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História

A capacidade de olhar o copo meio cheio

História de: Eliani Barros Prado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/12/2020

Sinopse

Nome em homenagem aos pais. Nascimento em São Paulo. Sociável. Faculdade de Comunicação. Editora Abril. Trinta anos de empresa. Gravidez. Mãe solo. Trabalho pesado. Pré-menopausa. Diagnóstico de Esclerose Múltipla. Doença autoimune. Fase de luto e negação. Decisão de olhar para a vida como quem olha o copo pela metade e acredita estar meio cheio. Carnaval. Novo namoro, reencontro. Pandemia. Sonhos.

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História completa

Me chamo Eliani Barros Prado, nasci em 31 de março de 62, em São Paulo, capital.

 

Eu diria que eu sempre fui muito sociável, a minha mãe fala que além da sociabilidade eu tenho uma liderança que nasceu comigo. Segundo ela, era assim, já na maternidade todos os bebês de chupetinha bem quietinhos, e eu falava “vamos chorar todo mundo!”, soltava a chupeta e todo mundo chorava. Então amigos pra mim é uma delícia, eu sempre fui cercada de gente, e a coisa que eu mais amo na minha vida, é gente. E eu sou muito otimista com a vida, sempre lidei muito bem com as coisas que vem e a gente precisa lidar.

 

Sem um ovário, com um cisto policístico, e na tabelinha, eu engravidei. A Fernanda é o maior legado que eu podia deixar pra esse planeta. Ela me ensina todos os dias. Mas assim, a minha gravidez foi um choque primeiro. Eu era gerente da Veja São Paulo, tinha quinze pessoas que respondiam pra mim, uma revista semanal que era cheia de modelinho, de espaço fracionado, quer dizer, tinha um gerenciamento ali muito forte. E eu engravidei sem estar preparada, assumi a Fe sozinha. 

 

Eu contei que levei muito bem a menstruação, levei muito bem a gravidez, que são os três eventos mais fortes pra uma mulher, e aí veio a pré-menopausa, e aí foi um inferno. Eu comecei a não dormir. Comecei a acordar quatro a cinco vezes por noite, toda vez que eu deitava de novo eu fritava na cama. E aquilo foi me dando... E eu não sabia o que era. E isso foi com uns 48 anos, pré-menopausa, mas ainda menstruava, então não entendia direito, enfim. Resumo da ópera: confundiu muito o diagnóstico da esclerose... Eu tenho Esclerose Múltipla, ela se confundiu muito por causa da pré-menopausa, então foi uma coisa meio esquisita. Então com cinquenta e pouquinho eu comecei a ver que eu tinha um cansaço além do normal, que eu tinha uma dificuldade, comecei a tropeçar, tropeçar, e eu não entendia o porquê.

 

E aí eu fui piorando, o ritmo acelerado ainda na Abril, e nesse período tem essa ressalva, quando eu tava na Exame foi a época que começou a questão de cair o faturamento da Abril, começa essa dificuldade da transição do meio impresso pro digital, “vamos ou não vamos”, eu tinha um cargo executivo, então eu participava... Era uma pressão violenta, violenta. Porque área de vendas numa empresa que não ta bem de faturamento, é uma pressão horrorosa. Aí eu recebia ordens, assim: “vai lá e acaba com a sua equipe, espreme todo mundo, todo mundo tem que vender”, e eu segurava a onda, porque eu não acredito nisso, eu nunca acreditei que se fizesse gestão na base no chicote e da ameaça, eu nunca acreditei nisso. Eu sempre fui do engajamento, do trazer a equipe pra perto de mim. E eu segurei muita coisa sem repassar. Eu não repassaria de jeito nenhum. E aí doença autoimune é isso né, eu me fiz uma doença autoimune, demorei pra ter o diagnóstico, portanto tive sequelas sim da primeira crise, que até hoje eu carrego como sequela, então foi muito nessa confusão da menopausa junto com o não diagnóstico da doença - eu tive o diagnóstico de verdade com 52 anos. Eu tive o diagnóstico em dezembro, quando foi junho, depois da copa, eu fui mandada embora. Eu comecei o tratamento em fevereiro, que era um tratamento muito chato, eu tomava injeção na coxa toda semana, e como é um imunossupressor eu ficava 24 horas como se eu tivesse pegando uma gripe, toda semana, você imagina? E com uma pressão enorme lá na Abril. Então foram seis meses muito difíceis pra mim de trabalho lá, porque eu tinha essa sequela, eu tinha uma questão de saúde. 

 

Aí o médico me falou que é uma doença autoimune, que não tem cura, ela é degenerativa, mas a gente consegue controlar a doença. A minha pergunta pra ele foi assim: “doutor, eu que produzo?”, ele falou: “é”, “o que eu faço pra não produzir mais?”, aí ele falou: “você vai ter que tomar remédio pro resto da vida, você precisa diminuir seu stress, você não pode mais ter surto”, “ah, é isso? Deixa comigo, doutor”. E eu assumi a rédea da minha vida, eu mudei a minha vida inteira pra conviver com esta doença. Não é fácil, às vezes eu falo: “por que comigo? Eu queria tanto estar dançando (que eu adoro dançar, não consigo mais), ó, coitada de mim”, mas também falo: “com 58 anos você também não estaria mais dançando como você sempre dançou, ta certo?”

 

As fichas foram caindo, a coisa de quando eu tomei a primeira injeção que já me deu essa reação, “como vai ser toda semana eu ficar gripada, gastar 24h da minha semana que já é tão intensa…?” Daí a coisa da limitação, de não poder mais dançar, de não conseguir ficar em pé o tempo inteiro, de abrir mão de coisas que eu sempre gostei muito.

 

Então, assim, hoje, depois de sete, oito anos de convivência com a doença, eu falo: poxa, é a minha amiga EMI, me fez mudar um monte de coisa, inclusive a dizer ‘não’, pra muitas coisas que eu nunca disse. Eu sempre fui “ai não, coitado, ai não, mas eu preciso ajudar, ai não, mas ele precisa se mim”. Oi? Primeiro eu, depois eu, terceiramente eu também, e aí a gente começa a trazer as coisas que são importantes, porque a gente não se permite, eu não me permitia olhar pra mim, então eu falo: “mereço mesmo a doença que eu tenho”, nesse sentido, porque eu não aprendi antes e precisei aprender na marra. Mas foi um aprendizado fundamental pra eu estar aqui hoje, estar feliz e estar bem. 

 

Mas assim, tem uma coisa importante: eu descobri que eu sou mortal. Quando a gente tem uma doença assim, você realiza que a mortalidade existe, que eu vou morrer algum dia. Então vem um lado assim. Por outro, já que eu vou morrer e eu gosto de viver, eu vou viver o mais bacana possível todo dia. Então essa noção de mortalidade traz uma coisa também muito legal, que é a visão do aqui e agora. Então todo dia eu levantava, aliás, até hoje “ai, como eu to hoje? To bem, to animada, hoje ta mais friozinho, que gostoso”, porque calor incomoda muito. Hoje eu ganhei carrinho, saio por essa rua de carrinho igual uma louca e tudo eu resolvo com carrinho. Virei ícone no bairro, porque “lá vem a doida do carrinho”. Eu ando pela Vila Madalena, que é super pouco acessível, mas eu também estou aprendendo a lidar com isso. Pensando politicamente essa questão da acessibilidade, já to me ligando em algumas entidades, já fui procurar o secretário.

 

Então eu to numa fase de encantamento com tudo isso. Ah, eu podia escolher dois caminhos, né? Ou de ficar chorando, ou de ir pra vida, e eu tento ir pra vida. É isso que eu fiz, de verdade. Minha mãe me chamava de Poliana, então eu acho que já é uma coisa minha olhar o meio copo cheio sempre na minha vida, mas claro, de novo, passei pelo luto, pela negação, passei por um monte de coisa até que... Foi rápido, eu diria, eu fui fazer terapia, tive a oportunidade de me olhar, e ela me apoiou muito nessa fase, muito, foi incrível, e, enfim, eu rapidamente resolvi por esse lado, do meio copo cheio. Falei: “ah, é? Abril me mandou embora? Muito obrigada, vou fazer a minha empresa dos sonhos, vou só trabalhar com aquilo que eu gosto, só com gente legal e projeto legal”. Então foi relativamente rápido, e eu ainda usei uma injeção péssima durante dois anos, e não é que me veio um remédio maravilhoso? Eu tomo duas vezes por dia que não me dá nada, nenhum sintoma, e eu to tomando há três anos. Então to muito bem.


Em relação aos sonhos, eu tenho, eu ainda quero ser a Hebe Camargo (risos). Não pela fama, pela celebridade, mas pelo que ela era, por ela ser ela mesma, uma comunicadora nata, de querer ajudar o outro, de... um monte de coisa. Então eu falo que eu ainda tenho esse sonho, de usar o meu lado teatral pra botar num sofazinho e vamos bater papo, que é isso que eu gosto de fazer, e quem sabe ajudar os outros, né? Porque eu acho que quando você conhece casos de outras pessoas (e isso acontece comigo), você conhece gente que superou coisas ou que não largou o osso, que foi atrás, e eu me considero uma pessoa com uma trajetória dessas.

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