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História

A busca e a luta pelo triunfo

História de: Viridiano Custódio de Brito
Autor: Ana Paula
Publicado em: 27/06/2021

Sinopse

Na entrevista, Viridiano conta que passou a maior parte da vida no DF. Ele compartilha memórias de sua participação em movimentos sociais a fim de melhorar as condições de moradia em plena transição democrática.

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História completa

Projeto Memória Compartilhada: A luta pela autonomia política do DF Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Viridiano Custódio de Brito Entrevistada por Aurélio Araújo e Lenir Justo Brasília, 10 de março de 2009 Código: MDF_HV022 Transcrito por Karina Medici Barrella Revisado por Claudia Guarnieri P/1 – Viridiano, boa tarde. R – Boa tarde. P/1 – Queria começar pedindo pra você falar o seu nome, local e data de nascimento. R – Eu sou Viridiano, moro na Ceilândia há 37 anos e nasci no dia 1º de outubro de 1958. P/1 – Aonde? R – Em Formosa, Goiás. P/1 – Qual é a sua atividade atual? R – Atualmente eu sou assessor parlamentar do gabinete do Deputado Chico Leite. P/1 – Você podia falar o seu nome completo pra gente registrar? R – Viridiano Custódio de Brito. P/1 – Viridiano, qual o nome dos seus pais? R – O meu pai se chama Leôncio Custódio de Brito e a minha mãe, (Bertolina?) Gonçalves dos Santos. P/1 – Você lembra do nome dos avós? R – Não lembro dos meus avós, porque quando eu nasci ou quando eu me lembrei por gente, os meus avós já tinham todos… P/1 – Falecidos… R – Eu tenho que olhar na certidão de nascimento pra ver o nome deles. P/1 – Qual a profissão dos seus pais? R - Meu pai é lavrador, trabalhava na roça, na plantação de grãos alimentícios, arroz, feijão. Mas era uma agricultura mais de subsistência, mesmo. A gente tinha uma roça, o meu pai, e também a minha mãe, trabalhavam lá. Depois que viemos pra Brasília, minha mãe trabalhava, dona de casa, lavava roupa, essas coisas. Depois ela se aposentou e faleceu há um ano e meio. P/1 – Você tem irmãos? R – Tenho vários irmãos. P/1 – Fala um pouquinho sobre eles pra gente. R – Nós somos em sete irmãos, são cinco mulheres e dois homens, no caso, eu e o meu irmão que é mais novo que eu. As minhas irmãs, uma mora ainda no povoado de Santa Rosa, tem outra que mora no JK, que é um povoado também próximo, e mora na Vila (Boa?). E, aqui em Brasília, tem duas irmãs e meu irmão. P/1 – Como é que era a cidade em que você passou a infância? Você falou que nasceu em Formosa, é isso? R - Na verdade, a gente fala que nasceu em Formosa por uma questão legal, de documento e tal. Mas eu realmente nasci na beira do rio Paraim, é um rio bastante grande que tem lá no Goiás e, às margens, tem o povoado de Santa Rosa. Quando eu recordo da minha infância, é numa casinha de pau a pique, lá na beira do rio Paraim. Eu me lembro que a gente montou uma outra roça, também na beira do rio Paraim. E me lembro muito bem que a gente andava... era cultura mesmo, a gente não usava roupa, acho que até os cinco anos a gente andava pelado no meio da mata. Com cinco anos, eu fui pra cidade, povoado de Santa Rosa, que fica a mais ou menos, hoje, a uns 210 quilômetros daqui de Brasília. A minha infância, que eu me lembro, de criança até os nove anos... não, menos, uns oito anos, foi em Santa Rosa. É um povoado que fica à margem da BR-020, a nove quilômetros da BR-020. Quando meu pai morreu eu tinha sete anos e nós viemos aqui pra Brasília, morar na Vila do Iapi [Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários]. P/1 – Como era a sua infância lá em Santa Rosa? R – Ah, pra criança era muito boa, né? A gente tomava banho no rio, comia fruta nativa que você pegava no mato, bacupari, sangue-de-cristo. Às vezes, a gente colhia mel de abelha, a gente chamava lá de mel de jataí, mel de marmelada, que eram as abelhas que a gente conhecia. A gente brincava muito no meio do mato, os nossos brinquedos eram: carrinho, a gente fazia de lobeira, não sei se vocês conhecem. É uma fruta do cerrado que a gente cortava, assim, e fazia tipo umas rodas, parecendo carro. Ossos de vaca que a gente pegava e fazia como se fosse vaca, reproduzia aquela visão da cidade que era ter fazenda, terra, carro. A gente reproduzia os nossos brinquedos. Brincava de cavalo de pau, subindo em árvore. Era uma infância muito diferente daqui. A gente era solto na rua, na cidade é perigoso você ficar na rua. Foi uma infância muito alegre, muito legal para o período. P/1 – Você falou que logo cedo veio pra Brasília. Por quê? Fala um pouco dessa mudança pra gente. R - Todas as minhas irmãs mais velhas já tinham vindo pra Brasília, pra construção de Brasília, trabalharem de doméstica, na casa do pessoal que vinha pra cá. A gente ficava lá, sobrevivia ou vivia do que meu pai plantava e, às vezes, quando não dava, eu me lembro muito bem, a minha mãe trabalhava pros outros, mas ela não recebia dinheiro. Você trabalhava numa colheita de feijão, você recebia uma quantidade, por exemplo, uma quarta de feijão. Trabalhava numa fábrica de farinha, recebia farinha. Fábrica de arroz, recebia arroz. A gente sobrevivia desse tipo de trabalho, que era um trabalho parecido com o mucambo, né? Que você trocava. A gente sobrevivia muito disso. Depois, meu pai faleceu. Eu tinha sete anos, meu irmão tinha cinco. Como as minhas irmãs já estavam aqui em Brasília, então, achou por bem... Não sei o que aconteceu, a gente acabou vindo aqui pra Brasília pra ter uma vida melhor. Mas não sei se foi tão melhor... Nós éramos crianças, as minhas irmãs trabalhavam de domésticas, a minha mãe trabalhava mais lavando e passando roupa pras pessoas, limpando uma casa e tal. A gente veio morar e, chegando aqui, você precisava de casa, né? Como é que você vem e... Não tinha casa, nós fomos morar de favor numa casa de uma colega nossa. Depois, nós fomos morar de favor em uma outra casa, tinha algumas casas de uma empresa lá, nós fomos morar nessa casa. Só que essa casa era... acho que tem muito isso no Sul: era uma casa que você colocava uns tocos, assim, e ela era acima do chão. Você construía acima deles. Era uma casa enorme, só que essa casa começou a pender pro lado, né? E o dono da casa ficou preocupado de acontecer algum acidente, e deu um outro barraquinho pra gente morar. Um barraquinho pequeno que cabia uma cama, as outras coisas a gente fazia um puxado lá fora. Eu me lembro muito bem que eu dormia em cima de uma mala e depois esse barraco passou a ser nosso. Minha mãe vendeu esse barraco, arrumou mais cem cruzeiros - não me lembro a moeda da época - e nós compramos um barraco nosso, um pouco maior, na Vila do IAPI, mais em cima, a gente morava perto da beira do riacho. A gente foi comprar lá em cima, na Rua Padre Lino. P/1 – O que é a Vila do IAPI, pra gente registrar? R - Rapaz, a Vila do IAPI... Também foi um momento muito legal, eu já estava maiorzinho, já estudava, eu gostava muito de jogar bola, era um espaço muito grande pra gente jogar bola, também, no meio da rua. Não tinha energia elétrica, não tinha água encanada, a água era de cisterna, de poço. Eu me lembro quando era criança, na Copa do Mundo de 1970, a gente não tinha televisão e no bairro, a energia que tinha, era uma energia de motor, ligava seis horas e apagava meia-noite. E eu me lembro que eu tinha esse negócio na cabeça, pra mim aquilo era o mundo, né? Só que às vezes eu vinha jogar bola no Núcleo Bandeirantes, em outra cidade, e lá tinha energia durante o dia todo. Eu ficava com aquele negócio na cabeça: “Ué, por que aqui tem energia o dia todo e lá onde eu moro não tem?”. Nesse tempo, algumas casas já tinham televisão, mas o pessoal cobrava pra você assistir. Eu já tava engraxando, eu engraxava... Só que quando era pra assistir o jogo do Brasil era superfaturado, né? Se normalmente você pagava 30 centavos, quando era pra assistir o jogo da seleção, você tinha que pagar um real, era bem mais caro. Mas, mesmo com toda essa dificuldade, foi um período tranquilo porque eu acho que criança precisa de pouca coisa pra ser feliz. Qualquer coisa que você tem pra brincar...a gente brincava muito, foi um momento muito legal. P/2 – Viridiano, você não sentiu um choque vindo de lá pra cá? Ou não deu pra sentir porque você ficou em um bairro mais afastado? Ou você viu a cidade… R - Como o povoado era pequeno, eu tinha uma visão de um local grande, com ruas grandes, mas com poucas casas. O grande choque que eu já tive foi na rodoviária. Porque essa rodoviária, hoje ela modificou um pouco a saída. Você não era acostumado a andar de ônibus, você entrou no ônibus, ele fazia aquela curva, você parecia que estava numa lata de sardinha solta, caía para um lado, caía para o outro. Mesmo quando era criança, você vê um vaso sanitário, por exemplo, é uma coisa nova, uma coisa diferente que você não... Você é acostumado a fazer as suas necessidades fisiológicas no meio do mato, essas coisas todas, então você vê todas essas questões. Pra gente tudo é novo. Claro que houve um certo choque, mas a gente acabou se adaptando rápido. Por exemplo, eu lembro que a nossa diversão no domingo, todo domingo, era ir ao jardim zoológico. Era pertinho e a gente ia a pé. Então, todo domingo a gente ia no jardim zoológico, às vezes a gente pegava e ia a pé ali pra W-3. Andava aquela W-3 todinha que era o pointing, era um negócio bem movimentado, a gente, criança, andava do início da W-3 até o final, depois voltava, ia a pé. Achava tudo maravilhoso. P/1 – Você falou que gostava de jogar bola e já estudava. Como é que foi o ingresso na escola aqui em Brasília, onde é que você estudou? R - Rapaz, a primeira escola que eu estudei foi no... A gente chamava... Era tão difícil ter vaga, eu me lembro que minha mãe tentou fazer a matrícula pra mim lá na escola que a gente chamava de Escola da Igreja Batista. Fazia a matrícula, todo dia eu ia e não tinha professor. Eu voltava chorando. A gente tinha uns parentes, conhecidos, que moravam no Núcleo Bandeirantes e minha mãe fez a matrícula lá. Engraçado, foi nessa escola que eu descobri, eu já estava com nove anos, que eu descobri que o meu nome não é esse nome que eu tenho hoje. O meu pai e a minha mãe tinham me registrado com um nome, só que quando eu fui fazer a matrícula, no registro tinha outro. Porque meu pai e minha mãe eram analfabetos, não sabiam. Quando eu fui fazer essa matrícula na escola, a secretária perguntou: “Como é o nome do menino, dona (Bertolina?)?”. Ela falou: “Tereso Custódio de Brito”. Ela olhou, assim, e falou: “Não, não é esse nome que está aqui, não. O nome que está aqui é Viridiano”. Aí, que ela se tocou e o meu nome passou a ser Viridiano, mas... P/1 – Mudou de nome. R - Mudei de nome com nove anos. Mas toda a relação social que eu tinha me conhecia como Tereso. Eu achei até legal ter mudado de nome porque o pessoal me chamava muito de Teresinha. Tinha um jogador de futebol, também, na época, que se chamava Tereso, as pessoas me chamavam muito de Teresinha; Teresinha pra lá, Teresinha pra cá. Quando mudou o meu nome, eu dei graças a Deus ter mudado porque essa brincadeira de ser chamado de Teresinha passou. Eu estudei nessa escola e depois eu mudei para estudar na Escola Zaru, pessoal chama de Escola Zaru, era de um pessoal espírita que mantinha uma escola, dava sopa, alimento pras pessoas, e tinham uma escola lá. E eu fui estudar nessa escola. Mas foi um período, porque em 1971 nós mudamos pra Ceilândia e eu fui estudar na Ceilândia, na Escola Classe Número Dez, que fica lá entre a EQNM 08/10, da Ceilândia Norte. P/1 – Você terminou o segundo grau lá? R – Rapaz, esse meu segundo grau, se eu falar pra você... Eu fui terminar o meu segundo grau tem cinco anos. Eu tinha terminado o ensino fundamental, depois casei, tal, não me preocupei. Porque, assim, pelos pais serem analfabetos, você entra numa vida que parece que você não tem essa necessidade de estudar. Não que você não tenta. Eu tentei várias vezes voltar a estudar, mas nunca consegui, porque sempre trabalhava muito, então, você acabava sendo desestimulado a estudar. Eu só voltei aos meus estudos em 2003. Ainda faltava algumas disciplinas do Ensino Fundamental. Fiz Ensino Fundamental, depois, dois anos fazendo ensino médio e, em 2005, eu entrei na faculdade e fiz a graduação em História. Terminei no ano passado e agora estou fazendo a pós-graduação lá na UnB [Universidade de Brasília], um período muito curto. Eu tenho um filho formado em Letras, tem outro que está cursando faculdade agora. Só depois que cuidei dos filhos, eles grandes, que eu voltei a estudar. Claro que, pra mim, é uma das (grandes?) da minha vida, se eu tivesse que recomeçar, o que eu recomeçaria era, se tivesse oportunidade de ter um regresso, seria voltar a estudar. O resto, não me arrependo, não. P/1- Você largou a escola, então, no primeiro grau, você falou? R – Foi no primeiro grau. P/1 – E você foi fazer o quê? R – Pra trabalhar. Na verdade eu estudava e trabalhava, né? P/1 – De engraxate? R - Eu engraxava. Levantava às quatro horas da manhã, eu era da Ação Social do Planalto, uma entidade que era dirigida pelas esposas dos militares, dos ditadores. Por exemplo, lembro da Judith Buzaid, que foi esposa do Ministro da Justiça. A dona Carmela, que era esposa daquele... Depois que eu fui saber quem era o cara [risos]. Esposa do Plínio Salgado, integralista, que tentou dar o golpe no Getúlio. Eram só essas mulheres, e lá tinha um regime meio militar, inclusive de entregar os outros. Depois que eu fui lembrar. Por exemplo, você era responsável por ficar vigiando. Aquele que cometesse alguma coisa, tinha um tribunal lá que você denunciava o moleque e, como você denunciava e tinha comportamento bom, você tinha certos privilégios, entendeu? Quando entrei lá eu tinha uns dez anos. Era assim, você vendia jornal, chegava lá quatro horas da manhã, tomava o café, ia vender jornal - quem quisesse vender jornal, ou ia trabalhar de engraxate. Você ficava até o meio-dia e voltava, tomava banho, almoçava e tinha que ir pra escola. Mas não tinha um acompanhamento muito... Depois, como eu casei muito cedo... mas eu já tinha parado de estudar quando casei. Quando eu completei 14 anos eu fui trabalhar de office-boy numa loja, Casa das Cortinas. P/1 – Você casou com quantos anos? R - Casei com 17 anos, 17 anos e pouco. Eu já tenho um filho de 33 anos e um neto de 14. Eu fui trabalhar na Casa das Cortinas, trabalhei lá durante um bom período. Depois eu fui trabalhar numa loja de pedras preciosas e depois fiquei mudando de trabalho. Trabalhava de pintor de parede, de servente, eu só fui melhorar um pouco, mesmo, em 1988. Eu ganhava dois salários mínimos. Trabalhei oito anos no Jornal de Brasília, na expedição do jornal. Essa questão de eu trabalhar nessa área de comunicação me ajudou muito a construir uma ideia, uma consciência política e de ter curiosidade. Como eu trabalhava no jornal, vendendo jornal, eu lia aquelas matérias do jornal, e ficava curioso. Na matéria sobre a Ditadura Militar, aquelas perseguições, aqueles negócios, ficava curioso com aquilo. Depois, fui trabalhar no Jornal de Brasília, trabalhava na expedição. Quando o jornal saía, a gente tinha um tempo pra ler. Isso foi gerando alguma curiosidade na minha consciência e, mesmo não tendo uma educação formal, eu aprendia muito lendo livros, lendo outras coisas e tal. P/1 – Como é que foi o seu envolvimento com os primeiros movimentos sociais? R – Por incrível que pareça foi por necessidade mesmo porque, como eu falei, eu tinha casado, casei cedo, morava na casa da minha sogra. A minha sogra é gente boa, mas ela era muito chata, entendeu? Ela era crente, da Congregação Cristã, a gente não podia ter televisão. A gente comprou uma televisão preto e branco, pra entrar lá na casa dela, nós tivemos que fazer ela sair e entrar com a televisão escondida. Depois que ela chegou e soube que a gente tinha uma televisão, ela ficou chorando um mês, porque a gente tinha colocado a televisão lá. Era muito difícil, a gente tinha necessidade de ter uma casa pra morar. Eu me lembro muito bem disso, 1983. Apesar de ter um projeto do governo para um bairro lá da Ceilândia, que é a Guariroba, que eles falam, que era um bairro pros filhos das pessoas que vieram da Vila do Iapi. A gente fez inscrição, mas não recebeu. Esse programa do governo ficou quase cinco anos sem ter programa habitacional. O que aconteceu? P/1 – Você lembra quando foi isso, mais ou menos? R - Eu lembro que a última casa que o governo entregou foi em 1978. Até 1983 foi quando começou o movimento. Ceilândia tinha um fluxo migratório muito grande, e como tinha lotes de 250 metros quadrados, as pessoas, pra aumentarem sua renda - e até hoje ainda tem isso - elas faziam aqueles cortiços. Faziam barracos de um lado e do outro. Só que no período não tinha rede de esgoto na cidade e isso causava muito problema, porque você botar uma casa com 32 pessoas morando, com fossa, sem rede de esgoto, no período da chuva, as fossas estouravam, tinha muitos acidentes, era muito perigoso. Aí, surgiu essa ideia. Eu lembro do pessoal da Ação Cristã Pró Gente, que era uma entidade assessora do movimento popular. Eles perceberam essa demanda, porque eles faziam parte, tinham movimentos incansáveis, que era movimento das pessoas que vieram da Vila do Iapi e que o governo prometeu um valor do lote, depois triplicou esse valor, eles lutavam pra permanecer o valor do contrato que eles tinham assinado. Esse pessoal percebeu e começou a fazer um abaixo-assinado com as pessoas que moravam de aluguel, que eram inquilinos. O meu cunhado foi, logo de manhã a gente começou a sair nas casas pra poder fazer o abaixo-assinado. A ideia era você ter um abaixo-assinado pra você ter uma casa pra morar. Nós fomos de manhã, quando foi à tarde, a gente não precisou sair mais, já começou a fazer fila na casa da gente. Como eu trabalhava à noite, entrava no serviço às 11 horas da noite e saía às 6 horas da manhã. A gente ficou pegando esse abaixo-assinado, falamos pro pessoal, tinha informação de que ia ter uma reunião em um sábado, que viria advogado, tal, pra poder dar uma explicação, discutir com o pessoal esse movimento. Aí a gente passou a semana. Era gente, gente. E esse era um ponto que fazia, mas, na Ceilândia toda, tava correndo esse abaixo-assinado e o pessoal chamando pra ir pra essa reunião. No sábado, eu me lembro, como eu gostava muito de futebol, eu tinha um jogo no time do jornal que eu trabalhava e eu não fui pra reunião, fui jogar. Quando cheguei na televisão à noite, ainda era ditadura, 1983, finalzinho do governo do Tancredo Neves, mas ainda tinha... Vi na televisão aquela multidão, a polícia tinha prendido um monte de gente. O Eurípedes tinha sido preso, várias pessoas tinham sido presas. Tinha tido bomba de gás lacrimogêneo. Eu falei: “Ô rapaz, graças a Deus que eu não fui nesse negócio, senão, eu tava preso.” E mesmo assim, com medo, que não tinha nenhuma consciência e tal, a gente ainda foi na delegacia pra ver o que era. “Não, vocês não têm problema, não.” Mas o que aconteceu? A gente continuou o movimento. O movimento se desvinculou da Pró Gente e nós formamos o Movimento dos Inquilinos da Ceilândia. Esse movimento foi um movimento muito forte, tivemos o apoio do Padre Antônio, das igrejas da Ceilândia, e fazíamos as reuniões nas igrejas. Pra você ver como era a organização: a gente elegia o Representante de Quadra, cada quadra tinha o Representante do Conjunto e tinha um Coordenador de área. Por exemplo, eu era o responsável por coordenar a Ceilândia Norte e outro colega meu era responsável por coordenar a Ceilândia Sul. A gente tinha duas bicicletas. Quando a gente tinha alguma manifestação, alguma coisa, não tinha esse negócio de panfleto, carro de som, esse negócio, não. Eu montava na bicicleta, passava em todas as quadras e avisava os representantes de quadra. Os moradores de quadra avisavam os representantes dos conjuntos, que avisam todos os inquilinos do conjunto. A gente chegava a fazer passeata com 20.000 pessoas com esse esquema de divulgação. Foi aí que a gente iniciou essa luta. Eu comecei a participar do movimento exatamente por uma necessidade de ter uma casa pra morar. P/1 – Como surgiu a Expansão Comunitária do Setor “O”? Você falou do Movimento dos Inquilinos da Ceilândia. Teve um processo, onde a luta pela moradia na Ceilândia foi crescendo. Como é que foi o surgimento da Aceso [Associação Comunitária da Expansão do Setor O]? R - Teve esse movimento, nós pressionamos o governo, era um movimento muito forte, a gente fazia passeatas, vinha ao Congresso Nacional, ia no Palácio do Buriti, era um processo de agitação muito forte naquele período. E, por ainda estar na ditadura, você tinha o apoio da imprensa, que sempre dava cobertura e tal. E esse movimento, que era da Ceilândia, acabou dando origem a vários movimentos em outras cidades, como Taguatinga teve o seu movimento. O que aconteceu? Já no final da Ditadura Militar, o Governador José Ornellas chamou a gente numa reunião aqui do Palácio do Buriti, a diretoria do movimento. Só pra poder voltar um pouquinho, essa questão da associação do movimento que depois virou uma Associação...que só era um movimento, mas depois fundamos a Assinc, que é a Associação dos Inquilinos da Ceilândia. Teve um processo eleitoral onde a direita, os mecanismos de repressão, eles tentaram controlar o movimento, acabou tendo uma chapa apoiada pelo governo daquele período, pelo Administrador de Ceilândia, e colocaram vários agentes de informação dentro do movimento pra poder detectar e tal. E a nossa Diretoria tinha apoio de todo o Movimento Sindical, até do próprio PMDB [Partido do Movimento Democrático Brasileiro], naquela época, todos os movimentos sindicais, a CUT [Central Única dos Trabalhadores], Sindicato dos Vigilantes. Nós acabamos ganhando a eleição, a nossa chapa ganhou a eleição. Depois nós fomos chamados aqui no Buriti pelo então Governador José Ornellas e ele falou: “Olha, tem um projeto aí, porque tem o Setor O” - que era um bairro que foi construído em 1978 - “mas existe um projeto de expansão dessa área do Setor “O””. A gente tinha até a Quadra QNO 15, da QNO 1 a QNO 15. “Existe um projeto de expansão, nós vamos expandir, e vocês vão estar dentro desse Projeto.” “Mas aí vai ser pras pessoas que estão inscritas na Xe tal”. Só que nosso movimento tinha muita gente que não tinha cadastro, porque a X tinha encerrado suas inscrições há muito tempo. E um dos pleitos que nós fizemos foi que o Governo dividisse metade pra quem já era inscrito e, a outra metade, pra quem participava do movimento. Acabou ele abrindo novas inscrições e várias pessoas se inscreveram. Teve uma outra luta porque ele queria copiar um projeto do Iris Rezende, que era construção de mutirão. Tava um processo muito enrolado, demorado, a gente pressionou, pressionou e o que foi o acordo? Foi o seguinte: “Nós vamos fazer todo o processo de infraestrutura”, porque até então, nesses loteamentos não tinha... foi o primeiro loteamento, um dos primeiros e únicos, porque até a Samambaia depois não foi assim, que o governo colocou água, luz, esgoto e distribuiu, diante de uma classificação lá, ele distribuiu o lote pras pessoas. A gente pagava... eu me lembro que o pagamento era simbólico, nem valia a pena. A gente tinha que vir pagar aqui no Plano, muitas vezes, você tinha que deixar acumular algumas prestações pra você vir pagar, não valia a pena você vir pagar porque o dinheiro da passagem era mais caro que a mensalidade. A gente pagou o lote em oito anos. Mas por que a Aceso? Eu até falava isso com ele: “Eu só quero o lote, não quero mais nada”. Mas ele falou: “Não, você vai ser mordido pela mosca vermelha, é difícil você parar, quando você começa o movimento.” E nesse período eu conheci, eu tinha muita curiosidade também, de leitura, eu ouvia falar muito do Partido Comunista, essas coisas, do Gilberto Freire. Eu me lembro que eu fui num congresso - tenho até uma foto que tem lá - num Congresso da Conam, que é Confederação Nacional das Associações de Moradores, que teve em São Paulo. Naquele auge da mudança, do Colégio Eleitoral, tinha dois candidatos, o Maluf e o Tancredo Neves e já estava aquele processo de campanha. No próprio congresso houve uma certa divisão porque tinha várias pessoas vindo do interior do Brasil que eram bancados por alguns Governadores que apoiavam o Maluf. E outros, como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, já apoiavam o Tancredo Neves que, de certa forma, tinha uma certa influência no movimento. Eu me lembro que houve um racha, uma briga danada, mas eu comecei a conhecer esse pessoal. Nesse encontro eu comprei um livro do João Amazonas, Socialismo: Ideal da classe operária. Li aquele livro, fiquei empolgado: “É por aqui mesmo que nós vamos [risos].” Mas a gente acabou entrando... através do Movimento de Moradia, você conhece outras pessoas e a gente acabou entrando na luta política partidária. Quando a gente mudou lá pra Expansão, nós percebemos que a casa não era suficiente. É bom, muito bom você ter uma casa e tal, mas não tinha mais nada, você não tinha transporte, você não tinha nenhum equipamento comunitário. Os nossos filhos tinham que vir estudar na Ceilândia, você tinha que pegar ônibus, não tinha Centro de Saúde, não tinha nada. Ele distribuiu o lote bom, com água, luz e esgoto, mas não tinha nada. E, por aí, a gente resolveu fundar uma associação pra lutar por melhorias pro bairro. Nós fundamos a associação...nós mudamos pra lá mesmo de 1985 até 1986, que foi um processo. Só que em 1986 teve eleições, foi a primeira eleição pra Assembleia Constituinte e Brasília elegeu oito deputados federais, porque Brasília não tinha representação política. 1986 foi um ano complicado, quase não teve... Mas em 1987, já em janeiro, nós fundamos a Aceso, pra fazer esses movimentos. A gente fazia abaixo-assinado, levava as autoridades lá. Hoje, muitas das conquistas que têm no bairro, foi uma participação da Aceso, que é a Associação Comunitária da Expansão do Setor “O”. Nós conseguimos um galpão da administração, a gente trabalhava em três frentes: uma era um trabalho de reivindicação, de reivindicar melhorias e tal. A gente trabalhava também numa área de prestação de serviços, que a gente reunia as mães pra fazer corte e costura, crochê, desenho em tecido. E trabalhamos também na área de formação, por exemplo, alfabetização de jovens e adultos. A gente tinha curso de formação política e tal. Assim, a gente percebeu que, mesmo você tendo uma casa, você precisa de muita coisa pra ter qualidade de vida. Por isso que nós fundamos a Aceso, que é a Associação Comunitária da Expansão do Setor “O”. P/1 – A Ceilândia da década de 1960 é bem diferente da Ceilândia da década de 1980, pelo tamanho. Fala um pouquinho das mudanças que você observou na cidade, durante esses anos, desde que você chegou lá até esse momento da luta. R – Você fala de quando nós mudamos até 1983, ou até hoje? P/1 – Essa evolução da cidade. R - Para quem chegou na época, a evolução é muito visível. Até algumas fotos que você possa verificar é uma diferença muito grande. Na verdade, a mudança de Ceilândia surgiu de um preconceito que as elites têm das classes populares. Porque Ceilândia, como eu falei no início, a gente morava onde hoje é o Guará II, que você podia ir a pé pro Zoológico, pro Plano Piloto, até pra Rodoviária dava pra você vir a pé. Era bem localizado, perto do aeroporto e tal. Só que a elite daquele período, em vez de fazer um projeto de urbanização pra deixar com que aquelas pessoas ficassem ali, preferiu transferir essas famílias, e eu fui entre elas, pra 32 quilômetros de distância. E era uma mudança, como era o período da Ditadura Militar, eu era criança, mas eu não lembro de uma discussão com a comunidade, foi uma coisa imposta. Claro que as pessoas que moravam ali, pra ter um lote seu e tal, as pessoas acabam indo. Só que foi um negócio muito cruel porque você tinha um barraco. Por exemplo, no nosso caso, a gente tinha um barraquinho lá, estruturado e tal. Só que um barraco, quando você derruba ele... e o pessoal do Governo que vinha não tinha nenhum cuidado de separar as madeiras, não. Ele chegava lá com um pé-de-cabra e derrubava. Por exemplo, o nosso barraco, que tinha três cômodos, quando chegou lá, deu um barraquinho desse tamanho. Sem água, sem luz, sem esgoto. O transporte precário, você tinha que andar mil metros pra poder pegar um ônibus aqui pro Plano Piloto. Então, assim, nós praticamente fomos jogados no meio de um Cerrado. Um Cerrado, nem capinar o lote, eles não capinaram. Você tinha que baixar, arrancar aqueles tocos, porque é Cerrado, tinha muitos tocos que você tinha que ter um processo de arrancá-los da terra e, muitas vezes, não arrancava direito, muita criança machucava o dedo porque tropeçava naqueles negócios. Foi um negócio muito cruel. Pra você ter uma ideia, água a gente pegava de carro pipa. Os carros pipa que deixam. Você tinha uns tambores. Ainda bem que naquele período não tinha dengue... Pegava uma rua, botava três pontos de água. Às vezes, por exemplo, no nosso caso, a gente que era pobre, você tinha um tambor pequeno, o carro vinha uma vez por semana, botava aquilo ali. Você ficava uma semana sem água, quando o carro vinha, era uma confusão danada, uma briga, era um negócio muito terrível. Nós chegamos lá em 1971, a água encanada só foi chegar três anos depois. A energia elétrica foi chegar cinco anos depois. E foi chegar numa parte da Ceilândia; eu morava mais embaixo, nos primeiros lotes chegou em 1974, eu me lembro que na época de 1974 a gente não tinha televisão, a gente saía de lá de onde a gente morava pra assistir jogo em outras casas que tinham energia elétrica. A rede de esgoto foi chegar quando a gente já tava mudando pra Expansão do Setor “O”, que foi em 1985. Era uma situação muito difícil. Se você for ver a situação da cidade hoje, é uma cidade urbanizada. Claro que teve uma mudança. As pessoas mudaram, não são mais aquelas pessoas, o crescimento vegetativo, as pessoas que mudam, as pessoas que morreram e tal. A cidade, hoje, é uma cidade que já tem bastante infraestrutura, principalmente no setor tradicional, tem escola em todas as quadras, escola de segundo grau, a gente já tem um Câmpus da UnB. Melhorou bastante. Claro que, se você comparar com o Plano Piloto, a diferença é muito grande, o atendimento no Hospital Público ainda é muito deficitário, o Centro de Saúde ainda tem muita deficiência, a área de lazer. Eu estava vendo um dia desses: eu saí lá da Ceilândia, às vezes de manhã eu faço caminhada lá. Você não tem uma pista pra fazer caminhada, um parque. Aqui no Plano o tratamento já é diferente. Os ônibus novos que vêm com televisão, cadeira estofada, vêm aqui pro Plano Piloto, os da Ceilândia são os piores que tem. Mas se a gente for fazer uma comparação, claro que houve um avanço. Pra você vir da Ceilândia pra trabalhar aqui você tinha que vir com duas roupas por causa da poeira, da lama. As pessoas tinham vergonha, eram discriminadas quando você falava que morava na Ceilândia. A questão do emprego, tinha muito problema. (TROCA DE FITA) P/1 – Viridiano, a gente estava comentando sobre as dificuldades para o trabalhador, o morador da Ceilândia, na década de 1980 chegar no Plano Piloto, trabalhar aqui na região de Brasília, a poeira que enfrentava, até a luz que chega de maneira tardia. Alguns entrevistados comentaram conosco o fato - de repente você participou também - que até o jornal de Brasília acabou estimulando esse preconceito contra os moradores de Ceilândia. Fala um pouco disso, como é que era? R – Tinha um jornalista, esqueci o nome dele, mas ele tinha um programa. Além dele escrever para o Correio Braziliense, ele tinha um programa na Rádio Planalto. Um programa policial de grande audiência no Distrito Federal. E ele começou a colocar apelido nos bairros da Ceilândia. Porque a Ceilândia é dividida em vários bairros. Por exemplo, M Norte era “Planeta dos Macacos”. Setor “O” era “Vila do Cachorro Sentado”. O P Sul era “Caldeirão do Diabo”. E ele criou um personagem que voava nesses bairros... P/1 – Um marginal… R - Que era um marginal. E isso era uma visão preconceituosa que, de certa forma, influenciava no dia a dia das pessoas. Muitas vezes, quando iam fazer compras, alguma coisa, as pessoas não colocavam o endereço, não diziam que moravam na Ceilândia. Até há pouco tempo, o Setor P Sul, Setor “O”, que é Ceilândia, as pessoas diziam que era Taguatinga. Tem um episódio marcante em relação a isso, que a Ceilândia, se você percebe, é uma sequência de letras. Taguatinga também. Mas, por exemplo, Setor “M Norte” era um Setor da Ceilândia, só que os moradores, devido a esse preconceito, eles acabaram forçando a administração de Taguatinga pra que eles fossem moradores de Taguatinga. Se você for na M Norte, é uma ligação com Ceilândia, mas as pessoas preferiam ser agregadas à Taguatinga que à Ceilândia. P/1 – Por vergonha. R – Por vergonha, as pessoas tinham vergonha de dizer que moravam na cidade. De uma certa forma, isso veio mudar depois de 1986, 1990. Por Ceilândia ser a maior cidade, o índice de criminalidade é muito grande. Até 1988, por aí, a Ceilândia era tratada como a pior cidade do Distrito Federal. Com o surgimento de outras cidades, como Samambaia, Recanto, essa fama acabou diluindo um pouco em relação à Ceilândia. Mas que esse preconceito com relação à Ceilândia, ele existiu, foi uma coisa muito forte mesmo. P/1 – Coincide acho, a melhoria que você está comentando, 1988, com a nova Constituição e até, com a posterior criação da Câmara Legislativa de Brasília. Ceilândia é a maior população do DF, hoje. Você acha que as melhorias de Ceilândia, de lá pra cá, também foi em fato das necessidades dos eleitores, preocupação da cidade... Fala um pouco das mudanças que houveram na cidade após o fim da Ditadura e a abertura da Democracia. R - Eu acho que o capital vai onde vende. Então, eu acho que pela Ceilândia ser uma cidade muito grande e, de uma certa forma, houve uma melhoria na renda per capita das pessoas, acho que houve mais investimento empresarial e, também, investimento do governo. Eu não sei se essa questão da... Porque Ceilândia tem o maior colégio eleitoral: na última eleição teve 270 mil eleitores, o maior colégio eleitoral. Pode ser que isso, de uma certa forma, tenha melhorado. Mas eu não sei, por ser morador de Ceilândia, não acho que essa melhoria foi proporcional ao tamanho da cidade e a melhoria que houve em outras cidades. Eu acho que a população da Ceilândia ainda é tratada como um curral eleitoral. Por exemplo, vamos levar o Carnaval, vamos levar isso, vamos levar aquilo. Mas ainda não há um tratamento igual pela quantidade de impostos, por exemplo, que a Ceilândia arrecada. Eu acho que a Ceilândia hoje, se ela tivesse revertido na cidade o que ela arrecada de imposto, de ICMS [Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação], IPTU [Imposto Predial e Territorial Urbano], vários outros impostos que são cobrados, eu acho que ela seria uma cidade melhor. Claro que há um avanço muito grande, com a questão do metrô, não é inegável que há uma melhoria muito substancial pra cidade. Essa questão da ida da Universidade de Brasília, UnB, também. Pode até ser que sim, mas eu não sei se há essa relação porque a Ceilândia, por incrível que pareça, nós conseguimos até hoje, como morador da cidade, nós elegemos um Deputado Distrital na primeira legislatura, que foi o Eurípedes Camargo. Tem o Chico Vigilante que é morador, que foi Deputado Federal, mas ele é uma votação de categoria espalhada pelo DF todo. Por exemplo, na última eleição pra deputado distrital, a votação dele foi mais distante. Quem geralmente tem mais voto na cidade, acaba sendo essas pessoas da Direita que têm um trabalho mais paternalista, no caso do Benício Tavares, que se diz “O Deputado dos Deficientes”, outros deputados que coordenavam esse processo de Rende Mínima do Roriz. A população ainda não percebeu a força que a cidade tem. 270 mil eleitores, daria pra eleger, no mínimo, uns quatro deputados distritais e uns dois deputados federais. Mas que, infelizmente, isso ainda não foi canalizado, essa consciência, apesar de ser uma cidade bastante organizada, com movimentos comunitários bem fortes. P/1 – Você participou do movimento pela participação política do DF aqui, nas eleições diretas. Como é que foi? R – Participamos. A gente tinha um Movimento Pró-Representação Política do Distrito Federal, onde a Associação Comercial do Distrito Federal era uma entidade que participava. A gente, como pessoas do movimento popular, junto com o pessoal dos Incansáveis e várias outras associações, nós também participamos de várias reuniões. Lembro que praticamente toda semana tinha reunião aqui na Associação Comercial. Tinha reuniões, faziam-se debates nas escolas da Ceilândia. Teve uma participação bastante ativa dos movimentos organizados do Distrito Federal, principalmente dos movimentos de Ceilândia. P/1 – Qual foi o seu envolvimento específico? R - Eu participava de uma Comissão de Encarregados pela Mobilização da Ceilândia. Eu não era um militante da frente, como eu era do Movimento de Base, participava da discussão mais na base, mobilizando, organizando debates nessas questões. Houve uma participação mais ativa a partir do momento da eleição da Assembléia Constituinte porque, já na convocação da Assembléia, ficou acertado que Brasília teria oito representantes, mas esses representantes seriam pra elaborar a Constituição. Mas a forma de representação política que o Distrito Federal ia ter, ela foi muito debatida, discutida durante a elaboração da Constituição que foi de 1986 até a sua promulgação em 1988. Houve um movimento de pressão muito forte dos movimentos pra poder participar e pra poder fazer com que Brasília pudesse eleger seus representantes, porque não é possível que uma cidade do tamanho do DF ainda ter seus legisladores sendo uma comissão do Senado, porque quem legislava pelo DF era a Comissão do Senado, de cinco senadores, pessoas que você não conhecia, que vinham distante. E o governador era indicado pelo Presidente e os dois últimos eram pessoas... aliás, praticamente quase todos não eram nem pessoas da cidade. No caso do Roriz, que foi o último indicado, era prefeito de Goiânia. O José Ornellas era Coronel do Exército. O de transição, que foi indicado pelo José Aparecido, era de Minas Gerais. Não era possível você ter uma cidade com um número de pessoas e não ter a sua representação. Nesse período houve realmente uma mobilização muito forte da Sociedade Civil organizada, dos sindicatos. O Sindicato dos Professores era um de vanguarda desse movimento, o Sindicato dos Inquilinos. Houve realmente uma mobilização muito forte pra representação política no Distrito Federal. P/1 – Você foi candidato a deputado federal em 1986? R – Fui. P/1 – Conta como é que foi, como surgiu essa ideia? R – Como a gente fazia parte do Partido dos Trabalhadores e eu estava no auge do Movimento dos Inquilinos... mas a grande liderança era o cara que era o Presidente da Associação, eu não era o Presidente. Mas como ele se aliou à direita e eu, por todos esses motivos que falei, de ter uma curiosidade, estudar e tal, eu acabei vendo no Partido dos Trabalhadores, aquele partido que poderia representar o interesse da população. Acabei me filiando ao PT e participava do Movimento dos Inquilinos e, em 1986, o grupo que a gente participava achava interessante você ter uma pessoa com o meu perfil, do movimento popular e tal, movimento de base, ser deputado e ajudar na elaboração da Constituinte. Foi um processo muito rico porque a gente tinha propostas políticas bem avançadas, mas a gente sabe que a Democracia do Brasil é uma Democracia Representativa, mas ela não é real porque o poder econômico define. Tanto o poder econômico do capital, daqueles que detêm o dinheiro, como do próprio movimento sindical, que, de uma certa forma, é uma máquina. Pessoas do movimento popular, é algo muito difícil. A gente participou dessa campanha, eu me lembro, eu acho que quem foi eleito, com o menor número de votos naquela eleição, foi o Sigmaringa do PMDB. O PT não elegeu nenhum, apesar do Chico Vigilante ter tido 16 mil votos, ele não se elegeu. E eu, na chapa, tive 930 votos. Mas foi uma campanha pobre, a gente fazia campanha de rua em rua, com megafone, tinha o apoio da base da Igreja, e o dinheiro que a gente gastou nessa campanha foi uma rifa de uma bicicleta e uma galinhada que a gente fez e gastou na campanha. Foi uma experiência muito boa, mas eu acho que, hoje, por exemplo, eu não entraria nessa aventura. P/1 – Você comentou de uma história do fusquinha, uma vez. Conta pra gente essa história. R – Ah rapaz, essa história do fusquinha [risos]. Bom, foi na campanha de 1986, um colega meu - hoje ele até trabalha na Universidade, é decano de extensão lá da UnB, é jornalista - Wellington. A gente fazia a campanha a pé, não tinha carro nenhum na campanha nossa. A gente tava na rua, o pessoal da Igreja tocando violão e tal, batendo zabumba, a campanha era assim. A gente não tinha nem um carro. Já nos últimos dias da campanha, esse colega nosso tinha um fusquinha e emprestou o fusca pra gente, mais pra se movimentar. Às vezes você tinha comício no Gama, em algum lugar, e ele emprestou esse fusquinha. Eu me lembro que no último comício, que foi um comício de frente ao Conjunto Nacional, a gente encheu o tanque de gasolina do fusquinha, que seria pra você ir no último comício e trabalhar no dia da eleição. Fomos, estacionamos o carro de frente àquele estacionamento da CUT e fomos pro comício. O comício bem movimentado, todo mundo fez os discursos e, quando a gente voltou, era um período que não tava chovendo e debaixo do fusca tava todo molhado. A gente foi ver, era gasolina, o tanque tinha derramado, quase a metade da gasolina [risos]. E aí, como é que vai fazer pra voltar pra casa, com o tanque furado, como é que vai fazer? A gente olhou, ainda tinha um pouco de combustível, eu falei: “Ah, vamos arriscar”. E deu pra gente chegar até Taguatinga. Chegamos lá, quando chegou perto do cemitério, não deu mais. Aí, o irmão do Wellington morava ali bem próximo do cemitério, a gente empurrou o carro, lá arrumamos. Tinha um rapaz que dirigia o carro, eu não tinha habilitação. O rapaz que dirigia o carro fez uma gambiarra lá, pegou um galão daquelas bocas pequenas, botou uma mangueira, ligou no motor e nós fomos embora e rodamos até o dia da campanha com esse fusquinha com o tanque furado. Depois passou a eleição e a gente devolveu o carro pro colega, acho que ele deve ter vendido o carro bem mais barato [risos]. P/1 – Como é que a Constituição de 1988 mudou a sua vida aqui em Brasília, no DF? R - Mudou muito a questão da participação política, porque até você não ter eleição no Distrito Federal, houve uma mudança de conjuntura. O movimento, de uma certa forma, ele era unido, não havia essa divisão, porque todos lutavam por um ideal. Em âmbito nacional, a gente lutava pelo fim da Ditadura Militar e você tinha todas as forças democráticas, até a imprensa, o Correio Braziliense tinha um editorial voltado pra este combate às torturas. Você tinha um movimento organizado que combatia a Ditadura Militar e, de uma certa forma, lutava pela Representação Política no Distrito Federal. A gente tinha essa união. Só que, com a Representação Política, o que aconteceu? Isso mais na segunda legislatura, a primeira teve uma representação mais fiel das forças políticas do Distrito Federal que participavam. A Câmara Legislativa teve pessoas do Movimento Popular, no caso do Eurípedes, tanto do movimento popular mais aliado à direita, como à esquerda, você teve representantes do Movimento Sindical. Por exemplo, o Pedro Celso, que era do Sindicato dos Rodoviários, foi o deputado mais votado. Lucia Carvalho... Várias pessoas que participavam desse processo de agitação política foram eleitos. Só que depois, eu acho que a elite do Distrito Federal começou a perceber que era um campo que ela também tinha que... O representante do grande capital começou a participar do processo eleitoral e, de uma certa forma, diminuiu a bancada dos movimentos populares. Eu acho que a minha vida, mais a vida da população, mudou porque você passou a escolher diretamente o seu representante. Claro que isso não significa que o representante que você escolhe te representa, porque o processo eleitoral é um processo camuflado onde o cara que é dono da empresa de ônibus, ele não vai dizer que defende o aumento da passagem, ele sempre vai dizer que é contra o aumento da passagem. Eu acredito mais, eu acho que é bem melhor você errar num processo democrático, de liberdade, mesmo que seja uma democracia restrita, que você ter um processo de Ditadura, extremamente fechado. Acho que as pessoas têm a oportunidade de ir acertando, acho que cada processo eleitoral é um processo pra você ir acertando, e acertando, e acertando. Acho que o Brasil tem um processo muito novo de democracia. Se a gente for pegar aí, a Constituição de 1891, com o fim da Monarquia, que você estabeleceu o processo de sufrágio universal no Brasil, mas mesmo assim, um sufrágio restrito, onde as mulheres, os analfabetos, os menores de 21 não votavam... Esse processo de interrupção, com Getúlio, teve um processo de interrupção que as pessoas não votavam. Depois de 1964 nós passamos 20 anos sem as pessoas escolherem. Eu acho que a democracia do Brasil ainda é muito nova. Eu acho que a gente tem que ir caminhando pra ir aperfeiçoando. Eu acho que, de uma certa forma... a representação política de Brasília, eu acompanho, assim, as pessoas, a falar: “Ah, porque o deputado é um gasto, a Câmara Legislativa é um gasto.” Eu acho que é uma discussão superficial, essa discussão de valor e da importância da Câmara Legislativa. As pessoas ficam muito preocupadas e a própria elite trabalha isso, ela se preocupa muito com o salário que o deputado ganha, que pode ser muito, do que com as idéias que o cara defende. Você não questiona um (Pedotti?), que tá pegando terras públicas, passando pra iniciativa privada. Você não questiona um (Pedotti?) que está pegando mananciais, que é área de proteção ambiental, passando pros empresários. Não se questiona isso, questiona o salário do deputado, essas coisas. Então, eu acho que a partir do momento que a gente começar a perceber as ideias de cada um, de que lado que cada um está, o que cada um defende, eu acho que esse processo vai avançando. Acho que a vida da população melhorou muito. Acho que há uma conscientização política que está avançando mais a cada dia. P/1 – Quando a gente fala sobre Brasília e autonomia, não tem como não falar da Câmara Legislativa, como você comentou. Você se engajou, na primeira campanha, de alguma maneira, pra Câmara Legislativa aqui do DF? R - Engajei. Em 1986 eu participei como candidato e, em 1990, também pelo Partido dos Trabalhadores, nós trabalhamos muito pra eleição do candidato a Governador, o Saraiva. Nós trabalhamos, ajudamos a eleição da Deputada Maria Laura, que foi eleita, e trabalhamos também, na campanha do Eurípedes Camargo. Na verdade, o Eurípedes Camargo foi o fruto dessa luta que eu falei, dos Incansáveis, Movimento dos Inquilinos, ele era o cara que representava. Foi uma satisfação muito grande a gente ter elegido o Eurípedes Camargo que era um representante legítimo do movimento popular. Acho que foi um marco do movimento a eleição do Eurípedes Camargo. P/1 – Existe hoje, na Câmara, uma emenda popular na Lei Orgânica do DF, artigo 2245, que fala um pouco da questão das eleições diretas dos administradores regionais. Você podia comentar um pouco, como é que foi esse processo? R - Na verdade isso foi até uma emenda popular assinada pela nossa entidade, nas fotos que vocês viram. A Câmara Legislativa abriu um espaço pra ter emendas populares, não me lembro a quantidade de assinaturas, você tinha que fazer um abaixo-assinado... não sei se eram 1500 assinaturas em três regiões administrativas diferentes. Teve várias entidades, o movimento popular se reuniu e dividiu a assinatura de algumas emendas e a gente revezava. Por exemplo, a questão do Fundo pra Alfabetização que o Cepra [?] fazia essa visão de eleição direta para os administradores. A gente acabou colhendo essas assinaturas e essa emenda nossa foi acatada pela Câmara Legislativa. Eu acho assim, por Brasília ser indivisível, do ponto de vista político, ela não pode ser dividida em municípios porque é o Distrito Federal, eu acho que é uma maneira correta. Por exemplo, você pega Ceilândia hoje, quase 500 mil habitantes. O administrador não é da cidade, você pega um coronel que mora no Lago Sul e é nomeado como Administrador. Eu acho que seria uma forma mínima da população estar participando e você criar um Conselho Representativo, que seria consultivo, claro que não teria poder de legislar, mas seria um conselho consultivo onde o Administrador eleito da cidade pudesse consultar essa comunidade. Essa emenda existe, só que não foi regulamentada, ela tem que ser regulamentada, algum deputado, ou até o Presidente da Câmara, tem que regulamentar para ver como que vai ser esse processo, se vai ser o TRE [Tribunal Regional Eleitoral] que vai fazer essa eleição, quem vai fazer, como é que vai ser, se vai ser lista tríplice que vai ser escolhida pela população e o governador vai indicar. Alguma coisa dessa forma, ela tem que ser regulamentada. Mas não se regulamenta porque há interesse. O poder executivo, as administrações, servem de barganha pra você construir uma maioria na Câmara Legislativa. Então, você pega um cara que é deputado, até houve uma mudança na Lei Orgânica, porque antes o deputado não podia assumir a Administração, mudou a lei. Você pega um deputado e, ou coloca ele na Câmara e bota o suplente, ou então você indica: “Você, pra votar comigo, o deputado indica o Administrador.” A partir do momento que o deputado indica o Administrador, ele está aliado ao poder executivo. Acho que esse processo, se não é regulamentado, é porque há interesse do poder executivo, e mesmo dos próprios deputados, de ficar negociando cargos e espaço no governo através dessas administrações regionais. P/1 – Quais são, hoje, os maiores desafios do Distrito Federal, na sua perspectiva? R - Eu acho que um dos grandes desafios do Distrito Federal seria a questão da geração de emprego, porque você tem uma população jovem que, a cada dia, entra no mercado de trabalho e aqui não tem indústria. Quais são as fontes geradoras de emprego? É o serviço público, tanto federal como local, o comércio e prestação de serviços. Você não consegue absorver esse grande número de pessoas que entram no mercado de trabalho. Acho que isso, de uma certa forma, tem que resolver. Um outro grande desafio é, a cidade crescendo, você manter a qualidade de vida que o Distrito Federal já teve, que hoje não tem mais. Uma coisa é você ter uma estrutura pra um milhão de habitantes e, outra coisa, é você ter uma estrutura para o dobro de habitantes. Acho que isso tem que ser resolvido. Também como a questão da invasão de área pública, que seria a criação de água para essa população, porque a cidade está crescendo, crescendo, crescendo, e o que o governo do Distrito Federal, os governos passados, não se preocuparam em preservar os mananciais de água, preservar as nascentes, então, acho que no futuro bem próximo, hoje já estamos buscando água no Goiás. Se a cidade continuar crescendo dessa forma, se não houver um controle e, eu acho que num futuro bem próximo, a gente vai ter problema de abastecimento de água no Distrito Federal. Eu acho que isso é um desafio, acho que o Distrito Federal, os governantes, a população, a sociedade, têm que se preocupar com isso. P/1 – Quais são os marcos da história política de Brasília, do DF, pra você? R – Os marcos você coloca o quê? P/1 – Os pontos que você acha mais importantes? R - Os pontos mais importantes... Uma das questões é essa da criação da representação política no Distrito Federal, acho que foi um ponto importante. A luta pelas Diretas também foi um período muito importante, que envolveu. Acho que Brasília, por ser o centro do poder, ela viveu esse momento de forma direta, sabe? Aquela questão, eu me lembro bem, de no dia da votação das Diretas, quando o General Newton Cruz saiu aqui na Esplanada, montado no seu cavalo e com a sua espada, dando espadada nas pessoas. Houve uma mobilização muito grande da população, acho que aquele foi um marco muito, um momento muito importante. E como também já falei, a questão da primeira eleição pra governador do Distrito Federal foi um momento muito importante pra população do Distrito Federal. Sem falar na sua inauguração, que aí, já é implícito. P/1 – Como é que você vê o futuro de Brasília e do DF, hoje? R – Olha, a gente tem que dividir, né? Você pergunta: “Como você vê o futuro de Brasília no DF?” Pela sua pergunta, você já tá separando Brasília do DF. P/1 – De Brasília e do DF… R – Ah, de Brasília e do DF. Eu acho que é um futuro promissor, acho que até as cidades. Estava vendo Ceilândia, mesmo, uma cidade que até há pouco tempo não tinha nenhuma universidade, hoje já temos uma universidade pública, já temos duas universidades particulares, vamos ter outra. Eu vejo que, você tirando a questão da violência, porque a violência é um problema social, que eu acho que não só o governo do Distrito Federal, mas que o governo federal tem que resolver, eu acho que Brasília pode continuar sendo um local muito bom pra se viver. Acho um futuro extremamente promissor, porque eu acho que a sociedade está mudando, o nível de escolaridade da população está crescendo, é um dos locais onde tem um nível de escolaridade maior e ela está crescendo cada vez mais. Então, acho que, se o governo do Distrito Federal conseguir absorver esse potencial, a gente tem grande probabilidade de construir um grande Estado. Mas a gente tem que ter essa preocupação também de conter um pouco, não diria conter, porque o crescimento é inevitável, mas ter um crescimento mais organizado. Acho que falta planejamento, não é só em Brasília, mas no Brasil. Você fazer um planejamento assim: “Quantas pessoas nascem no Distrito Federal durante um ano?” “Quantas pessoas se casam, constituem família?” “Quantas pessoas precisam ter moradia?” “Quantas pessoas precisam de uma casa?”. Se o governo fizer um planejamento nesse sentido e você ir trabalhando essas demandas gradativamente, acho que dá pra construir uma qualidade de vida boa. O problema é que não há esse planejamento, você deixa a cidade inchar, crescer. Um bairro, por exemplo, lá na Ceilândia, um setor lindíssimo, acho um crime o que fizeram, o Setor de Chácaras, a gente tinha grandes nascentes, você abria 20 centímetros e brotava água. Você encher de casa ali, encher de casa a margem do rio, sem nenhum planejamento, acho isso um absurdo. Acho que se houver um planejamento, Brasília é uma cidade promissora porque aqui quase que 80% das terras são do Estado, ele teria condições de fazer esse trabalho. P/1 – Você é casado Viridiano? R – Sou casado há 34 anos com Abadia Alves de Brito. P/1 – Quantos filhos você tem? R – Tenho dois filhos. P/1 – O que eles estão fazendo? R – O Alexandre, que é o mais velho, é soldado da Polícia Militar, PM, e está fazendo um curso superior. O Fábio, que é mais novo, que também passou no concurso da PM [Polícia Militar], é formado em Letras pela UnB. P/1 – O que você acha desse projeto de contar a história da autonomia política do DF? R – Olha, não só esse projeto, mas o Projeto Vivo, como é que vocês falam? P/1 – Memória Viva. R – Memória Viva! P/1 – Memória Viva Compartilhada. P/2 – Memória Compartilhada. R - Eu acho fantástico. Naquele primeiro curso que vocês fizeram eu vi o depoimento de algumas pessoas, eu acho a ideia maravilhosa. Porque a história do Brasil é positivista, né? É a história dos heróis, são os grandes heróis, aquelas pessoas: Dom Pedro, Tiradentes... Eu acho que esse projeto conta a história do povo, eu acho que o povo também faz história, e quem faz história é o povo. Eu acho que esse projeto poderia ter sido em outra vertente, vocês procurarem os deputados, governador, os remanescentes lá da Missão Cruz, esse pessoal todo, né? Bernardo Sayão. A história positivista, que muitas vezes é contada, é essa. Acho essa ideia de você pegar personagens vindo do povo, pessoas do povo, eu acho interessante. Eu fiquei muito feliz em participar desse processo e ter a liberdade de contar essa história. Essa história, às vezes, está dentro da gente, mas a gente nem escreve e não conta pra ninguém. Acho que, pelo menos, vai ter uma coisa dessa história que eu vivi, presenciei, e que várias pessoas presenciaram; Que alguém, como eu ouvi a história de pessoas lá de São Paulo, vai ter alguém de São Paulo que também vai estar ouvindo essa história. Eu acho fantástico. P/1 – E o que você achou de ter participado da entrevista? R – Eu achei legal. Eu fiquei nervoso, pensando: “Como é que vai ser, vou dar uma entrevista?” “O que eu vou falar?”. Eu acho que foi bastante descontraída, é um ambiente legal, as perguntas estão dentro do que eu poderia falar, citar. Eu me sinto bem à vontade, estou até achando ruim acabar, a gente poderia conversar mais umas três horas que está muito legal. P/1 – Viridiano, em nome da Fundação Banco do Brasil, do Museu da Pessoa e da Abravídeo, a gente agradece a sua participação. Foi muito boa a entrevista, mesmo, e obrigado por ter aceitado participar do projeto. R – Eu que agradeço o convite, estou à disposição. P/2 – Obrigada. --------- Fim da entrevista ---------
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