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História

A busca pela ética social

História de: Waldemar de Oliveira Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/07/2020

Sinopse

Relato do vice-presidente da Ashoka nos Estados Unidos, em 1994. Conta sobre a criação do Instituto Ethos, onde era o primeiro executivo até 2002. Conta como fazia a Interlocução com empresas norte-americanas e da América Latina. Fala sobre o apoio às empresas brasileiras para desenvolvimento sustentável e socialmente responsável.

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História completa

P: Eu queria começar a entrevista perguntando seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R: Eu sou Waldemar de Oliveira Neto, nasci no Recife em Pernambuco, em 1959.

 

P/1: Qual a sua atividade atual?

 

R: Eu sou, atualmente eu sou o representante regional da fundação Avina para o Brasil.

 

P/1: Maneto conta pra gente um pouco o seu envolvimento com o Ethos.

 

R: O envolvimento com o Ethos aconteceu bem antes da própria criação do Instituto, em torno de 1994, 1995, já com o grupo que veio a constituir o Ethos, o Oded Grajew, o Guilherme Leal, o Sergio Mindlin, Ricardo Young já tinham toda uma trajetória de envolvimento com questões de cidadania, com questões sociais pela Fundação Abrinq BNDE , enfim, toda uma história, que todos conhecem de uma mobilização de empresários em torno da promoção da cidadania. E na época eu era vice-presidente da Ashoka nos Estados Unidos e tinha uma relação já com esse grupo e através da Ashoka, desenvolvi uma série de contatos com empresários que apoiavam Ashoka, mas também participavam tanto na Europa com nos Estados Unidos de iniciativas precursoras no campo da responsabilidade social de empresas.  Eu me lembro em 1994 em contato com Simon Zadek, que depois veio a criar o AccountAbility e é membro do conselho internacional do Ethos, que estava na época experimentando os primeiros modelos de auditoria social e socioambiental de empresas e discutindo as questões dos padrões, da criação de normas que estimulassem as empresas a implementar práticas de responsabilidade socioambiental. Também nos Estados Unidos, existia um grupo de empresários de perfil mais progressista chamado SVN, Social Venture Network, que vinha fazendo essa discussão sobre a responsabilidade social das empresas e o Business for Social Responsibility, que é o BSR, que é a principal entidade congênere do Ethos nos Estados Unidos e foi criada a partir desse grupo do SVN, então eram contatos que existiam e esses empresários aqui do Brasil começaram também a estabelecer conexões e a se aproximar de alguma forma desses movimentos que estavam acontecendo tanto na Europa e nos Estados Unidos. Eu lembro que nessa época 1994, 1995 o Guilherme Leal passou um período em Boston nos Estados Unidos e teve a oportunidade de conhecer várias dessas lideranças e de fazer uma reflexão sobre esses temas emergentes no campo da gestão empresarial, sobre o papel social das empresas. Também em 1995 o Oded na época presidente da Fundação Abrinq, desenvolveu um trabalho extremamente importante, pioneiro, sobre o trabalho infantil, fazendo o mapeamento de como o trabalho infantil se dava em cadeias econômicas, cadeias produtivas importantes, na cana-de-açúcar, laranja, produção de ferro gusa, o carvão. Então enfim, o Oded nessa época foi aos Estados Unidos com essa agenda trabalhar a questão do trabalho infantil e nós tivemos oportunidade de eu e o Oded de ir à São Francisco especificamente para visitar o BSR, a primeira visita pra conhecer uma instituição, que à época estava apenas nascendo, e conversar com lideranças do SVN, que era a entidade que estava na origem do BSR e que tem um perfil ainda mais progressista de luta pelos direitos humanos e por novos modelos de gestão empresarial, ainda mais comprometidas com a idéia de solidariedade, de cidadania, de direitos humanos. A principal liderança o Eric Olson um empresário, que tem uma empresa de gestão de investimentos em empresas socialmente responsáveis, que também era um mercado emergente nos Estados Unidos, naquela época. E eu lembro da demanda que o Oded trazia ao visitar tanto o SVN como o BSR, era desafiá-los a pensar em convocar uma reunião com as empresas que faziam parte dessas redes como SVN, como do BSR e que tinham atividades na América Latina, fazer uma reunião com as pessoas dessas empresas, com líderes empresarias da América Latina e o Eric Olson e o pessoal do BSR toparam essa idéia, outros empresários ligados a rede da SVN contribuíram financeiramente para viabilizar uma primeira reunião, foi um fórum  sobre responsabilidade social das empresas nas Américas, que foi realizado em Miami em 1997. No processo de organização o Oded participou de uma primeira conferência do BSR, conheceu várias lideranças do movimento, de novo em 1997 nós, eu e o Oded fomos para São Francisco pra uma visita ao BSR e com uma reunião com Bob Dan (?), que era presidente, hoje é presidente honorário do BSR e esse processo de construção da conferência foi em frente. O Oded voltou ao Brasil e mobilizou esse grupo de empresários que já tinha um envolvimento, um engajamento e participamos todos desse evento em Miami. Aí está o Guilherme Leal, o Hélio Mata, o Ricardo Young , Jorge Luiz Abrahão, enfim, outros empresários desse grupo liderados pelo Oded E um jantar, durante esse encontro de Miami, selou a idéia e o compromisso de criar uma organização no Brasil pra promover essa temática da responsabilidade social das empresas, indo além daquilo que já se fazia no Brasil, que era mais centrado na questão da relação da empresa com a comunidade no tema da ação social das empresas, da contribuição das empresas para o enfrentamento das questões sociais, pra trabalhar essa perspectiva da gestão empresarial e as várias dimensões da responsabilidade social. E, naquele jantar tanto o Oded,  o Guilherme me desafiaram a voltar ao Brasil para fazer parte da construção dessa instituição e ser o primeiro executivo do Instituto Ethos. Ao longo de 1998, eu me lembro em fevereiro de 1998, recebi a primeira versão de um estatuto pra discutir depois a discussão do nome e a contribuição da Mara Cardial (?) a esposa do Oded de propor o nome Ethos. A primeira, uma das idéias foi no segundo semestre do ano fazer no Brasil um evento de criação, de lançamento do instituto com a presença do BSR, e o lançamento da primeira publicação do Ethos, que foi uma tradução adaptada, de uma publicação do BSR, que era uma publicação que chama primeiros passos, que era uma espécie de check list, de práticas exemplares de empresas, práticas que as empresas poderiam implementar em vários campos da responsabilidade social nas várias temáticas de ética de relação com o meio ambiente, de relação com fornecedores, enfim, com todos os seus públicos. E esse foi o evento de Lançamento do Instituto no final do segundo semestre de 1998 e em janeiro de 1999 eu voltei ao Brasil, mudei com a família pra São Paulo e em janeiro eu assumi a função de, a época se chamava superintendente do Instituto Ethos, como o primeiro executivo e junto com o Oded estivemos, desse período de 1999 até final de 2002, junto com o conselho, essa fase inicial de criação do Instituto. Na primeira fase do Ethos a grande prioridade era criar uma base inicial de associados, em segundo, aí todo esforço e foco em sensibilizar e recrutar empresas, pra formar um núcleo inicial do movimento. Um segundo elemento da estratégia era dar visibilidade às boas práticas, que já existiam dentro das empresas; sensibilizar mostrando às empresas, que responsabilidade social não é um conceito impossível e que muita coisa já existia dentro das empresas; então, toda uma estratégia de comunicação centrada na idéia de dar visibilidade a práticas já existentes dentro das empresas. E um terceiro elemento que foi desenvolver ferramentas que ajudassem as empresas os gestores dessas empresas a desenhar e implementar práticas de responsabilidade social. Então essa foi a estratégia inicial que foi montada. Naquele encontro de Miami o Brasil se propôs a realizar uma segunda conferência dessa vez já na América Latina, no Brasil que foi a segunda conferência de responsabilidade social nas Américas e a primeira Conferência do Ethos, que foi realizada em 1999 e desde o começo a conferência do Ethos também era um elemento importante a estratégia de criar esse tipo de troca, de intercâmbio e de construção da identidade do movimento não só um fórum de debate, de expor aos gestores brasileiros a prática de empresas internacionais e a conferência do Ethos sempre teve uma dimensão internacional sempre contou com participação muito grande de empresários de vários outros países da América Latina e outras partes do mundo e esse esforço de criar a idéia de movimento de posicionar o tema junto a empresas de divulgar as boas práticas, essa foi a estratégia inicial. Já a partir de uma fase de consolidação, já o Ethos com quatrocentas, quinhentas  empresas associadas, aí já 2001, 2002, a estratégia ela começa a se tornar mais complexa e a procurar dar conta de outros desafios e para o Ethos sempre foi um desafio essa capacidade de por um lado ser útil e ser capaz de agregar valor às empresas líderes do movimento e estar sempre um passo à frente, tentado provocar trazer novos temas, novas temáticas, fazer conexões com o que está se passando no mundo e posicionando o Ethos no contexto de movimento mundial de responsabilidade social, estimulando algumas empresas brasileiras a estarem liderando esses processos, um exemplo disso é o movimento com o GRI (Global Reporting Initiative), e a participação de empresas no GRI, ou a apropria (?), trabalho com a ISO 26000, a elaboração da ISO de responsabilidade socioambiental, que são iniciativas do Ethos, voltadas pra estimular e apoiar as empresas, que já estão mais à frente. E por outro lado, tem que ter a capacidade de tá investindo no apoio àquelas empresas que estão apenas iniciando, que estão se acercando do tema, que tão numa fase, num estágio ainda muito inicial e isso dos desafios do Ethos o tempo que gera muitas tensões, que é, não pode perder de vista a sua capacidade de estar estimulando as empresas, as que tão na ponta do processo a continuar inovando e avançando e ao mesmo tempo, sendo capaz de apoiar as empresas que estão apenas iniciando. E, um outro elemento da estratégia foi nessa segunda fase, a partir de processos de envolvimento de várias empresas, começar a olhar e trabalhar a questão das cadeias de valor, como trabalhar a questão da responsabilidade social, não apenas ao nível de uma empresa individualmente, mas de cadeias produtivas, de _________ empresariais, buscar fazer com que as empresas pensem nos seus impactos sociais e ambientais na contribuição positiva que podem ter na sociedade, mas também na mitigação dos seus impactos, a partir de uma ação não apenas individual, mas a ação de toda a cadeia de valor  e outros temas relacionados a, que implicam de alguma forma a trabalhar a questão de políticas públicas de mecanismos institucionais que sejam favoráveis ao desenvolvimento da responsabilidade social . E em termos de tendência de futuro, eu acho que certamente todo movimento de responsabilidade social, ele começa a viver uma transição, porque o Business Case, o grande argumento de convencimento para as empresas, um dos seus aspectos era dizer: bom, adotar uma gestão socialmente responsável não somente é importante pra sociedade, mas também é bom pra empresa, entre outros fatores, porque ajuda a empresa a gerir riscos associados ao seu negócio, então é uma forma de você proteger reputação, ganhar a licença de operar, isso é ter a boa vontade da comunidade, da sociedade pra atuação da empresa e também proteger, ajudar a empresa, a identificar riscos que podem afetar a sua atividade, o seu desenvolvimento, o seu crescimento e nós estamos passando por um momento em que esses riscos a atividade e a sobrevivência das empresas, são cada vez mais riscos sistêmicos, que estão relacionados ao sistema político, com a crise ambiental, com a crise de alimentos, são riscos inerentes ao sistema econômico e social que as empresas estão inseridas e que as empresas precisam estar preparadas pra responder a esses riscos e a ajudar a minimizar esses riscos,que são sistêmicos e que podem afetar a capacidade de crescimento de sobrevivência das empresas. Então o risco se desloca lógico apenas, o risco inerente ao negócio e a empresa, pra saber como a empresa se posiciona em relação a esses riscos sistêmicos, o que obriga a empresa a pensar o seu envolvimento com as questões de pobreza, com as questões de desigualdade, com as questões de câmbios climáticos, com a crise ambiental, de uma forma muito mais proativa, já não apenas porque é bom pra sociedade, mas é uma necessidade de sobrevivência das empresas, estar preparada pra lidar e ajudar a mitigar esses riscos sistêmicos, que podem afetar a sua sobrevivência. É cada vez mais claro no jogo da globalização e do comércio internacional, que as questões de responsabilidade socioambiental, que são fatores que têm peso cada vez maior na questão da competitividade não só de empresas individualmente, mas dos países e da sua inserção no processo global. O exemplo recente da questão de certificação da carne no Brasil, a discussão etanol hoje no mundo, mostra que práticas de responsabilidade socioambiental, indo mais além de simplesmente cumprir legislação, que já é um grande desafio no Brasil, mas vai ser cada vez mais um elemento importante para a competitividade das empresas brasileiras num contexto internacional e as suas perspectivas de inserção na economia global. Então esse são os temas emergentes do movimento de responsabilidade social, que eu acho que faz com que o movimento deixe de ser apenas um movimento de ajudar a construir melhores empresas pra efetivamente fazer o link entre o sucesso das empresas e a saúde das nossas sociedades. Então eu acho que esse é o futuro do movimento de responsabilidade social. 

 

P1: Você quer falar mais alguma coisa?

 

R: Eu acho que eu já falei bastante [RISOS].

 

P1: Então eu queria agradecer Maneto, pela sua participação, obrigada.

 

R: Tá bom então, muito obrigado. 

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