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História

A China pelos olhos - e lentes - do Brasil

História de: Marcelo Machado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Nesta entrevista, Marcelo nos conta como passou de estudante de arquitetura a documentarista. Conta sobre um documentário que realizou sobre a província de Anhun e sobre o documentário "A Ponte de Bambu", que fala sobre a história de Jaime Martins, jornalista que trabalhou para o governo chinês na década de 60. Fala também sobre sua relação pessoal com a China, pois é casado com uma chinesa e uma de suas filhas mora atualmente em Xangai.

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História completa

(00:28) P/1 - Boa tarde, Marcelo, tudo bem?

R - Boa tarde! Tudo. E você, Genivaldo? 

(00:32) P/1 – Tudo ótimo! Então, nós vamos começar com a pergunta mais básica. Primeiramente eu gostaria que você dissesse seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde você nasceu. 

R - Meu nome completo é Marcelo Ramalho Machado. Eu nasci em oito de junho de 1958, em Araraquara, que é no interior do estado de São Paulo. 

(00:58) P/1 - Qual o nome dos seus pais?

R - Meu pai, Arnaldo Ramalho Machado e minha mãe, Nilma Gomes Ramalho Machado.

(01:10) P/1 - Você tem irmãos, Marcelo?

R - Eu tenho uma irmã.

(01:16) P/1 - Mais velha ou mais nova que você?

R - Ela é mais velha que eu, dois anos.

(01:22) P/1 – Certo. E os seus pais eram de Araraquara mesmo ou eles vieram de alguma outra cidade, alguma outra região do país?

R - Meu pai era de Araraquara mesmo e minha mãe veio aqui de São Paulo, né? Eu moro na região de São Paulo e minha mãe veio daqui.

(01:43) P/1 – E qual a atividade dos seus pais, Marcelo?

R - Minha mãe era professora, tinha feito o ‘normal’, professora primária. E meu pai era técnico em contabilidade de formação, mas a área dele sempre foi o comércio e a indústria. 

(02:04) P/1 – Então, vamos conversar um pouco sobre a sua infância, Marcelo. Você se lembra da casa onde você morava, quando era criança?

R – Lembro, claro. Lembro da casa da Rua Seis, hoje fica já no centro da cidade de Araraquara. Uma casa com muro baixo, um jardim na frente. Não era ligada por outras casas nas laterais, não era geminada, como se diz. Com um quintal bem grande, com muitas árvores, muita fruta. 

(02:45) P/1 - E do que você gostava de brincar, quando você era criança? Você brincava bastante nesse quintal?

R - Gostava desse quintal, gostava de subir nas árvores, gostava de frutas, subir na jabuticabeira, por exemplo, quando tinha jabuticaba. Era uma brincadeira que eu gostava, de estar no quintal, brincando. Uma época tinha um galinheiro, enfim, era um lugar que, quando era eu pequeno, gostava de estar no quintal.

(03:15) P/1 - Você tinha algum sonho de infância, Marcelo? Algo que você pensasse que você gostaria de ser, quando crescesse?

R – Não, na infância não tinha esse tipo de sonho, né? A gente está falando da infância, não tinha. Comecei a ter esses sonhos... Desculpe, tinha sim. Porque eu lembro que, no primário, eu pensei muito que eu gostaria de ser um cientista. Tinha um colega de classe, o Serginho e nós chegamos até a fundar, na nossa cabeça, o que era a Sociedade Araraquarense de Cientistas Infantis, Saci. E eu pensava em ser um cientista, pensava sim. 

(04:09) P/1 - Aproveitando esse gancho que você falou da escola, quais as primeiras lembranças que você tem de ir para a escola?

R – Olha, a primeira escola que eu fui, que era o chamado pré-primário, [era] escola pública. Era a três quadras da minha casa, muito perto, num largo, o Largo da Câmara. Lembro de ir a pé e lembro bem desse prédio, do lugar do recreio, como se dizia, que era o pátio atrás. Lembro das atividades que se fazia de desenho, eu lembro de alguns coleguinhas. E lembro de uma coleguinha que faleceu, foi uma coisa muito impactante, morreu uma - com seis anos - coleguinha. Lembro da porta, minha mãe ia buscar. Lembro que se vendia ‘quebra-queixo’ e ‘puxa-puxa’, biju, lembro do som dessas coisas; cada um tinha um som, cada vendedor tinha... O de biju tinha uma matraca, o ‘quebra-queixo’ tinha um apito característico, lembro de... Enfim, a gente poderia ficar a manhã inteira só falando das coisas que eu lembro do pré-primário e desse caminho entre a minha casa e a escola, essas três quadras. Muito perto, muito perto. 

(05:58) P/1 – E alguém contava histórias para você, nessa época, quando você era criança ou você gostava de ouvir histórias?

R – Olha, eu sempre gostei de ouvir histórias e quero crer que meu pai e minha mãe contavam histórias. Mas ainda menino eu tive um irmão que ficou muito doente, quando eu tinha oito para nove anos e veio a falecer, quando eu tinha nove anos. Nós ficamos com a minha avó um tempo, porque tinha um périplo dos meus pais por hospitais e aquela coisa. E minha avó contava muita história, muita história. Ela oferecia uma possibilidade muito interessante para mim e para minha irmã, que era assim: “Fantasia ou realidade?” Fantasia, ela poderia contar uma história e realidade, ela poderia contar um caso. Eu lembro que eu gostava muito de caso e minha irmã de fantasia. 

Essa história eu lembro muito porque eu trabalho com documentários, eu sou documentarista hoje e eu identifico aí uma raiz, nesse interesse pela realidade. E me lembrei também que, nessa coisa da ciência, tinha matinê em Araraquara, o cinema de manhã. Passava filmes, desenho animado e uma vez passou um filme que era estranho, era como se fosse um documentário. Esse documentário chamava A Crônica de Houston e era sobre uma tese de que, depois de uma hecatombe nuclear, só os insetos sobreviveriam. Marcou muito esse filme porque tinha formigas gigantes, filmadas em macro. Eu nunca tinha visto, a gente só via quase desenho animado e daí vi aquele filme com baratas e formigas gigantes, fiquei muito impressionado, reforçando essa tese que eu gostaria de ser um cientista e tal. Mas você vê que eu estava enganado, eu queria mesmo era ser documentarista, né? Então, eu gosto dessas lembranças de ter visto filmes logo cedo e de ter ouvido histórias também logo cedo, principalmente dessa minha avó. 

 

(08:35) P/1 - E avançando um pouco mais na sua vida escolar, no seu ensino fundamental tinha alguma matéria que você gostasse mais ou algum professor que tenha te marcado, por algum motivo?

R – Olha, eu gostava muito de música e de desenho, sabe? Essas coisas que eu realmente gostava. E numa escola que eu estudei no primário, tinha uma banda, uma bandinha e eu adorei tocar na bandinha, foi uma coisa que eu gostava. Gostava muito de artes já, de desenhar principalmente; foi uma linguagem que me acompanhou, me acompanha até hoje, o desenho. Essas atividades que eu realmente gostava na escola. E nessa escola também, eu acho que, como muitos, você tinha o chamado “Cineminha”, que na verdade era uma sessão de slides musicada, com os disquinhos coloridos da RCA Victor. Soube depois que eram grandes compositores da música brasileira que faziam os arranjos. Eu adorava o cineminha, gostava dessa coisa da história do cineminha. E as histórias eram João e Maria, Os Três Porquinhos, essas histórias assim. Eu gostava dessas atividades, é o que me marcou muito no primário, realmente. 

Depois gostei também de Geografia, um pouco mais para frente. Geografia me interessou muito, mas talvez já ali no terceiro, quarto ano. Eu me dava muito bem na redação também, gostava de escrever desde cedo, gosto ainda. Em redação me sentia muito à vontade. Escrever, para mim, era gostoso. Eu gostava, não tinha dificuldade. 

 

(10:38) P/1 - E avançando já para o seu ensino médio, atualmente, para o seu colegial, você chegou na adolescência. O que foi mudando em relação a hábitos, costumes e também na relação com a escola?

R – Bom, eu sou desses privilegiados que estudei uma parte do tempo na escola pública. A escola pública era muito boa. Estudei no Instituto de Educação Bento de Abreu, IEBA; era considerada a melhor escola da cidade. Tinha o exame de admissão pro ginásio, então a escola [era] boa, eu me lembro. E eu sentia muita facilidade na escola, eu gostava da escola, gostava de estudar - não no sentido de que eu fosse assim muito ‘caxias’, esse aluno exemplar. Mas eu prestava atenção nas aulas, eu me virava bem com isso, tanto é que não precisava estudar muito em casa, me sentia bem à vontade, prestando atenção, enfim. 

Eu me lembro da escola como um lugar agradável sempre, de gostar de estudar, gostar das aulas. Tive professores que eu lembro até hoje, que me incentivaram e essas pessoas você guarda com carinho na memória. Era agradável ir à escola e era tranquilo se relacionar. Eu não era um cara primeiro da classe, dez, mas também nunca tinha muito problema de passar de ano; eu ia bem, em geral. E me lembro da escola muito por esse lado. 

Eu tô falando muito do estudo, né? Porque, é claro, na escola tem o lado social, tem os amigos, tem tudo isso, tem o esporte e sempre as atividades paralelas. Quando eu cheguei no ginásio tive muitas atividades paralelas porque eu continuei, por exemplo, tocando na fanfarra, depois banda marcial, então gostava de música e, sempre que tinha alguma oportunidade, me envolvia. Depois me lembro também do grêmio estudantil, [de] no colégio participar do grêmio. 

No terceiro colegial [foi] muito marcante, era dentro do período militar, né? Essas atividades coletivas eram meio reguladas: você tinha era ginástica sueca. (risos) Eu lembro disso, de a gente fazer uma apresentação de ginástica sueca no estádio da ferroviária, que era uma ginástica com todo mundo fazendo os mesmos movimentos juntos, com música e tal. 

Mas me lembro que esse colégio tinha um festival de artes, que tinha sido interrompido durante o regime militar e que no terceiro colegial a gente refez o festival como festival de música. Eu tô falando de 1975, então ainda com um rescaldo daquela coisa dos festivais de música. Nós fizemos o festival de música na escola e, nossa, para mim foi uma coisa sensacional ajudar a organizar o festival; toda aquela agitação, a gente encheu o teatro com os estudantes. E no fim também entrei numa música que concorreu, tocando percussão. Isso é uma coisa que me marcou. 

Fora da escola também, eu também fiz aulas de violão, gostava de música, muito. Depois flauta. Aí tem todo o mundo fora da escola também, que era bem rico, cheio de possibilidades. Família de classe média, sabe? No interior, uma cidade com uma certa estabilidade socioeconômica, então tinha cultura, tinha esportes, era... Em geral, eu olho para trás; sendo brasileiro, eu... Talvez [seja] uma exceção você vir duma cidade assim, do interior paulista, com uma qualidade de vida - em todos os sentidos qualidade de vida, pelo menos na cidade em que eu cresci. Essa estabilidade socioeconômica que te permite, que tem as possibilidades, a escola é boa e tinha coisas para fazer fora da escola também. 

Eu sempre tenho uma lembrança muito positiva de infância, adolescência no interior, é sempre boa. Depois a gente vai descobrindo as coisas. Tinha bullying na escola? Claro que tinha. Tinha discriminação? Claro que tinha. Nem todos conseguiam estudar no IEBA? Também, porque tinha admissão, também tinha um filtro, porque quem tinha condição de estudar acabava entrando na escola, porque era pública. Então: “Ah, era misturado?” Era. “Tinha diferentes classes socioeconômicas, raças?” Tinha, mas também tinha um pouco de filtro. Não era assim tão aberto, não era um ambiente tão... Mas na minha cabeça ficou uma coisa muito positiva sobre esse ambiente todo de infância, adolescência, em relação ao ambiente, [era] gostoso.

 

(16:21) P/1 – E nessa época você já pensava no que você faria no ensino superior?

R – Olha, eu tinha muita dúvida sobre o que eu faria no ensino superior, porque eu gostava de artes e desenho. Meus pais não tiveram formação superior; tiveram médio, que era o Normal e o Técnico em Contabilidades, então eram um pouco reticentes com essa coisa do artista. Aí eu fui chegando numa coisa que seria Comunicação, que é o que eu faço hoje, mas eles achavam muito vago. Falavam: “Isso é muito vago, Comunicação, isso não é profissão.” Você vê, hoje em dia [tem] marketing, tem tanta coisa, porém, tinha essa restrição em casa: “Ah, procure uma profissão”. Eu acho que isso era muito comum, né? 

Como eu desenhava, foi se apresentando essa possibilidade, que era a faculdade de Arquitetura e então comecei a achar que ali tinha um arranjo bom. Eu não entendia muito o que seria, porque a faculdade é Arquitetura e Urbanismo, mas eu achei que tinha um arranjo bom ali, de ser meio ligado às artes. Um dia a gente veio a São Paulo para conhecer a FAU, que é onde eu acabei estudando, a FAU-USP. E aí eu pirei, achei aquilo maravilhoso! (risos) Cheguei: “Nossa, eu quero morar nesse lugar! Não quero estudar nesse lugar, quero...” E foi o que acabou acontecendo. 

(17:58) P/1 - E conta pra gente um pouco como foi essa experiência de fazer Arquitetura e Urbanismo na FAU. O que você acha que mudou para você ou quais foram as primeiras transformações? Por exemplo, você chegou e caiu a ficha: “Olha, eu estou aqui fazendo Arquitetura”. Como isso foi se desenvolvendo?

R – Bom, primeiro foi isso: eu fiquei muito empenhado, porque também acabou acontecendo que [como] adolescente você vai tendo uma série de inquietações. Apesar de eu ter boa escola, cidade agradável, amigos, um círculo muito legal de amigos - que incluíam meninas, a gente tinha um grupo misto. Era bacana, não era aquele ‘Clube do Bolinha’, sabe, que tinha? Mas eu comecei a achar que meus pais eram muito chatos e que morar em casa era muito limitado. Comecei a achar também que Araraquara era muito limitada, era pequena para mim, que era conservadora; na época eu fiquei muito inquieto. Então, quando veio essa possibilidade de morar em São Paulo para estudar Arquitetura, nossa, eu agarrei isso com muita força. Eu fiz um ‘semi’, que era um cursinho à noite, paralelo ao terceiro colegial e entrei direto. Estava muito empenhado, muito focado, queria muito vir. Então, quando eu cheguei, eu cheguei bem determinado. Eu queria muito morar sozinho, morar em São Paulo, ter um ambiente culturalmente mais rico do que Araraquara me apresentava. E hoje eu vejo que o ambiente era culturalmente muito rico lá também, porém eu queria mais, queria São Paulo, achava que tinha que morar em São Paulo. 

Quando eu entrei na FAU, na faculdade de Arquitetura, eu me senti deslumbrado com aquele ambiente. Era uma coisa, para mim, além da minha imaginação, era muito bacana a faculdade. Eu passei cinco anos deslumbrado, né? (risos) Completamente fascinado pelo ambiente onde eu estudei, riquíssimo em possibilidades, muito incentivo à criatividade, [com uma] biblioteca muito boa e professores excelentes. Então, de novo caí num lugar que eu vejo como um lugar muito bom para ter estudado, para ter vivido. E era período integral, estudava em período integral, realmente morava lá na escola, ficava e só ia dormir. Só ia, morava numa república e ia dormir. Voltava cedo e passava ali o dia inteiro, envolvido com... E aí sim, não só com a escola, mas de novo, [com] muitas atividades paralelas - cineclube e ateliês, tinha grupos de desenho, grupos políticos, movimento estudantil muito forte, começando a tomar força nessa época. [Tinha] mil atividades, a gente não parava, o tempo todo tinha coisas acontecendo na escola. 

Eu me lembro como um período de descobertas, de muita descoberta, em todos os sentidos. Ampliou muito a visão que eu poderia ter em termos políticos, sociais, históricos e principalmente culturais, o que sempre foi meu foco. Então, foi um período de ampliar, ampliar, ampliar, ampliar.

 

(21:56) P/1 - E quando você terminou, concluiu a faculdade, o que você tinha em mente, se manter em São Paulo? Quais foram os próximos passos?

R – Bom, aí você já deu alguns saltos bem grandes. (risos) Mas vamos em frente. Quando eu estava terminando a faculdade, eu percebi que eu não ia ser arquiteto e aí estabeleceu-se uma dúvida muito grande: “Afinal, o que eu vou ser? Que profissão eu vou ter?” E a FAU oferecia muitas possibilidades, porque ela oferecia Arquitetura, Urbanismo, Projeto de Edificação - que chamava a Arquitetura, o planejamento urbano, digamos. Mas tinha também Comunicação Visual, Desenho Industrial e Paisagismo, você tinha muitas possibilidades. Eu achei que, talvez, na área de Comunicação Visual eu pudesse me encaixar - você vê, voltando para a comunicação, com uma ideia de Comunicação Visual. E ali na Comunicação Visual, Artes Gráficas, eu cheguei até me matricular no Senai, para tentar ser técnico em gráfica de noite. Fazia faculdade de dia e ia pro Brás de moto, à noite, tentar aprender ser gráfico, para completar a formação. Mas aquilo parecia bem definido; no final, eu sempre tive muita curiosidade e muita inquietação, querendo sempre saber mais, conhecer, tinha muita curiosidade. 

Antes de me formar, eu tranquei a faculdade para viajar, porque meus pais, a gente não saía do Brasil, sabe? A gente viajava de carro no Brasil e até que minha família viajava, mas era de carro. Você ia pra praia, ia para o sul de Minas. Meu pai quis conhecer Brasília, a capital nova; a gente foi ver Brasília. Mas era assim, essas eram as viagens e na faculdade eu ouvia falar muito de tudo, a gente estuda o mundo inteiro. Em Arquitetura você vai da Grécia ao Japão, aos Estados Unidos, vê um pouco a civilização. Eu nunca tinha saído do Brasil, então quando chegou no quarto ano, eu tranquei a matrícula; como se dizia, eu tinha feito todos os créditos, quatro anos, o quinto ano era uma espécie de tese de graduação - como se diz hoje, “TCC”; na época, TGI, Tese de Graduação Interdisciplinar. Mas eu, antes de fazer isso, tranquei e fui fazer uma coisa que se fazia muito na época, que era ‘mochilar’, viajar assim, de carona, de trem, de ônibus. Fiquei um ano e pouco viajando, saí aqui da Estação da Luz, de trem e viajei pela América inteira - América do Sul, América Central, fui até o Canadá. Tudo por terra, viajando assim, como eu te disse: de ônibus, de carona, de trem, trabalhando. E aí trabalhei em cozinha de restaurante, trabalhei no campo, colhendo fruta. Isso era um sonho muito comum, se falava muito nisso, né, “pegar a estrada”, como se dizia. Cair no mundo, pegar a estrada. 

Foi outra experiência muito marcante para mim, porque eu saí aqui pela Bolívia, você começa aqui pela América Latina. Na época a gente lia Veias Abertas da América Latina, tinha uma visão e um interesse pelos vizinhos, né? Então, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia. E uma língua próxima, o espanhol ficava fácil, você ia aprendendo na rua o espanhol. E aí pela América Central, depois ainda tinha a Guatemala, Belize, México. Entrei pela costa oeste dos Estados Unidos, então a quantidade de experiências que tinha uma viagem como essa... Com muito pouco dinheiro. Era quase uma característica, você viajar com nada, com pouquíssimo dinheiro, comer em todos os lugares, dormir em todos os lugares e se jogar no mundo. Isso foi muito importante para mim. E eu entendia que era uma busca, para eu entender o que eu ia fazer mesmo. (risos) Mas no fim vai ampliando tanto, que você vai vendo tanta possibilidade, que no fim não é sobre isso, você aprende um monte de coisas para sua vida, mas não propriamente vai resolver a questão profissional. 

No fim dessa viagem, já quando eu estava em São Francisco, na Califórnia, um colega de classe passou, viajando para o Japão, falando em comprar uma câmera de vídeo. Fiquei com isso na cabeça. Comecei, em todas as capitais que eu ia, sei lá, em São Francisco, em Seattle, em Vancouver, em Boston, Nova Iorque, ia ver vídeo, essa coisa dessa nova expressão. E na volta, logo que eu cheguei, junto com a graduação na escola, a gente já se juntou, eu, esse colega e outros de classe, para montar uma produtora de vídeo. Mas eu assim, entrando um pouco sem saber o que era, meio assim: “Isso pode ser legal para mim, isso pode ser uma profissão para mim”. Porque eu gostava muito de cinema, música, essa coisa da comunicação e entrei nisso assim: “Vamos, vídeo, isso é legal, vamos nessa, vídeo”. E nos juntamos para fazer, na época, uma produtora que foi bem pioneira nessa coisa da produção em vídeo, que se chamava Olhar Eletrônico, que durou a década de oitenta toda e acabou definindo os meus rumos profissionais. Mas com colegas de classe, quatro arquitetos... Ex-arquitetos ou estudantes de Arquitetura que se lançaram nessa seara do vídeo. 

 

(28:03) P/1 - Desde quando surgiu algum interesse, ou a China surgiu na sua vida, por algum motivo?

R – Olha, nesse período em que eu comecei com o vídeo, que é 1981, é um período que, ali no grupo... Essa produtora de vídeo que a gente montou, Olhar Eletrônico, era numa casa em que a gente morava e tinha a produtora, era uma espécie de coletivo, comunidade, enfim. E nós passamos a fazer uma atividade, que era o tai chi chuan, que era uma atividade que a gente fazia de manhã. Tinha uma Kombi, que era a kombi da produtora, a gente acordava cedo e ia fazer o tai chi chuan. A minha conexão mais direta e forte com uma prática chinesa e a convivência com chineses começa aí, ela começa nesse período que eu comecei a estudar o tai chi chuan. 

(29:26) P/1 – E isso acabou te levando a querer entender ou conhecer mais da cultura chinesa?

R – Olha, isso foi decorrência natural. A gente passou rápido [na entrevista] por um longo período da minha vida, mas eu tinha crescido numa casa e tinha tido uma educação católica. Minha família era católica praticante e se observava os ritos, não só a missa, as festas, enfim. Eu, [quando] adolescente, cheguei a estudar num grupo que estudava o Evangelho e gostei muito daquilo, porque eu me interessava por filosofia, pensamento e não tinha isso lá, então me parecia um canal muito interessante de... Junto com o pacote vinha a igreja e a igreja era muito chata, era um saco, porque adolescente não quer restrição, a ideia de pecado e tudo isso. Então, ao mesmo tempo em que eu achei interessante a leitura da Bíblia, na época, eu achei absolutamente abominável a ideia dos preceitos ali, dos dogmas e muitas das restrições que a igreja impunha. Eu logo percebi que aquilo não era para mim, mas continuei interessado em estudos que ligavam filosofia, religião e a minha descoberta, naquele momento, foi as religiões orientais, o pensamento oriental. Mas primeiro pela Índia, comecei a ler coisas que, principalmente, tinham o Budismo como uma referência. Mas também o Hinduísmo, alguma literatura de cunho hinduísta, indiana. Esse interesse foi evoluindo naturalmente, eu permanentemente lia coisas e me interessava por práticas que envolviam meditação, coisas assim. Então, quando eu cheguei em São Paulo e me falaram das práticas dos chineses, eu procurei esse grupo e fazia tai chi chuan, mas não se reduzia à questão do movimento, porque era um mestre muito... Como posso dizer? Alguém que conhecia profundamente essa lado da cultura chinesa, que era o Mestre Liu Pai Lin, um homem que realmente conhecia, entre outras coisas, o que eu chamo de “yoga chinesa”. Na época, em português, diziam: “os exercícios interiores”. Também a parte do I Ching, que é um oráculo e que está ligado ao Taoísmo. Eu comecei a estudar tudo isso ali. Ia nas aulas de tai chi chuan, de manhã, mas ia também aos fins de semana nos grupos de estudo na casa do mestre, estudar o I Ching. Eu comecei realmente a gostar muito e me interessar muito por aquilo, porque eu já vinha, já tinha a tendência e a curiosidade por esse universo da espiritualidade, como ela era praticada no Oriente, que parecia, pra mim, um outro caminho bem diferente do que eu tinha visto em casa, da coisa cristã, católica e tal, então naturalmente fui me interessando por aquilo. 

O Mestre Liu fazia as aulas em chinês. Ele tinha dificuldade com o português e sempre tinha tradutores ou tradutoras, que eram jovens da comunidade chinesa que falavam fluentemente o chinês, para traduzir as aulas. Eu, enfim, totalmente envolvido com aquele universo [e] um dia aparece uma nova tradutora, uma tradutora que eu não conhecia, linda, uma chinesa; eu fiquei imediatamente apaixonado e veio a ser minha companheira, minha mulher até hoje. A gente muito rapidamente se envolveu e muito rapidamente a gente casou, foi uma coisa assim meio fulminante, muito... Foi muito curioso, porque eu acabei mergulhando no universo chinês para um outro lado, quer dizer, eu acabei constituindo uma família sino-brasileira, né? Uma família que mistura a minha genética - que já é bastante misturada, porque eu tenho italiano, sueco, português, enfim, um monte de diferentes nacionalidades misturadas ali. Meu sobrenome é Ramalho Machado, é um sobrenome português, aí surgiu a Sun Yang Lin, que é a minha mulher, chinesa. E a China, então, se apresentou de uma outra forma na minha vida, que não era mais a questão da filosofia, ou dessas práticas de cunho meio esotérico. Ganhou um cunho muito diretamente prático e vivencial e físico da minha vida mesmo, pessoal. Porque tivemos filhas, tivemos duas filhas. Até hoje convivo com a minha família, com o lado chinês da minha família, convivo bastante.

(35:27) P/1 - E vocês já viajaram juntos pela China?

R – Já, já viajamos juntos e separados, eu já estive na China algumas vezes. Ah, eu viajei com minha esposa uma única vez para a China. Ela foi algumas vezes, eu fui outras vezes, mas juntos uma única vez. 

Eu tenho uma filha que mora na China. Uma das minhas filhas acabou indo morar em Xangai, mora há dez anos em Xangai. Acaba que, quando ela pode, minha esposa vai visitar a Fernanda, que é a filha que mora lá. Quando eu posso... E também acabou por trabalho, eu me aproximei, sabe? Fazendo documentários mesmo, eu tive algumas oportunidades... Fazendo ou exibindo documentários, eu tive algumas oportunidades de ir para a China. E numa dessas a gente foi juntos, mas na maior parte das vezes eu, sendo trabalho, ia sozinho. É claro que minha filha também vem, a gente tem uma conexão que também passa agora por essa relação de ter alguém que mora lá na China.

(36:43) P/1– Falando sobre isso,  você acabou chegando também num documentário. O seu último documentário, A Ponte de Bambu, em que você vai falar sobre a vida da família da Raquel Martins, que a gente também entrevistou. Você vai contar a história do pai dela, o Jaime. Como você chegou nessa história, Marcelo?

R – No próprio documentário eu explico isso. A família da minha esposa, da minha mulher, companheira, vivia em Campinas. Eles entraram em 1964 aqui no Brasil e depois de um período em São Paulo foram viver em Campinas, tiveram um restaurante chinês lá, por anos, e através desse restaurante eles conheceram essa família Martins.  A família Martins, na primeira vinda ao Brasil, quando voltaram, em 1979, morando em Jundiaí, acaba indo almoçar no restaurante e conhecendo a família da Yang. Ficaram amigos e foi a Yang que me apresentou a família Martins, foi através da minha esposa que eu conheci o Jaime. E o Jaime, sendo um jornalista e tendo uma experiência muito profunda e conhecendo a China da forma que nenhum brasileiro conhecia - pelo menos nenhum brasileiro que eu conhecesse até aquele momento - e num período que a China tinha ficado completamente isolada do mundo ocidental, eu imediatamente fiquei muito curioso com o Jaime. Também me senti muito à vontade no sítio onde a família mora, porque é uma família com o traço assim, digamos, étnico e sociocultural muito parecido com o mundo de onde eu vim, em Araraquara. Então a gente começou assim, eu comecei a frequentar o sítio como um amigo mesmo, ir lá almoçar, churrasco de domingo, festas, a gente teve essa amizade. 

Essa amizade durou… Eu o conheci por volta de 1984, então a gente tem... 1994, 2004, 2014, ele saiu daqui há uns anos, faz quarenta anos que eu conheço a família.

 

(39:12) P/1 - E o que te levou, então, a depois de décadas de amizade, consolidar essa história num documentário?

R – Bom, era um caminho meio natural, porque a experiência da família é uma experiência que poucos brasileiros têm. Eu, já conhecendo o Jaime, achava que ele dava uma grande história. Eu já tinha feito um documentário com ele na China, o Jaime trabalhou na TV Cultura como jornalista e teve um convite, uma vez, para fazer um documentário na província de Anhui; curiosamente, o jornalismo da TV Cultura não se interessou. Eu tinha uma câmera, ele sabia que eu era documentarista e falou: “Você não quer pegar essa oportunidade? A gente produz independente, para a TV Cultura”. E fizemos isso, fizemos uma viagem de pouco mais que um mês, fomos à província de Anhui juntos. Fizemos um documentário chamado “Viagem ao Anhui”, passou na TV Cultura. Já tinha tido uma experiência de fazer documentário com o Jaime, então uma parte desse material eu uso nesse documentário, que é A Ponte de Bambu

E me parecia quase obrigatório que eu contasse essa história, porque era uma história que me dizia respeito, à minha relação com a China e, ao mesmo tempo, uma experiência de brasileiros. Hoje a China é tão importante, ocupando um espaço geopolítico. Os brasileiros conhecem tão pouco da China, conhecem quase nada, eu achei que tinha que contar essa história, né? E depois também soube que o Jaime estava doente. Ele tem Parkinson e fiquei um pouco… Pensando: “Puxa, será que o Jaime vai perder a memória, como vai ser?” Fiquei achando que aquilo era uma coisa urgente, que eu tinha que fazer logo, porque eu vinha enrolando também [com] essa ideia: “Ah, é legal de fazer, uma hora eu faço e tal”. Mas quando eu soube que ele estava doente, eu também resolvi que ia fazer imediatamente. 

Comecei e terminei pouco antes do início da pandemia, no final de 2019, A Ponte de Bambu, que é o meu último documentário de longa-metragem. Foi meu último trabalho - quer dizer, o meu mais recente trabalho, né? Não se diz o último, porque eu pretendo fazer outros.

 

(41:27) P/1 – Certo. E indo um pouco mais para as perguntas finais, o que você guarda além… Agora que você é casado com uma chinesa, você tem uma filha que mora na China, o que de costumes chineses você tem, atualmente, no seu cotidiano?

R - Costumes chineses? Bom, da prática com o Mestre Liu Pai Lin, do tai chi chuan, ficaram vários exercícios, eu conheço alguma coisa desses exercícios e eu faço, pra minha saúde. São respirações, exercícios para mexer as juntas, enfim, são coisas que eu uso na minha vida cotidiana. 

O chá é uma prática, para mim, também do cotidiano. Eu tomo chá, o chá é muito usado pelos chineses no cotidiano para trabalhar, para estudar. O chá verde acorda também, em vez de tomar água você toma chá, né? É um hábito que eu tenho: chá. A gente come, é claro, bastante comida chinesa aqui em casa e eu sei preparar alguma coisa. Mas eu tenho impressão que o mais importante mesmo, que tem é... Os chineses têm uma educação muito própria. Os hábitos do cotidiano, o comportamento, os costumes expressam um lado da cultura e eles têm a dimensão dessa educação entranhada mesmo, dentro deles, por séculos, para não dizer milênios. E isso está ligado a uma coisa, que é uma forma muito reduzida de tratar, porque envolveria uma longa conversa, mas envolve uma questão que eu vou aqui, simplificar, sobre o pragmatismo - você olhar de forma direta e prática, ou pragmática, a vida. Isso significa esse tratamento direto das coisas e acho que é uma coisa que me influenciou muito, porque eu não era assim. Eu sempre fui de abstrair, dado às questões da subjetividade, de pensar de uma forma bastante abstrata e talvez eu tivesse passado uma parte grande da minha vida (risos) tergiversando, ou derivando, abstraindo. Sinto que a vida, o cotidiano dos chineses tem esse dado do pragmatismo como uma característica muito forte. 

Eu não posso dizer que eu mudei, porque você traz características que não adianta lutar contra elas, é o seu jeito de ser, é inato, mas acho que eu aprendi um pouco a lidar de uma forma mais pragmática e mais direta com o trabalho, sabe? Com a vida doméstica. E é admirável isso neles, nos chineses, é muito... Eu acho que é a coisa mais fascinante para mim - e olha que tem coisas muito fascinantes na cultura chinesa! (risos) Poderia citar dez aqui, fácil. Mas esse lado eu acho que é um lado que está tão dentro dos chineses e está tão na educação do homem comum, da mulher comum, de todo mundo. Não é do letrado, do iletrado, do pobre, do rico, é uma abordagem sobre a vida doméstica, sobre a vida cotidiana, sobre comer, sobre se cuidar, sobre... E como tratar as coisas, principalmente o trabalho. Acho que isso de alguma forma me influenciou, me deixou um pouco diferente do que talvez eu fosse se eu não tivesse tido esse contato, se eu não tivesse formado uma família sino-brasileira, se eu não tivesse viajado para a China, enfim. 

 

(46:10) P/1 - Você acredita que existe alguma similaridade entre as duas culturas?

R - Tem coisas comuns, tem coisas comuns entre os chineses… Antes da China eu tive muito interesse pelo Japão, principalmente por causa do zen budismo, mas arquitetura também; a arquitetura moderna é muito influenciada pela arquitetura japonesa, comecei a me interessar. Mas o Japão tem uma formalidade, por exemplo, nas relações sociais, que os chineses não têm. Essa coisa de ser direta, às vezes parece um pouco com a gente. Eles são extrovertidos, os chineses falam alto, os chineses se tocam, não tem aquela mesura, aquele distanciamento, né? Até demais! (risos) A China é muita gente, as pessoas se pegam, dão tapas assim, até para você falar: “Wow!” É uma coisa normal, encostam e são eloquentes e são... Existe uma extroversão, se brinca muito na China também. É uma característica que, às vezes, aqui no Brasil ou no ocidente não se percebe, mas eu acho que é um traço. 

Tem um amigo que conhece muito a China e ele falou: “É, e a bagunça!” (risos) Ele citou a bagunça e é verdade! Você vai, por exemplo, para as grandes cidades chinesas e o trânsito é um negócio maluco, é uma bagunça. Não tem a violência e não tem talvez a... É uma bagunça organizada, mas é uma bagunça, entendeu? Você tem um dado da cultura. As pessoas não falam isso, parece uma coisa ofensiva, mas quando esse amigo falou de uma forma bem humorada; realmente, as coisas são um pouco bagunçadas na China. Você vai numa estação de trem; tudo bem, hoje formam-se filas? Formam-se, mas em geral todo mundo se amontoa na bilheteria e é um falando em cima do outro. Essa é uma coisa que às vezes você vê aqui no Brasil e você vê na China também. Mas eu vejo isso mais como esse traço extrovertido, desse jeito, essa coisa espontânea, brincalhona que a gente tem aqui e que tem na China também. É um dado que é comu, entre chineses e brasileiros.

 

(48:40) P/1 – Certo. Então, a gente vai para as últimas perguntas, Marcelo. Elas são mais de cunho pessoal.

R – Vai.

(48:46) P/1 - O que você acha mais importante - pode ser mais de uma coisa - para você, hoje em dia?

R - O que eu acho mais importante para mim, hoje em dia? Uau, que pergunta ampla, hein?

(49:03) P/1 - Coisas sem as quais você não passa.

R - Coisas sem as quais eu não passo. Olha, eu acho muito importante respirar e parar para respirar. Eu sou muito agitado, faço um monte de coisas, então eu fico sempre tentando parar para respirar, que é para pôr minha cabeça no lugar. Isso é uma coisa que atualmente eu não passo sem. Os chineses dizem: “Sentar na calma”. É uma coisa que é importante para mim, não passo sem. 

Eu gosto muito de ler, hoje em dia mais do que ver filmes até, eu gosto de ler. Você vê, eu tô aqui cercado de livros. E eu não passo sem leitura, eu acho muito importante, gosto muito. Não passo sem livros. E são livros mesmo. Gosto de ler também, leio na internet, no celular, mas gosto de ler o livro, o de papel, aquele antigo, é muito importante para mim. Eu acho que é muito importante você se manter querendo aprender. Eu acho que estudar, aprender, observar e perceber a sua ignorância, o quanto você não sabe, querer conhecer mais, eu acho que é muito importante, muito importante. Eu acho que isso nunca cessa, acho que a vida é isso, na essência: aprender, conhecer, conhecer mais. Eu não passo sem. 

Agora, por exemplo, acabei de ler o livro do Sidarta Ribeiro, O Oráculo da Noite, e ele voltou numa questão que, para mim, eu tinha visto lá atrás, do sonho. Eu não estava mais lembrando muito dos meus sonhos e eu estou trabalhando de novo para lembrar os sonhos e o que eu posso aprender com meu inconsciente, esse mergulho nesse outro lado. Mas isso veio porque eu li esse livro e porque esse cara fala de métodos, me lembrou como é que você faz para lembrar o seu sonho, então é um aprendizado mesmo, aprendizado dali. Li o livro, aprendi aquilo e tô usando. Isso, para mim, é muito importante, muito importante. 

Acho muito importante o contato com a natureza, gosto muito desse contato. Nunca abro mão de estar próximo das árvores, da praia, do rio, gosto muito de nadar, gosto da água, da cachoeira, então... Acho muito importante, não dá para passar sem a natureza. (risos) Gosto do contato com outros seres, né? Gosto de estar, da convivência, gosto da relação, do afeto, do carinho. Isso é muito importante, não dá pra passar sem o outro, né? As outras pessoas, os que estão ao redor, a família, os amores, não dá para passar sem. 

 

(52:44) P/1 - E quais os seus sonhos para o futuro, Marcelo?

R - Sonhos para o futuro. O sonho, esse é o primeiro sonho - é conhecer o sonho. Tô com esse sonho agora, tem esse sonho, o sonho lúcido. O último capítulo do livro do Sidarta Ribeiro, O sonho lúcido. O sonho lúcido é você conseguir ganhar consciência dentro do sonho. Eu já tinha ouvido falar dessa prática lá atrás e agora ouvi falar de novo no livro. Tô interessado, no futuro, em ganhar essa dimensão do sonho lúcido, eu tô muito interessado. Acho que é uma... Porque, por exemplo, eu quero fazer outros documentários, mas o Ponte de Bambu…   Em cada um que você faz você aprende alguma coisa; você aprende também coisas que talvez você não deveria ter feito, você acerta e erra, quase que em igual medida. Eu, agora, por exemplo, vou fazer uma série de documentários para televisão, não vou fazer cinema em longa-metragem mais, porque eu não queria que um próximo filme nascesse de uma intenção gratuita, então o que realmente importa? Eu tô me perguntando. O que vale a pena? Porque demora [pra fazer] os documentários, você fica cinco, seis anos envolvido. O que vale a pena cinco, seis anos da sua vida se envolver pra fazer o esforço, a batalha pra financiar, pra desenvolver, pra lançar? Então, você, às vezes, responde meio rápido: “Ah, é...”. Na música eu tenho um monte de interesse, poderia fazer vários documentários, mas eu gostaria muito de poder escolher, elaborar um pouco mais essa escolha do próximo documentário. E gostaria talvez de descobrir coisas que eu não sei, sobre aquilo que eu gostaria de fazer. (risos) Quem sabe a resposta pode estar no sonho lúcido? Pode estar numa área do inconsciente, ou de uma dimensão minha que eu conheço pouco, que eu bloqueei, que eu não me dei o direito de conhecer. 

Gostaria que essa escolha de um trabalho fosse fruto de um processo muito, muito de dentro, que houvesse vínculo, compromisso, que eu pudesse lançar com paixão, né? Que não fosse uma coisa que... Porque vira e mexe, nos filmes, eu paro e falo: “Mas por que eu tô fazendo isso? Tanto esforço, tanta... Vale a pena fazer isso?” Eu tenho essas crises. Às vezes, na hora de lançar, tanto esforço para fazer isso, às você não tem um público, sala vazia, tudo isso acontece, então eu gostaria pelo menos que a intenção de um próximo trabalho pudesse vir de uma motivação interior profunda, que eu tivesse um vínculo muito forte com o meu próximo assunto e que aquilo fizesse um sentido muito intenso na minha existência. Isso é uma coisa que eu vejo para o futuro, que é elaborar melhor as escolhas dos trabalhos - se é que dá para escolher, né? Eu sempre falo de um ponto de vista muito privilegiado, não só de homem, branco, num país que a gente sabe como é. Mas de ter tido muitas oportunidades, oportunidades da educação, oportunidades das mais variadas, não só na escola formal, mas estudando com os chineses, aprendendo na estrada, sempre me jogando para... Então, muitos privilégios. 

Acho que eu tenho também uma responsabilidade, sabe, sobre esses privilégios, de tentar achar, qual é... O que vale a pena ser dito? Essa é uma pergunta: “O que vale a pena ser dito?”

 

(56:40) P/1 – Bom, então nós vamos para a última pergunta, Marcelo: o que você achou de contar um pouco da sua história pra gente, hoje?

R – Ah, é bom poder contar, né? Eu tenho essa dimensão de que eu sei que vocês estão gravando, que é o que eu faço, então eu não sou uma pessoa que senta aqui na cadeira como no divã, ou como quando eu converso com um amigo. Eu sei que o Museu da Pessoa tem método, eu vejo que você conduz sua entrevista com método, mas eu também falo com uma consciência muito forte do que significa estar falando aqui, na frente do computador, para você e para o Museu da Pessoa. Então, é prazeroso, é muito gostoso, é sempre um prazer poder repensar, olhar para a vida, responder perguntas importantes como as que você me fez. Talvez, a única coisa é que eu seja um pouco parecido com vocês, demais, profissionalmente. (risos) Então, tem um desvio aí de comportamento, porque você sabe um pouco o que está acontecendo. É diferente quando você conversa com um pescador, com a rendeira, com a professora, com o médico, é diferente. Mas é igualmente prazeroso, adoro, obrigado. Obrigado pela oportunidade de contar um pedacinho aí da minha história.

(58:08) P/1 – Então, em nome do Museu da Pessoa, a gente que agradece muito a sua participação, Marcelo.

R – Legal, obrigado e até já. O Museu da Pessoa está sempre por perto, então vou mandar um até já pra vocês. Já, já eu tô aí de novo. 


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