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História

A cidade de Santo André era muito gostosa

História de: Lourdes Della Mônica Luppi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/06/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Lourdes Della Mônica conta sobre sua relação com a cidade de Santo André; “Era tão gostosa”, ela não cansa de repetir. Lourdes relata sobre suas andanças pela cidade, e como tudo era mais simples e sem perigo algum. Funcionária da Rhodia por quatorze anos, Lourdes conta sobre sua rotina na fábrica e a relação com os colegas, os bailes, as quermesses, os vestidos costurados pela mãe. Nem tudo foi fácil. Ela levou “pegas” dos soldados durante a Revolução Constitucionalista de 32, plantou legumes no quintal para driblar a falta de abastecimento nos mercados durante a Segunda Guerra Mundial, e até fez curso de socorrista para ajudar em caso de alguma ocorrência. Após o casamento, por pedido do marido, pediu demissão e se dedicou à casa, aos quatro filhos.

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História completa

P/1 – Dona Lourdes, eu vou começar pedindo pra senhora falar seu nome inteiro, o local de nascimento, a cidade, o nome dos seus pais.

 

R – Bom, eu nasci aqui em Santo André, na Rua Coronel Oliveira Lima, meu pai se chamava Miguel Della Mônica e minha mãe Nicolina de Santi Della Mônica. Meus pais vieram da Itália para Santo André, minha mãe com seis anos, meu pai já veio moço formado. Ele trabalhava na Casa Clark, em São Paulo, ele fazia moldes de sapatos. Era uma loja muito famosa.

 

P/1 – Por que eles vieram da Itália pra cá?

 

R – Porque o meu avô veio, quis fazer a vida no Brasil... e eles vieram direto pra Santo André. Eles tinham casa ali perto da prefeitura, aí depois demoliram tudo. Ali, tinha uma chácara muito grande, e agora tem a casinha que depois eles compraram na Antônio Bastos, a casa já está velha também. A minha mãe morou lá. Depois, casou e veio morar na Coronel Oliveira Lima, onde todos os filhos dela nasceram. Então, fomos morar na Rua Padre Capra, eu tinha 14 anos, e foi quando fui pra Rhodia. Era 1936. Tinham poucas moças trabalhando na Rhodia, acho que eram somente umas 30, não chegava a 40.

 

P/1 – Fala um pouco mais da casa da senhora, de como eram os seus pais, de como foi a educação que a senhora teve, a sua infância...

 

R – Uma educação muito boa, muito legal. Meu pai era muito bom, só que ele faleceu novo A minha mãe costurava, costurou para os Flacker, para os Bernardino de Campos.

 

P/1 – Pra granfinada toda?

 

R – Costurava também para umas professoras, como a dona Adalgisa, sua família tinha o cinema, Cine República. E ali era assim a vida da gente, brincava na rua, hoje eu passo lá e tenho saudades. Era muito gostoso, Santo André. Quando eu vejo, hoje, Santo André quebrado... dá tristeza, né, porque a gente gostaria que se conservasse Santo André para os netos da gente. Moramos todos aqui. Só uma que mora em São Paulo, o resto mora aqui. A gente conheceu aqueles do (Beletato?), aqueles do (Baldeli?), do Carlos Gomes, tudo ali. Eu tinha um irmão que ajudava a passar filme no Carlos Gomes, a gente entrava e saía no Carlos Gomes à vontade.

 

P/1 – No cinema Carlos Gomes?

 

R – Sim, era muito gostoso! Quase a semana inteira a gente vivia no cinema, só de sexta-feira não porque era sessão dos homens, então não entrava mulher. [risos]

 

P/2 – Ah, é? 

 

R – Já quinta-feira era dia só das mulheres. Sexta-feira era só dos homens, então mulher não entrava. Era faroeste, essas coisas. Os outros dias eram filmes de amor, de coisa, assim, né? A minha mãe levava muito a gente nos bailes, sabe? E a gente ia nos bailes de traje à rigor...

 

P/1 – Onde eram esses bailes? A senhora já era mocinha?

 

R – Mocinha já. De meninota foi aquela coisa, brincadeiras na rua Santo André, não tinha maldade, nem com menino, nada, até se enfiava no meio dos matos pra brincar... Agora já não dá, né? Depois, quando o meu pai faleceu, eu precisei trabalhar um pouco na fábrica Rocco, não tinha idade ainda, mas ninguém me pegava.

 

P/2 – A fábrica Rocco?

 

R – Sim. Era uma tecelagem de cobertores. 

 

P/1 – A senhora tinha quantos anos nessa época?

 

R – Acho que eu tinha doze anos. Meu pai morreu, minha mãe costurava, mas assim mesmo precisou. Os Flacker ajudaram muito ela. Minha mãe rifava as jóias que tinha e os Flacker compravam. Teve uma época em que os Flacker deu uma sessão no Cine República para ajudar minha mãe. Eles queriam bem à ela porque ela costurava muito bem, ela fazia camisas muito bem... e antigamente não tinha camisaria, né? Até terno ela fazia, aqueles ternos, coisa assim. Então ela era muito conhecida... trabalhou bastante.

 

P/2 – Ela já costurava antes do pai da senhora falecer?

 

R – Ela já costurava, mas depois ela costurou mais porque precisou criar os filhos.

 

P/1 – Quem é que exercia a autoridade lá, seu pai ou sua mãe?

 

R – Minha mãe. Ela era o general da casa [risos] Mas hoje em dia a gente agradece ela, a educação que ela deu, porque, coitadinha, com os filhos pequenos, teve que lutar...

 

P/1 – Entre os irmãos, a senhora é a mais velha, mais nova?

 

R – Eu sou a penúltima, tem a caçula. Tenho três irmãs e um irmão que estão vivos - um faleceu. Tinha um padre também, o padre Ricci, da Igreja Santo André, que era muito bom, ele ajudava muito a gente. Padre igual aquele... Ele casou meus pais. Aqui em Santo André não tinha cartório, tinha só em São Bernardo. Aqui não tinha nada, para tudo precisava ir para São Bernardo. E assim ia a vida da gente. Uma infância pobre, mas gostosa, né?

 

P/1 – E vocês eram uma família de religiosos?

 

R – Muito, a minha mãe, nossa! Todo mundo. Até hoje, graças a Deus a gente segue o que ela pôs pra nós, aquela honestidade, essas coisas.

 

P/1 – A senhora ia à missa, como era?

 

R – Ah, lógico que ia. Tinha que ir, senão, sabe? Quando a gente ficou mocinha, ela levava a gente no baile, Sábado de Aleluia, mas depois, a gente tinha que ir na missa, né? [risos] Na procissão, que era de madrugada, 5 horas da manhã... E tinha que ir, porque senão já viu, né? Mas Santo André era muito gostoso, muito... Nossa Senhora! Tinha gente muito boa mesmo, sabe? Os professores... Eu levava muita regüada na mão porque eu comia letra [risos] Até hoje! Eu nem assino mais cheque, nada. Engraçado, na hora eu não percebo. É que aquele tempo não tinha tratamento, né? Agora tem tratamento, porque o meu neto começou também assim, o mais velho, mas ele tratou, coisa assim. Porque na hora que você escreve, você não percebe que a letra tá ruim, depois você lê a segunda vez, vê que tá faltando. Então, naquele tempo não tinha muito estudo. Tinha uma professora dona Adalgisa, que ajudou tanto a gente na escola, tanto de coisa! Era tudo bom... Eu tenho saudades. Eu gostaria tanto de ver um moço, ele ajudava a dona Adalgisa, ele se chamava Brasil. Olha que nome, né? Ele trabalhou na Rhodia também.

 

P/2 – Brasil Marques do Amaral, é ele?

 

R – Não sei o sobrenome dele, mas ele era tão legal com a gente!

 

P/1 – Ele era o quê?

 

R – Eu conheci ele na escola. Como eu precisei sair da escola, eu fiz só o quarto ano... Minha mãe precisava. Eu lembro que eu era meninota, os fiscais iam na Rocco, eles me escondiam atrás daquelas coisas de coberta para o fiscal não ver, né? E assim foi passando, mas graças à Deus estamos aqui, tá tudo bom.

 

P/2 – A senhora conseguiu trabalhar na fábrica Rocco?

 

R – Eu trabalhei! Eu limpava espuma, né, porque eu era meninota, eu não sabia fazer nada. E assim passou até os meu 14 anos, quando entrei na Rhodia.

 

P/1 – Seus irmãos foram trabalhar também?

 

R – Trabalhavam. Um trabalhava no Tognato e depois no Randi, com tear de cobertor. A minha irmã, a mais nova, era secretária na Pirelli. Ela teve mais regalia, né? Sempre o mais novo tem mais regalia. Quando ela entrou, ela já foi pra Pirelli, já pôde estudar um pouquinho mais. Agora eu, minha irmã Nita, meu irmão Osvaldo também estudou um pouquinho. Aí já não deu porque aí a gente foi pra fábrica. Essa professora, dona Adalgisa, ajudava a gente, ensinava mais um pouco, muito boa. E esse Brasil estava junto também ali.

 

P/2 – Ele era professor lá, o Brasil?

 

R – Eu não sei. Ele não era professor mesmo, mas ele ajudava ela. Aí depois, quando eu fui pra Rhodia, ele estava na Rhodia também. Muito bom! Nossa, eu gostava muito dele. Um moço muito bom.

 

P/1 – A senhora falou que ia em bailes, onde eram esses bailes?

 

R – Ah, ia, na Sociedade Italiana. Era traje à rigor, então nós éramos cinco amigas, e cada uma fazia um vestido de uma cor, porque a gente não podia comprar, né? Aí uma fazia branco, a outra amarelinho, a outra... A gente trocava para os bailes, né? A minha mãe levava. Ela não deixava eu ir sozinha, tinha que ir junto. E íamos nos bailes, voltava de madrugada pra casa, não tinha perigo nenhum, né?

 

P/1 – O baile era aqui em Santo André, mesmo?

 

R – Sim, era ali... onde começa a Senador Flacker, inclusive agora eles dão comida de quilo lá. É ali no comecinho da Senador Flacker esse salão. Eu não sei... também na Primeiro de Maio... eu gostava de bailinho, sabe? Primeiro de Maio, eu dançava no Rhodia...

 

P/2 – No baile da Rhodia a senhora também foi?

 

R – Puxa, se ia no baile da Rhodia! Adorava, né? 

 

P/1 – Eram animados esses bailes da Rhodia?

 

R – Era uma delícia. Pra nós, era uma delícia, uma coisa boa! Agora não tem mais nada.

 

P/1 – E paquerava, assim, nesses bailes? Como é que era a paquera?

 

R – Na Rhodia, paquera era o que não faltava, né? [risos] Paquera era o que não faltava, meu Deu do céu, que gostoso que era! Muito bom! A Rhodia eu também gostava, até hoje eu sonho. Minha mãe costurava pra Rhodia também. Ela costurava macacão. Naquele tempo era pouca gente, né? Então ela dava conta de...

 

P/2 – De costurar o macacão dos funcionários?

 

R – De costurar o macacão pra Rodhia, para os moços... E eu tirava a medida da turma, não parava no lugar, eu tinha liberdade. Então eu ia num lugar, no outro, tirar medida dos caras pra minha mãe fazer tudo [risos].

 

P/1 – Você que tirava as medidas?

 

R – Tirava medida dos caras pra minha mãe fazer o macacão. Você acha? [risos] Que gostoso, né? Dá saudade, dá muita saudade. Meu Deus do céu, que saudades eu tenho da Rhodia! Eu sempre fui muito... ninguém foi ___________ pra mim, a primeira vez que eu entrei era a dona Elvira Baldassin, ela era a chefona lá do laboratório, de tudo lá.

 

P/1 – Aparecida Baldassin?

 

R – Tinha a Cida Baldassin, ela trabalhava no Biotério, onde se fazia experiências com ratos. A dona Elvira era geral, assim, das ampolas... tinha a Olga (Mikilin ?) que era do laboratório, tinha o Ladislau...

 

P/1 – E quem é que levou a senhora pra trabalhar na Rhodia? Como é que a senhora ficou sabendo?

 

R – O meu cunhado era chefe dos pintores na Rhodia...

 

P/1 – Quem é o seu cunhado?

 

R – Era Germano Montagner. Aí ele pediu pra essa Elvira Baldassin, e ela arrumou pra mim. Aí, depois de um tempo que eu estava lá, a Guerra arrebentou eu fui enfermeira socorrista. A Rhodia mandou que a gente praticasse socorrista, né, tudo por conta da Rhodia. Da Rhodia eu acho que arrebentou no 40. É, eu acho que foi no 40. Porque... o que você pensa? Eu peguei até a Revolução do 32, eu tinha 10 anos.

 

P/2 – A senhora lembra da Revolução Constitucionalista de 32?

 

R – Ô se lembro!

 

P/2 – O que a senhora lembra da Revolução?

 

R – Ah, lembro dos soldados na rua, né? E aqui na Vila Basto tinha uma casa que agora é um prédio, onde os militares puseram o pessoal pra fora, pra eles ficarem. Eu vinha ver minha avó, que minha avó morava ali perto, e quantos “pega” eu levava deles! Eles mandavam a gente ir pra casa. Lembro da guerra que não tinha açúcar. A minha mãe fazia as coisas com açúcar preto, era um açúcar sujo, sabe? Então precisava ferver ele na água, coar, pra depois fazer o café. Não tinha muita coisa nas vendas, só tinha polenta, essas coisas... Muito soldado pela rua, muito… A gente não tinha aquelas coisas pra comer, sorte que naquele tempo todo mundo tinha quintal, né? Aí tinha o chuchu, tinha verdura... pra plantar.

 

P/2 – Na casa da senhora, tinha uma rocinha no fundo?

 

R – Lógico que tinha. Chuchu não faltava, viu? [risos] Então, eu lembro bem da Revolução. Da guerra também eu lembro muito bem... da guerra eu já era mocinha, tinha acho que 19 pra 20 anos. Foi triste essa época aí. Na Rhodia, quando eu entrei, era pouca gente que trabalhava lá, depois mandaram embora bastante, eu escapei não sei porquê. Mas, para escapar, a gente tinha que ficar lá, lavar vidro, fazer limpeza “nos coisos” pra eles não mandarem a gente embora. Eu lembro que o Getúlio Vargas foi lá na Rhodia também.

 

P/2 – A senhora lembra da ida do Getúlio lá?

 

R – Lembro. Ele foi na Rhodia, a gente passou lá. Eu lembro bastante coisa da Rhodia, Nossa Senhora!

 

P/2 – Antes da senhora ir trabalhar lá a senhora já conhecia a Rhodia?

 

R – É, eu conhecia assim de nome, porque a minha irmã trabalhava na Rhodiaceta. Era a outra. Então a gente ia levar almoço pra ela, ou janta, porque às vezes ela trabalhava das duas às dez. Eu conhecia, mas lá dentro não. A Rhodiaceta, Deus que me perdoe, lá as moças eram muito assim, presas. A Rhodia Química não, a Rhodia Química era uma beleza!

 

P/2 – Ah, tinha essa diferença?

 

R – Tinha. A Rhodia Química era uma beleza! Eu, principalmente, tinha carta lá dentro, andava tudo, por causa da minha mãe costureira, né?

 

P/2 – Ah, todo mundo já conhecia?

 

R – Conhecia, ia no laboratório, tomava café. Na cozinha, tinha uma empregada chamada Norata, sabe, cozinheira. Eu ia lá, comia, ela me dava as coisas. A Rhodia Química não esqueço, não. Ninguém quase... 

 

P/1 – E a senhora lembra do seu primeiro dia de trabalho na Rhodia?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Ah, eu cheguei na portaria, o meu cunhado falou com a dona Elvira, ela foi lá me buscar. Eu entrei com vergonha. Porque você já viu, né? Entrei lá, fui muito bem tratada. Eu lembro que ela me deu um avental, porque usava avental e umas toucas que nem enfermeira. Ela me mandou lavar ampola. Depois passei na escolha de ampolas, né?

 

P/1 – Como era lavar ampola?

 

R – Depois que soldava... elas vinham numas caixas, aí jogava dentro de uma coisa de água, tirava, enxugava com pano e punha nos quadros, aí passava pra escolha. Tinha a escolha. Depois, eu passei para a escolha. A escolha tinha que nem uma lâmpada e tinha que olhar. A gente punha no meio do dedo e olhava. Batia nelas pra ver se tinha vidro dentro, essas coisas. Aí passei pra escolha. Depois ia pra outra sessão que lá eles faziam a embalagem dela. Eles punham rótulo e embalava ela.

 

P/2 – Já embalava com o produto?

 

R – É, com o produto. Antes elas lavavam... que nem um vapor, depois vinha com o produto dentro e já soldada. Aí a gente lavava elas e enxugava com os panos, punha numas caixas, aí ia...

 

P/1 – E nesse primeiro dia a senhora fez tudo direitinho? Não teve nenhum acidente?

 

R – Quer dizer... acidente não teve. Depois é que teve ainda, que eu era chamada e... coisa assim. Mas eu ficava sossegada. Tinha medo, assim, de quebrar...né? Depois eu passei, eu só escolhia cartucho, que era (escorocaína ?), que era pra dentistas. Eu só escolhia, fazia verificação... quando passava pra mim, pra Marta... a Marta, que eu acho que ela não foi lá, né?

 

P/1 – É, ela não foi.

 

R – É, passava... eu trabalhava aqui, ela ali, de frente. Era um... um coiso branco, né, fechado. Então você tinha que olhar atrás de um vidro que eu acho que aumentava, pra você ver se tinha...

 

P/2 – Se não tinha nenhuma sujeira...

 

R – Sujeira, muita coisa. Aí, de lá, já saía pra vender. A gente tinha responsabilidade, né? Que saía daí.

 

P/2 – E tinha mais alguém que conferia tudo? Como é que era o controle?

 

R – Depois daí não tinha mais verificação. Aí ia pra outra seção... a gente arrumava tudo em caixinha, caixas de madeira. Na outra seção, as moças punham nas caixas, nas embalagens. Daí ia embora. A escolha ali tinha que ser bem feita porque... Ih, eu deixei cair tanto [risos]

 

P/1 – Deixou cair ampola?

 

R – Caía. Então, trabalhamos com Rubi. Rubi era uma ampola vermelha, era pra sífilis, né...

 

P/1 – A ampola era diferente?

 

R –É, diferente.

 

P/2 – O nome do remédio era Rubi?

 

R – Rubi. Depois, uns tempos, também, quando não tinha serviço, trabalhei no Kelene...

 

P/2 – O Kelene é aquele que tinha um frasquinho, parecia o do lança-perfume? 

 

R – Isso. E o que a Rhodia fazia que era muito bom... depois teve uma exposição na Rhodia sobre remédio antigos que não tinha mais e me mandaram o convite, eu fui... chamava-se Vitascorbol. Um remédio muito bom pra gripe. Nossa, uma beleza aquilo! Eu acho que eu não tenho gripe até hoje de tanto que eu chupei aquilo lá [risos]. Ele era meio azedo. Era uma delícia aquilo. Eu chupava bastante o Vitascorbol .

 

P/1 – Você chupava lá no trabalho? Como era?

 

R – Não, passava na boca. É, uma vez teve uma encrenca muito feia...

 

P/1 – Enquanto você estava na produção pegava um...

 

R – É, punha na boca, não tinha nada. Roubar, não, né? Não dava. Uma vez saiu uma encrenca, que tinha uma senhora que trabalhava lá, chamada Teresa, e ela levava. Eu não lembro bem o nome daquela ampola, não sei pra que... era pra uma doença... mas eu não tô lembrada. Ela levava de lá e vendia pra um farmacêutico. Ou vendia ou dava, não sei. Aí foi polícia lá, sabe? A Rhodia foi buscar ela. Isso eu nunca esqueço também. E não fazia muito tempo que eu trabalhava lá quando aconteceu isso aí.

 

P/1 - Era uma colega de laboratório?

 

R – Não, ela não era de trabalhar em laboratório. Ela era assim, uma espécie de uma faxineira, entendeu? Fazia limpeza mais pesada, assim... Ela era uma senhora já. Isso eu nunca me esqueço, a polícia levou ela embora... Nossa, o medo que a gente tinha! Um clima daqueles.

 

P/2 – Como é que eram os laboratórios, dona Lourdes?

 

R – Os laboratórios eram divididos,mas não fechados, assim, com vidro, não. Onde tinha soldagem, enchimento, aí eles eram fechados com vidro, toda a volta. Tudo com vidro e tinha um corredor, um ficava de um lado, aqueles que só tinha coiso, e os fechados do outro lado. Tinha _______ do enchimento.

 

P/2 – E o gerente quem era?

 

R – Olha, o doutor Ramounoulou era o mandão de lá, né? Era o doutor Ramounoulou. Depois tinha o Lau, Ladislau, era um baixinho gordinho. Depois o Vitório ajudava o Lau. E a Olga (Mikilin ?) era chefe que trabalhavam nesse fechado. Depois, num dos abertos era a Leda e a Luísa Blanc. Elas eram dos abertos. Depois, no outro pavilhão era a Delfa, ela foi muito boa pra mim, pra minhas filhas, foi ela que encaminhou a Sandra, minha filha, sabe? Nossa, eu devo muito a ela. Até saiu na Criativa, uma reportagem que a minha filha fez. Tinha a Olga (Brunoro ?) também, era de uma parte de embalagem. E tinha o doutor (Bosque ?), uma vez ele me chamou e perguntou se eu gostaria de estudar, mas a minha mãe não deixou  porque ela disse que eu era muito namoradeira, não deixou. [risos] Naquele tempo foi o Carlos que foi estudar, foi aquele o doutor (Galuzzi ?)... Todos dessa época saíram tudo formado, e minha mãe não me deixou ir. O doutor (Bosque ?) me chamou e falou assim: “Sua mãe não gosta de você.” Eu falei: “Por que?” “Porque ela não deixa você estudar.” Desse jeito ele falou pra mim. Aí nunca mais chamaram, né...

 

P/2 – Era comum a Rhodia convidar pra estudar?

 

R – Era comum. A minha filha estudou muito pela Rhodia. A minha filha fez cinco anos de francês pela Rhodia. E tudo quanto é coisa, assim, cursinho, ela faz pela Rhodia. Tudo, tudo. Até hoje ela faz curso, coisa assim. A Rhodia ajudou muito a minha filha, está no lugar que está por causa... A Rhodia se interessa muito por essas coisas, mas precisa ter vontade.

 

[PAUSA]

 

R – É isso aí. O que mais? [risos]

 

P/1 – E as chefes, como é que eram? Eram bravas? 

 

R – Olha, eu não tenho queixa, sabe? Se ela foi brava pra alguma, talvez deram motivo, né? Eu não tenho queixa nenhuma delas, não tenho mesmo. Eu sempre respeitei, elas me respeitavam. Eu fui síndica cinco anos desse prédio aqui. Eu não podia deixar moleza, não é verdade? Então. Eu acho que uma chefe tem que ser assim, senão a turma perde o respeito. Perdeu o respeito perdeu tudo. É ou não é? O respeito é tudo, numa família, numa chefe... o respeito é tudo. Eu acho. Agora, não sei, diz que “cada cabeça é uma sentença”, né? 

 

P/1 – E como era o horário de trabalho, assim, a hora do almoço, lanche...

 

R – Duas horas de almoço, tinha. Das 7:00 às 11:00, da 1:00 às...

 

P/1 – A senhora entrava às 7:00 horas pra trabalhar?

 

R – 7:00 horas. Depois eu tinha duas horas de almoço. Às vezes eu ia almoçar em casa, às vezes não. Às vezes eu almoçava lá.

 

P/1 – No restaurante ou levava marmita?

 

R – Levava marmita! “vixe”! Era tudo no refeitório lá, eles punham fruta, vinha em caixa, sabe? Acho que tinha um sítio dentro da Rhodia, né, porque... eles punham no refeitório pra gente, frutas... Muito bacana!

 

P/2 – Ah, a senhora levava marmita mas tinha frutas no refeitório? É isso?

 

R – É, caixa. Às vezes tinha pêra, às vezes muita fruta. Era um refeitório bonzinho pra gente comer, limpinho, né? É isso daí.

 

P/1 – E aí, à tarde, tinha hora de lanche, intervalo?

 

R – Não tinha, não.

 

P/2 – Não tinha intervalo durante o trabalho?

 

R – Não.

 

P/2 – Era direto?

 

R – Direto. A gente que às vezes abusava... atrás da mesa, dava uma abaixadinha, né? [risos] E comia, né? Levava leite condensado e mandava ver. [risos] É, porque a Cooperativa da Rhodia começou lá dentro, no almoxarifado, né? Então a gente comprava leite condensado e...

 

P/2 – Tinha uma espécie de uma lojinha lá dentro, é isso?

 

R – É, lá dentro, no almoxarifado. A Cooperativa começou lá. Então, lá dentro. Era só quem trabalhava lá. Aí que depois saiu fora.

 

P/2 – E o dia-a-dia de serviço como era, dona Lourdes? No trabalho, o que podia fazer e o que não podia fazer?

 

R – A gente tinha que fazer o que estava na linha, né? Vinha do enchimento, você tinha que fazer. Mas também se sobrava, não tinha problema nenhum, que elas estavam fechadas, né? Pior eram aquelas que soldavam, que elas eu acho que tinha que fazer... estando cheias tinha que soldar elas, não podia ficar as ampolas cheias sem soldar, né? É isso daí. Então, depois tinha lança-perfume também.

 

P/1 – A senhora lembra da fabricação do lança-perfume?

 

R – Uh, se lembro!

 

P/1 – Como era?

 

R – O lança-perfume era uma roda grande e tinha tudo os lança-perfume, aí enchia... tinha o clorofórmio também. O clorofórmio era uma porta de ferro, quem ficava lá dentro pra encher, logo para o outro lado já fechava a porta, porque era perigoso, né?

 

P/2 – Cheirar, aspirar, né?

 

R – É, por causa da chama dos maçaricos Lembro! Lança-perfume às vezes as moças saíam correndo porque pegava fogo! [risos] Eu lembro, eu vivia muito lá pra fora, quase não parava no lugar, por causa dos macacões, né? Eu vivia pra cá e pra lá.

 

P/1 – Porque a senhora ia ficar tirando medida?

 

R – Os chefes falavam para o meu chefe que eu tinha... Aí quando o seu João Domingues queria proibir de eu sair, o doutor Ramounoulou não deixou. Ele falou: “Não, ela vai tirar sim. Ela pode, ela tá liberada pra tirar.” Aí eu aproveitava, né?

 

P/2 – Ah, porque a senhora continuou... trabalhando na Rhodia continuava tirando medidas para os funcionários?

 

R – Até que a Rhodia, aí, começou a entrar muita gente, então ela mandou fazer, né? Aí minha mãe já largou. Isso foi tudo na época que não tinha muitos funcionários.

 

P/1 – Em que ano que era isso, que a senhora ainda tirava medidas pra sua mãe fazer macacão?

 

R – No tempo da Guerra eu ainda tirava medida... Eu lembro que, uma vez, não tinha nada pra levar a peça de brim, eu levei aquela peça na mão, de lá até na Rua _________ de Camargo, que depois da Santo André, depois é a __________ de Camargo.

 

P/2 – E como eram esses macacões?

 

R – Eram verde meio amarelado... Era, assim, inteiriço, de manga, abotoado na frente...

 

P/2 – Mas não era a roupa das moças?

 

R – Não, só para os rapazes. Aí depois aumentou muito o número de funcionários e então a minha mãe não dava conta, ela também já estava com mais idade, né? Aí a Rhodia passou pra uma oficina, nem me lembro pra onde. As moças tinham avental. Tinha revista na segunda, terça, na quarta-feira. Passava a revista nas toucas da cabeça... se estava sujas levava “pega”, tinha que trocar, né?

 

P/2 – Na entrada?

 

R – Não. A gente estava num lugar e ela já ia olhar pra ver se tinha trocado... Na segunda-feira, não podia deixar avental lá, senão... Precisava levar tudo engomadinha, as toucas... Era muito bonito! Era muita limpeza! A Rhodia sempre foi limpinha, o laboratório... muito cuidadoso. É, muito legal. Até hoje eu tenho saudades.

 

P/1 – E como eram as amigas? A senhora fez muitas amigas no trabalho?

 

R – Eu tinha sim, bastante. A Marta era mais assim porque eu trabalhava... Essa turminha aí era só quem eu não tinha muito assim... porque a Nair acho que entrou depois que eu saí, pra casar. A Nair, a Dulce... Não tinha muita amizade, assim, não. Eu tinha amizade com aquela chefe, Olga (Brunoro ?), que eu ia com ela...Olga (Brunoro ?), tinha com... ah, assim, pra dizer a verdade, eu tinha amizade com todos, no mesmo tempo não era muito assim, entendeu?

 

P/1 – Não eram muito íntimas?

 

R – Não, assim, pra ir e voltar, assim, eu tinha uma só, a Olga (Brunoro ?). Essa eu ia e voltava com ela, né, porque a gente morava perto. E tudo era amiga, só que não era aquela coisa muito assim?

 

P/1 – De intimidade?

 

R – Não, não era. Elas mexiam comigo quando eu passava... É, elas achavam que eu tinha cabelo bonito, que eu tinha não sei o quê, elas admiravam, assim, né? Coisa delas.

 

P/1 – E lá dentro, na linha de produção, a senhora era paquerada também?

 

R – “Xi!” [risos] Eu era bem paquerada. Não é pra falar, viu? Naquele tempo os moços eram mesmo assim, né? Eles mexiam com as moças, né?

 

P/1 – Mas a senhora era bonita.

 

R – Imagina! Eles que “coisam” assim. Um dia, tinham três lá me esperando na saída, o porteiro foi lá dentro me avisar. Que eles não me chamavam por nome, eles me chamavam “moreninha”. Então, o porteiro vinha: “Moreninha, tem três lá. Como é que você faz?” Eu falei: “Pode deixar que eu saio pela casa dos franceses.” Eu saía pela casa dos franceses. [risos] E justo com o três tinha aquele que eu mais gostava, né? Então, se o outro via...

 

P/1 – Mas os três eram funcionários da Rhodia?

 

R – Não.

 

P/1 – Era gente de fora e foram lá ver a senhora?

 

R – É. Aí eu saía pela casa dos funcionários, que lá na casa dos franceses trabalhava uma moça chamada Judite e eu me dava muito com ela e então... porque não podia passar por lá, né? Mas como eu tinha amizade com ela, ela deixava eu passar, sair por lá. Porque não podia. Você acha que pode? Então aí eu saía no portão deles, lá. E eles ficavam esperando. Aí, depois de uns tempos o Fausto, o porteiro, falava: “Ih, já foi tem tempo.” [risos] Eu era pobre, viu? Mas eu me diverti na minha mocidade. Minhas filhas sempre falam: “Puxa, mãe, a senhora teve mocidade. A gente não, né?”

 

P/2 – A senhora continua indo nos bailes?

 

R – Não, não. Agora não vou...

 

P/2 – Mas e depois, ainda, quando entrou na Rhodia?

 

R – Depois casei e não fui mais.

 

P/1 – Mas antes de casar a senhora ia nos bailes, quando trabalhava na Rhodia?

 

R – Oh! Fui. Depois ganhei aquele concurso também, né?

 

P/1 – Como é que foi o concurso que a senhora foi Miss?

 

R – Esse concurso aí... cismaram, me chamaram lá assim: “Olha, nós vamos...” Eu não queria entrar porque, pra dizer a verdade a gente foi pobre, sabe? Não tinha roupa bonita. Tinha roupa simples e tinha um vestido, aquela época, que eu tingi ele quatro vezes. Porque não tinha, a minha mãe não podia comprar, coitada. Ele era branco, depois tingi de azul, depois tingi de rosa mais escuro, depois tingi... No fim tingi de preto porque já não pegava mais [risos] Ah, meu Deus do céu! E foi com este vestido que eu ganhei os votos.

 

P/1 – Mas quem promoveu? Foi o clube da Rhodia?

 

R – Não, não foi clube, foi lá dentro mesmo. Não sei, olha, pra dizer a verdade não sei como surgiu isso. Eu ganhei. Quer dizer, em primeiro mesmo quem ganhou foi uma que chamava Aurora. Ela - que nem a turma dizia - não ganhou pela beleza, porque não era coisa assim, ela era tudo pintadinha, tudo... mas ela tinha muito, assim, como é? Ela tinha muita comunicação, ela tinha muita amizade lá dentro com os homens, sabe como é, né? Eu já... Ela não, ela era muito saída com os rapazes lá. Então ela ganhou em primeiro e eu ganhei em segundo. E assim, eu não tinha dinheiro nem pra fazer um vestido. Aí eu ganhei. Ganhei um vestido... ganhei o pano.

 

P/1 – Como segundo lugar do prêmio?

 

R – Eu não ganhei o vestido deles. Eu ganhei um vestido, minha mãe fez, muito bonito! Um vestido branco... a minha mãe fez um belo de um vestido! Eu tinha o cabelo comprido, uma cabeleireira me penteou... Foi a coisa mais linda, que hoje eu não esqueço, na minha vida. O meu padrinho foi o Arnaldo (Magine ?).

 

P/1 – Padrinho de dentro da Rhodia?

 

R – Não, padrinho pra entrar no baile.

 

P/2 – O concurso foi no baile?

 

R – Sim, teve o baile.

 

P/1 – Como é que foi? Foi escolhido antes e teve o baile?

 

R – Foi escolhido...

 

P/1 – E como é que foi escolhido? Aonde foi escolhido? Teve que se candidatar?

 

R – É, teve assim, começaram com votos.

 

P/1 – As pessoas se candidatavam, aí a senhora foi lá e se candidatou?

 

R – Mas foram vendidos os votos. Não foi assim, foram comprados, os votos. E eles compravam os votos, os moços de lá, as moças, a “turmaiada”. Compraram votos, compravam. Eles iam pedir votos pra comprar, né? Aí depois teve o baile.

 

P/1 – Vinham pedir voto pra comprar pra ser  Miss?

 

R – Sim.

 

P/1 – Mas não era uma coisa assim, por exemplo, a senhora se candidatava, aí outras se candidatavam?

 

R – Não, foi assim, foi ela que foi escolhida pra se candidatar. Eles que escolheram, não foi a gente que foi, não: “Eu quero...”

 

P/1 – Quem é que escolheu a senhora?

 

R – Foi o... ele faleceu, trabalhava no escritório da Rhodia, ele era o... como é que ele chamava? Rondinelli.

 

P/2 – Ah, o Lourenço?

 

R – Lourenço, é. Ele foi até meu padrinho de casamento. E foi ele que falou pra mim ficar. Eu falei: “Olha, Lourenço, não dá.” Não tinha vestido... “Não, fica, fica.” Aí fizeram toda a tramóia deles lá nem sei como. Quando fui ver, eu já tinha ganho [risos]

 

P/2 – Ah, não tinha que desfilar em algum lugar? Nada disso?

 

R – Não, nada disso. Só falou: “Ganhou, vai ter o baile, acabou.” 

 

P/1 – E aí, no baile, a sua mãe fez esse vestido branco?

 

R – Fez vestido branco, muito bonito, né, pra mim. O meu cunhado, da minha irmã mais velha, me trouxe pintura, aí fui na cabeleireira, ela me maquiou...

 

P/1 – Toda orgulhosa, a senhora devia estar?

 

R – Ficou a coisa mais linda da minha vida que eu não esqueço. Muito bonito isso, foi lindo, lindo! Aí tocou a Valsa do Imperador, eu dancei com meu padrinho... Muito bonito! Pena que eu não tirei foto, né?

 

P/2 – Em que ano que foi, dona Lourdes?

 

R – Foi no ano... eu não estou bem certa se foi 45... Não, acho que antes. 43, 42, por aí.

 

P/1 – Mas vocês dançavam no baile?

 

R – Dancei! Muito bonito!

 

P/1 – A senhora já tinha namorado nessa época, não?

 

R – Ah, eu comecei a namorar com 14 anos. Mas não era, assim, firme, não. Ah, não queria saber dessas coisas assim.

 

P/2 – A senhora era namoradeira?

 

R – Oh! [risos] Olha, pra dizer pra vocês, eu namorei tudo quanto é grã-fino de Santo André e casei com um operário. Foi castigo, viu? A gente é moça não pensa, né? Não é verdade? Tudo é bonito, tudo é ilusão. A gente acha que está sempre com aquela bola toda. Não é assim. Passei minha vida boa. Pobre, mas... tive tudo namorado rico, viu?

 

P/1 – Que a senhora conhecia onde, esses namorados?

 

R – Tudo de Santo André. De São Paulo também, porque eu ia muito pra São Paulo na casa das irmãs do meu cunhado. Ia muito pra lá, né? Eu vinha muito pra São Paulo. Mas aqui também, são quase todos daqui, né?

 

P/1 – Mas onde a senhora os conhecia? Nos bailes?

 

R – Em baile, no Vai-e-Vem do Carlos Gosmes... Em frente ao Carlos Gomes tinha o Vai-e-Vem, né? Eh, mas que delícia.

 

P/1 – Como é que era esse Vai-e-Vem?

 

R – Ah, os moços ficavam parados e as moças iam pra cima e pra baixo... e passeando. Desfilando, pra falar bem. [risos] Então, aí os moços vinham falar com a gente, se gostava ficava conversando, senão...

 

P/2 – Dava um chega pra lá?

 

R – E eles falavam assim pra gente: “Então porque você olhou pra gente?” E eu falei: “Como você sabe que eu olhei? É porque você me olhou, né?” Então ficava aquilo mesmo. Bom. Brinquei carnaval. Era tudo com respeito, primeiro.

 

P/1 – Era carnaval no clube da Rhodia?

 

R – É, no clube da Rhodia... No Carlos Gomes também tinha carnaval. Na rua tinha, tinha lança-perfume, tinha essas coisas.

 

P/2 – Como é que era com o lança-perfume? Como se usava o lança-perfume?

 

R – Ah, eles espirravam nas costas da gente. Pior quando espirrava nos olhos, né? [risos] Doía. Confetes... enchia a gente de confetes. Eh, mas era bom, minha filha, você nem queira saber. Agora não tem mais graça. Por isso que agora eu fico no meu cantinho. Agora dizer: “Não vou sair porque...” Aproveitei minha mocidade bem, graças a Deus, né, porque agora eu quero o meu cantinho... Eu gosto de ir a um lugar, assim, mas não é todo lugar.

 

P/1 – E a senhora conheceu seu marido quando? A senhora trabalhava na Rhodia?

 

R – Trabalhava. Ele era irmão de uma amiga minha.

 

P/1 – Da Rhodia?

 

R – É. Não sei como… Um moço bom, quieto, sabe? Aí eu acho que eu também fiquei mais quieta.

 

P/1 – Em que ano que foi?

 

R – Meu primeiro namorado tinha casado. Aí... eu não quis mais nenhum. Desiludi. Eu me iludi. Ele morreu já também. Morreu antes que o meu marido. Eu tinha 14 anos quando eu comecei a namorar com ele e ele 18. O meu primeiro namorado.

 

P/1 – E quanto tempo a senhora ficou com ele?

 

R – Ah, nossa! Assim, vai, vem... vai, vem... acho que até eu ter uns 23 anos, por aí. Mas assim, um namorico, porque a minha mãe era assim, se ela queria ir no cinema, o namorado não chegou, tinha que ir com ela. Então às vezes a gente brigava por causa disso, né, porque ele ia lá, chegava lá e não me encontrava, tinha que _________ minha mãe... E era assim. Mas ficou nesse “lengo”, sempre... Adorava ele. Pra mim era Deus no céu e ele na terra. Mas não era destino, né?

 

P/1 – E aí a senhora conheceu seu marido...

 

R – Aí conheci ele... quer dizer, conheci bastante meu marido. Esse estava no fim da fila [risos]. Mas conheci bastante. Eu tinha _______. Tinha um locutor da Radio Record, no dia que eu fiz 19 anos, ele leu uma coisa linda pra mim depois veio me entregar, sabe, de manhã.

 

P/1 – Leu na Rádio?

 

R – Leu, na Rádio. Muito bonito. Ele escreveu pra mim, depois ele veio trazer pra mim lá no portão da Rhodia. Ai, meu Deus, que mocidade!

 

P/2 – E as amigas todas morrendo de inveja?

 

R – Nossa senhora! Nossa, eu tive uma mocidade muito bonita. Pobre, mas bonita.

 

P/1 – E seu marido, ele não trabalhava na Rhodia?

 

R – Não, ele trabalhava na Pirelli.

 

P/1 – Através dessa sua amiga que trabalhava na Rhodia, a senhora conheceu ele?

 

R – Eu conheci ele ali. Um homem bom. Tem umas coisas assim, mas um homem muito bom, muito respeitoso, muito legal.

 

P/2 – Dona Lourdes, quando a senhora entrou na Rhodia quais eram os principais remédios? A senhora lembra, os principais produtos?

 

R – Os remédios eram o tal do Kelene, Rubi... que eu lembro.

 

P/1 – Rubi era esse que era pra sífilis?

 

R – Ele era um produto vermelho, grosso, com um óleo, parecia, sabe? O Vitascorbol, o Rhodine... Qual outro? Outro dia estava lembrando de um outro, eu podia ter marcado, né? Esqueci. (Escorocaína ?)... Os mais assim, né, que passaram no laboratório. Depois, tinha outra seção que tinha pasta, pomada... essa já era na outra.

 

P/2 - A da Rhodine a senhora lembra da Peneira Rhodine?

 

R - Sim, se eu lembro! [risos] A Rhodine era famosa. Tinha um outro comprimido também, muito bom.. mas eu não lembro do nome. Oh, comprimido bom que tinha, viu?

 

P/2 - Era pra quê? A senhora lembra?

 

R - Era assim pra dores também, nevralgia, essas coisas. Mas era ótimo. Nossa! Mas eu não lembro o nome dele. Apagou da minha cabeça.

 

P/1 - O Rhodine, como é que era a propaganda do Rhodine? A senhora lembra?

 

R - O Rhodine eu lembro só da hora dos calouros, né? Rhodine... Peneira Rhodine.

 

P/1 - Como é que era? Um programa de calouros?

 

R - De calouros era. Rhodine...

 

P/1 - E torcia-se, assim, pra algum calouro, pra alguém, no programa?

 

R - Ah, lógico. Mas não lembro bem o nome deles. Às vezes tinha um que ganhava.... É como se fosse o Chacrinha. Era a mesma... Só que o Chacrinha era mais fantasiado... o Rhodine era mais simples.

 

P/2 - A senhora foi assistir alguns deles?

 

R - Não, nunca fui assistir. Sempre ouvi falar no rádio. No rádio assim, é só falar, né? Ver eu não vi.

 

P/1 - A senhora escutava pelo rádio, o programa?

 

R - É. Só pelo rádio. Muita gente não tinha, né? A única vez que eu fui num auditório foi só ver Carlos Galhardo. Nelson Gonçalves. Éramos fâs.

 

P/2 - E a senhora, na Rhodia, na parte de ampola, ficou até quando?

 

R - Até casar. Não saí da ampola. 

 

P/2 - E a senhora falou da coisa do socorrista? O que é que era esse socorrista?

 

R - Socorrista, no tempo da Guerra. Eles mandaram a gente praticar alguma forma... uma enfermagem rápida, entendeu? Pra socorrer uma pessoa, então tinha aqueles blackout no hospital chegava aquelas crianças, caía na água quente, às vezes se queimava, outro se machucava porque apagava tudo, ficava escuro, né? É assim, a gente ia praticar, assim, socorrer uma pessoa de primeira necessidade, porque se por acaso precisasse tinha que viajar, né, quem se alistou pra ser socorrista. Meu marido também era do Exército, também ele foi. Mas chegou em Santos não... terminou. Não foi...

 

P/2 - Terminou a Guerra ele estava em Santos, já?

 

R - É. E as socorristas da Rhodia também... não era só da Rhodia, tinha bastante, né, de lugares...

 

P/1 - Mas a senhora foi socorrista... era uma coisa assim, voluntária, era escolhida?

 

R - Não, eles pediam. Se a gente queria... A minha mãe ficou de mal comigo um tempão por causa disso. Porque ela não queria, coitada. Até tá certa, porque se precisava ir tinha que ir, né? A Olga (Brunoro ?), que é essa chefe que tinha lá, também foi... Então a Rhodia mandava. A gente ia nos hospitais, em vez de trabalhar você ia pros hospitais aprender. Trocar uma cama, um doente, primeira necessidade, se quebrar uma perna, o que é que tinha que fazer, se era um lugar que não tinha nada, pôr madeira onde quebrou, assim...

 

P/1 - Quanto tempo a senhora ficou como socorrista?

 

R - Ah, quando começou a Guerra não, porque depois... quando começou iam os pracinhas pra lá, aí começou e ficou até terminar. Nossa, não tinha ninguém quase trabalhando, mandaram tanta gente embora! Quer dizer, já não tinha muito, eles mandaram embora...

 

P/1 - Na Rhodia mandaram embora?

 

R - Mandaram, porque não tinha serviço.

 

P/1- No período da Guerra?

 

R - Não tinha serviço. Então, a gente, pra ficar lá, a gente tinha que se sujeitar a lavar os vidros dos laboratórios, lavar o chão, entendeu?

 

P/1 - Fazer trabalho de faxina, mesmo?

 

R - Fazer faxina pra não cair fora, porque não tinha serviço. Pra não perder o emprego. Eles escolhiam. Não é que você falava. Escolhiam quem eles achavam que tinham que mandar eles mandavam, porque eles não queriam nem saber. Aí ficamos em poucos, não sei se ficou em 15, 20, da parte das ampolas, de tudo, laboratório de tudo quase, ficou só uma mixaria.

 

[PAUSA]

 

fim da fita

 

P/2 - Todo o laboratório farmacêutico?

 

R - Ficou só umas gatas lá, só. Mandaram quase tudo embora. Mas a gente tinha de ficar sujeita a lavar o chão, coisa assim. Mas o emprego estava seguro.

 

P/2 - E quando a senhora entrou quantas pessoas trabalhavam lá?

 

R - Acho que 30, no laboratório. O lança-perfume era fora, tudo fora. Lá no laboratório acho que umas 30 e poucas moças, só. Tinha aquela senhora faxineira, que depois logo também foi mandada embora porque andou pegando as coisas, né? A Delfa, quem ensinou a trabalhar fui eu, que ensinou ela a trabalhar. Do meu tempo tem poucas, que entraram comigo. Antes de mim eu acho que já morreram muitas. Dessas que foram lá no coiso, tudo bem pra cá de mim.

 

P/1 - Entraram depois que a senhora?

 

R - Bem depois. Elas são mais novas. Em poucos dias vou já vou fazer 76 anos, não brinca não. Segunda-feira ainda.

 

P/1 - Oba!

 

R - Agora vai ser o chá delas aqui em dezembro. Eu vou num chá na casa de uma delas, aí vai ser marcada na minha. Se vocês quiserem aparecer... 

 

[PAUSA]

 

P/2 - Dona Lourdes, sabe o que eu ia perguntar pra senhora também? Desse tempo que a senhora trabalhou com as ampolas, mudou alguma coisa nas máquinas? Houve mudança nesse período no trabalho da senhora?

 

R - Do tempo que eu estava lá? Não teve. Depois que eu saí teve.

 

P/2 - Ah, depois que a senhora saiu teve?

 

R - Quando eu saí, estava tudo a mesma coisa. Não tinha mais maquinário porque entrou mais... tinha mais operários, mais funcionários. É, justamente onde fazia pomada, pasta de dente. Então lá ficou um pavilhão grande.

 

P/2 - Mas no período desses 14 anos que a senhora trabalhou lá não mudou basicamente nada? A forma de fazer o serviço...

 

R - Não, não.

 

P/2 - Nem o uniforme?

 

R - Nem o uniforme.

 

P/2 - Uniforme Rhodine, a enfermeira Rhodine? [risos]

 

R - É, Rhodine. Só mudou que nós fizemos rede no cabelo, depois a touca, né? Antes não, você deixava cabelo solto e a touca. Ficava mais bonito. Aí depois mandaram colocar a rede porque muitas, sabe, não cuidavam do cabelo. Então começou a entrar mais. Primeiro não, era menos, a gente sempre andava com o cabelo limpo. Então aí mudou porque éramos muitas. Mudou o negócio de macacão para os rapazes, que aí começou a ser branco, ele era amarelado, esverdeado, nem sei. Aí os macacões brancos, muito bonito. Teve máquinas diferentes, onde eles faziam os comprimidos também, aumentaram. Teve um aumento.

 

P/2 - E as regras de trabalho, dona Lourdes, como eram? Conversar nada, banheiro, paquera?

 

R - Não, não podia. Banheiro tinha a tabuinha, né? E lá cada sessão tinha a cor do seu cinto. No uniforme branco tinha a cor de cinto: vermelho, verde, amarelo... então eles sabiam, pelo cinto, quem é que andava pra cá, pra lá. Quem é que estava vadiando pra cada lado.

 

P/1 - A cor do cinto era...

 

R - Significava o lugar que você trabalhava.

 

P/1 - Ah, tipo assim, na ampola?

 

R - Não, em todos os setores, escolha... E tinha um cara que... a gente tratava ele de “fogueira”, né, porque ele era vermelho! [risos] Então ele era um fiscal.

 

[PAUSA]

 

R - Então pelo cinto ele via a gente de longe, ele sabia que lugar que trabalhava, entendeu? Então ele ia falar pra chefe e às vezes era até suspensa.

 

P/2 - Porque, por exemplo, a senhora saía da ampola e ia lá no comprimido conversar...

 

R - É, ou senão ia lá fora... então pelo cinto ele sabia de onde era. O cinto significava isso daí.

 

P/2 - E a tabuainha o que era?

 

R - Era pra ir no banheiro, porque se a tabuinha não estava pendurada era sinal que já tinha uma lá fora.

 

P/1 - Era uma tabuinha só?

 

R - É. O laboratório fechado tinha uma tabuinha, aquele outro que era só divisão era outra tabuinha.

 

P/1 - Aí quando a tabuinha não estava lá, não podia ir.

 

R - É, porque não podia ir outra porque já tinha uma outra lá fora.

 

P/2 - Só podia ir uma de cada vez?

 

R - É, uma cada vez. Só se era urgência, então a gente falava com a chefe [risos].

 

P/1 - E tinha um tempo, assim, pra ficar no banheiro?

 

R - Ah, não podia demorar, né? Não podia demorar. Ah, se demorasse? Porque senão a turma dormia lá na segunda-feira [risos].

 

P/2 - E não podia conversar? De jeito nenhum?

 

R - Não, conversar não podia. Conversava, né, mas quando a gente via alguma coisa a gente dava um sinal. O doutor Ramounoulou usava aquele sapato que não fazia barulho. [risos] Teve um dia em que eu estava comendo um pão com mortadela, um pedacinho, e ele vinha vindo, eu joguei por baixo da mesa foi parar perto do pé dele. [risos]

 

P/1 - E aí?

 

R - Ah, ele só olhou assim [risos]. A gente era também levadinha. Não sei, era tudo brincadeira, mas era tudo sadia, né? Brincadeiras sadias.

 

P/2 - Que tipo de brincadeira que se fazia?

 

R - Ah, brincadeiras, coisas assim...

 

P/2 - Provocar colega... tinha essa coisa?

 

R - Uma via a outra com o namorado da outra... às vezes ia almoçar lá no clube da Rhodia, uma olhava pro namorado da outra, a outra não gostava... Era tudo... um tempo bom.

 

P/2 - Aí depois deixava passar um monte de ampola suja pra outra lá na frente? [risos]

 

R - Teve uma época que teve revista, né, quando a gente saía da Rhodia. Por causa dos remédios.

 

P/1 - Pra ver se não estava saindo com remédio?

 

R - É. Às vezes uma, por brincadeira, punha coisa no bolso da outra. É, não brinca não. Tinha suas malandragens também, viu?

 

P/1 - E a senhora tinha, assim, algum método pra fazer trabalho mais rápido? Por exemplo, tinha que lavar ampola, ou preencher cartela de comprimido.... tinha algum método pra tornar o trabalho mais rápido ou menos cansativo?

 

R - Naquele tempo não.  Comprimido não, comprimido tinha as máquinas que faziam os comprimidos. Agora, lavagem de ampola, até quando eu estava lá sempre foi a mesma coisa.

 

P/1 - Era o mesmo jeito de lavar?

 

R - Sempre o mesmo, assim, não mudou nada. Depois que eu saí acho que mudou tudo, porque depois... faz muito anos. Eu entrei no laboratório, estava tudo mudado, tudo mudado! Eu sei que eu passei pra ver onde eram os laboratórios que trabalhava a Odila, estava tudo mudado. A máquina que já preenchia, já a correia levava... Tinha só um cara que ficava no fim pra pegar a caixa e pôr no chão, que ela saía já esterilizava, já saía já enchia, quando chegava lá era só pegar a caixa e pôr no chão. Uma beleza! No nosso tempo não, tinha que esterilizar, tinha que lavar, tudo manual. Por isso que tinha emprego pra todo mundo, agora por isso que não tem mais, né?

 

P/1 - Mas era um trabalho muito repetitivo?

 

R - Não, não. A coisa pior que tinha era a lavagem de ampola. Eu detestava quando não tinha serviço pra fazer isso, né? Eu não gostava da lavagem da ampola.

 

P/2 - Por que?

 

R - Não sei, eu nunca gostei. Ficava com a mão... Ai, não gostava de enfiar a mão na água podre, depois punha assim, em cima dos panos e tudo assim, sabe? Aí enxugava. Aí, pra gente rotular, pôr rótulo nelas a gente passava cola numa tábua e fazia tudo assim, punha a cola e... tudo manual. Isso daí agora é tudo… Também, com o mundo de gente agora, se fosse daquele jeito lá, como é que era?

 

P/2 - Não dava conta?

 

R - Não dava, de jeito nenhum. Porque você tinha que passar cola na tábua, a tábua era desse tamainho aqui, aí passava a cola e punha os rótulos. A gente tinha tanta prática que fazia assim, aí pegava com o dedo, punha na ampola direitinho... não podia ser torto. E tinha as outras máquinas que imprimiam, que nem o Kelene. Era uma máquina, ela abaixava, deixava o nome assim e você passava o Kelene.

 

P/1 - Mas você que colocava a caixinha pra ela ____________?

 

R - Você passava a tinta aí ela abaixava, era que nem uma almofadinha. Então ficava o nome lá.

 

P/1 - Tipo um carimbo?

 

R - Isso. Aí você pegava o Kelene, com a mão você passava. 

 

P/2 - O frasquinho, né?

 

R - É, e passava e saía no Kelene o escrito. Estourava às vezes, fazia “pein”. Mas era tudo manual

 

P/2 - E a grande maioria de moças?

 

R - É. No Kelene tinha uma moça que trabalhava... tinha só uma máquina de imprimir Kelene. Trabalhava uma moça que chamava Ana, uma portuguesinha. Ela trabalhava lá e tinha uma ajudante dela que pegava e arrumava os Kelenes nas caixas. Era tudo em caixa. E onde era esses laboratórios que é só com a divisão tinha que nem prateleira, assim, com tudo as caixas. Aí vinha aquela da sessão da Delfa, vinha lá, a Delfa vinha junto, aí ela marcava quantas caixas ela pegava, tudo, e levava as caixas pra conferir, tudo direitinho. É, nas caixas tinha um tanto pra você pôr. Depois ela tinha... sabe que nem esse estojo de lápis que você tem aquela tampa assim? Mesma coisa, só que eram as caixas.

 

P/2 - Já a embalagem do produto?

 

R - Não, com as ampolas limpas. Aí ia lá pra Delfa. A Delfa vinha junto com uma moça, a moça carregava, ela só tomava nota, ia pra seção e ali elas eram rotuladas, pôr o nome do produto.

 

P/2 - E a maioria era mulheres, que trabalhava lá?

 

R - Só mulher. Aí tinha o Benedito, um tal Benedito, que ele ia lá, pegar as que já estavam prontas pra ir para o almoxarifado, pra distribuir, ir embora. Aí ele tomava nota, levava, via se estava tudo em ordem, selava. Os cartuchos, que era esse produto dentário, era numa caixinha quadradinha. Eu não lembro, eu acho que era 50 cada caixinha. Era uns tubinhos assim, grosso que nem o dedinho.

 

P/2 - O (Escorocaína ?), era esse?

 

R - Era. Era coisa assim, era que nem o dedinho, assim. Então eu arrumava tudo direitinho numas caixinhas, aí a Delfa levava pra seção dela, né? Ali eles punham o rótulo na caixa, punham o papel celofane e aí esse tal Benedito ia lá pra conferir se estava tudo certo e já levava pra ir embora.

 

P/2 - E acidentes? Tinha muito acidente, dona Lourdes?

 

R - Não, no meu tempo, não via muito. Só um que caiu no poço do iodo, parece. É, porque lá tinha uma sessão que tinha um poço que fervia iodo, tinha outro de acetona... na Rhodia aqui embaixo.

 

P/1 - E o funcionário caiu no poço?

 

R - Eu não sei se ele chegou a cair mesmo ou se ele só pôs o pé. Estava aquele “zum-zum” lá mas, sabe, eu não gostava de saber essas coisas, porque eu ficava muito assim... Não sei, ele se queimou, né, mas nem sei se morreu, se não morreu, isso aí não posso confirmar nada porque não sei...

 

P/2 - Mas no dia-a-dia não tinha? Com vidro, essas coisas?

 

R - Não, não tinha. Às vezes estourava umas coisas assim, mas aí era uns vidrinhos, pulava, não tinha nada de mal, assim. Eu não via não.

 

P/1 - E tinha algum cheiro lá?

 

R - Tinha cheiro... que nem de acetona, como é que chamava? Eu não lembro como chamava aquilo. Às vezes soltava uns cheiros esquisitos também, porque tinha coisa... eu ia a cada seção, aquilo lá metia até medo.

 

P/1 - Tinha medo pelo cheiro?

 

R - Pelo cheiro e os poços das coisas. Você via aquelas coisas fervendo lá embaixo.

 

P/1 - Parecia o caldeirão da bruxa?

 

R - Quando eu ia tirar medida dos macacões eu ia nas seções. Eles só mandavam chamar, mas a gente via, né, aquelas máquinas, aquelas coisas. Tinha homens que trabalhavam em cada serviço lá que eu vou te contar, viu.

 

P/2 - Isso na parte Química?

 

R - Tudo nas Químicas. Tudo quanto é química é perigoso, né? Eu não sei, acidente assim eu não lembro, pode ser que tenha, mas...

 

P/2 - E como é que era trabalhar na Farmacêutica? Tinha alguma diferença trabalhar na Farmacêutica ou na Química, dona Lourdes?

 

R - Como?

 

P/2 - Trabalhar com os remédios? Tinha alguma diferença? Era separado ou tudo junto?

 

R - Os remédios? Era separado.

 

P/2 - E não tinha diferença nenhuma? Pra trabalhar tanto fazia?

 

R - Tanto fazia.

 

P/1 - A senhora falou que o que a senhora menos gostava era lavar ampola.

E de serviço a senhora mais gostava?

 

R - A escolha da (Escorocaína ?) eu gostava, porque ficava lá sentadinha só escolhendo, né? Eu não gostava de lavar ampola. O resto eu não fazia questão. Quando teve a festa, que era a quermesse da Rhodia, nós fazíamos hora extra pra fazer flor, era uma delícia.

 

P/1 - Fala da quermesse.

 

R - Depois que eu saí, a quermesse continuou. Era festa com fantasia. Mas nós que começamos, né? Continuou uns tempos e depois acabou. Mas, assim, que nem a nossa não foi muito tempo.

 

P/1 - Essa festa que a senhora tá falando qual é? A de fim de ano? 

 

R - Não, a de junho, julho. Teve mais concurso, depois... diferente do nosso, que o nosso foi um concurso mais simples.

 

P/1 - Esse concurso que a senhora acabou pegando o segundo lugar foi a primeira vez que fizeram concurso?

 

R - Foi a primeira vez. Depois tiveram outros, mas foi diferente. Depois, elas tinham que vender voto, elas tinham que..., entendeu? O nosso foi um mais simples. Eu acho que foi o mais bonito, viu? Pela simplicidade, foi o mais bem feitinho, mais bonitinho. E eu trabalhava nas barracas lá.

 

P/2 - E tinha festa junina, tinha festa de Natal, tinha as festas todas?

 

R - Tinha. De Natal era a distribuição de presente para as crianças. Lá no clube, lá embaixo. Tinha ________. Tinha bastante coisa. Só não tinha piscina, essas coisas não tinham, né? Tinha jogo, bote para os mais velhos. A Rhodia, antigamente, era bem embaixo na Oliveira Lima. Depois, ela passou em cima do Carlos Gomes. Era em cima da padaria Dalório. Não tem a Tóquio, na esquina? Ali em Santo André? Ali onde é a Tóquio era um restaurante. Depois, andou um pouquinho tinha uma padaria, a do Dalório, em cima, o baile da Rhodia era em cima. Era tipo, dois andares. Depois mudou para um salão em cima do Carlos Gomes. Mas em cima do Dalório foram os primeiros bailes.

 

P/2 - Tinha festa do 14 de julho?

 

P/1 - Os ______________, que eles _______?

 

R - 14 de julho era a Tomada da Bastilha, né? Era feriado.

 

P/1 - E tinha algum evento, alguma atividade?

 

R - Ah, tinha desfiles. Desfiles pequenos, porque tinha mais francês do que agora. Agora tem mais baiano do que... Não tem mais baiano agora? Naquele tempo era mais francês. Tinha muito francês aqui em Santo André. Só que hoje tem mais baiano, né? 

 

P/2 - E aí a senhora casou em 1950...

 

R - Não, em 1948.

 

P/1 - Aí teve que sair da Rhodia?

 

R - Ah, o meu marido quis que eu saísse, né? Eu não queria.

 

P/1 - Mas não era norma da Rhodia? Podia continuar se quisesse?

 

R - Podia, podia. Nossa! O meu padrinho, que foi o Lourenço Rondinelli, ele não queria que eu saísse. Morreu tão cedo, né, o Rondinelli.

 

P/2 - Morreu cedo. A gente entrevistou o filho dele, o Sílvio.

 

R - Ele era tão bom. Ai, que homem bom aquele. Nossa!

 

P/1 - Foi vereador, né?

 

R - É. Ele não queria que eu saísse. Falou que eu ia fazer “burragem” sair, mas meu marido não quis que eu continuasse. Eu me arrependi tanto! Então, tinha o Lourenço Rondinelli e tinha o outro Lourenço. Como é que ele chamava aquele outro? Não me lembro mais. Tinha a Ofélia... como é que ela chamava? A Ofélia também foi ajudante de mestre lá. A Leda também já faleceu. A Olga (Brunoro ?) também. Esses tempos a _________ (Mikilin ?) também. Eu tô sobrando. [risos]

 

P/1 - Aí ele não quis que a senhora continuasse a trabalhar?

 

R - Aí saí, saí. Entrei num pequeno acordo.

 

P/1 - Conseguiu fazer acordo?

 

R - É, acordo, mas foi pouquinho. Naquele tempo a gente ganhava pouco. Mas saí.

 

P/2 - O salário era baixo na época?

 

R - Era baixo, mas sabe que eu não me lembro porque eu não sei nem como é que contava naquele tempo o dinheiro, eu não sei se era mil-réis... Trocou tanto, o Brasil, que a gente até não lembra. Foi muito trocado... É pena! A gente devia guardar umas coisas.

 

P/1 - A senhora dava dinheiro pra sua mãe?

 

R - Tudo.

 

P/1 - A senhora pegava o salário e dava em casa?

 

R - Tudo. A gente trabalhava mais pra ajudar em casa. Tudo! Com meus filhos  já foi diferente. Eles “coisavam”, mas elas davam dinheiro em casa também. Não tudo pra mim. Eles davam uma quantia pra mim, né? Eles foram acostumados assim. Eu não, já dava tudo pra minha mãe, envelope fechado.

 

P/1 - Pegava o envelope do pagamento e dava pra mãe?

 

R - É, fechado. Às vezes, quando eu queria um dinheirinho, assim, já fazia uma trapaça. [risos] É, minha mãe era muito severa. Puxa vida! Mas, coitada.

 

P/1 - Aí, quando a senhora casou, começou a costurar pra fora?

 

R - Aí comecei a costurar. Não logo já. Mas daí há uns tempos. Eu gostava. Comecei a costurar. Costurei 23 anos pra fora. Depois, os meus filhos começaram a trabalhar e eles não quiseram mais que eu costurasse. “Só pra gente tá bom”, diziam, agora não querem nem que eu costure pra eles, pra ninguém. Eu não quero, nem pra mim, agora eu compro tudo pronto. Só se eu tenho que ir a um casamento, que eu quero uma coisa mais, né? Eu gosto mais de bordar.

 

P/1 - E a senhora começou a bordar quando?

 

R - Ah, há uns três anos.

 

P/1 - Começou agora?

 

R - É. Eu bordava já, porque eu fazia vestido de criança também e às vezes eles pediam que eu bordasse os vestidinhos, coisa simples. Agora é coisa diferente, toalha, camisa, essas coisas. Primeiro, era só vestidinho de criança, eu fazia chapeuzinho de criança, fazia flor para as costureiras.

 

P/1 - E depois que a senhora saiu da Rhodia e casou, a senhora perdeu o contato com a Rhodia? Não continuou _____?

 

R - Durante uns tempos ficamos sem contato. Eu tinha comunicação da Rhodia, coisa assim, porque eu tinha minha cunhada que trabalhava lá. Então ela me contava as novidades, a Lupi. Mas, assim, com o Vitório, com o Lau eu tinha contato, encontrava na rua sempre… Com muitos eu não tinha contato, até que a Marina fez esse negócio da gente se encontrar. Ela começou a telefonar pra um, pra outro, aí nos juntamos. Mas tem bastante que não... Hoje mesmo, encontrei com uma que trabalhou na Rhodia, mas não no laboratório. Eu tinha amizade com ela, ela trabalhava onde fazia caixinhas de lança-perfume, feitas de madeira.

 

P/1 - Quem é ela?

 

R - Ela chama... Gia Montovani. Quando encontrei com ela, eu perguntei se eu convidasse ela pra vir no dia do chá se ela viria. Ela falou: “Você me fala o dia, talvez eu vá.” Eu vou ver se dá pra me comunicar com ela e eu vou ver se ela vem. Eu falei: “Vem, porque é na minha casa.” Porque é assim, na casa da gente a gente pode convidar quem quer. Agora, se eu vou no chá do outro eu não posso falar: “Vai lá.” Mas na minha...

 

[PAUSA]

 

P/1 - A senhora saiu da Rhodia e aí a filha da senhora foi trabalhar lá?

 

R - É. Entrou a mais velha.

 

P/1 - Com quantos anos?

 

R - Com 14 anos também. Tudo novo, porque pobre é assim, trabalha...[risos] Mas logo ela saiu porque ela casou novinha.

 

P/1 - Mas a senhora que arrumou pra ela?

 

R - É, com a Delfa. Por isso que eu falo, a Delfa foi muito boa pra mim. Aí depois a Eliana saiu...

 

P/1 - Na Rhodia, onde ela trabalhou?

 

R - Lá na embalagem, porque a Delfa era mais pra parte de embalagem. Depois, foi a Sandra, que já tinha aquela vontade... ela sempre gostou de estudar, né? Aí ela entrou lá e a Delfa já foi empurrando ela. Ela entrou pra fazer o francês, por cinco anos, pela Rhodia. Depois ela fez Comunicação, Relações Públicas, na Metodista. Essa minha filha, olha, ela saía da Rhodia para o francês, de lá pra faculdade… Às vezes, só comia um bolinho e vinha jantar lá pelas onze horas da noite. Ela pegava duas conduções, pra vir pra casa. De São Bernardo e depois aqui. E até hoje se ela tem cursinho, qualquer coisa, ela vai, ela gosta. Agora, a Simone já trabalhou na Petrobrás, foi secretária na Petrobrás.

 

P/2 - E tem um genro da senhora que também trabalha na Rhodia?

 

R - Trabalha. O Cardoso, todo mundo conhece ele lá. Só que ele trabalha na Empresarial.

 

P/1 - No Centro Empresarial?

 

R - É. A Sandra também estava lá. Agora que mudou. Nossa, o Carlos faz anos que tá lá também.

 

P/1 - A senhora ia como pra Rhodia? À pé?

 

R - À pé.

 

P/1 - Quanto tempo dava sua casa da Rhodia?

 

R - Acho que uma hora, nem isso, uma hora.

 

P/1 - À pé? Andando?

 

R - Não era longe. Eu morava sempre por aí, perto... eu morei sempre perto da Igreja Santo André, por aí. Num instante, cortava, “vixe”, num instante eu e a Olga (Brunoro ?) chegávamos. Num instantinho. A gente passava pela estação de trem, e os trens de carga que paravam lá, não saíam do lugar, e nós... [risos]

 

P/1 - Saía correndo?

 

R - Senão não entrava, né? Eu também daqui vou à pé até o centro de Santo André, que eu gosto de andar. A gente não tinha dinheiro nem pra ônibus. Mas era gostoso. Passava pela Rua Oliveira Lima, era uma delícia porque não tinha movimento. E era uma beleza Santo André. Eu tenho uma saudade de Santo André naquele tempo. É que o progresso precisa, né? Mas tomara à Deus que os Prefeitos... agora parece que ele tá fazendo alguma coisa, né? Vamos ver.

 

P/1 - E a senhora tem quantos netos?

 

R - Sete. A mais velha tá com 26 anos. É, que ela trabalha lá também, né, lá no laboratório.

 

P/2 - Sua neta trabalha na Rhodia também?

 

R - No laboratório. Ali também pra aqueles lados que a Sandra trabalha. No laboratório, ela trabalha lá.

 

P/2 - E os outros netos são todos...

 

R - Tem um moço, com 21 anos, tem os menores, um de 12, a Mariana de 9, a Taís,  o Bruninho, a Carla. Essas são as menores.

 

P/1 - E algum irmão ou irmã da senhora foi trabalhar na Rhodia?

 

R - A minha irmã Nita na Rhodiaceta.

 

P/1 - Ficou bastante tempo lá também?

 

R - Eu não tô certa. Acho que muito tempo não porque a Rhodiaceta, falavam, naquele tempo tinha o nome de Gestapo. No tempo da Guerra puseram o nome de Gestapo lá. E a Rhodiaceta não era brincadeira não. Não era Rhodia Química, não. A Química, perto da Rhodiaceta era um céu.

 

P/2 - Mas por que?

 

R - Porque tinha uma chefe lá que Deus que me perdôe. Aquilo lá era um demônio. Nossa Senhora! Todo mundo que trabalhou naquela época lá esconjurava essa chefe. Às vezes a gente falava assim: “Aonde você trabalha?” “No céu.” A Rhodia Química não foi uma indústria, assim, com a gente, sabe? Não foi. No meu tempo não. Só se agora, né? A gente não pode falar nada. Mas no meu tempo não. A Rhodiaceta sim, não tinha quem não reclamasse. Elas eram separadas. Agora que parece que são uma só. Naquele tempo não, era separado. O marido da Sandra sempre trabalhou na parte da Rhodiaceta. Agora que são tudo junto.

 

P/1 - A Sandra conheceu o marido dela na Rhodia?

 

R - Isso daí não tô bem certa se foi lá. Eu sei que ela foi num aniversário na casa dele, que convidaram. Ela foi e já domou ele lá. [risos] Agora, se ela conheceu ele antes não sei. A Sandra é um pouquinho fechada. 

 

P/1 - E o que é que a senhora sentiu mais falta quando a senhora saiu da Rhodia? O que é que a senhora sentia falta em relação a trabalhar lá?

 

R - A liberdade, as amizades... Em todo lugar que eu vou eu tenho amizades boas... não sei se às vezes é o jeito de viver, não levar nada a sério, porque se a gente leva certas coisas a sério nada vai, né? Eu sempre me dei bem com todo mundo. Então achei falta. Eu gostava... não sei porque, mas eu gostava de trabalhar lá. Até hoje às vezes eu sonho que eu tô lá. Acho que a parte boa da minha vida eu passei quando trabalhei na Rhodia. Que a gente saía brincando. Se chovia, a gente saía brincando na chuva. [risos] Naquele tempo era tudo simples. Então a gente saía brincando na chuva, tirava sapato, andava descalça na água, aquelas brincadeiras. Aquilo era a alegria da gente. Chegava lá, também, as boas amizades. Eu tinha liberdade. Não era que tinha que ficar ali, que nem as outras, sentada ali... Eu não. Eu andava pra cá, pra lá, conversava com um, conversava com outro... Então, pra mim foi boa, pra mim foi muito boa, a parte da Rhodia pra mim foi muito boa.

 

P/1 - O que é que significava, assim, trabalhar na Rhodia? Quando a senhora falava para as outras pessoas: “Trabalho na Rhodia.”?

 

R - Ah, aquele tempo era orgulho. Ah, quem trabalhava na Rhodia... “Vixe”. A gente tinha orgulho da Rhodia, meu Deus! O orgulho nosso era trabalhar na Rhodia.

 

P/2 - Por que? Ela tinha uma boa fama?

 

R - Sim. Não trabalhava qualquer uma, sabe? Trabalhava tudo gente mais ou menos na Rhodia. Tanto nos escritórios, trabalhavam esses mais ou menos, não era qualquer um. E lá dentro era respeito, tanto um mecânico, tudo você tinha respeito. Então pra gente era orgulho. A gente ouvia falar na Ipiranguinha, lá tudo que trabalhava tinha má fama, né? Tudo. Mesmo se você não tinha, você pegava, porque a Ipiranguinha era a mãe de Santo André, né? Todo mundo entrou lá pra ___________. É que nem, a mesma coisa você morar num bairro que tem uma favela. Então é a mesma coisa, né, tem os bons e tem os ruins, não é verdade? A Rhodia não, a Rhodia parecia que era tudo selecionado, quem trabalhava lá. A Rhodia era o nosso orgulho.

 

P/1 - As pessoas olhavam com respeito?

 

R - Era orgulho, nossa! Só nas porteiras, quando você via as outras irem para os outros lugares e nós no caminho da Rhodia, era orgulho pra nós. [risos] Que bobagem... [risos]  Coisa da vida, coisa do tempo, né? É o tempo… Engraçado. É a mesma coisa, uma pessoa querer entrar na Petrobrás. Quem entra na Petrobrás é... Porque só o que eles exigem pra uma pessoa entrar lá. Não é fácil entrar na Petrobrás. As exigências deles, né? Não sei se ainda agora é, porque o tempo que a minha filha entrou lá era.

 

P/2 - Dona Lourdes, qual é o seu maior sonho hoje?

 

R - Eu não sei. Tô tranqüila, tenho de tudo, tenho uns filhos maravilhosos, tenho uma casa boa, eu não sinto solidão porque eu tenho amizade com todos, todo mundo... De vez em quando tem uns comes e bebes aqui com a gente. Eu não sei, eu acho que eu tenho só de agradecer a Deus o que tenho. Não sou rica, mas tenho uns filhos que me valem um tesouro. O maior tesouro mesmo são meus quatro filhos e meus netos que me querem bem também. O que é que eu vou querer mais com 76 anos? Saúde, com a graça de Deus. Meus filhos falam: “Se eu chego na idade da senhora com a saúde que a senhora tem eu tô bem.” [risos] Saúde eu tenho, graças à Deus.

 

P/2 - O marido da senhora é falecido?

 

R - Sim, há 14 anos. Todos me querem bem, não tenho raiva de ninguém, amigas boas, todos me respeitam... Qual é o sonho que eu tenho que ter agora?

 

P/2 - Se a senhora pudesse mudar alguma coisa na trajetória da senhora o que é que a senhora mudaria?

 

R - Não tenho ideia, meu Deus do céu! O que eu gostaria de mudar é que eu gostaria de ser uma pessoa mais assim pra sair, pra viajar... eu sou muito desanimada pra isso. Eu queria ser uma pessoa mais ativa. Eu acho que eu sou muito calma, queria ser mais elétrica. Mas graças à Deus tá tudo bem pra mim agora. O que mais a gente pode desejar, né? Diga a verdade. Eu sou uma pessoa que não sinto solidão, que a pior coisa na vida eu acho que é uma pessoa sentir solidão. Eu não sinto, não sinto mesmo. Meus filhos ligam toda hora, eles estão toda semana aqui. Se não tá aqui estamos juntos nos outros lugares. O que é que eu vou querer mais? Uma casinha boa pra mim morar. Tomara todos os aposentados tivessem uma casinha. Infelizmente não.

 

P/1 - O que é que a senhora achou de ter dado esse depoimento aqui pra gente?

 

R - Ah, vocês são bacanas. Adorei vocês. Nossa! Agora, se vocês virem coisa errada aí vocês tiram. [risos] E eu agradeço a vocês, perguntando, né, porque sem pergunta a gente não lembra, né? A cabecinha da gente já... E sabe o que eu acho? Eu acho que uma pessoa, que nem vocês que são jovens, guardam as coisas mais bonitas da vida. Guarda que um dia vocês lembram... É tão bom se alguém pergunta. Eu sinto não ter tirado uma foto com as minhas amigas aquele tempo. Que nem, do baile. Isso, como aconteceu comigo, vocês vieram perguntar, pra vocês também, um dia alguém vai perguntar. Eu acho que a pessoa tem que guardar as coisas pra saber, porque dizem que “Recordar é viver”. Eu acho que temos que guardar as coisas interessantes pra um dia ler... uma foto. É que quando a gente é jovem, a gente não pensa: “Ah, pra que isso? Pra que aquilo?” Aí chega uma idade, que nem eu, assim… Que gostoso seria ver. Aquele meu papel que eu ganhei do Osvaldo Macedo da Record já tá tudo amarelado.

 

P/1 - A senhora tem ainda?

 

R - Eu tenho, mas eu não sei onde eu guardei. É muito bonito, é lindo. É uma crônica muito linda, sabe, que ele deu pra mim. Ele leu às 5:00 horas da manhã na Rádio Record. Eu nunca me esqueço! Depois ele foi lá no portão da Rhodia entregar pra mim. Me abraçou, desejou feliz aniversário, sabe?

 

P/1 - Tomara que a senhora ache.

 

R - Eu acho, você vai ver. Só que o papel, quando dobra já tá... Até uma vez eu pedi pra um moço se tinha jeito de passar pra fita, ele disse que é só num estúdio. E só de ter aquilo é um orgulho. Por isso que eu falo, guarde as coisas que interessa, um dia alguém vai perguntar pra você. Você vai ver. Que a mocidade não pensa nisso.

 

P/2 - Dona Lourdes, tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de falar? Alguma coisa que a senhora está com vontade de contar?

 

P/1 - Alguma coisa que a gente não perguntou e a senhora...

 

R - Eu não lembro, agora. Não lembro. Tem bastante coisa. Depois a gente lembra, né? 

 

P/1 - Bom, mas a gente tá aí pra continuar conversando, se a senhora quiser falar depois a senhora liga. Foi uma excelente entrevista, a gente gostaria de agradecer.

 

R - Ah, obrigada. Eu que agradeço vocês, viu, a paciência. [risos] Tá bom, meu bem?

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