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A atenção ao próximo pode mudar vidas

História de: Marly
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/07/2019

Sinopse

Marly realizou seu sonho de infância: ser enfermeira. Depois de formada iniciou seu trabalho em Unidades de Tratamento Intensivo, adultas, pediátricas e neonatais, mas, buscando um novo desafio e considerando o SESI uma boa instituição para trabalhar, tentou uma vaga. Um ano depois foi chamada para integrar a equipe do Projeto ViraVida, onde pôde aprender muito e, inclusive, melhorar como pessoa. Marly conta sobre sua rotina como enfermeira dos jovens do Projeto e sobre sua relação com eles.  

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História completa

Meu nome é Marly, nasci em 1967, em Brasília, Distrito Federal. Minha mãe era do lar e meu pai motorista, tenho três irmãos, um mais velho do que eu e dois mais novos. Minha mãe trabalhava, então nós tínhamos que ficar sós, ficávamos eu e meus três irmãos e nós da idade assim... Em cinco anos minha mãe teve quatro, então nós éramos tudo da mesma idade, e nisso nós ficávamos sós, minha mãe deixava a comida feita e eu era tão pequena que eu tinha que subir num banquinho para poder ligar o fogão para esquentar a comida. 

 

Eu tive uma infância maravilhosa, estudava perto de casa, ficava brincando na rua o tempo todo, quando o sino do colégio batia, nós entrávamos dentro de casa, jogávamos uma água no corpo e íamos pro colégio. Eu jogava bola com os meus irmãos, porque como sou só eu de filha, no meio de três homens, eu jogava bola, soltava pipa, bolinha de gude, só brincadeira de menino mesmo, as minhas bonecas só serviam para eu aplicar injeção, porque elas viviam doentes, desde pequena eu queria trabalhar na área da saúde. 

 

Com quatorze anos, treze anos, mais ou menos, eu conheci meu marido, aí com quatorze anos nós começamos a namorar. E eu o conheci porque ele mudou para a casa vizinha à minha. Aí, com quatorze anos nós começamos a namorar, com quinze eu noivei e casei com dezesseis. E ele é doze anos mais velho do que eu. Os meus pais não queriam, primeiro por eu ser filha única, então era muito protegida, meus irmãos também me protegiam demais. Mas meu casamento foi muito tranquilo, tanto é que nesse mês eu fiz vinte e nove anos de casada, então meu marido é um paizão, muito tranquilo mesmo, acho também que ele tinha que ter muita paciência para me aguentar esse tempo todo. 

 

Eu nunca tinha tido o sonho de ser mãe, mas era o sonho do meu marido ser pai e nós temos dois filhos, o caçula tem vinte e um e a mais velha tem vinte e seis. Eu sou muito amiga dos meus filhos, agora que já os criei, eduquei, sou muito companheira, procuro ser mais amiga deles. Filho é uma dádiva, só quem é mãe mesmo para saber o que é ser mãe

 

Na minha formação, primeiro eu fiz um curso de Habilitação Básica em Saúde, mas era mais para ser atendente em hospital. Depois, trabalhando na Pastoral da Criança, já estou lá há mais de quinze anos, o Governo abriu vagas para dar curso de Auxiliar de Enfermagem, gratuito, mas para pessoas da área, justamente para Habilitação Básica em Saúde, só que eles abriram para gente da área de saúde e eles aceitaram a Pastoral da Criança como sendo área de saúde. Aí eu fiz o auxiliar e depois eu fiz o técnico, que é o complemento. Eu comecei trabalhando, assim de cara, mesmo sem ter experiência alguma, em U.T.I. [Unidade de Tratamento Intensivo] adulto. Depois passei por U.T.I. pediátrica e U.T.I. neonatal. 

 

Um dia a minha sobrinha entrou no site do SESI e viu que tinha aberto um processo seletivo, que tinha só duas vagas né, e como eu não precisaria sair de casa, porque era gratuito, ela falou: “Tia, é tudo no SESI, tudo pelo site, a senhora se inscreve.” Ela me falou o salário, aí eu me inscrevi e continuei tudo e fiz a prova. Mas não passei. Um ano depois me ligaram falando que tinha uma vaga no Projeto ViraVida, então eu fui. Eu gosto de desafio, então eu queria um desafio novo, uma mudança mesmo, porque eu sempre fui só em U.T.I. então eu queria aquele assim, choque, para saber como é que era outra área e também pelo nome SESI, porque o nome SESI tem um status, digamos assim, e pelo nome SESI.

 

Quando eu cheguei aqui no Projeto eu não tinha base nenhuma, que eu não tinha ninguém para me dizer o que tinha que fazer, eu não tinha um telefone para poder chegar e ligar: “Tô precisando de uma consulta.” Eu não tinha base nenhuma, eu tive que construir o técnico de enfermagem dentro do ViraVida. Conforme assim, você vai marcar consulta, você leva para consultório, você marca um exame, você leva para fazer um exame, eu não sabia, não tinha base para começar, então eu tive que começar do zero mesmo, montar todo o técnico de enfermagem dentro do ViraVida, com a ajuda dos colegas, lógico.

 

Aqui nós atendemos, nós temos parceiros em hospital público, que eu também corri atrás para conseguir, parcerias em hospitais públicos, nós temos o SESC também, que nos ajuda com odontologia, clínica e ginecologia também, tem nutricionista, exames laboratoriais, então nós temos uma área muito vasta. A mais procurada é a área de odontologia. Aqui a gente auxilia na parte da saúde e também em ouvir esses jovens, em eles poderem confiar e desabafar com a gente, eu procuro ser essa pessoa para eles. 

 

E o ViraVida trouxe mudanças para a minha vida também. Eu era preconceituosa, do meu jeito, mas eu era, tanto com “homossexualismo”, “lesbianismo”, drogas, adição, no fundo a gente tem aquele de: “Ah, é mais um drogado, é mais um – desculpe a expressão – é mais uma bicha.” Eu era preconceituosa, não a ponto de deixar de falar com a pessoa pela opção sexual dela, por ela mexer com drogas, isso me mudou muito. 

 

Eu hoje não sou e não gosto que as pessoas venham falar comigo de preconceito em relação a isso, eu não gosto, porque eu acho que eles são gente. Porque eu via o lado drogado, o lado homossexual, o lado daquela pessoa que não tem família, e ah, “É um a mais” e hoje não, hoje eu vejo que não é um a mais, é uma pessoa que se você der carinho, se você der atenção, nossa, ela é maravilhosa, uma pessoa que se você sentar para conversar, ela é gente, porque se a gente tá passando na rodoviária e vê uma pessoa caída, um mendigo, digamos assim, que não é o caso daqui, você acha que ele não tem uma vida, que ele não tem sentimentos, você vê um drogado, ele não tem sentimento: “Ai, é um viciado.” Se você parar para pensar, ele teve história de vida anterior, isso eu aprendi muito aqui, esses meninos dão uma lição de vida para a gente, encantadora. Acho que é por isso que eu tenho tanto laço de confiança com eles, por conversar muito com eles.

 

Aqui a gente acompanha a questão das drogas também, mas vai pela confiança. Porque muitos deles dizem assim: “Não uso”, mas não é só da confiança não, desculpe, no decorrer do dia a dia a gente percebe. Mesmo quando eles falam que não, não tô mais usando, a gente percebe, as atitudes deles demonstram e também tem uma coisa, devido a esse laço de confiança entre a gente e os meninos, uns alunos falam com o outro e eles chegam para gente e falam: “Oh, Fulano tá mexendo com coisa errada, Fulano não falou para você, mas vai atrás que ele não tá bem não.” Aí eles mesmos nos procuram. 

 

Às vezes até a pessoa procura a gente: “Oh, eu tô querendo sair das drogas.” ou “Voltei pras drogas e não consigo sair.” Aí eles nos procuram, nós temos a Transformer, que é a clínica lá no Lago Norte e tem a Transformer que é internação; eles têm todas as segunda-feiras atendimento psicológico lá na Transformers clínica e, se necessário, a gente faz a internação deles na chácara.

 

A gente percebe as coisas pelo jeito deles. O jeito deles, eles já chegam assim e de cara você já percebe; de um jeito igual a uma delas, sem citar nomes né, ela chegou para mim, ela tem muita intimidade comigo, eu tinha saído, quando eu cheguei ela tava chorando, aí eu perguntei para ela o que é que era, ela falou: “Eu caí e me machuquei.” Mas só de ela chegar para mim de olho baixo e falar que tinha caído, eu falei: “Não caiu”, a companheira dela havia esfaqueado ela. Aí nisso eu fui almoçar com ela, lá no refeitório, nós sentamos juntas, conversamos, então no conversar ela me contou toda a história, sem perceber, quando foi no outro dia ela me procurou: “Marly, eu menti para você, realmente foi isso, isso e isso que aconteceu.” E eu: “Já sabia.” 

 

Uma história que marcou também, ele não faz mais parte agora do projeto, ele foi desligado, mas ele chegou assim: “Marly, eu tô passando mal.” E de cara eu percebi que não estava, aí eu falei: “Fulano, olha, eu sei que você não está passando mal, você quer conversar?” “Não, eu tô passando mal, tô morrendo, se eu morrer aqui você vai ser culpada.” “Tá bom, vamos conversar?” Levei ele para uma sala reservada, peguei um copo com água e dei para ele, meia hora ele saiu de lá bonzinho; aí assim, para você ver como ele tava precisando, assim, ele tava precisando de atenção, isso me marcou, porque do morrer, com um copo com água que a gente foi conversando, foi bebendo tudinho, em meia hora ele já tava bom, já saiu de lá me agradecendo: “Oh Marly, eu não tava passando mal.” “Eu sabia.” (risos) Então marcou, porque ele ficou até branco de dizer que tava passando mal, chegou ao ponto de vomitar para me dizer que tava passando mal e só de conversar ele saiu muito, muito, muito bem, saiu para cima. Então eu me sinto bem, me marca, eu gosto e eu gosto de conversar.   

 

A importância do Projeto ViraVida na vida desses jovens, digamos assim, que numa escala de um a dez, eu daria vinte. Porque muda a vida deles, o jeito deles, o pensar deles, eu diria que eles têm tudo, tudo o que eles não tinham. Eles têm atendimento médico que eles não têm fora, eles têm o carinho que nós damos, porque a gente trabalha com eles aqui, a gente fica praticamente oito horas com eles, seis horas, então eles se tornam nossa família, se tornam nossos filhos, todos nós, eu falo de confiança, do meu carinho, mas toda a equipe tem essa mesma confiança e esse mesmo carinho por eles. 

 

Para o jovem sair do projeto é quando nós já esgotamos todas, todas, todas e todas as possibilidades, porque se ele disser: “Eu tô saindo porque eu não tenho material para vir.” Material nós já fornecemos. “Tô saindo porque eu moro longe.” “Tô saindo porque eu estou usando drogas.” Aí no caso a gente acompanha, faz o atendimento na Transformer, interna, faz visita, consegue as medicações, se no serviço público não tiver, o ViraVida compra as medicações, então assim, liga para eles, vai na casa, faz visita, conversa com a família, a gente faz de um tudo para eles não saírem, só em último, de último caso mesmo, que eles saem, quando já não tem mais jeito; mas o principal, que eles realmente, depois que eles fazem eles não podem mais ficar, é quando eles agridem alguém dentro do projeto, aí infelizmente o desligamento a gente nem protela, desligamento imediato.  

 

Eu também aprendi muito nesse projeto. Lição de vida deles, a lição de vida deles e de superação deles, com um aprendizado muito grande, porque, igual eu falei anteriormente, eu sempre fui criada, como eu sou filha única, então eu sempre fui criada numa redoma, aí problemas não chegavam a mim, digamos assim, e aqui eu bati de frente com uma realidade que eu não conhecia. Essa realidade deles eu só conhecia em televisão, em Jornal Nacional, telejornal, novelas, eu não achava, não acreditava, que aquilo pudesse existir. Eu não acreditava que um pai estuprasse um filho homem, que um pai estuprasse uma filha, então eu achava que aquilo lá era só ficção, que aquilo ali não existia, aquilo foi um choque, assim, muito grande para mim, bater de frente com isso, e foi até uma superação para mim também, porque eu comecei a ver a realidade da vida, uma realidade que eu não conhecia. Eu queria ver esse projeto crescendo, virando uma política do Governo, crescendo mesmo e virando uma coisa garantida, ampla.  Eu acho o projeto perfeito, só precisaria de mais apoio.

 

Eu pessoalmente, só procuro crescer mais, só crescer mais humana, procurar ser mais humana, porque uma coisa que me mostrou, que me tornou mais humana também, que eu comecei  a trabalhar em U.T.I. que eu vi que a gente não é nada, que de uma hora para outra você cai de cama, você adoece, e você morre e você só vai deixar o que você fez, você não leva nada, perdão, tudo o que você fez aqui, você tem que fazer bem feito, para deixar a sua marca, para quando você sair daqui, pelo menos alguém pensar em você, pensar com carinho e não pensar em você: “A Marly? A Marly morreu e aí?” Então eu quero assim: “Poxa, a Marly partiu dessa, a Marly morreu, mas vai fazer falta.” É isso que eu quero, deixar minha marca aqui, para quando eu sair dessa terra, eu deixar lembranças, boas lembranças. Eu procuro sempre estar... problemas todo mundo tem, mas é que aqui eu não tenho problemas de casa, aqui eu sempre tô de bom humor, de cabeça erguida, aqui eu tô sempre pronta a ajudar, porque ninguém tem nada a ver com meus problemas fora daqui e, igual eu falei para você, eu quero deixar a minha marca e em casa também eu procuro deixar a minha marca, porque eu sou muito bagunceira.

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