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História

A arte do papel

História de: Leila Hiromi Nishi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/09/2013

Sinopse

Leila nasceu no Japão, mas é filha de brasileiros, descendentes de japoneses. Em seu depoimento lembra a infância em Tóquio, onde morava com a família nos fundos da loja de brinquedos de seu avô paterno. Fala sobre a vinda da família para o Brasil, indo morar primeiro no interior do Paraná e depois em Guarulhos. Conta com desde muito cedo se interessou pelo desenho, tendo escolhido o curso de Arquitetura. Fala sobre os trabalhos que fez como sócia de um escritório, sendo uma das pioneiras da paper art no Brasil.

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História completa

Eu nasci em Tóquio, no Japão, em 7 de abril de 1955. Meu pai chamava-se Sukehiro Nishi e minha mãe, Fumiko Hara Nishi. Meus avós vieram para o Brasil como imigrantes e eles foram viver em Presidente Prudente. Eles tiveram o meu pai. Nessa mesma cidade os meus avós fundaram uma escola e um internato para orientais, para japoneses. E nesse internato, a família da minha mãe colocou todos os filhos para estudarem e foi assim que a minha mãe conheceu o meu pai. Cresceram, depois se casaram e eles resolveram retornar ao Japão, a família toda. O meu avô, os dois, eram professores, educadores no Japão. O meu avô era uma pessoa muito aventureira. Teve um movimento, uma propaganda muito grande a respeito do Brasil no Japão e muitos agricultores que estavam ruins de vida, todos eles resolveram vir para o Brasil. Eles foram trabalhar numa fazenda e eles realmente não conseguiam trabalhar na lavoura. Começaram a dar aula de japonês, na comunidade japonesa no interior, em Presidente Prudente. Ele voltou para o Japão porque queria saber como estaria o Japão depois da guerra. Ficou em Tóquio, com a minha avó, e montou uma loja de brinquedos. Depois de dois anos, meu pai, casado já com a minha mãe foram de lua de mel e também resolveram ficar. Logo depois a minha mãe ficou grávida e eu nasci. E eu vivi ali, no meio dos brinquedos, desde quando era criança. Os brinquedos japoneses eram o top, naquela época já tinha um aviãozinho que você controlava com um controlezinho, ele saía andando, virava à direita, virava esquerda, umas bonecas que andavam, você ajudando, segurando o ombro delas e empurrando, elas andavam. Quando a gente veio para o Brasil, eu vim com seis anos, eles trouxeram muitos brinquedos para cá e as crianças aqui ficavam malucas com os brinquedos. O meu avô descobriu que ele tinha câncer e quis voltar para cá e morrer no Brasil. Todo mundo fez as malas e voltamos para o Brasil. Eu tenho uma irmã, nasceu também, tem três anos de diferença comigo. A minha casa era assim: a loja na frente, eu não sei quanto devia ter de frente, devia ter uns sete metros de frente, acho, mais ou menos. Era a loja lotada de brinquedos e, no fundo, a gente morava. Era uma casa, eu não me lembro quantos quartos, eu lembro muito da sala, que era uma sala enorme de tatame e a casa japonesa é assim, você faz tudo ali na sala, você se reúne, você come, você fica. Eu acho que provavelmente dormia também naquela sala. A gente brincava muito de roda lá. No Japão tem muitas brincadeiras de roda, que eu estranhei muito quando eu vim para cá. Primeiro porque eu não entendia as brincadeiras de roda daqui, eu não entendia aquelas músicas, a letra, eu não entendia nada. Aos quatro anos eu fui mandada para o jardim da infância e não aguentei muito tempo, abandonei. Porque acho que quando eu entrei, eu chorei, mas gostei de ir para a escola e fui. Depois, eu tive sarampo e faltei, acho que durante uma semana no jardim de infância e depois eu não quis mais ir. Desde quando eu era pequena eu gostava muito de desenhar. Na verdade eu não tive, assim, um incentivo, mas eu adorava desenhar. O meu avô conta que o primeiro desenho que eu fiz, eu estava vendo TV, vi uma bailarina e eu desenhei a bailarina e ele falou, assim, que eu desenhei tão bem a bailarina com aquela sapatilha e tal, “Essa menina desenha bem”. Acho que teve esse incentivo, né, “essa menina desenha bem”, “É excepcional”, é coisa de avô coruja. Depois não parei de desenhar. Nós trocávamos cartas quando a gente estava no Japão com as pessoas que estavam no Brasil, porque toda a família da minha mãe estava no Brasil. Tinha muita correspondência, era demorado, mas uma hora chegava e era uma alegria quando chegava. Na minha casa eles falavam japonês e eu sabia muitas palavras em português. Quando eu vim de lá para cá eu não entendia nada, do português. Eu fiz o primeiro ano com seis anos, eu ia fazer sete anos e entrei para uma escola de freiras no Paraná, em Campo Mourão. Era uma escola de freiras, um monte de crianças de seis, sete anos, eu não entendia nada de português. Teve a alfabetização, eu aprendi a ler, mas eu não entendia do que se tratava aquele assunto. Mas eu acho que aos poucos a gente vai, a criança é rápida, menos de três meses você já começa a aprender coisas. A gente tinha muito parente no Paraná, tinha uns tios morando lá, então, os meus pais resolveram morar no Paraná. A gente viajou de navio, foram dois meses de navio do Japão para cá e o meu avô veio de cama, ele estava bem doente. Assim que ele chegou, ele foi para o hospital, foi operado. Faleceu ali. Ele foi enterrado no Cemitério da Lapa e eu lembro bem que eu estava chorando e eu não conseguia enxergar. Eu não sei exatamente porque viemos para São Paulo, eu não entendia muito bem. Mas o meu pai, assim que ele chegou ao Brasil, comprou um caminhão e vivia viajando. Viemos para Guarulhos. O meu pai vendeu o caminhão e comprou um bar e ele teve bar por muitos anos, até eu entrar no colégio, eu tinha uns 16 anos. A gente viveu em Guarulhos até eu completar uns 16 anos. Depois disso, a gente veio para Água Rasa, perto do Tatuapé. Ele comprou um relojoaria que era dos meus tios, mudou totalmente de ramo, mas meu pai ficou super chateado, ele não se adaptava com esse outro negócio. Eu estudei numa escola em Guarulhos muito bonita. Nessa época eu lia muito quadrinhos do Japão. Eu nunca parei de ler quadrinhos, mangás do Japão. Comecei a ler mangá desde quando eu estava no Japão, aos três anos. Aqui no Brasil, eles fizeram um esforço, um sacrifício de fazer uma assinatura mensal de mangá numa livraria aqui em São Paulo, a Livraria Sol, mesmo quando a gente estava no Paraná. Eles fazem importação de livros japoneses há muito tempo atrás e fazem assinatura. E a minha mãe ou vinha retirar ou eles mandavam pelos Correios até Paraná e ela também pegava ali a encomenda. E todo mês você ficava esperando para chegar aqueles livros. Depois eu comecei a frequentar essa Livraria Sol sozinha eu vi que existem outras opções, opções para adultos, trocentos tipos de títulos, que a gente criança a gente não sabe. Eu tinha uma atração por selos, mas eu não cheguei a colecionar. Tinha uma época em que as pessoas falavam muito em selos, eu não sei o porquê, é meio de moda, eu acho. Acho que eu era adolescente. E falavam de valores de selos, na época que tinha aquelas revistas, Manchete, Revista Realidade, que a gente lia muito também. Na época da adolescência eu também havia mudado de novo de colégio. Era um colégio também estadual, Plinio Barreto. E nessa escola, no início, no primeiro ano, foi difícil a adaptação. O primeiro namoro foi justamente aqui, em São Paulo, nesse colégio estadual e eu lembro que nessa época eu fazia um diário. Em relação à escolha da profissão, nessa época a gente se dividia em três áreas, Exatas, Humanas e Biológicas e eu escolhi humanas, sem dúvida, que a minha área era humanas, gostava de Português, gostava de desenho A única profissão que existia: engenheiro, médico, arquiteto. Ou Artes Plásticas, de repente eu podia fazer, mas Artes Plásticas já era rotulado de que você ia passar fome. Eu queria fazer Artes Plásticas, mas os adultos falavam: “Vai fazer Arquitetura que você se garante melhor”. Fui fazer Arquitetura e eu entrei no Mackenzie. Na verdade eu queria tentar mais um ano a FAU, mas o meu pai falou: “Não, não vai tentar mais um ano, vai trabalhar e vai sustentar a faculdade”. Foi o que eu fiz. Eu fui trabalhar numa editora infantil e fui fazer faculdade, paguei minha faculdade inteira. Foram cinco anos de curso, mas até o terceiro ano eu só pensava em desistir. Meu trabalho nessa editora era arte final e past up. Era uma coisa que não existe mais hoje em dia, muito bom eu ter aprendido aquilo. Trabalhava meio período, acho que ganhava muito bem e, depois, assim que eu terminei a faculdade, eu larguei ela. Eu saí de lá. Montei uma empresa própria com mais três sócios. A empresa chamava Teto porque eram quatro pilares e um teto. E eu namorava com esse menino da FAU e ela namorava com o outro. Então, eram dois casais. A gente fez alguns trabalhos antes desse escritório para juntar o dinheiro pelo menos para pagar os aluguéis de um ano. Os clientes na verdade tinham a ver com editora, que era onde eu tinha experiência, então, pegava assim algumas editoras e fazia freelancers. Essa empresa ela continuou por alguns anos até começar a haver desavença entre os quatro. Depois eu e uma terceira pessoa, a gente começou a montar um outro escritório, mas sempre nesse esquema, de ir pegando trabalhos de comunicação visual, trabalhos de logotipos, livros, essas coisas, prestando serviços, e sustentando escritórios. E eu sempre fui assim, trabalhando dentro desse esquema, mudando de sócios e quando eu comecei a fazer paper art . Eu fazia as capas dos cadernos da Propasa, e na época, ela resolveu investir num negócio de varejo, que eram papelarias modernas, tipo aquelas que existem em Nova Iorque, papelarias que tinham todos os equipamentos mais modernos de pintura, e objetos escolares. Então, na época que inaugurou o Shopping Paulista, eles abriram uma loja chamada Mister Paper. E eu fui chamada para quebrar um galho, fazer uma vitrine da Mister Paper, porque uma vitrine que eles tinham recebido não tinham gostado. Eles queriam alguma coisa de papel na frente. Falei: “Ah, Mister Paper. Vamos fazer um senhor de papel”, um senhor de papel. Eu lembro que o briefing do diretor de marketing falou assim: “Ah, mas um personagem, assim, para Mister Paper, você precisa ficar desenvolvendo durante um ano para você criar um personagem, no mínimo”. Falei: “Não, vamos fazer um senhor inglês, vamos fazer um senhor inglês, o rosto de um senhor inglês em papel”. E ele gostava muito dessa coisa inglesa, uma pessoa fina. Falou: “Ah, tá bom, então”. Como é que vamos fazer? Eu nunca tinha feito nada parecido. Era um senhor de papel de mais ou menos uns 70 centímetros, o rosto dele, o olho feito em papel, a boca, os dentes todos feitos em papel. Virou uma vitrine enorme, uma vitrine de escultura em papel. Passava muita gente, gerentes de marketing de empresas assim, e pediam meu telefone e ligavam para mim para encomendar outros trabalhos. E eu achei que essa técnica fosse durar um ano, dois anos, até se esgotar e também tinha a ver só com loja de papel. Quem que ia querer uma escultura de papel? A gente foi desenvolvendo na verdade. Muitos gerentes, muitos diretores de marketing começaram a me chamar para trabalhar com outras coisas nessa técnica assim e fiz muitas coisas, atendi muitas empresas grandes, empresas ligadas à comida, veículos e umas coisas malucas. Comecei a fazer coisas tridimensionais, era mais por experimentar coisas, eu estava curtindo muito essa coisa do papel e tinha muita coisa ainda para experimentar, que poderia ficar legal. Imagina fazer um carro em papel em tamanho natural. Recentemente comecei a comprar coisas pela internet. Pode acontecer que eles não encontrem aqui, porque é um lugar muito de difícil acesso onde eu moro. Muita gente se perdeu para chegar na minha casa, você precisa fazer um mapinha muito detalhado para poder chegar em casa e não é fácil. A gente já chegou a pedir pizza, expliquei direitinho como era e a pizza se perdeu; perdemos a pizza, não teve mais jeito. Então, eu nunca mais eu pedi motoboy, eles se perdem mesmo. Os meus amigos não se perdem, porque o meu mapinha é super detalhado. Agora, para os Correios você não pode mandar um mapa. Você só manda o CEP. E eu sei que a primeira vez que eu comprei coisa pela internet, acho que voltou, acho que veio do Jaguaré, acompanhando o roteiro pelos Correiso, ele retornou, porque não tinha ninguém. Da segunda vez já veio direito, acho que os próprios carteiros devem saber, não sei se dentro eles comentam “Sabe aquele lugar que aquela mulher pede coisas?” Já deve ter ali um grupinho que deve saber. Vem certinho e cada vez mais eu fui confiando, e nem esquento mais a cabeça. Eu sei que se eu não tiver também eles levam de volta, depois eles vão trazer de novo, tentam de novo sem cobrar acréscimo. Eu acho que só comprei pelo Sedex. Porque agora tem um E-Sedex. Eu não sei qual que é a diferença. Mas sei que o preço é bem mais barato. Os Correios devem passar todo dia. Porque se não é objeto que eu compro, são as correspondências, têm muitas correspondências, assim, revistas que eu assino. A gente tem uma caixinha de cartas e eles colocam tudo. Oficialmente não sou casada, mas eu vivo com meu marido há mais de dez anos. A gente se conheceu no trabalho também O nome do meu marido é Nelson. Então tem uma coisa assim curiosa, porque o meu nome é Leila Nishi. Nishi em japonês significa Oeste e o nome do Nelson é Nelson Igashi. Igashi significa Leste. Tudo mundo que ouve essa história, acha que uma boa coincidência.

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