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História

A autoestima depois da Bariátrica

História de: Natalie Rodrigues Gomez Santiago Solo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/02/2021

Sinopse

Infância longe da mãe. Poucas amizades. Gravidez precoce. Mãe solteira. Parto cesárea. Amamentou o filho até 3 anos. Abandonou os estudos. Derrame da avó. Diversão e baladas. Casou. Parto natural. Segunda filha. Falta de informação. Voltou a estudar. Engordou muito com anticoncepcional. Fez diversos tratamentos para emagrecer. Ficou agressiva. A obesidade incomodava. Fez cirurgia bariátrica. Emagreceu e se sente feliz com seu novo manequim.

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História completa

Eu comecei a namorar muito cedo, mesmo. E eu tinha... o meu primeiro namorado eu tinha doze anos e ele tinha dezenove. E antes era só um namoro de beijinho na boca e mão dada. Ele nunca tentou nada, ele nunca fez nada, enfim. E foi passando, então sempre namorei, desde muito cedo. Tinha informações, mas não eram muito claras, não eram muito bem explicadas pra mim. Minha mãe falava comigo sobre sexo, falava comigo sobre camisinha, sobre menstruação, tudo isso, mas, é... Hoje, pensando, faltou algumas informações a mais, né. Até eu conhecer o pai do meu filho, eu tinha quinze anos, ele tinha vinte e um, e a gente já era... ativa... fazia sexo e tal... e ele não foi meu primeiro, nem nada, então a camisinha estourou e ele não me contou. Ele não me contou, ele me contou... não foi ele quem me contou, a prima dele me contou pra avisar, dois dias depois, que a camisinha tinha estourado e eu não sabia o que que eu fazia, minha mãe não sabia que eu não era mais virgem. Aí, depois disse a pílula do dia seguinte. Dois dias depois. Mas aí eu nem tomei, porque eu nem sabia que dava isso no postinho de graça. E foi aquilo, né... “vamo fazer o teste, vamo fazer o teste”. Aí, tava lá o pequeno Gabriel. E eu com quinze anos, tava indo pra entrar no... estava no primeiro ano do ensino médio. Tive que parar os estudos, até mesmo porque eu tinha vergonha de ir pra escola grávida, e toda aquela situação, em casa também. Pra minha mãe, que também foi mãe jovem, também foi mãe solteira, foi mãe aos dezessete anos e tá passando por isso com a filha. E vamos todo mundo morar com a avó, meu avô já tinha falecido. Fui morar com a minha avó, também foi uma decepção pra ela, porque não era o que você quer, não era o que você espera. Então, mudei de bairro, fui pra Carapicuíba. No outro ano eu entrei pro Ensino Médio. Já tava com o Gabriel. Aí, minha avó teve um derrame, aí eu parei os estudos, aí eu tinha que ser mãe com dezesseis anos de uma criança, de um bebê e mãe de uma mulher de sessenta anos que foi minha avó, que eu tive que cuidar dela. Porque minha mãe precisava trabalhar e eu precisava cuidar de tudo, da casa, de dois bebês. Bom, aí depois eu tive a minha filha, né?! Com vinte e um. Tomei na... tava só namorando o meu marido, quando a minha filha fez seis meses eu fui morar com ele. E morrendo de medo de engravidar de novo, né, o que eu fiz: tomei anticoncepcional injetável, contra a indicação do meu ginecologista, porque eu muito sem vergonha fui procurar outro ginecologista, porque eu falava “não, eu não quero mais menstruar.” Detesto menstruar, passo muito mal, tenho uma TPM terrível e o que me incomoda mais é a minha TPM, mesmo, que é muito assim, descontrolada. “Então eu não quero mais menstruar, não quero mais isso pra mim. Então eu vou tomar anticoncepcional. Eu quero injetável”, o doutor “não, porque você vai engordar” / “ah, mas vai ser só um pouquinho” / “vai engordar! Não vai tomar!” / “tá bom!”. Procurei outro. Ele me deu a receita e tomei. Em um mês eu engordei vinte quilos. Só com uma injeção. E são duas, não, são... é, você toma uma a cada três meses. Voltei na médica toda inchada “doutora, eu engordei vinte quilos. O que que é isso? Em um mês.” / “Ah, isso é tudo água. É normal, vai passar. Quando você tomar a segunda dose seu corpo vai se acostumar.” / “Tá bom.” Aí fiquei com aqueles vinte quilos. Tomei a segunda dose. Eu engordei mais dez. Então, eu estava se 65 kg e eu fui pra 95 kg, em quatro meses. Não quis tomar mais remédio, não tomei mais a outra dose. Obviamente a minha menstruação cessou, desde a primeira dose, porque aquilo ali é uma bomba e caiu como uma bomba pro meu organismo. Então, eu não vou parar de tomar e eu vou emagrecer, né?! Provavelmente”, pensei eu. Não. Passei mais um ano, desse ano eu engordei mais dez quilos, eu fui pra 105 kg. E fiquei com 105 kg, depois abaixei num período pra 95 kg e fiquei com 95 kg. Fiquei dois anos e meio sem menstruar. Esses dois anos e meio sem menstruar eu tive muita acne, minhas unhas não ficavam compridas, nem um pouquinho, porque o mínimo que cresciam elas já quebravam, porque elas ficavam em camadas e muita queda de cabelo, muita queda de cabelo. Meu cabelo ficou ralo. Procurei um outro médico, aí ele me explicou “você entrou numa menopausa precoce, seu corpo entendeu dessa forma. Algumas mulheres tomam, não têm reações, outras param de menstruar e o corpo consegue prosseguir. Seu corpo não. Seu corpo entendeu que você entrou na menopausa. Então, é pele seca, boca seca, alteração de humor, é um calor, um calor e um calor e esfria, esfria e esfria. Igualzinho uma mulher na menopausa”. Porque, olha, como deve sofrer, Jesus! Porque é horrível. “E aí, doutor, o que que eu vou fazer? O que que eu faço?” / “Não tem o que fazer, tá dentro do seu corpo. Agora faz parte do seu corpo. Você vai ter que esperar o seu corpo responder sozinho” / “Ah, se eu tomar anticoncepcional, ou outra coisa?” / “Não! Mais bomba, mais hormônio? Você tá totalmente descompensada”. Aí o médico falou assim “não, agora você é obesa, você tá com grau de obesidade um e você vai ter que começar a cuidar da sua saúde, porque senão vai começar a vir problemas.” Eu, até então, eu não tinha, esteticamente, óbvio, né, que era um corpo que não me pertencia, eu era uma menina de 55 kg que foi pra 95 kg em um ano. E aquilo, eu chegava nos lugares, eu, literalmente, derrubava as coisas em volta, porque eu não tinha noção de espaço, eu não tinha noção do espaço que meu corpo tomava. Foi muito cruel, né, porque você é cobrada, né, “nossa, você era tão magrinha! Nossa, o que que aconteceu com você? Nossa, você deu uma engordada, né?” Passei em vários médicos, fiz vários exames, até a hora que eu cansei. Cansei mesmo. E falei “agora eu vou ser garota plus size” Eu vou me aceitar. Porque tava bem nesse começo de corpo livre. Movimento Corpo Livre. Eu peguei o Corpo Livre no comecinho dele. “Então, eu vou me aceitar. Vou ser gordinha”, minha mãe também “não, vai ser gordinha então” / “Tá bom, vamos lá!” Aí, começou a lançar as roupas plus size e fomos lá comprar roupa plus size. E, realmente, tinha umas roupas muito bonitinhas, tal (já tinham melhorado nessa parte, né), e eu comecei a comprar roupa plus size. Mas, gente, não dá, quando é... então, eu tentei. Eu tentei aceitar o meu corpo como ele era. Eu tentei mentalizar que “não, olha, tá tudo bem! Você vai... você vai ser gordinha. Mas, você é linda gordinha”, eu falava isso pra mim, sabe. E foi, por um tempo, mas não durou, porque a saúde começou a me cobrar, né, estavam ali os meus nove anos... nove anos de obesidade. Foi quando eu comecei a ter pico de pressão alta, sentir dor nas costas, subia uma ladeira e não aguentava, uma coisa pequena eu já tava morrendo de falta de ar, aí eu pensei e falei “gente, tudo bem, você pode até ter o corpo que você quiser, é um direito seu. Quando a luz vermelha da saúde ali acendeu, eu falei “é, realmente, não é pra mim”. Então foi quando começou a desencadear problemas de saúde. “E vamos tentar tudo de novo. Vamos procurar tratamento”. E começa aquela saga... quando eu comecei a escutar a palavra ‘Balão Gástrico’, “vamos pro Balão gástrico? Vamos tentar pesquisar?” Aí foi quando eu escutei a palavra ‘Bariátrica’. “Que que é Bariátrica?” Eu comecei a pesquisar um pouco mais, fiquei um pouco assustada, né, falei “ai, gente, será que vale tudo isso? Cortar o estômago”, né. Meu, falava assim “gente, tem que me mutilar, pra conseguir emagrecer?” Eu via a bariátrica dessa forma, a mutilação, né, mas eram dois pesos... eram dois pesos, duas medidas, porque, tipo, era minha saúde, era a minha autoestima que estava muito baixa, eu tinha... nossa, eu tava totalmente, de olhar assim... eu não queria nem ir mais à lugar nenhum, porque você ia por uma roupa, não achava. Eu só comprava roupa quando eu ia sair. “Vai ter um evento? Eu vou comprar uma roupa hoje, né, porque amanhã eu já nem sei se serve mais”. E pronto. Porque eu só comprava... e é cara. Roupa plus size é uma coisa muito cara. E a doença ali gritando, porque eu comecei a ter dor nas costas, dor no quadril, eu tava com resistência à insulina, hipertensão, roncava muito, vivia cansada, vivia muito cansada, mesmo. Cansei. Você já não tem o controle... você já não escolhe a roupa quer, é a roupa quem te escolhe, é o que tem. Vai falar com alguém: ‘emagrece!’ Você vai procurar uma entrevista de emprego, o pessoal já te olha assim já”, né. É tudo, tudo é um julgamento, né, o ambiente que você tá, o lugar que você vai passar, aonde você vai sentar, sabe, eu tava ficando maior, tava engordando, “gente! Onde eu vou parar? Não vai dar!” O meu corpo já não aguentava mais, meu psicológico não aguentava mais, aí foi quando eu: “agora, acabou. Agora, eu vou entrar na faca”. Então, saí da cirurgia, tava mega feliz. Na época que tinha acontecido, de estar operada, e vamos pro copinho, ô meu Deus do céu, que fez a bariátrica conhece que é o copinho de café, a dieta líquida, que é líquida mesmo, Recuperei o que perdi, depois continuei emagrecendo e aí voltei a trabalhar. Aí é quando você começa a se sentir o máximo, né? “Nossa, como você tá linda, como você emagreceu, como seu rosto afinou”, né. Daí você começa ver as roupas mais largas, pouca coisa, mas já é o suficiente, né, sua autoestima sobe, você se sente mais bonita, se sente mais confiante, né. Eu estava vendo fotos do meu celular, aí quando você vai lá no arquivo de fotos, às vezes ele sobe uma fotinho sua por causa do rosto, aí eu me assustei porque eu vi uma moça, eu: “nossa, mas quem é essa moça? Sou eu”, eu não me reconheci na foto. Porque na imagem de cima eu tava vendo fotos antigas, gordinha, a de baixo que subi era a do meu rosto magro, eu não reconheci na hora, então é muito louco, eu ainda dou uma olhada no espelho assim, vejo foto e ainda fico meio “nossa, né?, que estranho né?”, o pessoal “nossa, você está magra”. Eu sei que eu estou magra, eu me sinto magra, eu sei, eu vejo pela roupa, foi o meu primeiro 36 que tô vestindo, então, sabe, Pra quem usou 60 a vida toda, quer dizer, 10 anos usando 60, sutiã, roupa... tudo assim muito pequeno ainda tem coisa que eu compro pra minha filha as vezes eu até experimento em mim.

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