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História

A carta, a chave e os livros

História de: Vera Lúcia Dantas da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/09/2003

Sinopse

Vera Lúcia Dantas da Silva relembra episódios da infância que passou na casa dos avós em Natal (RN), junto com os pais e oito irmãos. Lembra-se das brincadeiras preferidas, das comidas que a mãe preparava com alimentos da roça e como faziam para estudar. Conta como a família se mobilizou após a morte do pai para poder prosseguir a vida, da ocasião em que conheceu o marido e a luta dos dois juntos pela casa própria. O casal iniciou sua trajetória em Natal e mudou-se para São Paulo em busca de trabalho e sossego. Vera conta como a escrita de uma carta endereçada ao Presidente a levou a conseguir um apartamento na Zona Leste de São Paulo.

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História completa

P/1 - Então, para começar a entrevista, a gente gostaria que a senhora dissesse de novo para a gente o seu nome completo, o local de nascimento e a data de nascimento.

 

R - Vera Lúcia Dantas da Silva, nasci em Catolé do Rocha, no dia 24 de setembro de 1941.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - O nome do meu pai é João Pedro de Melo, da minha mãe é Josefa Dantas da Silva Melo.

 

P/1 - E o que eles faziam?

 

R - O meu pai trabalhava com matadouro de gado.

 

P/1 - E a mãe da senhora?

 

R - A minha mãe só trabalhava em casa com a gente.

 

P/1 - A senhora conheceu os seus avós?

 

R - Conheci a minha avó.

 

P/1 - Como é que ela chamava?

 

R - Ela chamava Maria Rosa Patrício Dantas.

 

P/1 - Ela era lá da cidade de nascimento da senhora?

 

R - Não. A minha avó é da cidade de nascimento da minha mãe, de Carnaúba dos Dantas. Então, ela veio morar em Natal, depois de uns... Sei lá, depois de uns tempos, eu não sei como se decidiu a vida deles porque eu era pequena, não tenho muito conhecimento. Mas eu conheci bem a minha avó, ela era bem velhinha já e é uma pessoa muito legal.

 

P/1 - A senhora lembra da casa onde a senhora nasceu? Do lugar onde a senhora nasceu?

 

R - Não, não me lembro. Já pedi para um colega que sempre vai lá, ele disse que vai trazer para mim... mas eu não lembro. Eu sei que dizem que é muito bonito. Eu não sei, eu não conheço.

 

P/1 - E a senhora saiu de lá com quantos anos?

 

R - Eu devo ter saído com... antes de um ano.

 

P/1 - E aí, foi para onde?

 

R - Natal, Rio Grande do Norte. Foi lá que eu me criei.

 

P/1 - E por que a família se mudou de lá?

 

R - Eu acho que é para ficar mais perto dos familiares que tinham já ido embora de lá, porque era cidade pequena. E não tinha muito desenvolvimento, eu acho que por isso. Eu penso, eu não sei, mas eu acho que deve ser porque era um lugar muito pequeno.

 

P/1 - E Natal, como é que era?

 

R - Natal não! Natal é a capital bonita! Natal é muito bonita, grande! Eu gosto muito de lá. Tem boas praias, lá eu me divertia.

 

P/1 - A senhora ia à praia?

 

R - Ia. Aqui não. Aqui, eu fiquei meio trancada.

 

P/2 - E como é que era na sua infância, a sua casa de infância de lá? A senhora lembra?

 

R - Natal?

 

P/2 - É.

 

R - Eu lembro. Era uma casa grande, em um bairro... bairro do Alecrim. A nossa casa era grande, tinha muralhas, esses muros grandes, bem grandes, assim. Rodeava a casa que era do meu avô. Ele fez aquela casa do modo que ele gostava que fosse, né? Então, eu lembro dessa casa. Tinha bastante quarto, a gente brincava de esconder... Era uma luta para achar porque era bem grande a casa. (risos) É sério! (risos)

 

P/1 - E quantos irmãos a senhora tinha?

 

R - Oito, oito irmãos. Quatro meninos e quatro meninas.

 

P/1 - E era tudo escadinha, assim?

 

R - É, diferença de um ano no máximo, de um para outro. Tudo escadinha mesmo.

 

P/1 - E do que vocês brincavam, além de esconde-esconde?

 

R - Ah, a gente brincava de casinha, de fazer comidinha... Eu lembro dessas brincadeiras bobas, essas brincadeirinhas de criança. A gente gostava muito também, de brincar de gangorra, eu acho que vocês não sabem nem o que é? Gangorra é o seguinte, é assim: tem um tronco de árvore, aí os meninos colocavam uma madeira assim, no meio, furada e aquilo girava, sabe? Montava eu na ponta e o outro na outra. E aquilo ali, a gente girava aquela madeira ali e aquele que caísse, já viu, né? E o outro levava uma pancada boa! (risos). A gente brincava disso. Era um barato isso aí. É verdade.

 

P/1 - Não machucava?

 

R - Às vezes. Cada tombo! Você já viu?! Criança é fogo, né? Quando eles inventam besteira...

 

P/1 - Certo. E como é que eram os pais da senhora?

 

R - A minha mãe era uma pessoa muito legal e o meu pai também. Eu adorava ele, mesmo pequena ainda. Mas eu gostava muito dele. Nossa! Quando era dia de ver o meu pai, chegava tudo para mim.

 

P/1 - Ah, é?

 

R - Eu lembro pouco dele. Quando ele morreu, eu devia ter o quê? Uns oito anos... Uns oito a nove anos, mas eu me lembro do modo que ele morreu. Eu lembro também, ele chegava em casa, entendeu? Eu lembro de tudo isso. Eu ia para a feira... porque era assim, a gente morava em um bairro e ele tinha que fazer entrega de carne nas outras feiras distantes, nas cidadezinhas. Ele tinha contato com aquelas pessoas para entregar carne. Então ele levava carne... Por exemplo: hoje, na quarta-feira... Quarta, quinta, sexta, para entregar da sexta para o sábado. Daqueles matadores... Açougue, que devia ser hoje, né? Então, eu acho que era isso.

 

P/1 - E a senhora ia com ele, não?

 

R - Não. Nunca.

 

P/1 - Nenhum filho?

 

R - Não, nunca fomos. A gente era pequeno e tinha empregado. As pessoas é que vinham com ele.

 

P/2 - E a mãe da senhora?

 

R - A minha mãe era uma pessoa muito legal. Ela não trabalhava. O meu pai também, ele tinha roça, então ela ia na roça, mas não trabalhar na roça. Pegar... como se diz? Feijão verde, milho, essas coisas para a casa, né? Ela gostava de fazer muito esses tipos de comida, então ela ia na roça. Mas ela não chegava a trabalhar na roça não, porque também não dava. Tinha oito filhos para criar, certo?

 

P/1 - Feijão verde, ela fazia?

 

R - Feijão verde.

 

P/1 - Como é que faz?

 

R - Sabe como é feijão verde? Ele tem uma vagem. Sabe a vagem? Só que ele é maior. Ele é mais ou menos assim.

 

P/1 - Do tamanho do lápis?

 

R - É. Ele é cheio de carocinho de feijão dentro. Então, ela abria e falava “debulhar”. Debulhava aquela vagem, tirava o feijão e cozinhava para a gente.

 

P/1 - Verdinho?

 

R - Verdinho, verdinho. O milho...

 

P/2 - E punha algum tempero especial?

 

R - Só coentro... Coentro e cebolinha é o único tempero que se põe. Ainda hoje, eu faço. (risos) Para matar a saudade. (risos) É verdade!

 

P/1 - A senhora estava vivendo lá em Natal com a sua mãe e com os sete irmãos?

 

R - Minha mãe, meus irmãos... Quando o meu pai morreu, a minha avó ainda ficou viva, então a gente ficava em casa com ela, com a minha mãe e com os meus irmãos. O meu irmão mais velho passou a trabalhar, né? Porque aí passou a depender dos tios... Isso é a realidade da vida, viu? Não é nada de bicho-papão, não. Quando a gente tem o pai da gente que toma conta é uma coisa. Quando morre, os tios tudo chegam em cima para levar parte daquilo: “Isso aqui é meu porque ele devia isso para mim. Devia isso para mim, devia isso para mim”. Então a gente acaba ficando sem nada. Aí o meu irmão passou a trabalhar com doze anos... O meu irmão mais velho. Aí passou a trabalhar, né? Então ele começou a trabalhar. Eu não me lembro bem com o quê, mas eu acho que era negócio de rodagem... Essas frentes de rodagem, que o meu tio...

 

P/1 - Ia para a estrada?

 

R - Colocava ele... Levava ele para tanger os animais, levar os animais... assim, conduzir os animais carregados naquela frente de trabalho. Eu nem sei o que era que ganhava, devia ser uma miséria, né? Naquela época tinha 12 anos, né? Muito pequeno, mas ele ganhava... Eu sei que ele ganhava alguma coisa.

 

P/2 - E os outros irmãos começaram a trabalhar?

 

R - Os outros irmãos, quando eles começaram a trabalhar, aí a situação foi melhorando, né? Quando os meus irmãos começaram a trabalhar, a situação já começou a melhorar. Eles já passaram a ter uma vida melhor, compraram terras para Piedade... O meu irmão mais velho herdou, depois de muitos anos... com a luta depois que o meu pai morreu, então ele recebeu de volta uma das propriedades pequenas que o meu pai tinha. Ali ele juntou toda a família. Morava todo mundo naquela propriedade. Ali, naquela propriedade pequena, os meus irmãos foram crescendo e casou o mais velho que era esse. Foi embora, deixou a propriedade para um que vinha depois dele. E eles foram mandando... Compraram gado novamente. Entraram com gado novamente. Eu sei que quando eu já tinha mais ou menos uns quinze anos, todos já tinham a sua casa própria, tinham um pedacinho de terra, de chão... Mas foi uma luta. Não foi brincadeira, não. Foi uma barra até chegar a isso aí. Tem chão!

 

P/2 - Dona Vera, dava para ir para a escola? Vocês foram à escola?

 

R - Não, não dava para ir para a escola porque quando o meu pai morreu, eu estava mais ou menos com oito para nove anos... Quando o meu pai morreu, eu estava nessa idade e eu ia para a escolinha da fazenda. Tinha a casa grande, tinha uma senhora que sabia ler e ela era professora daquela criançada, entendeu? Para ensinar aquela criançada, para que ela gostasse de aprender a ler, ia para aquela escolinha. Mas eu não aprendi quase nada, não, porque quando ele morreu, aí a gente saiu da escolinha também.

 

P/2 - Quanto tempo?

 

R - Eu não sei os motivos, mas...

 

P/2 - Quanto tempo vocês ficaram?

 

R - Eu fiquei mais ou menos uns oito a nove meses na escolinha, mas aí... Eu lembro que aprendia um pouco. Era da época da carta de ABC, o abecedário, então aquela carta de ABC, eu lembro que eu aprendi bem ela, entendeu? Mas aí, no passar desses anos, desses tempos, eu consegui esquecer de escrever. Eu vim aprender agora, depois de madurona. (risos).

 

P/2 - E como é que foi a decisão de voltar a estudar?

 

R - A decisão foi a seguinte: eu estava morando aqui, então tem um núcleo aí, o Centro Comunitário daqui... Logo aqui atrás, pertinho. E abriu lá um ensino para quem não soubesse ler, os analfabetos e tal... Aí eu fui. Quando eu cheguei lá, eu falei para a professora e ela disse: “Mas você não é analfabeta, Vera Lúcia. Aqui é para analfabeto de tudo.” “Mas, eu sou, eu não sei ler, eu não sei escrever, eu não sei nada.” Ela deixou que eu ficasse e eu fiquei. Fiz a segunda, a terceira e quarta série aí. E daí, foi para a Secretaria de Educação e agora entra na rede pública. E eu entrei na Salvador Allende, fiz até a oitava série, me formei em 1995. Aí foi quando a Alice nasceu, a netinha. Aí eu deixei de ir. Passei um ano para ir para a escola, que era para entrar no primeiro. Aí eu passei... Aí eu saí depois e disse: “Quer saber de uma coisa? Eu vou voltar.” Aí eu voltei. Agora eu estou terminando.

 

P/1 - Como é que é lá, dona Vera?

 

R - É gostoso. Eles não tem... Aqui, tinha muito moleque, sabe? Muito moleque, mas eles não desfaziam, eles não tinham aquele tipo de preconceito, aquela coisa. Eu não achei isso. Não encontrei, de verdade, não encontrei mesmo. E lá eu pensei assim: “Puxa vida, vou enfrentar, vai ser uma barra. Vou nada, né?” Mas não foi mesmo. Muito pelo contrário. Gostei de todas as partes, tanto é que eu estou terminando, feliz da vida. (risos) Com saudade, já que vai acabar. (risos)

 

P/2 - Tem que continuar, né?

 

R - É. Eu continuo... Eu não sei... E aí eu não tinha amigo... Nossa Senhora, como tem viu? Tem muitos mesmo.

 

P/2 - O que a senhora acha que mudou na vida da senhora, depois que a senhora voltou a estudar?

 

R - Ah, mudou muita coisa. Mudou muita coisa porque eu... Dizem assim: “Fulano de tal é cego.” Não é nada! Ele não tem visão, só. Ele não enxerga, mas cego mesmo é quem não sabe ler... Porque... puxa vida, eu ia no banco, chegava no banco, ficava abobalhada sem saber o que fazer. Se eu levasse uma conta para pagar era aquela conta para pagar. Eu não sabia o que era um cheque, eu não sabia o que era o troco direito. Essas coisas atrapalhavam muito a vida. Aí... depois não. Agora acabou. Isso aí já era. Passou.

 

P/2 - A senhora está enxergando bem!

 

R - Agora enxergo bem, bem mesmo. É diferente. É muito diferente, nossa! A gente passa a ser até diferente com as pessoas, você entende? Passa a ser mais compreensiva, passa a entender o problema daquele que não sabe ler. A gente fica mais dócil, vamos dizer assim. A gente fica mais dócil, a verdade é essa. Agora não, agora eu estou feliz da vida. Pelo menos, ninguém me engana mais com dez reais. (risos) Verdade!

 

P/2 - Está certo. Dona Vera, voltando um pouquinho para a história que a senhora estava contando, de quando vocês moravam lá em Natal, vocês iam à alguma igreja, tinham vida religiosa?

 

R - Eu tinha, sabe? Desde pequena eu tenho tendência para o “evangélico”. Sempre fui à igreja evangélica. Sempre fui. Nunca deixei de ir.

 

P/2 - E a família também?

 

R - A família também. Não assim aquelas fanáticas de ir todo domingo ali, sabe? De padre, pastor... isso não, mas quando dava vontade, sempre ia. Os meus irmãos, tem uns que partiram para a Igreja Católica, mas a maior parte foi para a “igreja de crente”. E até hoje continua... Os que estão vivos ainda vão na “igreja de crente”. Eu vou de vez em quando também.

 

P/1 - Certo. Em qual a senhora vai?

 

R - Olha, eu sou... Como se diz? Da Brasil para Cristo. E aqui, de vez em quando, eu vou na Universal, assisto na Igreja da Graça, que eu gosto muito, mas eu não vou porque não tem igreja perto, aqui. Tem uma igrejinha ali, mas é muito perigoso ir para lá. Eu não vou, sabe? Eu evito essas coisas. (risos) Eu sei muito bem.

 

P/2 - O caminho até a igreja que é...

 

R - É, esquisito. É...

 

P/2 - Entendi.

 

R - A gente tem que evitar, né? Para não cair nessas... Tem que evitar e eu evito bem mesmo. (risos)

 

P/2 - A senhora lembra de quando vocês mudaram lá de Natal para São Paulo?

 

R - Lembro.

 

P/2 - Quando foi?

 

R - Olha, eu morava em Natal com o meu marido e o meu filho, né? E a minha família, a minha família mora toda lá, mas aí eu vim. Quando cheguei... Eu tinha uma casa lá. A gente não tinha condições de vir. Eu tinha uma casa grande! Vendi a casa e vim embora para São Paulo com ele e o meu marido. O Joab tinha um ano e oito meses... 1972, mais ou menos. 1972, por aí. A gente veio embora para São Paulo, tinha um colega nosso aqui e a gente escreveu para ele para ver as condições da gente chegar, como era: se tinha onde a gente dormir até conseguir casa, esse tipo de coisa... E ele falou que podia vir que tinha e tal... Aí a gente veio. Vendeu a casa lá... Uma casa enorme! Cabiam doze apartamentos desse dentro. Aí eu vendi essa casa por oitocentos reais. Olha! Que preço! Oitocentos reais! Não era nem reais nessa época, era cruzeiro. Oitocentos cruzeiros! Eu acho que era cruzeiro. E a gente comprou as passagens e veio embora para cá. Quando a gente chegou aqui, a gente foi morar na Vila das Belezas, sabe onde é? Não? É para lá de Santo Amaro. A gente foi morar na Vila das Belezas. Quando chegou na Vila das Belezas, a gente alugou um barraco de madeira. De madeira mesmo! Um barraco de madeira... só tinha o barraco. Banheiro, você não tinha ali. Para ir ao banheiro você tinha que ir no outro banheiro da casa do dono do barraco. Não tinha água. A gente tirava água de poço, nessa época. A gente tirava água de poço e ali a gente... Eu dormia... Tinha cama... O meu marido fez um estrado, vamos dizer uma espécie desse quadro de mesa em altura de cama. Aí a gente comprou um colchão e botou em cima. Ali que a gente dormia. Geladeira era pequenininha... Tinha rede. Sabe o que é rede, né?

 

P/1 - Sim.

 

R - Então, a gente armava a rede dele por cima da cama, aquecia bem ele por causa do frio, que era um frio medonho. Eu não estava acostumada. Quase que eu fui embora. (risos)

 

P/1 - Por causa do frio?

 

R - Isso. Quase que eu vou embora por causa do frio. E a gente ficou nesse barraco mais ou menos um ano e meio... De um ano e meio para dois anos. O meu marido trabalhando. Chegou em um dia, arrumou emprego no outro. Foi fácil. Construção civil aqui era muito fácil. Aí ele chegou e arrumou emprego. Ia trabalhar com esse colega da gente. Tinha um moço que morava em frente da gente, no outro lado da rua, aí ele ofereceu um terreno para a gente. "O melhor que a gente faz é comprar." A gente vai ter que morar por aqui mesmo, então comprou o terreno. Comprou o terreno, fez dois cômodos e mandou cavar um poço, furar um poço, o que era o principal, pois sem água já viu, né? Todo mundo ali sofria muito por causa de água. Aí, mandou furar um poço, um poço raso, com vinte e dois metros, por aí. Aí a gente foi morar nesse barraco. Ele só fez os dois cômodos sem reboque, sem nada e passou um piso rústico, de cimento e a gente mudou para esse cômodo. Aí ele começou a trabalhar e arrumar esse barraco, ficou bonitinho. Aí, quando a gente foi tirar licença na Prefeitura... era clandestino.

 

P/1 e P/2 - Ah! Não acredito!

 

R - É, era clandestino. Aí, o meu marido disse: “E agora? O que a gente faz?” Eu digo: “Nada. Do jeito que a gente comprou a gente vende.” Aí, nós procuramos vender. Eu digo: “Nó vamos morar de aluguel. Melhor do que perder tudo.” Aí vendemos esse barraco. Vendemos por sete mil cruzeiros, esse barraco.

 

P/2 - Onde era, dona Vera?

 

R - Na Vila das Belezas, no Jardim Brasil. Aí a gente vendeu esse de dois cômodos e fomos morar de aluguel na... Onde mesmo? Deixa eu ver... Lá era Jardim Brasil, onde tinha esse barraco. A gente foi morar mais embaixo, na Vila das Belezas, perto de Embu... Embu das Artes, sabe?

 

P/2 - Tá.

 

R - A gente foi morar perto de Embu das Artes numa casa alugada. Alugamos uma casa e fomos para lá morar. Moramos muitos anos até virmos embora para cá. Me dei bem lá, a casa era independente, não era de fundo de quintal, era uma casa livre... A gente ficou muito tempo lá, até a gente entrar no prédio do Governo, comprar esse aqui. Quando eu recebi vim embora para cá.

 

P/2 - Como é que vocês ficaram sabendo do plano de Governo?

 

R - Plano de Governo é o seguinte; nessa época eu escrevia muito mal... Como eu estou dizendo, que eu não sabia escrever as coisas certas, entendeu? Aquela velha história: “Escreve, mas não lê.” (risos) Eu nem sabia o que tinha escrito. Eu cansada, cansada, rabiscava no papel, entendeu? Eu mandei para o Ernesto Geisel... Nessa época era ele o presidente. Aí o meu vizinho disse assim... O meu vizinho colocou o endereço direitinho, tudo certinho, arrumou lá as coisas e foi essa carta. Quando foi... Eu mandei, esqueci daquele... entendeu? Esqueci. Mandei por mandar. Desespero de morar de aluguel. Aí mandei. Quando chegou, passou mais ou menos uns dois, três meses, aí chegou o carteiro um dia com a carta para mim. Eu digo: “Nossa Senhora, uma carta? O que é isso?” Corri na casa da minha vizinha, da Idalina para ela ler para mim essa carta. E a Idalina me deu o endereço onde eu ia: para eu ir na Consolação, número tal, rua tal e fazer a inscrição da casa própria. E eu fui. Pior que eu fui! Fui, sim senhora! Quando eu cheguei lá fiz a inscrição. E da inscrição até o chamado para essa casa não demorou um ano.

 

P/2 - É mesmo?

 

R - Não, não demorou um ano. Todo mundo ficou bobo. “Como é que pode?” Todo mundo dizia assim: “Ai, por causa da carta do Presidente, não sei o quê...” Entendeu? A carta do Presidente. Todo mundo falava isso, entendeu? Eu digo: “Ah, sei lá. Vai o que seja, mas eu sei que eu vou conseguir”. E eu fui na Consolação. Cheguei lá, fiz a minha inscrição, tudinho e fui embora feliz da vida com aquele pedaço de papel, que eu ia ter uma casa. Quando, eu não sabia, mas eu ia. E fui embora.. Quando cheguei lá era apartamento. Aí ficou todo mundo... o Joab, quando era para eu vir, ele dizia: “Ah, mãe, não vai não. Não vai dar em nada”. Eu digo: “Bom, mas eu vou assim mesmo”. Vinha para a Consolação, quando chegava, eles tomavam nota em um bocado de papel, não sei o quê, e assinava outros... Eu sem saber o que eles estavam fazendo. Porque nessas alturas eu não lia bem. Como era que eu ia saber o que era que eles estavam escrevendo? Nem lendo e nem tomando nota ali. Aí eu voltava novamente para casa. Quando foi o dia do casamento da Princesa Diana, no dia do casamento dela, eu estava assistindo com o Joab, assistindo o casamento dela, aí chegou o carteiro. Ele me conhecia, né? Eu gostava muito de bater papo mais ele. Ele era um moreno legal, uma pessoa muito distinta. Aí, ele: “Chegou sua felicidade!” Eu digo: “Nossa Senhora! O que será, meu Deus?” Aí cheguei, fui lá, quando cheguei que peguei... Menina, não era a carta?! Eu digo: “Nossa Senhora, recebi, Joab! Recebi!" Porque recebi... porque recebi para me apresentar dali a... Isso foi no mês de outubro, o casamento dela? Ou em agosto? Nem me lembro ao certo, menina. Falar a verdade é preciso: eu fiquei tão nervosa... (risos) Aí eu sei que dali estava marcando... que daquele mês ali até dois meses.

 

(PAUSA)

 

R - É, para eu ir receber a... O sorteio. Ir para o sorteio da casa. Eu digo: “Pronto, vou morrer na hora de receber a casa, de tanta alegria”. E fomos. Quando nós chegamos lá, não é que era verdade, menina? Teve aquele sorteio, meu marido foi lá no sorteio, tirou esse apartamento aqui. Você viu? Uma posição boa, segundo andar, né? E a gente tirou quando foi desse sorteio a três meses... Aí já foi para a gente receber a chave. Foi rápido.

 

P/2 - A senhora veio conhecer antes de receber a chave?

 

R - Eu vim, eu vim conhecer. Eu vim conhecer no mês de agosto...

 

(PAUSA)

 

R - A gente ia receber a chave... parece que no dia 8 nós viemos aqui. Quando nós chegamos aqui, eu fiquei olhando, digo: “Valha-me, Cristo! Meu Deus, estamos completamente perdidos!” Porque chegava no Parque Dom Pedro não tinha transporte. Você tinha que esperar aquele ônibus certo que saía para cá e aquele outro que voltava. E eu só sei te dizer que a gente veio. Quando foi no dia... Dia 8 de agosto foi marcado para a entrega das chaves. Ih, minha filha, quando nós chegamos aqui foi uma “embananação” só.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Procurando o apartamento, com aquela chave na mão... Você só tem a chave e o número na cabeça, entendeu? Ele só te dizem o número lá, te dão o número e nós fomos batendo a escada adentro. Testa chave aqui, testa a chave ali e nada de chave. Aí chegamos aqui, a chave deu certinho aqui. Eu digo: “Pronto!” E eu estava cansada, tão contente, tão feliz da vida que eu só vi um quarto, esse. Para lá eu não vi nada. Eu digo: “Nossa, como é pequenininho!” Só tinha... entendeu? Só tinha daqui para trás. É, a alegria foi tanta que eu não vi nada disso aí. Bom, aí, quando foi em setembro, dia 7 de setembro, nós já viemos lavar. Sabe o que é isso? Já viemos lavar o apartamento. Aí foi quando eu vim ver que tinha mais.

 

P/2 - Ah, é?

 

R - Tinha mais espaço, que não era tão pequeno assim. Aí eu vi “Ah, tem um quarto para Joab, tem a lavanderia e tem um monte de coisa ainda. Não é só isso aqui não, tem muito mais ainda." Compramos lâmpada, já colocamos tudo, já fomos em Itaquera, no centro, pedir ligação de luz, porque não recebe com luz não, entendeu? A gente vai lá e pede. Aí eu pedi para eles virem ligar, que eu ia mudar no dia 13. Eu mudei mesmo,  no dia 13 de setembro.

 

P/1 - Rapidinho.

 

R - Fez dezenove anos que eu vim para cá. Tô velha! (risos)

 

P/2 - A senhora se mudou antes da luz?

 

R - Não, quando nós chegamos aqui a luz já estava ligada.

 

P/2 - Ah, é?

 

R - Já. Oito dias... Eu vim no dia 7, eu lavei, coloquei as lâmpadas no lugar e pedi a ligação da luz. Aí, quando foi no dia 13, ao meio dia, a gente mudou para cá, chegamos aqui já tinha luz.

 

P/1 - E tinham outros moradores?

 

R - Tinha, tinha bastante morador já, morando sem luz, sem nada, no escuro, na vela. Aí, eu fiquei pensando: “Será que era para morar sem pedir a luz e eu já pedi, meu Deus?” Entendeu? Porque eu via todo mundo com aquelas velinhas, digo: “Será que eu fiz uma besteira?" Porque nós já viemos direto com a luz. Aí, daqui uns dias eu só via era gente indo para Itaquera pedir luz. O desespero para a gente pegar ônibus, que não tinha, né? Você viu hoje, né? Se você quiser, você pega ônibus, você pega trem aqui, você pega qualquer coisa, perua aí... Nossa! É o que não falta. Nem precisa pegar táxi para o Metrô. Não precisa nada disso. Perua aqui embaixo passa de monte, entendeu? Mas não tinha isso, não. Você acha que era assim? Não era não. Não era mesmo, de jeito nenhum. Sei que a gente pegava aquelas... Nem eram essas peruas andando como é hoje, não. Não era. Eram aquelas peruas velhas, danadas, sabe?

 

P/1 - Eram as kombis?

 

R - Isso.

 

P/2 - Mas ônibus tinha, não?

 

R - Não, primeiro eram essas peruas. Depois começou a aparecer... Sabe aqueles micro-ônibus?

 

P/2 - Sei.

 

R - Então, quando a gente chegou aqui, circulava um daquele, que não tinha mercado aqui, não tinha essas coisas. Então, eu ia comprar perto do Parque do Carmo, fazer compra. No Tietê. Ainda hoje tem esse mercado lá.

 

P/1 - Que é atacado?

 

R - É, Tietê. Então passava essa perua, ela passava lá em cima, a gente tinha que subir tudo isso. Às vezes, ela vinha aqui. Que desespero! Lama, tudo barro! Isso aqui era barro que não acabava mais! Está vendo essa nossa entrada aí? Isso aí era barro.

 

P/2 - Ah, é?

 

R - Barro puro. Chovia e você não podia sair... Mas assim mesmo, eu estava feliz, com esperança que um dia as coisas iam melhorar.

 

P/2 - Mas já tinha essa quantidade de prédio quando a senhora veio?

 

R - É, os prédios sim, os prédios tinham todos. As pessoas, não. As pessoas estavam chegando devagar. Isso aqui, você estava aqui, aí já ia chegando três, quatro... por aí. Você só via bater para aqui, para ali, para acolá... Aquele horror de gente chegando, entendeu? Era legal pra caramba! Eu acho interessante. Hoje eu paro para pensar, eu fico assim, pensando: “Caramba, como era diferente isso aqui!” Hoje é cidade. Nossa, a gente tem Pão de Açúcar aí, a gente tem Barateiro, tem mercado aqui que não acaba mais. Tem até ônibus direto para o mercado.

 

P/2 - Para ir para lá?

 

R - Tem. Tem Metrô, tem ônibus aqui na porta que não acaba mais. Mas você não via porque não tinha. Você pegava ônibus aqui, os ônibus da CMTC, que iam direto para o Parque Dom Pedro, quando ele chegava no Parque Dom Pedro, desembarcava aquele horror de gente, de pé de barro, sabe? Mas era mesmo! Porque não tinha outro jeito.

 

P/1 - Não era nada asfaltado?

 

R - Não, não era, de jeito nenhum. Não era.

 

P/2 - E quanto tempo demorava até o centro, daqui, de ônibus?

 

R - Olha, se eu te falar você é capaz até que nem acredite, mas eu acho que dava mais de hora e meia, viu?

 

P/2 - É mesmo?

 

R - É verdade. Porque aquele ônibus parando aqui, ali... Ali, ali, ali... Porque ele queria deixar o pessoal. Porque é difícil, não tinha e ele tinha que levar as pessoas, entendeu?

 

P/2 - Entendi.

 

R - Então, era muito ruim... Muito difícil, muito difícil! Isso aqui foi difícil, não foi brincadeira...

 

P/2 - Dona Vera, vocês usavam o trem da estação?

 

R - Não, não tinha trem. Tinha o trem de... Nessa época tinha... não sei se tinha Guaianazes, o trem de Guaianazes. Tinha o trem de Guaianazes... (interrupção)

 

P/2 - Quer que dá uma pausa, aqui?

 

R - Não, pode continuar... Ai, que cheiro horrível! Então, aí a gente não tinha como pegar trem porque o trem de Guaianazes, que vinha de Guaianazes não passava aqui. Isso aí não era estação. Essa estação aí é agora. Ele passava direto. Aqui é a José Bonifácio e tem a Dom Bosco lá embaixo.

 

P/1 - A estação mais perto daqui é a José Bonifácio?

 

R - Bonifácio. Mas não tinha essa estação, entendeu? Tinha a estação Guaianazes e aí você ia ter em Itaquera. É meio difícil, né? Primeiro que você pegava o trem no meio do caminho, não podia conseguir. Mas era barra pesada. (risos) Só barro e mais barro. Agora não. Agora, nossa Senhora! Estou tão feliz, tão contente.

 

P/2 - Dona Vera, a senhora estava falando do supermercado, que tinha que ir até o Parque do Carmo... E tinha feira aqui, ou não?

 

R - Não, não tinha feira. Sabe como é que eram as feiras? Eram essas peruas ambulantes, sabe? Esse pessoal que...

 

P/1 - Vai com o som?

 

R - É, que vai com o caminhão cheio de coisa para vender. Então, tem aqui atrás um estacionamento... aqui atrás do nosso prédio tem um estacionamento grande, isso aí de manhã era ponto de leite, de verdura, entendeu?

 

P/2 - Entendi.

 

R - Dessas coisas. Então, pão, leite, você só pegava aí desse pessoal.

 

P/1 - Ajudava?

 

R - Ajudava, porque não tinha aonde ir buscar, nem sabia para que lado ia ter uma padaria. Agora não, agora você tem padaria aí, você tem tudo. Agora nós estamos no céu.

 

P/2 - E o asfalto, a senhora se lembra da época que colocaram? Como foi?

 

R - O asfalto, é o seguinte, tinha o asfalto da pista, dos carros, só da rua. Só nas avenidas que era feito o asfalto. Agora, a entrada que tem o prédio, para os outros prédios não. Aí era barro mesmo, cruel. Isso aí tudo foi o pessoal que fez. Isso aí, eles não deixaram nada disso. Está vendo essas entradas aí feitas de piso, de tudo? Não ficou nada disso. Não ficaram. Não tinha azulejo, não tinha pintura, só uma mão de cal passada nos apartamentos.

 

P/1 - Era tudo branco?

 

R - Tudo branco e as lâmpadas... De tudo isso só ficou o ponto. Eles entregaram assim, entendeu?

 

P/2 - Entendi.

 

R - Então, aí era... (interrupção)

 

P/2 - A senhora estava falando do calçamento, das ruas.

 

R - Então, era asfaltado só no meio da rua onde o ônibus passava, né? Aí, as entradas dos prédios, essas coisas, não. Tudo era barro mesmo. Barro terrível. Nosso estacionamento mesmo era um barro até três meses atrás.

 

P/2 - Todo prédio tem estacionamento?

 

R - Tem... Alguns não têm, mas tem uns que têm. Tem uns que têm mais terreno, tem outros que não têm quase terreno nenhum, entendeu?

 

P/2 - Do lado, assim?

 

R - Isso, de lado. As dificuldades sempre foram essas. Eles fazem as coisas muito mal divididas, entendeu? Assim, deixar mais para uns, menos para outros. Tem prédio aí que você chega, nossa! Dá para fazer outro prédio. E tem outros que não, não tem nem para os carros.

 

P/2 - Dona Vera, voltando um pouquinho lá na história da senhora, de Natal, como é que a senhora conheceu o seu marido?

 

R - A gente se conheceu... É o seguinte, eu morava no Alecrim, ele morava na Nova Descoberta, né? Nova Descoberta. Então, a gente foi assistir teatro e um dia eu encontrei ele na praia. Eu tive amizade com a irmã dele, que hoje é minha cunhada. Dali eu conheci a família inteira. Conheci a família inteira, ele já se apaixonou por mim, eu fiquei meio... Eu já estava com vinte e quatro anos, mas eu ainda não queria casar. A verdade era essa. Mas aí ele se apaixonou e: "Vamos casar, vamos casar, vamos casar." Casamos na maior miséria do mundo.

 

P/2 - É mesmo?

 

R - É verdade. Aí, a gente casou, né? Pobre pra caramba. Ele sem nada, emprego ruim. Nessa época, ele novo, com vinte e quatro anos, o que ele ia arrumar de emprego? Não tinha nada na vida ainda! Mas aí a família toda deu muito apoio, a família dele... Aí a gente terminou casando. Interessante, porque quando a gente casou, a gente primeiro foi morar em um cômodo de assim... Tinha a casa da minha cunhada e na casa da minha cunhada tinha um cômodo, um quarto, e a gente foi ficar naquele quarto. Aí, sabe como é que é? Fica aquela encheção de sogra de um lado, cunhada de outro, cunhado que não acabava mais. (risos) Eu dizia: “Eu não nasci para isso, eu não nasci para isso.” Aí, dizia: “Calma, Vera, calma, calma. As coisas vão melhorar”. E eu disse: “Se não melhorar, eu sumo daqui, se não melhorar, eu sumo daqui”. Era a minha conversa, né? Eu pensava... Bom, aí eu digo: “Quer saber de uma coisa, eu vou batalhar junto com ele, eu casei”. Na minha família, quem casasse tinha que ir até o fim, entendeu? Eu digo: “Vou batalhar junto com ele”. Aí nós fomos... Ele foi trabalhar, arrumei um emprego para ele. Eu era que arrumava, né? Mais “inteligentezinha”... Ele é analfabeto. Aí eu arrumei um emprego para ele com um senhor de idade, conhecido. Eu digo: “O senhor não está precisando de um ajudante para trabalhar com o senhor?” Ele disse: “Até que era bom porque ele está cansado, tem muito serviço.” Digo: “Pronto, achei”. Ganhava bem, por semana, como pedreiro, como ajudante, mas logo, logo ele começou a fazer todo o serviço. Olha, tremendamente esperto, aprendeu tudo rápido. Ele foi trabalhar como pedreiro. Aí a vida já melhorou, minha filha! Quer o quê?! Aí nós fomos, alugamos uma casa em Nova Descoberta... Isso é em Natal, viu? A família ainda mora lá. Eu morava pertinho delas. Aí alugamos uma casa em Nova Descoberta, fomos morar. Dessa casa em que nós estávamos morando eu comprei um terreno junto com ele. Nós compramos um terreno, “terrenozinho”, eu acho que de seis por vinte e cinco, uma coisa assim, sabe? Aí eu digo: “Agora nós vamos morar no nosso terreno”. Adivinha como? Barraco de palha. Sabe, eles fazem essas casas de palha muito bem feitas, que não molha mesmo, é casa mesmo. Casa de palha... Caramba! Se você tacar fogo naquilo ali está feia a coisa, né? Então, a gente foi morar nesse barraco. Aí veio o meu irmão caçula, veio para lá. Nessas alturas, os meus irmãos já estão morando em cidade pequena em volta de Natal. Cada um comprou o seu pequeno terreno e foi morar naquelas cidades pequenas. Aí está o meu irmão caçula, que ainda não casou e não tinha comprado propriedade ainda. Aí eu perguntei se ele não queria ir lá, para casa, que aí ele trabalhava, ia ajudar. Ajudar a gente a fazer a nossa casa. Ai, minha filha... Pra quê?! Eu cheguei lá, lá vai a minha cunhada... se apaixonou por ele. Ai, que inferno! Se apaixonou por ele, era aquela paixão! Ninguém queria e ela doida por ele. Sabe essas meninas muito avoadas, né? E eu digo: “Pronto, o jeito que tem é mandar ele embora”. Que eu digo: “A coisa aqui vai ficar feia.” Então, mandei ele embora, né? Aí meu marido disse assim: “É o seguinte, eu vou comprar tijolo.” Lá é tijolo, não é bloco para fazer casa. Aí comprou o tijolo, comprou areia, comprou o cimento, comprou as coisas que ia necessitar para fazer dois cômodos para a gente. No lugar que era de... Como que fala? De palha.

 

P/2 - Sei.

 

R - Aí, ele fez de tijolo lá. Aí, dentro de mais ou menos três semanas eles levantaram aqueles três cômodos. Era sala, quarto, cozinha e banheiro, certo? Eles levantaram e passaram laje, que era mais fácil. Passaram a laje. Aí, nesse terreno que eu comprei, nós compramos, essa mulher, aí nós fomos melhorando de situação. Já estava tudo bem melhor. Quando foi um dia, a gente chega, a gente vai na feira, a feira que a gente ia... Morava na Nova Descoberta e ia na feira no Alecrim, mais ou menos como daqui ao Metrô, de onde você vem. A gente ia à feira. Quando eu chego, está uma confusão daquelas em casa porque ele estava namorando com ela e ela foi lá para casa. Êta! Fizeram uma confusão! Eu digo: “Meu Deus, o que será que aconteceu?” Digo: “Bom, você vai embora, meu irmão.” Peguei, comprei passagem para ele, tudinho, mandei ele embora. Mas nessas alturas, eu já tinha ficado com o lucro, né? A casa que ele ajudou tanto, ele ia me ajudar tanto ainda, mas não pôde ajudar muito por causa dessas loucuras lá deles dois. Aí ele foi embora. Não aconteceu nada entre eles. Eles foram embora, esqueceram um o outro, pronto, ela casou com outro e ele também. Bom, aí, depois dessa nossa casa... Você vê, eu saí, aluguei, morava com a minha cunhada, aluguei uma casa para sair de perto deles, né? Aí comprei o terreno para fazer minha casa e, olha só a burrada, comprei um para o meu cunhado aqui, para a minha sogra aqui, um para a minha cunhada aqui... Comprei uma vila. A vila inteira ficou para a família, entendeu? Casa do meu cunhado, da minha sogra, da outra cunhada e a minha...

 

P/2 - Eles estão aonde?

 

R - Ainda estão lá. Aí, o que é que eu faço? Dessa casa aqui... Isso aqui era na Coronel Mauro Cabral onde está essa família inteira morando, que é a família do meu marido. Aí eu vou daqui, vendo, troco; troco esses cômodos que ele fez, aqui, por uma casa grande, enorme, essa que eu vendi para vir embora... Ficava do outro lado do Nova Descoberta. Eu digo: “Agora eu vou para longe deles”. Que longe! Tão longe que de dez em dez minutos eles chegavam. Não era longe, ainda não estava satisfeita. Eu digo: “Um dia eu vou para longe”. Está bom. Não, porque é um desconforto, ele não deixa, sabe... Sei lá, quer ficar mandando mesmo na vida, quer ficar interferindo ali e eu não sou muito disso. Eu sou mais... sei lá, eu...

 

P/2 - E, dona Vera, quem tomou a decisão de vir para São Paulo e por que vocês decidiram?

 

R - Nós dois juntos. Em parte para sair de perto da bagunça da família e em parte... É verdade, a parte maior foi essa mesmo, eu te digo com sinceridade. E em parte por causa de serviço que estava muito ruim para ele lá.

 

P/1 - E o que vocês ouviam falar de São Paulo? Por que São Paulo?

 

R - Poxa, São Paulo... É o seguinte, tinha um menino... o que ele é mesmo da minha cunhada? É concunhado da minha cunhada que havia vindo embora aqui para São Paulo com toda a família. Ele dizia que estava muito bem, ele aparecia lá e fazia, sabe... São Paulo era uma santidade em pessoa, ninguém ficava desempregado. De fato, quando a gente chegou ninguém ficava desempregado. Meu marido, durante esses vinte anos, vinte e tantos anos que a gente mora aqui, quase trinta anos que a gente mora aqui, de fato, ele nunca ficou desempregado. Nessa área dele, mas nunca ficou. Então, a gente partiu para cá por causa disso, por causa de emprego e a gente veio por causa desses amigos que já estavam na frente, porque eu tinha medo. Eu tinha vontade de vir, mas tinha medo de me perder, entendeu? Aí, eu dizia: “A gente chega lá, não conhece ninguém, vai se perder. O lugar... do jeito que o pessoal fala que é...”

 

P/1 - O que o pessoal falava, que era grande?

 

R - Falavam que era muito grande o lugar, que tinha muito assaltante. Nessa época já falavam em assaltante. Mas eu não sabia o que era assaltante, entendeu? Quando chegou aqui, eu não tinha medo de assaltante porque eu não sabia o que era. Não tinha... Podia estar na mesa conversando com eles. Eu não sabia o que era assaltante, o que era... o significado também não sabia, entendeu? Nem puxava pela memória para querer saber o que era.

 

P/2 - Mas a senhora já foi assaltada alguma vez desde que a senhora chegou?

 

R - Não, nunca fui, você acredita? Nunca fui.

 

P/1 - Que bom, né?

 

R - Nunca fui. E olha que aqui tem, né?

 

P/2 - É?

 

R - Uh! Como tem!

 

P/1 - E, dona Vera, quando a senhora chegou aqui em São Paulo, o que a senhora lembra? Assim, quando a senhora chegou, logo desceu do ônibus?

 

R - Nossa Senhora! Eu lembro assim quando eu cheguei, que nós descemos do ônibus com a nossa bagagem e a primeira cara que a gente viu foi a do meu colega, porque se a gente não tivesse visto, acho que dali mesmo eu tinha voltado no mesmo ônibus. Eu ficava lá até ele ir embora. Mas ele estava, ele estava mesmo esperando a gente. Aí pegaram um táxi, botaram a nossa bagagem e a gente veio. Quando chegou o carro, que eu olhei aquele alto... A Vila das Belezas não. Aí era no Jardim Brasil, onde eu comprei a casa, o barraco. Aí, quando eu cheguei que vi aquela ladeira sem fim, aquele vermelhão para um lado e para outro, você olhava e só via barro, barro, barro, entendeu? E casinha de madeira, coisinha muito pobre, muito miserável. Eu digo: “Caramba, vim de um lugar miserável para um outro pior.” Entendeu? Aí eu ficava... Fiquei assustada, né? (telefone)

 

(PAUSA)

 

P/1 - Bom, a senhora estava falando da chegada em São Paulo...

 

R - Da chegada em São Paulo.

 

P/1 - Barro todo...

 

R - Então, quando eu cheguei, que eu olhei, que vi: “Ai, meu Deus, que pobreza, viu?” Aquele pessoal naquela dificuldade tão grande por água... Água, gente não tinha.

 

P/1 - Não tinha?

 

R - Não tinha. A pessoa que tinha um poço... Você sabe o que é, né? Esses poços, que eles falam? Então, aí tirava água para dar um balde d’água para a pessoa. Era aquela confusão. Aí, eu digo: “Oh, meu Deus, como é que eu vou ficar em uma lástima dessa?” Viver sem água! Na minha terra, o que mais a gente tem é água, né? “E agora vim para cá em um sofrimento desse!” E a gente... Eu fiquei... Aí a Valquíria, que era minha colega, a concunhada dessa minha cunhada, falou assim: “Ai, Vera, aqui é bom demais. A única coisa que aqui não presta é quando chegar o frio”. E quando cheguei assim, no mês de março, eu digo: “Ainda não tem frio, menina. Imagina, o frio daqui é esse? Ah, isso aí eu tiro de letra!” Para quê, menina... E o Ronaldo dizia sempre: “É, baixinha, deixa chegar o frio, deixa chegar no final de março, abril, maio... Você vai ver”. Ah, mas quando chegou aquele frio... E nessa época tinha névoa. Ainda tinha aquela névoa que dava. Hoje não tem mais, não tem garoa, não tem nada, mas tinha. Há trinta anos atrás, tinha sim. Menina, o dia em que eu amanheci, o dia, vi o mundo fechado de dia... Meio dia e o mundo escuro, tudo escuro com aquela névoa branca, eu digo: “Pronto, vou enlouquecer nesse lugar, eu quero ir embora, eu não vou ficar aqui. Um lugar que não tem sol, lugar que o sol some. Pelo amor de Deus, eu vou embora.” Mas aí eu pensava: “Não, eu vou ficar...

 

(PAUSA)

 

R - Aí cheguei, aí fiquei... Quando o frio começava cada vez mais, aí a gente já estava numa boa, já compramos vários cobertores, cobertores grandes, bons, tudo...

 

P/2 – Blusa...

 

R – Blusas. Aí já fui me aquecendo. Passei o primeiro ano, o segundo... já foi acostumando. Antes disso, que começou o frio, o Joab começou a empelotar. Ele sempre é branco, né? Aí começou a empelotar, ficar com aquelas pelotas vermelhas. Aí, eu digo: “Pronto, é Joab que vai fazer eu ir embora, porque se ele não se der aqui, a gente vai embora”. E eu ia mesmo. Por causa dele eu ia! Corria para o médico, quando chegava lá, o médico dizia: “Não, mãe, isso aqui não é nada. É porque ele não tem costume. Quando ele ficar mais acostumado com o lugar, coisa assim, aí isso aqui some, isso aqui desaparece”. E eu ficava com medo, digo: “Será que é verdade?” Mas, sei lá. E quando passou, depois de um ano, a gente já não tinha mais vontade de ir embora. Não dava mais vontade de ir embora de jeito nenhum. Minha sogra escrevia e chorava, lastimava porque a gente estava longe, tudo... e eu: “Ah, está bom”. Mas dava vontade. Aquela hora que eu recebia aquela carta dava uma saudade, aí depois eu ia refletir: “Não, chegar lá, vai começar tudo de novo.” Entendeu? Aí eu digo: “Não, vou ficar por aqui mesmo.” E fomos caminhando por aí devagarzinho, foi o tempo que a gente chegou e comprou esse barraco que eu falei, esse terreno. Fizemos esses dois cômodos e cavamos um poço. Tinha água para a gente e para os amigos. Tinha muita gente de lá, lá com a gente.

 

P/2 – De Natal?

 

R – Tinha bastante gente de lá, parente da família da minha sogra. Estava tudo aqui em São Paulo. E naquele meio, a gente se sentia muito em casa, entendeu?  No meio da parentada, né? Aí a saudade doía menos. Mas ainda hoje meu marido diz assim... Ele diz assim... O Joab fala assim: “Mãe, por que você não vai passear em Natal? Vai, eu fico.” Eu digo: “Ah, Joab, sei lá, eu queria ir em um dia e voltar no outro.” Assim... Ele diz: “Passa uns dois meses, lá.” Digo, “Ah, eu vou pensar no caso.” Mas não tenho vontade, não.

 

P/2 – Dona Vera, e aqui na COHAB, tem muita gente de Natal?

 

R – Aqui na COHAB? Olha, aqui na COHAB, você sabe de uma coisa? É muito difícil eu encontrar uma pessoa de Natal aqui. Eu acho que eu não encontrei ainda porque... tinha um, foi embora. Ele morava no quarto andar, era o Lazarone. Ele era guarda. Aí tomou um tiro, ficou paraplégico, aí foi embora com a família. Foi embora para Natal mesmo, está morando lá. Tem um mês que ele me ligou.

 

P/2 – E do Nordeste, tem muita gente?

 

R – Do Nordeste tem bastante gente. Tem bastante gente. Olha, aqui tem pernambucano... paraibano também tem... Não conhecido meu, mas tem paraibano, tem baiano que dá gosto... Minas. Nossa, tem muito, muito mesmo! E eu tenho... na escola eu conheço muita gente de Maranhão, Mato Grosso, Paraná, entendeu? Mas de lá não encontro quase ninguém, só os que tem aqui.

 

P/2 – Esse programa que a senhora vai, dessa escola, é um programa específico para alfabetização, ensino de adulto ou não?

 

R – Não, agora eu estou na Rede Pública mesmo.

 

P/2 – Ah, é Rede Pública?

 

R – É Rede Pública mesmo. É a Salvador Allende. Eu estudo lá desde a quinta série.

 

P/2 – Salvador Allende é a escola ou a rua?

 

R – É escola, é escola.

 

P/1 – Tem um menino aqui que estuda com a senhora?

 

R – Tem. O Cristiano, aquele que veio aqui. Ele estuda comigo.

 

P/1 – Quantos anos ele tem?

 

R – Ele tem vinte e três. Ah, desde os quinze anos que está estudando lá. Ele não liga, ele não liga, não.

 

P/2 – E de adulto, tem a senhora só ou tem mais gente?

 

R – Eu pensava que ia ter uma bagunça... A mais velha da sala, de mulher, sou eu. Homem tem uns dois bem mais velhos: sessenta e cinco, setenta, por aí. Mas tem bastante gente de idade na escola, sabia? Bastante mesmo. Eu fiquei pensando assim que... Ah, sei lá. Quando eu voltei para a escola, eu voltei mesmo, mas morrendo de medo porque eu pensava assim: “Caramba, eu nunca fui na escola”. A escola que eu tive foi bastante diferente. Não era professora... Aquela senhora que ensinava as crianças, mas não se compara com você estar em uma sala e entrar três, quatro professores, né? Bastante diferente. Eu pensava assim: “Eu acho que eu vou em uma semana, vou fugir no outro dia da escola porque não vai dar. Vão tirar o maior sarro de mim.” Pelo contrário, fui tão bem recebida. Não teve de jeito nenhum.

 

P/2 – Que bom, isso!

 

R – É, e tem muita gente. Minha alegria é que tem bastante gente de idade entrando na escola.

 

P/1 – Que legal, né?

 

R – Legal mesmo. Não tinha oportunidade, né? Eles não tiveram. E agora estão tendo.

 

P/2 – E o ... Bom, a gente sabe, mas... Fala um pouquinho do Joab, do seu filho.

 

R – Joab?

 

P/2 – A senhora disse antes da entrevista que tinha vindo para cá para ele estudar...

 

R – Estudar... É, o Joab sempre foi muito inteligente. Quando ele tinha três aninhos ele escrevia muito, em letra de forma.

 

P/1 – Três anos?

 

R – Três anos. Ronaldo, esse rapaz que a gente... que eu falo que vim por causa dele, que me esperou na rodoviária e tudo, então, ele ensinava o Joab. Ele dizia: “Vem aqui, menino”. Ele dizia que ia ser doutor. Que ele não passou nem perto. Pensou em tudo. Aí, ele dizia: “Vem aqui, doutor.” Aí ele ia com aquele caderno e o lápis também. Mas, o que você dissesse para ele fazer, ele fazia em letra de forma. Eu digo: “Bom, eu vou ter um filho muito inteligente...” Aí, eu já me conformava, olha só: aquilo que eu não pude fazer, meu filho vai fazer por mim e pelo pai dele... Que besteira, quem tem que fazer pela gente é a gente, né? Mas eu tinha essa ilusão. E já, quando foi com cinco anos, ele queria ir para a escola. Não entrava nessa... só entrava com sete. Eu coloquei ele no prezinho, mas aí chora ele e choro eu. Ele para não ir, eu para não deixar ele ficar. Entendeu? Aí, digo: “Não, não vai dar... Ele chora demais, eu também, eu vou tirar.” Tirei, deixei em casa. Quando era... Com cinco anos, ele já queria porque queria ir para a escola. Era lá onde eu morava, na Vila das Belezas. As professoras... Eu sempre fui assim, sempre tive boas amizades, sempre me dei muito bem com as pessoas, entende? Aí, aquelas professoras... Eu fui lá na escola, cheguei lá, falei assim: “Professora, o meu filho, ele tem cinco anos. Com quantos anos ele pode vir para a escola? Porque ele lê, escreve, ao mesmo tempo lê jornal...” Tudo que ele via, ele sabia e escrevia, e passava em letra de forma para ela. Aí ela fez aquele... sabe, "auê" para poder colocar ele dentro da escola para ele aprender; com cinco anos. E foi uma barra, minha filha! Aí, meu Deus, foi uma luta tão grande! Colocaram ele lá e aí aparece uma e aparece outra... e vem um pessoal que já... Sabe aquela coisa? “É, porque o menino é muito inteligente, porque isso, porque aquilo”. Eu só continuei... eu coloquei ele na escola com cinco anos. Coloquei ele na escola.

 

P/2 – E aqui ele chegou a ir na escola ou ele já estava na idade de faculdade quando vocês mudaram para cá?

 

R – Não, quando nós mudamos para cá ele estava na sétima série.

 

P/2 – Ah, tá. E tinha escola aqui, em Itaquera?

 

R – Tinha. Tinha... Onde mesmo? É... Como é que eu posso te dizer... Depois do Barateiro, não sei se você viu o Barateiro ali. Tem o asilo dos velhinhos, atrás do asilo dos velhinhos tem uma escola. Só tinha ela.

 

P/2 – Só uma escola?

 

R – Quando nós chegamos para receber a chave da casa eu já fui naquela escola para conseguir vaga para Joab.

 

P/2 – E como era? Tinha vaga?

 

R – Quando eu cheguei lá, conversei, ela disse: “Olha, eu posso te arranjar a vaga, só que você vai ter que trazer primeiro o histórico dele”. Então está bom, tudo bem. Aí eu fui na escola, elas facilitaram tudo para mim, eu trouxe e levei, peguei logo vaga para ele. Ele era muito estudioso, peguei vaga para ele. Aí, quando nós mudamos no mês de setembro, não sei se ele sentiu a diferença da escola de lá para cá, ou dos professores ou dos colegas, não sei, eu sei que ele repetiu a sétima série. Aí eu digo: “Não tem nada, meu filho, mas você pelo menos já está na escola.” Daí, de lá para cá, ele nunca mais repetiu nada e terminou tudo aqui mesmo, na escola do Estado. Nunca paguei nada de escola para ele. Aí, ele disse: “Agora eu vou entrar na USP.” Virgem Maria! E o pessoal me fazia tanto medo, dizia: “Lá na USP só estuda filhinho de papai, você não vai poder pagar a USP para Joab. Se eu fosse você eu não deixava ele fazer porque como que ele vai fazer esse vestibular? Ele passa e daí?” Aí eu dizia: “Ai, meu Deus! E agora?” E eu ficava, dizia: “Ah, seja o que Deus quiser!” Deus quis que fosse mesmo, né? Ele fez e passou. Para nossa surpresa passou de cara.

 

P/2 – Que bom, né?

 

R – Aí começou a estudar na USP, se formou, é historiador. Agora continua estudando, mas Música.

 

P/2 – E, dona Vera, vamos falar um pouquinho do Metrô. A senhora estava aqui quando o Metrô daqui foi construído?

 

R – Metrô dessa parte aqui, do Bonifácio?

 

P/2 – Não, lá de Itaquera?

 

R – Lá do Metrô de Itaquera? Estava, estava aqui sim.

 

P/2 – E o que vocês ouviam falar do Metrô?

 

R – Olha, eu não sabia nem o que era Metrô.

 

P/2 – Ah, é?

 

R – Mas eu ouvia falar do Metrô, mas eu não sabia o que era, entendeu?

 

P/2 – Entendi.

 

R – Não sabia mesmo. Não vou te dizer que sabia porque eu não sabia. Mas falavam... "que o Metrô... porque o Metrô... porque o Metrô...” Aí, quando... depois que inaugurou a gente já morava aqui, inaugurou o Metrô. Aí eu vou para a cidade de Metrô. Aí, quando chegou lá, que eu entro naquilo, eu digo: “Isso que é Metrô, meu Deus?”. Eu fiquei completamente perdida, assim, imaginando: “E se não parar mais para a gente descer? Onde é que vai parar isso? E se a gente não souber que ele parou para a gente descer?”. Aquilo me fazia uma confusão porque eu peguei pela primeira vez. Eu lá sabia que ele ia parar no lugar que eu queria ficar, por acaso? Eu não sabia, né?

 

P/1 – Para onde a senhora queria ir?

 

R – Então, para a Praça da Sé, né? Mas ele ia até a ... Aonde? É... Mais embaixo, Santa Cecília. Eu dizia: “E quando chegar?” Mas aí o Joab já era inteligente, o Joab foi comigo. Aí, quando chegou lá, ele disse: “É aqui, mãe. Vamos descer.” E a gente desceu. Aí pronto, eu acostumei. Comecei a pegar o Metrô sozinha. Mas eu morria de medo, tanto do Metrô como da escada rolante. Oh! Precisa ver, menina. Nossa Senhora! Aquilo para mim era um desespero porque eu tinha um pânico, assim, de elevador. E da escada, quando eu via, eu digo: “Ai, não aguento, ela fica girando assim para o meu lado.” Eu ficava... sabe? Eu digo: “Ah, eu não vou nessa escada. Eu não desço nessa danada nunca!” Imagina, só desci uma vez e acostumei. É como o Metrô agora...

 

P/2 – E agora, a senhora ainda toma o Metrô?

 

R – Tomo, tomo Metrô. Agora tomo sozinha, vou sozinha.

 

P/2 – E daqui para lá?

 

R – Daqui para lá? Eu... Daqui para lá, é o seguinte, eu não tomo trem, porque se eu pegar o trem, eu vou até o Corinthians. Aí eu desço e pego o Metrô do mesmo jeito, que o trem é maravilhoso, o trem. As meninas dizem que é uma beleza de trem, entendeu? Não tem quase diferença nenhuma do Metrô, mas eu não fui ainda. Eu pego sempre o ônibus aqui, aqui na frente de casa. Acho que é preguiça de descer até ali.

 

P/2 – Entendi.

 

R – Eu pego o ônibus aqui, vou até o Metrô e vou para onde eu quiser agora, sozinha. Não tem mais problema. Nem com a escada, nem com o Metrô. Você vê? Conhecer é fogo, né? Daquilo que você não conhece, você morre de medo.

 

P/2 – A senhora conheceu aquele lugar, onde tem o Metrô hoje, antes da construção?

 

R – Conheci, meu marido trabalhou ali.

 

P/2 – Ah, é?

 

R – Trabalhou. Ele trabalhou naquela parte do Belém... Na parte do Belém para cá, para o Carrão.

 

P/1 – Nas estações?

 

R – Ele trabalhou nas estações, construindo.

 

P/1 – Ah, é? E o que ele falava?

 

R – Ele nem sabia o que era. Ele trabalhava, trabalhava... trabalhava na construção do Metrô. A mesma coisa que eu; não sabia o que era o Metrô. Aí, dizia: “São os carros que vão entrar debaixo do chão.” Dizia: “Ai, carro entrar debaixo de chão! Demais, né?” (risos) Sei lá, também não sabia o que era: “Pode ser que seja.” E era mesmo! É que aquela parte ali não tem nada por debaixo do chão, né?

 

P/1 – P/2 – Não.

 

R – Tudo por cima, mas ele pensava que ia passar tudo por debaixo do chão.

 

P/2 – Ele trabalhava na obra, então?

 

R – Trabalhou na obra. Ali no Metrô.

 

P/2 – E o que é que ele contava da obra?

 

R – Nossa Senhora, aquilo é um absurdo! Ele diz que é tanta gente que trabalha ali e aquelas pessoas trabalhando debaixo daqueles... Daqueles buracos, né? Porque na prática, mesmo, quando você começa a cavar o Metrô, aquilo nada mais é do que uns buracos profundos. Se uma pessoa sofrer um acidente ali pouco vai interessar para quem souber porque não vai nem tirar dali. Porque é muito barro, é muita coisa, eles cavam tudo ali. Quando ele veio trabalhar ali, as máquinas já tinham feito o serviço de base. Aí, ele já veio fazer serviço mais fora, com aquelas escadarias de cimento, aquelas coisas ali, aqueles cômodos, aquelas coisas da estação. Mas que aquilo ali é um... Deve ser um mal na cabeça, é! (risos)

 

P/1 – Para onde a senhora gostaria que tivesse Metrô agora? Se a senhora for pensar assim, depois de Itaquera, para onde precisaria de Metrô para cá?

 

R – Olha, eu acho que o Metrô deveria se estender sim para cá porque tem (Cidade) Tiradentes para cá...

 

P/1 – Praça Tiradentes?

 

R – É. Tem o Tiradentes para cá, tem esses bairros de São Miguel. Isso é um sofrimento, gente! É uma tristeza esses lugares por aí. Eu gostaria que ele passasse, pelo menos esse trem aí, fosse para esses lugares aí.

 

P/2 – Por que é uma tristeza lá?

 

R – Por causa do transporte. Você já pensou você passar três, quatro horas dentro de um transporte? É muita coisa para quem trabalha, né? Eu gostaria. Gostaria mesmo.

 

P/2 – Dona Vera, o que a senhora mais gosta aqui do bairro onde a senhora mora?

 

R – É que... Sei lá, a pessoa passa duas horas dentro de um transporte, é muito ruim, né? É muito sofrimento. Hospitais que eles também não têm.

 

P/1 – Lá para o lado de São Miguel?

 

R – Não, São Miguel tem. Tiradentes, aqueles... São Paulo, Jardim São Paulo, ali.

 

P/2 – Como é dividida a COHAB, a senhora sabe?

 

R – A COHAB, eu não sei bem como é a divisão dela, mas aqui mesmo são três COHABs.

 

P/2 – Três COHABs?

 

R – É, Tirandentes, José Bonifácio e... Ai, como é a outra? Anchieta! E Anchieta. Anchieta é COHAB 1. Aqui é COHAB 2.

 

P/2 – Aqui é a José Bonifácio, né?

 

R – Aqui é José Bonifácio. Anchieta também é José Bonifácio II, I... Tem tanto... Ah, é um conjunto, né?

 

(PAUSA)

 

R - Ai, caramba, cansei!

 

P/1 – (risos) Já está acabando.

 

R – É a garganta. Tudo bem.

 

P/2 – Então... e o que a senhora acha que mais mudou aqui desde que a senhora chegou?

 

R – Tudo. Tudo mudou aqui: iluminação, desenvolvimento urbano... Um monte de coisa mudou.

 

P/2 – O que mudou na iluminação?

 

R – A iluminação daqui era muito ruim. A rua muito escura. Era muito... Assim, quase não tinha mesmo. A realidade é essa, né? E agora não, agora é tudo iluminado. Você pode vir aqui a qualquer hora da noite, as ruas são um dia. Eu vou à pé e venho lá no Salvador toda noite. Tudo claro, tudo iluminado.

 

P/1 – Sem problemas?

 

R – Não tem problema, de jeito nenhum. O único problema aqui é assalto que ainda tem muito. Nossa Senhora! Não é bem assalto, é mais um assassinato mesmo.

 

P/2 – Por que é que tem esses assassinatos? Acerto de contas, essas coisas?

 

R – Eu acho que é droga, né?

 

P/2 – E como é que a senhora se dá com a vizinhança?

 

R – Super bem.

 

P/2 – É? E, dona Vera, como é que a senhora gostaria que fosse o bairro, assim, no futuro? Daqui a trinta, cinquenta anos?

 

R – Bom, eu gostaria que ele fosse livre dessas drogas que tem, né? Acabasse com essas drogas, tivesse mais escola, mais desenvolvimento, como cultura, lazer... Alguma coisa assim, tipo banco, mais mercados para fazer concorrência, que cada vez mais isso melhora. (risos) Quando tem concorrência melhora.

 

P/2 – Abaixa o preço.

 

R – É, abaixa o preço. E que as feiras livres melhorassem um pouco. As feiras ainda estão fracas. Mercadoria, esse tipo de coisa assim, e lazer que não tem nada de lazer para ninguém...

 

P/2 – Aqui nesse pedaço?

 

R – Aqui nesse pedaço. Tem clube aí, mas a gente não vai porque os drogados tomaram conta.

 

P/2 – Como é que chama o clube?

 

R – Ai, eu não sei o nome desses clubes, nunca vi nome de nenhum aí. Só conheço como Clube da COHAB, só.

 

P/2 – E como é o dia a dia da senhora hoje, a sua rotina?

 

R – Meu dia a dia é muito simples. Começo o dia, tomo conta da casa, limpo... que hoje eu não limpei... (risos)

 

P/1 – A gente atrapalhou a senhora!

 

R – Não, por causa da gripe mesmo eu não fiz nada. Lavo, passo, cozinho, converso com os vizinhos, alguns que vêm pedir alguma coisa de informação, discutir algum problema junto comigo. Simples, não tenho muito...

 

P/1 – E à noite vai para a aula?

 

R – À noite vou para a escola. Saio às dezenove, dezoito e cinquenta e cinco, volto às vinte e três e vinte. Chego, está tudo em paz. Espero o Joab, ele janta, vou dormir também, acabou. Um dia a dia simples.

 

P/2 – A senhora tem netos?

 

R – Só a Alice, só uma netinha.

 

P/2 – Quantos aninhos?

 

R – Cinco anos. Linda, ela! Você não conhece, né?

 

P/2 – Não.

 

R – É linda!

 

P/2 – Está joia. E, dona Vera, a senhora tem algum sonho, assim, que a senhora gostaria de realizar?

 

R – Pior que eu tenho, viu? Mas acho... Eu não sei, não sei se está tarde para realizar, se eu vou conseguir... por causa da idade. Não sei... Mas eu vou tentar. Eu sempre quis ser psicóloga ou assistente social, e eu vou tentar. Não sei se eu vou conseguir, mas vou tentar. Pelo menos isso, eu vou tentar.

 

P/1 – Legal!

 

R – Eu não sei se eu vou chegar lá, mas que eu vou, eu vou.

 

P/1 – Chega sim!

 

R – Se deixar eu chego. Só, eu não sonho muito, não. Em ver a minha família feliz, né? O sonho dos pais é ver o filho feliz, o sonho da esposa é ver o esposo feliz. Esse tipo de sonho. É pouca coisa que eu quero na vida. Não quero muito, não. Não penso em riqueza. Penso em viver bem, só. Às vezes a riqueza não deixa ninguém feliz, né? Dá muito trabalho ser rico.

 

P/2 – Então, dona Vera, a gente está terminando... A senhora tem algo mais para falar, que a senhora queira deixar registrado?

 

R – Não tem não.

 

P/2 – Só isso?

 

R – Acho que está bom, não está?

 

P/2 – Para a gente está ótimo.

 

R – Então, se serviu para vocês, para mim também. Tive o maior prazer em ajudar, se deu para ajudar em alguma coisa.

 

P/2 – Para a gente foi muito bom. A gente agradece muitíssimo a sua entrevista, está bom?

 

R – Tudo bem. Só peço desculpa nos erros...

 

P/1 – Imagina, foi uma delícia!

 

R – Obrigada.



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