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História

A ciranda da bailarina

História de: Marika Gidali
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Bailarina, coreógrafa e diretora artística, Marika Gidali nasceu na Hungria, mas sempre teve a “cara do Brasil”, como ela mesma diz. Em São Paulo, para onde se mudou com a família depois da Segunda Guerra, ela fundou junto do marido, o bailarino Décio Otero, uma das mais longevas companhias de dança do país, o Ballet Stagium. Desde 1971, ano de formação do grupo, Marika acumula boas histórias dos espetáculos que organizou, muitos deles levados para cidadezinhas no interior do país. Em uma das turnês, ela se apresentou em um palco improvisado na proa de uma barca, que ia navegando e parando ao longo do Rio São Francisco. Muitas dessas histórias inspiraram as ações sociais do Stagium, como a desenvolvida na antiga Febem paulistana e o atual Projeto Joaninha, que proporciona às crianças das periferias a formação em dança. 

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História completa

Eu não brincava, porque eu nasci [na Hungria,] em 1937. Nasci na guerra. Minha mãe nos levava para a escola e vinha a sirene, tinha que pegar correndo, trazia para casa, foi um esconde-esconde danado. A gente teve muita sorte, minha mãe e meu pai sobreviveram, nos trouxeram para cá, minha irmã, eu e meu irmão.

Adorei chegar aqui, em 1947. Deu a mim um bem-estar danado poder andar na rua, ninguém me mandando atravessar, sem essa perseguição terrível da Hungria, que foi muito ruim. E tinha uma família aqui, a minha tia e a minha mãe. Enfim, cheguei em casa.

Comecei a estudar, e passei para o [grupo de balé do IV] Centenário. Aí, comecei a minha luta pessoal. Trabalhei, fazia aula de manhã e de tarde, de noite, de madrugada, ensaiava, insuportável.

Mas aí o Teatro Municipal estava com Mancini, e acho que temporada do Mancini, Leone de Mancini. E estavam precisando de pessoas lá. Aí eu recebi um telegrama me chamando e fui. Doeu na minha alma, para mim o Centenário era o começo, meio e fim, nunca imaginei poder largar do Centenário. Nunca. Foi uma coisa muito doída. Lá dentro, eu dancei, me realizei, me descobri como artista, me descobri como gente, como bailarina. Bom, enfim, a profissão de dança foi muito forte para mim, eu não joguei fora meio minuto lá dentro.

E aqui foi uma loucura em São Paulo. Esse tempo, desse momento até a Stagium, teve muita coisa que aconteceu aqui. Eu comecei a fazer coreografia.

Foi um boom total. Nós começamos [o Ballet Stagium], fizemos treze cidades em volta. São Caetano, até onde dava para chegar de fusca.

Teve coisa pontual, mas teve coisa de turnê mesmo. A barca foi uma coisa pontual, vamos para a barca, Pascoal Carlos Magno, mais um supernome da minha vida, uma paixão. Ele convidou a gente porque ele estava sabendo que a gente estava andando. Isso foi em 74, nós já tínhamos feito duas vezes Nordeste e algumas coisas até mais. Aí, ele convidou a Stagium, e nós fomos em cinco na barca, foi fantástico. De Pirapora a Juazeiro, na Bahia.

E foi parando nas pequenas cidades, Xique-Xiques da vida, pequenas cidades. A barca era uma barca muito bonita, branca, e o Pascoal levou uma porção de bandeiras, e os artistas eram obrigados a pegar uma bandeira e ficar tchum-tchum, enquanto a barca ia chegando. Era muito bonito aquilo porque a criançada vinha nadando em volta da barca, e a gente chegando. A cultura chegando, era uma coisa emocionante. Aí, a barca parava, e o público já estava todo lá, que as cidades são desse tamanhinho.

Eu sempre fiz social, por circunstâncias. Mas no momento em que você sai de São Paulo, naquela época, e vai fazer as loucuras que nós fizemos, aquilo é um trabalho social. Nós fizemos trabalho de base, trabalho social, aquilo foi inerente. A Febem foi só simplesmente continuação, eu acho que a gente é um processo.

A gente começou a respeitar muito o corpo brasileiro, a forma de comunicação. A gente procurou escapar dessa coisa competitiva da dança, que é uma coisa normal. A criança entra já competindo, achando que tem que ser melhor que a outra.

E teve o Projeto Febem, trabalhei quase sete anos lá dentro, e onde nasceu o Projeto Joaninha. Eu percebi que tinha uma clientela que poderia ser trabalhada, que é no Projeto Joaninha. São crianças das redes públicas, que moram nas periferias. Entre sete e onze anos, mas eles ficam sete anos com a gente. Tem uma turma que já está formada, outra que está sendo formada, muitos já trabalham em dança. Eles levam uma educação bastante holística, grande.

As viagens internacionais, eu acho importante dizer que são um sucesso, que são uma loucura. [...] Mas a minha cara verdadeira, sem dúvida nenhuma, é o Brasil. Se você me fala: “Como foi [se apresentar] em Mossoró?” Eu fiquei muito emocionada. “Como foi em Budapeste?” Foi interessante, mas, se eu disser que foi emocionante, não. Fiquei emocionada com o sucesso, mas eu teria ficado em qualquer lugar (risos). Mas isso é verdade, não estou mentindo.

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