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História

A comandante de 200 homens

História de: Zenaide Maria de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

Zenaide relembra as brincadeiras e os cantos de infância. Conta como eram as visitas do Boi de Mamão e como a figura era importante para a comunidade na época de festas. Amante da música, canta desde Pink Floyd até Nelson Gonçalves. Conhecedora das histórias de Florianópolis, lembra da inauguração do cemitério da cidade, quando o prefeito mandou matar dois bois para encenar um enterro. Comandante de 200 homens de barco pesqueiro, Zenaide relembra a mudança de material que era usado nas embarcações quando ainda era criança e como são os de hoje em dia.

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História completa

Mulher das antigas era só pra casar, ter filho, cuidar da casa e marido... Era isso aí. Eu sou mãe, pescadora e dona de restaurante, Ah, também tenho uns netos! Não fui lapidada, criei-me bruto. Sou pra serviço bruto!

 

As histórias que a gente viveu que não têm mais hoje... Isso me dói até o coração, por isso que eu tô sempre cantando. Isso dá saudade: antigamente, a praia era muito discriminada, era só pra homem e a mulher não podia nem passar por cima de uma corda, principalmente se tivesse menstruada ou grávida, ela tinha que ficar em casa quietinha. A comunidade era muito, muito, muito unida. Tinha umas 20 casas, muito simples, um ajudando o outro. Uma mãe ganhava um nenê, a filha da vizinha já ia ajudar. A mãe não saía da cama, 15 dias, era só na cama recebendo caldinho de galinha e cuidado. A gente ia buscar lenha no mato pra cozinhar, lavava-se na cachoeira, que até hoje continua a cachoeira, porque a cachoeira é um tipo Diário da Manhã, Diário Catarinense. Ali cria-se toda a história do Pântano. Duas coisa que não podem morrer no Pântano: é a cachoeira e a pesca da tainha. Se acabar isso, o Pântano está morto.

 

Meu pai era pescador e a minha mãe era doméstica... Então aprendi muita coisa de pesca! Sei fazer rede, tarrafa, sei pescar. Eu ajudava muito meu pai a torcer boia, porque naquele tempo era corda de cipó. A gente ia no mato tirar cipó pra fazer as cordas, não tinha náilon, não tinha nada. Hoje é tudo cortiça de isopor, é tudo de ferro, é tudo náilon, mas isso tudo a gente ia buscar no mato. Era tudo artesão. Tudo, tudo, tudo artesanato. Do mar eu adoro, eu não adoro avião. Se me mandar pros Estados Unidos de navio eu vou, de avião eu num quero é pra canto nenhum. De navio eu vou até o fim do mundo. De avião, não.

 

Eu sou a comandante de 200 homens. Sou a única mulher. “Pega essa cortiça pra esse peixe num fugir, rapaz! Corta a rede, corta, abre, abre, abre essa rede, abre, abre!” As mulheres ficam com ciúmes, mas elas nunca chegaram perto... Eu sou uma mulher livre. Eu sou igual a uma borboleta com duas asas pra voar. Os filhos me apoiam. Não tenho marido, elas têm, né? Ah!

 

Me separei depois de 21 anos de casado. Eu já tava com oito filhos e  queria deixar o estudo pra eles, mas não tinha como. Então eu vim pra praia criar um quiosque. Fui lá na madeireira e disse: “Eu não tenho dinheiro, então queria que vocês me vendesse madeira inferior!" Fiz o quiosque. Quando quiosque tava pronto pra botá luz, fizeram queixa na prefeitura e o prefeito mandou desmanchar. Cheguei em casa apavorada, vi tudo no chão, muito triste, mas eu disse pra eles: "Nós vamos fazer o seguinte: vamos vendê a casa e comprar um terreninho pequeno e fazer uma casa de madeira. Mas deixar de estudar vocês não vão, isso  eu garanto!” Aí no outro dia o prefeito mandou me chamá. Entrei na sala e ele perguntou se eu não sabia que era proibido construir na praia. Eu disse: "Será que na ilha não tem tantas coisas que são proibida e estão de pé? O senhor não sabe o que eu tô passando e nem tem culpa…” E quando acabou de me escutar, ele passou a mão no telefone e mandou o fiscal da prefeitura fazer um quiosque pra mim.

 

Aí, aos poucos, foi surgindo o restaurante. E os filhos estudaram. Tô gerando emprego pra comunidade, pra mim, que é a minha vida. Há coisa melhor do que isso? Só dois disso, né? O nome Pedacinho do Céu surgiu um dia que eu tava sentada sozinha, não tinha dinheiro, e tava sentada olhando pro céu. O céu tava muito bonito. Eles queriam botar um nome em inglês tipo McDonald's, aquelas coisa assim, né? Fizeram um desenho dos bonecos. Aí eu disse: "Não, não é bem assim, o bar vai ser Pedacinho do Céu!” E ficou.


A minha vida também é cantar. Eu acho que tu pode deitar mal humorada, mas jamais levantar, porque o travesseiro foi feito pra esquecer, né? Aí vem o outro dia e nada como um dia após o outro. Pink Floyd é bom, né? Num fim de tarde, nessa maré aí é bom pra cantar. É muito importante a gente divulgar a nossa comunidade e as nossas histórias! Não há mais nada melhor do que conviver em conjunto, né? Participar. É dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna. Mas se a morte é um descanso, eu prefiro viver cansada!

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