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História

A arte de Zica Bergami

História de: Elisa Campiotti Bergami (Zica Bergami)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/07/2005

Sinopse

Zica Bergami é filha de pais italianos. Nasceu em Ibitinga, mas foi criada na cidade de São Paulo. Nesta entrevista ela relembra a infância no bairro do Bom Retiro, as revoluções de 1924 e 1932, seu casamento, seu interesse pela música e suas composições, como "Lampião de gás", sucesso na voz de Inezita Barroso. 

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História completa

P/1 – Boa tarde, D. Zica.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – A gente vai começar com a nossa entrevista perguntando pra senhora o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Eu me chamo Elisa Campiotti Bergami - Bergami de meu marido, Campiotti de meu pai. Nasci em 1913, [no] dia 10 de agosto, signo Leão - tem me ajudado muito, viu? Nasci em Ibitinga, mas não conheço Ibitinga. Vim pra São Paulo com oito meses e fui criada aqui em São Paulo. E minha mãe, quer o nome da minha mãe também? Ítala Olímpia Trombelli Campiotti. Trombelli do meu avô e Campiotti do meu pai. Meu pai era Primo Campiotti. Italianos.

 

P/1 – Eles nasceram na Itália?

 

R – Nasceram. Papai nasceu em Veneza, mamãe nasceu em Mântova, fronteira com a França. É um dialeto muito difícil, mas é muito bonito.

 

P/1 – Conte pra gente porque eles vieram aqui para o Brasil, seus pais.

 

R – Na Itália não estava dando. Eles vieram numa leva de migrantes; essa novela agora [“Terra nostra”, da Rede Globo, no ar à época] lembra muito a vida dos meus pais. Eles vieram pra cá - a família do meu pai, a família da minha mãe, eles eram amigos. Vieram todos. Meu pai tinha seis anos; a minha mãe tinha oito meses e ela teve tifo no vapor. Quase morreu - está acontecendo [isso] nesta novela.

Depois que chegaram aqui no Brasil foram mandados pra Pirassununga, pra Fazenda da Barra do Rafael de Barros e se criaram lá. Minha mãe se criou, meu pai, todos eles, os outros que vieram, e acabaram se casando. Trataram do café e viveram lá muitos anos.

Há pouco tempo eu fui ver a casa onde eles viveram, a colônia. Eu fiquei muito emocionada. Agora é Aeronáutica, lá. Fiquei muito emocionada, mesmo. De ver onde eles se criaram, onde eles brincaram. A gente fica comovido. Lá nasceu a minha irmã Elisa, a primeira, depois nasceu minha irmã Ruth, que faleceu há pouco tempo. Nasci eu, não... A irmã Elisa, a Ruth e eu nascemos em Ibitinga e minha irmã Julieta também nasceu em Ibitinga, que é falecida também.

 

P/1 – A senhora sabe por que eles saíram de Pirassununga e foram pra Ibitinga?

 

R – É o seguinte: meu pai trabalhava na lavoura plantando café. Lá tinha alambique de pinga; o Rafael de Barros chegou para o meu pai e disse: “Primo, preciso que você tome conta do alambique porque o que tomava conta de lá morreu e eu preciso de um pra ficar lá.” E lá tinha que destilar a pinga, tinha que provar e a pessoa que provava ficava viciada. Minha mãe chorou, implorou, pediu que não deixasse ele ir porque ele ia se viciar, mas o Rafael de Barros não quis ouvir. Disse: “Você precisa ir, eu preciso de você e acabou.” Então meu pai teve que ir. Aí começou aquela luta de provar a pinga, coitado! Sem querer, ele se viciou. Ele não aguentou mais ficar lá na fazenda: queria sempre passear, queria viajar, queria tudo. Fomos pra Ibitinga. Ele não tinha parada: sumia, desaparecia, depois voltava.

Com três anos de idade é que eu me lembro do meu pai. Ele tocava muito bem sanfona. E fazia a gente dançar, eu e minha irmã dançar. Se nós dançássemos errado, ele batia nas pernas. E com esse vício, um dia ele desapareceu e nunca mais apareceu. Não sei nem onde ele está enterrado. Sinto muito, é muito triste. Morávamos na Vila Guarani, lá no Bom Retiro.

 

P/1 – A senhora veio de Ibitinga pra cá com seus pais quando tinha oito meses?

 

R – É.

 

P/1 – Por que seu pai veio pra cá com a família?

 

R – Porque ele não tinha parada. Aqui tinha todos os parentes da minha mãe, todas as irmãs, o pai, a mãe. Viemos pra cá pra ficar mais protegidas porque ele não parava, coitado.

 

P/1 - Quando a senhora veio do interior pra cá, veio direto para o bairro do Bom Retiro?

 

R – Eu não me lembro pra onde. Nós fomos pra Vila... Ah, eu era muito pequenininha, não me lembro. Mas eu me lembro que quando tinha três anos nós morávamos na Vila Guarani, que era pertinho da Rua Júlio Conceição, no Bom Retiro. Meu pai chegava do trabalho - ele era pedreiro -, pegava na sanfona e nós íamos brincar lá. Era uma vila cercada de árvores, muito pitoresca. Aqueles lampiõezinhos, era uma beleza! E nós íamos brincar de pegador, de... Chegava lá pelas oito e meia, nove horas, ele chamava a gente: “Piccola!” Eu ouço a voz do meu pai até hoje: “Piccola, vieni subito. Anda, vieni subito.” Então nós corríamos, era hora de dormir. É assim que eu me lembro do pai. Sumiu, nunca mais apareceu.

 

P/1 – Eles falavam italiano em casa?

 

R – É, falavam italiano.

 

P/1 – A senhora começou falando italiano ou começou falando português?

 

R – Eu não sei como é que eu comecei. Eu falava tudo. Eu fui criada no meio de tudo, de italiano, napolitano, português, espanhol, de tudo. Fui criada no meio dessa gente toda. É por isso que... Depois moramos lá na Rua da Graça, eu tinha cinco anos. Mas eu morei na rua... Meu Deus do céu, não me lembro esse... Agora há pouco falei pra você, não lembra que eu falei? Perto do Rio Tietê. Era a uma quadra e meia do Rio Tietê. Eu tinha quatro anos; eu brincava, ia até a beira do Rio Tietê.

O Rio Tietê era uma beleza! Na margem do Rio Tietê, na ponte do Limão, tinha flores. Eram umas flores lindas, um metro de flores. E a água era tão limpinha que a gente via os peixinhos nadarem. Lá pela ponte passavam esses Ford de bigode, passava carroça, passava gente a cavalo. Passava de tudo por ali e tinha gente que atravessava com barco pela água porque gostava mais.  E eu me divertia vendo os cavalos, as vacas que pastavam por ali.

Era pertinho de casa. Eu vivia por ali, via tudo aquilo e tenho saudade. Há pouco tempo passei por lá, está tão diferente! Rua Cruzeiros: era a uma quadra e meia do Rio Tietê. Ali também tinha a Dona Cesera, que tinha uma venda. Hoje é empório, antigamente era venda. Ela vendia tênis, vendia tudo. Nós tínhamos uma sala e tinha um terreno baldio onde tinha o jogo de bocha, onde os homens jogavam aquelas bolas. Eu ouvia cada nome! Nossa Senhora! E tinha a minha bruxinha - minha mãe fez uma bruxinha pra mim. Achava linda a minha bruxinha! As meninas caçoavam dela e eu dizia: “Elas estão é com inveja, isso sim!” Era feia, coitadinha.

De tarde a Inês, que era filha da Dona Cesera, me chamava pra tomar café. Sabia que eu era sozinha porque minha irmã e minha mãe trabalhavam. Eu ficava sozinha, então ela enchia as tigelinhas - naquele tempo usava tigelinha - de café preto, cortava queijo de minas e depois botava rum. Tomávamos café com rum toda tarde. E eu ficava eufórica, ficava alegre, feliz.

Eu vivia lá em casa fazendo melado, tinha as espiriteiras. Imagine! Meu anjo da guarda foi uma coisa, viu? Tinha a espiriteira numa mala porque não tinha mesa; era uma mala chata, verde escuro, e aí era nossa mesa. Tinha a espiriteira, a garrafa do álcool e eu o dia inteiro fazia melado pra comer. Eu não sei que anjo da guarda que eu tive!

De tardezinha, tinha uma janela longe. Embalavam um filhinho, a mãe ficava na cadeira de balanço e o pai balançando a criança. Eles cantavam música italiana e eu ficava ali pelas seis e meia da tarde, sete horas, vendo os pirilampos, os vaga-lumes, os “cri-cris” dos grilinhos. Ficava olhando pra aquilo tudo, achava aquilo lindo. E ficava ouvindo a música que eles cantavam, era assim: “Quel mazzolin di fiori che vien da la montagna/e guarda ben che non si bagna che lo voglio regalar.” [cantando] Nunca me esqueço disso. Lo voglio regalare perché l'è un bel mazzetto/lo voglio dare al mio moretto stasera quando il vien.” [cantando]

Eu ficava com os olhos cheios de lágrima. Eu tinha quatro anos! E aquelas coisas que eu via, aqueles pirilampos, aqueles vaga-lumes, eu achava lindo. Achava lindo também às cinco horas da manhã, quando eu levantava, as teias de aranha. Cobertas de pinguinhos de... Pareciam pinguinhos de brilhante, sabe? Eu achava lindo! A aranha toda coberta de pinguinho, a teia da aranha.

Achava tudo uma beleza. Eu admirava tudo, eu era uma criança curiosa mesmo. Pisava na graminha úmida, descalça. Como eu gostava! Era fresquinho, era gostoso que só vendo! E assim eu passei a minha infância.

Quando chegava de noite, eu ia ao fundo do quintal, no escuro, porque não tinha luz nem na rua, só a luzinha muito fraca de dentro de casa. Ia até lá, lavava os pés no tanque, depois ia dormir. Ia dormir sozinha porque minha mãe e minha irmã trabalhavam, não tinham chegado ainda. E me cobria. Um medo que só vendo. Suava de medo até dormir. Quando acordava de madrugada, passava a mão, via que elas estavam ali, eu sossegava. [Às] Cinco horas da manhã estava de pé, queria café: “Quero café!”

Uma noite elas não foram [pra casa] porque choveu. A minha mãe pensou que a minha irmã fosse, a minha irmã pensou que a minha mãe fosse e não foram. Eu passei a noite toda sozinha. Meu anjo da guarda foi grande porque podia entrar um ladrão lá, algum vagabundo. Uma criancinha de quatro anos! Essa é a vida da gente.

 

P/1 – A sua mãe trabalhava fora?

 

R – Trabalhava. Ela era cozinheira numa padaria, minha irmã trabalhava na fábrica. Um dia a minha irmã estava muito triste. Digo: “Por que que você está triste?” “Ah, hoje...” Era muito bonita a minha irmã, muito bonita mesmo. “Hoje é carnaval, todo mundo tem fantasia e eu não posso ir ao carnaval.” “Por que você não pode ir no carnaval?” “Porque eu não tenho fantasia.” Digo: “Ué, pega um vestido aí do baú e faz alguma coisa.” Ela disse: “Ah, que boa ideia você me deu. Pega aquele vestido branco e amarelo.” Ela bordou uma bala de milho. Passei o dia inteirinho correndo até o empório pra buscar milho pra ela fazer. Bordou tudo, ficou uma beleza.  Quando chegou de noite, ela saiu sacudindo a milharada. Não é engraçada a vida da gente?

 

P/1 – D. Zica, a senhora falou que tinha uma bruxinha. Era sua boneca, com quem a senhora brincava. A senhora tinha contato com outras crianças, tinha amiguinhas? Do que se brincava no seu tempo?

 

R – Eu tinha amiguinhas, mas elas caçoavam muito da minha bruxinha, coitada. Elas não brincavam muito comigo. Eu era sozinha. E elas caçoavam muito. Eu dizia: “Elas estão é com inveja, isso sim.” Eu sempre levava tudo na brincadeira.

E Dona Cesera era uma pessoa muito boa: “Mas porque que você está comprando tanto milho? Você tem galinha?” Eu digo: “Não.” “Mas então o que você está fazendo?” “Ah, é minha irmã que vai no carnaval e está bordando um vestido.” “Ah bom, pensei que era galinha!”

 

P/1 – Como era o bairro do Bom Retiro naquela época? Como era a convivência com os vizinhos?

 

R – Ah, era uma beleza. Todo mundo se conhecia, todos os vizinhos eram amigos. De noite eles botavam a cadeira na calçada, o marido sentava ao contrário na cadeira - em vez de sentar direito sentava torto, com as pernas e a cadeira aqui. E nós ficávamos brincando na rua de pular corda, brincar de roda, “passa-passa três vezes”. Os meninos brincavam de bolinha de gude, roda peão e cantávamos aquelas músicas: “Debaixo do laranjal encontrei uma menina, apanhando flores brancas, flores brancas pra me dar.” E assim ia, a gente brincava até nove, dez horas da noite. Tinha o bonde aberto, que passava de quarenta em quarenta minutos sacudindo a campainha dele. Não tinha movimento nenhum. E a gente se divertia assim, os pais conversavam na calçada e a criançada brincando. Era uma maravilha, era uma beleza.

Defronte à nossa casa tinha o Grêmio Musical Luso-brasileiro, que era uma sociedade. Tinha um palco muito bonito, uma orquestra de piano de cauda, uma beleza. [Tinha] Uma orquestra completa e os camarotes de ferro batido pintado de dourado. As minhas tias, no sábado e domingo, iam lá pra cima do camarote pra ver.

Sempre levava um drama. Eles tiravam uma ópera e faziam o drama em português. Fizeram a “Tosca”. Então a Tosca mata o chefe de polícia. Ela estava com uma toga vermelha e eu me lembro só que ela dizia: “Eis aquele que diante dele tremia toda Roma.” Ela o matou. Ele deitado no chão. E as minhas tias choravam: “Ah, mas como ela trabalha bem! Ela chora de verdade.” Elas eram italianas, né?

Antes de dançar eles lascavam parafina - naquele tempo não tinha cera - e ficava cheio de flocos de neve no chão. E aquelas mocinhas, todas de lacinho de fita no cabelo e sapatinho branco, meia branca, vestidinho de babadinho, florzinha na cintura, iam dançar. E os cavaleiros, muito educados, botavam lenço na mão pra botar atrás da moça e dançavam... Era uma beleza! Aquele assoalho brilhava! E elas dançando em cima daquela parafina, parecia que estavam dançando em cima de pétalas de rosa. Eu achava lindo aquilo, uma beleza.

Há pouco tempo eles vieram me entrevistar aqui. Souberam que eu morei defronte ao Grêmio Musical Luso-brasileiro. Vieram me entrevistar, da TV Bandeirantes, e me levaram lá. Disse: “Mas eu nem sei se existe.” “Como não existe? Nós já estivemos lá, estamos esperando a senhora.” Então eu fui lá, mas tive desilusão. Tive uma desilusão que só vendo! Tiraram os camarotes, o assoalho estava horrível, todo enfeitado pra carnaval. Fiquei triste, triste mesmo. E puseram o prédio mais... Primeiro tinha um jardinzinho pra gente entrar, agora puxaram o prédio mais pra rua. Está assim porque fizeram o gabinete do presidente. Estão me esperando até hoje para o Baile da Terceira Idade.

Quando eu era menina me tiravam pra dançar, eu tinha cinco anos. Tiravam pra dançar e eu dançava.

 

P/1 – A senhora ia ao baile com cinco anos?

 

R – Eu ia lá dentro, entrava lá, ficava assistindo o baile. Eles me tiravam pra dançar e eu dançava. Sempre gostei muito de música, sempre fui muito alegre.

 

P/1 – Vocês frequentavam alguma igreja ali no Bom Retiro?

 

R – Não me lembro, eu era muito pequena. Eu não me lembro de igreja. A gente rezava, mas... Eu sei que frequentava uma escola de italianos. Minha mãe sempre me botava na escola, não me deixava na rua de jeito nenhum. E eu entrei pra uma escola de italianos. “Mas mamãe, eu não quero estudar italiano. Não quero aprender italiano.” “Mas tem que ir. Tem que ir porque eu vou trabalhar, não quero deixar você na rua.” [Quando] Chegava lá, tinha que cantar o hino dos bersaglieri, italiano, né? E tinha que contar primeiro: “Uno.” Todas juntas: “Uno, due, tre, quattro, cinque, sei, sette...” Ia embora... E tinha que aprender italiano. Eu tanto fiz, tanto esbravejei que me tiraram da escola.

 

P/2 – Depois que a senhora saiu dessa escola de italianos, foi pra qual escola?

 

R – Eu fui pra tudo quanto foi escola de São Paulo. Eu morei em São Caetano, morei no Bom Retiro, morei no Brás, morei em tantos lugares, minha filha, que nem vale a pena falar.  

Quando morávamos no Bom Retiro, eu vivia na casa da minha tia, porque minha tia morava na Rua Júlio Conceição. Minha irmã, uma vez por semana, trazia umas latas cheias de bala. Ela trabalhava na Bobadila, numa fábrica que tinha na Rua dos Italianos com a Rua Júlio Conceição. Era um dia de festa. A mesa era grande - três metros de mesa -, botavam uma toalha e botavam as balas lá. Todo mundo embrulhando bala e cantando; mais chupava do que embrulhava. Era uma alegria.

Tinha um primo meu, o José, pequenininho. Um dia, a minha tia estava fazendo... Tia Gentile estava fazendo um vestido de noiva pra Lola, pra minha prima, e estava lá muito entretida nos babados que tinha que botar no vestido de noiva lá na máquina. O José foi no quintal, achou debaixo do fogão, que fazia pão grande, um serrote enferrujado. Chegou pra minha tia e disse: “Mãe, olha o que eu achei!” “Va bene.” “Mãe, você está vendo o que eu achei?” “Eu estou vendo, vá, me deixa em paz que eu não posso me distrair.” O José foi embora. Dali a pouco ele diz: “Mãe!” “O que é, José?” “Posso ‘serrotar’ aqui?” Ele dizia “serrotar”. “Pode.” [Ela] Não estava prestando atenção. Ele foi assim, pedindo: “Mãe!” “O que é, José?” “Posso ‘serrotar’ aqui?” E foi serrando todas as cadeiras, pé da mesa, tudo ele foi “serrotando.” Tinha entre os dois quartos da frente um outro quarto e naquele tempo tinha um terraço no meio, pra dar ar para os quartos. E tinha umas plantinhas de beijos da minha tia que ela adorava, bonitos que estavam! Ele viu aquelas plantas. E eu dizia “José, não faz isso.” Chegava “Tia, ele está serrando tudo.” “Va via, eu não posso me distrair, va via.” E eu ia, né? Eu queria avisar, mas não conseguia. Aí ele pegou nas plantinhas e disse: “Mãe!” “O que é, José?” “Posso ‘serrotar’ aqui?” “Pode.” Passou o serrote nas plantinhas da minha tia.

Quando chegou a hora do café: “Escuta, José, por que você me chamava tanto?” “Ah, mãe. Eu chamava, você dizia que podia, eu fazia, né?” Aí ela descobriu. Cada vez que ela olhava uma coisa, ela dava um grito: “Mamma mia, mamma mia!” E foi de coisa em coisa assim. Eu pensei: “Meu Deus do céu! Se fosse um ferro, um fio elétrico, imagine o que ia acontecer!” Eram essas coisas que a gente tinha quando era criança.

A minha mãe punha na janela da frente, que tinha defronte à nossa casa na Rua da Graça... Tinha uma árvore de sabugueiro e tinha um lampiãozinho de gás embaixo da árvore. Aquela luz verde-azulada era uma beleza, a cor do gás do fogão. E ela punha uma cortina de renda que tinha um anjo oferecendo flores. Eu deixava a veneziana aberta para o lado de dentro - hoje é para o lado de fora, naquele tempo [era] para o lado de dentro - e entrava aquela luzinha verde-azulada, batia na cortina e a cortina subia até o teto. Aquele anjo da guarda, a noite inteira me oferecendo flores. Como eu achava lindo, até hoje eu estou vendo aquela imagem. Eram as coisas.

Tinha no quintal um pé de sabugueiro também. E eu morei lá defronte... Fui lá ver o Grêmio Musical, há pouco tempo. Agora é uma loja de máquinas de lavar roupa.

 

P/1 – Mas é o mesmo prédio?

 

R – A casinha?

 

P/1 – A casinha.

 

R – Eles demoliram e fizeram uma fábrica de máquinas de lavar roupa. E eu fiquei... Pensei que ia encontrar a casinha, mas não encontrei. É isso aí, o que mais você quer saber?

 

P/1 – A senhora morou no Bom Retiro até quando?

 

R – Bom, morei um ano e meio, dois anos, mais ou menos.

 

P/1 – E aí vocês foram pra onde?

 

R – Fomos pra... Na Rua Capitão Matarazzo, lá embaixo, no Bom Retiro. A pobreza era muito grande, nem vou contar.

 

P/1 – E vocês foram pra onde depois?

 

R – Moramos em São Caetano, mas eu não quero contar essas coisas. Vou contar da Revolução de 24.

Nesse tempo a minha irmã já era casada de novo, com um político muito conhecido em São Paulo. Chamava-se Carlos Cirilo Júnior e era do partido PRP. Ele era muito amigo do Carlos de Campos, naquele tempo. Ela foi morar no Regina Hotel, que ficava pegado à Igreja Santa Efigênia, no fim do Viaduto Santa Efigênia; do outro lado tinha a igreja São Bento.

Nós morávamos no Brás, eu e a minha mãe. E um dia ela disse: “Filha, vamos visitar a sua irmã.” E fomos. Saímos cedinho, fomos pra cidade; quando chegamos na Rua Quinze de Novembro tinha uma trincheira na rua e uns soldados. Eles olharam e disseram: “O que a senhora está fazendo aqui com esta criança, não sabe que arrebentou a revolução?” A minha mãe disse: “O que é isso?” “A revolução, a senhora pode morrer. Corre com essa criança, leve-a embora senão acaba morrendo.”

Saímos correndo. Corremos até chegar no Regina Hotel. [Quando] Chegamos no Regina Hotel a minha irmã estava sozinha porque o marido dela, como era político, tinha ouvido falar na revolução. Ele já tinha ido para o Palácio do Governo, para o Carlos de Campos [que] naquele tempo era o presidente de São Paulo.

Lá ficamos quatro dias. Da Igreja São Bento à Igreja Santa Efigênia tinha revolucionários de um lado e legalistas do outro. E metralhadora o dia inteiro. Para sair do Regina Hotel tinha que atravessar o largo Santa Efigênia e as balas trançavam ali. O dia inteiro aquele tiroteio: “Pá pá pá pá pá...” Metralhadora nos dois lados. E atiravam muito no hotel, pensando que no hotel tivesse revolucionário, então naqueles vidros de onde tinha o elevador, tinha uma coisa de vidro que era do corredor de elevador, caíam aqueles vidros. O dia inteiro. Passamos quatro dias e quatro noites entre as metralhadoras. Não parava. Parava de vez em quando, cinco minutos depois continuava.

No quarto dia não tinha mais comida. Minha irmã disse: “Nós temos que ir embora. Temos que atravessar de qualquer jeito porque não tem mais comida no hotel.” Arrumou a malinha dela e disse: “Vamos embora”.

Descemos; quando chegamos na entrada, no saguão do hotel, tinha três senhores, um brasileiro, um argentino e um italiano. E a minha irmã esperando que passasse o tiroteio, aquele tempinho que eles davam de vez em quando, acho que pra mudar as balas, sei lá. Aqueles senhores, quando viram que eu estava ali, me pegaram pela mão e saíram correndo; passou um pouquinho do tiroteio e saíram correndo. Quando a minha irmã viu, pegou a minha mãe e chegamos na Rua 24 de Maio, na frente... Quase fomos metralhados, começou o tiroteio de novo, mas por um triz que as balas não pegam a gente.

Fomos pra Pirassununga. Tomamos o trem a uma hora da tarde, chegamos lá a uma hora da manhã. O trem ia cheio até em cima. Fomos pra uma fazenda, fazenda do Beto Zoli, que eram parentes, compadres da minha mãe. Minha irmã ia pra cidade pra saber do marido.

Aprendemos a fazer tijolos. Eu já fazia tijolo muito bem feito, sabe? Era fazenda de... Eles não plantavam nada. Eles trabalhavam fora da fazenda, não trabalhavam na fazenda.

Um dia a minha irmã ouviu dizer que meu cunhado tinha sido fuzilado, aí voltamos pra São Paulo. Quando ia passando pelo Regina Hotel, disse: “Quem sabe se ele está aí dentro?” “Não fala. Você não sabe que ele morreu?” Fomos para o Brás, mas Graças a Deus, três dias depois ele aparece. Tinha sido ferido no tornozelo. E assim, a um passo da revolução.

[A história] É muito mais comprida, mas contar tudo dá muito trabalho porque estivemos em São Paulo antes disso. Fomos pra Rua das Palmeiras, na casa de uns parentes, que ela veio ouvir que ele tinha morrido. Já não era mais metralhadora, era canhoneio a noite inteira. Aquela bala vinha: “Piiiiiiiiiii”. Eu abaixava a cabeça e dizia: “Agora cai aqui.” A noite inteira - começava às oito horas da noite, acabava às seis horas da manhã. Eu conheço tudo, conheço tiro de canhão, conheço metralhadora.

 

P/3 – Durante o dia não tinha bombardeio?

 

R – Não. Durante o dia, não. Só de noite.

 

P/1 – A senhora sabia na época o que estava acontecendo? Porque estava tendo essa revolução? Sua mãe sabia?

 

R – Ah, não sabia. Eu era muito criança.

 

P/1 – A sua irmã não comentava o que estava acontecendo?

 

R – Também não sabia. Ela era muito mocinha, tinha dezoito anos. Era uma beleza, a minha irmã. No Bom Retiro a chamavam de Maria Boneca.

 

P/1 – Como ela se casou com esse político? Onde ela o conheceu?

 

R – Ela era muito bonita e ele era separado da mulher porque a mulher estava meio... Estava internada. Depois ela morreu e ele se casou com ela, gostou dela e se casou. Foi um segundo pai pra mim, muito bom. Ele me educou, me criou. Quando [me] casei ele sentiu tanto que só vendo.

Tem muita coisa. Teve a Revolução de 30, que foi fora de São Paulo. Aí eu já namorava o meu marido e meu marido foi pra Revolução, e a [Revolução] de 32, [em] que minha irmã e meu cunhado foram deportados pra Portugal e levaram a minha sobrinha pequena. Eu fiquei em São Paulo.

 

P/1 – Conta pra gente um pouco sobre essa Revolução de 32.

 

R – A de 32 foi do Getúlio. Não, não foi do Getúlio... Não me lembro bem quem foi. Eu sei que eles foram deportados e eu fiquei na casa onde a gente morava. E o meu cunhado, como era casado a segunda vez, tinha três filhos: o José, o Alcides e a Gracinha. Eles vieram morar na nossa casa; tinham muito ciúme da minha irmã, é lógico. Fiquei morando com eles, arranjei um emprego na Holerites, lá na delegacia fiscal, que ficava no meio do Anhangabaú. Depois demoliram [o prédio].

Eu fazia perfuração. Eu trabalhava - entrava às onze e saía às cinco - e ajudava um pouquinho antes de sair lá na casa. Meu marido me perguntou se eu esperava ele se formar. Digo: “Espero.” Esperei o meu marido sete anos, se formou em advocacia. Depois foi companheiro do meu cunhado no escritório.

 

P/1 – A senhora está falando de seu marido. Como a senhora o conheceu?

 

R – Conheci porque ele era amigo dos filhos do meu cunhado. Meu cunhado tinha dois filhos, um homem e uma mulher, que é minha amiga até hoje e mora aqui perto.

 

P/2 – D. Zica, ele foi o seu primeiro namorado, o seu marido?

 

R – Não. Não tinha tempo de namorar, eu não saía quase de casa.

 

P/1 – A senhora conheceu, namorou e casou?

 

R – É, esperei sete anos. Minha irmã não queria que eu [me] casasse com ele porque dizia que ele vivia muito na rua. Mas ele era ótimo, depois gostaram muito, o adoravam. Tem tanta coisa pra contar!

 

P/2 – Depois do casamento a senhora foi morar onde, em qual bairro aqui em São Paulo?

 

R – Eu fui morar na Rua Eugênio de Lima.

 

P/2 – Nas imediações da Paulista?

 

R – Não, bem lá embaixo, perto da [Rua] Estados Unidos. Uma casinha muito bonitinha. Morava mamãe e nós morávamos... Eu tive a minha filha lá, nessa casa. E fazendo vida de dona de casa; eu ia aprender a costurar, criava a minha filha. Essas coisas de casais.

 

P/1 – Quando surgiu a ideia de começar a fazer música ou começar a desenhar? Qual a senhora começou primeiro: a desenhar ou a fazer música?

 

R – Depois passou o tempo, eu morava na Rua Fradique Coutinho, na Rua Henrique Martins, no Jardim Paulista, pertinho da Igreja São Gabriel. Meu marido, já contei, ele lia Olavo Bilac, lia muito bem. Eu achava lindo e disse: “Vou ver se eu faço um verso.” Aí fiz. Meu marido achou: “Está muito bom seu verso, continua. Ô, minha velha, continua.”

Eu continuei; fiz verso para todo mundo. Nossa Senhora, quanto verso que eu fiz! Nossa mãe! Fiz pra cachorro, pra gato, pra vizinho, pra todo mundo. Todo mundo tinha verso. Um dia, eu disse: “Meu Deus do céu, eu faço tanto verso e não sou capaz de fazer melodia. Devia fazer a melodia, mas eu não sei.” Fui à igreja, pedi pra Deus me ajudar, queria botar melodia nas minhas músicas. [Quando] Cheguei em casa, por incrível que pareça, a primeira coisa que eu fiz foi botar a primeira melodia. O Ronnie Von me disse: “Então o teu parceiro foi Deus.” Eu digo: “Foi Deus. Até hoje ele é meu parceiro.” Daí começou: veio o ‘Lampião de Gás’, ‘Batateiros’, ‘Chuvarada’ e essas músicas que agora tem no CD.

 

P/1 – Mas a senhora já tinha estudado música?

 

R – Não.

 

P/1 – Como a senhora fez essas melodias?

 

R – Não, eu só estudei piano de brincadeira. Eu tinha um professor que era muito bom. Ele escrevia música e eu brincava só no piano. Toquei muita coisa, tocava muito. E violão. Tocava violão, cantava meus tangos, meus boleros. Tinha um rapaz que nós conhecíamos que morava na Vila, pertinho de nossa casa, que cantava também, nós fazíamos dueto. Eu dançava castanhola, dançava espanhol, dava duas festas por semana, enchia a casa. Fazia comida pra trinta pessoas; tinha que fazer pra quarenta porque vinham mais dez atrás.

Conheci o Arrelia, que era um palhaço muito engraçado daquele tempo, foi nosso amigo. O Hervé Cordovil, que foi orquestrador do ‘Lampião de Gás’, foi nosso amigo, todos eles frequentavam nossa casa. A Inezita [Barroso] ia lá de noite, jogava o sapato e cantava a noite inteira. Era uma alegria, a nossa casa. Dávamos duas festas por semana, meu marido adorava festa.

 

P/2 – Foi nessa época que a senhora conheceu o Guilherme de Almeida também?

 

R – Foi nessa época, porque ele era muito amigo do meu cunhado. Conheci o Getúlio também, contei anedota para o Getúlio. Um dia ele foi visitar o meu cunhado, eu contei uma anedota pra ele. Como era simpático, o Getúlio Vargas! Era baixotinho, gordinho, mas era uma simpatia, ele era alegre. Contei uma anedota pra ele. Ele achou uma graça que só vendo.

 

P/1 – Nessa época que a senhora dava essas festas, que a senhora começou a compor, é que época, mais ou menos?

 

R – Foi em 1950 e poucos porque em 57 eu fiz o ‘Lampião’. Eu já tinha feito uma porção antes: ‘Lampião’, ‘Batateiros’, ‘Chuvarada’. Depois ‘Lampião de Gás’ fez um grande sucesso. Eu tinha que ir pra televisão uma vez por semana; ia lá, cantava, me divertia. Ia toda semana e uma vez eu caí. Eu fui no canal sete e o Vidal me disse: “A senhora vai ficar sentada ali e eu fico aqui no picadeiro.” Era um picadeiro. Digo: “Mas não era melhor eu ficar sentada lá no fundo do picadeiro? Aqui tem um degrau muito grande pra subir.” Ele disse: “Não, eu dou a mão pra senhora, eu puxo, a senhora vem.” E eu esqueci que, cruzando a perna, essa perna dorme, até hoje. E ouvindo eu esqueci da minha perna. Quando ele me chamou pra me entregar as flores, eu botei a perna no chão... Cadê perna? E agora? Como é que eu vou fazer pra subir aí? Era um degrau grande, dessa altura. Eu levantei, ele me deu a mão, mas assim mesmo eu virei, caí sentada no picadeiro, aí não deu pra ver. Depois fui mancando receber as flores e voltei mancando. Meu marido disse: “Você é uma mulher formidável, outra mulher não ia.” E eu fui. Sempre fui muito atirada. Fui convidada pelo Sílvio Santos muitas vezes, né?

 

P/2 – D. Zica, qual foi a primeira música que a senhora gravou? Como foi a história pra senhora poder gravar essa música?

 

R – Do ‘Lampião’ não houve dificuldade porque a Inezita, querendo gravar, já ficou registrada. Ficou registrada já, eles já viram tudo. Agora, direitos autorais [recebi] muito pouco. Eles roubam descaradamente.

 

P/3 – Como foi o primeiro contato da senhora com a Inezita?

 

R – Todo mundo dizia: “Vai procurar a Inezita...” “Deus me livre! Procurar a Inezita... O que ela vai dizer da porcaria da minha música?” Todo mundo falava e eu não ligava. Um dia fui na casa da minha irmã. O Guilherme de Almeida estava lá, contei pra ele - a minha irmã mandou contar. Ele disse: “Mas o que você está esperando que não vai procurar a Inezita?” Digo: “Mas você acha, Guilherme, que eu devo procurar a Inezita?” “Deve. Isso aí é um sucesso muito grande.”

Aí eu fui. Era na [Rua] Quintino Bocaiúva. No primeiro andar tinha a Gravadora Copacabana. Ela estava com o Hervé Cordovil defronte ao elevador - um elevador antigo, prédio antigo. Aí ela disse: “A senhora, o que deseja?” Eu digo: “Inezita, eu vim aqui a mandado do Guilherme de Almeida.” “Ah, é?” “É. Eu vim aqui não pra você gravar nada, viu? Eu vim aqui pra você fazer um grande favor: eu quero que você ouça as minhas músicas pra me dar uma opinião. Todo mundo diz que elas são boas, mas eu não acredito. Eu queria que você ouvisse pra dizer se elas prestam ou não prestam, só isso.” “Está bom.”

Como ela estava ‘caindo’ no canal sete, ela foi lá em casa me procurar, às quatro horas da tarde. Disse: “Segunda-feira eu vou lá, às quatro horas.” Eu fiquei com o meu professor de piano. Ela foi, comecei a cantar; ela logo pediu duas. Depois ela ouviu ‘Lampião’ e disse: “Essa eu quero pra amanhã. Você me entregue pra amanhã.” E o meu professor de piano, como escrevia música muito bem, [escreveu a partitura e eu] entreguei. Depois eu fui com ela gravar. Ela disse: “Eu estou com medo de gravar porque acho que não é pra minha voz, mas o Hervé quer que eu grave, diz que vai ser um grande sucesso. Eu vou gravar na marra.” Ela gravou e fez o sucesso que fez. Eu ganhei aquela placa lá, Primeira Música do ano de 58.  

Foi assim que começou ‘Lampião’ e está há 44 anos funcionando. Nunca pensei que uma musiquinha tão simples durasse tanto tempo. E agora está voltando de novo. Nunca morreu, mas agora está mais espevitada.

 

P/1 – Conte pra gente aquela história da música “Batateiros”.

 

R – Ele subia a Rua da Graça. Vendia batata doce assada num carrinho de madeira. Umas batatas bonitas, amarelinhas, que ele assava na brasa, depois vinha coberto com saco de estopa. Ele fazia o pregão em napolitano: “Patata assat au furn”. Eu fiz uma música pra ele [começa a cantar]:

Patata assat au furn. Vero furn. Vero furn.

Às três horas passava o batateiro/subindo pela rua, cantando o dia inteiro/ e eu corria com toda a meninada para comprar batata doce assada. E o velhote sempre dizia/ que estava muito boa a batata que vendia. Ai que saudade do velho napolitano/ que pelas ruas passava apregoando: “Patata assat au furn. Vero furn. Vero furn”.

Um tostão de batata era um montão/ apanhava no vestido e caía pelo chão. A molecada saía pulando/ a batata era tão quente que a mão ia queimando. E o velhote sempre sorrindo/ empurrando seu carrinho seu caminho ia seguindo. Ai que saudade do velho batateiro/ que pelas ruas cantava o dia inteiro “Patata assat au furn. Vero furn. Vero furn.” Com certeza o velhote já morreu/ e a criançada cresceu e envelheceu/ e como eu sente saudades do bom napolitano/ apregoando na cidade “Patata assat au furn. Vero furn. Vero furn.”

 

P/2 – D. Zica, quantas músicas a senhora tem gravadas? E dentro do seu repertório qual a senhora gosta mais?

 

R – Eu gosto de todas, mas tem uma que eu gosto muito que é a: “Tu chega bamboleando o corpo/ tu vem gingando com uma pança de abafar/ Empurra a perna pra frente, puxa o ombro/ empurra o ventre e ‘pregunta’ o que que há/ Nego feio e atrevido/ pelo tempo que é nascido já devia ‘trabaiá’. O pai anda aborrecido/ cabisbaixo e sucumbido, tu tá dando o que pensar. Tu é um tranca muito esperto/ espera eu sair de perto e vai em tudo remexer. Outro dia até esmola/do pé de Nossa Senhora tu pegou pra ir beber. Zé Mané tu tá crescido/ mas o véio é sacudido, inda pode te chegar. Deixa dessa dependência/ tenha um pouco de decência e num ‘pregunte’ o que é que há.” [“O que é que há” é o nome da canção.]

Gosto dessa, gosto de todas.

 

P/2 – Quantas músicas ao todo?

 

R – Bom, agora acho que são quase quarenta. Tem umas cinco ou seis pra registrar, mas não tenho tempo de ir. Tenho: “Quantas flores meu bem, quantas flores. Quantas flores tenho em meu lar...” Fiz pro meu marido. Quando eu cantava, meu marido dizia: “Essa foi feita pra mim.” E assim a gente viveu uma porção de coisas.

 

P/1 – O seu marido incentivava muito a senhora?

 

R – Muito, muito. Ele sempre apoiou muito o que eu fiz. Eu dava festas lá em casa e os maridos diziam: “Virgílio, se eu tivesse uma mulher como você, eu era o homem mais feliz desse mundo.” Não foi nem um nem dois, foi uma porção, tanto que as minhas amigas tinham um pouco de inveja de mim.

 

P/1 – Por que as festas eram muito boas?

 

R – Eram ótimas, eram muito boas. Mas depois ele faleceu, coitado. Minha mãe faleceu num dia e meu marido no dia seguinte.

 

P/1 – Um morreu num dia e o outro no dia seguinte?

 

R – Minha mãe ia pra igreja. Ela era muito baixinha, o ônibus dela estava passando na [Avenida] Nove de Julho. Estava parado, ela fez sinal, mas o chofer não viu. Ela, em vez de passar por trás, passou pela frente e o ônibus pegou. Quando ela ia passando, o ônibus deu a partida e a segurou embaixo da roda. Aí tinha que alguém ir ver. Eu disse para o meu marido: “Você não vai, você não pode ir. Vamos mandar alguém.” “Não, eu preciso ir, eu que tenho que ir.” Ele foi, viu tudo, coitado. No dia seguinte, às nove horas da noite ele faleceu. Sofri muito. Aí mudei para o apartamento e comecei a minha vida de desenhos.

 

P/1 – Foi a partir daí que a senhora começou a desenhar? A senhora não desenhava antes?

 

R – Não, lá em casa eu não desenhava. Comecei a desenhar depois.

 

P/1 – Nesse tempo a sua filha já era casada?

 

R – Era. Comecei a desenhar e fui aparecendo.

 

P/2 – Quando a senhora se mudou para o apartamento onde foi morar? Em que rua?

 

R – Para o apartamento? [Rua] Fradique Coutinho, 484, apartamento 02. Está alugado agora. Era um apartamento muito bom. E ali, depois, eu fiz teatro. Eu entrei pra escola de teatro do Fontana e foi uma alegria! Eu estava muito nervosa, muito nervosa mesmo. Foi muita alegria, todos aqueles amigos da escola de teatro.

Eu ia duas vezes por semana e fiz cinco peças. Cinco peças e todos os alunos davam a opinião deles. Davam opinião e eu dizia: “Bom, a D. Zica sempre vai muito bem. Nos outros é que... Mas D. Zica vai sempre muito bem.” Eles, aos sábados e domingos, iam lá em casa tomar lanche. Nós ensaiávamos e conversávamos. Tenho uma amiga que está até hoje comigo. Ela soube pela televisão que eu estava por aqui e ela apareceu, a Lucélia. Esteve agora na Holanda, foi visitar o marido, levar os filhos pra ele ver. Ela levou o CD; diz que ele adorou o CD e toca todo dia, na Holanda.

 

P/1 – D. Zica, destas cinco peças qual foi o papel que a senhora mais gostou? Que a senhora representou?

 

R – Senhorita Nina. Era uma datilógrafa velha, o patrão [a] trocou por uma moça e ela ficou... Ela tinha ajudado muito. Gostei muito da Senhorita Nina. E depois, o Haroldo, que era o nosso colega, ensaiava a gente, foi lá no Teatro Anchieta. Conseguiu que eles abrissem às dez horas da noite pra apresentarmos a nossa peça. Os dois diretores lá, sentados, assistindo a gente no palco. Eu achei formidável, isso. Apresentamos a nossa peça; ele chamou um por um e falou com eles. “A senhora, D. Zica… É uma pena a senhora ter chegado hoje, porque se tivesse vindo oito dias antes já estaria encaixada numa peça. A senhora é profissional.” Eu fiquei felicíssima, mas não podia porque eu tinha regime. Sempre tive muito regime na vida. Todo mundo come de tudo, mas eu como só arroz, batata, cenoura, chuchu e abobrinha, leite e torrada e açúcar, só, porque eu sempre tive distúrbios de intestino, de estômago, de tudo. Sempre fiz um sacrifício, a minha vida foi um sacrifício sempre. Eu só como isso. Não chupo uma bala, não chupo um doce, não como uma fruta, não como nada, só isso. E com pouco sal.

Eu faço muito sacrifício, acho que é por isso que Deus me ajuda.

 

P/1 – D. Zica, por que a senhora deixou o teatro?

 

R – Porque eu fazia regime. Eu não podia pegar o teatro sério. Mesmo o amador, gostaria de... Mas eu não posso porque eles viajam, eu tenho regime. Como é que eu posso? Eu não posso nem viajar porque tenho regime. Não posso ir a lugar nenhum. Quando eu vou, já vou jantada, já vou almoçada. Todo mundo come de tudo e eu passo anos, estou há anos assim.

 

P/1 – D. Zica, conte um pouco pra gente sobre o seu casamento. A senhora estava contando antes que...

 

R – Ah, meu casamento. Eu estudei na Igreja Imaculada Conceição, tinha um externato lá. Nossa professora era D. Lourdes. Eu subia a Rua Haddock Lobo -  nós morávamos na Alameda Itu - e andava um pedaço da Avenida Paulista, que era uma maravilha. Como era bonita a Avenida Paulista! Que beleza! Todos aqueles palacetes com jardins grandes, cheios de flores, grades, cheios de lampiõezinhos, de árvores. E eu ia colhendo flores pra levar pra minha professora. Eu estudei lá com sete anos. Aprendi a ler, escrever, contar lá. E aprendi também... O padre de lá da igreja me deu a comunhão e me ensinou o catecismo.

Quando saía… Às vezes saía [ao] meio-dia, caía tempestade. Eu entrava pelo [Parque] Trianon, tinha uma estátua lá; eu segurava na perna da estátua pensando que o raio não me pegava porque a estátua estava ali, estava me protegendo. Chegava em casa feito um pinto, coitada de mim. Molhada. Às vezes mamãe não estava em casa, quem me dava um prato de comida era a Dona Sântola, que era uma senhora que morava pegado. E assim é a vida da gente, né?

 

P/1 – E aí quando a senhora foi casar… A senhora estava falando do padre.

 

R – Depois de muitos anos. Quando meu marido se formou, nos casamos. A minha irmã foi encomendar um casamento muito simples porque os filhos do meu cunhado tinham ciúmes de mim, então ela fazia o menos possível pra mim, pra eles não terem ciúmes.

Ela foi e falou com o padre que queria um casamento bem simples. Ele disse: “Mas meu Deus do céu, porque a senhora quer um casamento tão simples pra sua irmã?” “Eu quero, preciso.” Bom, passou. Eu fiquei meio triste, mas... No dia do meu casamento caiu uma chuva na hora de eu sair. Sem trovão, chuvarada mesmo. Eu me atrasei quarenta minutos.

Tinha uma moça, Grotera, muito rica, que ia casar. E eles, de medo que eu chegasse atrasada e não pudesse enfeitar o altar, enfeitaram com pirâmides de camélias. Quando eu entrei, entrei debaixo de guarda-chuva do Sr. Félix que estava... Quando eu entrei, abri a porta, vi aquele altar enfeitado. Fui chorando até lá! Meu cunhado me levou, foi meu padrinho. Quando eu vejo o padre, [era] o mesmo padre que me deu a primeira comunhão, me ensinou o catecismo, me casou. Mas não é tudo por Deus? Eu queria dizer: “Padre, eu sou aquela menina que o senhor ensinou o catecismo, que o senhor deu a primeira comunhão.” Mas como é que ele ia saber? Já tinha sido [há] muito tempo.

Eu [me] casei com 24 anos. Foi [há] muito tempo. Fomos para o Guarujá, passear um pouquinho por lá. Depois fomos pra nossa casa na [Alameda] Eugênio de Lima. Depois veio a minha filha.

 

P/1 – A senhora só teve uma filha?

 

R – Só. Eu quase morri pra ter ela, fiz cesariana. É um amor de filha. Brabinha, muito braba, mas é um amor. Ela faz o que pode.

 

P/1 – D. Zica, a senhora estava falando dos bailes lá no Grêmio Luso-brasileiro, da época que a senhora era criança. Quando a senhora era jovenzinha, adolescente, a senhora ia em algum baile?

 

R – Eu ia ao Clube Comercial, na Rua Líbero Badaró. Eram uns bailes bonitos, sabe? Uma orquestra bonita, eram uns bailes maravilhosos! Vestido comprido, decotado atrás. E os cavalheiros todos de preto. A gente dançava, era uma beleza! A orquestra era uma beleza, o salão era uma beleza! Dançava lá.

 

P/3 – A senhora se lembra de alguma música que o povo gostava naquela época?

 

R – Eram umas músicas muito boas, muito bonitas. Agora eu não me lembro bem quais músicas eram, mas a gente dançava de tudo. Dançava samba, dançava marcha, dançava valsa, dançava tudo. Tinha uma música que eu me lembro... Agora não lembro, não me lembro não. E assim a gente foi vivendo.

 

P/2 – D. Zica, e na época do carnaval, a senhora gostava do carnaval? A senhora se fantasiava?

 

R – Se eu gostava do carnaval? Nossa Senhora! Como eu foliei no carnaval, puxava cordão... Eu ia para o Teatro Municipal, onde eles davam os bailes oficiais; eu ia de Marquesa dos Santos - chapéu de palha, vestido comprido. Puxava cordão, era uma folia! Quebrei a perna, quebrei o braço e quase morri de comoção cerebral.

 

P/1 – Comoção cerebral por quê?

 

R – Porque eu caí sentada num dos bailes que nós fomos lá. A minha irmã tinha uma fazenda em Itapira, fomos pra Itapira. Primeiro foram as crianças e as mulheres, depois meu marido e meu sobrinho. Eu estava [fantasiada] de legião estrangeira, dançando lá, cantando, e eu escorreguei. Com as botas, escorreguei, caí sentada defronte ao Bellini, o jogador de futebol. Ele deu uma gargalhada, achou tanta graça no meu tombo, mas quando eu levantei comecei a sentir tontura, uma tontura que só vendo. Meu marido e meu sobrinho - que era médico, ‘cancerologista’. Era Antônio Cardoso de Almeida, da família Cardoso de Almeida de São Paulo -, ele disse “O que você tem?” Eu disse: “Estou tonta.” “Por que?” “Porque eu caí sentada.” “Caiu sentada e está tonta? Está com comoção cerebral, vamos para o hospital.” “Mas você acha?” “Você está com comoção cerebral.” Ele sabia que eu não bebia nem água. Bêbada eu não estava, estava mesmo sofrendo. Até chegar no hospital foi aquela luta.

Cheguei lá [fantasiada] de legião estrangeira; não tirei nem as botas, fui pra cama direto. O quarto ficou cheio de confete. As irmãs de caridade, quando entravam, olhavam assim, com uma cara feia. Eu fiquei a noite inteira assim, estiradinha, sem me mexer. Graças ao meu sobrinho eu não morri. “Se eu não estivesse lá, Zica, você morria.” Foi um negócio, viu?

 

P/2 – E depois desse problema que a senhora teve, nos outros anos, a senhora voltou a brincar o carnaval?

 

R – Ah, voltei, claro. Eu dava bailes em casa. Dançava a noite inteira e depois, de manhã, ainda ia limpar. Tinha confete até no estuque, ia lá com aspirador pra tirar. Nós nos divertimos muito. Depois meu marido morreu, aí eu entrei em tudo quanto foi escola. Pra me distrair, sabe? Eu estava muito nervosa. Eu fiz português umas três vezes, aprendi um pouquinho de inglês, um pouquinho de francês, um pouquinho de italiano… Ia pra escola.

 

P/1 – A senhora tinha quantos anos quando ele faleceu?

 

R – Ele morreu com 52… Eu tinha 49 anos.

 

P/1 – Qual foi o problema dele?

 

R – Ele sofria do coração, coitado. Teve um enfarte. Foi uma coisa triste.

Depois fui vivendo assim, fui fazendo meus desenhos, minhas pinturas... Eu pintava também. O Roberto Ruggiero foi comprando os desenhos; agora ele está com um monte de desenho e vende bem caro. E eu fico no ‘ora veja’!

 

P/2 – O seu trabalho já foi pra alguma exposição fora do Brasil?

 

R – Foi. Foi pra Paris, pra Portugal, pra Tel Aviv, pra Itália, Nápoles, e foi pra Holanda. E todos os lugares me mandaram medalhas. Mas essas medalhas eu não considero. Eu considero as medalhas ganhas aqui no Brasil, que o Eric leva no Brasil inteiro. Essa eu considero, mas as de fora eu não considero.

 

P/1 – Por que, D. Zica, a senhora não considera?

 

R – Porque eu não sei se deram porque mereceu ou se não mereceu. Sei que eles mandaram, recebi, mas essas eu não quero. Eu conto as quatorze que eu ganhei aqui porque sei que foram críticos que deram a medalha. Teve até pouco tempo uma outra exposição, deram medalha pra todo mundo. Mas que história é essa? Dar medalha pra todo mundo! Qual é o merecimento? Ganhei uma medalha, desse tamanho! Está lá. É um pedaço de ferro que está aí.

Dar medalha pra todo mundo! Pode? Medalha é merecimento, a pessoa que merece é que ganha uma medalha. E agora eu estou ganhando também dos coloridos que eu estou fazendo. Já ganhei de bronze, agora já ganhei uma de prata e vai indo.

 

P/1 – A temática dos seus desenhos é sempre a mesma? Você sempre retrata a cidade?

 

R – É, eu faço bico de pena. Agora estou fazendo com lápis colorido porque eu estou com catarata, bico de pena cansa muito. E também estou um pouco trêmula, sabe?

 

P/1 – E as composições? A senhora ainda continua compondo?

 

R – De vez em quando vem uma loucura, então me perguntam: “Como a senhora fez essa música?” Eu digo: “Olha, todo compositor é louco. De vez em quando vem um negócio que a gente não sabe de onde vem e de repente sai uma música.” O que que a gente pode dizer? Como aquela [“Na areia”. Começa a cantar]: ‘Veja a lua se quebrando, meu bem, nas ondas do mar/Noite clara e pontilhada, meu bem, de estrelas a brilhar/ Na areia, na areia, na areia a onda vem se arrebentar/ Na areia, na areia, na areia a onda vem se arrebentar/ Na areia, na areia, na areia a onda vem se arrebentar/ E vai pro mar, e vai pro mar/ A linguagem da folhagem faz a gente recordar/ Faroleiro avisa o barco pra da rocha se afastar/ Pescador está descansando numa rede a balançar/ Espuma branca esborrifando beija a pedra e vai pro mar/ Na areia, na areia, na areia a onda vem se arrebentar.’

Foi em dez minutos. Como é que a gente pode explicar? Vem música e letra juntos.

 

P/1 – A senhora pensa os dois juntos? Não pensa separado?

 

R – Apanho o caderno; quando eu vejo que vai sair, apanho o caderno e faço música e letra. É engraçado, é interessante, é tudo louco. Me perguntaram diversas vezes como é, e é loucura. A gente não sabe o que que é, é um negócio que dá na gente. Como aquela… Do tempo da ‘Viagem à Lua’ [“Eu vou pra lua”. Começa a cantar]:

“Eh, ê, ê pro foguete ‘vô’ correr/Vou levando candeeiro/Pros lunáticos me ver/Vou avisando já os poetas/Pra na lua ‘arreparar’/Pra ir pegando nas canetas/Que ela vai amarelar/Vou levando cobertor/Muita roupa e fogareiro/’Pruque’ lá não faz calor/E é noite o dia inteiro/Eh, ê, ê, pro foguete.../Com o fogo e com a roupa/A lua vai se ‘aderreter’/A vida lá não fica sopa/Com a água eu vou correr/Se eu ficar lá feito cacho/É sinal que vou cair/Se a terra tiver embaixo/Esborracho por aqui.”

É assim, [em] dez minutos. Tem muito mais coisa pra contar, mas...

 

P/1 – E quando a senhora veio morar com a sua filha?

 

R – Agora, há pouco tempo. Ela quis, quando ficou viúva. Dizia que tinha que ir toda hora me buscar. Achou melhor eu ir morar com ela, agora estou morando com ela.

 

P/1 – E vocês vão pra fazenda sempre?

 

R – Sempre. Vamos uma vez por mês pra fazenda. Ela fica oito dias lá pra tomar conta da fazenda porque o marido dela também faleceu. Nós ficamos lá. Eu desenho lá também, mas gosto mais daqui. E é isso.

Tenho feito muitas exposições. Eu fiz lá no INCOR, ficou lá vinte dias, depois pediram pra ficar mais. Fiz no Morumbi, fiz numa porção de lugares.

 

P/1 – A senhora tem noção de quantos quadros, quantos desenhos a senhora já fez?

 

R – Se eu sei quantos? Ah, não sei, perdi a conta. O Eric está guardando pra mim. E o Roberto está com um monte lá, de modo que eu não sei quantos tem. Muitos sumiram, vão para os salões e somem. Acho que ficam lá no acervo, ficam com os quadros. O que a gente vai fazer? A gente não pode fazer nada, né?

Toquei sanfona. Um acordeom grande, tocava.

 

P/1 – Essas festas que a senhora dava na sua casa, as pessoas levavam instrumentos pra tocar, como era? Tinha música?

 

R – Não, era eu que tocava violão, com um companheiro meu que me acompanhava. E às vezes cantava sozinha também. Cantei muito tango. Cantava tango, cantava bolero, música italiana. Sempre gostei de cantar tangos.

 

P/1 – A senhora não fez nenhuma música em ritmo de tango?

 

R – De tango? Eu fiz, mas esqueci. Com a mudança, tudo... Tenho muita música esquecida.

 

P/3 – D. Zica, dos compositores que a senhora viu, ouviu a música deles, de quem a senhora gostava?

 

R – Ah, Noel Rosa. Noel Rosa era formidável. Tem muitos formidáveis, muito bons. Todos os antigos eram muito bons. Os modernos, tem um ou outro bom, o resto...

 

P/3 – De quem que a senhora gosta dos modernos?

 

R – Gosto do Noel Rosa, do Jobim, gosto de uma porção deles que eu não me lembro o nome agora. O Noel tem... Qual é uma música que eu canto sempre dele? Agora eu esqueci. Tem uma porção de músicas bonitas.

As antigas são bonitas, as de hoje... As gravadoras é que estão tomando conta. A gravadora quer ganhar dinheiro, então qualquer porcariazinha funciona, faz sucesso, de modo que assim não é possível... Não é possível entrar num meio desse com a gravadora porque ela só põe porcaria, já reparou? Eu ponho na [Rádio] Cultura pra ouvir uma música bonita, só [toca] porcaria. As músicas bonitas mesmo é no interior que a gente ouve. Quando eu vou pra fazenda eu ouço cada música bonita, mas cada música… Mesmo as sertanejas são lindas. Aqui toca sempre a mesma coisa.

 

P/1 – As músicas que tocam lá na fazenda, são pessoas que tocam e cantam ou a senhora ouve no rádio?

 

R – Eu ouço no rádio. Ouço lá do Rio Grande do Sul o canal, não me lembro o nome agora… O canal dele [se chama] ‘Não sei o que da Madrugada’. Eu ouço bem o Rio Grande do Sul, os cantores de lá.

 

P/2 – A senhora hoje nos presenteou com o relançamento das suas músicas. E as músicas que a senhora fez que estão engavetadas? A senhora tem a pretensão de gravá-las? Como a senhora vai fazer?

 

R – Sim, são essas que eu vou gravar. Eu vou registrar, tenho pretensão, mas vamos ver se dá. Depende de Deus.

 

P/1 – D. Zica, a gente já conversou bastante sobre vários assuntos. A gente queria saber se a senhora quer abordar algum aspecto da sua vida que a gente não perguntou. Quer falar alguma outra coisa sobre a sua vida, da infância, sobre as suas músicas que a gente não tenha perguntado? A gente está encerrando o depoimento.

 

R – Ah, coisas da minha infância estão naquele livro que te dei, “Onde estão os pirilampos?”. Tem muita coisa ali engraçada, aquela história do meu marido. Você quer que eu conte de novo?

Eu morava na Rua Fontes Júnior e às cinco horas da tarde eu regava o jardim. Eu tinha quinze anos e do lado de lá da rua passavam três rapazes, dois argentinos e um brasileiro. Os argentinos faziam adeus pra mim, me cumprimentavam, davam risada, e o brasileiro virava o rosto. Passava com uma pose que só vendo. Eu tinha ódio dele. Eu digo: “Mas por que que os outros me cumprimentam tão alegres e ele é assim?” É ou não é? Ficava com raiva. Mas depois, eu contando isso para o meu marido, ele disse: “Onde foi? Na Rua Fontes Júnior? [Às] Cinco horas da tarde, na Rua Fontes Júnior? Então era você aquela menina antipática que eu não cumprimentava de propósito, regando o jardim?” “Era eu, por que?” “Porque eu era o antipático.” Eu digo: “É, desprezou, comprou, tá? Agora aguenta.” Tem muita coisa pra contar, mas...

 

P/1 – Quando a senhora o conheceu, conheceu seu marido, foi amor à primeira vista?

 

R – Ah, foi.

 

P/1 – Ele era muito bonito?

 

R – Os filhos do meu cunhado diziam: “A Zica, a Zica...” Ele pensava que era uma velha de sessenta anos. “A Zica, a Zica... Deve ser uma velha, né?” No dia que ele me conheceu, viu que eu era mocinha muito alegre. Ele ficou ‘embestado’. Aí começamos a namorar.

 

P/1 – Ele era muito bonito, D. Zica?

 

R – Muito, muito bonito. A mulherada ficava assanhada quando o via que só vendo, mas eu nunca tive tempo de tomar conta, não. Eu tocava piano, estudava piano, estudava violão, fazia desenho, pintura. Não dava pra... Na minha casa tinha também… Sempre lidando na casa, o estudo da minha filha, tudo isso.

 

P/2 – E hoje, o seu passatempo? O que a senhora faz, além da pintura, pra passar o seu tempo?

 

R – Eu faço os casaquinhos dos pobres, eu e a minha filha. Fazemos uns quinze, dezesseis por mês. Eu mesma bolei o casaquinho, compro aqueles tubos grandes de lã e fazemos. Fazemos ali para o Clube Alto de Pinheiros, tem lá umas senhoras que costuram, fazem enxovaizinhos para os pobres. E nós é que fazemos os casaquinhos, porque ninguém quer fazer os casaquinhos, só nós. Ninguém quer fazer, de jeito nenhum.

Fico danada porque sapatinho elas fazem, de lã preta, lã vermelha, lã verde. Eu fico louca da vida! Não é porque a criança é pobre que vai usar um negócio daquele, então eu já compro os sapatinhos prontos pra eles. Pra que judiar da criança, coitadinha! Ela tem culpa de ser pobre? Não tem.

 

P/1 – A senhora compra a lã de que cor pra fazer os casaquinhos?

 

R – Amarelinho claro, amarelinho mais forte, cor de rosa claro, cor de rosa escuro, azul, azul mais escuro, bege... Ficam bonitinhos, muito bonitinhos. Minha filha prega os botões e a gente entrega. Faz dezessete anos que eu faço.

 

P/1 – Acho que a senhora já deve ter agasalhado muita criança, não é?

 

R – Graças a Deus! Tenho muitos netos por aí. E aconselho quem puder fazer uma pecinha por mês para fazer, né? Ou comprar mesmo, estão tão baratinhas hoje em dia. Precisa.

 

P/1 – D. Zica, a gente já está encerrando o nosso depoimento e tem umas perguntinhas que a gente sempre faz no final do depoimento. Uma é: a senhora mudaria alguma coisa na sua vida se pudesse voltar atrás?

 

R – Não. Mudar nada. Continuar assim, até morrer. Só estou pedindo a Deus que me ajude a fazer a operação da minha vista pra eu enxergar melhor, pra fazer meus casaquinhos dos pobres até a hora da minha morte. Estou pedindo pra ele. Tenho muita fé.

 

P/1 – A senhora ainda tem um grande sonho, um projeto a realizar?

 

R – Ah, não. Graças a Deus está dando tudo certo. Sei lá, eu não sei. Deus tem sido tão bom pra mim, tão bonzinho, está me dando tanta alegria! Às vezes eu fico com pena porque já não sou mais aquela moça com perna firme, tenho que sair sempre com pessoa. Tenho medo de cair, coisa... Já levei três tombos danados. Tinha muita coisa mais pra contar, mas eu não me lembro de tudo.

 

P/1 – O que a senhora achou de ter contado essa história pra gente aqui? Seu depoimento, a sua história de vida?

 

R – Eu acho que estou muito feliz, não esperava por isso, não. Nunca pensei que viriam aqui em casa saber da minha vida e coisa nenhuma, nunca.. Nunca esperei ir ao Ronnie Von; eu conheci o Ronnie Von desde mocinho, cantando. Canta bem ele, viu? [Não esperava] Voltar à televisão de novo.

Está tudo muito assim pra mim, estou boba. Sempre vem uma novidade, sabe? Graças a Deus. Os Trovadores Urbanos gravaram o ‘Lampião de Gás’... Eu fiquei feliz do Zuza gostar das minhas músicas porque ele entende de música.

Quando eu era menina, nós cantávamos uma música que eles cantam agora. Eu os acompanhei lá na Eletropaulo, [no evento] “Cem Anos de Eletropaulo”, aquele: “Maricota sai da chuva, deixa deixa de embromar...” Era música daquele tempo. “Maricota, sai da chuva que te podes constipar. A chuva tá peneirando, tá peneirando no ar...” Assim eu cantava, com cinco anos. E cantava também: “Tenho uma prima zarolha/gênio levado da breca/maneta da mão esquerda/não tem cabelo, é careca/Picada das bexigas e tem a mania eterna/calça oito, dez pares de meia/ para fazer grossas pernas/Que feia, que feia, que feia que ela é/E qualquer homem, ao vê-la, com certeza até perde a fé/E logo arranja um noivado, vão juntinhos para a missa/O noivo cai desmaiado ao ver a dentadura postiça/E ao dobrar uma esquina, uma velhota se agacha e grita cheia de horror: ‘Os seios são de borracha!’/Que feia, que feia...” Com cinco anos eu cantava isso. Muita, muita música...

Tango eu sempre cantei. ”Silencio de la noche”, aquela [“Mano a mano”, cantando]: “Rechiflao en mi tristeza hoy te evoco y veo que has sido/En mi pobre vida paria solo una buena mujer/Tu presencia de bacana puso calor en mi nido/Fuiste buena, consecuente, y yo sé que me has querido/Como no quisiste a nadie, como no podrás querer/Se dio el juego de remanye, cuando vos, pobre percanta/Gambeteabas la pobreza en la casa de pensión/Hoy sos toda una bacana, la vida te rie y canta/Los morlacos del otario los tiras a la marchanta/Como juega el gato maula con el misero ratón”. E vai por aí.

 

P/1 – Bom, D. Zica, a gente vai encerrar o nosso depoimento aqui, a sua história de vida...

 

R – ‘Casseteei’ bastante vocês, né?

 

P/1 – Não, nós estamos adorando...

 

P/3 – D. Zica, a gente começou o século com carroças e está acabando com computadores nas casas de praticamente todo mundo. O que foi nesse século que marcou a senhora nessas transformações? O que marcou pra senhora?

 

R – Eu só posso falar de 40, 50 anos pra trás, só, porque de lá pra cá nada mais serve. É uma barbaridade o que está acontecendo, né? Naquele tempo tudo era uma alegria, a gente feliz… A gente saía alegre, satisfeita, feliz, não tinha medo de nada, todo mundo... Olha, era uma maravilha mesmo. Eu me lembro da primeira viagem que fizemos pra Santos, quando eu tinha quatro anos.

 

P/1 – Foi de trem?

 

R – De automóvel. Saímos de noite, na serra de Santos, cruazinha como era. Foi minha irmã, eu e mais duas pessoas. Meu filho, quando chegamos na serra, a serra [era] cheia de pedras no caminho. Não tinha proteção do lado, aquele fordinho com aquele farolzinho fraco, sabe? Dava um medo que você não faz ideia. E tinha uma curva que tinha... A curva da morte, tinha uma caveira. O farol dava naquilo, a gente até ficava arrepiada de medo.

Saímos à meia-noite; chegamos às cinco horas da manhã em Santos. E aí a gente ia pra praia. Tinha umas cabines e a gente mudava a roupa, ficava o dia inteiro na praia e depois vinha de noite, toda vez, pra São Paulo. Mas era uma viagem perigosa; a gente tinha coragem de ir e ia. Precisava ver como era a serra. Às vezes tinha neblina, era um negócio! Hoje é tudo muito mais fácil, mas a gente tem saudades daquelas coisas.

 

P/1 – Bom D. Zica, nós vamos encerrar por aqui. A gente agradece o depoimento da senhora, a paciência de nos aturar aqui...

 

R – Eu que agradeço vocês. Muito obrigada, por amolar tanto vocês. Eu é que agradeço.

 

P/1 – A gente agradece também os CDs e os livros que a senhora deu pra gente, tá bom? Muito obrigada.




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