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História

A busca da exatidão, da lógica, da organização e da disciplina.

História de: Cyro de Oliveira Guimarães Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Cyro começa falando de sua família e de Bragança Paulista, local onde nasceu. Ele relata sobre o fato de se mudar de cidade algumas vezes devido a profissão de médico do pai. Conta sobre a juventude e relata sobre a tradição médica da família. Ele relata sobre a escolha em ser Engenheiro e conta que escolheu a área por buscar a exatidão, a lógica, a organização e a disciplina. Conta sobre a relação com os pais e o que o levou a estudar no Paraná. Ele conta brevemente sobre o período da faculdade. Ele relata sobre o período que trabalhou na Petrobrás até a sua chegada na Aracruz. Volta a falar da Petrobras e de como a empresa era nos primeiros anos de sua existência. Ele conta dos desafios de ser um engenheiro brasileiro em relação aos engenheiros internacionais. Ele relata do momento em que se mudou para o Rio de Janeiro e como a Aracruz lhe foi apresentada. Fala sobre a importância do maior acionista da empresa, o BNDES e também sobre o senhor Lorence. Cyro conta do período militar em relação a empresa e sobre os projetos de construção dela. Ele relata de como a construção foi realizada em um tempo recorde e fala do impacto que ela teve na região como um todo. Cona dos processos mais burocráticos dessa construção. Ele conta do momento em que o convidaram para dirigir o processo de expansão da Aracruz. Conta da importância da Aracruz em ua vida e começa a falar de sua família. Finaliza e agradece.

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História completa

Conversas antes da claquete: P/1 – Uma conversa entre amigos né, do que aquela coisa de pousar, ficar olhando pra câmera. É duro, eu vejo os executivos... faz 15 dias nós fomos entrevistar Abílio Diniz e ele já senta e... ele é todo treinado, mas eu falei assim: “Mas nem o Antônio Fagundes é tão treinado quanto o Abílio. P/? – Gravando. R/1 – É, ele tem muita exposição né. P/? – Ok, gravando. P/1 – Seu Cyro, bom dia. R/1 – Bom dia. P/1 – Eu queria começar nossa conversa com o senhor se apresentando, dizendo o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento. R/1 – Precisa olhar pra câmera? P/1 – Pra gente, pra onde o senhor quiser. R/1 – Bem, meu nome é Cyro de Oliveira Guimarães Filho, nasci em 22 de maio de 1931 na cidade de Bragança Paulista, no estado de São Paulo. Sou engenheiro civil formado pela Universidade Federal do Paraná em 1953. P/1 – E o nome dos pais do senhor? R/1 – Meu pai era médico, como o meu avô e chamava-se Cyro de Oliveira Guimarães, minha mãe Amélia da Silva Guimarães. P/1 – E eles era também de Bragança? R/1 – Não, meu pai era de Caldas, Minas Gerais e minha mãe de Piracicaba, estado de São Paulo. P/1 – E porque que foram viver em Bragança? Como que é essa história? R/1 – Olha, pra lhe dizer a verdade eu não sei, deve ter sido as circunstâncias da vida, eu não tenho a menor idéia. P/1 – E o senhor passou a infância em Bragança? R/1 – Não, logo depois do meu nascimento, uns dois anos depois, meu pai mudou-se, que era médico do interior e morei em diversas cidades, sem nenhuma em particular. P/1 – Então como foi a infância do senhor vivendo em tantas cidades, se adaptando às novidades, as pessoas, as crianças? R/1 – Olha essa... acho que esse convívio múltiplo, me deu assim muita flexibilidade, muita capacidade de adaptação. Eu acho que foi uma infância feliz, normal como qualquer outra criança do interior do estado de São Paulo. P/1 – E o senhor tem irmãos? R/1 – Não, não tenho irmãos, tenho uma irmã que mora em São Paulo, mas somos só nós dois. P/1 – Dessas experiências em cidades distintas que o senhor teve? Teve alguma cidade que marcou mais a sua infância? R/1 – Talvez a cidade de Bauru no estado de São Paulo, onde meu pai residiu por muitos anos lá. Foi a cidade que eu passei mais a minha adolescência e os estudos do ginásio, então eu me recordo bastante bem de lá. P/1 – Qual era a especialidade do seu pai seu Cyro? R/1 – Meu pai era... ele fazia ginecologia. P/1 – E não era muito... não tinham muitos ginecologistas, não era muito comum. R/1 – Não, não tenho muita idéia dessa... desse mercado de trabalho nessa área. P/1 – E as escolas, como foi a sua vida escolar? R/1 – Minha vida escolar foi normal e... eu também não me lembro nada assim que possa ser de maior interesse. P/1 – Mas não tem nenhuma escola que tenha marcado, nenhuma professora? R/1 – Há sim, quem me marcou mesmo foi a escola de engenharia, era muito puxada, até uns 30 anos depois de formado, eu ainda sonhava que estava fazendo provas (Risos). P/1 – Mas porque... pelo visto então o senhor teve uma trajetória de infância em várias cidades. Deve ter estudado em várias escolas e tido amigos diversos. Quando que o senhor... teve alguma cidade que o senhor ficou mais tempo, que ficou... R/1 – Foi em Bauru. P/1 – Foi em Bauru, por quanto tempo lá o senhor ficou? R/1 – Talvez uns... creio que uns cinco, seis anos, por aí. P/1 – Em Bauru o senhor fez o ginásio, fez até... R/1 – Terminei o ginásio e comecei o científico. P/1 – Como é que era a sua turma de amigos na fase do ginásio? R/1 – Eu perdi totalmente o contato com eles. P/1 – E os programas? O senhor ia ao cinema, tinha cinema? R/1 – Programa do interior, sabe como é, basicamente clube e cinema, nada muito especial. P/1 – O senhor fazia o footing(?) nas praças? R/1 – Claro, depois do cinema as moças desfilavam na rua 1º de Agosto e os rapazes ficavam apreciando, namorando, flertando, como se dizia naquele tempo. E era essa a vidinha de interior mesmo, muito calma, muito pacífica. P/1 – E o senhor era namorador? R/1 – Eu diria que não viu. Eu tinha as minhas namoradas e tal, mas de uma forma mais estável. P/1 – Tendo essa trajetória de ter... o avô era médico e o pai também... R/1 – E mais três tios meus também são médicos e alguns sobrinhos também... alias, sobrinhos não, primos, também formaram-se em medicina. O mais curioso é que eu sou o único engenheiro da família e um outro primo meu fez vestibular pra engenharia, passou, cursou o primeiro ano, trancou a matrícula, fez novo vestibular e foi fazer medicina também. De modo que a família tem uma certa tradição médica, e como engenheiro eu sou o único engenheiro da família. P/1 – E eles são todos especialistas na mesma área ou não? R/1 – Não... não creio. Meus tios eu nem sei mais no que eles eram especialistas. Esses meus sobrinhos formaram-se pela USP em São Paulo e clinicam lá em São Paulo, também não sei dizer qual é a especialidade deles. P/2 – A escolha do senhor, de alguma forma desagradou a família? Houve incentivo, alguma barreira? R/1 – Não, não houve barreira nenhuma. Aliás, me recordando, o meu primeiro professor de francês, que era um belga, me disse numa ocasião que eu ia ser engenheiro e por coincidência ou não, o fato é que quando chegou o momento da decisão, eu preferi fazer engenharia. P/1 – Como se deu essa escolha, porque o senhor escolheu ser engenheiro? R/1 – Olha, mais pela busca da exatidão, da lógica, da organização, da disciplina, são fatores que me atraíram na carreira de engenharia e que exige uma certa ordenação, disciplina, tenacidade, persistência, racionalidade, organização, isso tudo tem muito a ver com a minha pessoa, então foi uma tendência natural eu me encaminhar pra essa carreira que correspondia mais ao meu perfil psicológico. P/1 – O senhor estudou em escolas de orientação religiosa? R/1 – Não. Meu pai, como minha avó, era extremamente religiosa e criou os filhos com um rigor enorme em matéria de religião. E meu pai, estudando medicina, acabou virando ateu, ele era um agnóstico, ele acreditava em deus, mas não... não fazia... não exigia, digamos assim, uma formação religiosa especial. Eu me lembro de ter freqüentado a escola Dominical, mais por influencia da minha mãe, mas meu pai não era... ele era um homem muito liberal, ele não impunha. P/1 – Como era a sua relação com ele, com sua mãe? R/1 – A minha era uma relação normal, acho que havia respeito, havia uma certa distância também, mas eu sei que ele gostava muito da gente, nos amava, mas era uma pessoa um pouco mais ocupada, um pouco mais distante do que... minha mãe já era mais carinhosa, mais aconchegante. Esse é... acho que é o perfil normal também de um casal, em geral a mulher é mais sentimental, mais carinhosa, mais... o homem é mais racional, mais frio um pouco do que a mulher. P/1 – E quando que o senhor, na época do vestibular, porque que o senhor foi estudar no Paraná? R/1 – Eu fui estudar no Paraná porque era... primeiro porque era uma escola de engenharia considerada entre as melhores do pais e em segundo lugar, porque morando no interior de São Paulo, nos apavorava um pouco a idéia de morar na capital, com todo o movimento, aquela coisa. Então diversas pessoas dos meus amigos preferiram fazer vestibular em Curitiba e eu os acompanhei e não me arrependo porque hoje a escola de engenharia da Universidade do Paraná, segundo pesquisa feita no levantamento entre empresários e executivos, se coloca entre as quatro melhores escolas de engenharia do pais. P/1 – E na universidade, quando o senhor sai pra viver no Paraná, como é que foi essa... R/1 - Olha, a escola de engenharia do Paraná é uma escola muito dura, tinham ótimos professores. Quando eu me formei, meus pais estavam aposentados e tinham se mudado para São Paulo. E eu, no ano seguinte, em 1954, eu fui contratado pela Petrobrás para implantar a fábrica de fertilizantes de Cubatão, onde eu tive a missão de preparar a fábrica para a chegada da empresa montadora. Então executei sob regime de administração direta o... terraplanagem, o sistema de drenagem, o edifício da administração, o almoxarifado, oficina mecânica, quando então chegou a empresa Montreal, montagem e representação industrial, que era na época a melhor montadora do país para implantar a fábrica. E a pedido do diretor da Montreal, ele solicitou que eu fosse posto a sua disposição, e aí começou a minha carreira na Montreal, onde eu trabalhei durante 14 anos tendo feito diversos empreendimentos, como chefe de obra, responsável pelo escritório de... da região sul da Montreal, compreendendo o estado de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. P/1 – O senhor se formou em 1953? R/1 – Eu me formei em 1953, em 54 eu entrei... P/1 – Na Montreal... R/1 – Não... P/1 – Na Petrobrás. R/1 – Na Petrobrás, e permaneci. Em 55 eu fui posto, fui transferido pra Montreal, por opção minha e a convite do presidente da Montreal e iniciei uma carreira que durou 16 anos e a onde eu tive oportunidade de executar algumas obras interessantes como Aços Finos Piratini, Aços Anhanguera, alias que, vai ter algum vínculo com a Aracruz, porque o Marcos Viana, que veio a ser o presidente do BNDS, na época era o diretor financeiro da Aço Anhanguera e que, tendo visto o meu trabalho na implantação da fábrica da Aços Anhanguera, depois me convidou pra vir implantar o projeto da Aracruz. P/1 – Que interessante. R/1 – Nessa época, ainda como Montreal, eu fui cedido a Furnas Centrais Elétricas pra montagem eletromecânica da Usina de Furnas, onde tive a oportunidade de salvar São Paulo e Rio de Janeiro do Blecaute, porque consegui implantar as máquinas com dois meses de antecipação em relação ao programado, e tive também nessa ocasião, fui substituir um técnico canadense que foi dispensado por Furnas e eu o substitui nessa missão de implantar a montagem eletromecânica da Usina Hidrelétrica de Furnas. P/1 – Voltando só um pouquinho nessa questão da Petrobrás, tendo um gancho dos 50 anos, que a Petrobrás está comemorando 50 anos, uma curiosidade, o senhor foi trabalhar em 54, portanto, era uma pequena empresa. Qual era o sentimento que o senhor tinha em relação a Petrobrás? R/1 – Olha, naquela época falava-se muito no “Petróleo é nosso.”, então a Petrobrás era uma aspiração de desenvolvimento do país. Pra você ter uma idéia, a fábrica de fertilizantes de Cubatão, ela fica ao lado da refinaria de Cubatão, que foi implantada pela empresa americana Mack(?) e a fábrica de fertilizantes de Cubatão foi implantada pela Montreal com técnicos brasileiros, de modo que eu pertenço a primeira geração de engenheiros brasileiros que tiveram a oportunidade de assumir funções que anteriormente eram exercidas por técnicos estrangeiros e que foram extremamente satisfatórios, tanto é que a partir daí, as oportunidades foram abertas para os técnicos brasileiros. P/1 – Foram desbravadores então? R/1 – E até... mencionando isso, me faz lembrar a revista O Empreiteiro, me cita como um dos pioneiros da engenharia nacional entre diversos outros que são citados na revista. P/1 – Quais eram os desafios de ser um engenheiro nacional? O que que tinha de diferença em relação aos de fora? R/1 – Veja, o que tinha de diferente é que a nossa geração é uma geração nova, cheia de conhecimentos e entusiasmo, mas com pouca experiência. E esse entusiasmo e a geração das oportunidades de exercemos a função nos deu depois a experiência que... equivalente a dos técnicos estrangeiros. Um outro fato interessante, não sei se você sabe, a Aracruz, quando... no início da sua implantação buscou financiamento do IFS, e o IFS avaliou que era preciso trazer uma empresa estrangeira, possivelmente uma empresa americana, dada a complexidade de dimensão de empreendimento da Aracruz. Na ocasião, o Marcos Viana, que era presidente do BNDES e um dos principais acionistas da empresa, como agente de desenvolvimento não concordou e como conseqüência o IFS não veio a ser acionista da Aracruz, porque não confiava que... porque Marcos Viana acreditava que a engenharia nacional pudesse se desempenhar a contento da missão. E foi daí que Marcos Viana se lembrou de mim. Eu era, na época diretor técnico da Hidroservice(?) Engenharia de Projetos, na época a maior empresa de consultoria do país e me convidou pra vir assumir a implantação do projeto da Aracruz, daí a razão de eu ter me mudado para o Rio de Janeiro. P/1 – A hidroservice era do Machude? R/1 – Do Machude. Machude era o diretor presidente, eu era um dos diretores técnicos, nós éramos quatro diretores técnicos, cada um cobrindo uma determinada área... um determinado segmento do mercado. P/1 – Em função da Hidroservice o senhor veio pro Rio? R/1 – Em função do Marcos Viana. P/1 – Do Marcos Viana e da relação com a Hidroservice. R/1 – Aliás até na época o Machude telefonou para o Marcos Viana reclamando que uma empresa estatal estava prejudicando uma empresa privada, tirando _____ do seu quadro de gente. P/1 – E como é que foi essa chegada ao Rio de Janeiro? R/1 – Eu me mudei para o Rio de Janeiro em agosto de 1975. Inicialmente fiquei viajando na ponte aérea porque meus filhos estavam cursando escolas em São Paulo e até o final do ano eles permaneceram em São Paulo. Em janeiro do ano seguinte, fizemos então a mudança definitiva para o Rio de Janeiro. E desde então estamos radicados aqui no Rio, como bons cariocas. Meus filhos cresceram aqui, casaram-se aqui, tenho netos aqui e minha vida se estabilizou aqui. Como eu disse, o projeto de implantação da Aracruz começou em 75 e durante 36 meses ele foi implantado a um prazo equivalente de uma indústria similar no exterior e a custos equivalentes. De modo, foi um projeto de bastante projeção e na época foi considerado o maior projeto privado do governo Geisel. Terminada a expansão eu fui assumir a criação da área de implantação de empreendimentos da Promon Engenharia. P/1 – Mas quando o senhor... voltando um pouquinho, antes da gente... vamos explorar um pouco mais essa questão. Quando o senhor soube do projeto da Aracruz, com toda essa história que foi lhe apresentado o projeto... Como é que foi essa apresentação? O que o senhor achou do empreendimento, do desafio que tinha pela frente? R/1 – Olha, o desafio me foi apresentado pelo Marcos Viana e era muito interessante porque, na realidade tratava-se de criar uma empresa e implantar um projeto, porque a Aracruz, naquela ocasião, existia a Aracruz Florestal que tinha cuidado da compra, pesquisa florestal, plantios florestais e tinha adquirido terreno da fábrica, tinha executado uma parte da terra planejem, mas ainda o desenvolvimento do projeto de engenharia, da compra dos equipamentos, da contratação das empresas para construção, montagem, fornecimento dos equipamentos e materiais, ainda estava por fazer. Paralelamente era preciso criar a empresa, desenvolve-la no seu ponto, para que pudesse suportar um projeto dessa magnitude. E esse foi o desafio que me foi colocado. O seu Lorence(?) era o diretor... era o presidente do conselho de administração. Eu tinha o título de vice-presidente executivo, que correspondia, na estrutura da empresa ao cargo de presidente da empresa. E, foi um desafio muito duro, bastante exigente, mas foi de uma enorme satisfação profissional. Deve-se somar aos outros desafios anteriores, como a implantação da hidroelétrica de Furnas, os estudos do metrô de São Paulo, são projetos que eu tive a oportunidade de conduzir, de trabalhar, de participar. P/1 – O senhor então... a sua entrada, a sua participação na Aracruz se deu por meio do BNDES, através do BNDES, na figura do seu Marcos Viana... R/1 – É, que na época era o nosso principal acionista da empresa. P/1 – Que presidia o BNDES e o BNDES era o principal acionista. Como foi que o senhor conheceu o senhor Lorence(?), o senhor lembra ? R/1 – O senhor Lorence me foi apresentado e é uma pessoa a quem eu muito admiro. É um idealista. Eu acho que se a Aracruz existe, deve-se muito a sua persistência, a sua direção, a sua... seu amor por esse empreendimento, a sua perseverança em... na sua implantação. E a estabelecimentos de algumas diretrizes básicas. Na época proteção ao meio ambiente não era ainda... não tinha a dimensão que ele tem hoje, no entretanto, a mais de um quarto de século atrás, seu Lorence já recomendava que se adotassem as normas mais rigorosas de proteção ao meio ambiente existentes no mundo. E tivemos sempre um convívio muito cordial, ele sempre me apoiou na condição do empreendimento. Inclusive nos encontramos novamente na... no novo projeto de expansão da Aracruz em 1986, que fui convidado novamente para o projeto de expansão da Aracruz. P/1 – O senhor quer uma água? R/1 – Por favor. Fim da faixa 2 do CD Início da faixa 3 do CD. R/1 – ... Ele bateu o pé, o que aliás era na época uma política de governo prestigiar as empresas nacionais. P/1 – Era uma empresa estatal? O governo, uma empresa nacional e uma empresa estrangeira, era o modelo Tripartite(?), era isso também? R/1 – Não, não é isso na petroquímica... P/1 – Só pra... R/1 – Mas na... eu entendo que na época do governo militar, havia um esforço para a valorização e contratação das empresas nacionais. Onde houvesse uma necessidade de tecnologia, como na Petroquímica por exemplo, é que se aceitava o modelo Tripartite. E foi possivelmente essa razão que ele não concordou em entregar o projeto da Aracruz a uma empresa estrangeira, razão então do convite que ele me fez. P/1 – E o que que o senhor acompanhou sobre os estudos de viabilidade do projeto? O senhor acompanhou de perto ou quando o senhor chegou já estavam definidos? R/1 – Não, os estudos de viabilidade antecedem as definições dos valores, dos orçamentos e dos pleitos para financiamento. Então quando eu assumi, esses estudos iniciais já tinham sido executados, já havia sido definida a viabilidade do empreendimento e tratava-se agora de implantar um projeto, desenvolver o projeto de engenharia, providenciar as comprar dos equipamentos nacionais e estrangeiros e construir as edificações, as bases, as fundações e instalar os equipamentos e máquinas que produziriam a celulose. P/1 – Quais foram as empresas que se envolveram no projeto de construção? R/1 – Na época, na construção civil nós tivemos Alcindo Vieira, Convap(?), nós tivemos... está me falhando a memória agora da outra empresa. P/1 – Isso na construção civil? R/1 – Na construção civil. Na montagem nós tivemos a Montreal Engenharia e a Teeneger(?) Engenharia, como montadoras na primeira fábrica. P/1 – E o senhor ficou responsável por toda essa... esse arranjo, essa ordenação das empresas envolvidas, dos processos? R/1 – Nós definimos a estrutura de organização da empresa, a contratação dos profissionais para lotar os cargos que... que se faziam necessários. Se não me engano, na época que eu cheguei em Aracruz, a Aracruz tinha entre 26 a 30 pessoas, então era preciso estruturar a empresa para as dimensões de um projeto desse porte. Selecionar e contratar as pessoas, definir os procedimentos de organização e administração e fazer essa máquina andar. P/1 – Era um desafio e tanto não? R/1 – Foi o que me coube fazer, _________ , foi quando eu contratei pessoas que eu já conhecia, que eram de minha confiança e que deram um bom resultado. P/1 – Da onde o senhor trouxe essas pessoas? R/1 – Alguns eram pessoas de preferência, pessoas que já estavam aqui no Rio de Janeiro, para evitar o deslocamento e tudo mais. Um deles foi o doutor Giofredo(?) Vitor de Moraes, que tinha sido diretor da Montreal, tinha sido um dos chefes de departamentos de Furnas Hidrelétrica, pessoas que eu já tinha convivido anteriormente em outros empreendimentos. P/1 – O seu Iacoponi(?), ele teve... qual foi o papel dele nesse processo? R/1 – O projeto Aracruz propiciou um estabelecimento de algumas empresas novas no Brasil, uma delas foi a Jacopoire(?). Jacopoire é uma empresa finlandesa especializada em indústrias em bases florestal, entre as quais, celulose. Essa empresa, dada as dimensões do projeto da Aracruz, estabeleceu-se no Brasil com escritório em São Paulo, onde ela desenvolveu o projeto de detalhamento da engenharia de projeto. Uma outra empresa que nasceu do primeiro projeto da Aracruz foi a Implan Engenharia que foi uma empresa especializada em projeto Management(?), engenharia de implantação de empreendimentos, além de alguns projetos de empresas no estado do Espírito Santo. Base essa que se ampliou com o projeto de expansão da Aracruz Celulose, gerando novas oportunidades as empresas capixabas, tanto de construção como de manutenção, fornecimento de equipamentos, materiais e até a própria _______ engenharia, da qual eu fui o primeiro presidente, hoje sou presidente do conselho de administração. Hoje nós... como a empresa privada nacional, nós já gerenciamos a implantação de mais de 10 bilhões de dólares de empreendimentos industriais no Brasil, na Argentina e na Venezuela. P/1 – Puxa, considerável né seu Cyro. Das construtoras tradicionais, Odebrecht, Camargo Corrêa, nenhuma dessas esteve envolvida no processo de construção da fábrica? R/1 –No primeiro projeto de expansão não. A Teenenger(?) é uma empresa do grupo Odebresh(?), hoje ela já foi absorvida pela estrutura da Norberto Odebrecht. No projeto de expansão nós tivemos a OAS... poxa, cabeça hoje não está boa. P/1 – Não, não tem problema. R/1 – E a Teenenger novamente, a Montreal e a Sade(?) como montadoras, as três últimas como montadoras. P/1 – Agora vamos falar um pouco mais sobre essa história da construção mesmo. Tem uma... uma ... corre-se uma história que o senhor bateu os recordes... a fábrica foi construída num tempo recorde assim. Como é que foi isso que o senhor tinha uma meta, que tinha sido uma meta imposta, mas o senhor fez num tempo, consegui fazer o projeto caminhar a passos largos? R/1 – Veja, tato a pequena fábrica como a segunda, foram implantadas dentro das metas pré-estabelecidas e é naturalmente, isso depende de muito planejamento, depende muito da equipe, da motivação da equipe e o meu papel era um papel de liderança, de motivação, de comando. Mas tivemos sucesso, conseguimos atingir os nossos objetivos e o sucesso na implantação da segunda fase da Aracruz foi de tal monta que permitiu a criação da Guimar(?) Engenharia, fundada em 1990, numa época de crise no mercado brasileiro, uma crise muito séria, mas mesmo assim se consolidou , cresceu, ampliou e hoje é uma das maiores empresas de gerência de implantação de empreendimentos do país. P/1 – Quantos operários estiveram envolvidos nessa construção? Na primeira planta, na planta A? R/1 – Veja, na primeira fábrica nós devemos ter tido perto de umas 15 mil pessoas, mas isso... a de lembrar que nessa época a região de Aracruz era carente de todas as facilidades. Pra você ter uma idéia, para se ir de Vitória a fábrica, atravessava-se aquele rio, Perequê-Açu num barquinho que levava duas pessoas mais um barqueiro remando, não havia aquela... Posteriormente foi implantado uma balsa, já na época do... por nós e depois a ponte. Além da fábrica propriamente dita, eu tinha responsabilidade por implantar uma pequena cidade, que era o bairro do Coqueiral, onde iriam residir todos os operadores e engenheiros responsáveis pela produção e manutenção da fábrica. Além disso, era preciso construir o porto da Portocel, que receberia os navios de celulose, construir os armazéns. Uma história interessante é que os... o porto da Portocel inicialmente tinha uma capacidade para navios de menor porte e por observação do Elisé(?) Batista de Carvalho, que na época se interessou pelo assunto, foi ampliada a capacidade do porto para receber navios de maior porte, já pensando no desenvolvimento futuro. E além disso nós tínhamos que trazer as linhas de transmissão de energia, construir as estradas de acesso da... Pra você ter uma idéia, aquela estrada litorânea que liga a Vitória a fábrica, foi um projeto que nós contratamos e doamos ao DER do Espírito Santo para ser implantado e deslocamos o eixo desta estrada próxima ao porto para criar uma área de retroporto que permitisse a... o crescimento das instalações portuárias no futuro. Quando chegamos também na Aracruz, a concepção inicial era de trazer a água do rio doce através de um sistema de canais e tubulação sob a alegação de que na região os rios não abasteceriam com suficiente água as necessidades da fábrica. Nós providenciamos novos estudos hidrológicos e provamos que havia água suficiente na região e que através de um sistema de barragens, podíamos acumular reservatórios com um ciclo de abastecimento... que garantisse o abastecimento da fábrica. Tanto é que a primeira fábrica e a segunda fábrica foram abastecida por esses sistemas sem nenhum problema. Vale registrar que esses estudos iniciais foram conduzidos por empresas suecas, que nós tivemos a oportunidade de constatar e demonstrar através de técnicos nacionais que era possível encontrar uma solução mais econômica. P/1 – Então, quer dizer que contra tudo e contra todos, o projeto, ele acabou mudando a dinâmica da região como um todo? R/1 – Sim, o projeto da Aracruz foi vital e fundamental para a dinâmica da região. Um outro... Havia também uma concepção muito acanhada do bairro do coqueiral, que nós tivemos a oportunidade de reformular e contratar um urbanista de São Paulo, que eu conhecia, para refazer o projeto urbanístico do bairro do Coqueiral, que eu não sei se vocês conhecem, é um... ficou muito bom, com uma nova concepção mais moderna, mais atualizada. Mas então, como eu dizia, não era apenas a missão de organizar uma empresa e implantar uma fábrica, era preciso implantar um bairro residencial com todas as atividades de água, esgoto, comunicação, energia elétrica, pavimentação, escola. P/1 – Hospitais. R/1 – E todas as necessidades de uma comunidade. Um porto... Trazer um sistema de comunicação e de energia elétrica, estabelecer o sistema viário da região através de estradas que permitissem a circulação, foi um projeto bastante interessante. Na época também tivemos oportunidade de participar da fundação da empresa que reúne as empresas produtoras de celulose, na época chamava-se Abecel(?), a da qual eu fui um dos fundadores. P/1 – E essa história que nós ouvimos que o senhor disse que ficava pra implantar, participaria da construção e da implantação da fábrica e depois iria embora, é real? R/1 – É verdade. Quando o Marcos Viana me convidou, já estabelecemos o critério que minha missão seria a implantação da fábrica. Eu como engenheiro, desde a minha formatura, ligado a desenvolvimento de planejamento, estudo de projetos, construção, montagem industrial, não me sentia muito confortável na direção de uma fábrica em produção onde entra num ciclo diferente, não digo que seja menos importante, mas é de outra natureza. E a minha... pra mim os desafios eram mais dinâmicos, requeriam então... Foi acordado desde aquela época que terminada a implantação, eu deixaria e empresa, como fiz, e continuei a minha carreira de implantador, até que vim criar a minha empresa própria. P/1 – Com respaldo incrível. P/2 – A gente ouviu dizer que... doutor Gauveias(?) disse que durante o processo de implantação houve um aumento enorme no orçamento dos custos da construção e que isso trouxe um... vamos dizer assim, um problemão pra finalização da fábrica. Como foi viver esse processo? R/1 – Veja, depende em que moeda você está falando. O projeto Aracruz, em dólares por tonelada de produção ficou integralmente dentro dos padrões internacionais. Em reais ou na época cruzados ou a moeda que mudou tanto né, considerando a inflação, isso sempre é um problema. É um problema porque há uma desvalorização da moeda, então em moeda nominal você tem acréscimos e você a de se lembrar que a inflação brasileira naqueles períodos eram bastante elevadas. Então o projeto dessa magnitude sofria o impacto do projeto. Mas em moeda constante, como o dólar, eu acho que o nosso projeto ficou integralmente dentro dos padrões internacionais. P/2 – Na prática, então como o senhor superou esse problema da moeda local? R/1 – Na prática... evidentemente os acionistas tiveram que aportar os cruzados ou... moeda da época, necessárias a cobrir os custos. P/1 – Doutor Cyro, como é que... os equipamentos, eles vinham da onde? Eles... vocês tinham fornecedores específicos? R/1 – Os equipamentos, em grande parte... os equipamentos principais na época em grande parte eram importados. Alguns equipamentos e materiais de tubulação, de eletricidade eram de origem nacional. Então aquilo que era possível comprar no pais foi comprado e o que não era possível nós tivemos que importar. P/1 – E o senhor participou também desse processo de importação? R/1 – Nós participamos do processo de seleção, julgamento e contratação dos equipamentos e dos trâmites burocráticos para implantação e liberação alfandegária. P/1 – Que era bastante... R/1 – Na época... porque vocês... provavelmente vocês não se lembram, mas na época havia uma restrição da Abidibi(?) a importação de equipamentos, você tinha que ter uma autorização da Abidibi pra poder importar. P/1 – Importar é o que exporta... Exportar é o que importa, não era isso? (Risos) O senhor quer mais água? R/1 – Não obrigado. P/1 – Tinha uma política do governo mas foi mais depois do Geisel. R/1 – É, o objetivo era... como sempre o pais estava em crise de disponibilidade de moeda forte, então a ação do governo era de evitar de um lado a dispende(?) de moeda forte e de outro lado de criar mercado para a industria nacional. E os órgãos de classe, naturalmente agiam nessa direção. P/1 – Mas a Abidibi ela... o senhor falou, estava falando da Abidibi também, Abidibi regulamenta as empresas de industrias de... R/1 – De base. P/1 – De base né, que envolvia muito a questão... R/1 – Era equipamentos industriais em geral. P/1 – Em geral. O senhor tem alguma história pitoresca em relação a construção da fábrica que a gente pudesse estar registrando? R/1 – Veja, nada que eu me lembre nesse momento viu. P/1 – (Risos) E na opinião do senhor, e aí quem sabe se o senhor lembrar algumas coisa, o senhor nos retoma. Qual foi o papel dessa... a construção da Aracruz para o desenvolvimento do estado do Espírito Santo? R/1 – Eu acredito que tenha sido um agente dinamizador do desenvolvimento do estado do Espírito Santo, porque criou um... oportunidades de emprego, criou oportunidades para empresas locais. Na época, procuramos através de ações junto a prefeitura do município de Aracruz criar escolar para a formação de pedreiros, armadores, mão de obra que iria ser necessária para a construção. Então a escola implantada no bairro do Coqueiral é uma escola modelo que tem tido enorme sucesso no vestibular para colocação do seu pessoal. Então ela... as influências do projeto Aracruz são múltiplas, gerando uma população com poder aquisitivo elevado, poder de compra elevado, gerando oportunidades de trabalho para pequena indústria local, as firmas de construção, aos fornecedores de equipamentos e matérias locais, eu acho que tem sido um agente dinamizador do desenvolvimento daquela região. Com melhoramentos no sistema viário, no sistema de energia elétrica, de comunicações, o impacto na região foi muito grande. P/1 – O senhor depois, no projeto de expansão, o senhor foi convidado a participar de novo, cujo... como é que foi isso? R/1 – Quando a Aracruz decidiu expandir a sua produção para um milhão de toneladas/ano, me procuraram novamente e me convidaram para dirigir o projeto de expansão e eu assumi o cargo de diretor de desenvolvimento responsável pela implantação dessa nova etapa do projeto da Aracruz. P/1 – Como é que foi essa etapa? R/1 – Novamente foi criada uma estrutura independente, inclusive fisicamente separada da... dos escritórios da Aracruz. Nosso escritório era naquele prédio na praia de botafogo, prédio da KM(?), nós tínhamos o nosso escritório central localizado ali e novamente fomos buscar os profissionais que a gente tinha confiança para assumirem as funções necessárias ao desenvolvimento do projeto. E procuramos especialistas nas áreas de engenharia de projeto, na área de compras e suprimento, na área de construção e montagem, na área de planejamento, na área de controle de custo, administração de contratos e com essa equipe conduzimos o projeto de expansão através de um planejamento detalhado, de um controle rigoroso de prazos e custos e mais uma vez era uma missão que terminada, se encerrava minha participação na Aracruz. Nessa oportunidade, quando se aproximou do final do projeto, eu consultei a minha equipe para ver o que eles achavam mais conveniente. Simplesmente uma dispersão, cada um ia cuidar da sua vida, tentarmos ir em conjunto para um novo projeto ou fundar uma empresa nossa que desfrutasse da repercussão e da... do conceito que havíamos gerado com um projeto bem sucedido, num prazo recorde, dentro de padrões elevados de qualidade. E a opção da equipe foi de continuarmos juntos implantando uma empresa nossa. E mais interessante foi que, como nem um de nós era capitalista, nós abrimos uma caderneta de poupança e todo mês cada um depositava um determinado valor nessa caderneta de poupança para constituir os fundos iniciais pra implantação da empresa. Quando terminou o projeto, nós constituímos a empresa e alugamos um escritório, em uma rua... uma casa, uma residência ,a rua Paissandu, que foi a nossa primeira sede. Éramos 16... era alias 18 acionistas, o símbolo da Guimar(?), já ali comentei, dessa união da equipe comigo, Guimar vem da palavra Guimarães, que é o meu nome de família com o AR de Aracruz, que era a origem nossa comum, que nos unia. É por isso que na palavra Guimar, o M e o A estão unidos, simbolizando a nossa união de objetivos, de integração, de objetivo comum. E assim foi, fundamos a Aracruz (?) e na época havia outro projeto em andamento da Bahia Sul(?), uma fábrica de celulose também, que estava enfrentando algumas dificuldades, essa empresa nos contratou para dar suporte a ela. E segundo o presidente da empresa na época, depois da nossa entrada, pela primeira vez se cumpriu um cronograma no projeto Bahia Sul. O primeiro contrato da Guimar, foi com a própria Aracruz, porque haviam alguns trabalhos adicionais de um novo projeto que a Aracruz estava implementando e ela nos contratou para, com a mesma equipe, dar continuidade àquele trabalho. Então o projeto da Aracruz e o projeto da Bahia Sul foram os dois projetos, duas empresas de grande porte que nos contrataram como Guimar para implantar os seus respectivos projetos, e daí vieram novos empreendimentos. Hoje... depois... tivemos... Temos orgulho de ter repetido novos projetos para mesmos clientes de diversas empresas. P/1 – A Guimar então é uma empresa que é especialista em plantas... P/? - ______ P/1 – Ele vai só trocar a fita e eu já vou caminhar para encerrar a entrevista. R/1 – Ta. P/2 – O senhor quer mais água? R/1 – Eu aceito. Fim do CD 01. Inicio do CD 02. R/1 – ...Toda análise socioeconômica, estatística, fluxo de tráfego, alocação do tráfego a modelos matemáticos para simular o deslocamento das pessoas, contagem para calibragem do modelo matemático, foi muito interessante. Definição dos equipamentos para a rede elétrica, a rede de veículos, o traçado das linhas, a prioridade das linhas, foi... foi muito interessante. Se você pegar aquele livrão dessa altura, é um livrão desse tamanho, dessa grossura, tem lá a minha assinatura no livro de apresentação do metrô... P/1 – Do metrô. R/1 – Porque foi uma associação da Rochtif Montreal de Consult(?), eram duas empresas alemãs e a Montreal, e eu era o diretor representando a Montreal. P/1 – A Montreal ainda... P/? – Estamos gravando ta? P/1 – Tudo bem. A Montreal ainda existe? R/1 – Não, a Montreal desapareceu... P/1 – Desapareceu? R/1 – Infelizmente com essa crise no Brasil ela desapareceu, acabou desaparecendo. Infelizmente no Brasil as empresas em geral não sobrevivem aos seus fundadores e eu sei que eu estou fazendo força pra minha não acontecer o mesmo. P/1 – A Veracel(?)... A Veracel... na verdade eu comecei a pergunta pelo fim. A Guimar está envolvida pelo projeto da Veracel? R/1 –Não, não está porque a Aracruz acabou absorvendo com equipe própria toda essa experiência que a gente teve e ela optou por contratar, usar a equipe própria ou alguns profissionais de empresas locais, dentro daquela política de valorizar e dar oportunidade as empresas capixabas, ela optou por esse caminho. P/1 – Que é agir localmente. R/1 – ... Na realidade ela fez um pouco daquilo que eu fiz nos projetos anteriores, que foi ter a cabeça, vamos dizer, quem tenha o conhecimento, a experiência e contratar as melhores pessoas para determinadas funções, na realidade foi isso. P/1 – Na trajetória, na carreira do senhor, o que que representou essa experiência com a Aracruz? R/1 – O que representou... Eu diria que representou talvez um dos maiores desafios profissionais porque não só envolveu aspectos técnicos de planejamento, de projeto, de compras, de construção e de montagem, mas também aspectos de organização, de atitude empresarial, de relações com o governo, relações com financiadores, que era uma atividade que eu não tinha sido tanto envolvimento no passado. Mas na Aracruz e na implantação da fábrica, além de um técnico eu era um dirigente, era um empresário. Tinha toda a exposição e a relação que um empresário de uma grande empresa tem com as entidades de classe, com os agentes governamentais, com a representação da empresa. Foi uma... uma exposição nova nesse sentido. Além do que a experiência de você entrar sozinho dentro de uma nova organização que já existia, assumindo uma posição de comando e liderança de uma estrutura que já estava em andamento. Acho que foi uma exposição interessante do ponto de relações humanas. P/1 – Além de dirigir a Guimar, que mais o senhor faz seu Cyro? Quais são seus passatempos? O senhor tem algum robe? R/1 – Meu robe é muito restrito. Eu e minha mulher andamos sempre muito juntos, então eu gosto muito de andar, de fazer ginástica, mas ela não gosta, então a gente acaba indo muito a cinema, ver televisão, ir ao teatro, mais essa atividade cultural, música. Mas eu gostaria de fazer um pouco mais de atividade esportiva, mas acabo não fazendo por... ou fazendo moderadamento porque ela não gosta muito de andar, fazer ginástica, de esportes em geral. P/1 – E dos seus filhos... São quatro filhos que o senhor tem? R/1 –Sim. P/1 – Algum deles seguiu medicina ou engenharia? R/1 – Medicina nenhum. Engenharia um, outro formou-se em administração e economia, o terceiro em tecnologia de computador e a mais nova é... formou-se em pedagogia e direito. P/1 – Aí já mudaram mesmo a rota das formações da família. R/1 – É, salvo um que foi fazer engenharia, esse fez engenharia elétrica. P/1 – O que o senhor acha da Aracruz estar contando, recuperando esses trinta anos de história? R/1 – Eu acho fabuloso, embora a gente ache que existe uma memória viva da Aracruz na pessoa do seu Lorence(?). Seu Lorence é o fio condutor do empreendimento, desde a sua concepção, luta pela implantação, financiamento, implantação, desenvolvimento. Eu acho que ele é a memória da Aracruz viva e acho que é uma providência interessante, certamente será útil pra registrar o passado e servir de plataforma de lançamento para o futuro, porque a Aracruz tem uma história de sucesso, uma história de dinamismo, de progresso, de desenvolvimento, de valorização da mão de obra nacional. Eu acho que é um exemplo e um modelo de empresa, que quando precisou soube se associar a empresas estrangeiras, mas quando atingiu a sua maturidade, também soube prescindir desse apoio e soube caminhar com os próprios pés. P/1 – O senhor gostou de contar um pouco dessa história pra gente? R/1 – Veja, eu sou um pouco tímido e acanhado, então eu não me sinto muito a vontade com esse tipo de atividade, mas acho que foi interessante. P/1 – Pra fechar, eu queria só fazer mais uma pergunta, o senhor tem algum projeto que o senhor ainda quer realizar, alguma coisa que o senhor... que lhe inquieta? R/1 – Veja, eu vivo muito em função da Guimar. A Guimar foi um sonho que eu consegui concretizar junto com os meus companheiros e agora estou, como presidente do conselho, estou preocupado, estou trabalhando para mantê-la atualizada tecnologicamente e propiciar o seu desenvolvimento e assegurar as condições para a sua continuidade quando eu já não estiver mais aqui, porque, infelizmente no Brasil, de um modo geral, grandes empresas não tem sobrevivido a vida do seu fundador e eu espero que com a Guimar, seja diferente. Então eu estou preocupado em criar as condições pra ela continuar progredindo e se desenvolvendo independentemente de qualquer pessoa. P/1 – Quem sabe daqui a um tempo estejamos aqui pra falar da Guimar? Não é? R/1 – (Risos) Pode ser. (Risos) P/1 – Seu Cyro, muito obrigada, foi um grande prazer conhecê-lo e estar aqui por essas horinhas com o senhor. R/1 – Eu agradeço. Você é muito simpática e procurou me deixar a vontade. O problema é mais meu do que seu. P/1 – Teremos acho que outra oportunidade. Fim da entrevista.

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