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História

A cidade das diferenças

História de: Odulpho Goyana de Paiva Baracho Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2020

Sinopse

Odulpho é um curioso por natureza que ama gente e não é de esperar as coisas acontecerem. Nesta entrevista, fala sobre como é morar no Edifício Copan e o que descobriu sobre o funcionamento do conjunto habitacional.

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História completa

Odulpho Goyana de Paiva Baracho Neto, nascido em São Paulo capital no dia 3 de março de 1972. Meu centro aqui na cidade de São Paulo é o Edifício Copan, onde eu moro. Eu vinha do Butantã e quando eu mudei para o Edifício Copan, como eu gostava dos canais da Globo e não havia cabo, eu resolvi colocar uma antena de satélite. Contratei o serviço, mas a distância do apartamento até o sinal era muito grande e nenhum técnico conseguia fazer isso. Eu resolvi aprender e fazer eu mesmo. Recebi o apoio do síndico do prédio. Aí eu comecei a conhecer um bocado de coisas do complexo Copan, porque eu tinha que passar com o cabo pelos lugares mais estranhos. Muita dor de cabeça, mas foi legal conhecer inclusive a distribuição de espaços, como é a estrutura do Copan. O Copan é um conjunto de seis blocos, de A a F, e eles têm propósitos e constituições diferentes. São blocos para pessoas que vinham para o centro da cidade, simplesmente com propósito de trabalho, então passavam por aqui só tendo o Edifício Copan um local onde dormiam, depois voltavam aos seus afazeres, por isso apartamentos muito pequenos, de 20 metros quadrados no bloco B. O bloco B é muito interessante, saindo do elevador, parecia um hospital. É um corredor estreitinho, cheio de apartamentos dos dois lados, uma coisa muito parecida com um hospital, até um pouco tétrico. Há apartamentos maiores, os que têm maior área estão no Bloco D, que tem 220 metros quadrados. Esse era realmente o propósito de Oscar Niemeyer quando concebeu o Copan, que era juntar as diferenças e fazer com que as classes sociais convivessem em harmonia. Era até mais amplo do que foi realmente concretizado, ele pretendia colocar também um hotel ao lado, onde hoje é o edifício do Bradesco, depois um restaurante com uma área comum de convívio. Achei muito interessante essa proposta social. Alguma coisa chegou a se realizar porque as diferenças se encontram realmente no Copan. Não é um convívio intenso, mas certamente um convívio casual ao menos, desde as pessoas que tem no Copan um local para dormir, travestis e prostitutas que saem a noite. Sem maiores problemas com ___________. Eu nunca vi nenhuma hostilidade, nunca senti. Eu gosto desta proposta.

O síndico é uma pessoa muito bacana, muito competente, apaixonado pelo que faz. Ele administra uma cidade, me parece que são 5.000 pessoas, 1000 e tantos apartamentos. Um orçamento que talvez seja muito maior que algumas cidades do interior. É pepino o dia inteiro, mas ele consegue manter o bom humor, consegue uma visão objetiva da situação. As reuniões condominiais são engraçadíssimas porque dessa amálgama de pessoas surgem interesses muito diversos. Temos pessoas que conseguem fazer uma leitura muito objetiva do problema que está sendo discutido até aquelas que são muito mais poéticas. A dinâmica dessa interação, depois de organizada e conduzida pelo síndico, me faz achar a situação muito interessante. Nesse ponto eu tomo uma postura de observador, eu gosto de visualizar a dinâmica dessas situações.

Um grande personagem do centro de São Paulo é um cidadão chamado Elias Madureira que pediu emprego para meu pai. Dizia que conhecia o centro muito bem. “Conhecia nada”, estava chegando do interior. O rapaz gostava daqueles jornais escorre sangue, já abria na página criminal. Meu pai o incentivava a ler os editoriais dos jornais. No começo ele não entendia, perguntava alguma coisa, depois foi se inteirando da situação e hoje ele diz que lê todos os jornais. Ele ainda trabalha no centro da cidade vendendo cartões telefônicos e outras mercadorias na Rua Sete de abril. Vez por outra ele me encontra. É uma pessoa fantástica, extremamente falador e expansivo.

A música que mais me transmite o centro de São Paulo, a cidade nos finais de semana que fica ermo, “Eh São Paulo, seu nome é solidão...

No Copan tem um som que eu nunca tinha ouvido, na casa de máquinas. São os elevadores antigos, com relê que ficam estalando – [péh, péh]. Eu nunca tinha ouvido, só mesmo no edifício Copan. Esse som foi acrescentado na vida em função do Copan.

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