saltinho, onde residiram até morrer. Meu avô era juiz de paz, como antes se dizia. Ele atendia a comunidade ali de Saltinho, que era da sede. Depois que se aposentou, ele comprava pedra preciosa e era assim que ele vivia. Gostava muito de brinquinho de pedras. Ele negociava pedras; comprava, vendia.

 

P/1 - O quê de pedra?

 

R - Pedras preciosas.

 

P/1 - Brinquinho?

 

R - É. Eles compravam ‘aos bicos’, como se dizia.

 

P/1 - Ah, os biquinhos?

 

R - É. Colecionava quinze ou vinte biquinhos. Lá eles diziam ‘torinho de pedra’...

 

P/1 - Sei. (riso)

 

R -...(riso) virava bem assim.

 

P/1 - E vendiam os torinhos?

 

R - Vendiam aqueles torinhos de pedra.

 

P/1 - E ele fazia garimpo também, não?

 

R - Fazia. Faziam garimpo, os meus tios, porque eles também moravam ali. Daí vendiam pro finado João Portes, que comprava e vendia pros caras de Soledade, que vinham buscar.

 

P/1 - Sei...

 

R - Depois, ele ajudou a descobrir, aqui no Saltinho, essa região ali. É só garimpo quase que existe.

 

P/1 - Sei, sei...

 

R - Ele ajudou a descobrir. Agora só dá minério de pedra lá. Eles vivem só da pedreira, só das rampas.  Prá lá, ninguém quase planta.

 

P/1 - Então ele foi pioneiro ali?

 

R - É, ele foi.

 

P/1 - Começou a descobrir a pedraria toda.

 

R - (riso) É, começou a descobrir.

 

P/1 - O seu avô teve essa atividade por parte de mãe, não é? E a sua mãe, tinha muitos irmãos?

 

R - Eles eram em cinco irmãos.

 

P/1 - Cinco irmãos?

 

R - É. Quatro filhas mulheres e um filho homem, só.

 

P/1 - Ele foi juiz e depois passou a negociar com pedras, não é?

 

R - É. Depois que ele se aposentou, que não poderia mais trabalhar como juiz,  começou a lidar com as pedras.

 

P/1 - Sei.

 

R - Era um divertimento pra ele.

 

P/1 - E como era a posição econômico-social da família da sua mãe? Eles eram bem de vida? Tinham uma situação confortável, estável, ou muita dificuldade?

 

R - Era confortável.

 

P/1 - É?

 

R - Não era nem tão boa e nem tão ruim. Era razoável.

 

P/1 - E do lado do seu avô paterno?

 

R - Paterno? Lá era melhor. As condições de vida deles eram boas.

 

P/1 - É?

 

R - Porque eram quase todos negociantes. O único, meu pai, só… Ele não tem comércio nenhum. Os outros, não, são todos comerciantes. E meu avô fazia parte de quase todas as lojas dos meus tios. Ele tinha parte.  

Agora está só a nonna. A vó lá não faz mais parte. Ela não briqueia tanto, mas o meu avô, sim.

 

P/1 - Quer dizer, o seu avô era agricultor, tinha terra...

 

R - É.

 

P/1 - ... e também era comerciante.

 

R - E era comerciante. (risos)

 

P/1 - Que tipo de comércio?

 

R - Onde era mercado.

 

P/1 - Mercado?

 

R - Compra e venda de secos e molhados.

 

P/1 - E do lado do seu avô, então, a vida tinha mais fartura?

 

R - É, do meu avô, sim. E do meu nonno, não.

 

P/1 - E como vieram parar aqui nessa região?

 

R - Aquela vez, gente, era descobrindo caminho. Descoberta porque aqui era tudo mato, entende? Eles faziam umas caravanas, que nem de Erechim; já tinha, acho, a cidade lá. Vieram prá cá de carreta puxada a cavalo, digo eu, boi, não sei como era direito. Ou vinham pelo rio. Eu sempre via meu avô falar que eles botavam as lanchas no rio e vinham pelo rio.

 

P/1 - E vinham desbravando terra.

 

R - E vinham desbravando. Vinham cortando de machado, de facão, até que vieram parar ali, onde moraram acho que noventa e poucos anos.

 

P/1 - Era Saltinho?

 

R - Não, era São José Planalto.

 

P/1 - Então ele chegou e tomou posse? Não tinha...

 

R - É, daí ele chegou...

 

P/1 - ... escritura?

 

R - Não tinha nada. Era tudo terra de... Como existe ainda! É só ir aqui olhar. Tem uma reserva lá. Agora o governo sabe, tomou posse, então é dele, né? Não dá prá ninguém mexer lá.

 

P/1 - Era dos índios?

 

R - Era dos índios.

 

P/1 - E agora ainda tem índio lá?

 

R - Não tem mais índio. Ficaram numa área pro lado de lá. Naquela reserva ali, ninguém pode mexer. E quem a polícia pegar ali, vai preso. Não tem que ver nada.

 

P/1 - Sei.

 

R - Sabe onde está a reserva ali? É como era todo o resto. Rodeio Bonito, Planalto eram assim, tudo mato.

 

P/1 - Eles tiveram coragem de chegar e tomar conta do mato?

 

R - É, enfrentar. (risos)

 

P/1 - Eles contam alguma aventura dessa época de chegar aqui no Rodeio Bonito e encontrar bicho, alguma coisa?

 

R - Ah, antigamente, imagina! Meu pai conta, né? Disse que usava chorar bastante, que nasceu em Erechim - veio prá cá [quando] ele tinha dois, três anos. Disse que era muito chorão...(risos).

Disse que então ele ouvia os gritos do leãozinho, que arremeda ele chorar. Daí a nonna dizia que não era leão, era o tigre. Disse que só parou de chorar [por causa de] de um corridão que tinha levado. Disse que até sobrancelha ele não tinha, de tanto chorar. (risos)

 

P/1 - Levou o quê? Um corridão?

 

R - Levou um corridão.

 

P/1 - Corridão é uma surra?

 

R - Não!

 

P/1 - Não?

 

R - Não. Disse que [era] de um bicho, sabe? Disse que quanto mais ele chorava, mais aquele bicho chorava, perto dele.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Disse que se assustou demais, correu pra casa, mas disse que, daquele dia em diante, ele não foi mais de atrás da nonna. A nonna ia pra roça, ajudar o nonno. Naquela vez, era derrubado tudo com machado, o mato. E ele atrás, chorando.

 

P/1 - (riso)

 

R - Aí disse que parou de chorar, que foi um remédio pra ele.

 

P/1 - Nesse início, eles falam de índio por aqui, também? Eles tiveram que enfrentar, lutar com índio, ou não?

 

R - Não, não tiveram que enfrentar índio.

 

P/1 - A área já estava desocupada?

 

R - Já estava desocupada. Era tudo um sertão, puro mato. Depois eu não sei, agora eu não me lembro, de onde vieram esses índios. Eles vieram acampar na Fazenda Nome, que existe lá em Planalto. A área dos índios. Esses índios não incomodaram por aqui. Eles chegaram, acamparam e estão lá também, né? Eles trabalham, fazem cesta e coisarada pra vender.

 

P/1 - De que ano nós estamos falando? Essa época que seu avô chegou por aqui, qual época era? Em que ano?

 

R - Ai, gente…

 

P/1 - O seu pai era menino. Você disse que ele chorava, era chorão.

 

R - Ele era chorão.

 

P/1 - Então devia ter quantos anos?

 

R - Vamos ver, o pai tem 51. Ele tinha, quando muito, dois aninhos porque já podia caminhar. Meu pai é de 44.

 

P/1 - Se ele é de 44, então devia ser final de...

 

R - 46, acho.

 

P/1 - Então no final dos anos 40 isso aqui ainda era mato.

 

R - Era tudo mato, ainda.

 

P/1 - Que coisa, hein?

 

R - Tinha pouquíssimo morador, só. E agora.

 

P/1 - E depois, como evoluiu a coisa? Seu pai cresceu aqui, então?

 

R - Meu pai cresceu aqui.

 

P/1 - Em São José.

 

R - São José Planalto.

 

P/1 - A que distância Planalto fica aqui de Rodeio Bonito?

 

R - Dá uns dezesseis quilômetros.

 

P/1 - Pra cima, não é? Então ele cresceu lá no Planalto, trabalhando como agricultor, com o seu avô. A família do seu avô é de quantos filhos?

 

R - Treze.

 

P/1 - Treze? Epa! (riso) A produção foi grande.

 

R - É, foi.

 

P/1 - Cresceram lá e depois vieram pra cá, prá Rodeio?

 

R - Não, meu pai mora lá. E aí meu pai se casou com a minha mãe. Minha mãe morava aqui no Saltinho, também.

 

P/1 - Você sabe como eles se conheceram?

 

R - Ah, senhor, não sei o jeito que meu pai e minha mãe se conheceram...

 

P/1 - Porque estava um pouco longe, não?

 

R - É. Só sei dizer que, quando eles se casaram, eles moraram ali no Saltinho. Um ano, parece que junto com a… Na terra do meu avô, do meu nonno. Depois que eu nasci ali, eles foram pra São José, daí o nonno deu essa terra pro meu pai. Até dia de hoje ele está lá em cima, ainda.

 

P/1 - Sei.

 

R - Ele ficou lá, né? Tem temporada [que] ele criava cabrito, ovelha e vaca de leite. Ele adora os bichinhos dele. Não sai de lá por nada desse mundo, eu acho.

 

P/1 - E planta ainda, também?

 

R - Planta também.

 

P/1 - Ele tem quantos alqueires lá?

 

R - Tem oito.

 

P/1 - Como é que você cresce? Onde é que você estuda? Como é a sua vida depois do casamento dos seus pais?

 

R - A minha infância foi em São José, era bem legal. Eu adorava morar lá. Depois que eu fiquei adolescente pra jovem, a gente tinha o grupo de jovens, que eu participava. Fui catequista também, ajudava na capela. Foi ótimo. A gente tinha reunião dançante quase todo final de semana. Era bem legal morar lá.

 

P/1 - Você trabalhou desde cedo?

 

R - Trabalho na roça?

 

P/1 - É, dentro de casa, na roça...

 

R - Na roça, desde a idade de oito anos. Quando eu tinha oito anos, minha mãe - a gente era em seis filhos, né? Minha mãe, imagina, a cada dois anos ela tinha um...

 

P/1 - Sei.

 

R - Eu era a mais velha, então tinha que ajudar o pai. Ali eu comecei a ajudá-lo, ir pra roça. Eu tomava conta da roupa. Meio dia eu estudava e meio dia eu ajudava o pai. Quando vinha de meio dia eu ia ensaboar roupa ainda pra minha mãe. Não voltava.

 

P/1 - Sei.

 

R - Quando eu cresci mais, quando tinha base de, quer ver, uns doze anos, minha mãe ganhou o último nenê lá de casa, aí deu um derrame nela. Ela ficou três meses num hospital.

 

P/1 - Que é isso!

 

R - Quase morreu, aí eu comecei… Tinha que tomar posse de tudo dentro de casa: roupa, comida, pois eu era mais velha e tinha cinco irmãos mais pequenos do que eu. Eu tinha que me virar. E daí era na roça, era em casa, era no colégio e tomar conta das crianças. Naquela vez, eu acho que a mais pequenininha tinha um ano e meio, dois anos, não me lembro bem. E eu cuidava, era a mestre dentro de casa.

 

P/1 - Você teve que assumir a responsabilidade cedo.

 

R - É, cedinho.

 

P/1 - E você estudava no meio disso?

 

R - Estudava ainda! É que nem agora: eu saio a trabalhar, cuido do meu serviço de casa, roupa, comida, dou atenção pra marido, pros filhos, e tenho ainda duas vacas de leite. Sempre, né? Não é fácil.

 

P/1 - Você então assumiu a função da sua mãe, mas a sua mãe voltou depois?

 

R - Minha mãe voltou.

 

P/1 - E ela ficou bem depois, voltou ao normal?

 

R - Ficou bem, graças a Deus, tanto é que ela vive até hoje. Mas ela não trabalha mais na roça, na lavoura. Só o pai que vai pra roça. Ela fica dentro de casa, arruma a casa, roupa, comida.

 

P/1 - E seu pai trabalha sozinho ou seus irmãos ajudam?

 

R - Sozinho. Tenho só um irmão.

 

P/1 - Só um irmão?

 

R - Hum, hum. E esse irmão está em Bento Gonçalves, agora. As meninas se casaram, todas.

 

P/1 - E ele dá conta da lavoura toda?

 

R - Ela dá conta da lavoura, de quatro vacas, de junto de boi, os porcos e o resto. (risos)

 

P/1 - E como você conheceu o seu marido?

 

R - Foi numa reunião dançante.

 

P/1 - Lá em São José?

 

R - Em São José Planalto.

 

P/1 - Ele ia prá lá? Porque ele é de…

 

R - Ele é de Saltinho, de Salto Velho.

 

P/1 - E ele ia pra lá passear, como é?

 

R - Ele ia prá lá. Todo final de semana, o nosso grupo de jovens fazia reunião dançante - ou o que fosse, futebol dos rapazes. Ele tinha ido pro quartel, mas eu não o conhecia. Ele estava com a cabeça, com o cabelo, bem rapadinho.  

Ele foi naquela matinê, naquela reunião dançante. Desde o começo, ele vinha me tirar pra dançar. Dancei, acho, quase a tarde inteira com ele, mas sem saber quem ele era e sem ele saber quem eu era. (risos)

Quando chegou no final da matinê, eu disse assim: “Não vou ficar com ele.” Aí as gurias: “Não, fica com esse ali que é um cara bom.” “Mas será que é bom mesmo?” Olhei bem pra cara dele. Eu disse: “Eu acho que não.” E aí escapei dele.

Naquilo veio um moreno, mas moreninho, de raça bem negra mesmo, me tirar pra dançar, aí ele começou me gozar. Eu disse assim: “Sabes de uma coisa? Agora, por ter debochado, vou eu gozar da tua cara.” Consegui escapar daquele bem moreno, aí comecei a gozar dele. Ele veio me tirar pra dançar de novo. Naquela época, não podia a guria dar carão, sabe, no rapaz porque ele podia dar um tapa na cara também, né?

Então fui dançar com ele. Ele me perguntou de que gente eu era; eu disse que eu era _______, aí ele me disse assim: “Sabe de uma coisa? Era uma ________ que eu sempre estava procurando.”

Eu disse assim: “Mas eu, não. Tu nem me conhece, eu também não te conheço.” Aí ele disse assim: “Não, mas tu não é a Mari da Nica?” “Não, não sou Mari da Nica. Sou filha da Terezinha.” E daí ficou, né? Nós fomos juntos até um pedaço, conversamos mais um pouco, mas eu naquela: “Será que eu vou namorar esse cara? Será que não?” Eu tinha, imagina, dezesseis, eu era bem novinha!

Deu uma chuvarada, acho que de uns três meses. Apodreceu tudo: soja, milho, tudo. Aí ele sumiu, nunca mais eu o vi. Eu estava sozinha. Um dia, foi num culto de manhã, eu fui ao culto, ele estava [lá]. Mas ele não se achou com coragem de chegar perto de mim, nem eu dele. (risos) Eu fui pra casa.

De tarde tinha jogo, aí eu vim pro jogo e ficamos juntos. Daquele dia em diante começamos a namorar, ele ia em casa. Ele pediu pro pai e pra mãe porque aquela vez era bem diferente do que agora. Nós namoramos seis meses, acho, e daí nos casamos. Foi assim, bem...

 

P/1 - O que é dar carão?

 

R - Hã?

 

P/1 - Tem umas coisas que são aqui da região que eu não sei o que significa. Dar carão é se negar a dançar?

 

R - Aqui no sul, sim. Aqui no sul, não pode. Vamos dizer, se o rapaz...

 

P/1 - A moça não podia recusar o rapaz?

 

R - Não podia recusar. Aí tu tinhas que dançar.

 

P/1 - E podia até levar um tapa na cara se recusasse?

 

R - Podia levar um tapa na cara!

 

P/1 - Que coisa! Tá doido!

 

R - Era bem assim. (risos) Qualquer um que viesse tirar a gente pra dançar. Daí tu tinhas que dançar, pra não levar o tapa na cara. Não era fácil.

 

P/1 - Não é fácil. Você tinha que dançar com qualquer um.

 

R - Tinha que dançar com qualquer um, menos se fosse casada, né? Se fosse casada, não.

 

P/1 - Se fosse casada, podia dar carão?

 

R - É, aí podia dar carão. Mas se fosse solteiro, não podia dar carão. É bem assim. (risos)

 

P/1 - Agora não tem mais isso? A moça pode recusar?

 

R - Depende. É o seguinte: se fizerem uma reunião dançante e não for preciso a guria pagar o ingresso pra entrar, ela tem que dançar. Se ela pagar o ingresso, ela tem o mesmo direito que o rapaz.

 

P/1 - Tá certo.

 

R - Aí ela não... Porque tudo depende de cada comunidade, sabe?

 

P/1 - Tá certo.

 

R - É bem... Mudou um pouco.

 

P/1 - Quer dizer, quando a mulher paga, ela deixou de ser dependente.

 

R - É, ela deixou de ser dependente.

 

P/1 - Ela está independente ali, pode escolher também.

 

R - É, isso aí. (risos)

 

P/1 - Ivânia, você se lembra de doença, algum tipo de epidemia na sua infância, na história da sua família? Fora a história da sua mãe, alguém que ficou gravemente doente?

 

R - Não. Foi só uma vez, que deu o sarampo em todos nós. Éramos em seis e deitamos todos. (risos) Um pior do que o outro.

 

P/1 - E vocês tomavam vacina?

 

R - Não tomávamos vacina nenhuma.

 

P/1 - Não tomava nenhuma?

 

R - Aquela vez, imagina! Era tudo diferente do que é agora. Ninguém vinha orientar a gente: “Tu sabes por que existe? Por que tu vais fazer essa vacina com nove meses, que é do sarampo?” Ninguém sabia nada. Quando a gente caía, caía de turma. Ia todo mundo pra cama. Quando não morria, né?

 

P/1 - Pois é!

 

R - Tinha que dar graças a Deus, ainda.

 

P/1 - Você se lembra de criança que morreu, na sua infância?

 

R - Na minha infância, lá perto da minha mãe, morreu criança com a tosse comprida, que é a coqueluche. Morreu muita criança lá. De sarampo também morreu, porque o sarampo é dificilmente aquele que dá e salva, né? A minha mãe, aquela vez que deu sarampo em nós, ela foi com quatro pro hospital, e dois ficaram em casa com o meu pai. Era de bando assim, né?

 

P/1 - Porque se pegava um, pegavam todos, não é?

 

R - É, pegava um, pegava em todo mundo. Daí todo mundo deitava.

 

P/1 - Depois você se casou e começaram a nascer seus filhos. Quantos filhos?

 

R - Tenho dois.

 

P/1 - Dois filhos. Como foi enfrentar os garotinhos? Muito problemas com eles? Deu problema de saúde, também?

 

R - Deu. No meu mais velho, é o seguinte: naquela vez que eu o ganhei, em 85, a gente não tinha orientação nenhuma. Lá, [quando] a gente ficava grávida, se ficava doente eu vinha [me] consultar, mas não tinha pré-natal, não tinha uma pessoa que orientasse a gente sobre o aleitamento materno. Lá, a gente era tudo fechado, sabe?

 

P/1 - Sua mãe lhe explicava, falava alguma coisa?

 

R - A mãe explicava, mas ela também pouco sabia sobre isso. Hoje, se eu engravidasse e tivesse outro filho, ia ser totalmente diferente. Naquela vez, não existia nada, eu nem pré-natal fiz. Nasceu meu nenê com bastante problema de infecção.

 

P/1 - É?

 

R - É. A garganta, aquele tinha asma, era cheio de infecções. Até os três anos.  Como eu não sabia nada de aleitamento materno...

 

P/1 - Nada de aleitamento materno.

 

R - Eu, não. Não sabia pra que fazer o pré-natal. Dizem que o aleitamento materno é mais importante pra saúde do bebê. Mas por que isso? Disso eu não sabia nada.  

Com oito meses que o nenê tinha, secou o leite. “Secou o leite, eu vou ter que tirá-lo [da amamentação]”, aquela vez eu pensei. Tirei o nenê do peito, aí começou: cada vez era mais infecção, toda semana o piá com diarreia. Era gastar no médico: uma semana em casa, outra no médico.

Um dia eu me incomodei, eu disse assim... Foi o doutor Paulo que me atendeu. “Doutor”, eu disse assim, “como é que pode uma coisa dessa? Toda semana eu venho consultar o nenê! Ele não melhora da diarreia, não melhora da infecção. Ele está sempre com infecção. O que pode ser isso?” Ele disse assim: “Minha filha, tu fizeste pré-natal?” Eu disse: “O que é isso, doutor?” Ele disse assim: “Tu fizeste acompanhamento médico pra ver se tu não tinhas infecção nenhuma, antes de ter o nenê?” Eu disse: “Eu, não. Nem sei o que é isso!” Daí ele disse assim: “Pois é, se antene mais. O próximo que tiver, faça o pré-natal.” Eu pensei: “Agora o que eu vou fazer? Eu vou ter que aguentar.” Criei ele.

[Na gravidez] Da nenê, já foi totalmente diferente! Já existia a Maria Augusta aquela época aqui no Rodeio, ela já começou a orientar. Porque o aleitamento materno diminui a infecção; se secar o leite e diminuir, continue dando, que vai aumentar. Continuei dando. Foi totalmente... A nenê eu não gastei, nunca baixei [em] hospital. Agora tem cinco aninhos, nunca baixei no hospital com a nenê. Sim, uma gripezinha, uma coisinha ou outra sempre deu, né?

Tirei a nenê do peito com um ano e oito meses, aí começou sabe o que? A diarreia nela, mas eu pensei: “Sabe duma coisa? Tudo bem, se eu der o leite de vaca, vai dar. Se der diarreia, vou tirar, vou dar o leite em pó.” Comprei o leite em pó e dei pra ela até os dois anos. Melhorou, não foi mais preciso nada. Foi uma maravilha eu criar. O que eu sofri com o primeiro, não sofri nem uma parte com a nenê. Então daí...

 

P/1 - Então você aprendeu?

 

R - Aprendi muito. E graças à Maria Augusta, que sempre está aqui no Rodeio. Gente do céu, ela é uma mãe pra todo mundo! Agora [tem] as palestras, as orientações que a gente dá pras mães de primeiro filho. É muito importante, elas levam a sério.

Às vezes, a gente pensa assim: “Bah, eu vou só fazer uma visitinha de meia hora, como manda.” Mas é mentira. A gente não vai fazer de meia hora! Às vezes [são] de uma hora e meia. (risos) Porque elas querem saber tudo: sobre aleitamento materno, por que fazer pré-natal. É sempre assim.

 

P/1 - Vamos chegar no PACS, agora. Como foi? Porque você estava  trabalhando com agricultura com seu marido, né?

 

R - Hum, hum.

 

P/1 - A terra é de vocês? Vocês tem quantos alqueires mesmo?

 

R - Temos três alqueires.

 

P/1 - Três alqueires. O que vocês plantam?

 

R - Plantamos milho, feijão, mandioca, amendoim, pipoca, que é da agricultura, né? Um pouco pra vender e um pouco mais pra comer. Amendoim, a pipoca, a mandioca, a abóbora, isso ali a gente planta mais pra casa, pra tratar as vacas, os porcos. O milho também: um pouco mais vai pro galpão, pras criações, outro pouco pra vender. Soja, então, mais é pra vender. E o feijão.

 

P/1 - O que vocês têm de criação?

 

R - Nós temos quatro vacas, duas juntas de boi e mais um terneiro.

 

P/1 - Mais um?

 

R - Terneiro.

 

P/1 - O que é terneiro? Desculpa a ... (risos)

 

R - Terneiro é um pé de leite, como dizem os italianos aqui. Os terneirinhos das vacas.

 

P/1 - Ah, tá. Um tourinho?

 

R - É, um tourinho...

 

P/1 - E galinha?

 

R - Temos galinha.

 

P/1 - Porco?

 

R - Porco, pato, coelho.

 

P/1 - Ah, tem de tudo então? (risos)

 

R - De tudo!

 

P/1 - Como é? Seu marido cuida de tudo?

 

R - Um pouco é o Rudi que cuida, outro pouco é ele. E as vacas são pra mim. (risos)

 

P/1 - As vacas são com você?

 

R - Tirar leite.

 

P/1 - Tá certo!

 

R - Eu vendo leite.

 

P/1 - Dá pra viver a vida no sitiozinho, plantando?

 

R - Dá prá viver.

 

P/1 - Vocês tiram um dinheiro bom?

 

R - Dá pra tirar, dá bem pra sobreviver, sim.

 

P/1 - Vocês têm eletrodoméstico, têm um padrão de vida bom? Ou ainda tem muita coisa que você quer ter na sua vida?

 

R - Bom, pra falar a verdade… A gente, se fosse ver, sempre teria algo pra comprar, mas dentro de casa eu tenho tudo. Tenho freezer, tenho geladeira.

 

P/1 - Televisão?

 

R - A televisão, eu vendi.

 

P/1 - Você vendeu?

 

R - Vendi!

 

P/1 - Não gosta de televisão?

 

R - Não quero televisão.

 

P/1 - Por que você não gosta de televisão?

 

R - Até o final do ano… É o seguinte: eu tenho as crianças, né? O Rudnei agora está na quarta série. Se eu sair, eles vão se ligar na televisão e o resto que se lixe. Então é assim: quando chegam as férias, eu compro uma televisão, quando começam as aulas, eu vendo a televisão.

 

P/1 - É melhor você alugar agora, que vai ficar mais… (risos)

 

R - É que não dá certo. Eu já tentei, sabe, segurar a televisão. Se a gente não está em casa… Meu marido vai pra roça, eu saio o dia inteiro, e o piá fica ali. Ele não vai se tocar que tem que pegar os cadernos, [que] vai ter que estudar. No ano retrasado, eu tinha televisão, mas não dava: o piá não estudava, as professoras sempre reclamando. Eu [disse]: “Sabe de uma coisa? Eu vou pegar a televisão e vou tirar.” Trouxe aqui na minha sogra. Deixei ali. Ele não tinha televisão, a nenê é pequena pra ele brincar, daí não dava… Ele começou a se antenar mais nos cadernos.

 

P/1 - Hum, hum.

 

R - Eu disse assim: “Não, isso é castigo.” Então, agora é levá-lo pros cadernos e esquecer de televisão.

 

P/1 - Tá certo.

 

R - Tem que fazer assim porque senão ele esquece dos cadernos e vai pra televisão. Aí todo mundo [diz]: “Mas que tu é _______” Sim, mas o único meio que eu posso fazer é isso aí, gente.” Não posso, não tem outra saída pra mim.

 

P/1 - Você vai repetir um pouco o que já me disse, mas por que você entrou no PACS?

 

R - Eu entrei no PACS a pedido de uma comunidade, das comunidades todas lá pra baixo. Eu moro ali há sete, quase oito anos. Eu não tenho encrenca com ninguém, todo mundo é amigo, é amiga. As mulheres, nossa…

Agora eu estou com duas nonnas. Uma pro lado de baixo e a outra pro lado de cima. (risos) Então eu tenho que me cuidar. Vamos dizer assim: [se] eu não tenho dinheiro, eu vou lá na nonna de baixo e peço assim: “Ó, nonna, a senhora tem cinco reais pra me emprestar, até o dia que eu recebo?”

É que eu só recebo do leite... Aqui do PACS, [no] dia dez, e do leite que eu vendo, no dia 20. Mas é que às vezes eu me aperto, aí eu digo assim: “Fique quieta. Não conta pra nonna de cima.”(risos) Porque elas ficam bravas comigo.

As pessoas [com] que a gente trabalha são muito legais. A gente se sente muito bem nesse meio.

 

P/1 - E como foi? Você fez a inscrição, fez a ficha...

 

R - Fiz a inscrição, fiz a ficha aqui com a Maria Augusta. Aí nós fomos pra uma prova escrita. Dessa prova escrita acho que passaram, quer ver, seis. Entre duas comunidades, fui eu só de mulher, da Linha Santa Cruz, e um outro rapaz. Tinha mais umas daqui porque, nossa… Ouviram falar desses agentes de saúde, mas tinham mais umas daqui de perto.

Quando eu comecei, eu tinha minhas cinco comunidades. Agora eu fiquei… Eu tinha Linha Nova e Olaria. Da Linha Nova e Olaria veio mais gente de saúde se inscrever, mais mulheres, e infelizmente elas não passaram. Fiquei eu.

Quando eu comecei, fiz cadastro aqui de Linha Nova, que não pertence mais a mim, e Linha Olaria. Depois, era muita grande a minha área; eu não vencia fazer tudo porque, às vezes, eu tinha que sair num dia, pousar na sogra e voltar no outro dia pra casa.

Primeiramente nós fomos pra uma prova escrita, depois fomos pra uma entrevista, uma a uma. E depois fomos pra uma entrevista, os seis juntos.

 

P/1 - Sei.

 

R - Nessa entrevista dos seis juntos é que ela selecionou o melhor. Eu só lembro de uma pergunta que ela fez. Ela disse assim: “Se acaso vocês forem visitar uma família que não tiver uma privada, expliquem a importância dessa privada, porque ele não tem. A segunda, terceira vez que vocês voltarem lá, vocês vão tornar a falar”.

Eu disse assim: “Sabe o que que eu ia fazer pra essa família?” Os outros foram e responderam, né? Imagina, nós estávamos em seis. Qual queria falar mais que o qual, pra ver se ganhava também. Os outros todos começaram: “É, que se eles não tivessem, eles já iam ‘só e bruto’, né?”

Foram três vezes com a paciência e não deu nada. Quando todo mundo falou, a mulher lá na frente disse assim: “E você? Porque não falou?” Eu disse: “Sabe porque? Eu ouvi muita grosseria! Uma coisa, eu acho que [a gente] não deveria fazer. Se ele sabe da importância, eu já expliquei pra ele a importância de ter um banheiro e ele não fez, eu vou ter de conversar diferente. Mas como diferente? Ver por que não fez. De repente, ele não vai ter condições de fazer. Eu vou ter que ir lá na comunidade, me organizar com a comunidade, ver se tem umas tábuas ou onde tem gente mais bem de vida, voltar lá e ajudar a construir. Daí ele vai fazer.”

Eu disse: “Porque se for com grosseria… Além de ele estar sacrificado, pois não fez porque não tem condições, sabendo da importância. Ele vai fazer; se eu vou com grosseria, ele vai me ‘tocar’, não vai querer nem me ver na frente.” Ela disse que era importante. Os outros ficaram me olhando ‘de olhão’, sabe?

 

P/1 - Quer dizer, viram que você tinha dado a resposta mais inteligente.

 

R - É, porque, sei lá...

 

P/1 - Por que, Ivânia, você respondeu desse jeito? Você teve a resposta mais certa, mas pra ter a resposta mais certa, você deve ter tirado isso de alguma coisa que já viveu, não?

 

R - É que essa vida é longa, é mesmo. E depois, a gente… Eu tento sempre dialogar, conversar. E aí eu proponho…

Se eu estivesse numa situação dessas? Se eu não tivesse condições de fazer nada e alguém viesse me exigir o que eu ia fazer? Se eu não tinha condições de fazer… [Em] Tudo a gente tem que pensar um pouco. Não “eu pego e faço”. Eu faço é fácil, mas quero ver fazer se não tiver condições.

 

P/1 - Tem que entender as dificuldades que a pessoas tem, não é?

 

R - É, a gente conhece conversando e saindo. A gente conhece muita coisa na vida.

 

P/1 - Você já passou por algum momento assim, de grande dificuldade?

 

R - Não passei porque, graças a Deus, sempre a gente tem pra sobreviver. Mas que nem aquela comunidade lá embaixo onde eu morei, Salto Velho, em que eu me casei. Lá existem mães que ficam grávidas e não têm o enxoval pro nenê, sem [ter] de onde tirar. O enxoval do meu piá, eu dei tudo pra uma mãe lá.

Então agora é diferente. Agora eu sei que tem a Pastoral da Criança, que no Rodeio ajuda muito a gente. Quando tem uma mãe solteira ou uma mãe que é pobre assim...

Às vezes, nós vínhamos das tardes de serviço ali pra Pastoral, pra ter o enxovalzinho pra levar pra essas mães, pra orientar. Agora chega o inverno, né? Bastante, muitas crianças que são pobrezinhas, não têm condições de comprar um agasalho bom, aí nós viemos pra Pastoral da Criança, as mulheres ali ajudam a gente. E nós ajudamos essas famílias. Então nós e a Pastoral sempre trabalhamos unidos.

Tem também bastante criança… Na minha área, tinha um desnutrido. Precisa ver o que é… Ele tinha três aninhos e pesava dez quilos. Era de ficar bobo de ver!

“Não, deixa”, eu disse assim, porque a mulher não sabia onde é a Pastoral. Olha, gente, pelo amor de Deus, tem vezes que a gente fica bobo, sabe? Tá certo que [se] a gente chegar num grande centro, eu também não vou saber determinar onde fica tal lugar, mas eu vou me informando, eu vou indo. E como tem mães, gente que é analfabeta, não sabe nem... E tem as crianças assim, é incrível de ver.

Eu disse assim: “Não, pode deixar. Pra ti, eu vou pra Pastoral. Eu vou buscar uma paçoquinha que a dona Carolina faz, que nós ajudamos a fazer. Sobrou uma folga lá. Tu tens umas visitas, nem que um dia tu saias muito cedo, faça mais. Amanhã eu vou dar uma ajuda pra Pastoral.”

Nós viemos uma por uma ali, ajudamos. Quando a gente encontra as pessoas carentes mesmo, nós podemos vir na Pastoral pegar de graça. Levamos pra essas pessoas.

Eu disse assim: “Esse mês eu vou levar paçoquinha, vou te trazer aqui. Tu vais dar essa paçoquinha [pra criança]. Porque remédio pros vermes… Eu nem vou falar com a Maria Augusta, eu não vou dar. Essa criança está muito fraquinha. Mas no mês que vem, quando eu voltar aqui, eu vou pesá-lo. Eu vou ver. Se ele tiver aumentado [de peso], aí vou te trazer um remédio pros vermes. Ou senão tu mesma levas o nenê, lá com a Maria Augusta, ou vamos juntas.”

Ela disse assim: “Mas eu não tenho dinheiro pra pagar a passagem.” “Não, tudo bem, eu te dou o dinheiro pra pagar a passagem. Depois, pra voltar, nós arrumamos carona”. Peguei e trouxe, né? Fui lá, pesei o nenê dela, tinha aumentado quinhentos gramas. Ele deu dez quilos e meio. Eu disse assim: “Está na hora de dar o remédio pros vermes.” Viemos aqui pro Rodeio, a Maria Augusta deu o remédio, depois pegamos mais uma paçoquinha lá na dona Carolina e mais uma vitamina que a dona Carolina deu. Hoje está lá, a criança. Eu queria que visse, é um amor! Coisa mais linda.

Eu tenho o cartão dele, é que não está… Porque já tem três anos. É difícil, a criança até 3 anos nós podemos pesar porque a balança puxa só até quinze quilos. Umas são bem mais nutridas, com três anos pesam mais de quinze. Daí, só aquele que... Mas graças, deu pra...

 

P/1 - A primeira coisa que você fez quando entrou e foi aprovada foi fazer o cadastramento?

 

R - Foi fazer o cadastramento.

 

P/1 - Como foi a experiência de fazer o cadastramento? Todo mundo lhe recebeu bem ou teve gente que estranhou?

 

R - Sabe como é, não é fácil lidar com o povo. Ah, [para] uns não precisava [de] coisa melhor. Lá da minha área, de São Cristóvão prá lá, são uns amores. Como hoje, aquela mãe que você viu. Mas prá cá, de Linha Nova a Olaria, eu não conhecia muito bem. E também eles pouco me conheciam, aí ali era mais brutalidade. “Por que fazer isso se isso nunca teve?” “Mas se nunca teve...”, eu dizia, “de hoje em diante vai ter. Isso aqui é um cadastro. Eu sou agente de saúde, passei esses dias...”

No começo, eles te recebiam assim, de um jeito ignorante, brigando com a gente. E eu saía de lá, amiga... Outra vez, eu passava lá, já estava amiga deles. Era impressionante só de ver. Depois também, quando a gente passa no outro mês… Custa um pouco pra passar porque não é sempre no mesmo dia que tu vais em tal casa. Às vezes, tu vais ali pelo dia dezenove, às vezes vai ao final do mês, dia 25. Então eles marcam...

 

P/1 - Sei.

 

R - A mulherada vai marcando: “É, mas [em] tal dia a Ivânia passou aqui. Agora o que deu, será que ela não vem mais?” Elas marcam, sabem os dias que eu passo, aí eu digo assim: “Não, gente, não é assim. Eu às vezes vou atrás de um outro compromisso, aí me custa um pouquinho passar aqui. Porque não é fácil atender as visitas, a área é bastante grande.” “Ah, tudo bem!”

Muitas vezes elas querem que eu tome chimarrão, querem que eu almoce. Tem umas nonnas que já são mais de idade, se eu não tomar chimarrão elas ficam bravas. Aí tenho que fazer a vontade delas; eu tenho que parar, escutá-las, tomar um chimarrão. Muitas são sozinhas.  

É bem legal. Eu adoro trabalhar assim.

 

P/1 - O que você tem que tomar de chimarrão por dia não é fácil!

 

R - Não! [Na casa de] Muitas tem que tomar o chimarrão, senão ficam bravas, sabe? Elas ficam resmungando. Pra não ouvir resmungo, eu tomo uma ou duas cuias, aí eu digo: “Obrigada, eu já tomei lá.” É bem legal. Adoro!

 

P/1 - E o que é o seu dia a dia? O que você faz quando chega numa casa?

 

R - [Em] Muitas a gente vai só. Eu vou visitar, ver se não estão doentes. Quando estão doentes, [no] outro mês eu volto a fazer acompanhamento. Por que?

Muita gente vem consultar porque a consulta é de graça, mas não leva os remédios [porque] não tem no posto de saúde. No outro mês, o que eles fazem? Eles vêm com a mesma doença pro posto de saúde, então eu explico: “Gente, não é levar receita pra casa, mas sim comprar os remédios e tomar, porque o mês que vem tu vais estar com o mesmo problema, tu vais estar lá de volta.” Aí eles começaram a me ouvir. Muitos vinham porque [se] consultavam de graça, mas na verdade, pegavam a receita, levavam embora e ‘deu’.

 

P/1 - E o remédio, não compravam por que?

 

R - Porque muitas vezes não tinham dinheiro e não sabiam como se controlar pra comprar o remédio. Gasta menos numa coisa ou trabalha de peão, quem sabe, porque aqui existe bastante lavoura, né? Daí: “Vamos trocar um dia?” “Não, trocar um dia, não.” “Sim, mas eu vou trabalhar de peão pra ti, lá por dez ou quinze reais por dia”. Aí ele vai poder voltar e comprar remédio.

Muita gente faz isso. É sacrificado aqui, não é fácil, então a gente vai e ajuda. Muitas vezes, eu mesma ajudo: “O vizinho lá em cima precisa de um peão. Quem sabe o teu marido vai lá e trabalha de peão [por] uns dois dias, tu consegues comprar os remédios, faz o tratamento. Porque tudo custa caro na vida e um pouco de esforço é bom a gente fazer.”

Tem outros que não, muitos que compram o remédio normalmente, que já são mais bem de vida, de situação econômica. É sempre assim. E as crianças, eu peso; vejo o cartão da mãe, se está com a vacina em dia, [explico] por que fazer as vacinas, a antipolio, difteria, tétano, coqueluche, sarampo, a BCG, todas essas vacinas. Muitas vezes, a gente incentiva.

Agora a BCG também mudou, então é com seis, até um mês pode fazer a BCG. E depois, com seis anos, reforça a BCG de novo. É o melhor meio de proteger contra tuberculose. Dizem que aqui no Rio Grande do Sul tem bastantes casos de tuberculose, como também tem o caso da AIDS, né? A tuberculose é pegadeira, a AIDS também. Então eu explico pras mães, nenhuma falha em dar vacina. E reunião com a gestante, palestra, orientação pra elas.

 

P/1 - Você faz as palestras?

 

R - A Maria Augusta vai fazer.

 

P/1 - Se reúnem na região e fazem palestra?

 

R - É, nos reunimos lá na comunidade. A Maria Augusta, muitas vezes, vai pra lá. Quando tem pouca, nós marcamos aqui no Rodeio, aí as gestantes vêm todas pra cá. A palestra… Tudo bem importante.

 

P/1 - Como era a situação quando você começou? Tinha muita criança descoberta, sem vacina? Tinha muita desidratação?

 

R - Tinha bastante. Vacina atrasada, muitas mães… Elas se perdem, entende? Muitas são meio analfabetas. Todo mês, a gente vai fazer esse acompanhamento de pesagem nas crianças; a gente está sempre alertando as mães: “[Em] Tal dia você deu a vacina” - vamos dizer, a do sarampo - “agora, daqui a um ano e três meses. Mas não esqueça!” Elas já confiam tanto na gente, que dizem assim: “Mas é que tu passas todos os meses, tu podes dizer pra gente.”

Sempre a gente está com aquele toque. “Não deixa atrasar, mãe! Com um ano e três meses, ou com nove meses, ou com dois meses...” Muitas vezes, vou visitar uma mãe que tenha nenê recém-nascido. Até um mês, antes de um mês, tu fazes a do BCG. Até os dois meses, tu fazes aquela outra, que é de dois, quatro e seis meses e assim a gente vai indo.

 

P/1 - E desidratação? Muita criança com desidratação?

 

R - Desidratação, bastante. Nós pegamos, pedimos aqui no posto de saúde, aquelas colherinhas de fazer soro caseiro, que são as melhores. E então começamos a levar pras comunidades, ensinar as mães a fazer quando a criança tem.

Mas o que elas dizem? Elas dizem assim: “É, mas esse sorinho caseiro não é importante”, “É importante, sim, mãe”, “Mas não para.” “Não para, mas vai reidratar a criança.” Então elas fazem. Muitos [casos] a gente resolve lá mesmo e muitos, a gente tem que mandar pro posto de saúde porque...

 

P/1 - Tem que trazer. Desnutrido tinha muito, também?

 

R - Desnutrido, eu acho que tinha três ou quatro.

 

P/1 - Só três ou quatro.

 

R - É, na minha área aqui são mais bem de vida. Mas pra lá existe mais, né, gente? Não é cada...

 

P/1 - É que a sua área não é a pior área.

 

R - Não é a pior área. A minha área é uma das melhores áreas. As outras [são]  piores, né?

 

P/1 - No caso de desidratação, qual foi a coisa mais dramática que você encontrou, que você me contou aqui?

 

R - A causa da diarreia e das vacinas atrasadas! E das gestantes também, é gente muito mal orientada. Às vezes, tu pegavas ali gestante de sete, oito meses, perguntavas pra ela assim: “Está fazendo pré natal?” “Eu não, porque estou me sentindo bem.” Eu disse assim: “Sim, mas se está se sentindo bem, será que o seu nenê está se sentindo bem?”

Teve uma, eu a encaminhei com oito meses. Ela disse assim: “Ah, mas por que, Ivânia, fazer o pré-natal? Eu estou me sentindo forte.” Eu disse: “Gente, você não fez, até agora, nenhuma consulta?” “Eu, não. Pra quê?”. Eu disse assim: “Então, de hoje em diante, você vai fazer uma consulta.” Peguei até uma fichinha, uma FA, dei assinada pra Maria Augusta, que ela tinha aquele compromisso pra trazer prá cá. (risos) Daí ela veio.

O nenê dela… A Maria Augusta vê ali altura da barriga e coisas assim da mãe. Disse que o nenê estava com baixo peso. Ela me disse assim, outra hora que eu voltei lá: “Sabe de uma coisa? Tu estás certa. Por que isso não começou antes?” Eu disse assim: “Porque antes você não tinha oportunidade. Agora eu estou vindo prá cá. E o seu nenê está com baixo peso, ele vai nascer já desnutrido.” O médico falou que o nenê dela já ia nascer com baixo peso, desnutrido. Daí a gente...

 

P/1 - E ela não estava nem sabendo?

 

R - E ela não estava sabendo. Aí a gente explica porque fazer aquela antitetânica, que é a vacina, aquela do... Que antigamente as mães diziam “o mal de sete dias”, mas na verdade não era o mal de sete dias, era o tétano que dava nas crianças e...

 

P/1 - Por causa da infecção na _____, né?

 

R - Por causa da infecção. E as mães não eram protegidas, não tinha nada aquela vez lá.

 

P/1 - Quer dizer, se a criança passava dos sete dias, é porque não pegou tétano?

 

R - É verdade. É isso aí, sim. (risos)

 

P/1 - Ivânia, qual é a maior dificuldade que você enfrentou até agora, como agente?

 

R - A maior dificuldade é quando encontra uma família pobre, sabe que estão doentes, e muitas vezes não existe remédio no posto. Essa é a maior...

 

P/1 - Esse não tem saída.

 

R - A gente se vê pequenininha e estreita, muitas vezes.

 

P/1 - Desse tempo todo que você está trabalhando, que avaliação você tem da comunidade, como ela está reagindo com o programa?

 

R - A comunidade está reagindo bem. Estão, vou dizer, bem. E as doenças também estão diminuindo.

 

P/1 - Estão?

 

R - Aqui na minha área, é cada vez menos doença, cada vez menos criança com baixo peso. As gestantes também, poucas têm problema porque desde o primeiro mês a gente vai. Quando eu vou fazer uma visita, [para] aquela mulher recém-casada, menos de 45 anos, eu já peço: “Não está grávida?”, daí ela me diz que não. Se acaso ela está grávida: “Se tu estás grávida, vais conversar com a Maria Augusta.” Aí ela vem, conversa, então está sendo legal mesmo.

E cada vez menos… Quando eu comecei existia bastante problema e agora não, agora é tudo normalizado. A coisa mais boa!

Eu fiz cirurgia, foi [no] mês de outubro, mas quando voltei, pelo amor de Deus! Eu não sabia por onde ia começar. A piazada, parece que não sei, sabe? Tem umas mãezinhas que são novas, elas vem pedir orientação pra gente, aí a gente orienta, né?

 

P/1 - Quem são essas famílias que você atende, que estão na sua região? São agricultores, todos?

 

R - Todos agricultores.

 

P/1 - Eles têm terras também?

 

R - Uns têm terras, outros moram de agregado. Terra alugada, entende?

 

P/1 - Terra alugada?

 

R - É. Trabalham... É que nem eu disse, uns são bem de vida. Os outros trabalham ‘a meia’ com o patrão. Quer dizer, se colhem dez sacos de soja, cinco são deles e cinco são do patrão.

 

P/1 - E quem são esses patrões? São donos de grandes terras, de muita área grande?

 

R - Não.

 

P/1 - Não?

 

R - Não, não são grandes. Quando eles tinham as terras aqui, foram pra cidade grande. Lá, eles arrumaram um emprego, se deram bem e estão lá. Essas terras são poucas, não são muito. É de quatro, cinco alqueires.

 

P/1 - Aqui não tem grande propriedade?

 

R - Não tem grande propriedade. Eles botam essas pessoas porque, se lá perderem os empregos, eles têm como voltar.

 

P/1 - Eles têm a garantia.

 

R - Aí eles fazem assim, aqui.

 

P/1 - E pra onde vão essas pessoas, normalmente?

 

R - Farroupilha, Novo Hamburgo, Porto Alegre, Bento Gonçalves. Praquelas bandas, prá lá onde tem firma, emprego assim.

 

P/1 - Vão buscar melhores condições de vida...

 

R - É, buscar melhores condições de vida. Muitos não se dão bem lá, perdem o emprego. Como no Brasil está… A lei de emprego. Eles voltam pras pequenas propriedades deles.

 

P/1 - E você, o que espera mais da vida?

 

R - O que eu espero mais da vida? Trabalhar, lutar cada vez mais.  Que melhore cada vez mais, esse plano.

 

P/1 - Esse plano?

 

R - Esse plano, porque tivemos mais apoio. Aí se torna tudo melhor, tudo mais fácil. Desde pra mim como pra essas pessoas todas que eu visito.

 

P/1 - Está bom, Ivânia, é isso. Obrigado por você ter dado o seu tempo pra gente.

 

R - Nada, sou eu que agradeço.

 

P/1 - Boa sorte. Tomara que você consiga, que as coisas melhorem.


 

 

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