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História

A cerâmica que molda a vida

História de: Rosemiro Pinheiro Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/02/2009

Sinopse

Nascido e criado em Icoaraci, Belém. Acompanhou o crescimento da cidade. Filho caçula. Autodidata. Família recheada de ceramistas. Ofício de oleiro. Mestre artífice da Escola Liceu e também mestre/orientador, instrutor e professor. Comerciante. Responsável pela popularização das cerâmicas marajoaras. Arqueologia. Realiza trabalhos comunitários.

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História completa

P - Boa tarde, Seu Rosemiro

R - Boa tarde.

P - Para começar, eu queria que o senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

R - O meu nome completo é Rosemiro Pinheiro Pereira, nasci dia 16 de dezembro de 1936, o local do nascimento, foi nesta cidade que hoje se chama Icoaraci e, naquela época, chamava-se Vila do Pinheiro, então, aqui me criei e é aqui que eu vivo até hoje.

P - Pertence a Belém?

R - Isso, pertence a Belém, é um distrito de Belém. Quando eu nasci era dirigido por uma subprefeitura e hoje é um distrito.

P - O senhor se lembra dos seus pais?

R - O meu pai chamava-se Pedro Celestino Pereira, era descendente de um outro artesão que se chamava Marcos Jorge Pereira, e a data do nascimento do meu avô, que seria o Seu Marcos Jorge Pereira, eu não tenho, mas meu pai nasceu no dia 19 de maio de 1888, seis dias após a libertação dos escravos, da assinatura da Lei Áurea.

P - E a sua mãe?

R - A minha mãe chamava-se Apolônia Pinheiro Pereira, ela não nasceu aqui em Icoaraci, nasceu na cidade de Breves, na Ilha do Marajó.

P - E a avó, o senhor se lembra?

R - Eu conheci a minha avó paterna. Essa senhora me parecia que era de origem cigana, porque os trajes dela, a forma dela se vestir, a forma dela pentear os cabelos, tudo era semelhante aqos ciganos. Inclusive, ela usava aquela cabeça amarrada que as mulheres ciganas usam. Eu tenho uma ligeira impressão que ela era de origem cigana.

P - Qual era a atividade profissional dos seus pais?

R - A atividade profissional do meu pai, quando eu o conheci ele era pescador artesanal, era artesão, ceramista e era também tirador de leite de seringa, que se chama látex. Era também viajante, viajava pelos rios da Amazônia, então, isso era o que ele fazia. Tinha quatro opções para eu seguir, que seria: ceramista, pescador, tirador de látex da Amazônia e navegador dos rios da Amazônia. Então eu preferi ser ceramista.

P - O seu pai fez tudo isso?

R - Ele fazia em períodos, porque as leis do trabalho foram consolidadas a partir de 1950, então, até antes de 1950 não existia lei do trabalho consolidada no Brasil, cada um fazia aquilo que mandavam fazer, não existia salário mínimo, não existia nada disso nessa época, então, a partir do governo do Getúlio Vargas, de 1950 para cá, as leis foram consolidadas. Ele podia fazer uma coisa, podia fazer outra, podia fazer outra, era o mercado informal, não existia a formalidade do mercado nessa época. Por esse motivo ele trabalhava um período numa coisa, outro período em outra, outro período em outra, ele dependia muito da época, não vamos comparar com os dias de hoje. Hoje, o dólar sobe, todo mundo deixa de comprar dólar, o dólar abaixa, todo mundo compra o dólar, porque é um período que a pessoa aproveita a queda do dólar para comprar. Quando o dólar sobe o cara vende o dólar, então é a mesma coisa que naquela época: está dando bastante peixe, ele largava tudo e ia pescar. Não está dando peixe? Ele voltava novamente para outra atividade e assim seguia a vida dele.

P - E a sua mãe, o que fazia?

R - As prendas do lar. Acompanhava ele quando ia para o interior também. Nós vivemos bastante no interior aqui da redondeza, eu me criei uma boa parte da minha vida no interior, não tive estudo, eu me transformei em autodidata dentro da minha profissão e, também, ia lendo nos livros, aprendendo com os livros, lendo placa de rua e assim por diante. Foi assim que eu comecei a aprender a ler.

P - O senhor falou que umas das atividades que o seu pai tinha era tirar o leite da seringa. Mas em qual região que era isso?

R - Essa região toda tinha muita seringueira, porque, naquela época, aqui tudo era uma floresta. Quando eu nasci, só existia uma rua em Icoaraci, só uma rua Era a primeira rua, e uma outra rua, que era a Rua do Cruzeiro. Na medida em que o tempo foi passando, eles foram dividindo a cidade e foram abrindo as ruas, e também distribuindo os lotes para que as pessoas que vinham de outros lugares habitassem naquele local, que estava sendo construída uma nova cidade. Assim que é feito em todo o Brasil, então, Icoaraci, naquela época, foi delineada e padronizada. Ela tem sete ruas e nove travessas, as ruas todas com 20 metros de largura e as quadras todas com 198 metros em volta. 198 vezes quatro, assim que é Icoaraci todinha, desse jeito. Nessa época já existia o projeto, mas não tinha entrado em execução ainda, ele foi entrando em execução paulatinamente até chegar ao ponto que chegou hoje.

P - Quanto tempo de existência tem Icoaraci?

R - Icoaraci completou 139 anos agora este ano, dia 8 de outubro.

P - Então, vamos falar um pouco da sua infância. O senhor se lembra como era a sua casa quando o senhor era criança?

R - Ah, me lembro Era uma casa humildezinha, coberta de palhas, enxameada de barro O chão era batido de terra mesmo O banheiro era um buraco no quintal, o local de colocar os dejetos era um buraco no quintal.

P - E o senhor tinha muitos irmãos?

R - Por toda a nossa família, eram nove irmãos.

P - Nove?

R - Nove irmãos.

P - O senhor consegue fazer uma lista do maior para o menor?

R - A mais velha chamava-se Raimunda, depois da Raimunda, vinha o Pedro Celestino, que é o filho mais velho, depois, vinha a Maria de Lourdes, depois o Alvacir, depois a Natalina, depois o Maurício, depois o Raimundo e por último eu, caçula da família.

P - E como eram as brincadeiras?

R - Eu só tinha um irmão que era aproximado de mim na idade. Quando eu nasci eu já tinha dois ou três sobrinhos, que eram dos meus irmãos mais velhos e que já tinham família, então eram três sobrinhos que eu já tinha: dois por parte da irmã mais velha e um por parte do irmão mais velho. Esses sobrinhos serviram de colegas mesmo de brincadeiras, além disso, tinham primos também pequenos, e tinha um irmão, o único irmão, que se chamava Raimundo Pinheiro Pereira, que já faleceu também. Então, a gente tinha aquelas brincadeiras de criança, era pião, era peteca, era papagaio, era tomar banho no Igarapé, subir em árvore, correr e brincar de pira, essas coisas, que eram as brincadeiras da época. Eu sempre gostei de futebol.

P - O senhor falou que era uma região de floresta, o senhor chegou a pegar essa época?

R - Peguei, peguei, eu conheci tudo

P - E vocês brincavam na floresta, como era?

R - Eu brincava na floresta, brincava no campo de futebol, brincava na rua e assim por diante. Tomava banho na praia, tinha praia em Icoaraci, ainda tem até hoje. Tinha a praia e a gente ia tomar banho na praia, ia tomar banho no Igarapé, assim a gente vivia.

P - E vocês tinham quintal na casa também?

R - Tinha quintal.

P - E vocês plantavam alguma coisa no quintal?

R - No quintal tinha plantação. Todo quintal tem açaízeiro aqui na região, então tinha açaízeiro, tinha abacabeira, pequiazeiro, abacateiro, árvore de seringa também, seringueira, que dá o látex, e tinha muitas outras frutas, e assim por diante.

P - Vocês chagaram a ter animais? Tinham bichos diferentes aqui na região?

R - Cachorro, gato, e depois de muito tempo é que eu vim também a possuir boi. Eu criei uns cinco ou seis bois, por aí assim. Era para a minha atividade de trabalho. Tive também um cavalo, foram os animais que nós tivemos. Agora, quando eu era menino eu adorava criar gato, então eu saía pescando no Igarapé para pegar peixe para dar para os gatos se alimentarem. Era um esporte que eu tinha.

P - Quando o senhor era criança, como era o dia-a-dia na sua casa?

R - Sempre a gente tinha que ocupar o dia, fazendo mandado para a mãe para, outro para o pai, fazendo um trabalhozinho para cá, um outro trabalhozinho para lá. As crianças do interior começam muito cedo a vida profissional, elas começam a se desenvolver muito cedo, porque a escola, naquela época, era uma dificuldade para uma criança entrar. Nós ainda estávamos vindo das colônias, do Brasil Colônia, onde ninguém queria que estudassem, que ninguém aprendesse nada. Só quem aprendia eram os religiosos e os políticos. Aqueles que já tinham curso superior é que colocavam os filhos para estudar, mas a pobreza não estudava, a pobreza tinha que se criar mesmo trabalhando, eu vim dessa origem.

P - Quando o senhor era pequenininho não tinha uma escola aqui na região?

R - Eu acho que só tinha uma escola, e essa escola existe até hoje, foi fundada em 1901, e eu nasci em 1936. Só tinha essa escola pública, que hoje é Colégio Coronel Sarmento, é uma escola de primeiro e segundo grau. Nessa época era só primeiro grau. Que eu me lembre só tinha essa escola. A minha mãe nunca conseguiu me colocar nessa escola. Alguns dos irmãos estudaram, mas pouco. Hoje em dia, não Hoje em dia eu tenho sobrinha, uma sobrinha que é formada no nível superior. Eu tenho um sobrinho que é formado no nível superior. Eu tenho um filho que é oficial da Marinha. Eu tenho outro filho, esse filho que nós viemos do restaurante dele, que é formado no segundo grau e tem uns dois ou três níveis de advocacia. Quer dizer, hoje as coisas já mudaram. Eu tenho filha que é professora também.

P - Quando o senhor era criança e que não teve condições de entrar na escola, o que o senhor fazia nessa época?

R - A gente praticava os trabalhos, que eram tarefa de casa, que sempre tem uma tarefa em casa para fazer, vai ali, vai acolá.

P - Que tipo de tarefa o senhor fazia?

R - Por exemplo: “Vai lá no mercado comprar peixe. Vá lá no mercado comprar uma fruta. Vá lá no mercado comprar uma verdura”. Porque nessa época que eu me criei, também não existia feira de bairro, só existia o mercado central, então, tudo que a gente queria tinha que ir no mercado comprar. “Vai lá na taberna do português fulano de tal e vai comprar um quarto de açúcar, um quarto de café. Vai comprar um pão. Vai comprar uma bolacha.” Então, era tarefa, o que ainda hoje é feito pelas crianças. Hoje a mãe diz assim: “Vai pagar a luz. Vai pagar a água. Vai comprar um remédio na farmácia”. Isso é tarefa das crianças, e nessa época eu fazia as tarefas que eram da época. Sempre era um pouco longe da Berredos. Eu passei a morar na Berredos, nasci na primeira rua de Icoaraci, depois passei a viver na Berredos. Da Berredos para lá tinha, mais ou menos, um quilômetro e meio, isso a gente tinha que ir a pé.

P - E a arte da cerâmica já tinha nessa época que o senhor era criança?

R - Já A arte da cerâmica, aqui em Icoaraci, tem 380 anos. Belém foi fundada no dia 12 de janeiro de 1616, a partir de 1680 a cerâmica já chegou aqui e se estabeleceu em Icoaraci. O foco maior, o principal da cerâmica colonial, que é a cerâmica trazida pelos portugueses, foi aqui em Icoaraci que foi desenvolvida, e ela nunca parou até hoje, ela se desenvolveu.

P - O senhor disse que o seu pai já fazia. Ele aprendeu com quem?

R - O meu pai aprendeu com o pai dele. O pai dele eu não sei com quem aprendeu, mas eu sei que o meu pai aprendeu com o pai dele.

P - E o senhor aprendeu com quantos anos, mais ou menos?

R - Eu comecei a aprender, devia ter uns dez anos.

P - O que o senhor começou a fazer inicialmente?

R - Aquelas peças tortinhas, toda tortinha, eu não tinha força ainda para equilibrar, para centralizar um bolo no torno. Tinha dificuldade, como toda pessoa tem, tanto criança quanto adulto tem essa dificuldade, que aquilo depende muito da coordenação, mas como eu tinha muito tempo pela frente, então, eu praticava sempre, e devido a praticar sempre, eu fui aprendendo. Quando eu cheguei com 15 anos de idade eu já era praticamente um profissional, porque com 15 anos de idade eu já ocupava uma roda, que é aquela máquina que a gente produz. Eu já ocupava uma roda daquela e já trabalhava em produção, eu não produzia todas as peças, não produzia peças grandes, peças de diversos modelos, mas eu tinha uma linha de trabalho que eu fazia e ganhava dinheiro com aquilo.

P - Mas quando o seu pai começou a fazer e o senhor ainda era criança se fazia em casa mesmo ou tinha um lugar?

R - Não, a gente tinha uma pequena olaria, um pequeno barracãozinho aonde a gente fazia, e de lá, esse produto era todo levado para a Feira do Ver-o-Peso, era colocado lá na Feira do Ver-o-Peso. Tem uma história muito longa a respeito disso aí. Eu ainda comercializei muita cerâmica na Feira do Ver-o-Peso, no chamado Cais Quebrado, que era um cais de madeira que o governo mandou fazer, a erosão quebrou e ficou conhecido como Cais Quebrado durante muitos anos. A partir de 1970 é que refizeram o cais e agora, no ano de 97, eles reconstruíram da forma que está construído hoje. Quer dizer, aquele cais é recente. O mercado é antigo, mas o cais é recente.

P - E algum dos seus irmãos se envolveu também nessa atividade de cerâmica?

R - Dos nove irmãos foi assim: o meu irmão mais velho, que se chama Pedro Celestino Pereira Filho, seguiu a profissão do pai. Ele seguiu até as linhas que o pai trabalhava, navegou pelos rios da Amazônia, trabalhou como tirador de leite de seringa, trabalhou também como ceramista e trabalhou como pescador, só que meu pai tinha uma outra atividade que ele não gostava muito, que era a música. O meu pai também era músico, tocava muito bem o violão, cantava, tocava violão. Nessa época - eu não sei se lá por São Paulo se fala nisso - existiam as serenatas. Quando a pessoa ia cantar para a namorada que estava lá na casa, o camarada cantava lá na porta da casa dela para chamar a atenção, era uma mensagem de amor que a pessoa mandava. O meu pai era especialista nisso, tanto fazia isso para ele, como para os outros. Então, esse meu irmão, que era o mais velho, aprendeu a tocar violão, aprendeu a cantar, depois aprendeu a tocar saxofone Com isso ele entrou na polícia militar do estado e ele ficou até o fim da vida dele. Aliás, ele ainda vive, ficou até o fim das forças físicas dele, que ele podia enfrentar a vida trabalhando, ele ficou trabalhando lá na polícia militar do estado, como músico da banda da polícia, mas ele nunca abandonou a olaria dele, e nunca abandonou a canoa de pesca. Sempre que ele tinha a oportunidade, fazia as louças dele em casa e ia pescar. Até hoje ele tem canoa e tem rede, não vai mais para o mar, mas tem canoa, rede e tem a olaria até hoje montada. Esse foi o mais velho. Os demais irmãos, cada um foi seguindo um destino, quase todos eles foram trabalhar na indústria. Um outro irmão que eu tinha, que era mais velho que eu, entrou na polícia civil como motorista, passou um período lá, mas antes foi militar da aeronáutica. Depois ele passou para a polícia civil, trabalhou como motorista num período de, mais ou menos, quatro, cinco anos. Aí ele conseguiu comprar um carro de fazer frete de material de construção. Depois ele se tornou empresário de material de construção, se tornou um médio empresário, chegou a ter cinco carros de transporte de material de construção e, depois, perdeu tudo por causa da bebida. Se tornou um ébrio e perdeu tudo, morreu sem ter nada, só que deixou a família em boa situação. Enquanto que uma outra irmã minha, que era a irmã mais velha, a Raimunda, que faleceu ano passado, casou com um cidadão que também era ceramista. A família dela se desenvolveu como ceramista, então tem uma parte da descendência dela que é ceramista. O outro irmão do meu pai, chamado Raimundo Marques Pereira, que era irmão do meu pai, esse também se enredou pelo caminho da cerâmica, trabalhou com a cerâmica até morrer. Ele deixou um filho. O filho também caminhou no ramo da cerâmica e a família dele está no ramo até hoje, quer dizer, é uma família recheada de ceramistas, nós somos muitos ceramistas dentro da família.

P - Deixa eu voltar lá para casa do senhor. E os instrumentos de trabalho, onde seu pai arrumava para poder fazer a cerâmica?

R - Os instrumentos de trabalho da cerâmica são os mais rústicos possíveis. Na época, as ferramentas eram feitas de madeira, de pedaço de tábua. De qualquer palitinho se fazia um espeto, então, hoje essas madeiras foras substituídas por alumínio, por raio de bicicleta, por agulha de costura. São esses elementos que se usa na cerâmica. Nessa época era usado tudo, por exemplo, tecidos. Nessa época era usado muito aquele tecido de flanela. Era usado também o saco de sarrapilheira, a sarrapilha. A sarrapilha foi substituída hoje pelo saco plástico, aquele saco de amianto. Nessa época, a saca de sarrapilha era para cobrir o material. Lá na minha olaria tem muitos sacos plásticos, tem muitas peças embrulhadas com saco plástico. Hoje o plástico está substituindo a sarrapilha, são duas coisas que ele substitui: a sarrapilha e a folha da bananeira. Nessa época se usava muito a folha de bananeira, os instrumentos eram os mais rústicos possíveis.

P - E para que se usava essa folha que hoje o plástico substituiu?

R - É para conservar a matéria-prima, mantê-la úmida.

P - Mas e aquela roda, como fui criada?

R - Aquela roda ali tem uma história muito longa. Aquela roda foi criada cinco mil anos antes de Cristo. Ela foi criada numa cidade chamada Anatólia, na Ásia Menor. Eles criaram a roda, mas quando eles criaram, ela era movimentada por duas pessoas. Um movimentava a roda e o outro fazia a peça em cima. Já na Europa, depois de muitos anos, 500 anos depois de Cristo, eles fizeram uma modificação, criaram aquele espaço embaixo, que é chamado de saia, que a gente empurra com os pés e trabalha na cabeça dela. A roda é formada por três coisas: é formada pelo eixo central, pela saia e pela cabeça. Depois tem a bancada, tem o escora-pé, que a gente precisa escorar nela, e a movimentação com o pé. Hoje já tem até tornos elétricos. A roda é isso, foi criada em cinco mil antes de Cristo na cidade de Anatólia. Isso aí é histórico, tem nos livros de ciências.

P - Quando o senhor precisa de uma roda dessas como faz para conseguir?

R - É através dos carpinteiros. Na Bíblia diz que São José era carpinteiro, já existia isso bem antes de Cristo. Se você for ver as histórias antigas, daquelas cidades antigas, daqueles impérios antigos, já aparece o carpinteiro, aparece o oleiro, aparece o ferreiro, aparece o funileiro. Já existia tudo isso naquela época, então um ia auxiliando o outro, até que chegava o ponto em que a gente conseguia aquilo que a gente queria.

P - O senhor encomenda para o carpinteiro e ele sabe fazer, ele entende disso?

R - Têm muitos que não, têm muitos que não sabem, mas a gente desenha para ele e ele faz. A gente desenha e fala para ele: “Me corta essa peça com tantos centímetros”. Ele tem um metro, mede e corta em tantos centímetros. “O que que vou fazer aqui?” “Você fura aqui a tantos centímetros para cima, tantos para baixo, você dá um furo aí.” Ele dá um furo. “Aqui você corta essa outra, são verticais, outras horizontais, você vai até formar a roda.” Isso eu formo sempre quando eu vou trabalhar no interior. Constantemente a gente está fazendo roda no interior.

P - E o senhor instrui o carpinteiro?

R - Eu instruo o carpinteiro. Nesse caso não é o carpinteiro, é o moveleiro.

P - Eu queria que o senhor contasse um pouco como a gente chega na cerâmica pronta, desde quando a gente retira a argila, de onde vem esse material e como é feito para se chegar no que a gente está vendo.

R - A argila é um produto natural, é um produto da natureza. A natureza nos dá a argila, inclusive tem nos livros de ciências. Aqui nós temos livros de ciências, eu já estudei a ciência nessa parte, venho estudando há muitos anos, e tem alguns geólogos que dizem que a argila é o produto que mais existe em toda a crosta terrestre. Em qualquer lugar do mundo, se você cavar um buraco, você vai dar na argila. Em alguns lugares ela está superficial, em alguns lugares ela está subterrânea. Aqui, na nossa área, ela está superficial, então, como ela está superficial facilita a produção, a extração dela. Ela é extraída e conduzida para o beneficiamento. Depois é feito o beneficiamento através de uma máquina, e depois é seguido para que a gente faça a produção do trabalho.

P - O senhor vai buscar num determinado lugar essa argila?

R - Existe aqui em Icoaraci, uma associação de barreirenses, que são as pessoas que trabalham em busca da argila para vender para as olarias. Nós temos cerca de 20 a 30 pessoas que fazem esse trabalho e que vivem disso, sustenta a família dele fazendo esse tipo de atividade. Nós compramos deles e depois que a gente compra, entra no processamento de limpeza dela. Depois da limpeza, que é feita com arame, a gente dá até 300 cortes com o arame em seguida, em todas as posições: horizontal, vertical, diagonal. Corta de todo jeito para ir saindo as raízes. Depois que saem as raízes, a gente vai produzir a peça, mas antes de produzir a peça ela tem que entrar num processo que nós chamamos compactação ou solvação, que é bater a massa para expelir as bolhas de ar e também para ela ficar bem compacta. A partir dela estar compacta são feitos os bolos e a partir dos bolos é que se vai fazer a peça. Depois de feita a peça ela vai para repouso. Quando é peça feita de uma só vez ela vai para o repouso e, em seguida, ela vai para os trabalhos de pintura ou desenho, que tem duas formas de pintar: se pinta a peça antes de queimar e se pinta a peça depois de queimada. Por exemplo, essas daqui foram pintadas antes de queimar, mas nós devemos ter alguma aqui, ali para trás, aquelas ali de trás, que foram pintadas depois de queimadas. Quer dizer, há uma diferença entre uma relação e outra, são duas relações de trabalho diferentes. A pessoa vai optar se ele quer pintar para depois desenhar ou se ele quer primeiro desenhar para depois queimar a peça e pintar. O processo todo gira em torno disso. A peça, quando é produzida, ostenta no seu interior 35% de água. A matéria-prima, o barro mesmo, a argila é apenas 65%, 35% é água, então, esses 35% de água, tem que expelir todinho, e é por isso que se coloca no sol. Hoje na minha olaria, devido à necessidade que a gente está tendo de umas peças, estava colocando dentro do forno para cobrir o forno e fazer um calor para elas secarem até amanhã, porque amanhã tem que queimar. Então, tem que expelir essa água todinha que tem dentro dela. Depois que ela expele toda essa água, é feito o acabamento, um polimento. É dado um polimento para depois ir ao forno. A nossa queimação aqui é entre 800 e mil graus. A temperatura mínima é 800 e a máxima é mil graus. Mas têm pessoas que trabalham com 600 a 800 gaus também. Aqui na escola a nossa temperatura é 900 graus, porque é forno elétrico. Lá na olaria é forno a lenha, por isso que há uma variação de 200 graus, entre 800 e mil graus, entre 600 e 800 graus e entre 700 e 900. Numa fornada só a gente têm peças de 200 graus de diferença de uma para outra. Aqui no forno elétrico, não. No forno elétrico se queima a mil graus, ele queima 100% mil graus. Se queima a 900 graus é 100% novecentos graus. Então, esse produto se chama cerâmica. Antes de entrar no forno ele se chama peça de barro ou peça de argila; quando ele passa por esse processo existe uma transformação e uma mutação, essa mutação chama-se cerâmica. Com essa mutação, nós queremos explicar bem para aqueles que nos vão ouvir, que não existe na produção, existe na transformação barro-cerâmica, é uma transformação que acontece dentro do forno.

P - Então, são várias etapas de trabalho?

R - São várias etapas.

P - Qual é a primeira etapa?

R - Primeiro de tudo, eu vou lhe dizer que você tinha que se dispor de cinco anos para aprender, e você ia começar pela etapa mais fácil que tem. A etapa mais fácil que tem é o polimento, da brunição da peça. Essa é a etapa mais fácil, porque trabalha com a lixa de lixar parede, de lixar madeira. Depois trabalha com um pano molhado com água e, depois, com uma escova, ou com uma tela plástica, ou com uma flanela para polir a peça. Essa é a primeira etapa, é a mais fácil que tem, num dia só a pessoa aprende. Mas as etapas de produção de peças são as mais difíceis que tem, que é o levantamento da peça. Esse é o mais difícil, essa é uma etapa que a pessoa aprende em cinco anos.

P - Eu queria que o senhor contasse um pouco a própria origem, porque Icoaraci é uma referência em relação à cerâmica marajoara. Essa origem, esse nome, o senhor pode falar um pouco sobre isso?

R - Aqui em Icoaraci é o seguinte: nós temos aqui a cerâmica marajoara como adoção, porque a Ilha de Marajó, ela está distante de Belém cerca de 600 quilômetros. Essa área onde aconteceram os sítios arqueológicos, aonde viveu essa população, essa civilização que não existe mais. Há 500 anos no passado, há dois mil anos no passado, há quatro mil anos no passado, a História conta que foram cinco fases: Ananatuba, Mangueiras, Formiga, Marajoara e Aruã. Então, entre essas cinco fases houve uma diferença entre a primeira e a última de quase três mil anos, que eles habitaram a região de Marajó. Lá eles produziram a cerâmica, tiveram a oportunidade de produzir a cerâmica, porque era, naquela época, uma civilização muito adiantada. Com a colonização do Brasil, a partir de 1500 para cá, houve uma invasão das terras deles, dos índios, pelos colonizadores. Uma divisão de terra, que na realidade, as terras foram divididas, e com isso houve uma dizimação completa das tribos indígenas. Uns morreram, outros se fundiram, outros fugiram e a arte deles desapareceu. Ela veio a ressurgir em 1964, em Icoaraci, através do Antônio Farias Vieira, o Mestre Cabeludo, que foi o renascentista da arte marajoara, e depois, a partir daí muitas pessoas começaram a trabalhar com a arte. Mas a arte aqui em Icoaraci já existia há 300 anos, então ela veio incrementar o trabalho da cerâmica de Icoaraci, a cerâmica marajoara. Tanto que hoje se chama cerâmica marajoara para tudo quanto é peça, mas na realidade não é assim. A realidade é que tem cerâmica marajoara, tem cerâmica marajoara estilizada e tem cerâmica de Icoaraci com desenhos marajoara. Então, a maioria das cerâmicas que se vê aqui em Icoaraci são cerâmicas de arte icoaraciense com desenhos de influência marajoara, é lógico Mas nós já estamos a 600 quilômetros distantes da Ilha de Marajó.

P - Essa característica dos desenhos marajoara, qual é a particularidade desses desenhos para que eu possa reconhecer, como eu identifico?

R - Você pode reconhecer através das peças, no contexto geral das peças. Você pode reconhecer também através dos desenhos que têm na peça. Por exemplo, existem muitos tipos de desenhos que são marajoara, existem muitos que já são marajoara estilizados. Por que estilizado? Porque a pessoa que foi desenhar criou em cima daquele desenho com riscos, deu um risco que estilizou a peça. Não descaracterizou, estilizou.

P - E como é o desenho marajoara?

R - O desenho marajoara, é muito simples. Eles são uns desenhos bastante simples. As peças marajoara mais detalhadas que tem são os pratos. Os pratos, as bandejas marajoara são muito bem detalhados, assim como as tijelas marajoara também são muito bem detalhadas, mas a maioria das peças marajoara não são muito detalhadas. Aquela peça que está atrás de mim, aquela urna, é uma urna com influência marajoara, tem alguma coisa estilizada nela, mas as influências são, mais ou menos, parecidas com a marajoara, inclusive as cores que os marajoaras usavam eram preto, vermelho e branco.

P - E como se passa essa cultura para os mais jovens?

R - De geração para geração? Geralmente as pessoas aprendem nas oficinas, vão trabalhar nas oficinas como trabalhadores comuns e vão aprendendo. Tanto que em Icoaraci nós temos uma colônia muito forte de ceramistas que vieram do interior do estado. Hoje nós temos em Icoaraci, mais ou menos, umas 20 famílias tradicionais, mas nós temos umas outras 20, 30, 40, ou 50 que não são tradicionais, são pessoas que vieram de outros estados. Nós temos uma família de pernambucanos, aqui, que vieram há uns 20 ou 30 anos, que são todos ceramistas. Aprenderam aqui, hoje em dia são ceramistas. Nós temos pessoas que vieram aqui do interior, temos cearenses que são ceramistas e que aprenderam aqui com a gente, temos macapaenses. Eles aprenderam, vieram de lá para cá aprender, saíam muitos daqui para outros estados para trabalhar. Em todo o Brasil, tem oleiro paraense. Tem oleiros paraenses e estão trabalhando para lá, que aprenderam aqui e estão trabalhando para lá.

P - Seu Rosemiro, deixa só eu voltar um pouquinho na história do senhor. Então, o senhor aprendeu a trabalhar com a cerâmica quando o senhor tinha uns dez anos. Como foi isso?

R - Eu tive a oportunidade em casa, porque em casa era uma olaria. Eentão eu comecei a aprender, a praticar, como toda criança tem vontade de praticar. Meu pai me deu incentivo, e eu, através desse incentivo que ele me deu, fui continuando, aprendendo. Tem uma história que eu gosto de falar. É que nessa época em que eu estava aprendendo a fazer peças, eu fazia tijelinha, eu fazia alguidazinho, fazia peniquinho. Essas peças pequenas eu já fazia e tinha comércio para elas. O meu pai já vendia essas peças no Ver-o-Peso. Mas o meu pai, quando chegava o tempo de pesca, o tempo que dava muito peixe, ele abandonava tudo e ia pescar, e quando ele ia, levava a gente. Eu era menino, naquela altura tinha uns 12, 13 anos, e, numa certa ocasião, nós fomos pescar lá dentro do Rio da Vigia. É uma cidade chamada Vigia, a cidade mais velha aqui em Belém. É uma cidade boa, uma cidade, que é colônia de pescadores, que foi, cresceu e hoje é uma cidade grande. Então essa cidade é a primeira cidade que tem dentro do estado do Pará e que recebe as influências do Oceano Atlântico. Ela está a 30 quilômetros distante do Oceano Atlântico, da boca do Amazônas, onde o Amazônas desemboca. Então, nós, ao entrarmos no Rio da Vigia, a gente vinha do mar, entrava no Rio da Vigia e a nossa canoa naufragou. Nós perdemos tudo no naufrágio da canoa, só não perdemos a canoa e não perdemos a vida, porque outros colegas socorreram a gente, era dentro de um rio. Quando nós chegamos em Vigia, um certo cidadão chamou o meu pai e disse assim: “Pedro, eu acho melhor que tu convide um homem para trabalhar contigo, porque tu vai enfrentar esse mar com essas duas crianças, um dia vai acontecer da tua canoa naufragar no mar, onde não tem ninguém para te socorrer, teus filhos vão morrer e tu vai ficar com isso para o resto da tua vida, com esse arrependimento no teu pensamento, no teu sentimento. Então, eu acho melhor tu convidar um homem para trabalhar contigo”. Quando nós chegamos de lá, ele não quis mais que eu fosse com ele. Eu acho que foi devido a esse conselho que esse homem deu para ele. Quando ele voltou para pesca novamente, ele pegou e me deixou ficar trabalhando com um cunhado que eu tinha, que é o marido da minha irmã mais velha. Eu falei que já tinha sobrinhos, que eram oriundos da família dela. Ele tinha uma olaria e o meu pai me deixou com ele para dar continuidade à minha aprendizagem, e eu dei continuidade à aprendizagem com ele, com o meu cunhado, passei a ser, com pouco tempo, produtor mesmo, produzindo quantidade de peças, centenas de peças, milheiro de peças e assim por diante. Foi assim o meu princípio.

P - E os amigos? O senhor conseguia ter um grupo de amigos?

R - Eu tinha colegas na época, porque todo rapaz têm colegas, e eu tinha.

P - Eram ceramistas também?

R - Eu tinha muitos colegas, gostava muito de festas, gostava muito de jogar bola. Eu gostava muito de bicicleta, e ainda gosto até hoje, gostava muito de namorar, ainda gosto, ainda estou vivo (riso).

P - O foco aqui sempre foi a cerâmica? Tinha algum evento ligado à cerâmica, alguma festa em função da cerâmica, alguma coisa?

R - É uma das coisas que eu tenho vontade de fazer, porque Icoaraci tem 300 anos de cerâmica e nunca teve uma época determinada para cerâmica. Já tiveram alguns salões de cerâmica aqui, já tiveram uns dois ou três salões de cerâmica. Teve um aqui no Liceu, que foi efetuado, se não me engano, em 88. E já teve em outros locais de Icoaraci, já tiveram três salões. Teve um na Agência Distrital de Icoaraci, que é na prefeitura, teve outro na Praça da Matriz, e o terceiro aqui em Icoaraci, aqui no Liceu. Fora isso não teve outros eventos que agente considere assim: “Aconteceu o evento”. Tem os eventos permanentes, que são as lojas, a Feira do Paracuri Que são eventos permanentes. Mas eventos mesmo de cerâmica não tem, como o dia do ceramista, o dia da cerâmica, onde poderia acontecer uma feira de cerâmica, de ceramistas, como uma festa. “Vamos promover um festival de feijoada com peças de cerâmica. Ou um festival de açaí com peças de cerâmica.” A festa da cerâmica em Icoaraci poderia atrair pessoas de outros estados, mas até hoje ninguém nunca se imobilizou nessa parte.

P - O senhor falou que o senhor gostava muito de namorar. Como era esse namoro dessa época nessa região?

R - Eu acho que o namoro daquela época mudava um pouco do de hoje, porque hoje, o namoro está muito liberal, existe uma liberalidade. Ontem eu vinha passando e tinham dois meninos, mais ou menos com a idade de 12 anos, os dois. Quando eu vi eles se agarraram e se beijaram lá, e o pessoal estava passando e eles ficaram se beijando. Na minha época não acontecia assim, era diferente. Era diferente, porque geralmente os pais sempre privavam mais as filhas. Os filhos, não, sempre eram mais liberados, mas as filhas eram menos liberadas. Mas existia sempre aqueles pulinhos. A gente sempre dava um pulinho e com isso a gente conseguia levar vantagem.

P - Mas como foi que o senhor conheceu a sua esposa?

R - Ela morava perto da minha família, eram casas próximas. Inclusive, ela era também filha de ceramista. Na época eu tinha algumas namoradas, umas quatro ou cinco namoradas. Eu acho que isso é uma atração que existe na gente, que quando chega aquela época, eu acho que é o momento que tem da gente fazer a questão do casamento. Os animais são determinados, nós não somos determinados, a gente escolhe o período. O animal não, ele tem o período dele, o período é aquele, é aquela época que é de ano a ano, é de mês a mês, é de dois em dois anos, é de seis em seis meses, então tem essa época. Mas a pessoa não tem época, é qualquer época, desde que a pessoa esteja naquela idade, chegou aquele período, então não tem, não existe mais época. A questão do namoro, a questão sexual, um negócio que acontece sempre, não existe um período, um período eterno, é todo o tempo. É todo o tempo que a pessoa está com vontade e faz. Se tem com quem fazer, faz. Então, aconteceu assim, eu tinha umas namoradas, mas entre essas namoradas eu comecei a gostar da minha mulher e fiquei com ela.

P - Como é o nome dela?

R - Maria de Nazaré dos Santos Pereira.

P - Ela também gosta de cerâmica?

R - Ela é ceramista, é filha de ceramista e trabalha também. Agora, hoje ela não está trabalhando, que ela está doente.

P - Mas ela trabalha com o senhor?

R - Sim Mas ela passou a administrar também, depois que eu passei a trabalhar aqui na escola, ela passou a administrar os trabalhos lá, porque precisava administrar, e tinha a produção dela também, que tem até hoje, apesar dela estar doente. Ela têm os fergueses dela, para quem ela vende as cerâmicas.

P - Eu queria que o senhor contasse um pouco essa história de como o senhor montou a sua olaria. Como foi isso?

R - No princípio do ano de 1964 eu trabalhava com um cunhado meu chamado Antônio Costa, e um amigo. Esse amigo estava interessado em me ajudar a montar uma olaria, então nós compramos um barraco bem pequeno, bem pequenino mesmo e a partir dali, nós começamos a montar a olaria naquele local. Eu trabalhava muito, trabalhava 14, 15 horas por dia, às vezes, até 24 horas para conquistar recursos para montar a olaria. Com dez anos de trabalho eu estava com a olaria daquele tamanho, comecei sem capital, sem nenhum centavo no bolso, mas eu construí só com o trabalho.

P - Sozinho?

R - Com a família. Ainda estava criando os filhos, nove filhos Eu estava criando os filhos, mas consegui vencer

P - Mas os filhos do senhor trabalhavam na olaria?

R - Ainda eram pequenos, tinham um espaço de um ano, de um ano e meio, dois anos um para o outro. Todos eram pequenos.

P - Eram todos pequeneninhos, e como o senhor foi ensinando os seus filhos, o senhor os colova na roda?

R - Bom, nós demos a oportunidade para eles aprenderem. Não precisa a gente ensinar, é bom que se dê oportunidade, então eu dei oportunidade para eles e foram aprendendo, todo mundo aprendeu a trabalhar.

P - O senhor adquiriu a olaria, como foi o crescimento dela?

R - O crescimento dela foi lento, porque em dez anos eu consegui fazer aquela olaria.

P - Quantas pessoas trabalham? Quantas famílias estão envolvidas?

R - Eu já tive muitas pessoas trabalhando comigo, já cheguei a ter 40 pessoas trabalhando, e de lá eu vim reduzindo, reduzindo. Hoje em dia nós temos entre 20, 22 pessoas, entre a família e não família, a comunidade.

P - Tem muita gente da comunidade?

R - Muita gente da comunidade.

P - Eu ouvi uma história: tinham várias áreas ali que o senhor doou e que, hoje, são outras olarias ali nas proximidades, como foi isso?

R - Quando eu cheguei para tomar conta daquela área lá, ela era uma área absoluta, não tinha ninguém, então eu tomei conta de toda a área. Eu não era o dono da área, passei a tomar conta, passei a limpar. Tinha muita cobra lá, nós matamos nove cobras na limpeza do terreno, cobras bravas: surucucu, cascavel, jararaca. Então eu mandei fazer a limpeza, matamos nove cobras na limpeza, e eu fiquei tomando conta de toda aquela área, era uma área muito grande. Depois as pessoas foram chegando e queriam o local para fazer a sua casinha e tal, vinham e falavam comigo: “Faz a tua casa ali”. E eu: “Vá fazendo a sua casa”. Aí ficou reduzido o meu terreno. A partir dali eu não doei mais para ninguém, ficou só para a família.

P - Deixa eu voltar agora para a olaria do senhor. Quantas peças são produzidas por dia?

R - Nós produzimos uma quantidade de peças dependendo muito da demanda que tem. Porque, às vezes, a gente tem uma demanda de pedidos grande e, às vezes, a gente tem uma demanda de pedidos pequenos, então, isso depende da época. Quando é inverno aqui, no sul é verão, então, nós temos lá no sul fregueses que compram da gente. Nessa época eles pedem muito a cerâmica e a gente manda para lá. Final de ano a gente tem um comércio que abastece: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Bahia, Goiânia, Brasília, e assim por diante. A gente vai produzindo e vai mandando para lá a cerâmica, tem época que pára, não tem pedido de lugar nenhum Quando não tem pedido de lugar nenhum a gente vai produzindo menos. Mas entre a capacidade máxima de produção e a mínima, eu posso garantir para vocês que a capacidade máxima de produção é cinco mil peças mês, e a capacidade mínima é aquela que a gente quer fazer.

P - Tem mercado externo?

R - Em algumas ocasiões, sim Nós já trabalhamos, já vendemos para diversos países: Portugal, Argentina, Paraguai, Uruguai. Já vendemos para os Estados Unidos, para o México. Eu já vendi até para o Egito e para Israel, já vendi para Beirute, para a Alemanha.

P - E como é esse acesso? Como eles têm contato com o trabalho do senhor para poder fazer essas encomendas?

R - Geralmente as pessoas que vêm, é através de outra pessoa, normalmente são pessoas que conhecem a gente. Por exemplo, na cidade de Belém tem uma casa chamada Casa das Noivas. A Casa das Noivas é de uma família israelense, a família deles mora em Israel e eles moram aqui em Belém. Uma parte da família mora para lá e uma parte mora para cá. Essa parte que mora aqui em Belém conheceu o nosso produto, alguém veio de lá visitar aqui e eles trouxeram para conhecer o nosso produto, se interessaram e compraram um container de mercadoria para levar para Israel. Em Beitute aconteceu a mesma coisa. Uma pessoa que mora em São Paulo veio de lá de Beirute para São Paulo, de São Paulo veio a Belém, conheceu a gente e também encomendou e comprou um outro container. Para os Estados Unidos, foi uma pessoa daqui de Belém que levou para vender lá outro container. Para a Alemanha, pessoas que vêm da Alemanha, que têm parentes aqui. Intercâmbio familiar é mundial. Você está aqui, mas você tem parentes sabe-se lá por onde É como eu, que estou aqui, mas tenho parentes sei lá por onde, conhecidos, amigos e pessoas que já me conheceram. Então, uma dessas pessoas diz um dia: “Eu vou lá em Icoaraci, vou conhecer como está Icoaraci”. Vem aqui e se interessa, aí leva o nosso endereço, a gente começa a intercambiar, não demora, eles fazem uma compra.

P - Quais são as peças que são mais pedidas?

R - A peça que mais se vende aqui hoje e, que sempre se vendeu, é o conjunto de feijoada. O conjunto de feijoada é composto de 43 peças, que é para servir feijoada. Inclusive nós comemos feijão servido em peça de cerâmica lá no Pará Pai D’Égua. Pois é, no Restaurante Pará Pai D’Égua, que é da família, tem peça de cerâmica.

P - O senhor já foi apresentar as peças em outros lugares, viajou pelo país?

R - Já viajei muito pelo país, quase todas as cidades, as capitais do sul, do sudeste e do centro-oeste, algumas das capitais do nordeste. No norte somente Macapá e Belém, que é a minha cidade. Agora, eu já estive na Argentina fazendo exposição de cerâmica e já estive em Santiago do Chile fazendo também exposição lá. Em Santiago eu passei 19 dias, e na Argentina, numa cidade chamada Córdoba, eu passei quatro dias.

P - Nessa experiência toda que o senhor teve, o senhor se lembra de ter acontecido alguma coisa, um caso curioso?

R - Anormal, não. Sempre normal.

P - Um comentário?

R - Em Santiago do Chile, eu estive sob responsabilidade, porque lá nós fomos representando o estado do Pará, e representando o Brasil. Nós fomos em cinco estados brasileiros, com as bandeiras dos estados e a bandeira central do Brasil. Então, nós representávamos o Brasil. Foi Pará, Maranhão, Piauí, Alagoas e Pernambuco. Lá nós representávamos o Brasil, o pavilhão brasileiro, estávamos embaixo da bandeira do Brasil e as nossas bandeiras em volta da bandeira do Brasil. Lá nós tivemos curiosidade de pessoas que gostavam da cerâmica e pessoas que não gostavam da cerâmica, e o fato mais curioso, e que eu gosto de contar, é que chegou um casal de chilenos lá e a esposa, quando botou o olho em cima do conjunto de feijoada, disse: “Eu quero esse”. Perguntou o que era, eu disse para ela, ela pegou e disse: “Eu quero, quanto custa?”. Eu disse quanto custava e ela disse: “Eu quero”., Aí o marido dela olhou para ela, olhou para mim e perguntou se ela queria: “Você quer comprar?”. Ela disse que queria, aí, ele pegou e perguntou para mim: “Isso é de greda?”. Greda é barro na língua deles. Eu disse: “É greda”. Aí ele pegou e falou assim: “Não, não compra, rompe fácil. Rompe fácil e quebra fácil”. Aí eu peguei e falei: “Não, não rompe fácil, não quebra fácil”. Ele disse: “Não, quebra fácil”. Eu peguei as combucas de feijoada, 12 combucas, coloquei todinhas de boca para baixo e saí andando por cima delas de ponta a ponta. Depois eu saí, entreguei na mão dele e mandei que ele conferisse. Aí ele conferiu e comprou o conjunto.

P - Eu vou fazer uma pergunta meio besta. Qual é o segredo para ser um bom oleiro?

R - Eu acho que para ser um bom oleiro tem que se ter conhecimentos da matéria-prima, tem que ter conhecimento do mercado. Para ser um bom oleiro tem que ter conhecimento de todo o segmento da olaria, porque tem oleiros proprietários e tem oleiros empregados, prestadores de serviço. Então há uma diferença entre o oleiro proprietário e o oleiro prestador de serviço. Geralmente o oleiro que é proprietário, faz o serviço dele mais bem acabado. O oleiro é prestador de serviço, ele quer saber de fazer a peça, quanto mais rápido ele fizer, para ele é melhor, porque ele está ganhando pela produção dele. Então ele tem que ser atencioso, ele tem que ser cuidadoso, tem que ter uma coordenação perfeita no corpo dele, porque senão as peças vão sair tortas, ele tem que saber formar uma peça, com uma leveza natural, não pode ser uma leveza muito acentuada e também não pode ser uma leveza muito baixa, porque senão a peça fica muito grosseira, fica muito grossa. Se a leveza for alta, a peça fica fina demais, aí quebra com maior facilidade. Então geralmente o oleiro tem que ter uma coordenação boa, porque a coordenação motora do corpo dele é que vai ajudar a fazer a peça do jeito que ela precisa fazer. Então isso tudo a gente aprende com o passar do tempo. Para ele ser um bom oleiro tem que ser dessa forma. Isso eu estou falando em termos de produção, e não em termos pessoais, a pessoa é outra coisa. A pessoa seria a forma de tratar, a forma de se atuar, seria uma outra coisa diferente.

P - E essa leveza seria o quê? O que é essa leveza?

R - É o peso da peça, porque o peso é de acordo com a espessura da peça. Se eu tenho uma peça com uma leveza acentuada, uma leveza altíssima, então ela está com uma espessura muito lenta, é pequena a espessura para ela se tornar grande e leve. Se ela está pequena e pesada, ela está com uma leveza muito baixa, ela está com um peso muito alto, a peça está grosseira, deveria crescer mais e cresceu menos do que deveria. Uma outra coisa é que a peça tem que ser distribuída em toda ela. A espessura dela tem que ser distribuída 100% na peça, não em 10%, ou 5%, ou 20% da peça, ela tem que ser distribuída a 100%. É do momento da base até no alto, na parte final dela, ela tem que ter normalmente a mesma espessura, sendo que a espessura de cima, da borda dela, sempre deve ser um pouco maior do que a espessura do corpo dela, porque a parte mais fragilizada é a borda.

P - E como se consegue controlar a espessura, a parte interna?

R - Isso é com a coordenação da pessoa e também, além da coordenação existe uma outra coisa, que é o controle que a pessoa vai exercer em cima da dureza da matéria-prima, porque a dureza da matéria-prima é controlada por aquilo que eu falei no princípio, a questão da água, por exemplo. Se você trabalha com 35% de água na matéria-prima, a matéria-prima está boa, está sólida; se você vai trabalhar com 40% de água na matéria-prima, a matéria-prima está mole, está encharcada, nós chamamos encharcada, que ela está muito enxaguada, tem muita água dentro dela. Então, se você vai trabalhar com 30% de água, ela já está muito seca, as peças já não sobem direito, largam pedaços na mão da gente, ela racha com facilidade, então, tem que ter aquele ponto ideal, então, o oleiro, quando vai fazer a peça, normalmente ele tem que saber o ponto da argila, isso é o ponto que a argila tem.

P - O senhor falou que também faz trabalhos comunitários. O que são esses trabalhos comunitários?

R - Trabalhos comunitários são aqueles que a gente trabalha para o círculo da nossa comunidade. Por exemplo, a semana passada eu reuni, aqui no Liceu, cerca de 200 a 250 pessoas no auditório daqui da escola, para tratar de um assunto sobre questão de moradia. As pessoas estão precisando melhorar as suas moradias, então, eu intercambiei com a COHAB [Companhia Metropolitana de Habitação], consegui trazer uma gente da Cohab aqui para eles darem explicações para pessoas do que significa a Cohab e como se pode chegar junto para se obter reparos na sua casa, ou a casa própria, ou se obter um terreno e assim por diante. Então, esses são exemplos do tipo de serviços comunitários que eu faço. Um outro serviço comunitário que eu faço constantemente é adquirir pedidos de peças junto ao Banco do Brasil e distribuir com a minha comunidade. Isso aí eu faço há muitos anos. Nós já vendemos cerca de 20 mil peças para o Banco do Brasil. Ele falou há pouco, não foi gravado, mas ele falou Então, essas 20 mil peças, todas elas passaram pelo meu trabalho comunitário, que eu trago para cá, para dentro da minha comunidade. Então, são os trabalhos comunitários que eu faço. Isso é, passando rapidamente em cima de apenas dois trabalhos comunitários que eu fiz. Fora esses tem inúmeros trabalhos comunitários que eu faço.

P - Mas a relação do senhor com essa escola aqui, como apareceu?

R - É boa, é ótima a relação Eu tenho uma relação com a escola tão boa, que nós estamos aqui dentro, não tem ninguém perturbando a gente aqui graças à influência que eu tenho com a escola.

P - Mas qual é a história desse Liceu, como essa cerâmica veio parar aqui?

R - Se você quiser saber da história dele, tem uma parte dele colocada ali na parede, tem um folder lá que tem uma parte da história dele, da história do Liceu. Foi uma escola construída para a orientação e ensinamento dos filhos dos artesãos, para que os filhos dos artesãos pudessem ter facilidade de estudar o pedagógico e, também, fazer as oficinas, porque eu falei para vocês que quando eu era menino eu tive dificuldade de entrar na escola, e hoje em dia, não, tem a escola aqui que pode sevir à comunidade, não só para os filhos dos artesãos, como para a comunidade de modo geral.

P - Mas a partir de que ano o senhor passou a atuar aqui no Liceu?

R - A partir de 1996, foi quando a escola foi inaugurada. Para entrar aqui na escola eu tive que fazer dois cursos de capacitação: um para trabalhar com as crianças, e outro para trabalhar com a parte prática, que eu já conhecia. Isso foi dado por uma professora que veio de São Paulo e outra que veio do Rio de Janeiro. Elas que deram esses cursos aqui. Eu sou capacitado e tenho o certificado que foi dado pela escola na época. E aí aconteceu assim: 28 pessoas se candidataram para ser mestre da escola. Eu, a essas alturas, era só autodidata, eu não tinha nenhum título de escolaridade, só era autodidata, e eu concorri aqui com pessoas que tinham o nível superior, pessoas que tinham o segundo grau e pessoas que tinham o primeiro grau, e eu tirei o primeiro lugar de todos os 28. Deve ter algum documento aí na escola que diz isso.

P - E como foi a partir daí?

R - Eu ingressei na escola para trabalhar, e a partir daí, eu fiquei trabalhando com crianças. Eu trabalho com crianças de cinco, seis anos, e trabalho com sexta série. Eu trabalho dois dias com sexta série, dois dias com crianças de cinco, seis anos, e trabalho um dia com a comunidade, pessoas de 11 anos, que eu considero para entrar na minha oficina a partir de 11 anos até 60 anos, 70 que queira.

P - E nesse tempo todo que o senhor tem trabalhado com essas pessoas, tem ensinado esse trabalho, o senhor se lembra de alguma história, um caso?

R - São muitas histórias, mas histórias boas. Eu acho que dentro da minha oficina nunca houve um fato a lamentar, nunca aconteceu um incidente dentro da oficina, nunca Não teve um incidente Às vezes acontece: bate um dedo, quebra um dedo, ou fere uma parte do coro, mas lá nunca Nunca aconteceu briga, atrito, desentendimento.

P - E coisas boas que o senhor lembra?

R - Não tem sido bom na parte produtiva, porque eu queria que um dia um mestre dissesse assim: ”O meu mestre foi o Seu Rosemiro lá do Liceu”. Eu ainda não tenho o privilégio de dizer isso, um dia eu quero chegar a ouvir isso. Na minha oficina, eu já formei 28 mestres, que estão espalhados. Eu tenho mestres até no exterior, que aprenderam comigo e que estão no exterior. Nós temos no Amapá, no Amazonas, em Brasília e Goiás. É onde tem a maior quantidade, no estado de Brasília e Goiás, os dois centros ali, o centro-oeste brasileiro. E temos em São Paulo, também tem no Rio de Janeiro, e tem também um filho meu em Santa Catarina, que aprendeu com a gente, que saiu de lá da nossa olaria. Tem muitos aqui em Icoaraci que aprenderam desses 28 e que são proprietários - eu me orgulho muito disso - de oficinas, criaram as famílias deles. Tem gente que já tem filho formado, que aprendeu comigo e hoje em dia o filho já se formou em universidade.

P - E como é que uma pessoa chega até essa denominação “mestre”? Qual é o significado disso?

R - Anteontem eu fui lá no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Eu fui pegar lá um cadastro do mestre artíficie, que é para eu me cadastrar nesse cadastro, para mandar para Brasília para eles me mandarem um título de mestre de ofício, porque não existe nas universidades. Pelo menos aqui não existe uma universidade que dê esse título para a pessoa, de mestre. Existem uns quesitos para o mestre, entre os quesitos que existem é ele ter 25 anos de atividade, existe o quesito dele conhecer o processo que ele faz, como é feito, existe o quesito dele conhecer a família dele, saber de onde veio. As origens da família, existe o quesito de como ele deve reaproveitar a matéria-prima que ele trabalha. São vários quesitos, talvez uns 20 ou 30. Eu já preenchi uma ficha uma vez, mas não deu em nada, que seria encaminhado para Universidade Federal do Pará, para ela estudar e, logo adiante, ela passar para a gente os títulos de mestre oficineiro. Agora, eu consegui a ficha e eu vou mandar para Brasília, para depois eles me certificarem, para eles me darem o certificado. Eu sou mestre, mas entre aspas, informalmente.

P - Como é reaproveitada a matéria-prima?

R - Essas peças aqui secam, muitas vezes, por uma avaria qualquer. Cai uma chuva dentro e estraga uma peça, ou alguém vai passando correndo, bate e quebra a peça, então, aquela matéria-prima é colocada dentro de um tanque, é recolocada água em cima dela, ela vai absorver aquela água e ser hidratada novamente. Quando ela se hidrata, ela volta a ser matéria-prima outra vez, assim que é reaproveitada. Aí ela vai ter que passar pelo processo de “amassação” de novo, amassar tudinho para compactar a massa e para evitar que tenha no meio caroços, barro seco. Tudo isso tem que ser feito, é o processo para o reaproveitamento da matéria-prima.

P - Como apareceu o Banco do Brasil nessa história?

R - Eu sou cliente do Banco do Brasil desde 1985, que foi quando foi aberta a agência aqui. Foi aberta em 84, e em 85 eu abri a minha conta. A minha é menos de mil, hoje em dia têm 40 e tantos mil correntistas. Mas na época, a minha conta era antes de mil, minha conta era o número 850, do Banco. No dia que eles completaram mil contas aqui no banco, na agência fizeram uma festa, completaram mil clientes, o cliente mil, que para eles era uma meta alcançar mil. Hoje em dia está com mais de 40 mil, não tem mais meta, hoje em dia o pessoal vai abrindo conta todo dia. Naquela época era restrito, as pessoas que iam no banco abrir conta, então, a minha foi a 850. Mais adiante, uns dois, talvez uns meses depois eles abriram a conta mil. Nesse dia, como eu estou dizendo, houve uma festa lá e comemoraram. Os que chagaram lá tomaram refrigerante, comeram bolo e assim por diante. Então, a minha relação começou por aí, mas nós tivemos um gerente aqui do banco, que foi um gerente chamado Antônio, que conheceu um outro Antônio chamado Antônio Farias Vieira, o Cabeludo, que foi o renascentista da cerâmica marajoara aqui na região. Então, por intermédio do Antônio Cabeludo, ele abriu uma linha de crédito para o artesão. Essa linha de crédito era equivalente a 500 reais hoje. Aí o artesão começou a ir lá no banco, começou a tirar dinheiro, a emprestar dinheiro, a pegar dinheiro, mas houve umas inadimplências, e devido a essas inadimplências, ele fechou a linha, e essa linha ficou fechada. O tempo foi passando, passando, e a linha ficou fechada. Alguns artesãos ficaram devendo para o Banco, outros conseguiram pagar. Eu consegui pagar, depois, ainda outros pagaram conta de outros, como eu ainda paguei a conta de um colega. Fui lá com ele, negociamos e pagamos a conta a juros zero, quer dizer, depois que dispensou todos os juros nós pagamos. Eu paguei a metade e ele pagou a outra metade da conta, para limpar o nome dele e limpar o meu nome também, que estava sujo, que eu era o fiador dele. O sistema era o sistema que hoje é usado no governo, é comunitário, então um avalizava o outro. Eu era avalista dele, ele era meu e assim por diante. Mas a partir de 1993 tinha uma gerente aqui no Banco chamada Doutora Léia Caruso, que está em São José dos Campos, em São Paulo. Ela me conheceu no Banco conversou comigo lá. Depois que eu conversei com ela, quando foi um dia, eu chego na minha olaria e encontro aquela senhora. Eu olhei para ela e disse: “Parece que eu conheço essa senhora. Eu acho que eu já vi ela um dia”. Aí, eu cheguei, dei boa tarde para ela e perguntei se ela estava interessada em alguma coisa, ela disse: “Eu estou interessada. Eu estou interessada em conversar com o senhor”. Eu disse: “É”, ela disse: “É. O senhor está lembrado de mim?”. Eu olhei para ela e disse: “Eu me lembro que já lhe vi em algum lugar”. “Eu sou a Léia, sou gerente do Banco do Brasil aqui de Icoaraci, vim conversar com o senhor.” “Que bom Então vamos sentar, vamos conversar.” Aí começamos a conversar, ela começou a me contar a história e tal, que estava começando a surgir a estratégia bancária DRS [Desenvolvimento Regional Sustentável] e que eles estavam interessados em fazer aqui em Icoaraci uma linha, abrir uma linha de assistência para um dos segmentos de Icoaraci, então, tinham três segmentos, e que eles podiam pegar um dos três para abrir essa linha, que seria a linha de restaurante, a área do turismo, e seria a cerâmica. Mas como ela já tinha lido a história da cerâmica, sabia que a cerâmica aqui era muito antiga, então ela ia preferir trabalhar com os ceramistas. Ela pegou e falou para mim assim: “O senhor está interessado? Só que tem um detalhe, eu não posso trabalhar só com o senhor, eu tenho que trabalhar com todos os seus associados”. Eu era presidente de uma entidade, peguei e falei: “Não tem problema, eu vou reunir o pessoal e dessa reunião surgirá uma outra reunião”. Aí eu reuni o pessoal e passei para eles o que ela queria e, depois, nós nos reunimos aqui no auditório do Liceu, que tudo que acontece aqui é no auditório, realizamos aqui uma reunião com mais ou menos umas 150 pessoas, de associados das entidades que ficaram interessados no programa. Então a partir daí nós começamos a trabalhar, a reunir e o DRS, na realidade, veio com umas propostas aqui para Icoaraci. As primeiras propostas, no primeiro momento seria congregar a comunidade. Como congregaria a comunidade? Através das entidades, depois, congregar as entidades com a agência distrital de Icoaraci; depois, com o SEBRAE [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], com o SETEPS [Secretaria Executiva do Trabalho e Promoção Social], que é um órgão do governo do estado, e aí foi se formando essa cadeia, e a partir daí surgiram as necessidades. Quais foram as maiores necessidades? As maiores necessidades que nós temos, é a questão da infra-estrutura do bairro, o bairro está com uma infra-estrutura abalada. Isso aqui era só lama. Aquela rua que vocês foram, era só lama, a Rua Soledade era só lama e assim por diante. A iluminação era precária, não era boa. Então, nós começamos a fazer essa corrente forte entre a agência distrital de Icoaraci, o Banco do Brasil e as associações: SEBRAE, SETEPS, a Belemtur, tudo isso fez parte do grupo. Então, começamos através das reuniões que a gente processava, começamos a atacar as necessidades, então, se fazia uma ata: “Qual é a necessidade que nós vamos atacar?”. “Vamos atacar a necessidade da infra-estrutura.” Aí encaminhamos os ofícios para a SESAN [Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional] através da prefeitura, pedindo o melhoramento na infra-estrutura do bairro, que o bairro estava com uma estrutura precária. Fomos atendidos Então, linha de crédito, capacitação através do SEBRAE, curso de design. Cada órgão, cada entidade, na realidade, entrava com aquilo que podia fazer. Então o SEBRAE entrou com os cursos de capacitação, cursos sobre comercialização, sobre design, quer dizer, vários cursos foram realizados pelo SEBRAE para a comunidade de oleiros. Então, a agência distrital de Icoaraci fez a infra-estrutura, entrou com a iluminação pública e assim por diante. A parte que cabia ao Banco do Brasil seria exatamente a questão financeira, que seria o melhoramento da infra-estrutura das lojas e também dos estabelecimentos de produção, então com isso o Banco do Brasil fez uma encomenda para nós que chegou a 20 mil peças. Essas 20 mil peças nós vendemos para o Banco do Brasil de Brasília para São Paulo e distribuído para todo o Brasil. Isso trouxe um lucro acentuado no ano de 95 para todos os artesãos de Icoaraci, de toda a comunidade. Eu fico orgulhoso de dizer isso: eu trabalhei muito para conseguir tudo isso, mas consegui para nossa comunidade Com isso cada órgão foi trabalhando dentro daquilo que era a necessidade da classe de artesãos. O Liceu também entrou nessa parte, cedia os espaços para a gente se reunir. A agência distrital cedia espaço, o SEBRAE cedia o espaço dele ali, mais adiante tem um espaço bom e ele cedia, e nós fomos nos reunindo a cada tempo. Teve curso que o SEBRAE deu que demorou dois anos, que era um curso sobre comércio, então foi muito demorado, muita gente fez e desistiu pelo meio do caminho. Eu fui um que desistiu, mas outros chegaram até o final. Então ao Banco do Brasil cabia a responsabilidade da questão financeira, porque os outros entravam com a infra-estrutura ou capacitação, o Banco do Brasil teria que entrar com os recursos financeiros, entrou com muito recurso financeiro. Ele entrou com o recurso financeiro para melhorar alguns estabelecimentos, inclusive o meu estabelecimento, que eu melhorei também. Só que eu tenho uma queixa para fazer so Banco do Brasil: quando nós recebemos o DRS aqui, nós tivemos propostas e essas propostas não chegaram a nós. É verdade que as portas foram abertas, nós tivemos acesso, temos acesso até hoje no Banco, mas nós não conseguimos receber aquilo que o Banco propunha, que era: a gente fazia um projeto dentro daquilo que a gente precisava e o Banco do Brasil analisava e financiava. O pagamento disso poderia chegar até 48 meses, os juros seriam 1,5% ao mês. Uma outra parte seria o seguinte: se, por exemplo, você não quisesse fazer um orçamento para o melhoramento do seu estabelecimento comercial, então, você poderia fazer na parte do seu comércio, melhorar o seu comércio, as vendas, vender mais, produzir mais, melhorar a sua própria residência também, que tinha uma parte também que cabia essa parte aí, para melhoramentos da residência da pessoa. Não adianta ter uma loja bonita e ter uma casa caindo aos pedaços, então, o Banco também se propunha, nessa ocasião, a ajudar a fazer o melhoramento nas residências. Isso aí foi feito através de empréstimos. Muita gente, naquela época, emprestou. Eu vou falar por mim. Nessa época, o Banco do Brasil colocou à minha disposição 15 mil reais, que eu teria o direito de usar aqueles 15 mil reais para material de construção, fazer um turismo, comprar um veículo, comprar um computador. Seria para isso: comprar matéria-prima, capital de giro. Eu poderia usar esse dinheiro para isso, mas eu não usei, usei apenas três mil reais de tudo isso que o Banco colocou à minha disposição. Eles colocaram cinco mil, quatro mil, três mil, dependendo do tipo de negócio que a pessoa tinha. Cada caso é um caso e, então, quando nós percebemos que, na realidade, a proposta do Banco era uma, mas a realidade era outra. Nós estávamos absorvendo produtos de prateleira do Banco do Brasil, aquilo que o Banco do Brasil tem para todo mundo, para qualquer pessoa, quer dizer, os juros de comércio, os juros de mercado. Eu até hoje tenho uma pendência no Banco do Brasil, nós estamos pagando, todo mês, 150, 200 reais de juros. Se realmente a proposta fosse aquela que foi feita para nós, então a gente estaria muito mais adiantado do que nós estamos hoje. Eu não reclamo, acho bom, porque se não fosse eu não tinha feito o que eu fiz, eu não tinha condições de fazer o que eu fiz. Muitos falam bem do Banco do Brasil, como eu falo. Eu acho que foi uma porta que se abriu para nós, só que teve esse detalhe, que foi um detalhe negativo até hoje. Eu, inclusive, estive em Brasília numa reunião com o Presidente do Banco do Brasil, o [Antônio Francisco de Lima Neto], e falei para ele: “Doutor, nós precisamos que a linha de crédito que foi oferecida para os artesãos de Icoaraci, chegue até lá, porque o artesão está interessado na linha de crédito, mas com os juros da forma que estão processados, nós não podemos agüentar, os juros são muito altos, são juros de comércio, para quem já está estabelecido. Nós não estamos estabelecidos, somos uma comunidade carente, e uma comunidade carente não pode entrar num tipo de mercado desse jeito”. O resultado é que a linha de crédito foi aberta para todos nós, para todos aqueles que se interessaram: da cooperativa, da Soamir [Sociedade Amigos de Icoaraci], do Cosapa [Conselho Superior do Artesão do Pará], que foi quem mais usou a linha de crédito, a associação à qual eu pertenço. Fomos mais ou menos, uns 20 a 30 associados que pleitearam e conseguiram o dinheiro. Inclusive, alguns tiveram uma linha de crédito muito baixa, um limite de 200, 300 reais, mas mesmo assim, ficaram satisfeitos com a importância pequena que colocaram como linha de crédito para eles, que era abertura de crédito, então mais adiante o camarada ia movimentando a conta, e mais adiante ia chegando mais dinheiro, dependia da credibilidade que o Banco desse, e dependia da responsabilidade de cada pessoa. Então, eu retirei cerca de três mil reais, e até hoje não completei o pagamento, estou pagando todo mês os juros, pago os juros e fica sempre pendurada uma importância lá para eu pagar no outro mês. Quando eu posso eu deixo 200 reais, 300 reais na conta e assim por diante. O Banco do Brasil ajudou muito a gente, principalmente na questão das vendas, nos colocou no site deles do comércio internacional, tem gente que já vendeu através da linha de crédito do Banco do Brasil. Eu nunca vendi, porque eu não tenho computador, eu não opero com o computador, opero só com a mão mesmo, com os dedos, mas os dedos são para tocar no dinheiro da pessoa, quando é dinheiro e assim por diante. Então, eu acho que eu tenho que dizer: os 200 anos do Banco do Brasil, que sejam comemorados no mundo todo, porque na realidade, o Banco veio para favorecer os mais desfavorecidos, e também para favorecer os favorecidos, aquelas pessoas, como diz o ditado: “Dinheiro, só ganha quem tem dinheiro, quem não tem dinheiro, não ganha”. Então, quem tem dinheiro, ganha dinheiro, porque vai lá e o camarada serve, o gerente do banco abre as portas para ele e ele tira um crédito alto. Eu tenho uma amiga que vai lá no banco pegar 20 mil reais no dia de sexta-feira. Agora, a conta dela tem uma linha de crédito com um movimento bom. Se eu for lá sexta-feira e pedir 500 reais, é difícil eu conseguir. Para mim é mais difícil que outro colega qualquer. O que a gente pede hoje, por exemplo, para comemorar esses 200 anos do Banco do Brasil, é que essa linha de crédito do DRS, quando foi aberta, foi para o pequeno agricultor familiar, para a pesca também, mas para o artesão ela não teve uma adaptação, então se ela pudesse ter essa adaptação, porque o artesão também precisa movimentar mais um pouquinho de dinheiro, mas como ele pode movimentar mais um pouco se os juros são muito altos? Então, o banco do governo do estado oferece o mesmo crédito com os juros de 1,5% ao mês, o banco da prefeitura também oferece uma linha de crédito bem mais baixa, mas com um volume de pagamento de juros de 1,5% ao mês, mulheres solteiras, até 1% ao mês. O artesão, eu acho que se ficasse em 2% ao mês, ficaria ótimo mas a linha de crédito com o valor que nós temos hoje é muito alta, então a gente repassa isso aí, que isso a gente tem certeza que vai chegar lá para as autoridades do Banco, que ele olhe não só para o artesão de Icoaraci, ms para o Brasil todo, para todo artesão brasileiro que precisa pegar uma linha de crédito, porque a linha de crédito é vida É vida, é comércio, é negócio, movimenta a classe artesanal, então o artesão precisa também comprar a sua matéria-prima, precisa pagar a quem lhe ajuda a trabalhar, precisa sustentar a sua família, e com uma linha de crédito alta torna-se difícil. Então, por isso é que eu digo: o Banco do Brasil, para nós, fez um empreendimento muito bom, foi ótimo, eu não tenho o que falar contra, eu tenho só que falar a favor, porém, eu gostaria de mandar essa mensagem para lá. Isso é uma mensagem, não é uma reclamação, é uma mensagem que eu estou mandando para o Banco, dizendo que nós estamos esperando essa linha. O dia que ela chegar aqui será muito bem recebida por todos os artesãos de Icoaraci.

P - O senhor falou que é presidente de uma entidade. Qual é a entidade?

R - Conselho Superior do Artesão do Pará, o Cosapa.

P - E faz tempo que o senhor atua nessa entidade?

R - Eu atuei de 2000 até 2006, aí em 2007 eu fiz uma eleição e elegi o meu sucessor, que foi o meu candidato. Ele está mantendo até hoje, e termina o mandato dele em janeiro de 2009.

P - E essa entidade é de todo o estado ou é só da região?

R - Ela é uma entidade, que o estatuto dela para associar é congregar filiados de todo o estado do Pará, a ramificação dela é em todo o estado. Nós temos associados de Marajó, associados de Vigia, associados de Castanhal, de Bragança, temos vários associados de outros municípios, mas a maior parte de associados são mesmo ceramistas de Icoaraci.

P - Bom, agora a gente vai mudar um pouco o foco. Eu queria voltar um pouco, porque o senhor já falou um pouco da sua esposa. Como é o nome dela?

R - Maria de Nazaré dos Santos Pereira.

P - E os filhos do senhor, quantos filhos o senhor tem?

R - Nós temos oito.

P - Qual é o nome deles?

R - Todos são dos Santos Pereira: Rosevan, Roseval, Rosemaria, Rosevalda, Rosemauro, Rosevagner, Roselene e Rosevelton.

P - E o que eles fazem?

R - O Rosevan é oficial da Marinha de Guerra do Brasil. Eu não falei de um que eu tenho e que não é de matrimônio, esse é o mais velho de todos, é operador de máquinas pesadas, trabalha com máquinas pesadas em madeireira, negócio de tratores. O nome dele é Paulo Sérgio. Ele não leva Pereira, porque não foi reconhecido. O meu mais velho é oficial da marinha e mora em Salvador; o segundo é artesão, ceramista e mora em Florianópolis, Santa Catarina; a Rosemaria formou-se no segundo grau e continua na arte de artesã, é feirante na Feira do Paracuri, e o marido dela é ligado à pesca artesanal aqui na Amazônia, próximo às nossas águas, próximo ao Oceano Atlântico. Depois nós temos o Rosemauro, que é meu companheiro de trabalho, faz as peças maiores. Nós temos a Rosevalda, que também está trabalhando com artesanato, está tocando para frente; temos a Roselene que no momento pegou um emprego de secretária numa escola municipal e, também toca o artesanato. Nós temos o Rosevelton, que achou por bem ir trabalhar como cobrador de ônibus e toca nas folgas o artesanato. Todos eles são profissionais, hoje em dia todos eles sabem trabalhar. Agora, o que é mais interessante de tudo isso é que eu consegui, mesmo sem pensar, que eu juro que eu não pensava que fosse acontecer isso, criar um estabelecimento que deu para abrigar todo mundo. Quer dizer, todo mundo que quer trabalhar lá, trabalha, faz o seu trabalho dentro daquele estabelecimento. Eu acho também que é uma questão de orgulho meu, que eu tenho muito orgulho disso, eu gosto de dizer: eu nunca bati na porta de uma só pessoa pedindo emprego, nunca na minha vida Trabalhei para cinco pessoas até eu ser proprietário, para cinco pessoas Todas as cinco pessoas com quem eu fui trabalhar, me chamaram para trabalhar. Depois disso eu já trabalhei com muitas comunidades do interior do estado, eu sempre trabalho como mestre orientador, como mestre professor, como mestre instrutor e assim por diante. Tenho trabalhado fora do estado, e já trabalhei em outros municípios dentro do estado do Pará, onde, inclusive, já formei gerações de oleiros nesses municípios. Tem o município de Vizeu aqui no estado do Pará, o município de Juruti, e tem o município de Limoeiro do Ajuru, onde eu formei um grupo de artesãos.

P - Olhando a sua trajetória de vida, o que o senhor diria que foram as suas maiores lições?

R - Eu tenho muita coisa para dizer, que foi uma visão muito boa que eu consegui. Mas eu acho que entre todas, as maiores de todas foram com a imprensa, com a mídia. Eu tenho um acesso, até certo ponto, com a mídia, sempre sou visitado pela mídia. As universidades e as faculdades de Belém, todas elas me procuram, eu tenho um bom relacionamento aqui na escola, tenho um bom relacionamento com o Banco do Brasil, então eu acho que são outras e outras tantas coisas que eu tenho, e que eu posso dizer que foram bons momentos na minha vida, que eu passei, estou passando até hoje. Eu já tive a oportunidade de passar no “Valores do Brasil”, do Fantástico, da Rede Globo, em 2006.

P - O senhor mostrou o seu trabalho?

R - Isso, isso Mostrando o meu trabalho e também falando a respeito do DRS. Foram bons momentos, e além disso, os bons mometos com a família, que a gente não pode deixar de lado. Também já fui religioso, tenho alguma coisa com religião, sou envolvido com política, com comunidade. Eu sou uma pessoa voltada para muitos lados.

P - O que o senhor pensa em termos de futuro, o que o senhor poderia dizer em relação às atividades?

R - Hoje eu tenho pouca coisa a falar de futuro, porque eu estou com 71 anos, eu vou fazer 72, então eu acho que eu não sei o que o futuro reserva para mim. Mas eu ainda tenho esperança de chegar mais adiante dentro do meu próprio trabalho. Eu acho que o que eu ensinei para as pessoas não foi em vão, eles não aprenderam em vão, porque hoje em dia todos eles, quando têm oportunidade, eles dizem: “Meu mestre foi o seu Rosemiro, eu aprendi com ele”. Isso aí também valoriza a gente. Trabalhei, também, para o governo do estado durante muitos anos, lá no Curro Velho, na Fundação Curro Velho. Trabalhei lá como instrutor, de forma que a vida é assim, indo para o futuro, como eu estou dizendo. Eu espero no futuro fazer alguma coisa, não só pela minha comunidade, não só pela minha família, mas eu ainda pretendo fazer alguma coisa pelo próprio país.

P - E pela atividade da cerâmica aqui, o que o senhor vê de futuro?

R - Nós temos que avançar, porque o mercado brasileiro, esse mercado com o qual nós estamos trabalhando há muitos anos, já está um pouco retraído hoje, então, nós temos que avançar, temos que avançar para o exterior, para o mercado internacional. Isso está se fazendo, está se avançando para o mercado internacional. A gente não avança por nossa própria conta, mas avança por intermédio de algumas outras pessoas. Por exemplo, nós temos um freguês em Salvador, na Bahia, que está vendendo para o exterior. Ele vende para o exterior, nós temos outro freguês em Natal, que vende para a Alemanha os nossos produtos, sai da nossa olaria para lá, de lá ele manda para a Alemanha. Quer dizer, é isso que nós queremos. Eu não quero ir vender na Alemanha, porque eu não tenho condições de vender lá. Se eu for vender lá eu deixo de produzir aqui, eu quero produzir Eu quero produzir, quero que tenha mercado E quem é que vai fazer mercado? Sou eu? Não, eu não vou fazer mercado, eu não tenho como, alguém tem que fazer o mercado, eu tenho que usar o mercado como resultado e o fulano tem que fazer o mercado para resultado dele. No final, no âmbito geral, todo mundo ganha: eu ganho, ele ganha, o outro ganha, o outro comerciante lá na outra ponta vai ganhar também e assim por diante. Com isso, a tendência do comércio é crescer, então, é isso que eu espero. A minha esperança é nisso, dentro do comércio brasileiro. Eu acho o comércio nacional está um pouco saturado, principalmente o estado de vocês, o estado de São Paulo. O estado de São Paulo recebe toda semana entre três e quatro caminhões, carretas de mercadorias que vão para São Paulo. Daqui do Paracuri, sai toda semana duas, três, quatro carretas de cerâmica que vão direto para São Paulo. Ainda essa semana, já saiu uma carreta, no fim dessa semana vai sair uma carreta, e na semana que vem já estão previstas duas para sair, todas com destino a São Paulo. E a gente também vende, de vez em quando, quando está saindo container dos colegas, quando não sai nenhum, mas sai dos meus colegas, para outros lugares, para o exterior. Saída de container é sempre para o exterior, não sai para dentro, para o nacional, é só para o exterior. Então, a gente espera que aconteça isso.

P - Esse trabalho que a gente está fazendo tem a ver com a comemoração dos 200 anos do Banco do Brasil. O que o senhor acha do Banco do Brasil estar fazendo esse trabalho de nós estarmos resgatando a história do Banco a partir da história das pessoas que fazem a história do país?

R - Eu acho que é uma lembrança ótima, porque essa narrativa minha, que eu estou dando aqui no momento, em outros lugares vão conhecer, assim como vão conhecer as narrativas de outras pessoas que vocês estão entrevistando, eles vão conhecer, e eles só vão conhecer através dos nossos relatos. Se eu não passar o relato daquilo que eu faço ninguém vai saber ali adiante, só vai saber assim. É uma iniciativa que a gente pode chamar de louvável, é uma louvável iniciativa, parabéns ao Banco do Brasil pela iniciativa. Pena que 100, 80, até 50 anos no passado não houve essa iniciativa, é como hoje eu vi, no final do ano 2000. No final do ano de 1999, eu ouvi dizer que elegeram uma mulher, a mulher mais bonita do século. Será que isso é verdade? Como, se ela viveu no fim do século? E as outras que viveram antes, não é? Então, as outras foram penalizadas, foram penalizadas por uma que vive no final do século, que ultrapassou de um século para o outro século, como eu ultrapassei o século, nós ultrapassamos do século 20 para o século 21. Tivemos essa felicidade de ver o Brasil tricampeão, pentacampeão e assim por diante. Quer dizer que então essa felicidade outras pessoas não tiveram lá atrás, pessoas que usaram o Banco do Brasil, que o Banco do Brasil ajudou, as pessoas também ajudaram o Banco, porque a ajuda é mútua, um ajuda o outro. E essas pessoas não tiveram essa oportunidade que eu estou tendo aqui, de dizer que o Banco me ajudou, e de dizer que eu quero mais do Banco, que eu espero que o Banco me dê mais para poder retribuir para ele também. Então, é só isso que eu acho. A iniciativa é ótima, parabéns para o pessoal do Banco do Brasil. Parabéns, senhores Parabéns, seu presidente, parabéns

P - O que o senhor acha de ter dado o seu depoimento?

R - Eu achei bom.

P - Como o senhor se sentiu?

R - Só uma palavra, bom. (riso)

P - Obrigada

P - Bom, então, a gente agradece o seu depoimento.

R - De nada, está ótimo.

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