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História

A cabocla arretada de Porto Seguro

História de: Maria Júlia Monteiro Dias (Julinha)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2007

Sinopse

Julinha lembra como era Porto Seguro na sua época de criança: uma tapera, uma areia solta. Por acompanhar a chagada da estrada, Julinha oferece um relato incrível das mudanças que o município sofreu com a entrada de turistas na região. As brincadeiras de infância, as comidas que a mãe cozinhava e as poesias que o pai e o irmão criavam são compartilhadas com muito riso. Amante da vida, são três os símbolos da sua vida, lembrados durante o depoimento: o Campari, a poesia e o sangue indígena.

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História completa

O meu nome é Maria Júlia, mas pela ternura e a meiguice e pelo carinho do meu povo, me chamam de Julinha, pra mimar mais ainda a cabocla! Sou muito emocionada por ser filha dessa terra! Porto Seguro é a mãe do Brasil! Todo filho, quando encontra a sua mãe, é bem recebido, se sente feliz e quer vê-la novamente. Todo mundo que vem aqui, volta. Aqui é como um ímã: atrai a qualquer um. Verdade mesmo!

 

Todas as pessoas nascidas em Porto Seguro têm o sangue do índio, de caboclo. O meu corre nas veias o legítimo sangue do índio Pataxó! O que mais destaca em mim é o cabelo. Também o olho de índio e o meu modo de viver: tudo eu como, não tenho esse problema de fazer regime, nada não. Isso também pertence a eles, seja a comida mais forte, nada me faz mal, nada, nada. O branco já não faz assim, não: “Ah, não vou comer isso não, porque colesterol...” Nunca quis saber de pressão alta, colesterol e nem nada. Nunca procurei saber nem se sou diabética, não quero saber nada.

 

Quando criança, a gente fazia as brincadeiras aqui em frente ao mar, brincávamos de roda. Tinha um mato, nesse tempo não tinha o cais, era um estacado, e tinha um mato chamado salsa, uma rasteira que dava umas flores lilás... A gente pegava aquele cipó imenso da salsa e pulava corda! A turma toda, as mocinhas daqui. Fazíamos terrão de rei, bloco de carnaval, naquele tempo não era bloco, era cordão de carnaval que a gente chamava! E vivíamos felizes também. Baile de pastorinhas... Meu pai escrevia e mandava colocar a música e o pau quebrava aí! A brincadeira era uma coisa séria mesmo. Já vivíamos felizes, Porto Seguro sempre foi a coisa mais louca do mundo, desde o atraso já era bom de viver. Aqui era uma tapera, não tinha água nem luz, essa Passarela do Álcool era uma areia solta. Não tinha nada, nada, era um atraso terrível!

 

Porto Seguro começou a mudar em 1975, quando veio o asfalto, a BR-101. Daí pra cá é que foi melhorando, melhorando, depois explodiu mesmo, foi uma coisa séria. Hoje é essa grandeza imensa que nós estamos vivendo, né? Uma coisa de ganhar dinheiro, eu mesma ganhei dinheiro aqui de colocar numa lata e num saco pra contar quando tivesse tempo! A primeira lanchonete aqui foi a nossa, o primeiro posto de gasolina aqui foi nosso, ali na Praça Inaiá. Tudo era ali: Posto e Lanchonete do Vavá. Vavá era o apelido do meu esposo, que era Álvaro e chamava ele Vavá, tudo foi ali.

 

A nossa sobrevivência está no turismo, né? Estou dizendo a você o quanto nós já passamos, já sofremos naquele tempo do atraso de Porto Seguro, que era triste. Hoje não, não tem mais. Você vai no Arraial d’Ajuda e não tem ninguém pobre mais. Quando vivia a maioria de vender mangaba, que é uma fruta da região, caju e vassoura de ramo, de um mato que pegavam ali, fazia as vassourinhas e vendia. E hoje não tem ninguém pobre, todo mundo tem o seu carro do ano, seu sítio, sua pousada e vivem felizes. Quando chegava uma pessoa de fora, aqui era o mesmo que chegar um Deus, um rei: era recebido por todos nós da melhor maneira possível!

 

Eu, hoje em dia, não faço nada. Eu gosto de estar com a minha turma, tomar um Campari, ir pra seresta, ficar lá vendo as músicas de outrora... Mas hoje eu não tô podendo mais, eu tô proibida de tomar o meu Campari. São três coisas o símbolo da minha vida: o Campari, a poesia e o sangue indígena.  Eu tenho até uma poesia que eu fiz sobre isso! Ah, Campari... Não tem coisa melhor, né?

 

“Amar é viver, não: viver é amar.

É ter um dia.

É ter um dia um amigo, uma mão que nos afague,

uma voz que nos diga os seus queixumes

e que as nossas mágoas com amor apague.

‘Amai-vos’, disse Deus criando o mundo.

‘Amemos’, disse Adão no paraíso.

‘Amor’, murmura o mar nos seus queixumes.

‘Amor’, repete a terra no sorriso.

‘Amemos’, disse...

Amemos este mundo é tão tristonho...

A vida como sonho brilha e passa, porque não havemos para calar as dores.

Levar aos lábios do Campari a taça...

Ó mundo, ó mundo

Que te importa o mundo,

Velho invejoso e coisa tão mesquinha!

E para esquecer tais coisas desse mundo,

Junte-se agora à turma da Julinha,

Cabocla arretada de Porto Seguro!”


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