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História

A carreira e espaço da mulher no mercado de trabalho

História de: Carla Maria Bernaderi Massabki
Autor: Érika
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Nessa entrevista, Carla Maria compartilha sua história, iniciada no momento em que concorreu à vaga de um projeto no instituto Dieese, migrando para uma nova área de atuação. Em comemoração aos 50 anos do instituto, em 12 deles, Carla fez parte e ela conta como foi o processo na transição de carreira e como é estar em um cargo de chefia na empresa.

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História completa

Projeto Memória Dieese 50 anos Entrevistado por: Caroline Ruy (P1) e Marcelo Fonseca (P2) Depoimento de: Carla Maria Bernaderi Massabki Local: São Paulo Data: 27 de novembro de 2006 Realização: Instituto Museu da Pessoa Código: DIEESE_TM012 Transcrito por: Michelle de Oliveira Alencar Revisado por: Caroline Cristine da Silva P/1 – A gente vai começar pela sua identificação, eu queria que você falasse o seu nome completo, local e data de nascimento. R – Meu nome é Carla Maria Bernaderi Massabki. Eu nasci dia 18 de maio de 1962, em São Paulo, Capital. P/1 – Carla, qual que é a sua formação? R – Eu sou formada em psicologia. P/1 – Por que você optou por esse curso? R – Desde criança eu tinha vontade de fazer psicologia, desde os 10 anos eu decidi fazer e acabei entrando, gostei, fiquei até o fim, me formei. Depois disso eu trabalhei dez anos com educação, logo que eu saí da faculdade que tá ligado com a psicologia, né? P/1 – Seu primeiro trabalho foi na área de educação, então? R – Foi. P/1 – Você nunca tinha trabalhado antes? R – Tinha feito estágio na faculdade só. Mas eu trabalhei com escolas de crianças de 0 a 6 anos por dez anos em diversas funções, concomitantemente a faculdade e depois que eu me formei também. P/1 – E depois, você trabalhou em que? Qual foi a evolução, assim, da sua vida profissional em linhas gerais? R – A evolução, por incrível que pareça, não foi na minha vida profissional, foi na minha vida pessoal. Eu me casei, tive dois filhos e aí eu decidi parar de trabalhar com a escola porque achava a vida deles muito invadida. Eu trabalhava na escola que eles estudavam, então não tinham histórias para me contar, para eles isso era muito chato, né, porque as outras crianças contavam novidades para as mães e eles não tinham novidades para contar. E aí eu comecei a trabalhar com pesquisas de mercado em vários institutos, até que fiquei sabendo dessa vaga no Dieese, em um novo projeto e comecei a trabalhar aqui no Dieese em 1994. P/1 – Antes de entrar no Dieese, quando você trabalhava com educação e fazia faculdade, você conhecia o Dieese? R – Conhecia de ouvir falar. Sabia que existia o trabalho do Dieese, que era um instituto que trabalhava com pesquisas, que estava ligado aos trabalhadores, enfim, eu tinha uma noção do que era o Dieese, mas não o conhecia aqui. P/1 – Você foi o conhecer depois? R – Eu vim o conhecer depois. P/1 – Quando você começou nessa pesquisa de mercado? R – Eu conheci quando vim para a seleção mesmo. Fazia trabalhos de pesquisa, mas não iguais aos que eu comecei a fazer aqui. Eram trabalhos de pesquisa de arrolamento em quarteirão, pesquisa sobre produtos. E aqui comecei na pesquisa de orçamento familiar. Então, era um trabalho muito dentro dos domicílios, era um trabalho muito diferente do que eu tinha feito antes, né, você conhecia famílias e permanecia em contato com elas durante um mês inteiro. Então, você conhecia a história dessas famílias e ficava sabendo os dados necessários para a pesquisa do Dieese, mas você tinha que ter um contato de confiança com as pessoas. E aí você acabava conhecendo várias famílias durante um mês e depois o mês seguinte, mudava de domicílios e assim ia. E eu fiquei nessa pesquisa durante 13 meses, que é o total dela mesmo. P/1 – E eles davam alguma instrução aqui no Dieese? R – Sim, faziam um treinamento. Primeiro teve uma etapa de seleção para saber o que a gente já tinha feito na vida ou não, se tinha o perfil para o cargo, etc. E depois eles deram treinamento para a gente, contando primeiro o que significava a pesquisa, como ela aconteceria e como fazia para chegar aos lugares. Qual o tipo de abordagem que deveríamos ter com as pessoas para conseguirmos, efetivamente, a confiança delas. Porque você estava dentro da casa de cada uma delas durante um tempo. Elas poderiam dizer para você que não queriam que entrasse, então, você tinha que saber como abordar, né? E tivemos esse treinamento sim, durante algum tempo, eu não me recordo quanto, mas o suficiente para a gente conseguir efetivar a pesquisa, né? P/1 – E qual que era o método de vocês? Era uma coleta de dados, né? R – Era uma coleta de dados. Essa pesquisa era assim: já existia o projeto do Índice do Custo de Vida [ICV] aqui no Dieese, sendo praticado a muito tempo. E de tempos em tempos era necessário haver uma, como vou dizer, saber quais os hábitos da população que haviam mudado, por exemplo, de repente foi introduzido o DVD na casa das pessoas, não existia antes. Foi introduzido o CD Player, isso também não existia. Enfim, esses hábitos vão mudando de tempos em tempos, então, a gente tem que fazer essa pesquisa de orçamento familiar para rever os hábitos, se eles ainda são compatíveis com aquela pesquisa do ICV que está em campo, o que é compatível, o que que tem que acrescentar e o que precisa ser retirado. Essa pesquisa de 13 meses servia exatamente para isso, um levantamento de hábitos novos em artigos de consumo, de tudo que as pessoas consumiam nas suas casas durante um mês fechado. Tudo de alimentação, tudo de vestuário, tudo de prestação de serviços, de reformas, tudo, todos os gastos absolutamente. As pessoas escreviam numa cadernetinha para a gente e entregavam a cada semana, guardavam as notas fiscais, o que não tinha nota fiscal eles escreviam. Assim era, a gente dava um trabalho para alguém fazer, para uma família inteira fazer para você, todos os membros da família precisavam fazer as suas anotações. Eles tinham que gostar de você para isso, senão você não conseguia que eles fizessem, né? E era muito importante que as anotações fossem bem feitas e completas, o que não dava para entender, cabia a nós perguntar e esclarecer, mas para ser completo, dependia única e exclusivamente deles, né? P/1 – E as pessoas aceitavam “numa boa”, ou tinha muita resistência? R – Tinham lugares que havia muita resistência sim e em outros você se sentia em casa, é muito de cada um, né? Mesmo que você tenha a mesma abordagem, uma abordagem simpática e claro, que também explique exatamente para que serve a pesquisa e uma identificação clara, para todo mundo saber de onde você precede etc., mesmo assim, existem pessoas que não querem que você entre na casa. Essa resistência era maior nas classes mais altas, era muito mais difícil você entrar na casa dessas pessoas, não que fosse impossível, mas era uma resistência mais comum. P/1 – Você lembra de alguma situação que tenha sido difícil, com relação as pessoas que forneciam esses dados? R – Olha, existiam pessoas muito simples que, por mais que você explicasse, era muito difícil de entender exatamente o que você precisava. Então, você tinha que ter muita paciência. Eu não vou conseguir saber o nome de uma pessoa assim, mas existiam muitas situações que demandavam bastante tempo e que você explicasse com muitos detalhes, ou que exemplificasse mesmo. Isso é muito da sensibilidade da gente também, de cada dia, de cada pessoa. Aí entrava criança correndo na sala e a mãe perdia o que estava falando, tendo que retomar, enfim, você tinha que ser muito sensível, porque você estava dentro da casa das pessoas, sentava, tomava café. Então, participava do dia-a-dia dessas pessoas também, né? P/1 – Como foi para você mudar de área? Porque foi para essa área de custo de vida e estava na área de educação antes, é bem diferente, parece. R – Eu precisava, na época que eu entrei no Dieese de horário de trabalho flexível. Eu tinha filhos muito pequenos e eu tinha que levar para escola, trazer da escola, enfim. E esse trabalho de pesquisa fazia com que eu tivesse uma cota certa de trabalho para realizar e eu dependia dos horários que eu combinava com cada morador de domicílio. Então, eu podia ajustar o meu trabalho aos horários dos meus filhos e isso para mim naquela época, foi de extrema importância. Eu precisava desse trabalho, não tinha como ser outro. Ainda mais por ter trabalhado com educação e entender de forma muito clara a educação que eu queria dar para os meus filhos e que eu já tinha dado para várias pessoas. Então, nesse sentido, o Dieese teve uma importância muito grande na minha vida mesmo, né? P/1 – Você entrou no Dieese quando? Em que ano? R – Em 1994. P/1 – E você entrou nessa pesquisa de orçamento familiar? R – De orçamento familiar. Era uma pesquisa e quando a gente entrava, já sabia que duraria exatamente treze meses. E quando a pesquisa acabava, analisávamos todos os dados e revíamos o ICV anterior. E aí a gente brincava que ia colocar o ICV novo em prática, né, ia rever o antigo e ia colocar o novo. Quando acabou esse processo todo, fui chamada para implantar o ICV novo. Então, entrei como pesquisadora desse Índice de Custo de Vida com mais pesquisadores, continuaram os antigos e acrescentaram alguns outros e foram modificados questionários, etc. Então eu continuei e continuo até hoje aqui [risos]. P/1 – Então, até hoje você faz a sua trajetória, sempre fez a mesma, como é? R – Esse ano estou mudando de função, começando a trabalhar internamente no Dieese. Mas até pouco tempo, alguns meses atrás, eu estava trabalhando como pesquisadora mesmo. P/1 – E você vai mudar pra qual função? R – Vou continuar dentro do Índice de Custo de Vida só que um trabalho interno, os processamentos, as tabelas, etc. Todas as coisas que a gente tem que fazer internamente, mas vou ficar no mesmo setor. Continuo no mesmo setor. P/1 – Então, além das pesquisas o Dieese também tem uma parte de educação, de formação, têm diversas áreas que o Dieese trabalha, né? Como você vê essa diversidade? R – Para o Dieese? P/1 – Sim. R – Eu acho bastante importante o caminho que o Dieese fez no decorrer do tempo, apareceram necessidades e surgiu tudo isso, acho legal. Dentro da pesquisa não tem muito contato com essas outras áreas na verdade, não tem porque trabalha muito tempo fora do Dieese. Então, o contato internamente acontece apenas em alguns dias na semana, não tem tanto contato com essas outras áreas, né? P/1 – Você tem... Bom, mesmo não tendo contato, assim, você sabe que o Dieese faz, enfim, um trabalho de educação. Você tem alguma opinião sobre esse trabalho sendo educadora? R – [risos] Olha, eu não consegui ter tempo ainda para ver esse trabalho. Eu não sei te dar uma opinião agora. P/1 – Então, você disse que trabalha muito tempo fora daqui, né, muito assim externo. R – Isso. P/1 – Como é o dia-a-dia, assim, seu dia-a-dia nesse trabalho? R – É, ele tem vantagens e desvantagens. Muitas pessoas vêem a gente trabalhando na rua e acham: "nossa, esse era o trabalho que eu queria para mim! Você trabalha no horário que você quer”. Não é bem assim. Você trabalha e tem que ter em vista o trânsito, os meios de locomoção são muito importantes, você tem que saber direitinho para onde você vai ou não. Você tem que ter alternativas de como se locomover, porque São Paulo é caótico, tudo isso. Você pega intempéries de clima, chuva, alagamento, enfim, muito sol, você se cansa mais, enfim, tem uma série de coisas para quem trabalha na rua. É complicado, você pega tiroteio no centro da cidade [risos]. Eu já fiquei escondida dentro de loja esperando acabar um tumulto de camelô, enfim. E não só eu, né, todos os pesquisadores passam por isso também, né? Então, tem uma coisa que é legal: você tem muito contato com bastante gente, conhece muitos lugares... as pessoas que têm um consumo mais evoluído do que o seu acham ótimo, porque vão e já compram um monte de coisa, etc. Já fazem pesquisa, e já, não é bem o meu caso. Mas enfim, você está sempre informado de preço, de coisas novas. Então, tem todo um lado que é legal, mas tem todo esse lado também que tem que ser planejado, e tem que ser bem planejado. Você deve estar sempre atento, deve saber se tem greve de ônibus, se tem greve de metrô, se tem um lugar que tem um acidente. Enfim, a gente sempre está atento a isso. Se você conversa com um pesquisador, ele sempre sabe aonde chegar, ele sempre sabe o que tá acontecendo, porque se ele não souber o dia dele pode se tornar muito difícil. O trabalho dele pode ficar atrasado. P/1 – Essa pesquisa de Índice de Custo de Vida é o que? Enfim... R – O que a gente coleta, você quer saber, é isso? P/1 – É o principal do Dieese, né, parece assim. R – É meio, hoje eu não sei mais se é o principal, mas é meio o carro-chefe. Muita gente conhece essa pesquisa, a pesquisa do Índice de Custo de Vida e da cesta básica, né? Então, tem muita divulgação dos meios de comunicação. Quando você fala o ICV do Dieese as pessoas já lembram que viu na televisão, tal, no rádio. Então sim, nesse sentido tem a cara do Dieese mesmo. P/1 – E fazendo esse trabalho, como você é vista, assim, pela equipe? Como que é a sua relação com pessoas que trabalham aqui internamente? R – A minha relação é legal. É que eu trabalho muitos anos aqui, né? Então assim, mesmo que eu não fique aqui o dia inteiro, agora até fico, mas quando eu não ficava eu tenho contato com... durante tanto tempo você acaba tendo bastante contato com as pessoas, né, então para mim é legal, é tranquilo. P/1 – Você acha que é um trabalho valorizado aqui ou é um trabalho como qualquer outro? R – Olha, é um trabalho diferente, né? Porque existe o trabalho do pesquisador e existe o trabalho dos técnicos mais internos. Então são dois trabalhos bastante diferentes. Lógico que tanto um quanto o outro são respeitados. Mas só, não sei, não entendi exatamente o que que você queria saber. P/1 – Eu queria saber se esse trabalho é visto como uma coisa especial ou não. Por ser o carro-chefe, enfim. R – Eu acho que é um trabalho visto com bastante carinho, assim pelo Dieese como um todo. Acho que é visto com bastante carinho sim. P/1 – E você disse que trabalha há muitos anos nessa mesma função. Mudou alguma coisa na estrutura de trabalho durante esses anos? R – Mudou um pouco. A gente começou com uma equipe muito grande nessa primeira pesquisa, da POF [Pesquisa de Orçamento Familiar]. Algumas pessoas ficaram e poucas ficaram para trabalhar no Índice de Custo de Vida. Depois passamos por várias crises no Dieese, então tiveram algumas demissões voluntárias e a diminuição do quadro, né? Quando a gente começou a trabalhar no Índice de Custo de Vida, cada pesquisador tinha uma região bastante clara. Por exemplo, uma pessoa trabalhava com a Zona Sul, outra com a Zona Norte, e a gente tinha pesquisadores que moravam em todas essas regiões, porque eram muitos, né, e concentrava-se assim. Com as demissões, esse quadro mudou bastante, porque já não se tinham pesquisadores em todas as áreas e não foram contratadas outras pessoas. Então, por exemplo, alguns trabalhos foram redivididos, o que significa hoje que ninguém trabalha numa zona só, todo mundo trabalha em praticamente todas as zonas. É legal porque você conhece tudo, não é um trabalho monótono, mas é bem diferente do que era no começo, né? P/2 – Você falou durante uma fala anterior que, o pesquisador entra diretamente na vida das famílias, né, você senta para tomar um café, as pessoas abrem as portas das casas delas para vocês entrarem, então, automaticamente o pesquisador acaba sendo meio que o primeiro a saber como é a imagem do Dieese lá fora. Dessa sua experiência como pesquisadora, como você via que as famílias enxergavam o Dieese através de vocês? R – Isso que você está relatando é verdade, nessa primeira pesquisa, não nessa parte de Índice de Custo de Vida porque a gente trabalha mais com o comércio. Mas assim, a palavra Dieese, acho que a primeira coisa que suscita nas pessoas é: "Ah, você que ajuda o meu salário aumentar!" [risos]. É muito gozado porque eles associam aos sindicatos que tem como parâmetro o ICV do Dieese levantado e aí vão ajustar de acordo com índice que a gente preparou na rua, né? Então, eu tinha uma receptividade muito grande de algumas pessoas exatamente por causa disso. Existem as pessoas descrentes que: "Ah, lá vem mais um pessoal de pesquisa, isso não serve pra nada, não é verdade!", "Como não é verdade? A gente está aqui, você não está vendo? É pesquisa real, tal". Enfim, mas eu acho que o nome Dieese em poucos lugares, não tem lugares muito distantes que não tenham ouvido falar no Dieese, mas também não ouviu falar em muita coisa. A maior parte das pessoas escutaram falar no Dieese sim e associam o Dieese a trabalhador. Esse é o que para mim ficou muito dessa pesquisa dentro dos domicílios que você está relatando. P/1 – Na sua avaliação, qual a importância do Dieese para o movimento sindical? R – Movimento sindical? Eu acho que o Dieese é muito importante para o movimento sindical. Não tem como a gente imaginar Dieese sem movimento sindical. Eu nem estou sabendo muito como te falar, porque para mim as coisas estão ligadas, que não tem muito como pensar separado, né? Eu acho que os dois fazem, fizeram uma história e fizeram uma história juntos. Não tem quem imagine o Dieese sem pensar o movimento sindical hoje. P/1 – E você acha que existe um reconhecimento do Dieese dentro do movimento sindical? R – Eu acho que sim. Eu acho que tem sim. P/1 – E qual a importância do Dieese para a sociedade em geral, assim, na sua avaliação? R – É um instituto de pesquisa que não é do governo, isso é uma coisa que é muito importante, em alguns lugares que a gente vai. Nessa pesquisa de orçamento familiar primeira que eu fiz, é muito importante para algumas pessoas que você não seja do governo, né? Eles queriam alguma coisa a parte. Ah, eu me perdi, o que você tinha perguntado mesmo? P/1 – Qual a importância do Dieese na sociedade em geral. R – Na sociedade em geral? Ter um instituto de pesquisa que possa pesquisar preços, assim... não sei, a imagem que o Dieese tem da sociedade que eu escuto. De sociedade que eu falo, é de gente mesmo, que a gente encontra é assim: parece mais fidedigno o trabalho que você está fazendo. O índice parece mais próximo da realidade. É o que a gente tem de feedback na rua com as pessoas, né? É um índice que não é manipulado. Pelo menos é o que eu escuto das pessoas com as quais a gente vai fazer pesquisa. P/1 – E você disse que as pessoas acham, reconhecem que não é ligado ao governo e que isso seria uma... R – É, existem muitas pessoas que acham que é ligado ao governo, a primeira coisa que te falam, então você explica, etc. e elas conseguem entender. Outros já sabem que não e não deixariam porque, assim, eu esqueci de dizer que a gente na rua também faz um trabalho que é o seguinte: quando fecha um estabelecimento que você sempre fez pesquisa, você abre um estabelecimento novo. Então, você tem que se apresentar nesse lugar de idêntico valor. Vamos supor é um supermercado, você tem que ir em um supermercado, se for uma loja de discos, você tem que ir em uma outra loja de discos. Você tem que apresentar o Dieese para eles e conseguir a permissão para ir uma vez por mês fazer pesquisa de ICV e você tem que conseguir essa permissão. Então, muitas pessoas, quando você chega e se apresenta como do Dieese, se eles entendem que o Dieese é do governo, o que eles não querem é que tenha uma pesquisa do governo lá, entendeu? E aí o Dieese ser ligado ao movimento sindical é muito importante. Porque depois que você já está lá dentro, tudo bem, você já tem um vínculo de confiança e a coisa vai acontecendo, mas na hora da abertura, essa coisa de ser do governo ou não é importante. P/1 – Por que você acha? O que diferencia ser do governo ou não? R – Eu acho que eles se preocupam com os impostos a pagar, sabe? Com fiscalização. Não é que o governo é ruim, não é isso, é uma outra preocupação, né? É de estar sendo fiscalizado, é aquela coisa de: "Será que eu vou poder agir normalmente como eu sempre faço aqui, vou ter que mudar?". Não sei, acho que vai mais por aí. P/1 – Então, o Dieese está fazendo 50 anos agora, né? R – Sim. P/1 – Você acha que no futuro existirá ainda essa demanda de cálculo de Índice de Custo de Vida, enfim, qual que é a perspectiva futura para o Dieese, na sua opinião? R – Olha, eu acho que a gente tem uma inflação mais controlada hoje, mas o Índice de Custo de Vida continua sendo importante. Mesmo em países que a inflação é muito pequena, a pequena variação tem um peso. Então, eu acredito que sempre seja importante. P/1 – Então você acha que tem uma sobrevida? R – Eu acho que tem sobrevida, sim. Acredito que sim. P/1 – Para você, como mulher, já sentiu alguma discriminação ou não? Como que é trabalhar no Dieese assim? R – Na instituição você fala? Não na rua, aqui dentro? P/1 – Nas duas partes, aqui dentro e na rua. Como é? R – Aqui dentro não vejo nenhum problema, absolutamente, não tem nenhum, é tranquilo trabalhar com mulher, ou tanto faz, acho que não tem nem o que discutir. Na rua existem alguns locais que a gente precisa trabalhar que acontece isso sim, mas não é por causa do Dieese. Uma mulher que tenta abrir – “abrir” é o jeito que a gente chama de abrir o estabelecimentos – em alguns lugares como mecânica, como revendedora, lugares que são ditos como masculinos, existem alguns lugares que a gente tem alguns problemas sim e existem outros que é meio tranquilo, que depende da pessoa que está lá para te atender, né? Mas existem locais extremamente masculinos e que você se sente medida desde a hora que você entra até a hora que você sai e ele é muito complicado, ou então que eles não conversam com mulheres, "não, essa pesquisa é bobagem!". Enfim, tem alguns lugares mas isso não tem a ver com o Dieese, tem a ver com o que se pensa lá fora também, né? P/1 – Você passou por alguma situação ilustrativa que você possa... Ilustrativa que eu digo, alguma situação que você lembre, marcante? R – Assim de... Ah, a gente lembra, eu lembro de vários "nãos" assim. [risos] Por que você tenta e "Não, porque..." "Não, não, não, deixa pra depois", não tem nem uma justificativa de porque que você não pode ir, porque você não pode entrar no lugar, “tal”. Bom, não vou saber te dizer, mas assim, em mecânicas em especial, não só eu como outras minhas colegas, porque a gente divide, tanto faz aquele estabelecimento que você vai, vai homens e mulheres, tanto faz, você vai tentar abrir o estabelecimento e “tal”. Existem cantadas, né? Incômodo, você está trabalhando, né, você tá fazendo uma coisa séria. Em uma mecânica em especial eu pedi para uma pessoa trocar comigo, um rapaz do Dieese trocar comigo, porque seria insustentável, a gente perderia aquele lugar, não conseguiria mais fazer a pesquisa ou eu tinha que trocar. Essa em especial foi a única, em dois anos de trabalho, que eu tive que pedir pra trocar com um rapaz daqui, e isso foi prontamente atendido aqui eu não tive problema nenhum. P/1 – Você disse: "abrir o lugar", o que seria? R – É você começar a fazer pesquisa lá a primeira vez, né? Porque você tem uma série de lugares que faz pesquisas. Existia uma época no centro de São Paulo que tudo fechava, fechou a Mesbla, fechou o Mappin, vai fechando e você sempre vai nos mesmos lugares a cada mês. A cada semana você tem um roteiro e você repete depois de um mês essa semana. Cada lugar que fecha você tem que ter um similar para você fazer. Então, você abre esse estabelecimento novo, né? Ou então, muda de gerente e a pessoa, o novo gerente, não quer mais que você faça pesquisa lá. Quando tem alguma mudança e você é impedido de continuar aquela pesquisa, você tem que repor. Então, isso é o "abrir estabelecimentos". P/1 – Então, você estava me contando esse trabalho externo que você faz. Me parece, dá uma visão muito panorâmica da cidade. R – Sem dúvida. P/1 – Pelo menos eu tenho essa impressão. E o que você acha que mudou, na sua visão da cidade, enfim, da sociedade a partir desse trabalho? R – Olha, eu... Bom, você conhece tudo, né, você conhece... Eu conheço pouco a Zona Norte, porque é uma zona que eu trabalhei muito pouco, mas a Zona Leste, a Zona Sul que eu comecei trabalhando na POF nela. A Zona Oeste, o Centro especialmente que era o meu primeiro foco, conheço todos os cantinhos, todos os lugares, tudo. Tanto que é assim, a gente passa a ser uma referência fora do Dieese, quando alguém quer ir a algum lugar, quer saber como chega, quer saber onde tem alguma coisa, liga. Muitas pessoas ligam, mesmo gente daqui de dentro que não sai: "você sabe aonde tem isso?" Então a gente tem mesmo essa visão inteira. E para mim especialmente, que gosto muito de cultura, era muito legal estar na rua e ir em vários lugares porque ficava sabendo de uma exposição que teria “não sei aonde”, de várias coisas você fica sabendo na rua, se você tiver atento, né? P/2 – Tanto a Pesquisa de Orçamento Familiar como o Índice de Custo de Vida elas estão ligadas, elas transcendem, elas passam do mundo dos trabalhadores, elas vão direto para a vida do cidadão, são muito úteis para a vida do cidadão. R – “Hum hum”. P/2 – Por outro lado, você acha que os cidadãos têm noção desse trabalho do Dieese? Da sociedade? R – Eu acho que alguns têm, nem todos. Não, acho que, não sei se a grande maioria tem, não saberia te dizer. As pessoas sabem daquilo que elas escutam, né, ou de boca a boca, por exemplo, acontecia muito de eu chegar em algum lugar, eu estava numa loja e aí chegava um cliente, aí a pessoa que estava me respondendo a pesquisa virava para esse cliente e: "olha, vocês dizem que pesquisa não existe, ela é do Dieese, olha o crachá dela!", "Como assim?", "Não, isso acontece mesmo, isso acontece mesmo, eu faço parte dessa pesquisa com orgulho de tá fazendo parte, de tá fazendo parte há tanto tempo". Enfim, e de mostrar. Eu estou citando porque, assim, era uma coisa gozada de querer mostrar para o outro de que faz parte da sua vida também, né? Essa pessoa está aqui, está coletando, esse índice sai na televisão, aquele que você está vendo depende dele, você fica sabendo o que você comprou, onde é mais caro, o que é mais barato, onde é o mais caro, enfim. Mas eu acho que as pessoas ficam sabendo dessa importância quando é divulgado pelos meios de comunicação e dessa forma através de pessoas que vão passando para frente. E nesse sentido o nosso trabalho é legal porque a gente tem contato em vários estabelecimentos, na hora que você está dentro dele, tem várias pessoas que estão ali fazendo compras, né? Então, acaba tendo uma, acaba sendo exponencial, né? P/1 – Quais são os desafios colocados por Dieese hoje, na sua opinião? R – Na minha opinião? Eu acho que o Dieese está num momento de reestruturação econômica. Eu digo econômica, porque a gente teve muitas crises econômicas, pelo menos durante o tempo que estou aqui. E a meu ver, está conseguindo caminhar para solução dessa crise, né? Quer dizer, o que tenho visto dos trabalhos dos meus colegas, nesse sentido, dos que trabalham diretamente com isso, é que está tendo um esforço muito grande e eu consigo ver alguns resultados para melhorar a situação que a gente estava. E essa situação econômica, influência também no tipo de projetos que o Dieese está procurando hoje, quer dizer, acaba extrapolando para outras áreas, né? Então, é um movimento de reestruturação. Espero que a gente [risos] consiga caminhar e se superar, né? P/1 – Então, você disse que está mudando de área, né? Você está deixando esse trabalho da pesquisa para trabalhar dentro... R – Continuo trabalhando na pesquisa, só que agora assim, quer dizer, os pesquisadores estão em campo coletando dados e chegam todos esses dados para cá, que precisam ser processados. Então, o que está acontecendo agora comigo é que eu estou trabalhando dentro e entendendo como se faz todo esse processamento, né? Para que a gente chegue naquele "numerinho" que é a variação _________. P/1 – E como é que é trabalhar dentro do Dieese mesmo, internamente? R – Para mim está sendo muito legal. É um desafio de aprender coisas novas, de retomar coisas que eu já sabia, só que agora ao invés de na prática, nessa parte mais teórica. Está sendo muito interessante. É uma coisa que ainda está muito no comecinho, então, está um pouco difícil de falar, mas estou aprendendo muita coisa diferente e era isso mesmo que eu queria fazer. Então, está bem legal. P/1 – É uma diferença muito grande na sua vida ou não? Sendo o mesmo, é mais ou menos o mesmo objeto de trabalho, né, mas o jeito de trabalho é diferente. R – O jeito de trabalho é totalmente diferente, né? Quer dizer, eu agora trabalho aqui dentro, o dia inteiro aqui dentro, é uma... Na vida você tem que reestruturar tudo o que você fazia antes, tipo assim, se eu estava na rua e estava fazendo uma pesquisa do lado do banco que eu tinha que ir, eu não precisava sair daqui exatamente pra ir ao banco resolver o meu problema, você já faz um itinerário que você já vai resolvendo a suas coisas. Agora, eu tenho que pensar a minha vida diferente. Mas eu estava a fim de pensar ela diferente mesmo [risos]. Então está tudo bem. P/1 – Que bom! Então, o que você acha de o Dieese estar fazendo esse trabalho de memória agora? Mesmo com todas as crises, enfim. R – Eu acho muito legal. Eu acho muito legal porque a gente não, a gente... Eu acho que a gente aprende muito com a história, né? Então assim, se você não recupera tudo que você pessoalmente viveu, ou uma instituição que ela viveu, você perde. Você perde o que você errou para você tentar acertar, e você perde os seus acertos para continuar com eles, a menos que mude o contexto, você terá que mudá-los. Então eu acho muito interessante, eu acho bastante legal. P/1 – Carla, qual foi a maior lição que você tirou do seu trabalho aqui no Dieese, para sua carreira, enfim, a maior ou as maiores... R – Olha, apesar de ser uma área diferente da minha formação superior, ela acabou se juntando de alguma maneira, porque trabalhar como pesquisadora e trabalhar com pessoas tão diferentes o tempo todo, faz com que a gente cresça muito pessoalmente, né? Se você tem a disponibilidade, se você está disponível para isso. E para mim, foi um momento de reestruturação individual, então, familiar, profissional, enfim. Foi um processo mesmo muito legal, muito legal. P/1 – E o que você acha de ter participado, de estar participando desse projeto de memória? R – Eu acho gostoso, acho que é um momento gostoso. Porque assim, a gente já teve... É que hoje a gente está um pouco distanciado de crises mais sérias do Dieese, então eu acredito que, se fosse a um tempo, seria um pouco difícil esse trabalho. Mas agora que a gente vê como as coisas estão caminhando para frente, é muito importante, porque é um momento de avaliação mesmo, né? Acaba sendo, eu acho, para cada um que vem aqui dar entrevista e para cada um que vai ler depois, que vai ver as coisas que vocês vão produzir, enfim, é isso. [risos] P/1 – Só mais uma pergunta: você acha que a um tempo atrás seria mais difícil financeiramente, estruturalmente? Por quê? R – Porque é lógico que quando você passa por uma crise muito séria, como a gente já passou, é muito complicado. Tudo fica complicado, né, a sua vida fica complicada, dar uma entrevista seria complicado, trabalhar todo dia, tudo é muito difícil, quer dizer, tudo é muito árduo até você conseguir tomar o fôlego para aquela coisa começar a engrenar de novo. E eu acho que a gente está num momento que não está tudo perfeito, mas as coisas... você tem perspectiva, e quando você trabalha com a perspectiva, fica mais gostoso essa retomada. Não só gostoso, acho que é importante mesmo, porque você trabalha a perspectiva, tendo em vista com tudo o que já aconteceu, né? P/1 – Está bom, é isso Carla. Obrigada. P/2 - Obrigado. R - Espero que tenha sido esclarecedor. P/1 - Acho que sim. -----FIM DA ENTREVISTA------
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