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História

A Assistência Social ao som das greves

História de: José Ribeiro do Amaral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Lins. Brincadeiras de rua. Trabalho jovem. Ensino científico. Serviço Social. Assistente Social. Ciências Sociais. Volkswagen. São Paulo. Relação com os trabalhadores. Greves sindicais. Autolatina.

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História completa

 

P/1- Qual o seu nome, local e data de nascimento?

 

R - José Ribeiro do Amaral, nascido em Lins em 27 de maio de 1948.

 

P/1 – Porque tem esse apelido de Neto?

 

R - Meu avô chamava-se José Ribeiro do Amaral, meu pai chamava-se José Ribeiro do Amaral, mas por ocasião do registro, acho que ele esqueceu desse detalhe, e o escrivão também, não acertou e colocou José Ribeiro do Amaral. E a família, apesar de ser só José Ribeiro do Amaral, principalmente da parte da minha mãe, achou que devia ter posto Neto.  Passaram a me chamar de Neto, e esse nome acabou ficando. Tanto é que sou mais conhecido por Neto do que pelo próprio nome. 

 

 

P/1- Neto, o senhor poderia me dizer como é que foi a sua infância?

 

R – Eu vim de uma família em que meu pai era bancário, minha mãe, conheci ainda quando era criança, quando era professora, mas acabou tendo, em função do número de filhos, acabou tendo que optar pelo lar, nós somos em seis. Cinco irmãs e eu, o único homem. Fui criado em Lins, cheguei a concluir o curso universitário e posteriormente vim parar aqui no ABC, na Volkswagen. Em resumo é isso.  

 

P/1 – Como é que eram as brincadeiras na sua época?

 

R – Pique, salva peão, futebol na rua. Um cineminha de vez em quando. Eram brincadeiras que acho que marcaram praticamente a infância de todo o pessoal de pequenas cidades do interior do Estado de São Paulo. 

 

P/1 – Qual foi a primeira memória da escola? Primeira lembrança?

 

R – A minha primeira professora? 

 

P/1- Qual era o nome dela?

 

R - Jessy Martins.

 

P/1- Foi professora de que série?

 

R - Foi do primeiro ano. Foi a professora que mais… talvez pela… como eu era canhoto, todo mundo... Eu percebi que o canhoto, na época, era um tanto quanto rejeitado, pelo preconceito. E a tendência dos professores era forçar o canhoto a escrever com a caneta na mão direita. E essa professora teve uma paciência. Se não me engano, eu era o único da classe e era objeto de gozação da maior parte dos alunos. Mas ela pacientemente soube explicar para os colegas e me dava apoio. Essa foi uma professora que marcou.

 

P/1- Como foi seu desenvolvimento escolar?

 

R - Eu fiz o curso primário. Não posso dizer que tenha sido muito aplicado, principalmente no terceiro ano, e um tanto quanto indisciplinado, mas depois tudo bem. Segui o curso, fiz o primário, na seqüência o ginásio e na época de optar, esse era o curso médio, em fazer o curso técnico ou um curso mais voltado para a área de humanas, a minha opção foi pra área de humanas, contra a opção do meu pai, que queria que eu seguisse a carreira de formação na área de exatas. E a minha mãe queria que eu seguisse a carreira de Magistério. E por ser do contra, resolvi optar por Humanas. Mas, fiz antes o científico, na época era o científico, tinha Química, Física, Inglês, e outras matérias. O curso era mais puxado. Não me dei bem no científico, fiquei só um ano e passei a freqüentar uma área de Humanas realmente, o Normal. Conclui o curso e na seqüência, optei pela área de Serviço Social.

 

P/1- Qual a sua primeira memória dessa escolha pra Serviço Social? O porquê da escolha de Serviço Social?

 

R - Eu tive uma experiência... quando estava cursando, quando estava fazendo o curso Normal exatamente, nós tivemos um seminário sobre Estudos Sociais e debates sociais, que foi coordenado por uma entidade de Belo Horizonte, que não consigo lembrar o nome. Foi um seminário realizado em Lins, e me interessei demais pelo trabalho que eles apresentaram, e logo na seqüência, o coordenador... lembrei, era uma entidade ligada à Igreja Católica - ILADS – Instituto Latino Americano de Direito Social. Logo depois foi oferecida uma bolsa de estudos para um curso de aperfeiçoamento no Chile, e o critério que foi adotado foi um sorteio. Sortearam e, por coincidência eu fazia o curso de Serviço Social, fui sorteado. E não pude ir de imediato, e aí, no segundo sorteio fui contemplado. Acabei não indo porque estava na lista do exército e não consegui a liberação do exército pra poder fazer esse curso de dois anos, coincidindo com o tempo que eu tinha que fazer o exército. Vim do interior, vim aqui, conversei com o comando do exército, mas não me liberaram. Tive que abrir mão do curso. No fim, o colega que no princípio não podia participar do curso, acabou reconsiderando a posição, achou que era uma oportunidade muito boa pra ser desperdiçada, e acabou indo. E eu perdi essa chance. Mas isso me influenciou bastante e eu: “Acho que é por aqui que eu tenho que ir.” Acabei realmente optando por Serviço Social. 

 

P/1- E como é que era a juventude na sua época?

 

R – Lins era uma cidade pacata, digamos assim, apesar de ser o centro estudantil muito interessante. Pelo menos, o era na época em que eu estava lá. Lins é uma cidade que reuniu várias faculdades e tinha uma vida estudantil muito interessante. Havia muito movimento estudantil, muitos eventos para os jovens. Tanto os universitários como o pessoal do colegial. Eu diria que pelo que eu pude presenciar na época, e foi um ótimo período da minha vida. 

 

P/1- Qual era a diversão nessa época?

 

R - Ouvia-se muita música popular brasileira, curtia-se muito reunir o pessoal. O que hoje é pagode, na época seria curtir bossa nova. Tinha ali o Geraldo Vandré, tinha os principais representantes da bossa nova. Qualquer encontro universitário tinha sempre um violão, e passava-se horas e horas discutindo muito reservadamente negócio de política devido à repressão militar. 

 

P/1 – Qual foi seu primeiro emprego?

 

R – Eu trabalhei... Na verdade, o meu primeiro emprego… Eu queria trabalhar quando tinha 13 anos de idade. Cismei de trabalhar. Queria trabalhar pra ter o meu dinheiro próprio e não queria ficar dependendo da família. Saí procurando emprego e depois de um certo tempo acabei conseguindo um emprego que fosse registrado. Fui ser atendente no Mc Donald´s. Acabei ficando dois meses. Isso eu já devia ter uns 13 anos e 10 meses, por aí. Aí acho que meu pai percebeu que eu estava... Quando ele viu que eu estava disposto a trabalhar realmente, deve ter feito contato com alguém e eu fui para uma agência da Ford. Uma agência, uma concessionária Ford precisava de office-boy. Me contrataram, fui lá e fiquei dois anos e dez meses. Fiquei até que a agência fechou. Quando a agência fechou, o proprietário me chamou e falou: “Olha, a agência está fechando, e nós vamos dispensar todos os empregados. O contador vai precisar dar continuidade à documentação, e precisa de um ajudante. Você quer ficar aqui mais algum tempo, mas sem registrar?”; “ Tudo bem”. Não conseguia trabalhar por causa do exército, porque estava na idade de servir, e acabei ficando mais dez meses após o fechamento da agência.  Praticamente, fiquei dois anos e dez meses registrado e depois mais 10 meses não registrado, quando entrei realmente para outras atividades. 

 

P/1- Neto, como foi sua entrada na Volkswagen? Dá pra contar um pouquinho da história pra gente?

 

R – Eu estava trabalhando num consórcio intermunicipal de prefeituras, como assistente social, numa cidade do interior de São Paulo que se chama Paranapanema. Por ocasião dos eventos que nós fizemos lá, tive a oportunidade de convidar um colega que havia se formado antes de mim, lá em Lins também, e que trabalhava também num consórcio, numa entidade mais ou menos parecida com a nossa, naquela região também. Na verdade era em Itapeva, se não me falha a memória. Ele participou do curso e ele havia prestado um concurso na instituição de São Bernardo. Ele se habilitou, passou e quando ele foi sair do consórcio, estava se despedindo e já estava vindo pra São Bernardo, ele passou em Paranapanema: “Olha, estou indo pra Volkswagen.” Contou tudo o que aconteceu, e: “Você tem interesse de algum dia trabalhar na Volkswagen?” Falei: “Bom...” Nessa entidade, eu estava há oito meses sem receber. Como eu estava ligado ao Estado, Prefeituras, uma série de envolvimentos políticos que a entidade tinha, falei: “É lógico, se surgir oportunidade, me avisa”; Passou uns seis meses, mais ou menos, recebi um comunicado que a Volkswagen tinha uma vaga para essa função, que davam preferência para homens e se me interessasse deveria procurar a companhia, entrar em contato com o supervisor. Logo depois fui fazer a seleção, fiquei três dias pra conseguir fazer o teste, mas acabei entrando, em 8 de outubro de 1985. 

 

P/1 – E como é que foi... A Volkswagen foi a primeira empresa privada que você exerceu o cargo na área de Serviço Social, ou você já tinha trabalhado na área de Serviço Social depois de formado?

 

R – Na verdade, eu estava cursando, terminando o quarto ano de Ciências Sociais e tinha uma entidade ligada à Igreja Católica em Lins, que se chama Instituto Paulista de Relações Humanas, IPH como é conhecida. E eles estavam começando, estavam desenvolvendo um trabalho, voltado principalmente para a fixação do homem na zona rural. Essa entidade me convidou para assumir o trabalho, que seria mais um tipo de relações públicas. O que eles queriam, na verdade, é que eu vendesse o produto deles junto às prefeituras, digamos assim. Fizeram o convite, comecei a trabalhar na parte administrativa, mas na primeira experiência que eu tive, na apresentação de um trabalho que estávamos fazendo no Ministério do Interior do Rio de Janeiro, eu senti a importância de você ter a vivência do campo, não pela teoria estudada como teoria, mas vivenciar tudo aquilo que eles pretendiam que se desenvolvesse. Aí eu pedi pra entidade que na primeira oportunidade que tivesse uma vaga no campo, eu gostaria de ter uma experiência no campo realmente. E em questão de um mês depois, surgiu uma chance, no lugar de um colega que estava se desligando da entidade. Era uma entidade particular, aliás, mista: a entidade coordenadora era particular, mas os projetos eram mantidos com recursos da prefeitura e do Estado, e do próprio IPH com serviços organizados que faziam.  Fiquei dez meses, já que dependia de verba do Estado, política do Estado. Daí eu fui pra Paranapanema. De Paranapanema para São Bernardo do Campo. 

 

P/1- E como é que foi a mudança? Saiu de Lins veio pra São Paulo. Você já tinha vindo por aqui?

 

R – Não. Foi um desafio. Foi um desafio. Primeiro porque eu não estava acostumado com grandes cidades. Estava acostumado com interior. Saí de Lins, que é uma cidade de porte médio, digamos assim, fui trabalhar em Araçaí, que é uma cidadezinha bem menor. Paranapanema, bem menor. De repente, você sai de uma cidade que tem cinco mil habitantes e vem parar na Grande São Paulo. É uma diferença bastante... Mas felizmente eu tive apoio, naquele momento, de pessoas que eu já conhecia, tinha feito contato. Isso facilitou um pouquinho, mas foi um desafio. 

 

P/1- Você lembra como é que foi o seu primeiro dia de trabalho na Volkswagen?

 

R – O primeiro dia de trabalho...Veja bem, eu tinha vindo com o colega que tinha me convidado. Na verdade, fiz o contrato dia 8 de outubro e comecei a trabalhar dia 15. Por quê? Porque a fábrica, naquela época, tinha uma política de que quando se abria uma vaga, a área tinha um prazo x pra fazer a admissão. Se não fizesse a admissão, seja qual fosse o motivo, a vaga era cancelada. Era essa a política que a companhia tinha. No momento em que eu fui admitido, começou um processo. Foi numa segunda-feira e o contrato ia ser assinado na quarta-feira, que era a data final pra área definir. Ela tinha que fazer a efetivação. Eu tinha os meus compromissos, porque na cidade em que eu trabalhava, eu respondia tecnicamente. Disse: “Não posso abandonar meu serviço. Está certo que consegui outro muito mais vantajoso, mas eu tenho minha responsabilidade profissional.” Aí começou o impasse com o supervisor da área. Eu falei: “Não. Se é pra eu abandonar simplesmente, eu não venho para cá. Abro mão do emprego da Volkswagen. Perco a oportunidade, mas não venho.” Bom, eles queriam que se chegasse num acordo. Conversa vai, conversa vem, qual foi a solução? Me deram 15 dias. Eu seria registrado naquele dia, mas começaria trabalhar 15 dias depois. Isso equivaleria, teoricamente, à metade do aviso prévio. Então já me deram uma semana de licença remunerada, e eu já fiquei devendo seis dias pra fábrica, pra pagar posteriormente (risos). Desde aquela época, até hoje, estou assim. Trabalhando um pouquinho a mais (risos). Mas o primeiro dia de contato, que foi dia 8, esse dia foi meio tumultuado, porque o pai desse colega que me apresentou, estava passando muito mal. Tanto é que ele veio a falecer à noite. Então, foi um dia meio tumultuado, com o falecimento do pai do colega, a própria chefia pediu que eu acompanhasse os familiares com os colegas, os futuros colegas com os familiares no sepultamento do pai dele. Então foi um negócio não muito...

 

P/1- Você se lembra como foi o estágio em que você se preparou pra vaga da Volkswagen?

 

R – Eu tinha um colega, que foi designado pela chefia, o João, e esse foi o colega que teve a incumbência de me adaptar ao sistema Volkswagen. Um rapaz muito paciente, muito esforçado. Ele praticamente é que começou a me dar todas as orientações, me introduzir na estrutura da companhia. Ele já está aposentado.

 

P/2 – E o que fazia exatamente um assistente social na Volkswagen?

 

R - Naquela época, nós tínhamos atividades...  A área de Serviço Social era dividida em duas áreas: Serviço Social Médico e Serviço Social Trabalho. A área de Serviço Social Médico dava remédio e atendimento pro empregado que necessitasse de atendimento de emergência e junto à rede conveniada. Meu trabalho era mais voltado a dar um acompanhamento junto às prestadoras de serviço. Já o Serviço Social Trabalho, que era a área na qual fiquei vinculado, cuidava das relações de Trabalho-Empresa-Capital. A maior parte do tempo nosso era voltado pra prestar atendimento, assessorar as propostas dos funcionários, gerentes, supervisores, os termos de procedimento da companhia em relação às práticas administrativas relativa à disciplina do pessoal. Então, nós fazíamos um misto. E, além disso, nós fazíamos atendimento social propriamente dito. Então, era comum, por exemplo, no mês de janeiro, um mês onde nós tínhamos as conseqüências da chuva, e infelizmente ocorrem desabamentos, inundações, e coisas dessa natureza, então, o empregado que eventualmente fosse vitimado por essa situação, desabamentos, destelhamentos, desmoronamentos, ia para a companhia e o chefe dele tomava conhecimento, fazendo acionar o assistente social. Nós não saiamos a qualquer momento. Nós tínhamos um calendário de atendimento, além do plantão diário, que passávamos por todos os setores. Ao passar pelos setores, atendia às duas situações. O chefe falava: “Olha tem um empregado que está faltando constantemente”. Então você fazia uma análise do problema disciplinar, e às vezes, muitos desses casos, tinham origem de natureza social. Podia ser uma doença na família. Nós tínhamos que ver se o empregado estava com algum problema e tal. E por outro lado, havia problemas de natureza social, às vezes, meramente disciplinar e o tratamento era disciplinar. Isso se confundia um pouco a cabeça do empregado, porque, “num momento eu vou com você, você me dá apoio, você me ajuda; e, de repente, eu sei que você está participando de um processo de apurar questão de responsabilidade.” Naquela época, o assistente social tinha também essa característica. Cuidava da parte social, propriamente dita, e da parte disciplinar. A partir de 1982, 83, não me recordo bem, mas deve ter sido por aí, foi criado o que hoje é a área de Relações Trabalhistas. Com a criação da área de Relações Trabalhistas, as atividades do assistente social, essa parte disciplinar do assistente social, foi transferida totalmente para Relações Trabalhistas. Como era uma nova atividade, e eles também não estavam preparados para isso, o que se fez? Dividiu-se o Departamento Social. Pegou-se a equipe dos assistentes social e falou: “Bom, esse aqui tem mais jeito pra área social (risos), esse aqui pra parte disciplinar, pra parte trabalhista.” Eram Relações Trabalhistas. Na verdade, na época eu fui convidado justamente pra fazer essa divisão da equipe. Feita a divisão, o pessoal falou: “Você vai coordenar a equipe do Centro Social!”; Eu assumi e nessa fase de transição, eu assumi a coordenação da equipe do Centro Social, enquanto a outra equipe foi para Relações Trabalhistas. 

 

P/2 – Neto, nessa primeira fase, quando ainda estava junto o grupo, que tipo de problemas aconteciam?

 

R - Olha, tudo o que você possa imaginar. Apesar de na cidade você ter situações das mais variadas, em termos de atendimento a empregado, você podia atender desde uma mera situação de empréstimo gerada aí por um desequilíbrio econômico da forma com que esse empregado pudesse fazer qualquer coisa, como problemas realmente decorrentes de quadros mais graves de saúde, que acabasse levando a um desequilíbrio econômico, mas também toda a parte que o empregado tivesse. Mesmo em situações de conflito, como ocorreram nas greves, várias situações nós éramos envolvidos diretamente na análise do caso, e conseguimos digamos assim, salvar vários empregados que num primeiro momento que se pensou que fossem empregados – dentro do conceito da época – problemáticos, começou-se a ver que eram pessoas que tinham uma ideologia, defendiam uma ideologia, e após a análise do caso, junto à área do Serviço social na parte Educador Trabalhista, que era chamado na época, chegava-se a uma conclusão especificamente o empregado não estava agitando, não estava insuflando a massa. Estava defendendo o ponto de vista dele.  Em vários casos a empresa acabou aceitando a posição tanto do Assistente Social quanto da Relação Trabalhista. Há situações em que a empresa, em situações políticas, apesar de ser um bom profissional, apesar da posição dele, acabou em alguns casos, desligando o empregado. Mas a atividade era bastante maleável. Eu lembro que nós tínhamos, por exemplo, hoje não existe mais isso, nós tínhamos o chamado plantão de emergência. Em qualquer situação que estivesse o empregado, existia até um excesso de... Muito assistencialismo. O empregado estava trabalhando, se queimou, foi internado. Tinha que avisar a família. Era o Assistente Social. Só que às vezes, você recebia, por exemplo, o empregado saia às três horas e isso acontecia as duas e meia. Você sabia de um colega de trabalho dele, que mora perto da casa dele, que conhece o caminho às vezes mais fácil, mas a empresa fazia questão. Era uma postura de empresa na época. Fazia questão de marcar presença junto à família do empregado e ia um assistente social para comunicar uma situação dessas.  O empregado estava no hospital, tinha recebido alta às vezes à noite ou falecia. Havia um assistente social encarregado de ir lá na casa comunicar aos familiares, para tomarem alguma providência. Era uma atividade. Era vinculada ao serviço também. Empregados que estavam há 10, 25 anos, a empresa encarregava o assistente social de coordenar o evento comemorativo.  Um profissional da Assistência social em especial. 

 

P/2 – Você se lembra de algum caso específico dentro da empresa? Alguma coisa que tenha ficado marcada...

 

R - Eu lembro, por exemplo, que uma noite eu recebi um comunicado, um chamado de emergência, para avisar a família de um empregado que morava se não me engano em Itaquera, Guaianazes, daquele lado lá, que o empregado tinha sido internado. Tinha sido removido da fábrica para o hospital.  Naquela época, a informação era passada por uma central da própria fábrica, que acionava o “bip” quando recebiam informação, não ligavam para a central, já ligavam direto pra área de Serviço Social e às vezes já passavam o recado. Ele disse: “Vamos cortar a conversa, e resolver logo o problema. Olha, aconteceu isso, o empregado foi removido pro hospital. Cuidado que lá a boca é quente.” Ele usou essa expressão Falei: “Bom, se você já conhece, me arruma alguém que possa dar algumas coordenadas.” Ele falou: “Temos aqui um colega, o Eduardo, que conhece bem a região. Se você falar com o encarregado, quem sabe ele libera pra ir junto.” Falei com o Eduardo, e acertei com ele, e ele falou: “Conheço o lugar e é perigoso.” Falei: “Vamos fazer o seguinte. Vou sair daqui de casa, vou até a fábrica, pego o Eduardo e ele vai comigo.” Eu morava em São Bernardo. Chegamos no local e era um local totalmente escuro, quase sem iluminação, com aquelas casas que tem três endereços: endereço velho, novo e o que quer (risos). E procuramos tudo quanto era número e não conseguimos achar. Um trecho todo escuro, e quando vimos uma luz, verificamos o endereço novamente. No momento em que nós paramos o carro, apareceu não sei de onde, uma viatura da Rota, uma viatura do Tático Móvel, umas três viaturas. Os guardas todos desceram armados, e o guarda que por sinal estava ao meu lado, estava comigo, ao meu lado, a reação natural do camarada é se defender.  A hora que eu percebi que ele ia fazer o gesto, falei: “Vê se abaixa e levanta a mão” (risos); No fim, os guardas conversaram, foram verificando, e falaram: “Olha moço, vê o lugar que o camarada mora, vê o endereço e nós vamos lá.” Era o risco a que a gente estava exposto. Mas a gente tinha por questão de princípio, dar a informação a qualquer custo. E em seguida, acabamos chegando lá, e pra minha surpresa, depois que eu dei o recado pra mulher, a esposa, ela: “Puxa vida. Mais uma vez ele foi internado? Amanhã à tarde eu vou lá.” Cara, eu corri risco, perdi horas e horas de sono, envolvi muitas pessoas e ela: “Mais uma vez? Amanhã vou até lá.” E só à tarde que ela foi saber do marido. Essa era a parte social. A parte trabalhista que envolvia o empregado teve uma história por problemas disciplinares. Era um empregado tipo assim bravo, que queria com recurso da lei, reforçasse o mestre dele, a escalá-lo para o turno noturno. Na verdade, o que estava acontecendo? Ele era recém casado, isso contado pelos colegas, era recém casado, e comentou que ele tinha receio da integridade física da esposa, porque o lugar onde ele morava era um pouco afastado. Ele comentou isso com um colega. E o colega falou assim: “Isso não é problema. Você fica trabalhando e eu vou cuidar da tua esposa” (risos). O sujeito caiu na besteira da comentar isso no setor, e virou alvo de gozação. E ele tanto fez com o mestre, que ele queria realmente que se fosse feita uma escala de revezamento para que ele e esse colega não se encontrassem, para não piorar a situação. No fim acho que o próprio empregado acabou sentindo o clima que ele criou e, não me lembro agora os detalhes, mudou não sei se da fábrica ou de setor.  A gozação foi tanta com os colegas de trabalho, que ficou difícil agora continuar. Uma outra situação foi disciplinar, funcional. Surgiu no setor uma vaga de preparador de máquinas. A área trabalhava com o operador de máquina e o preparador. Esse empregado queria por toda lei que fosse promovido a preparador. Numa fase inicial ele nos procurou fazendo como se fosse uma queixa, pra alegar que estava numa situação injusta. Conversei com o coordenador e ele falou: “Realmente o rapazinho é um excelente operador de máquinas, mas ele não tem o controle emocional pra vir a ser um preparador, porque o operador de máquina tem um relacionamento dele com aquela máquina. Ele opera aquela máquina apenas, enquanto o preparador, ele tem a responsabilidade de ajustar várias máquinas. Então, ele tem contato com vários profissionais. E aí tem que ter também a habilidade de saber lidar com os profissionais. E ele tem dificuldade. É uma pessoa extremamente introvertida”. Voltei a conversar com o rapaz: “A situação é assim, assim...”; Mas ele não acreditava. Achava que estava sendo injusto. “Olha, é uma oportunidade, que se você desperdiçar, não tem retorno.  Se você eventualmente vier a ser promovido, efetivado na função, e se você começa a fazer o trabalho de preparador de máquina, depois pra você não ser efetivado, você vai ficar numa situação difícil. Uma vez efetivado, se você se arrepender, você não pode voltar a ser preparador de máquinas, aliás, operador de máquina. Não dá pra rebaixar o empregado”; “Ah. Não. Eu tenho certeza do que eu dou conta.”; “Bom, não aconselho. Sou contra mas vamos tentar fazer o que você quer”; Não foram seis meses. Ele pediu demissão pra não ser mandado embora. Não agüentou a pressão, que não era tanta. O salário era muito bom, profissionais muito bons, mas ele não agüentou a pressão. 

 

P/2 – Você falou que de 82, 83, se separou a Assistência Social e foi criado o setor das Relações Trabalhistas.  Está relacionado com aquele primeiro sistema de trabalho?

 

R - Foi mais ou menos nessa época que foi criado o sistema de Representação do Empregado. 

 

P/2 - Mudou muito, quer dizer, mudou muito trabalho do Assistente Social, do teu trabalho, de antes da criação do sistema de Representação do Empregado?

 

R – Mudou. Eu diria que, numa fase inicial, hoje eu não estou mais acompanhando de perto o trabalho do assistente social, tanto quanto eu acompanhava antes, mas e eu acho que o sistema de Representação do Empregado, deu um passo muito grande passo na história do trabalhador brasileiro, tanto é que, eu não tenho como provar o que eu vou falar, mas todo mundo sabe, que o que é hoje candidato a Presidente da República, Lula, quando foi informado da criação do sistema de Representação do Empregados da fábrica, eu não me recordo se ele ainda era presidente do Sindicato, ele teria dito que realmente que era um grande passo que a Volkswagen estava dando nas relações empresa, empregados e sindicato. Mas como membro da oposição digamos assim, ele não podia admitir isso publicamente, porque enquanto não tivesse o respaldo do Sindicato, ele teria que ser contra.  E foi o que aconteceu. Porque na fase inicial do sistema de Representação, ele tinha regras que foram estabelecidas pela própria companhia, independente do sindicato.  Ela estabeleceu um perfil de como seria um candidato a representante. Posteriormente, o sistema foi evoluindo, passou a ter o respaldo do Sindicato, começaram as negociações e os problemas foram se resolvendo.  Eu acho que isso realmente provocou o amadurecimento e mudanças substanciais em relação ao que era antes e depois. E hoje, não há como negar que a participação do Sindicato da Representação do Empregado, quer dizer, hoje em dia é vital. 


P/2 – Você podia explicar exatamente como era essa representação?  Como era o perfil desse representante escolhido?

 

R – Na verdade, a empresa...Vocês me pegaram de surpresa. A empresa ao estabelecer a representação, eu lembro que ela colocou alguns critérios que ela julgava que seriam indispensáveis para que o elemento pudesse se candidatar a representante. Creio eu que talvez ela dissesse: “Olha, o empregado tem que ter no mínimo certa idade, no mínimo tantos anos de companhia pra poder conhecer melhor a companhia, x anos na função.” Alguns critérios dessa natureza.  E isso foi contestado pelo sindicato, que não defendia isso.  O sindicato pregava que se era empregado, ele podia ser analfabeto teoricamente, mas tinha essa liberdade.  É nesse sentido que hoje há mais mudanças.  Mas hoje parece que é um processo aceito. Mas quando foi criado esse primeiro sistema de representação, ele falou sobre isso, ele falou que isso seguia de alguma forma o modelo alemão, da Volkswagen alemã. Essas regras para a escolha do candidato eram semelhantes.  Creio que foi exatamente assim. Foi inspirado no modelo alemão. 

 

P/2- Mas quando isso aconteceu, a Volkswagen, tomou a decisão de implantar o sistema de Representação, já havia greves?

 

R - Sim. Nós tivemos em 1978, se não me falha a memória, foi a primeira vez que parou a montadora após o regime militar. Tivemos em 78, 79. 80, se não me engano foi a greve dos 50 dias quando o Lula foi preso. Em 81, eu creio que não teve greve.  Tivemos aquela recessão internacional de petróleo e tudo o mais. 

 

P/2 – O que você lembra dessa primeira greve de 78?

 

R – Olha, eu lembro de uma situação que ocorreu na fábrica: em que a ferramentaria parou. A ferramentaria, na época, o ferramenteiro era o profissional considerado profissional de elite.  Parava a ferramentaria, parava a fábrica. Hoje não. Se a ferramentaria parar, a fábrica não para, e vice e versa.  Hoje o montador de produção faz com facilidade a parte da ferramentaria. O que eu lembro, que nos preocupava uma vez que a nossa atividade estava relacionada à essa parte, era a ocorrência de excessos principalmente por parte dos gestores. Querer usar de uma autoridade num momento de confronto e criar situações incontroláveis. Isso acabou fazendo com que a empresa, inclusive, motivasse uma equipe da área do Serviço Social, e da área de Salários. Eu lembro perfeitamente que a área de Serviço Social, junto com a área de salário foi fundida durante o período de greve. Manteve-se uma escala para evitar que a coisa perdesse o controle.  Inclusive para dar atendimento em situações de emergência por conta desses excessos, tanto da parte de uns como de outros. Da parte de empregado não temos como controlar mesmo. Mas a parte dos gestores poderia evitar que a coisa perdesse o controle, ou pelo menos orientar. 

 

P/2 – E como é que vocês atuavam, vocês do Serviço Social, durante as greves?

 

R – Eu diria que nos primeiros movimentos nós tivemos dificuldades como todos. Mas pela natureza de trabalho que a gente exercia, se não me falha a memória, já na greve de 79 melhorou e de 80 também.  Por que? Porque o empregado ia para a companhia.  Estava trabalhando, mas estava participando do movimento. Se alguma coisa acontecesse na casa dele, esse contato da família do empregado com a fábrica, passou a ser feito pelo Serviço Social. Então, todas as informações caiam lá conosco. Tudo o que acontecia, caia conosco. Então, nós éramos obrigados a passar para o superior, para os parentes, uma informação que chegasse ao comando da greve a informação. Falava: “O empregado tal, aconteceu um acidente e precisa de atendimento com urgência!”; E eles aprovavam. A nossa equipe acabou sendo o canal, acabou sendo Serviço Social.  Isso acabou também ajudando bastante, a ponto de uns anos para cá, pelo menos nos últimos anos, o Serviço Social trabalhava normalmente porque agora os empregados sabem que o patrão nosso não é a empresa.  É prestar serviço para a empresa. Agora nós estamos à disposição do empregado para aquilo que for necessário. 

 

P/2 – E a greve dos 50 dias?

 

R - Essa ai!!! Olha, nesse período de greve, permanecemos de plantão para dar atendimento à emergências. Porque muitos empregados também tendo seus problemas, procuravam a companhia, mesmo estando em greve.  Você tinha aquele que estava em greve, que era o grevista consciente, e tinha aquele que estava em greve porque estava sendo impedido de exercer a função. E tanto com um quanto com outro, os problemas aconteciam e eles acabavam recorrendo à companhia pedindo apoio. Teve uma época, um movimento de apoio aos grevistas, fundo de greve, campanha incitados pelo Sindicato, pela Igreja. Mas mesmo assim o pessoal acabava vindo até a portaria. Então nossa posição era estar aqui e dar atendimento para eles.

 

P/2 – Você lembra de alguma história que tenha acontecido durante essa greve?

 

R – Tem tanta história... Mas não pode… (risos).

 

P/2 - Daqui a pouco ele lembra (risos).

 

R – Tem muita coisa que não dá. Fica pra próxima (risos)!

 

P/1- Neto, quando foi a primeira vez que você ouviu falar da Autolatina?

 

R - 1986 acho.  Porque a Autolatina foi constituída oficialmente dia 1º de julho de 1987, e a dissolução em 30 de novembro de 1995. Eu creio que em 86 ou 85, começou a se ouvir falar em Autolatina. 

 

P/1- O que modificou no Serviço Social da empresa, com a Autolatina?

R - Nessa fase, eu senti que a empresa, a atividade do Serviço Social na Ford, era um trabalho muito mal organizado. Tanto é que na época da Autolatina, uma das atividades primeiro terceirizadas foi a do Serviço Social.

 

P/2- Terceirizadas como?

 

R – Deixando de ser empregados, os empregados da seção. Os demais empregados foram mandados embora, e contratados por terceiros.  Não mais como empregados da companhia.  Era uma atividade secundária. 

 

P/2 – Eu queria voltar um pouquinho. Você tinha falado no primeiro sistema… (risos). Eu pergunto o seguinte, Neto: você está colocando uma posição muito clara do Assistente Social na estrutura Volkswagen.  E que a Assistência Social na Ford tinha outro lugar. E essa posição dos mediadores, de alguma forma, entre a família, entre o mundo social? Isso acontece ainda (risos)? Você vai falar?

 

R - Pelo menos eu prometo: vou pensar (risos).

 

P/2- Eu queria que você pensasse aqui, o que mudou no papel do assistente social antes e depois da criação das comissões de fábrica? O que aconteceu com esse Assistente Social que existia antes? Quando você entrou, não existia nenhum sistema de representação?

 

R – Não. 

 

P/2 – E isso foi criado no começo dos anos 80 A impressão que eu tenho, é que mudou muito esse lugar do Assistente Social, e é como você falou: porque a empresa também mudou. 

 

R - Veja bem.  Eu diria que de certa forma, o representante passou a ocupar o papel que até então era feito pelo Serviço Social. Por que, como é que o sistema funcionava na época? Você tinha uma ocorrência de natureza disciplinar. Na estrutura que tínhamos naquela época...

 

P/2- Você não me contou nenhuma ainda. Eu não sei o que é?

 

R - (risos) Vamos supor que o empregado fosse surpreendido, digamos que tivesse havido uma briga no setor, por um motivo qualquer. De acordo com a política do sistema da época, os empregados envolvidos, o encarregado da área, o feitor, na época era mestre ou feitor, ou chefe de seção, que eram os títulos que se davam aos superiores hierárquicos, deviam suspender o trabalho do empregado, encaminhá-los para uma área que na época chamava-se SADD - Serviço de Apurações e Defesa Disciplinar. Essa área é que ia fazer a investigação dos fatos. Documentar o fato. Chamava lá o primeiro envolvido, o acusado, o acusador, as testemunhas. “Por quê você fez isso?” Chamava: “Aconteceu isso.” Versão da Testemunha 1, versão da testemunha 2, etc. Era um processo, como se fosse um processo na delegacia.  E os empregados eram suspensos. Esse processo era encaminhado para o Serviço de Orientação Trabalhista.  Era uma atividade ligada à área do Serviço Social.  Departamento Social que chamava.  O Serviço de Orientação Trabalhista tinha os advogados e cabia a eles o quê? Eles organizavam a ocorrência, do ponto de vista legal.  Aqui, o camarada cometeu furto. Aqui ele cometeu agressão. E faz o enquadramento basicamente à luz dos artigos da CLT. Faz o enquadramento legal. Isso era o papel dele, aparentemente simples. Agora, o que cabia ao Serviço Social? Analisar o caso, analisar as variáveis que interferiram no caso, analisar os antecedentes do funcionário, todos os fatos circunstanciais que podem ter contribuído para a ocorrência daquele fato. Analisar, tomar uma decisão ou chegar a um consenso em nível do proposto pelo responsável pela área, e depois negociar, vamos dizer, uma posição, justamente de acordo com a lei trabalhista. E daí saía uma decisão. Isso na parte disciplinar. Então, não havia intermediário. Não havia ninguém mais no meio da história. Então, você tinha que fazer o papel, eu diria assim, teria que ser o mais justo possível. Porque o empregado, a quem o empregado ia recorrer? O advogado trabalhista, aparentemente, fazia o enquadramento legal de forma simples.  Agora, levar em conta todas as considerações, todos os envolvimentos, essa era análise que nós fazíamos no setor. Com a criação da Representação do Empregado, no que tange a essa parte, a esses casos individuais, vamos dizer assim, esse papel de certa forma, passou para eles. A Representação começou a chamar pra si o papel de defensor do empregado.  É lógico que a Representação não se ateve a isso.  Não cabe a ela ficar mais preocupada com situações individuais. Tem que ver as situações do coletivo e procurar resolver. Mas no primeiro momento, essa foi a tendência da Representação: ficava discutindo casinhos. Hoje, os próprios representantes têm outra visão.  Lógico que não deixa de defender os casos individuais, mas a preocupação é muito mais de situações coletivas. 

 

P/2 - E porque você acha que aconteceu isso no primeiro momento? Por causa dos próprios... 

 

R - No início era uma situação nova. Tudo era uma forma também do representante procurar marcar presença junto ao seu eleitorado, entre aspas. Então começavam a defender o caso do José, o caso do João. Pra ele começar a marcar presença, se consolidar, atendendo casos individuais.  E com o tempo, nós percebemos que realmente o foco deixou de ser a preocupação com os casos individuais, passando para os casos coletivos: “Vamos ver a situação geral aqui da área e vamos negociar com a companhia, uma situação, ou nos organizar, se for o caso, nessa área, e não ficar com preocupação com os casos individuais.”

 

P/2 – E como era o relacionamento entre os Assistentes sociais e os representantes?

 

R – Bom. É lógico, às vezes, você via em diversas situações individuais, que nem sempre o que eles queriam era possível. Você estava sujeito a alguma divergência, como tem até hoje. Nem toda a reivindicação da Representação, a empresa vai atender. Sempre, você pode ter um confronto. Isso não significa também que não possa haver represálias. Faz parte do sistema. 

 

P/2 – E por que você acha que foi criada essa nova seção de Relações Trabalhistas?

 

R - Eu acho que era uma tendência que já estava em amadurecimento nas relações da Empresa – Capital – Trabalho. Havia necessidade. Tanto é que eu creio que a Volkswagen, posso estar enganado, mas creio que a Volkswagen foi a pioneira realmente nisso aí.  E aí, as outras empresas começaram a seguir o exemplo. 

 

P/2- E esse primeiro sistema de Representação, no que ele era diferente da primeira Comissão de Fábrica? Aquela que foi apoiada pelo sindicato?

 

R – Primeiro que não havia apoio do sindicato. Formal. Tanto é que no primeiro momento, ele foi rejeitado, uma vez que o sistema foi concebido sem o beneplácito, vamos dizer assim, o aval do sindicato. Colocou-se inclusive numa posição de que a empresa iria manipular. E realmente manipularam os próprios empregados e aqueles que viessem a ser indicados. E daí, talvez a crítica que se fez em relação ao sistema, da forma como ele foi concebido, mas talvez reconhecer que era realmente um avanço, começaram os ajustes naturais. O sindicato acabou se aproximando e conseguindo algumas concessões da companhia, ou justificando pretensões. A empresa também acabou aceitando algumas sugestões e algumas alterações e o sistema hoje tem funcionado a contento.

 

P/2- Você não foi pra Relações Trabalhistas?

 

R – Não. 

 

P/2 – Quem foi?

 

R - A equipe, na época, se me recordo bem, eram 12 ou 14 pessoas. A metade da equipe foi pra lá e a metade foi pra Assistência Social. 

 

P/2- E foi você quem fez a divisão?

 

R – Eu ajudei a fazer a escolha da equipe (risos).

 

P/2- Como é que foi escolhendo as pessoas: você vem pra cá, você vai pra lá... Que critério?

 

R – Em função exatamente das características pessoais. Eu tinha colega na equipe que, por exemplo, eu sabia, trabalhei com ele muito tempo, que era aquele que não gostava da parte trabalhista. Fazia porque não havia outra função. Gostava de fazer relação entre os familiares, se sentia muito melhor, se sentia muito melhor de estar no palco.  Sentia-se muito melhor, se estivesse numa sala com um casal, tentando superar o desentendimento familiar ou ajustando uma relação familiar, do que sentado com empregado pra superar um problema de desempenho funcional, de baixo desempenho, vamos dizer assim.  Tentei identificar os colegas, junto com a supervisora da época: “Aquele tem mais jeito pra área social. Aquele...” (risos)

 

P/2 – Você não vai lembrar de nenhuma história dessas greves?

 

R – Não. Eu lembro, mas não posso falar. 

 

P/2- Ah. Vai!!!

 

R - A que eu vou falar não vai gravar não.  Eu não autorizo.

 

P/2- Espera aí. Vamos negociar. Eu iria pra Relações Trabalhistas. Vamos negociar.

 

R - Eu tenho muita coisa. 

 

P/2 – Não. Escolhe uma história light. Não tem problema (risos). Fala assim: por exemplo... Supondo que...(risos) Não tem problema. Já faz tanto tempo isso.  Pensa numa. 

 

R - Eu fui, por exemplo, o profissional que respondeu ao primeiro processo no Conselho Regional, por terem me acusado de jogar o carro sobre os piquetes. O que é mentira. Eu disse que nós tivemos feito uma escala. A equipe ficou dividida e eu fui designado pra trabalhar à noite.  Eu estava chegando à noite, e a hora que eu estava chegando na portaria da fábrica, tinha o pelotão de choque lá na portaria e um grupo de piqueteiros que estava ali no portão da fábrica.  Eu vinha com meu carro bem devagarzinho. Quando eu percebi, eu vinha devagar, mas não parei o carro, a pessoa que estava liderando o piquete, era um conhecido meu, que era o professor do Centro de Formação Profissional da escola. Numa fase inicial, atendi sua formação profissional. Então eu conheci bem. O cara, hoje professor, tinha sido mandado embora por justa causa. Quando eu entrei no raio de iluminação dos holofotes que estavam na fábrica, ele percebeu que era eu que estava no carro.  Então ele deu uma ordem para os piqueteiros: “Não deixa o carro passar, não deixa esse cara passar.” Os caras me cercaram e começaram a balançar o carro. Falei: “Pô, vão rachar esse carro!!”. Nesse momento, a pessoa que estava comandando o pelotão de choque percebeu a movimentação e eles vieram em punho e abriram. Eu continuei andando tranqüilo. O pessoal recuou. Não estava naquela fase de confronto, como chegou em alguns momentos.  Só que esse camarada, o que ele fez? Ele abriu um processo no Conselho Regional de Assistência Social, alegando que eu joguei meu carro pra cima dos piqueteiros. O processo foi instaurado, fui a julgamento, só que no fim não deu em nada.  Não tinha prova nenhuma.  Tudo fantasia do cara.  Eu não joguei o carro e tal: “Se eu joguei, alguém foi a vítima. Quem são as vítimas?” Foi uma situação altamente estressante. 

 

P/2 – Isso foi quando?

 

R – Foi na greve de 50 dias. 

 

P/2- E nesse período de graves, desde 78, qual você acha que foi o pior momento? 

 

R – A ferramentaria parou à meia noite de alguma data. Eles param. E daí pra frente, não se trabalha mais. 

 

P/2 – E aí, o que foi que aconteceu?

 

R – Parou. Parou. 

 

P/2 – Eu tinha pedido pra você qual você acha que foi o pior momento nesses anos de greve. 

 

R - Eu acho que o pior momento histórico do movimento grevista foi a prisão dos líderes do Sindicato, quando Lula foi preso junto com vários outros dirigentes sindicais, na ocasião. E o preço disso é que muitos empregados, na época, acabaram perdendo o emprego, pelo fato de serem ativistas sindicais. O curioso é que o próprio governo acabou anistiando esse pessoal e muitos deles têm uma aposentadoria muito maior do que aqueles que ficaram trabalhando normalmente (risos). Um contra-senso, mas uma realidade. O próprio Lula foi anistiado e a aposentadoria que ele recebe como anistiado é bem maior do que um cidadão normal. Não sei quanto.

 

P/2 - Você chegou a participar diretamente de alguma negociação ou não?

 

R – Não. 

 

P/2 - Nem antes? Quando você estava nas Relações Trabalhistas?

 

R – Não.

 

P/2- E então, o que você fazia durante as greves?

 

R - Durante as greves, o trabalho nosso, pela natureza do serviço, sempre estivemos na fábrica. Mesmo nos momentos mais difíceis, com a fábrica vazia, estávamos presentes, porque nós éramos acionados realmente, tanto pelo empregado como pela família do empregado. Num momento inicial tivemos dificuldades da parte de alguns ativistas, vamos dizer. Mas com o tempo, o próprio pessoal reconheceu a necessidade desse trabalho e acabou, digamos assim, deixando de nos importunar. Deixaram que a gente ficasse lá para atender o pessoal, porque sabiam da natureza do serviço que nós prestávamos para os empregados.  Era um trabalho especial. Era trabalho de relacionamento e, é lógico, que num momento de greve é meio difícil você administrar um caso desses. Mas atendimentos emergenciais a gente prestava, como casos de saúde. 

 

P/1- Você nunca foi impedido de entrar na fábrica?

 

R – Cheguei a ter dificuldade, como esse exemplo que eu dei. Mas não me lembro de ter realmente deixado de trabalhar, mesmo em situações mais críticas.  A gente que tem um certo nível, contatos dentro da fábrica, tem dificuldade em aceitar as coisas. Agora imagine a gente conversar e ter aquele contato com um montador, um prático de produção, que numa situação de emergência, ele iria contra um cara de suporte que ele poderia recorrer para poder ajudá-lo. 

 

P/ 1 – Neto, essa de 78, foi a primeira greve na Volkswagen? Você poderia falar pra gente um pouquinho desse momento? Como foi? Como era a reação? Como vocês trabalharam a greve, essa primeira greve?

 

R - Olha, na parte da Assistência Social, a gente sentia realmente que estava havendo uma mudança na mentalidade do operariado. Cientificamente, havia um certo conformismo com a postura política, não digo com o regime, mas como momento político, e a paralisação da fábrica foi, me parece, uma estratégia adotada naquele momento pelo sindicato, para chamar a atenção do empresariado, usando a fábrica, a Volkswagen em si, a estratégia da fábrica, em função exatamente da repercussão que eles sabiam que isso traria.  Nesse ponto, eu acho que a estratégia adotada pelos dirigentes sindicais da época, acabou definitivamente com isso. Tanto é que com a paralisação da Volkswagen, depois outras montadoras acabaram parando. Lógico, cada uma com suas características.  Havia, eu não me lembro bem, um clima latente de uma certa insatisfação em relação à política salarial, principalmente. O arrocho salarial pelo qual nós estávamos passando. 

 

P/2- Você lembra qual era a reivindicação?

 

R - Era a reposição salarial.  Era reposição salarial.  Agora, exatamente eu não me lembro.  Eu acredito que aquele momento já foi uma somatória. Agora, é uma coisa interessante. Se, de um lado você vê a evolução das conquistas sociais, vamos dizer, o que se conseguiu ao longo desses anos, isso acabou de certa forma também tendo reflexo. A própria evasão de mão-de-obra do ABC.  E a política salarial que se pratica numa Fiat, comparada com a nossa, o empregado vai ganhar a metade do que ganha aqui, para as mesmas funções. As chamadas cláusulas sociais foram conquistas conseguidas ao longo do tempo. Se você analisar do ponto de vista, não digo tanto do grande empresário, das grandes montadoras, isso onera para o patrão e isso tem contribuído para essa evasão de mão-de-obra que nós estamos tendo. 

 

P/1- E o que você fez nesse período da Autolatina, Neto? 

 

R - No período da Autolatina, que foi criada em 85, eu continuei respondendo pela área do Serviço Social, com uma equipe muito diminuta em relação ao trabalho que precisaríamos fazer, em relação ao volume da fábrica. Era uma equipe muito pequena e não se podia fazer grandes coisas. Por volta de 88, a companhia implantou uma nova atividade que se chamava Relações do Empregado Mensalista, e eu comecei a assumir as duas atividades: supervisor do Serviço Social e representante nas Relações do Empregado Mensalista.  Essa nova área cuidava de problemas disciplinares especificamente, envolvendo executivos e os mensalistas de um modo geral.  As duas atividades, pela própria natureza, são atividades que absorvem tempo, porque é atendimento de salários e a análise de casos individuais. Isso ficou inviável para mim e, na época, eu procurei o gerente, o Dorival e falei: “Me manda embora, estou pedindo a conta, que eu vou ficar louco aqui”; “Não, você fica aqui, você saí do Social e fica só com essa área de Relações do Empregado Mensalista”. Eu acabei ficando lá até 96, quando já houve a dissolução da Autolatina e acabei assumindo a área onde estou agora. E ao longo desse período todo, graças a esse tipo de serviço, onde você tem contato com pessoas de todos os níveis, que eu acabei ficando bastante conhecido na fábrica (risos). Por causa disso. 

 

P/2 – Você chegou a até o quê? Você chegou a ter relacionamento com assistentes sociais da Ford ou nem existia Assistência Social na Ford. 

 

R – Tinha, mas muito pouco. Eu não tinha contato com eles lá. 

 

P/2- E tinha só uma função pequena?

 

R – Não. Veja bem... Nós tínhamos um trabalho de, por exemplo, na área social nós tínhamos um programa de apoio aos empregados com problemas de alcoolismo. Nesse período, demos continuidade ao programa de homenagem por tempo de serviço, com empregados que completam 10, 25, 30 anos de companhia. Tivemos “estagiário especial”, que é um programa voltado para atender portadores de deficiências que eram encaminhados pela VAP. Tínhamos um convênio com a VAP nesse sentido. Alguns casos de atendimentos individuais. Os atendimentos econômicos de um modo geral, enfim, foi dado continuidade. Nessa época o Social acumulou também, temporariamente, o que é hoje atividade específica, que é o Posto Prisma, através do qual nós prestamos atendimento com os empregados em termos de convênio, na parte relativa à aposentadoria. Esse processo era feito também no Social e houve uma certa distorção nas atividades e por isso nós ficamos um pouco limitados.  Hoje, na empresa, as atividades foram realocadas, vamos dizer. O Posto Prisma, por sinal, estou com agora com a documentação, estou assumindo o Posto Prisma. O Serviço Social teve suas atividades específicas novamente. 

 

P/2- E quando foi desfeita a fusão?

 

R – Nessa época, o serviço já era todo terceirizado. Hoje, a coordenação de todas as atividades do Serviço Social está com uma empresa externa, contratada. Que é a Maria Teresa. Maria Teresa trabalhou, foi minha contemporânea, eu entrei em 78 e ela deve ter entrado em 79, por aí. Aliás, casamos no mesmo dia. Fizemos a despedida de solteiro no mesmo dia. Hoje ela é a coordenadora. Ela é responsável por essa empresa, ela é que faz a prestação de serviço, a equipe dela é que faz serviços para a companhia. 

 

P/1- Neto, o que mudou com a experiência da Autolatina com a Volkswagen? Em termos do social, da administração?

 

R - Acho que houve realmente uma mudança de cultura.  Eu diria que a cultura alemã, talvez o alemão, por ter sofrido duas grandes guerras, ele tem uma preocupação social muito maior que o americano. Isso eu senti muito. A companhia tinha... Agora voltando um pouquinho, só para ilustrar o dado. Nessa época, na época que antecedeu a Autolatina, como reflexo exatamente de uma conversa que teve, ou uma afirmativa que Dom Cláudio Humes, hoje cardeal-arcebispo, naquela época era bispo de Santo André e no decorrer das greves era bispo de São Bernardo, ele fez uma crítica. Eu não vi a crítica, ouvi comentários na época. Ele fez alusão a que os empregados das montadoras e demais pessoas da Volkswagen ganhavam muito mal, tanto é que moravam em barracos. Que se você fosse na periferia você via isso. Os barracos que tinham empregados da empresa ou qualquer coisa assim.  Fez mais ou menos uma colocação nesse sentido. Eu não vi, como eu disse, o depoimento que ele deu, eu ouvi o comentário feito. Isso chamou a atenção do Sr Sauer, presidente da companhia, e ele pediu que fizéssemos um levantamento, notificássemos. Ele queria saber se a crítica do bispo era procedente.  E realmente nós fizemos um levantamento a toque de caixa, vamos dizer assim, um tanto quanto corrido, e vimos que um número razoável de empregados realmente morava em condições muito precárias. Nessa época, desenvolvemos um projeto que se denominou Projeto Mutirão. Esse projeto trabalhava como? Identificando os empregados que eram proprietários de terrenos e gostariam de construir, E fizemos um trabalho. Nós levantamos, nesse caso foi de Ribeirão Pires, Jardim Caçula, quais os empregados que moravam nessa área. Verificamos os empregados, procuramos saber, entrevistamos os empregados. Isso é um exemplo hipotético: em Caçula, nós temos, digamos 30 empregados, dos quais 20 são proprietários de terrenos. E desses proprietários de terrenos, 15 ainda não construíram.  Então reunimos esse pessoal, fizemos uma avaliação também, profissional, junto à área funcional pra saber qual era o comportamento desse empregado. Então: “Olha, fulano, sicrano e beltrano são realmente ótimos empregados do setor, tem interesse em dar todo o apoio, tem interesse em participar, a família do empregado tem interesse em participar”; Começamos a formar grupos e começou-se como se fosse um consórcio. Na verdade, o compromisso de trabalho que nós estávamos estimulando tinha o seguinte sentido: estamos aqui cinco pessoas, vocês cinco são proprietários de imóveis e tem interesse em ter casa própria; a Volkswagen vai financiar a casa pra vocês; o compromisso de vocês é construir a casa; nós vamos dar a orientação, o Serviço Social e o serviço de Engenharia da companhia, área que estava sendo solicitada.  Isso foi feito durante vários anos: Política Volkswagen, política alemã. Com o advento da Ford, isso foi uma das primeiras coisas que acabaram. Tivemos também um Coral. Isso também eu coordenei. Em 84, a empresa estimulou muito… Em 83, por aí, a empresa estimulou muito as formações de ciclos de controle de qualidade de serviços. E pediu várias sugestões, para tentar estimular o pessoal a participar da solução de problemas, da melhoria das condições de vida, e assim por diante.  E entre as idéias que surgiram, alguém lá sugeriu que a empresa apoiasse um coral, um grupo de teatro, coisas assim, dessa natureza.  No fim, o então supervisor da época, o gerente da época, achou que como era atividade de natureza social, acabou caindo no Social. Tentou-se levar isso para o clube, fazer isso no clube, mas por questões diversas não deu certo. Então, ele me convidou: “Você não quer assumir essas atividades?” Então começamos a fazer um trabalho, com empregados que gostavam de música, sem haver a preocupação se a música era erudita ou popular, ou o quê seja. O importante era gostar de música. Qual a música que você gostaria de cantar? Vamos ver o que se pode fazer. Arrumamos um colega, que era mórmon, que tem formação em música, gostava também e começou a participar do grupo.  Dispôs-se a reger o grupo e começamos a formar um Coral. Esse Coral foi de 94, acho que até 98. Fizemos apresentações no Palácio Nove de Julho, TV Cultura e num monte de eventos. Aí não era atividade. Apesar de estar no Serviço Social, ficou como atividade à parte. Isso marcou muito. Pelo menos pra mim, marcou muito. Me deixou bastante marcada essa fase.  Cinco anos. Acabou com a Autolatina.  Não havia um interesse em dar continuidade. Enfim, você vê que são culturas bem diferentes.

 

P/2- Neto, a gente tem que passar para o último bloco e eu queria te perguntar se você não lembrou de nenhuma história (risos) que você queira contar… O último bloco é rapidinho e é assim: na sua opinião, qual é o carro símbolo da Volkswagen? Você pode falar também dos carros que você já teve. 

 

R - Volkswagen é Volkswagen. É o Fusca mesmo.  Não acho outro. Acho difícil… Tanto é que foi o único carro que morreu e foi ressuscitado. Aliás, pra fabricar esse carro, não sei se os colegas comentaram, pra poder atender um pedido do Itamar, a fábrica precisou recontratar por questão de prazo, de time, até, vários ex-profissionais que participaram da produção do Gol, aliás, do Fusca, eles foram recontratados exatamente pra poder reativar a linha do Fusquinha.  Parece que não foi o êxito esperado (risos). Não deu o resultado esperado. Tanto é que o sucessor dele é o besouro famoso, que está sendo produzido no México, todo reestilizado. 

 

P/2- E você teve um Fusca?

 

R – Tive. 

 

P/2- Qual foi seu primeiro carro?

 

R – Um Fusca (risos). Isso foi em 70... eu comprei um Fusquinha acho que 68. Depois, em 72, começo de 73, eu estava com um Fusquinha novo. Realmente meu primeiro carro foi um Fusca. 

 

P/2- E depois do Fusca?

 

R – Depois tive outros carros, Passat, todos. Sempre fui fiel à marca. Sou até hoje. 

 

P/2- Neto, nesses seus 25 anos de Volkswagen, se você tivesse que escolher um momento que seria o mais significativo? Qual seria?

 

R - O princípio. A minha admissão. Aliás, o processo de admissão foi um impacto. Uma coisa curiosa. 

 

P/2- Você imaginava um dia trabalhar na Volkswagen?

 

R – Não. 

 

P/2 – E entrar naquela coisa gigantesca?

 

R - Não. Nunca imaginei. Foi uma aventura.

 

P/1- Nesse período que você está na Volkswagen, tem alguma coisa na história da empresa que tenha te chamado mais a atenção? Que tenha te marcado? Um fato ou uma história da empresa.

 

R - Pela natureza do trabalho que a gente fazia..., você tem, por exemplo, a homenagem por tempo de serviço. Como eu coordenei durante algum tempo esse tipo de programa, eu tive a oportunidade de conversar com um monte de empregados. Ouvi um monte de depoimentos. São tantos os fatos que ocorreram... Vou dizer, eu ouvi tantas histórias da fábrica, talvez pela natureza do serviço, principalmente quando eu estava no Serviço Social e acompanhava programas, ou mesmo antes quando eu participava também esporadicamente, isso acaba de certa forma... As greves, da forma que ocorreram no passado. Em 80, a greve de 50 dias, isso marcou bastante a minha mente, pelo drama que você vê. Você via empregados chorarem, empregados que foram presos, Isso me marcou demais. Houve várias situações, casos sociais, casos individuais que se presenciou ou teve que participar, avisar a família, por força da atividade. São coisas que marcaram aquele momento.  Você por exemplo... para ilustrar: eu estava de plantão no dia em que houve uma tempestade no ABC, ruiu um prédio, uma obra recém construída do Volkswagen Clube, ruiu a parede, e tivemos um funcionário que faleceu.  Teve muitas vítimas. Mas eu tive a incumbência de avisar a família que falecera o rapaz, de 19, 20 anos. É uma situação... Já tive antes situações, casos sociais que eu acompanhei por conta do Serviço Social, de empregado que já estava quase cometendo suicídio, desespero por perder o emprego e não poder ficar na companhia.  São muitas situações. É muita coisa pra… Tem que ter calma pra lembrar.  

 

P/2- E na sua opinião, Neto, qual você acha que é a importância de resgatar os 50 anos da Volkswagen no Brasil?

 

R – Bom, eu sou um indivíduo bastante conservador. Eu acho que nós devemos preservar essa história realmente. Seja como cidadãos, seja como empregados. E essa iniciativa da companhia, acho que está contribuindo não só para a própria companhia, para a própria história do país, a história da indústria automobilística nacional. É muito importante. 

 

P/2- E você acha que o Brasil seria diferente se a Volkswagen não tivesse chegado aqui?

 

R - Eu creio que sim. Pelo que ela significou na história, pelo que ela influenciou, pela política também de protecionismo que teve durante vários anos. Mas, se ela não tivesse chegado antes, na época JK, muita coisa teria mudado. De qualquer forma, eu acho que ela foi um marco significativo realmente na história, não apenas em São Bernardo e em São Paulo, mas na história da indústria automobilística brasileira.

 

P/1 – O que você achou de ter participado desse projeto 50 anos da Volkswagen no Brasil?

 

R - Eu me sinto lisonjeado, de entre os milhares que passaram por lá... Empregados, eu calculo, que foram mais de 200 mil que passaram. 200 mil, nem tanto, mas 170 mil empregados, pessoas que tiveram vínculo empregatício com a companhia, você estar entre eles e ser convidado, é motivo de orgulho. Não obstante eu achar que ainda sou novo, mas eu acho que alguma coisa eu pude fazer pra companhia, com certeza. 

 

P/1- O Museu da Pessoa e a Volkswagen agradecem. 

 

R – Eu que fico grato. Parabéns para a companhia pelos seus 50 anos e pelo trabalho que vocês estão desenvolvendo. 

 

P/2 – Obrigada. 






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