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História

A beleza da natureza é fonte de vida

História de: Delbanor Melo Viana (Sr. Arraia)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/12/2005

Sinopse

Nasceu em 1956, Almeirim, Pará. Praticava agricultura de subsistência: roça e pesca. O apelido Arraiá herdou do pai. Estudou até a segunda série. Foi para Iratapuru, Amapá, para trabalhar com coleta de castanha. Acompanhou o desenvolvimento da comunidade e a formação de cooperativa, que trabalha com os produtos derivados da extração de castanha. Extração de castanha, parceria com a Natura. Liderança local.

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História completa

P/1 – Eu vou pedir para o senhor falar o seu nome completo de novo, o local e a data de nascimento. Pode falar.



R – Delbanor Mello Vianna, nasci no dia primeiro de outubro de 1956.



P/1 – Em que cidade?



R – Arumanduba, município de Almerim.



P/1 – Mas é Amapá ou não?



R – Pará.



P/1 – Pará? E o senhor viveu lá até quantos anos, mais ou menos?



R – Até 14 anos.



P/1 – Nessa cidade?



R – Uhum.



P/1 – E me conta, assim, como é que era a infância do senhor?



R – A infância era o mesmo que de hoje, a gente trabalhou sempre com o extrativismo, com a castanha, meu pai era castanheiro e daí eu acostumei a tirar castanha, gosto de trabalhar com a castanha, com o extrativismo.



P/1 – O pai do senhor já fazia isso?



R – Já era extrativista, trabalhava com castanha.



P/1 – E o senhor aprendeu com ele o ofício? Como é que foi?



R – Aprendi com ele desde a idade de 9 anos eu comecei a andar no mato com ele já.



P/1 – É? Então assim, conta como é que era o dia a dia quando o senhor era criança, acordava a que horas, como é que era?



R – Não, sempre acordava cedo que o velho não deixava acordar, o primeiro que levantava para fazer o café da manhã, encher a água para os tambores.



P/1 – Que mais?



R – Pescar, o trabalho de roça também, subsistência, sempre a gente trabalhou com roça, só subsistência também, só para alimentação de casa mesmo, a mandioca, o milho, a banana, o arroz, feijão.



P/1 – E de onde vem o apelido Arraiá?



R – O apelido Arraiá, o apelido do meu pai era Arraiá, né. E quando comecei a sair de casa, comecei a andar, começaram a me chamar de Arrainha, Arrainha, pronto, aí pegou o apelido.



P/1 – (Risos) Mas é do peixe?



R – É do peixe.



P/1 – Tem muito aqui pela região?



R – É, porque quando ele era criança, ele incendiou com o camisão, naquele tempo as crianças usavam camisão, aí ele brincando com a lamparina cheia de querosene, ele derramou a lamparina com querosene nele, incendiou e o peito dele ficou branco e a arraiá, o peito dela é branco, aí apelidaram ele de Arraiá porque… (Risos). Aí eu peguei o apelido.



P/1 – Herdou o apelido. E, seu Arraiá, como que é assim a cidade, a comunidade que o senhor morava, qual que é o nome mesmo?



R – Arumanduba.



P/1 – Arumanduba. Como é que era esse lugar quando o senhor era criança?



R – Era uma comunidadezinha pequena. O trabalho de lá só era o extrativismo, castanhais também, assim como aqui em Iratapuru, aí as pessoas formavam uma vila que os castanhais, tudo saíam das suas casas para trabalhar já para trazer a castanha no mesmo dia para as suas casas. 



P/1 – Ia no mesmo dia, pegava… 



R – … Trazia já para casa, já podia vender para o comprador.



P/1 – Quem era o comprador nessa época?



R – Atravessadores, também.



P/1 – É?



R – Assim como era antes aqui no Iratapuru quando a maioria da castanha era vendida só para o atravessador.



P/1 – E como era a casa que o senhor morava, a comunidade, era como aqui?



R – É, a mesma coisa: de tábua, coberta de palha, quando não era palha, cavaco, negócio de telhas, brasilit, essas coisas. Já é de uns tempos para cá que as comunidades estão querendo mudar aquela tradição antiga, porque quem está acostumado a morar debaixo de uma palha que é muito mais fria, mais fresquinha, bota uma telha brasilit pode fazer mal até para a saúde dele.



P/1 – O senhor prefere a palha?



R – Prefiro a palha.



P/1 – Ela é trançada, como é que é?



R – É tecida, tira o ubim, tem o ubim, aquela palha de (mossu?), o ubim você tem que tecer ele na navalha para cobrir a casa, botar em cima.



P/1 – Jóia. E quantos irmãos vocês eram?



R – Nós éramos oito irmãos.



P/1 – E todos iam fazer a colheita da castanha?



R – Todos, só os últimos três já não trabalharam com castanha que aí meu pai saiu para a cidade, aí não pegaram essa parte que os cinco primeiros pegaram, que é trabalhar com o extrativismo, essas coisas, já pegaram um clima de cidade.



P/1 – E me fala uma coisa, descreve um pouco seu pai e sua mãe, como eles chamavam, chamam?



R – O meu pai é Raimundo Martins Vianna e a minha mãe é Luzia Mello Vianna.



P/1 – E Dona Luzia fazia o que?



R – Ela mais ficava em casa, só serviço mesmo de casa, serviço doméstico, ela não ia para o mato, só quem ia mais era a gente mesmo, eu e o coroão.



P/1 – E aí na hora de trabalhar a castanha vocês faziam do mesmo jeito que faz hoje?



R – É o mesmo jeito, a coleta é a mesma coisa.



P/1 – Tá, depois a gente vai falar o que mudou então. A coleta, como é que era naquela época?



R – A coleta é você chegar, juntar debaixo da castanheira, levar, colocar ela perto de um pau, de uma pedra para quebrar ela com aquele machadinho, aí coloca naqueles paneiro, naqueles cavaletes que ele fotografou, coloca na costa e carregava para a beira do rio para botar na canoa.



P/1 – Levava de canoa?



R – De canoa.



P/1 – E aí chegava na casa, abria ou abria no… 



R – … Não, abre no mato.



P/1 – Abre no mato.



R – É, abre tudo lá no mato, só vem aquela castanha já, a amêndoa dela de dentro do ouriço.



P/1 – E seu pai era bravo, seu Arraiá?



R – Não era muito manso, não.



P/1 – (Risos).



R – E agora é muito diferente a criação, naquele tempo os pais eram mais bravos com os filhos, hoje já está mais diferente, está tudo moderno mesmo hoje já.



P/1 – (Risos). E o senhor estudou?



R – Eu estudei bem pouco, só até a segunda série, não terminei a terceira série.



P/1 – Mas tinha escola lá onde o senhor morava?



R – A escola era muito distante lá, a gente tinha que andar umas duas horas para chegar de remo em uma escola.



P/1 – De remo?



R – É, na canoinha remando.



P/1 – E aí iam quantas pessoas na canoa?



R – Às vezes, era só uma mesmo, cada um em uma, fazia aquelas filas de canoinha para ir para a escola. No lugar que eu estudei lá era assim. Naquele tempo para encontrar um professor era muito difícil, não era só eu que nem muitos antigos contam que para aprender assinar o nome tinha que remar muito longe, para ir atrás de uma pessoa que sabia ler para escrever em um papel o nome dele, para trazer para um dever de casa, quando estava terminando tinha que voltar lá de novo.



P/1 – E o senhor ficou lá até os 14 anos?



R – Até 14 anos.



P/1 – E aí o que aconteceu que o senhor veio para cá?



R – Aí já foi quando veio essa empresa Jarí para cá, foi em 1970. Eles chegaram aqui em 1969, em 1970 já começaram a trabalhar com saracura para fazer plantio, tinha fazenda, os portugueses que a Jarí comprou ficou tudo, aí eles trabalhavam com desmatamento já para plantio de capim, essas coisas, para cá já veio o desmatamento para derrubada, para plantar jarmelina, o pinho e o eucalipto agora, aí as pessoas já vinham atrás de emprego para trabalhar.



P/1 – Era uma oportunidade boa?



R – Era uma oportunidade boa, eu trabalhei seis anos aí nas firmas, encontrei o pai da minha esposa hoje, Elisabete, na cachoeira logo próximo aqui.



P/1 – E como ele chama?



R – Armando Leite (Vissanta?), falecido ele já. Aí eu disse que queria tirar castanha e vim para cá, para Iratapuru vai fazer 25 anos já.



P/1 – Mas ele que convidou o senhor, como é que era?



R – Ele que convidou para tirar castanha, eu subi para cá, já era acostumado a tirar, está com 25 anos eu não voltei mais.



P/1 – E aí que o senhor conheceu a dona Elisabete?



R – Foi, dentro dos matos aí para dentro.



P/1 – (Risos). Então o senhor foi para Iratapuru?



R – Iratapuru.



P/1 – E onde que era a comunidade, não era bem aqui, né?



R – Não, nem existia, tinha na boca umas casas aqui, umas quatro casas, quatro famílias e os outros moravam tudo aí em cima no rio e os vizinhos mais próximos eram duas horas, três horas, às vezes, quatro horas de remo, às vezes até de motor mesmo. Aí as pessoas que já começaram a casar, ter filhos, eu pelo menos me preocupava já com a educação dos filhos, porque criar dentro de um mato desse aí sem escola, sem nada, porque colocar um professor em cada casa também, o que é que faz? Tem que induzir o povo, trazer o povo, conversar com o povo para trazer para junto, formar a comunidade para poder ter escola, ter energia, ter água, a saúde que não é de boa qualidade, mas a gente tem, tem uma escola, não é ainda de boa qualidade como a gente deseja que seja, mas tem, energia também, água encanada nas casas e assim por diante.



P/1 – Mas como é que começou a mudar a comunidade? O que o senhor se lembra das lembranças mais antigas, quando as coisas começaram a mudar e por quê?



R – Elas começaram a mudar foi dos anos 1980 para cá que a gente começou a mudar a cabeça, descobrir um meio para que (pausa). Descobrir um meio para mudar, ver o que a gente faz da castanha, diversificar os produtos, trabalhar na cadeia produtiva da castanha, aí começamos a pensar em formar uma cooperativa que é a melhor maneira de captar recursos para investir em um setor desse aí.



P/1 – Mas veio alguém de fora da comunidade conversar com o senhor? Deu para ver que o senhor é um líder aqui na comunidade, quem veio conversar com o senhor, como é que foi isso?



R – Teve um técnico, ele é paranaense parece, alguma coisa assim, que veio, trouxe a ideia e disse que já tinha trabalhado em cooperativa, uma coisa que dava certo. Aí a gente começou a trabalhar, ele começou a ajudar como técnico, ele começava a incentivar a gente, reunir junto com a gente, ajudar explicando o que era o cooperativismo, essas coisas que ele já conhecia. Aí a gente já nos anos, em 1983, o ex-governador apareceu por aqui como candidato e disse que se ele eleito fosse, ele iria ajudar a comunidade, porque gostou, era um lugar bonito, não só ajudou essa comunidade como ajudou a quase todas as comunidades do estado do Amapá.



P/1 – Como que chama esse governador?



R – João Alberto Capiberibe.



P/1 – Isso foi em que ano mais ou menos?



R – Em 1985 a gente começou a dar os primeiros passos já no governo dele.



P/1 – E assim, quando o senhor ouviu falar da cooperativa, o que atraia do sistema de cooperativa para o senhor?



R – A gente viu, porque a gente já tem conhecimento da primeira cooperativa que foi fundada, se juntaram vinte pessoas, começaram a trabalhar, não foi que nem aqui, foi muito diferente, colocando suas cotas a parte, porque aqui hoje ela é a maior cooperativa que existe que foi na… Esqueci agora o nome.



P/1 – Não tem problema.



R – Então, por aí a gente foi lendo, as pessoas foram começando a pegar o conhecimento e foi quando Capiberibe veio a Governo do Estado, a gente teve muita oportunidade, cursos de cooperativismo. A gente ia para Macapá participar de outros cursos, não só de cooperativismo e que para isso ele foi muito bom, ele tentou colocar isso de bom na cabeça das pessoas para que mudasse de uma vez por tudo, é o que mais ele falava era: “Vamos criar essa cadeia produtiva da castanha, esse negócio de ficar vendendo a castanha para o atravessador, vendendo para os _____, isso não dá certo.” E hoje mudou muita coisa porque, eu falei agora, tem a escolinha já até a oitava série, temos a energia que a gente não tinha, vivia de lamparina, candeia, essas coisas, água encanada nas casas. Tem uma fábrica aí que hoje a gente está vendendo o óleo da castanha, a gente já sabe o que é que fazem com o óleo da castanha, fazem um produto de beleza, principalmente para as mulheres que gostam de beleza (risos).



P/1 – Antes o senhor sabia o que fazia com o óleo?



R – Eu não tinha nem ideia de que fazia do óleo.



P/1 – É? Vendia a castanha e… 



R – … Acabou-se, não tinha retorno, como não tem retorno dos atravessadores, eles pegam, levam a castanha e pronto, acabou-se.



P/1 – E como é era a forma de pagamento nessa época?



R – A forma de pagamento era como se fosse uma troca, trocar com mercadoria e todo tempo o castanheiro ficava devendo. Até mesmo aquele povo antigo, eles não tinham ideia, eles queriam saber de ter o açúcar deles, o café deles em casa, para eles estava tudo bem, ter uma rocinha, ter a farinha dele, pegar um peixe ali, tem muito peixe mesmo, não estavam preocupados com as outras coisas que até mesmo eles não tinham. Tinham os filhos que estavam crescendo e que foram casando, os pais já foram pensando em uma mudança: “Levar meu filho para a escola, levar para conhecer as outras coisas que vai trazer um futuro.” Não tirar da cabeça dele. Já tem um filho aí que ele foi estudar, esteve em São Paulo há seis meses, mas não quer sair daqui, é filho daqui, já foi para lá para a capital, já esteve por lá, teve ofertas de emprego para ele por lá, Laranjal, Macapá e não quer, ele quer ficar aqui dentro da mata. Então, isso é muito importante, se todos tiverem essa cabeça, jovem.



P/1 – De trazer essa informação de fora.



R – Isso, trazer a informação de fora e pensar em uma coisa. Que os pais estão ficando velhos, quem é que vai tomar de conta disso aí?



P/1 – Seu Arraiá, me fala uma coisa, nessa época que tinha os atravessadores, o castanheiro acabava endividado?



R – Com certeza.



P/1 – Para a próxima safra.



R – Eu trabalhei muito, eu conheço muito bem disso aí. Muito difícil você trocar de camisa, sempre ficava devendo, agora não. Devendo e não tinha aquele retorno, hoje a gente está vendendo óleo para a Cognis, que a Cognis que refina o óleo e entrega para a Natura para produzir os perfumes. A gente além de vender o óleo, a gente tem o retorno, tem que ela criou um fundo para a comunidade e que esse fundo está trazendo desenvolvimento para a comunidade. Nós já recuperamos a fábrica do incêndio com o dinheiro desse fundo, compramos mais utensílios, secador, que a gente não tinha aqui na comunidade, tinha que pegar castanha, levar daqui para uma outra usina lá na Comag, secar essa castanha lá, trazer de volta para cá, aí leva para lá de novo, um custo muito alto. Hoje a gente está mais ou menos já na base melhor para pegar esse novo ano aí, pegar com mais vontade de produzir mais, queremos achar comprador para comprar.



P/1 – Com certeza vai achar! Me descreve esse, hoje aqui na comunidade, qual a época da colheita, os homens é que saem, como é que é isso? Assim, sai, sobe o rio, que época é a colheita?



R – A castanha começa a cair agora, ela já está começando a cair os ouriços, só que aqui ela tem um modelo diferente de coleta de castanha de outros lugares, por exemplo, em Arumanduba, que eu falei, que as outras comunidades é no avanço. Avanço é aquele que não tem dono, se a pessoa dorme muito, quando começa a cair o primeiro ouriço de castanha já tem que estar juntando lá, e aqui não: a gente espera cair todo, ninguém mexe, é tudo dividido, cada qual tem as suas colocações, eu tenho a minha, fulano tem a dele lá, ele tira até no limite dele ali, a outra fica lá, se eu quiser tirar por derradeiro, eu vou tirar por derradeiro a minha, que em outras comunidades não é assim, é no avanço, se a pessoa dormir não faz, não tira a castanha.



P/1 – Quem dorme menos… 



R – Aí um risco de um ouriço de castanha chegar a bater em uma pessoa, cair na cabeça de uma pessoa e matar e aqui nós não temos esse problema, quando a gente vai coletar castanha já está tudo no chão, é só para juntar.



P/1 – E aí o que faz? Quebra?



R – Quebra ela e coloca no paneiro, já vai colocando no paneiro e trazendo no paneiro, a gente lava ela na beira do rio e coloca no saco ou no paiol, ensaca ela logo e então coloca logo no paiol.



P/1 – O que é paneiro? Explica para a gente.



R – Paneiro é um cesto, ele tem umas pernas, a gente coloca umas alças nele aqui, coloca na costa e vai embora.



P/1 – Dá para carregar até quantos quilos?



R – Dá para carregar até 70, 60, tem castanheiro aí que carrega 90 quilos, 100 quilos, esses aí já passam de um já.



P/1 – É um e meio, né? (Risos).



R – Dizem que o castanheiro é mais burro do que o burro, porque os burros usam cangalha mas os outros colocam na costa dele e o castanheiro faz a cangalha e coloca na costa dele ainda (Risos).



P/1 – (Risos). Seu Arraiá, me fala uma coisa, a castanheira, ela não nasce assim sozinha, ela não dá o fruto sozinha, como que é?



R – Se ela não nasce sozinha?



P/1 – É, ela nasce na mata, só, né?



R – É, ela nasce na mata.



P/1 – A gente não consegue fazer uma floresta de castanheira?



R – A gente não tentou ainda isso, mas eu acho que não é tão difícil. A gente plantou aqui já castanha, fez umas mudas, plantamos umas 500 mudas, coisa assim, só que a castanha grandona assim, ela está com a castanha na raiz dela, o bicho vai e come tudinho, a não ser que tenha uma proteção, cerque o pé da castanheira até que ela tome um porte grande de crescimento para acabar aquela influência da castanha.



P/1 – Então ela tem que ter outras árvores ao redor?



R – Não, eu acho que tem que fazer uma cercazinha nela até que ela tome força.



P/1 – Ah, entendi.



R – Mas é fácil de reflorestar, eu acho que é até o momento de pensar nisso, porque se pudesse reflorestar, daqui quinze anos, vinte anos, quem sabe, não tinha castanha mais perto. E uma coisa também é que morre castanheira, vira castanheira, se pudesse em cada uma que virasse, morresse colocar uma outra castanheira lá, aí não ia faltar nunca.



P/1 – É verdade. Me fala uma coisa, aonde que vocês estão pegando, vocês demoram quantos dias, horas para chegar de barco, como que é isso?



R – Daqui para os últimos castanhais que tem, no Fé em Deus, dá dois dias até lá.



P/1 – De barco?



R – Só que é o último, né. Daqui até lá têm vários castanhais. Tem um aqui que gasta uma hora e pouco quando a água está grande, aí vai aumentando, uma hora, o outro é meio dia de viagem, o outro é um dia, um dia e meio.



P/1 – E essas castanheiras estão dentro de uma reserva?



R – Dentro da reserva, da RDS [Reserva de Desenvolvimento Sustentável], a reserva tem 806 mil hectares. Estava conversando com um rapaz na Amazônia, ele disse que essa reserva dá para colocar quase dez cidades dele dentro de uma reserva. 



P/1 – (Risos). E quando que o senhor começou a ouvir falar da Natura? O senhor lembra assim o primeiro, quem procurou o senhor?



R – Isso foi ainda no governo Capi, ele iniciou, depois ele teve que largar o governo para vir para senador, aí a governadora Dalva foi quem assumiu, a vice-governadora. Só que a gente já tinha um contato com a Natura, eles já tinham vindo aqui, a gente já tinha reunido, já tinha levado eles aí para andar no rio, a gente foi visitar uma área de castanhais lá em cima, lá no Igarapé do Campo, que é onde eu tiro castanha, e fomos marcar as castanheiras. Fizemos um trabalho já e tem que procurar mesmo essa muda da castanha, nós conseguimos achar uma com muito sacrifício, a gente fazia o cercado com uma fita amarela, aí ia pé por pé de mato para procurar, ciscando mato, limpando, a gente conseguiu achar uma, um pé de castanha.



P/1 – Quem estava da Natura nessa época que veio aqui?



R – Dessa época, da Natura que começou aqui foi a (Helene?), na época era ela que estava nesse projeto com as comunidades, né. Fui até no (Pau Cortado?) ali com ela, onde era que tinha o breu, levamos ela para subir umas serras por lá.



P/1 – O que é o breu?



R – O breu é uma resina que a Natura compra também.



P/1 – E serve para que?



R – Para o perfume, fazer perfume.



P/1 – Então, eu queria que o senhor me explicasse, dentro da cadeia produtiva tem a colheita, tudo, e agora com a fábrica instalada aqui, como é todo o processamento que vocês vão fazer agora? 



R – Agora a gente está no início de safra que nem eu falei, a gente está estruturado, não estamos ainda com uma estrutura boa mesmo, mas já está a 70, 80% para a gente trabalhar. Que a gente tinha muito sacrifício, como eu falei, da secagem de castanha que tinha que ser lá fora, hoje a gente já vai estar se preparando para subir, acho que vai chegar pouquinha gente aqui, dia 15 ou 20 de janeiro, para pegar a primeira remessa de castanha e ajudar a trazer logo para cá, quando tiver uma remessa boa. 



P/1 – A gente estava falando da cadeia produtiva, né?



R – Uhum. A gente vai subir para tirar a castanha, para trazer uma parte da castanha que ano passado a gente fez assim, eu não subi, mas subiu o (Luiz?), o (Sabati?). A gente vai lá dar uma força para trazer as primeiras barcadas de castanha para poder o pessoal começar a trabalhar, aí assim a gente vai fazer esse ano de novo, até 15 de fevereiro eu acho que a gente vai estar nesse movimento, trazer a castanha para cá para começar a dar o início nos trabalhos. Tem que tirar o óleo cedo, nós temos que entregar o óleo até março, 15 de março por aí assim, a gente tem que entregar o óleo para a Cognis.



P/1 – E me fala uma coisa, daquelas bancadas, como é que chama?



R – Quebradeira.



P/1 – Quebradeira. Quem trabalha ali?



R – As mulheres que trabalham. Os castanheiros homens sobem e as mulheres ficam aí, ficam trabalhando e quando eles chegam de lá que não tem castanha mais, eles vão ajudar as mulheres também a quebrar a castanha.



P/1 – Aí quebra a castanha.



R – Isso, esse ano passado a gente fez assim na produção, paga por quilo que a pessoa quebrar a castanha, tinha mulher aí de fazer de 15 reais, 16 reais, 17 reais em um dia só, dá muito mais de um salário mínimo. Você tinha uma média de 40 empregos aí na comunidade, 35 a 40 empregos, então isso aí é muito bom que não é todas as comunidades que tem uma geração de renda, porque as famílias vivem melhor. Eu lembro no tempo que era uma outra administração aí que a gente passou um sufoco, as casas você vinha, subia por aí, não tinha nada, hoje você anda nas casas, têm sua televisão, sua antena parabólica, tem os seus freezerzinhos dentro das casas já, então quer dizer, as coisas estão mudando, dá para notar que está mudando, o pessoal fala: “Não, não está mudando!” Está, porque você não tinha antes, eles estão comprando com o dinheiro deles, não é ninguém que está dando para eles, então está gerando renda, porque se não gerar renda eles não vão comprar.



P/1 – E aquela dívida que tinha, que ficava, também não existe mais?



R – É, isso não existe mais, é pago todo final de mês, é feito, todo dia 7 faz o pagamento.



P/1 – E os homens, como é que eles são remunerados assim?



R – Na fábrica?



P/1 – Na cooperativa.



R – A castanha, né?



P/1 – Pela castanha.



R – A cooperativa financia, ela, por exemplo fecha, vê o preço da castanha. Esse ano a castanha terminou a 120 reais, porque o atravessador não quer que tenha uma cooperativa aqui trabalhando, beneficiando castanha, tirando óleo, fazendo biscoito, fazendo qualquer coisa que vai acabar com ele, ele é o comprador da castanha que leva para os _____ e que tem o lucro só para ele. Aí eles elevaram o preço para cima da castanha para 120 reais e não sei como, porque os mercados que eles também vendem, a gente está vendendo, que se chegar a um preço de 120, aí também os produtos já vão ficar muito caro, as pessoas podem não querer comprar.



P/1 – Mas o coletor, quando ele vai coletar, volta, é dividido o lucro da coleta? Como que é isso?



R – Eles têm um preço para coletar castanha, por exemplo, o ano passado a gente fechou a 30 reais a castanha, 30 reais foi o primeiro preço, isso é feito uma reunião e nesse ano já foi feita uma reunião para ver o preço da castanha e é a cooperativa que vai ditar o preço, aí eles fizeram um acordo de 80 reais para não ter alta nem baixa, 80 reais do início até o fim.



P/1 – Mas isso para vender para a cooperativa, então o coletor de castanha vende para a cooperativa?



R – Para a cooperativa.



P/1 – Ah tá. 



R – Só que se a castanha baixa, ela fica em 80, se ela subir também, o atravessador botar dinheiro aí ela vai ter que ficar em 80. Foi um acordo, foi feito uma ata, as pessoas assinaram e a cooperativa já financiou alguns desses juros dessas pessoas também com dinheiro, e ano passado a gente começou, pegamos uma metade de safra, tudo foi um atraso para a gente, esse ano a gente praticamente já iniciou a safra.     



P/1 – Para esse sistema que vocês pegaram a metade da safra?



R – Para esse sistema.



P/1 – Com a fábrica montada?



R – Isso.



P/1 – E antes de ter a fábrica fazia o que? Coletava e vendia, beneficiava fora… 



R – … O secador, que a gente não tinha, tinha que levar para secar em Laranjal do Jarí e retornar para cá com ela.



P/1 – Então, agora chega a castanha, ela passa primeiro onde?



R – Chega a castanha, ela vai para o depósito, do depósito ela vai para o secador, do secador, seca a castanha e já vai para o galpão onde está as quebradeiras lá. Elas já vão quebrando aquela castanha, de lá os rapazes que trabalham na prensa já vão pegando a castanha, triturando ela, vai espremendo uma massa para tirar o óleo, já sai daqui o óleo pronto, daqui para mandar para São Paulo.



P/1 – E como é que sai daqui, de barco?



R – É, vai nessas voadeiras, nessas que a gente vê aí.



P/1 – (Risos). Quantas viagens dá em média durante uma safra?



R – Eu acho que deve dar em média de, esse ano foi oito toneladas, deu em média oito viagens mais ou menos da voadeira.



P/1 – Vai uma tonelada naquela voadeira?



R – Vai, uma tonelada.



P/1 – Nossa Senhora! (Risos). E na secadora tem o pó que fica caindo do outro lado, né? O que é esse pó e o que vocês fazem com esse pó? 



R – O pessoal está usando para canteiro, para horta, serve de um adubo. Da castanha quase não se perde nada, a casca você viu lá que a gente está colocando no forno do secador, já evita de estar tirando a madeira, a lenha para colocar na fornalha.



P/1 – E o ouriço também, hoje?



R – O ouriço, a gente está vendendo, tem um contrato aí, 30 mil ouriços para Natura, eu acho que daí vai acabar não ficando nada, eu não quero que eles levem a castanheira que aí vai ficar ruim.



P/1 – (Risos). Aí fica ruim para todo mundo, não é, seu Arraiá? 

 

R – É (risos).



P/1 – Me fala uma coisa, aí a Natura veio aqui, fez um acordo com vocês, como é que foi isso?



R – A gente começou em 2002 a se aproximar, começou a parceria, eu falo hoje na Natura, a gente vai, sempre conversa com a Sônia, com a Indramara, esse foi um casamento quase forçado que os outros não queriam que a gente casasse.



P/1 – Por que não queriam?



R – Quando o governo Waldez assumiu, aí foi, deu uma broncazinha, a questão da (Sema?), a gente ficou um bocado de dia ainda para reunião, vai e volta, vai e volta. Porque eu acho que o estado hoje, o governo Capi deixou uma coisa que quando o outro governo assumiu não queria ver nem a sombra, quando vê uma foto dele com uma garrafinha de óleo na mão ele vira a cara para lá.



P/1 – Quer morrer.



R – Porque eu acho que é as coisas que dão certo, se não segurar esse povo que vive na mata, na floresta, esse povo ribeirinho, povo tradicional e os índios lá dentro, eles vão fazer o que na cidade sem ter emprego? A gente tem que segurar esse povo lá dentro da mata, não segurar só, que nem eu falei, os pais, as mães, mas os filhos irem estudar e voltar para a comunidade para trabalhar, porque aí saindo e se procura emprego na cidade e os velhos vão morrendo, vai acabar acabando a comunidade, não vai ficar ninguém.  

 

 

P/1 – É verdade. E me fala uma coisa, o senhor sabe como a Natura usa o óleo da castanha?



R – A gente já sabe, porque a gente foi lá na fábrica, agora a gente sabe.



P/1 – O senhor já tinha ido a São Paulo alguma vez?



R – Já, já tinha ido, foi ano passado. Em 2002, a gente foi uma primeira vez e já fomos… Não, foi em 2003 e 2004, a gente foi duas vezes, a gente foi lá, fomos conhecer o perfume do breu, fomos conhecer o xampu que foi feito do óleo da castanha, aquele que é feito da copaíba também, o que eles usam para desinfetantes.



P/1 – Incenso?



R – Incenso. Quando eles compravam antigamente eles levavam para fora isso aí, a gente não sabia o que eles iam fazer disso aí, não sabia o preço que podia ser isso aí. O quilo do breu aqui, por exemplo, se fosse tirar para vender aqui no Laranjal do Jarí por aqui, por essas cidades aqui perto, não adiantava tirar porque mesmo que fosse vender de 20, 23 reais, não ia adiantar porque você ia acabar com o que tem na floresta aí e não ia render nada, porque você não tem retorno, não tem nada. A gente com essa parceria com a Natura, ela está comprando os produtos, tem a repartição do benefício que é o fundo que ela criou para a comunidade, isso aí o atravessador levava tudo, hoje está ficando na comunidade.



P/1 – E qual foi a primeira impressão do senhor chegar na fábrica em Cajamar, o que o senhor achou, assim?



R – Quando eu saí daqui eu pensei que era uma coisinha pequena, menor do que a nossa fábrica (risos). Cheguei lá eu me assustei! Eles vinham aqui, falavam: “Natura, Natura.” Deve ser uma coisa muito simples lá, não tão simples, mas pequena, para o tamanho que eu vi eu pensei que era muito menor.



P/1 – E chegou lá… 



R – … Coisa de primeiro mundo, né. A gente foi andar lá, em cima de um corredorzão, depois fomos para o restaurante para almoçar, muito bom. E as pessoas que recebem muito bem a gente também, muito bem recepcionado.



P/1 – E o senhor viu o óleo da castanha sendo usado, misturado com as outras coisas?



R – Não, eu não vi, não. Eu vi o perfume já pronto.



P/1 – É? E o senhor gostou?



R – É bom o perfume, eles deram os kits para cada uma das pessoas que foram lá, presentearam o kit.



P/1 – O que vinha no kit?



R – O xampu da castanha, o perfume do breu, esses dois, os principais mesmo. Copaíba eles usam muito pouco para cá, para essa região eu acho que nem vem, agora o perfume da Natura, sim, em todo canto tem. Em Laranjal do Jarí, o pessoal fala muito, eles, às vezes, estão lendo, pegam uns livros daqueles do xampu, por exemplo: “Olha, de castanha-do-Pará!” Só que eles têm de mudar, não tem que ser castanha-do-pará, tem que ser castanha-do-brasil para não ser nem Pará, nem, Amapá, nem Amazônia, castanha-do-brasil.



P/1 – O senhor acha que tem que pegar o Brasil todo?



R – É, com certeza.



P/1 – Falando em Brasil, o que o senhor conhece de Brasil? Amapá… 



R – … Amapá, já fui em Manaus, Santarém também eu conheço, que é a segunda maior cidade do Pará, Belém também estive a passeio por duas vezes e São Paulo também a passeio, que a gente fica num hotel, de lá vai embora para Cajamar, fica o dia e quando volta é só para dormir que não tem para onde sair.



P/1 – E o senhor lembra a primeira vez que o senhor foi para São Paulo?



R – Não, a data mesmo eu não lembro de cor.



P/1 – Mas o senhor lembra assim, o que o senhor achou da cidade, era muito grande, muito diferente daqui?



R – É, muito estranho, a primeira vez que a gente foi ficar no hotel lá, quando saiu do hotel, o trânsito, aquilo assusta a gente ali. Os carros passam quase que por cima da gente, é preciso estar com muito cuidado, é muito complicado ali. Para quem está acostumado aqui só andar solto mesmo, mas aí a gente já era acostumado a andar, Macapá, Santarém, não estranha muito, já tem a base do trânsito também.



P/1 – E o senhor viajando, conhecendo essas cidades, o que o senhor achou, o Brasil é grande, é diferente se o senhor for pensar Brasil?



R – Tem muita diferença, a violência, isso é uma coisa que assusta muito a gente, porque a gente já conhece o Brasil assim porque hoje a televisão está dizendo, está mostrando, se a pessoa assiste o jornal, assiste a televisão, as coisas boas, porque diz que a televisão nos fala que tem o lado ruim, mostra as coisas que não dá futuro, mas o lado bom também ela mostra, a televisão, as notícias, o que acontece nas grandes cidades, a gente já vai assim meio assustado, porque aqui a gente tem que se defender só de uma onça, de uma cobra…  



P/1 – … Só de uma onça? O senhor estava contando uns casos de onça lá na voadeira, conta para a gente de novo?



R – Isso aí é no tempo que eu trabalhava em garimpo, os garimpeiros subiam quase a maioria de carga de canoa aqui para cima e a gente sempre subia duas, três canoas uma atrás da outra. Uma das canoas que o rapaz pilotando lá, ele viu uma onça, ela ia atravessando o rio, quando ele botou a canoa para cima que aproximou dela, ela veio e pulou em cima da proa da canoa. Aí o proeiro foi e pulou na água, ela veio e foi para o meio da canoa, o meeiro estava lá com a cuia na mão, cuia é aquela de tirar água da canoa, ele foi e pulou na água também, aí ficou só o motorista que é quem dirige o motor. A onça foi e se aproximou do motorista, quando chegou perto o motorista pulou na água, ela foi e botou o pé em cima do timão do motor e foi embora pilotando o motor até acabar a gasolina, quando acabou a gasolina ela voltou e parou, não sabia abastecer, aí parou o motor.



P/1 – Deu para recuperar o barco?



R – Ele encostou na beira, ela pulou para a terra e foi embora.



P/1 – E o pessoal voltou para pegar o barco? 



R – Eles foram acompanhando as canoas, olhando ela pilotar (risos).



P/1 – Aparece muita onça por aqui?



R – De vez em quando aparece algumas por aí. 



P/1 – O que é que tem assim de animal? Aqui a gente está dentro da floresta Amazônica?



R – Dentro da floresta Amazônica.



P/1 – O que tem, assim, que caracteriza a floresta Amazônica? O senhor me falou um monte de árvore, eu queria que o senhor me descrevesse um pouco isso, que é tão diferente para quem mora em São Paulo, falar: “Ah, a gente está dentro da Floresta Amazônica!”?



R – A natureza é uma coisa muito bonita, jamais já apareceu acho que alguém no mundo para construir uma natureza, que a gente não sabe nem como foi criada para falar a verdade, e esse pessoal só chega para maltratar a natureza, derrubar um pé de árvore desse sem precisão, queimar, fazer queimadas. Eu estava mostrando aquela (samareira?), a gente chama Rainha da Floresta, a castanheira, e hoje é diferente, eu chamo Rainha da Floresta a (samareira?) que eu acho mais bonita a árvore.



P/1 – O que ela tem de diferente que chama atenção do senhor?



R – As galhas dela são mais grossas, tem uma outra árvore gigante também que é o ______, mas aí cresce tão alto, grosso também os troncos, mas os galhos são diferentes, são finos, não são que nem da (samareira?), que são muito grossos os galhos dela.



P/1 – E aquele que o senhor me mostrou que está garboso agora?



R – Tauari, né?

 

 

P/1 – Qual?



R – Tauarizeiro.



P/1 – Tauarizeiro?



R – É. Aquele lá, é bonito as garras dele, as sapopembas que chama, está famoso lá pelo Japão, as fotografias até em livros.



P/1 – E aqui na comunidade, o que mudou? As casas eram do outro lado, começaram a vir para cá, começou a vir mais gente. Como é que está sendo a ocupação na beira do rio, como é que é a vida de vocês assim aqui?



R – Quando morava pouca gente, só tem uma coisa que muda, que fica diferente, é a questão da pescaria, porque quando começa a aparecer muita gente é muita gente para comer, aí já fica difícil o peixe, a caça também vai ficando difícil, mas aí o rio para cima tem muita caça, muito peixe, mas o pessoal quase não vai em cima buscar, também é distante, eles vão aqui próximo. Outra coisa que mudou é porque o povo também se uniram, chegaram para perto, eu já posso sair daqui e sentar na casa de um vizinho, ficar conversando, antigamente não, você tinha que ficar conversando com a floresta, com o passarinhos e a família em casa, não tinha uma outra pessoa para você mudar de assunto, assunto de casa, conversar.



P/1 – E vocês se reúnem, os vizinhos se reúnem, como é que é isso?



R – Tem o culto dominical aí todo domingo, vem o culto, eu não gosto do culto, a gente não pode também ser contra a vontade das pessoas, mas a maioria gosta do culto de domingo, eles têm uns avisos, outras coisas. Umas vezes tem uma reunião ou uma pessoa que quer conversar com a comunidade, a gente vai de casa em casa, avisa todo mundo. Hoje fica mais fácil, em meia hora a gente chega e avisa todo mundo, se fosse lá nas cabeceiras do Iratapuru ia ser uns cinco dias, seis dias.



P/1 – Para chamar todo mundo?



R – É!



P/1 – Qual o significado do rio aqui para a comunidade? O que significa para o senhor?



R – Pra mim é… 



P/1 – … Rio Irata… 



R – … Iratapuru.



P/1 – Iratapuru.



R – Para mim é uma fonte de vida, porque essa água aí é maravilhosa, água limpa, água fria, não tem poluição. Os moradores que têm agora é aqui, na boca do rio, para cima não tem mais morador, não tem garimpeiro, não tem nada aí em cima, não, você bebe uma água não está com cisma de ter uma coisa que possa poluir, né. O garimpo tem o mercúrio que pode descer no rio e ir acabando com as pessoas, adoecendo.



P/1 – O senhor já viu isso?



R – Já, já. Conheço causos desse de mercúrio, tem um colega meu mesmo, ele adoeceu, até hoje não prestou mais para trabalhar, cara muito trabalhador, eles falaram que foi o mercúrio, de tanto queimar ouro, aquela fumaça, intoxicou ele e ficou doente, ficou até leso da cabeça, ficou meio… 



P/1 – … E aí do rio vocês tiram a água para beber?



R – A água.



P/1 – Vocês tomam banho?



R – Toma banho, o peixe do rio.



P/1 – O peixe, o que mais?



R – É, eu acho que as três coisas, a água para beber e tomar banho e tira o peixe, o rio também usa para transporte da castanha, se não tiver o rio, aí é difícil de trazer.



P/1 – Seu Arraiá, o que o senhor conhece de lenda aqui da região? Lendas folclóricas, misteriosas que o pessoal acredita que é verdade.



R – Não, de lenda eu não sei, não sei contar de lenda.



P/1 – Causos.



R – Lenda só da onça mesmo que aconteceu, pilotava motor aí.



P/1 – Tinha uma outra que o senhor contou também, não teve?



R – Teve uma outra, nem lembro mais.



P/1 – Já foi tanta coisa. Mas assim, de seres da floresta, do boto, de Iemanjá, o pessoal conta alguma lenda assim?



R – Daqui mesmo… 



P/1 – … Histórias assim.



R – Quando eu me (entendi?) sempre na floresta, ouvi falar desse negócio de Capelobo, essas coisas, mas não sei nem se existe. Conversando com os índios, eles falaram que o Capelobo era os índios velhos que ficavam velhos e começavam a caducar, se afugentavam da aldeia, ganhavam a mata, aí eles começavam a se rolar pela lama, se enrolavam na folha, aí iam virando aquele bicho enorme, bicho folharal. Diz que virava esse Capelobo, andava gritando na mata, diz que comia gente, isso aí o povo antigo que falava isso, os índios me confirmaram isso e agora não tem mais, porque quando o índio vai ficando velho eles matam logo para não virar Capelobo para não ir comer eles (risos).



P/1 – (Risos). Que índio que tem aqui na região, o senhor conhece?



R – Tem (Ivanhampins?) aí em cima.



P/1 – Aqui perto?



R – Perto, é que nem o maranhense quando pergunta isso para ele: “Sabe onde fulano mora?” “Bem aí, tem que andar três dias.” Bem aí são cinco dias de viagem de voadeira e mais uns três dias de pé por dentro da mata para chegar onde estão.



P/1 – Na aldeia?



R – É. 



P/1 – E eles não têm essa atividade de coleta da castanheira?



R – Não, não, eles já estiveram com a gente aqui, passaram uma semana, subiram o rio, vararam para a aldeia por aqui, aí eles falam para a gente: “Castanheiro, cunhado, pode ir lá no barraco, agora garimpeiro não gosta, não.” Castanheiro não tem problema, não, somos vizinhos, ele diz.



P/1 – Nossa Senhora. O senhor, olhando o trabalho do senhor em plena floresta Amazônica, da comunidade, de pegar a castanha, processar, fazer toda a cadeia produtiva, sabe que isso vai para São Paulo, que lá tem uma fábrica grande e tudo, como que o senhor pensa a importância do trabalho do senhor e da comunidade?



R – Olha, eu acho que… Acho não, é muito importante porque, repetindo aí a questão do emprego, porque como a castanha passava direto para o atravessador ______ tudo isso, não tinha emprego na comunidade, eu via castanheiro falando agora no final da safra aí: “Vamos passar quase dois meses, quase três sem trabalhar.” Eles falaram: “Puxa, agora vou trazer minha castanha, vou deixar na cooperativa.” Por que ele vai deixar? Porque a gente termina de tirar a castanha e tem um emprego para a gente ficar aqui trabalhando até chegar a nova safra, ainda bem que você tem também disso aí, que a cooperativa é para isso, para gerar emprego e renda dentro da comunidade. As pessoas estão começando a mudar, eles mesmos estão começando a ver que a coisa é séria, é uma coisa de compromisso com a comunidade, não é só com a cooperativa, a cooperativa abrange a comunidade toda, seja sócio, não seja, é só um preço, não tem esse negócio: “Não, porque não é sócio tem que ter menos para ti.” Não tem isso aí.



P/1 – Antigamente, nessa entressafra o que vocês faziam?



R – Tinha que esperar a safra chegar, ficava pegando peixe, fazendo uma farinha para comer.



P/1 – Trabalho mesmo?



R – Sempre foi lutar, mexer com roça, derrubar a floresta para plantar mandioca para vender a farinha, você não vai fazer nada também. Eu conheci pessoas aí que tinham monstruosas roças, faziam um monte de saco de farinha e que morreu sem nada, não tinha nada, porque quando você quer fazer vida com vida, não vai para a frente. É a mesma coisa da pessoa que pesca para vender, caça para vender, assim acaba sem nada, porque está fazendo vida com vida, ele está matando para sobreviver, aí não vai ter resultado no final.



P/1 – E a gente comentou quando chegou, a gente chega em Monte Dourado e quer ver logo a floresta Amazônica, vê logo uma floresta de eucalipto! Como é que o senhor vê hoje, o senhor que participou desse trabalho, como o senhor vê hoje essa floresta de eucalipto?



R – Sempre quando as pessoas vêm a trabalho ou visitar mesmo a comunidade, sempre eles pedem para ir para o aeroporto esperar eles lá, a gente fica preocupado, só no olhar deles quando descem no aeroporto e veem aquele eucalipto, pôxa, estão vindo para onde? Estão vindo para conhecer a floresta, ficar dentro da floresta, eles começam a andar de carro, aí do aeroporto até o Porto do Sabão deve dar uma hora e vinte, mais ou menos, correndo de carro dentro de plantio de eucalipto até alcançar uma floresta. Ainda bem que chega no Porto do Sabão para cá já começa a aliviar, começa a respirar um ar puro, porque no eucalipto ali se respira poeira, assim quando vai daqui com o pessoal, deita em cima da Toyota lá, as crianças chegam que dá vontade de jogar fora logo, porque a poeira está para matar. Isso tudo vem causando um dano para a saúde das famílias que moram para cá, as crianças, leva uma criancinha dentro de um carro descoberto, que não seja fechado, vai pegar um poeirão desse daí, daqui alguns dias vai estar com um pulmão arrebentado com poeira, que a gente que é adulto vai se defendendo, botando um pano, quando chega lá você está, escarra assim, joga só pedaço de terra fora, aquela poeira, vira só uma lama dentro do rosto.



P/1 – E de pensar que ali era floresta amazônica!



R – É, isso é, sempre fico olhando, quando eu cheguei conheci isso ainda floresta, a maioria era floresta, castanhais, árvore de breu, tudo tinha aí, era a mesma floresta daqui que nós temos hoje, de onde veio esse grande plantio de eucalipto. Sabe também aquelas castanheirazinhas que a gente vê? É as árvores velhas que morreram e aquelas raízes ficam debaixo da terra e germinam ali, da raiz ela nasce, seus filhos estão querendo sobrevivência ali, mas não tem, não, naquele campo ali ela não resiste, que a castanheira não tem caule, ela, a raiz abre ali, se ela crescer ali no limpo, sem proteção da floresta, o vento forte dá nela, joga ela lá embaixo. Lá na floresta não, ela fica protegida pela floresta.



P/1 – O caule dela… 



R – … É muito pequeno, ela não tem caule, ela enraíza mais na flor da terra assim.



P/1 – Então, ela precisa da vegetação em volta para poder se sustentar.



R – Para proteger ela, porque senão ela morre, se deixar ela no limpo a tendência dela é virar, ela vira pela raiz.



P/1 – O que o senhor acha, tem muita propaganda agora do que é ser brasileiro, a gente tem orgulho de ser brasileiro, fizeram com os atletas, tudo, agora estão fazendo com pessoas comuns. O que o senhor acha, o que a Natura faz aqui com a comunidade, com outras comunidades também, ela valoriza as comunidades brasileiras, ela valoriza o trabalho, o que o senhor acha?  



R – Com certeza, porque, às vezes, a pessoa pensa assim: “Não, a Natura está valorizando o trabalho de tal comunidade.” Mas não, é uma parceria, a comunidade eu acho que mais que se valorizar, valorizar o que ali tem, porque a Natura está lá de longe, ela não vai ficar aqui, ela quer comprar os produtos, quer ajudar, quer a parceria, mas a gente já esteve reunido, já explicamos, tem pessoas dentro da comunidade que ainda não tem bom senso: é a questão do lixo, derrubar uma árvore sem precisão, joga embaixo, cuidar do rio, não poluir o rio, ter o máximo de cuidado, porque se continuar assim nós vamos ter comunidade, vamos ter Natura, vamos ter as parcerias até não sei quando. 

 

   

P/1 – Mas o senhor acha que a Natura é uma empresa brasileira, que valoriza o brasileiro, o trabalho do brasileiro?



R – Com certeza, porque a gente, quando começamos trabalhar, começamos conversar, começamos reunir, isso a gente vem…  



P/1 – Só uma pausa. 



R – Com certeza ela vem valorizando, porque a gente não conhece ainda, eu pelo menos não conheço no Brasil uma empresa que esteja fazendo isso com as comunidades porque, de exemplo, tem a empresa Jarí que está bem aí, as comunidades estão aos lados, em Recanto, ela acabou com os castanhais, acabou com a floresta. Eles vivem em uma cercazinha de área ali e que ela diz que ainda é dela, da Jarí, eu acho que ela tinha que dar mais uma atenção para essas comunidades. Tem um tempo nessa negociação de breu aí, o primeiro breu com a confusão que deu, a Jarí foi que acabou vendendo breu para a Natura, aí eu falei que eu até levava a pessoa para conhecer as comunidades que vivem ao redor da empresa Jarí, desmatando, do mesmo jeito que ela fez, tinha intenção de fazer mais, botando roça para vender farinha e onde tem castanhais, tem áreas de breu, tem outras atividades. A comunidade podia estar trabalhando se ela desse um incentivo, ajudasse, não sei também se não se organizam as comunidades, não sei de que maneira. 



P/1 – Poderia ser diferente.



R – Poderia ser diferente, porque o Iratapuru procurou se organizar, todas as pessoas que chegam aqui vão dizer: “Não, aqui eu que vou mandar.” “Não, meu amigo, você tem que sair um pouquinho, aqui quem manda é a comunidade. Não é eu, não é o presidente da cooperativa, quem manda aqui é a comunidade, a maioria é que vai decidir se você vai entrar aqui ou se não vai, é a maioria que vai decidir, não é eu que vai decidir.” A pessoa vai chegar lá comigo: “Ó, preciso ir lá no Iratapuru.” “Não, pode ir, mas não posso fazer isso.” Se eu já conheço a pessoa, tudo bem, ela pode chegar, a pessoa já está avisando de lá: “Ó, vai fulano de tal para lá que já está acostumado a vim.” Porque se, a gente está até tendo vários problemas aqui, com técnicos que já passaram por aqui que tentaram enrolar, até pegar dinheiro da cooperativa, enganando a comunidade para benefício próprio, posso dizer, tentando enganar a comunidade para tentar se beneficiar, beneficiar a família dele para lá e depois dá um chute na gente, deixa a gente de mãos abanando. A gente deixou de pensar nisso e a Natura, que nem estava falando, foi a empresa que chegou, a gente fez a parceria, foi a primeira empresa, e um modelo de desenvolvimento sustentável que a gente criou não só com a Natura, mas com o governo anterior, governo Capi.



P/1 – Deixa eu trocar a fita e a gente vai falar sobre desenvolvimento sustentável. 



(Pausa)



P/1 – Bom, então agora eu queria retomar a entrevista com o senhor, você estava falando do desenvolvimento sustentável, né? O que é isso, como o senhor define o desenvolvimento sustentável? O que é isso para a comunidade?



R – Essa é a maneira de, eu acho que não só de Iratapuru, mas que todas as comunidades tivessem esse projeto e que no estado do Amapá, esse projeto no governo Capi, ele criou para todas as comunidades. Agora, não souberam lidar com o projeto, não tomaram conhecimento do que era desenvolvimento sustentável e, para mim, eu acho que é um modelo novo na Amazônia e que até mesmo os outros países estão querendo esse tipo de informação, até mesmo ______ está para os Estados Unidos e foi falar de desenvolvimento sustentável em uma universidade lá nos Estados Unidos, porque eles não conhecem. Ele me falou que lá eles foram mostrar coisas que aqui não tem aquela vontade de fazer, quando ele foi mostrar o que era desenvolvimento sustentável, trabalhar com a floresta em pé, a Mata Atlântica, tirando castanha, juntando castanha dentro da floresta, que a floresta, a natureza oferece aquilo para o homem, aí só juntar, pegar, quebra, tira aquela _____, a castanheira fica o ano todo lá, vai ter uma vida que quando ela chegar ao tempo de cair ou morrer de velha, que eu não sei, falam que a idade de uma castanheira é de 300 anos, eu acho que vai mais.



P/1 – É?!

 

R – Eu acho que vai muito mais de 300 anos. Onde eu conheci, castanheira lá onde eu me entendi com 9 anos de idade, se eu voltar lá hoje é a mesma castanheira. Já estava há muitos anos, isso aí quando eu vi ela, me entendi, ela já era daquele tamanho, diferença muito pouco; e o desenvolvimento sustentável, eu acho que é a maneira de criar mudanças na comunidade, trazer benefícios para a comunidade, trazer educação para a comunidade com aquilo que a natureza oferece. O extrativismo, por exemplo, da castanha, tem a seringa, tem o cacau, o breu mesmo e também agregando valor no produto, trabalhando na cadeia de custódia, porque você possa pegar aquele produto, beneficiar dentro da comunidade, oferecer emprego, desenvolvimento sustentável para quem entende, a maneira é essa de trabalhar.



P/1 – Tudo isso?



R – Tudo isso.



P/1 – Me fala uma coisa, quais são as principais dificuldades da comunidade aqui?



R – Nós temos muita dificuldade ainda em trabalhar com a castanha na questão do transporte da castanha, o custo desse produto, às vezes, a gente fala: “Não, a castanha de 70, 80 reais.” O pessoal assim: “É, mas é muito dinheiro.” Mas aí você vai colocar os custos, porque aqui a gente usa muito combustível para arriar a castanha e a gasolina você sabe que é muito cara, você compra 500 litros de gasolina já está levando um dinheirão danado aí e aqui não há. Em uma safra que a gente vai trabalhar esse ano, aproximadamente, com 3500 quilos de castanha, deve levar quase 10 mil litros de gasolina só no combustível para descer essa castanha todinha. E tem outra dificuldade, negócio de descarrego, essas coisas que a gente não conseguiu mudar ainda, nem sei como a gente vai ter que fazer para mudar, fazer uma “estradazinha”, botar um ______ lá para puxar.



P/1 – Para descarregar?



R – Para descarregar.



P/1 – Como é que chama o lugar ali que a gente parou? Porto?



R – Porto do Sabão.



P/1 – Do Sabão?



R – Uhum.



P/1 – Por que tem esse nome?



R – Porque lá era muito liso, barro e depois a empresa Jarí foi e jogou, mandou “empiçarrar” lá que melhorou um pouco, mas agora está todo esburacado de novo. 



P/1 – E ali é que o pessoal costuma parar o barco para ir para Monte Dourado?



R – Lá é o ponto de referência, quando vem tem que parar ali. Para lá, pega a catraia, vai daqui, chama o Carlo, _____ esperar ali para ir para Monte Dourado. A gente pensou, tinha um projeto de abrir uma estrada por aqui pelo lado do Amapá, vinha aqui varar aqui em frente a comunidade, daí eu mesmo logo, varar uma estrada aqui nós vamos ter perseguição, a invasão vai ser terrível. Pelo Porto do Sabão, a pessoa só chega aqui se a gente trouxer de catraia para cá, aí ele vem, se não trouxer ele não vem.



P/1 – É verdade. Me fala uma coisa, como o senhor conheceu a dona Elisabete?



R – (Risos). Foi arrumação de castanha, eu subi para tirar castanha e conheci ela lá, filha do seu Armando Leite, subi com ele para tirar castanha, estava indo tirar castanha, fiquei lá, trabalhando com ele lá, a gente começou a namorar aí deu só casamento.



P/1 – Quando que foi isso mais ou menos?



R – Isso foi em 1978, o casamento.



P/1 – E vocês têm oito filhos?



R – É, oito filhos, são 13 com tudo só que morreu três e tem uma prima dela aqui, que cria ele no Rancho Dourado, está com ela lá, Rafael.



P/1 – Não quer ficar aqui?



R – Não, ela pediu ele para ficar com ele lá, deixei de novinho, dei para ela e está lá.



P/1 – Então vamos lá, quem está mais velho?



R – Edmar, não, Elza.



P/1 – A Elza.



R – Elza, depois vem o Edmar, o (Eric?).



P/1 – (Eric?) foi para os Estados Unidos.



R – Foi para os Estados Unidos.



P/1 – Para a palestra, tudo. 



R – A Elza está em Macapá também, ela já trabalhou aqui ajudando na cooperativa, trabalhava de secretária, ajeitando a documentação, ela trabalhou três meses, aí ela foi para Macapá estudar também. Ela foi estudar para se formar para professora, foi terminar os estudos dela. E o Edmar também já saiu pra São Paulo, ficou em Jacareí seis meses.



P/1 – Fazendo um curso.



R – Fazendo um curso, agora ele voltou, veio para cá para fazer um estágio. Aí voltou para fazer a complementação do curso dele, recebeu o diploma dele e já foi para, de lá mesmo antes ele foi para os Estados Unidos, quando ele veio, terminou o curso dele, quando foi para concluir, o Edmar. O outro é o Eder, Edinho que ele chama, ele terminou também a oitava série, mas está parado, não está estudando agora.



P/1 – E ele não vai na colheita, na coleta?



R – Esse ano ele vai para lá pra coleta.



P/1 – Vai com o senhor?



R – Ele quer ir.



P/1 – Primeira vez?



R – Não, ele já tirou castanha, ano passado ele foi para coleta. Que é assim, ele gosta mais de estar no mato, ele terminou a oitava série dele, o segundo ano ele terminou, aí foi para Laranjal, ficou na Guarda Municipal por lá. Tem a Égina também que está já iniciando um trabalho com a comunidade também, ela está em Macapá junto com o Nego, o (Fernando Allegretti?) que é um trabalho junto com a Natura, a Natura está financiando um projeto dessa empresa para trabalhar com a comunidade do Iratapuru, aí está o Edmar e a Égina lá trabalhando. O Edmar que tinha assim uma proposta de trabalhar no Amapá e a Égina, a mulher do dono da empresa veio aqui, simpatizou dela, ela começou a ajudar ela, aí a fazer uma documentação, preencher ficha, aí ela levou ela para trabalhar, ajudar ela lá. Tudo isso também parte do interesse do pai, que o pai, às vezes, não liga muito para o filho: “Não, hoje eu não vou para sala de aula.” “Não, tudo bem, não quer ir, meu filho, então não vai.” Aí depois vai prejudicar o filho. É bom que o pai incentive também o filho, conta a história dele: “Olha, minha história foi ruim, eu não estudei, estou sofrendo. Estuda, porque hoje se não souber mexer com computador, uma coisa aí você não tem emprego!” “Está bom!” Aí tem a Rosiane também, próximo ano ela deve terminar a oitava série, ela vai ter que sair para estudar também. Aí vem a Daiane, depois vem a Sandrinha, o (Eridelto?) e a Sabrina.



P/1 – A última.



R – A última.



P/1 – Me fala uma coisa, o que o senhor tem como sonho que o senhor gostaria de realizar?



R – Meu sonho é ver meus filhos, colocar eles para estudar, depender deles mesmos para não ficar dependendo de mim, porque é uma herança que o pai deixa para o filho que isso aí ninguém toma dele, a educação, que eu tinha vontade de colocar eles para estudar e pudesse arranjar um emprego para eles para não ficar: “Ah, não estudou, tem que ficar dependendo de mim.” Aí todo mundo fica fazendo a história, pisar em cima da pessoa, muitos são assim, porque o pobre o sonho dele é esse, tem que pelo menos dar a educação do filho.



P/1 – (Risos). Agora vou fazer uma observação e eu queria que o senhor fizesse um comentário. Tanto a dona Elisabete quanto as meninas são muito bonitas, elas têm um cabelo bonito, né? O que o senhor acha que elas têm de bonito? O que é a beleza delas, dessas meninas todas?



R – Primeiro a aparência de índio logo, a cor morena, isso é uma coisa, os cabelos. As pessoas dizem, a mulher: “Vou cortar meu cabelo.” Eu acho que o véu da mulher é o cabelo, e a outra coisa também é de respeitar, sempre me respeitaram, isso é bonito na família, o respeito é a principal coisa, isso é muito bonito, todos eles me respeitam, respeitam a mãe deles, então tiram para brincadeira é brincar, na hora do sério é sério.



P/1 – E a dona Elisabete, o que o senhor acha que ela tem de beleza?



R – É a mesma coisa, a sinceridade, isso é muito importante. É muito difícil hoje a gente ver um casal que nem nós já estamos com 24 anos, indo para 25 anos casado estarem juntos com essa idade, 25 anos de casado, é muito difícil hoje, aqui mesmo na comunidade é difícil de ter casal assim, isso para mim é muito bom, muito importante e muito bonito.



P/1 – Então, para a gente terminar, o que é beleza para o senhor, essa coisa da beleza feminina? Só para a gente terminar, o que seria isso e o trabalho do senhor contribuindo para essa beleza da mulher brasileira, porque contribui, o trabalho acaba contribuindo no xampu, no perfume, né? O que o senhor acha disso assim?  



R – Aqui para nós, beleza feminina é essa floresta que tem aí, muito bonita e as mulheres também, é claro que todas as mulheres brasileiras são muito bonitas, isso não pode deixar de dar os elogios para as mulheres, porque a pessoa chega e diz: “Não, aquela mulher é feia.” Não, não tem ninguém feio, vamos ver o caráter da pessoa, vamos ver o respeito, a pessoa pode estar cheio de anéis, cheio de ouro, bonito, charmoso, mas se ele não tem moral, é uma pessoa que gosta de estar enganando todo mundo, a boniteza dele acabou, não sabe nem receber uma pessoa, conversar. Uma pessoa feia, alegre, chega com você conversando, lhe trata bem, aquela pessoa para mim é que é bonita, acho que não tem que mudar as coisas. Você é bonito mas não conhece ninguém, está escuro, então não adianta.



P/1 – (Risos). O senhor acha que ficou faltando alguma coisa que o senhor quer dizer, mandar um recado pro pessoal da Natura.   



R – Eu só tenho a agradecer muito mesmo a Natura pela atenção, porque na hora desse incêndio foi a hora que a gente mais sofreu.



P/1 – O que aconteceu?



R – Ficamos desesperados.



P/1 – O incêndio foi na fábrica, né?



R – Ficamos desesperados, foi quando a Natura chegou e abraçou a causa, porque nós com a fábrica queimada, não tinha prensa para prensar para tirar óleo, não tinha secador para secar a castanha, não tinha nem onde colocar a prensa nem secador nem nada e a Natura chegar e acreditar na gente, botar dinheiro na nossa mão: “Então está aqui, vocês querem trabalhar.” E começa a correr atrás de prensa para consertar, correr atrás de secador para comprar, ajeitar prédio para botar prensa, fazer maquininha, até essas maquininhas de quebrar a gente não tinha, se acabou tudo de quebrar, a gente mandou fazer tudo. Eu quero agradecer muito mesmo, porque além da confiança que ela teve na comunidade, na gente aqui da comunidade, a gente está onde está porque se fosse esperar, falo franco isso, o governo de estado, a gente não estaria como está agora, com certeza não tinha nada na comunidade, que a fábrica não ia reconstruir, e a Natura, não tinha nem como chegar também e dizer: “Não, nós vamos reconstruir.” Porque eu acho que a vontade do governo e o dever de governo era nesse momento chegar e abraçar. Não, o que ele queria fazer? Ficar dando cesta básica. Eu fui para Macapá, fui para a televisão e disse que eu não queria cesta básica, eu queria a fábrica reconstruída e queria trabalhar, cesta básica não dá camisa nem roupa para ninguém, bota mal costume às pessoas, todo mês ele recebe uma cesta básica, ele vai se acostumar, sabe que todo mês ele tem uma cesta básica, pronto.



P/1 – Para de trabalhar.



R – E a Natura foi que chegou e confiou na gente, a gente confiou também na Natura, com certeza e estamos nessa parceria eu acho que vai ser pela comunidade, por nós aqui, vai ser difícil a gente chegar e dizer: “Ó, nós não queremos trabalhar mais com a Natura.” De nossa parte, nós vamos continuar a parceria até quando tiver castanha na floresta aí e o povo comprando o perfume, porque se não comprar também, ela não vai comprar o nosso óleo.



P/1 – Mas tem outras empresas que vocês estão vendendo também.



R – É, tem a Crodamazon que compra um pouco de óleo também da gente e está querendo comprar, só que a gente não quer se compromissar muito, porque se for para chegar: “Não, eu tenho 100 toneladas, mercado para 100 toneladas, vamos pegar o dinheiro!” Cinquenta por cento logo para começar a tirar, depois não tem o óleo para entregar aí vai ficar ruim.



P/1 – Quanto vocês tiraram ano passado?



R – Oito toneladas, a previsão, no início, a Natura queria 3800 quilos, depois ela veio com uma proposta já para aumentar para 12 toneladas, só que a gente estava sem uma programação, ainda tudo ocupado também, tinha a fábrica para reconstruir, uma porção de coisa, a gente não conseguiu as 12 toneladas, mas conseguiu 8 toneladas e pouca, passou um pouco ainda de 8 toneladas. Agora, para esse ano já é 15 toneladas, já tem que trabalhar mais. 



P/1 – E vocês vão conseguir?



R –A gente está querendo conseguir, porque a gente vai pegar a safra toda agora, estamos querendo passar das 15 para não faltar mais.



P/1 – O senhor é uma pessoa meio pública, já deu muita entrevista, tudo, o senhor já tinha contado, feito alguma entrevista contado do seu passado, de infância, adolescência?



R – Não, isso é muito bom porque a gente lembra do tempo das traquinagens ainda, contar de 9 anos para cá, minha vida é essa, trabalhar com o extrativismo e gosto muito de conversar com as pessoas, quando começa a puxar assunto assim, a gente conversa e leva longe.



P/1 – Ah, eu gosto.



R – As pessoas até me perguntam: “Que série que tu estudou?” “Até a segunda série!” “É mentira tua.” (Risos). Conhecimento que, às vezes, a pessoa de ouvir uma reunião e não presta atenção, não vai aprender nunca aquilo. Aqui mesmo estar em reunião uma pessoa está conversando com outra para cá, não está prestando atenção no que a outra pessoa está falando, discurso bom, a pessoa tem que ficar ativa, tem que gravar e tal. Não é aprender tudo de uma vez, mas ele vai aprendendo aos poucos.



P/1 – O senhor fazia muita traquinagem criança? 



R – Ah, sim, era meio traquina.



P/1 – Conta uma traquinagem do senhor que pode ser contada.



R – Eu me lembro da traquinagem que eu fiz, foi, eu tinha uma tia que ela fumava no cachimbo, aí toda cinco horas, seis horas da tarde ela mandava encher o cachimbo para ela, botar tabaco e mandava acender pra ela. Aí botava fogo no cachimbo para ela lá, ela botava aquele “mosquiteirão” que _______, tinha muito (carapã?). Um dia teve um negócio na minha cabeça, fiquei brabo logo: “Não vou mais ficar enchendo cachimbo!” Botei um pouco de pólvora debaixo do fundo do cachimbo e enchi de tabaco o resto, aí ela disse: “Vai acender para mim!” Eu fui lá, botei uma brasa em cima assim, entreguei para ela lá, ela estava debaixo do mosquiteiro fumando, quando deu fé só foi o pipoco, é puf dentro do mosquiteiro, ela pulou, aquele fumaceiro doido, nem chegou a incendiar, só ficou aquele fumaceiro. 



P/1 – (Risos).



R – Ela correu com um pedaço de pau lá, eu corri no trapiche e pulei na água. Tinha um rio assim, daqui para essa ______ mesmo, cheguei em terra, fiquei lá em terra olhando de lá. Ela em um trapiche fumaçando de raiva.



P/1 – Eu lembrei do causo do compadre do senhor que comprou um milho diferente com os mosquitinhos, conta essa que essa é boa.



R – _____ para o tribunal _____. Ele foi comprar milho para os pintos dele, aí chegou lá tinha milho de pipoca, ele disse: “Eu vou comprar desse milho aqui que é miudinho, já sai bem para o pinto comer.” Ele comprou e trouxe, ele tinha uns 300 pintos no terreno dele lá só para dar comida, deu o milho para o pinto, milho de pipoca. O sol começou a esquentar e ele estava deitado no quarto lá, só começou a escutar aquele “pou, pou!” E __________ espouca __________ e os pintos espoucando. O milho começou a esquentar no papo dos pintos e começou a espoucar pinto para todo lado, matou todos os pintos dele.



P/1 – Matou todos os pintinhos! (Risos). Ai, coisa boa ouvir isso. Para encerrar, o senhor acha que ficou faltando alguma coisa?



R – Eu acho que não.



P/1 – Qualquer coisa a gente complementa nesses dias. Está jóia!



R – Se faltar alguma coisa.



P/1 – Então, em nome do Museu da Pessoa e da Natura eu agradeço demais a paciência do senhor.



R – Eu é que agradeço muito, mandar um recado para o presidente da Natura lá, um abraço, um bom ano de 2005 aí, vender muitos perfumes aí, para nós é muito bom, quanto mais vender perfume mais produto a gente manda para lá (risos).



P/1 – Está jóia, então, seu Arraiá, obrigada pela entrevista. 



--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

Dúvidas

 

Mossu

Vissanta

Helene

Pau Cortado

Luiz

Sabati

Sema

Samareira

Entendi

Ivanhampins

Eric

Fernando Allegretti

Eridelto

Carapã

 

 

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