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História

A batalha de uma cultura

História de: Alzira Fernando Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/09/2011

Sinopse

Nascida e criada na cultura Kalunga, de um catolicismo rural ainda remanescente em regiões como em partes da beira do rio Paraná, Alzira se lembra de uma infância e adolescência ao mesmo tempo felizes e difíceis. Ela conta que a felicidade vinha do carinho de sua avó e familiares, e da cultura que lhe deu sustentação, já as tristezas vinham por morar em um lugar em que ela não frequentou a escola até quando quis; se virava com a falta de energia elétrica de noite, entre outras dificuldades, mas sempre preservando e batalhando para que a sua cultura fosse reconhecida.

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História completa

P/1 - Boa tarde Dona Alzira. Eu queria começar a entrevista perguntando o seu nome completo, a data e o local de nascimento.

 

R - Boa tarde. Meu nome é Alzira Fernando Santos. Eu nasci em 1973 no mês de setembro.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - O nome dos meus pais são Matias Fernando de Aquino e Domingas Fernando dos Santos.

 

P/1 - E a senhora foi criada junto com eles e com seus avôs?

 

R - Fui criada junto com eles. Tudo junto. A minha avó é Procópia Dos Santos Rosa. É conhecida em quase todo Lugar. Sou a neta mais velha da Procópia.

 

P/1 - E que lembrança você tem da sua avó e da sua infância?

 

R - Tem muita, lembranças muitas. Tem lembranças boas e lembranças tristes, porque a gente passava muitas dificuldades. Hoje a vida de criança é bem melhor. Nós passamos uma vida de criança, de infância... Porque nós não estudamos. A brincadeira nossa era ir para a roça ver os pais trabalhando. A hora que dava a gente ia ajudar, trabalhar também, ir para o rio, ajudar a arrumar as coisas. Nós não tivemos oportunidade de estudar. Eu apenas fiz até a terceira. E eu, quase da sua idade, com filhos já, eu fiz a terceira. Pena que eu queria fazer mesmo a quarta, a quinta. Mas lá no local em que eu moro tem as escolas, mas não pode dar aulas a noite, porque não tem energia. Energia só tem num certo pedaço de uma estrada para trás. Até da minha avó Procópia para trás. Para onde que eu moro ainda tem umas cinco localidades que não tem energia. Nunca tiveram.

 

P/1 - E de criança, que outras crianças brincavam com você? Você tem primos, irmãos?

 

R - Primos, irmãos. Irmãos nós somos cinco. Primos, colegas demais. Na infância nós éramos oito mocinhas. Hoje nós somos comadres. Hoje nós somos comadres, amigos. Demora dois, três meses sem se encontrar, porque todo mundo casou, mudou. Assim foi para cada fazenda. Quando eu vou para a casa dos meus pais elas não vem. Aí a gente encontra nessas festas agora em agosto, perto da festa de Nossa Senhora da Abadia. Aí nós nos encontramos no mês de junho, setembro. Aí a gente se encontra. Tem vez que é só para o ano. Eu sinto muitas saudades, eu sinto. Só esse pedaço aí que eu acho...

Minha vontade nessa época era estudar. Acho que eu seria alguma coisa lá. Tem escola, tem tudo. Mas a gente não pode trabalhar, não tem estudo. Aí vem os de fora vão trabalhar, porque ninguém tem estudo. Na infância ninguém tem emprego.

 

P/1 - Você falou de lembranças tristes, também tem as lembranças felizes de visitar o rio. Tem algum episódio marcante que você lembra?

 

R - Muita coisa boa. Fui muito bem criada, meus pais me tratavam muito bem. Era dificultoso para a gente se vestir, e até para a gente se alimentar. Era mais difícil. Era difícil e era mais fácil. Nessa época chovia muito, tudo que a gente plantava durava mais. Hoje a chuva está muito pouca. As coisas que você planta, na mesma hora, na época... Tem vezes que planta na época e perde, porque a chuva... Está perdendo os contatos da chuva. Na minha época chovia muito.

 

P/1 - E os seus avôs e pais te ensinaram a trabalhar na terra?

 

R - Ensinou. Eu sei fazer de tudo, de roça lá eu sei fazer de tudo. Sei socar, limpar arroz. Eu sei me virar de tudo. Sei ralar, torrar, sei fazer farinha. Sei fazer de tudo. Tudo. Tudo. A única coisa que eu não sei é pegar numa caneta e escrever. Só. O resto, graças a Deus.

 

P/1 - O que mais você lembra dos seus avôs?

 

R - Lembro muita coisa. Um bocado de coisinha que ensinavam a gente a brincar, contavam histórias para a gente. Aquelas histórias que a gente vai esquecendo. O menino hoje fica mais indo para a escola. “Ô mãe, ensina a fazer o dever”. Naquela época os avôs tinham tempo de contar história para a gente. Quando era sexta feira da paixão, na Semana Santa, eles falavam pra gente assim... As minhas avós falavam da Semana Santa que era época de vigia. “Hoje não pode gritar, porque é quarta feira Santa, é quinta feira santa”, “Porque vó?”, “Porque não pode gritar. Jesus está doente”. E falava um monte de coisas para a gente. E a gente ficava curiosa. “Porque Jesus adoeceu nessa época?”, “Porque é a Semana Santa”. Aí quando dava sexta feira da paixão já falavam: “Anda lobisomem. Mula de duas cabeças”. Ficava curioso. Hoje acabou isso tudo, não contam mais histórias. Minha criação foi boa demais, só não foi melhor por causa desse pedaço aí que eu não tive infância. Lá era um lugar muito isolado. Hoje está bem fácil em vista da minha criação. Os meus filhos estão tendo uma criação melhor. Está tendo mais conhecimento. Minha criação. Eu vim a ver carro no ano que me casei. E vim para cá para a cidade para tirar licença para casar, porque tinha que tirar na cidade para o padre vir para fazer o casamento lá. Aí que eu vim conhecer carro.

 

P/1 - E foi a primeira vez que você veio para a cidade?

 

R - A primeira vez.

 

P/1 - Como foi esse contato?

 

R - Esse contato tem que tirar os papéis do noivado lá na cidade, porque o padre vem em casa. Aí foi para tirar a licença. Aí que eu vim ver, e foi a cavalo. Eu vim a cavalo até a ponte. Daí da ponte pegou o carro. E foi para lá que eu tirei a licença e vim ver carro. A hora que foi casar. Estrada não tinha, só o trilhozinho beirando a serra. Hoje já tem estrada. Não é muito fácil, mas tem.

 

P/1 - E qual foi a primeira impressão de chegar aqui na cidade?

 

R - A gente chegando à cidade vê as lojas, vê as coisas. “Daqui que vai isso, daqui que vai aquilo. Aqui é o supermercado onde a gente compra o sabão”. Aí que a gente veio conhecer.

 

P/1 - E o único jeito de acesso era a cavalo?

 

R - Só a cavalo, quem tinha cavalo, e quem não tinha era a pé. Não era todo mundo que tinha também não. Porque lá também era de uns ter dois e uns não ter nenhum. Então minhas lembranças são essas.

 

P/1 - A senhora comentou do seu casamento. Quando a senhora conheceu o seu marido?

 

R - Ah, isso daí. Desde criança que a gente conhece, nas festas né? Conhece os pais dele e tudo. Os mais velhos conhecidos da minha vó Procópia. Inclusive, minha sogra é muito amiga da minha avó Procópia. Ela fez muito projeto lá no Kalunga. Minha sogra Santina Gertrudes Pereira, ela e minha avó Procópia ali no governo de Manguito. Na época que Manguito foi governador elas arrumaram um projeto lá. Para pedir. Foi o acesso que salvou as escolas para os meninos estudarem. Ela ajudou muito. A água ela pediu. As duas pediram e nós temos água. Colégio. Agradece as duas. Aí com cinco anos minha sogra faleceu. Aí ficou só minha avó Procópia. Ela está velha e diz que é para deixar para nós que estamos novos. Ela está cansada, está sozinha. Mas mesmo assim ela vai às reuniões ainda, mas ela teve muito acesso. Foi muito bem recebida nas cidades, que nem Goiania. Essas duas lutaram e conseguiram muito coisa lá para o Kalunga.

 

P/1 - O que mais você lembra da avó Procópia?

 

R - Da minha avó Procópia eu lembro de muita coisa, um bocado de coisinhas miúdas. Bocado de coisa. Hoje ela está bem de idade, mas mesmo assim para sentar e dar entrevista ela ainda serve. Só não serve para sair porque as pernas... A idade está chegando e ela tem uma das pernas quebrada. Aí do ponto de vista é isso.

 

P/1 - Aí você conheceu o seu marido pela amizade?

 

R - Pela amizade. Todo mundo é conhecido desde criança. Um par de festas. Namorava com outro e quando acertava com um namorava. Foi indo e foi crescendo. A amizade foi chegando e nós ficamos quatro anos, aí nós resolvemos casar. Era tudo perto, conhecia todos. Conhecia os pais. E casamos Graças a Deus. Estamos até bem. Não é melhor porque a dificuldade é muita. Faltam as coisas, mas assim através de convivência. A convivência nossa até é boa, Graças a Deus.

 

P/1 - E como foi a festa de casamento?

 

R - A festa de casamento foi simples, não tinha nada mesmo. Casou mesmo, fizemos um bolinho lá e uma valsinha, dançamos e acabou. Não foi essa festona assim, não. Ninguém tinha condição de fazer festa. Só mesmo da vidinha mesmo.

 

P/1 - Mesmo assim foi especial?

 

R - Foi.

 

P/1 - E o primeiro filho. Como foi ser mãe pela primeira vez?

 

R - Ih, isso daí foi terrível, meu filho. Não queria filho agora não. Pouco bucho. E para ganhar foi todinho lá.

 

P/1 - Todos os filhos?

 

R - Todos os filhos lá no Kalunga.

 

P/1 - E como foi o parto?

 

R - O parto foi normal, com as parteiras. Tem as parteiras da comunidade mesmo. Só quando a pessoa demora, o parto é ruim, ou o menino está atravessado, que vem para a cidade. Mas lá as parteiras fazem o parto. O parto correto é ganhar lá mesmo. Os meus. Eu ganhei os meninos tudo lá em casa.

 

P/1 - E como é a criação dos seus filhos que você vê de diferente de quando você era criança?

 

R - Eu acho as diferenças. Eu acho duas diferenças na época. Porque na época que eu criei as coisas era mais, sei lá. Acho que era mais fechada, era uma coisa mais juntinha. A gente não tinha muito conhecimento. E hoje os nossos filhos estão tendo mais conhecimento. Tem coisas que eles avançam que a gente gosta. E tem coisa que eles avançam que a gente vê que não pode estar avançando desse jeito que a gente vê, porque na nossa época nem de bom, nem de ruim, não tinha gosto nenhum. Eu acho a diferença essa. E outra, as escolas.

 

P/1 - E como foi. Como você se sentiu em ter seus filhos?

 

R - Eu sinto orgulhosa de ter os meus cinco filhos. Dois já estão no nono ano, na escola lá dentro do Kalunga. Eu queria… Queria não, tenho certeza que vai terminar lá. Mesmo primeiro lá mesmo. Depois caçar o rumo, porque nós somos fracos. Se der certo, Deus ajuda a ter uma oportunidade de faculdade. Está visto. Se Deus não quiser, arruma mesmo, porque quem tem o segundo grau já arruma uma salinha de aula, já é um professor, já ensina os próprios meninos lá. Agora para quem não tem é difícil.

 

P/1 - E a casa de vocês? Como é o lugar onde vocês moram?

 

R - A casa que nós moramos por enquanto é de palha. Ainda. Está tendo um projeto das casinhas, mas nunca chegou lá não. Chegou por enquanto o banheiro. Agora o lugar onde nós estamos está difícil, não tem energia. Ah, falam que no Kalunga tem energia. Não, não é em todo lugar que tem não. Vários locais. Aí vai chegando. Chegando. Cerca o meio assim. O lado para cá tem energia. Tem lugar que tem muitas casas, banheiro. Mas do acesso de onde que eu moro e mais outras fazendas que fazem divisa de Tocantins com Goiás não tem nada, não tem energia, só água. Eu falo que não tem nada, mas volta atrás tem a água encanada, isso tem. Mas só tem os banheiros e a água. As casinhas nunca chegaram e a energia também nunca chegou. Aí nós moramos numa casa de palha. São cinco cômodos, tem a sala, cozinha, o quarto dos meninos e o nosso. E a porta lá para quem está ali mesmo.

 

P/1 - Deixa perguntar, o que você aprendeu com a sua avó com a cultura Kalunga? O que ela ensinou para vocês?

 

R - A cultura Kalunga. Nós aprendemos só lá mesmo, a brincar, rezar, as festas de tradição. Tem os santos, as folias que respeitamos muito. Os foliões, que são a tradição da gente, as folias, reza, festas, dia santo. É assim que a gente aprendeu.

 

P/1 - E até hoje tem as folias?

R - Até hoje tem Santo Rosário, Nossa Senhora das Neves. Agora, dia cinco tem uma de Nossa Senhora da Neves, dia seis também tem. Cinco e seis tem. Seis é São Bom Jesus, cinco é Nossa Senhora das Neves. Aí já quinze tem a Nossa Senhora da Abadia. Todo mundo na festa.

 

P/1 - E para quem não conhece, como é uma folia?

 

R - Ah, pra quem não conhece uma folia, é juntar com instrumento. Ali tem a bandeira do santo, com fé. Juntar os instrumentos e chegar, pedir um agasalho para pousar. Depois do agasalho faz o canto com as pessoas donas da casa, junta ali os filhos. Dá uma esmolinha. Dez centavos. Até cinco. Colocou no pandeiro e aí rola. Aí dorme e no outro dia sai nas casas. Um dá um almoço, outro dá um café. Só que é bem subida. É por conta da gente mesmo, a gente que dá comida para eles, é bem tratado. Eu mesmo gosto muito de folia. Nossa, minha avó Procópia é uma tradição assim com folia. Eu gosto muitol eu gosto demais, demais. Tanto que eu gosto de mexer com festas. Gosto demais, demais.

 

P/1 - E você ensinou para os seus filhos essa cultura?

 

R -    Ensinei essa cultura. Hoje as minhas meninas mesmo estão aqui. Eu tenho três meninas mulheres aqui. Vim pra cá pra topar com o pessoal aqui, para dançar sulsa. Porque se deixar e um dia: “Você é do Kalunga?”, “sou, mas minha mãe não ensinou nem a dançar sulsa”. Então eu vou para o encontro e elas vão. Depois no dia de amanhã: “Ah, lembrei do encontro que eu fiz com a minha mãe”. Nossa tradição foi representar a sulsa, isso é a nossa cultura lá.

 

P/1 - E que importância você acha em vir para o encontro e mostrar essa cultura, de preservar?

 

R - Essa é a primeira vez que eu vim esse ano. Eu gostei demais. Acho muito importante. Cada vez mais a gente vai conhecendo umas comunidades, umas com as outras. E eu vou falar para você a verdade. Eu não conhecia índios, conheci aqui. Já vi sim pela televisão, mas pessoalmente nunca tinha visto. Eu já vi movimento lá no Kalunga para a gente ver eles, dos bravos a gente não vê. Já vi movimento, já vi eles tocando gaita, mas no escondido, no silêncio, na beira do rio, na mata. Eu já vi remendando passarinho, tocando gaita. Aí os povos falam que são índios, mas ninguém via, via os movimentos, uma fogueirinha: “Olha, os índios dormiram aqui essa noite”, mas para eu ver, não. Nunca tinha visto. Ontem que eu vim ver índio aqui. E para mim lá é o lugar deles. Minha avó Procópia diz que tenho descendência de índios. Mas só que eu não conheci. Eu gostei muito do encontro. Eu até falei hoje para a menina que nos trouxe, que eu queria vir de novo para o encontro. Gostei demais, demais. Muito bom. A gente vai aprendendo cada vez mais. A gente fica nesse lugar e só a nossa cultura, nós uns com os outros. Saí daqui e a gente vai tendo mais conhecimento, vê muita coisa diferente, é bom.

 

P/1 - Eu vi que a senhora tem um grande prazer de conhecer e de aprender mais coisas. Conta um pouco. Porque tem tanta gente que tem a oportunidade e não sabe aproveitar.

 

R - Não sabe aproveitar, pois se eu tivesse eu tinha aproveitado. Eu saberia aproveitar.

 

P/1 - Como é essa sensação de ver um índio pela primeira vez? Ver um carro pela primeira vez?

 

R - Eu fiquei muito impressionada de ver. Vou falar assim: “Passou um índio ali". Eu para ver eles assim… Tem que saber, porque a gente sabe que eles são gente igual a nós, mas a gente nunca viu. Porque a gente viu o branco lá, e o índio eu ficava curiosa, “como é que são os índios?” Só vi eles na televisão, mas eu queria ver pessoalmente. Ontem as menininhas [estavam] brincando aqui. Eu falei: “Vocês são índias?”, “Nós somos. E você é de onde?”, “eu sou do Kalunga”, “ah, eu já ouvi falar do Kalunga. Nós somos do Tocantins”. Olha aí o tamanho das meninas. Ali eu fiquei impressionada, olha o tamanho da criança. E ela sabia que era índia e para perguntar de onde que eu era. Ela foi e me responder. Era uma menina de doze anos, lá no banheiro. Aí ela falou para mim que já ouviu falar no Kalunga.

 

P/1 - E qual o seu maior sonho hoje?

 

R - O meu maior sonho hoje… Lá na nossa região ou assim?

 

P/1 - O seu sonho. Se pudesse falar para a gente.

 

R -   Sei lá. Meu sonho é criar meus filhos bem criados, terminar os estudos, ter uma vida melhor. Não para sair para longe, ficar por lá. Ter uma vida mais organizada para ter as suas coisinhas. E o meu sonho é desse jeito. Criar meus filhos, como eu já vou criando, Graças a Deus, com saúde. A gente, se tivesse oportunidade de adquirir alguma coisa... Mas eu acho que para mim já está tarde. Adquirir alguma coisa a mais para o futuro. Queria, mas agora são para os filhos. Porque para mim, tudo hoje é para adquirir alguma coisa para o futuro, realizar alguma coisa é com estudo. E nós não temos.

 

P/1 - Tem alguma coisa que eu não perguntei e que você queria falar?

 

R -   Eu só queria falar um pouquinho da cultura do nosso serviço. Esses dois anos para cá... Nós moramos no Rio Paraná, bem na beira do rio. A gente de primeiro tirava ouro de bateia, com a bateinha tirava faisquinha. Não é porque dá ouro bastante, bastante. Tirar faisquinha e vêm umas graminhas. Quando foi de um passado para cá a gente descobriu um pessoal de fora que compra um motor e monta uma balsa de tambor, coloca um tambor de lado com a balsa e põe uma mangueira. Esse pessoal veste uma roupa e põe compressor e põe tudo, mergulha para puxar o cascainho para fora, nas beiradas assim, e tirar. E com a semana, eles colocam horário. Meu marido inclusive está trabalhando nesse serviço, do ano passado para cá. E quando é no final da semana eles lavam. E aí tem vezes que dá quatro, cinco gramas para cada. Aí a gente vendo, ajuda muito a gente comprar alimento, porque o serviço de lá é só da roça. Igual eu falei para você, a chuva encampou e está ficando mais difícil. É o mantimento da roça para a gente manter e vestir tudo esses daí. Não está tendo como. Aí eles estavam trabalhando. Aí teve um acesso do IBAMA pra ir lá. Mandou parar porque isso não era legal, esse modo. Eu falei: “Poxa, nós mesmos... Mercúrio é a coisa mais difícil que temos. Nós mesmos por cuidar da nossa comunidade não temos como. Eu queria que eles pensassem mais porque eles falaram que era gente de fora. Mas eles puderam bem pensar que nós lá de dentro, se não tivesse uma pessoa de fora para indicar, para ensinar nós não temos nada a fazer. Porque até os professores vêm de fora porque lá de dentro não tem ninguém com capacidade de dar uma aula. Então um garimpo desses... Eu queria que eles entendessem - o IBAMA e as pessoas - que as pessoas que estão lá não são para morar, fica com medo que... Uns falaram que o local lá é um local disso, que não pode deixar gente de fora, claro, nós somos... Nós não queremos ninguém para morar conosco, nós queremos as pessoas para ensinar. Então esse pessoal estava lá. Duas pessoas só que estavam lá para ensinar os meninos. Eles nem trabalham, eles só ensinam. “Faz desse jeito ou faz desse outro. E os meninos mergulham que tira os ourinhos. Inclusive meu compadre Zezinho mesmo conseguiu agora trabalhando com os outros conseguiu adquirir uma. E ele de vez em quando fala que quer embarrar, porque eles falam que quer embarrar, que está lá dentro e não pode trabalhar e não sei o que. Eu fico pensando assim. Nós não temos outro jeito, o jeito é embarrar. Porque embarra? Só nós mesmo que trabalhamos e que está montando as balsas. Não é todo mundo que tem condição e nem todo mundo que tem a organização e o conhecimento daquele material para trabalhar. Era só isso que eu queria falar.  

 

P/1 - Obrigado Dona Alzira.

 

R - De nada.

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