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História

A arte de lidar com pessoas

História de: Gilson Monteiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/09/2007

Sinopse

Gilson Monteiro nasceu em 1931 em São Paulo, mas passou a infância e adolescência morando no Rio de Janeiro. Ele nos conta curiosidades sobre a Era de Ouro do rádio, os primórdios da TV no Brasil, como acabou se tornando cantor e apresentador, sua atuação como professor e gerente de vendas, entre outros assuntos.   

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História completa

P/1 – Vamos começar pela identificação. Qual é o seu nome completo?

 

R – Gilson Monteiro.

 

P/1 – O local e a data de nascimento?

 

R – 23 de fevereiro de 1931, São Paulo, capital.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – José Benedito Monteiro e Conceição Boari Monteiro.

 

P/1 – E os avós?

 

R – Por parte de pai, Benedito Monteiro e avó, Maria Emília Monteiro. Por parte de mãe, Augusto Boari e Rosa Lomberi Boari, italianos.

 

P/1 – Qual a atividade profissional dos seus avós, o senhor sabe?

R – Meu avô, por parte de pai, era operário comum e fazia serviço de pedreiro;  meu avô, por parte de mãe, era mestre de obras e depois empreiteiro de obras para o qual o meu pai foi trabalhar. [Ele] conheceu a minha mãe e se casaram, aí estou aqui e tenho um irmão.

 

P/1 – Conte um pouco da atividade profissional do seu pai.

 

R – Meu pai era oficial do Exército. Morreu como capitão. Ele entrou no tempo em que havia o que se chamava ‘sortear: o Exército sorteava a turma de 18 anos de um determinado ano e calhou que foi sorteada a classe do ano de nascimento do meu pai. Ele é de Pindamonhangaba, veio servir em São Paulo e foi continuando a carreira.

Várias vezes ele quis deixar o Exército, mas nessa altura ele conhecia o General Cristóvão Barcelos. [Ele] É famoso na história do Brasil, é nome de avenidas em Juiz de Fora, onde ele nasceu; e esse general se apegou muito ao meu pai. Não o deixou sair do Exército de maneira nenhuma porque o meu pai era considerado um homem muito corajoso. Ele conseguiu galgar três promoções por ato de bravura. Meu pai era daqueles que fazia loucuras. Era Oficial de Cavalaria, que foi a área mais importante do Exército numa certa época; sendo disso aí, já era importante. Ele pegou promoções porque salvou a vida até de um governador do estado do Rio de Janeiro, numa reunião em Niterói. O indivíduo puxou uma arma para matar o governador e calhou que ele viu. Ele pulou em cima do cara, tirou a arma do camarada; nessa altura ele atirou, mas um tiro totalmente desviado, aí meu pai começou a ter um cartaz tremendo. Assim foi a vida do meu pai.

 

P/1 – Você se lembra do nome do governador?

 

R – Não me lembro. Era um governador do Rio de Janeiro. Eu era menininho, não tenho nem ideia, mas isso deve ser 1930, 28, 34… Alguma coisa por aí, é só localizar nessa época.

Quando veio a Revolução de 32, meu pai participou a favor de São Paulo. Isso é importante: meu pai participou a favor de São Paulo e quando os paulistas perderam…  Essa tal Revolução Constitucionalista [era] história para inglês ver. São Paulo queria realmente a separação do país, pena que eu esqueci de trazer a bandeira que os paulistas usavam, mostrando a bandeira paulista em cima da bandeira do Brasil. Era o domínio dos paulistas sobre o Brasil e a aliança, que eu também tenho…  As famílias davam ouro por São Paulo e recebiam de volta uma aliança de metal, que vinha escrito: “Dei ouro por São Paulo”. Não “Dei ouro pelo Brasil”, mas por São Paulo. Era nitidamente separatista, mas é claro que... Como nós perdemos, evidentemente mudou-se a história para uma revolução que queria Constituição. Baseado nisso, a Constituição veio, as coisas se organizaram e acabou ficando tudo muito bem.

Meu pai foi um homem desse tipo de vida, de uma coragem incrível. Era um homem que eu sempre admirei pela coragem fabulosa que ele tinha, um homem durão. Um homem - como todo militar, antigamente - valente, mas também escrevia poesias. Não era um homem de cultura porque ele saiu da roça, [havia] muitos erros de português no que ele escrevia, mas com uma inspiração tremenda. Eu, por exemplo, sempre me interessei muito por poesia porque, por incrível que pareça, ele era um homem que gostava de me ensinar. E um homem acostumado a viver nessa vida militar. Era meio indisciplinado, como todo homem de gênio muito forte. Era o caso dele, volta e meia ele estava preso; no quartel ele ficava preso. Então você pega… O Exército tem uma coisa que se chama Provisão de Reforma; ia trazer e esqueci. A Provisão de Reforma conta a história do militar dia a dia, como se fosse um diário, desde o primeiro dia que ele entrou até quando ele se reforma. Você olha aquilo e é engraçado, a minha família gosta, se diverte com isso. Você encontra um elogio por atitudes que ele tomou no exército; dois dias depois, tem uma cadeia por alguma coisa que ele aprontou. Sempre foi assim a história dele. [É] Isso que posso dizer a respeito dele.

 

P/1 – Muito legal. Você sabe a origem do nome da família Monteiro?

 

R – Não, não sei. Estive no Museu do Imigrante procurando exatamente isso e também não encontrei nada. Encontrei parentes dos meus avós da Itália.

Eu sei que Monteiro…  Isso era o que o meu pai contava - mas o meu pai tinha uma mentalidade um pouco fértil, não sei se é verdade ou não -, que o meu tataravô era índio e os padres o batizaram com o nome de Emílio Monteiro, alguma coisa assim. Talvez esse ‘Monteiro’ era pensando no padre Gonçalo Monteiro, que foi o representante do donatário de São Paulo, Martim Afonso de Souza. O rei de Portugal deu a Martim Afonso de Souza, que foi o homem da expedição exploradora de 1532, uma extensão de terra que compreendia o que era hoje São Paulo e Minas Gerais. Mas o Martim Afonso de Souza era um homem - aí já um professor de História falando -, um homem riquíssimo, muito bem situado em Portugal e não estava interessado em ir a um lugar de índio, então mandou Gonçalo Monteiro para cá. É o primeiro Monteiro que se tem notícia, pelo menos que eu tenha ouvido que tenha vindo ao Brasil. E hoje tem tanto Monteiro! Eu não sei se esse padre era direito, porque era padre e como pode ter tanto filho? (risos) Mas era normal também naquele tempo!

 

P/1 – O senhor tem um irmão? Qual o nome dele?

 

R – Tenho. José Roberto Monteiro.

 

P/1 – O que ele faz?

R – Ele trabalha, hoje em dia... Ele estudou Eletrônica. Trabalhava com eletrônica e hoje tem uma empresa distribuidora de alimentos. Coisa pequena, simples, mas dá pra ele levar a vida.

 

P/1 – Legal. Vamos voltar um pouco e descrever um pouco da sua infância. Como era, você morava onde?

 

R – Eu sempre... Na minha parte do tempo, moramos no que se chama subúrbio no Rio de Janeiro, que são os bairros servidos pela estrada de ferro, naquele tempo a Central do Brasil. Meu pai, como militar, sempre tinha a casa do Exército, então nós mudávamos muito. O exército cismava, vai para lá; uma casa, outra casa, então eu morei na Rua Frei Caneca, que é no centro da cidade, por causa do quartel general. Tudo no Rio de Janeiro.

Morei no Engenho Novo, no Rocha, no Riachuelo, no Encantado, no Engenho de Dentro, na Vila Militar, em Deodoro, que também faz parte da Vila Militar e em Realengo, que também era Vila Militar. Eram os lugares em que eu morava. Enfim, infância pobre porque o meu pai entrou no Exército como soldado, não fez AMAN [Academia Militar das Agulhas Negras], por isso não passou para capitão. Era uma vida pobre, uma vida pesada, mas que foi se levando.

O meu pai tinha muita vontade que eu estudasse e nunca mediu esforços para que eu fosse estudar, então meu anel de grau foi presente dele quando me formei em Filosofia. Ele sempre gostou demais que eu estudasse e eu gostava de estudar, então fui um bom aluno. Fazia as minhas baguncinhas também, mas era um bom aluno.

 

P/1 – Desses lugares todos em que o senhor morou, tem algum lugar que o senhor destacava de memória da infância?

 

R – As memórias que eu tenho de infância são as memórias de todo mundo da minha idade porque naquele tempo não havia casa sem quintal, e quintal que tivesse bom espaço, árvores frondosas. Então fui daqueles garotos que da minha casa, por exemplo… No quintal nós tínhamos mangueira, cajueiros, pés de tamarindo, pé de mamão; você sobe e desce da árvore, pega as frutas do próprio pé.

O que eu gostava mesmo no tempo de garoto e de rapaz era Carnaval! Acho que por isso eu nasci na segunda-feira de Carnaval, né? Eu fiz parte de blocos de rua, porque o Rio de Janeiro tinha muito esse negócio de bloco de rua. A sua rua formava um bloco entre os amigos e saía pela rua cantando, berrando e dançando. À noite ia para os bailes nos clubes. E [na] época de rapaz gostava de jogar a bola ao cesto. Não fui tão craque, mas não fui tão ruim. (risos) Dava para quebrar o galho.

Carnaval sempre foi uma delícia! O Carnaval tomou o primeiro golpe quando Jânio Quadros proibiu o lança-perfume. Naquele tempo já se usava o lança-perfume nas ruas, nos bares. A gente via uma menina, se interessava por ela, então jogava lança-perfume nela e aquilo era gelado! Se a menina gostasse, ela jogava lança-perfume em você também, então aquilo começava um namoro. Não sei a partir de quando começaram a descobrir que lança-perfume se podia colocar em um lenço e cheirar; você cheirava até que perdia os sentidos. Acho que foi a primeira droga de uso popular, aí veio o Governo e proibiu o uso de lança-perfume. Isso deu um golpe tremendo no Carnaval. O próximo golpe foi acabarem com os bondes, porque principalmente no Rio, pulava-se Carnaval nos bondes! Você tomava bonde, descia - no Rio de Janeiro sempre foi bonde aberto, nada como o ‘camarão’ [bonde fechado] aqui em São Paulo -, então você brincava nos bondes, pulava, cantava, todo mundo junto; ninguém se conhecia, mas ficava amigo na hora, aquela festa toda. Essa lembrança eu tenho muito, tanto que eu sempre gostei de música. Acho que a maioria das músicas de Carnaval do meu tempo eu conheço, ainda lembro de todas elas. Disso eu me lembro bem.

P/1 – E o senhor foi uma criança traquina? Aprontava ou era mais tranquilo?

 

R – Não, sempre fui bastante tranquilo.

 

P/1 – E as brincadeiras com os irmãos, com os amigos?

 

R – Só tinha um irmão, mas o irmão nasceu 11 anos depois, eu já era um rapazinho. Tinha os meus amigos, mas naquele tempo as crianças eram um pouco diferentes, pelo menos dentro do nível que a gente vivia. Embora não fôssemos ricos, havia um interesse maior pelo estudo. A escola era rígida, não tinha aquela escola do pai a favor do filho quando ele se dava mal na escola; pelo contrário, [se] havia um problema com a criança na escola, quando chegava em casa apanhava. Não como hoje, que o pai vai tomar satisfação com a escola, então criança muito traquina não era muito fácil. Talvez tenha muito folclore. Que eu me lembre, os meus colegas eram todos gente sem muitos problemas, não tinha... Eh, alguma coisa ou outra você faz, né?

 

P/1 – Como era o dia a dia, o cotidiano na sua casa?

 

R – Meu pai saía cedo para trabalhar, ia para o quartel e voltava à noite, isso quando não ficava de serviço. Quando ficava de serviço, só ficávamos eu e minha mãe. Isso durante 11 anos, quando nasceu o meu irmão. E o dia a dia [era]  estudar: vai para a escola, voltava da escola, fazia as lições. Você não tinha muito com que se distrair, a não ser com o rádio. Só havia rádio, não havia televisão, porque a televisão veio para cá em 1950! Antes disso eu já tinha visto televisão, porque em 1938 houve uma exposição industrial e comercial no Rio de Janeiro, que naquele tempo chamava-se Feira de Amostras, e pela primeira vez houve uma apresentação de televisão. Ela estava no começo, vieram lá dos EUA mostrar. Aquilo era bárbaro, uma sala [em] que fica a turma fazendo programa, cantando, falando, e a gente ficava, os assistentes, numa outra sala ao lado -  era onde você tinha o aparelho de TV e você assistia à televisão. Era um acontecimento, porque eles explicavam que aquilo estava alcançando um raio máximo de 40 metros - mais de 40 metros a televisão não conseguia transmitir -, mas um dia haveria em que a televisão seria transmitida para o país inteiro, inclusive para o mundo inteiro, e ninguém acreditava nisso. Essa foi a história da televisão desde a que eu vi.

Quando inaugurou a televisão aqui foi um desespero. Marcava-se, por exemplo, um jogo de futebol, então a televisão anunciava a semana inteira: “Agora vai ter São Paulo e Corinthians”. Chegava no domingo -  os jogos eram só nos domingos à tarde -, todo mundo sentava na sala: “Vamos assistir o jogo!” Entrava a programação no ar, aí ‘pluc’, sumia tudo! Lá vinha a voz do locutor de novo: “Por problemas técnicos não será possível transmitir o jogo hoje!” Aquilo interrompia aos montes. Quando inventaram os satélites a coisa ficou boa. Era assim que a coisa corria.

 

P/1 – O senhor mencionou rádio. Tinha algum programa que o senhor gostava?

 

R – Ah, tinha. Eu gostava da (?) 30, até hoje falam dela. Gostava de um programa que era exclusivo do Francisco Alves, aos domingos, na Rádio Nacional. A Rádio Nacional era o máximo que havia em matéria de rádio, era a [Rede] Globo de hoje. Eu ia muito ao auditório, que era na praça Mauá, no Rio de Janeiro, e assistia ao programa César de Alencar, que foi o programa mais famoso do Brasil durante um certo tempo, seria como o Faustão de hoje.

Iam lá grandes artistas. Ali eu via, por exemplo, Luiz Gonzaga, Ângela Maria, Emilinha Borba, Marlene. Por coincidência, a Ângela Maria, hoje, é amiga da minha família, então de vez em quando nos vemos em festas. Ela vai na casa da gente, a gente na dela... Nesse tempo, de resto, gostava muito de passear.

Uma vez, uns parentes meus aqui de São Paulo, uma prima e um primo, casados recentemente, foram passear no Rio. Quem era o cicerone? Eu. Quiseram conhecer Niterói e eu fui levá-los. Pegamos a barca até a Praça Quinze e fomos para Niterói. Quando chegamos do outro lado, já vimos que o tempo estava enfarruscando todo. Estava fechado, uma ameaça de chuva que não tinha nem tamanho. Eu disse para ele: “Não sei não se a gente vai conseguir ficar em Niterói”. Quando a barca chegou, veio o aviso que todos que fossem do Rio de Janeiro voltassem, porque o tempo estava ruim. Era a última barca que ia sair e depois não haveria mais, dadas as condições do tempo, aí [a barca] foi e continuou a viagem de volta, mas não deu nem tempo. Caiu uma tempestade dessas de grão bravo, mesmo. A barca estava leve porque a maioria dos passageiros ficaram em Niterói. Muito vento, as ondas levantavam muito, então quando a onda levantava, a barca ia junto; quando ela abaixava, a água invadia tudo aquilo. A barca era de dois andares, então todos os passageiros foram transferidos para o segundo andar e distribuídos coletes de salva-vidas para todo mundo. Quando estávamos, mais ou menos, na Baía de Guanabara, apagam-se as luzes do Rio de Janeiro. Não tinha nem mais orientação porque não dava; a barca, que normalmente levava de vinte minutos a meia hora para fazer a travessia em Guanabara, levou mais de duas horas para chegar ao Rio de Janeiro. Aquele dia foi um ‘medão’; fiquei extremamente satisfeito por um lado, sempre achei que era um indivíduo medroso. Quando acabou, encontrei um tempo para acalmar os outros. Não senti aquele medo todo. Achava que não ia dar nada, que a gente ia chegar normalmente ao Rio de Janeiro. E chegamos. Foi um dia de muito perigo mesmo, como já passei em avião. Já viajei muito de avião, já corri perigo, mas sem maiores problemas.

Eu gostava muito de passear nas matas da Tijuca. Hoje não sei mais como são as matas da Tijuca, mas o passeio ali sempre foi maravilhosamente lindo!

Torcedor do Flamengo no Rio, torcedor do Palmeiras em São Paulo (risos).

 

P/1 – O que o senhor destaca nesses passeios na mata? O que era maravilhoso?

 

R – Tinha, por exemplo, os animaizinhos silvestres. Uma coisa que sempre me encantou na Tijuca foram os camaleões, porque o camaleão é qualquer coisa de incrível - como ele muda de cor, ficando da cor do lugar que está e você quase não percebe a existência dele. É um bicho que atravessa a mata para lá, para cá. Muitos pássaros, árvores muito bonitas. Lá perto da Pedra da Gávea existia ou existe um tipo de árvore que chora durante alguns momentos daquele dia. Você vai debaixo da árvore e pensa que está chovendo; quando você vê, está caindo água só ali! Não choveu, não houve nada, a natureza dela era essa! Então é isso que eu me lembro bem.

 

P/1 – Fantástico.  Quando o senhor começa os estudos?

 

R – Quando comecei a estudar?

 

P/1 – Isso.

 

R – Desde o curso primário, na idade de sete anos.

 

P/1 – Descreva-me um pouco como era a escola. Onde o senhor estudou?

 

R – Eu comecei estudando numa escola perto de casa - na mesma rua onde eu morava, numa escola particular, e ali… Não é como hoje, começava-se analfabeto de pai e mãe, aos sete anos de idade. Lá que se aprendia a ler, escrever. Depois eu fui para… Esse [colégio] que eu estudei primeiro chama-se ginásio Riachuelo, mas era o curso primário. Dali fui para o Instituto São Francisco de Sales, um colégio de padres salesianos e foi ali que eu fiz o ginásio. Depois, fui fazer o segundo grau no Colégio Dom Pedro II que era, antigamente, o colégio padrão do Brasil. Todos os projetos de ensino tinham que ser baseados no Colégio Dom Pedro II. Se vocês forem em um sebo e pegarem um livro de 30 anos atrás, está lá, logo na primeira página: “De acordo com os programas do colégio Dom Pedro II, da cidade do Rio de Janeiro.” Era obrigatório, por isso o ensino era bom. Hoje cada um faz o ensino que bem entende.

Estudei ali e depois fui fazer a faculdade. Fiz a PUC, fui fazer Filosofia, aí fui ser professor de Matemática, História, Geografia, Didática; só não aprendi a ganhar dinheiro. Fui fazer Marketing também. Ganhar a vida eu não aprendi, mas dá para viver muito bem (risos).

 

P/1 – O que o senhor lembra de mais marcante nesse período escolar? Pode ser dos primeiros anos, dos últimos…

 

R – E me lembrei disso agora: no colégio de padres havia uma coisa interessante, eles - parece que até hoje é assim - eles têm a mania de fazer festinhas, shows, com a participação dos alunos. Um dia, ia haver uma apresentação - não se chamava show, era uma festa - e havia um rapaz que deveria cantar. Na última hora… Eu não me lembro bem… Rapaz não, garoto, [com] seus 15, 16 anos, ficou doente e não pode participar; precisavam de um [rapaz] que o substituísse. Vieram atrás de mim para que eu cantasse. Nunca tinha feito isso… Cantar, no lugar do rapaz. O padre insistiu; sempre fui meio bobo, nunca fui de dizer não.  Queria que eu cantasse e eu fui aprender na hora. Era uma canção italiana, tive o dia inteiro para aprender a música. Eu não sabia a pronúncia, o italiano eu conhecia um pouquinho por causa da família. Eu não sabia nada, fui aprender na hora e à noite fui cantar.

[Quando] Começa, eu estou cantando a música e com um medo danado, prestando atenção no piano. Até que estava indo, mas em um certo momento, o rapaz que acompanhava o piano deixou a partitura cair no chão. Ele, não vendo a partitura, errou a música. Eu segui atrás dele, fui no embalo, mas foi uma desafinação, um inferno! Todo mundo dando risada, foi um desastre. Talvez [tenha sido] a partir dali que eu resolvi aprender canto e mostrar que era capaz de cantar; se não fosse isso, eu nunca teria cantado na minha vida.

Essa foi uma participação realmente muito marcante. Marcante também foram as vezes que fui paraninfo de turmas, mas isso é normal para todo mundo. Não teve nada de excepcional.

 

P/1 – Dessas coisas de juventude, o senhor disse que era muito bom o ensino no Colégio Dom Pedro. O que o senhor lembra? Tinha algum professor marcante?

 

R – Tinha! Eu fui aluno de um professor chamado Júlio César de Melo Souza.  Você não sabe quem é, né? Eu garanto que sabe. Você já ouviu falar em Malba Tahan?

 

P/1 – O quê?

 

R – Malba Tahan, o autor do livro “O Homem que Calculava”?

 

P/1 – Ah sim, claro!

 

R – Ele era meu professor de Matemática, meu e dos meus colegas. Malba Tahan é fantástico. Ele escreveu livros como “Maravilhas da Matemática”, escreveu “O Homem que calculava” e vários outros livros. Ele conta as histórias como se fosse um matemático chamado Beremiz Samir e faz aquelas viagens ao Oriente, tem peripécias, sempre com cálculos matemáticos. É um troço maravilhoso de se ler! O que tinha de interessante é que ele nunca esteve no Oriente, mas [se] você lê um livro dele, você tem certeza que ele viveu lá! Com isso, a gente tinha um aprendizado fantástico! Era um professor incrível, ele tinha um método de ensino que era espetacular. Ele colocava um problema nunca dado no quadro e dizia: “Tenta resolver!” Depois que todo mundo brigava daqui, brigava de lá, ele ia vendo os resultados: “Bom, vamos lá. Alguns estavam caminhando certo, empacaram, agora vamos andar para frente!” Com isso, aprendíamos muito bem e conseguíamos entender bem. Foi um professor, um homem fantástico, sempre foi dele que eu tirei a minha imagem para dar aula. Aquela coisa que eu já te falei: aquele aluno que não consegue entender, para mim [o problema] não é o aluno, é o professor! Se o professor souber explicar bem, o aluno entende. Você pode explicar para 40 e todo mundo entender, mas se um não entendeu, você tem que mudar a explicação para aquele. Não há dúvida nenhuma!

 

P/1 – E o senhor considera que algum desses professores influenciou na sua escolha de carreira? Como foi?

 

R – Olha, a mim influenciou para que eu fosse estudar Matemática, que eu fosse me aperfeiçoar em Matemática.

 

P/1 – O senhor fez faculdade? A primeira foi em Filosofia?

 

R – Naquele tempo só se formava em Filosofia, depois você requeria o licenciamento em outras matérias. Não é como hoje, que o cara faz licenciatura disso, daquilo. Não, Filosofia é a base. Se você se formou em Filosofia, você está formado em tudo, tanto que o estudo de Filosofia durava cinco anos. O resto você requeria e, conforme a faculdade, você tinha os tais exames de didática especial, onde a gente então… Era sorteado um ponto, por exemplo, Matemática - eu me lembro até hoje o meu ponto sorteado. Sorteavam o ponto; tinha oito, dez professores da faculdade e você tinha que dar uma aula para eles como se eles fossem alunos. O negócio não era fácil. Você dava aquela aula e cada um tinha uma campainha na mão; quando ele discordava do que você dizia, ele batia na campainha, aí você voltava um pouco atrás porque poderia ser um engano e você corrigia. Comigo aconteceu: eu estava dando a minha aula e, de repente, a campainha: “pin”.

Parei, conferi todos os cálculos que tinha feito na lousa. Conferi tudo, ia começar a aula daquele ponto, cheguei ali e “pimba”: campainha de novo. Eu falei: “Mestre, não consigo entender onde está o erro!”

Era um professor, desses indivíduos meio recalcados, e ele disse-me assim mesmo: “O senhor fugiu da escola em alguma ocasião? Porque dá até impressão que o senhor é um pouco mais do que alfabetizado, só isso! O senhor falou agora há pouco: “‘De maneiras que’, onde o senhor ouviu falar isso?” “Mas por que? Não é ‘de maneiras que’?” Ele disse: “Não senhor, é ‘de maneira que’, ‘de modo que’! Esse ‘de maneiras que’ é burrice, é estupidez. Isso não existe!”

Eu disse: “Muito obrigado, eu aprendi agora!”. Mesmo assim, ele me deu nove e meio de média (risos), porque a aula estava boa.

 

P/1 – A matemática estava 100 por cento!

 

R – Estava 100 por cento, o problema dele é que eu falava ‘de maneiras que’ e é ‘de maneira que’. Também, você não esquece nunca mais na sua vida!

 

P/1 – Qual foi a Universidade que o senhor fez?

 

R – PUC.

 

P/1 – Do Rio de Janeiro?

 

R – Na PUC do Rio de Janeiro, no tempo dos padres jesuítas, que era os que mandavam em tudo. Hoje ainda são, mas naquele tempo eles eram muito atuantes. Hoje em dia, parece que tem muito professor leigo.

 

P/1 – O que mais você se lembra de histórias nesse período de faculdade?

 

R – Deve ter muita coisa, mas nesse momento, acho que é só isso mesmo.

 

P/1 – Nada muito marcante. E como era, o senhor tinha grupo de amigos? Como  eram os amigos da juventude?

 

R – Éramos todos muito amigos. O Rio de Janeiro tinha, talvez hoje continue, uma coisa muito diferente daqui de nós em São Paulo. Aqui em São Paulo a gente logo… Quando eu cheguei aqui eu percebi isso. É muito comum a amizade entre as pessoas, você vem na minha casa, eu vou à sua. O carioca nunca foi muito disso. Somos muito amigos, sensacional, incrível, [mas] você fica lá e eu aqui. Nós marcamos um encontro para dar um passeio. Se você marca um encontro com um carioca para dar um passeio, não precisa ir porque ele não vai aparecer. É tranquilo isso, de maneira que nós tínhamos uma boa amizade de colégio, saíamos juntos, [mas] frequentar a casa do outro não era comum.

 

P/1 – Que lugares vocês frequentavam?

 

R – Naquele tempo não tinha barzinho, nada desse troço. Era passeio mesmo, você ia à praia. Eu gostava muito de ir à Urca, a Urca era a praia - chama-se Praia Vermelha, que fica ao pé do início do Pão de Açúcar. O primeiro morro chama-se Morro da Praia Vermelha, o segundo é o Pão de Açúcar. Aquela praia que fica entre os dois chama-se Praia Vermelha. Daquela praia eu gostava demais, gostava da praia do Flamengo.

 

P/1 – E havia bailes?

 

R – Os bailes existiam, mas nunca fui muito de [ir a] baile. Eu gostava de baile de Carnaval; os outros bailes, eu nunca fui ligado, não. Os meus colegas gostavam muito, mas eu nunca... [Eu] ia, mas para mim era indiferente.

 

P/1 – E a prática de esportes, nesse tempo?

 

R – Fazia balão cesto, naquele tempo estava começando-se a jogar peteca de forma séria. Hoje tem até campeão olímpico de peteca! No meu tempo, isso não havia e eu adorava jogar peteca.

Que mais? Gostava de assistir algumas partidas de futebol. Eu também não fui tão ligado assim ao futebol. Brinquei agora, dizendo que sou Flamengo e Palmeirense, mas não me pergunte o nome de nenhum jogador de nenhum dos dois times, porque eu não sei nenhum. Também não vou a estádio ver jogo de futebol porque é uma cafajestagem. Aquela coisa que você vê todo dia, não ligo.

 

P/1 – E como era a moda nesse tempo? Como vocês se vestiam?

 

R – Havia umas coisas que... Bom, hoje sempre chama a atenção da gente.  Em primeiro lugar, as pessoas que tinham melhores condições andavam de sapatos.  Tênis sempre foi roupa para pobre - e eu adoro tênis. Hoje comecei a usar sapato, mas naquele tempo se identificava o indíviduo pobre pelo calçado. [Se] Está de tênis, é pobre. A calça de brim, hoje tão em moda, não existia. O que existia era um tipo de macacão feito de brim, daquele tipo que nos Estados Unidos os indivíduos usam. Os agricultores, roceiros usam aquilo e isso era o suficiente para que o Brasil não adotasse. Eram calças comuns, como era no rio de Janeiro; você tinha calça leve, essa maneira de se andar na sofisticação. Em relação a hoje continua a mesma coisa, a mocidade anda na rua de qualquer jeito, faz aquela farra. Claro que naquele tempo as roupas eram de melhor corte, mais apresentáveis, porque hoje, conforme o rapaz chega na rua, eu digo para a minha mulher: “Se eu fosse da polícia prenderia aquele cara, só pode ser bandido!”, mas não é. Hoje tudo vale, de qualquer maneira, o que eu acho muito melhor (risos).

 

P/1 – O senhor quer contar a história da primeira namorada?

 

R – A minha primeira namorada chamou-se Nilda. Ela era de Pernambuco, mas morava no Rio de Janeiro. Mas [era] aquele namorico muito diferente dos namoros de hoje. Namoro que vê aqui, lá, conversa, não sei como acabou. Depois você tem muitas namoradas através da vida, coisa absolutamente normal, sem nada de diferente.

 

P/1 – Como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – A minha primeira esposa eu conheci porque precisava passar umas músicas e ela morava em Santo Amaro, no mesmo bairro em que eu morei. Indicaram-me como uma ótima pianista, porque acompanhar é muito mais difícil do que só cantar e ela realmente sabia acompanhar. Eu fui lá e a contratei para ser só a minha pianista. Acabamos nos casando! Depois ela faleceu e essa minha segunda esposa foi minha aluna.

 

P/1 – Foi a música que os uniu, não é? Eu queria que o senhor contasse um pouco da história da música na sua vida.

 

R – A música foi... Como eu lhe falei, eu estudei canto, então é um tipo de música que não é, por exemplo, como uma música popular: “Vamos cantar uma música?” “Vamos!” [Para] música mais clássica você tem que manter-se preparado, que é a questão de altura de voz, afinação de voz. Em decorrência disso, eu precisava de uma pianista. Eu a conheci, nós nos entendíamos muito bem porque ela sempre foi uma exímia conhecedora da música. Formou-se pelo Conservatório Carlos Gomes, aqui de São Paulo, e era exímia mesmo, então eu dizia para ela o que queria e ela traduzia isso no piano. Eu estudava, ela percebia as falhas, corrigia e sempre foi muito bem.

 

P/1 – Quem foi o seu professor de música?

 

R – Foi o maestro Arturo de Angelis. Esse foi famoso na época dele. Principalmente por volta de 1950, 60, ele foi muito conhecido. Ele tinha sido professor também de Tito Schipa, um dos maiores tenores do mundo, que quando aposentou-se da música ganhou do governo da Itália um medalhão de ouro que vinha escrito: “Io ho cantato la patria”, quer dizer, ‘eu cantei a minha pátria’. Esse Tito Schipa quis me levar para a Itália para que eu fosse aperfeiçoar meus estudos de música, mas aquela história de [ser] preso a pai e mãe… “Eu fico aqui mesmo”, não fui de jeito nenhum, não quis nem saber. Esse foi Arturo de Angelis, um maestro fantástico!

Depois tive um outro maestro, estou lembrando agora. Tive um maestro chamado Aldo Petrioli, era o maestro da TV Tupi. Eu cantei [por] um tempo muito pequeno na TV Tupi. Agora que eu me lembro, esse Aldo Petrioli também foi meu maestro fora da própria Tupi, passava música com ele e tudo.

 

P/1 – Era um programa na Tupi?

 

R – Não, esse era free-lancer. De vez em quando precisavam para completar alguma coisa e telefonava, mandava recados. Se estava disponível eu ia, às vezes não ia.

 

P/1 – O senhor chegou a ter um programa?

 

R – Cheguei, no canal cinco, naquele tempo TV Paulista. Era aos sábados, das nove e quinze às nove e meia da noite; o programa chamava-se “Melodia”. Esse programa durava 15 minutos, cantava três músicas e, ao que parece, [tinha] uma boa audiência. Eu passava nas ruas e as pessoas já reconheciam. Cantei [por] quase dois anos, parece. É isso mesmo, naquele tempo os programas eram muito duradouros, não havia muito o que fazer, até que depois fiquei mais interessado em fazer outras atividades como magistério. Depois eu deixei, porque dava muito trabalho para cantar. Eu tinha um programa às nove e quinze da noite, [mas] tinha que estar na TV às cinco horas da tarde, para esperar os momentos da marcação de câmera. Sabe o que é isso?

 

P/1 – Não.

 

R – A marcação de câmera vai marcar como você vai interpretar... ó, ele conhece! O negócio é tétrico: é posição, tem que ver como você vai cantar, para onde você vai olhar. Isso levava tempo. Tem um monte de gente para fazer, então vai ter que esperar a vez, depois você vai fazer a maquiagem. Você faz a maquiagem, depois entra no estúdio para cantar. Quantas vezes… Porque na sala de maquiagem você já está ouvindo o que estão falando na TV. A TV já estava anunciando o programa e eu estava ainda lá fazendo maquiagem, aí anunciavam: “Nesse momento passamos a apresentar “Melodia”, com o cantor Gilson Monteiro”. Tinha ainda que subir para o andar de cima, aí subia correndo para chegar para cantar.

A televisão antigamente é que era bom. Eu vi um acontecimento que não tem nada a ver comigo, mas quem era da televisão do início sabe disso. Na TV havia uma espécie de novela, mas tudo era ao vivo. Teve uma certa ocasião que num programa… Eu não me lembro nem dos artistas, mas era gente famosa. A história é que o bandido tinha feito alguma coisa e um detetive que havia na historinha prende o… Está atrás do bandido. Ele prende o bandido, então está ele, naquele momento, diante do delegado. Isso tudo em cena e o delegado faz uma pergunta, mas ele e o outro falam ao mesmo tempo. Ficou chato. O que fazia o papel de delegado era um camarada já muito experiente. Quando isso aconteceu, para não deixar [o público] perceber, ele diz para o outro: “Cala a boca! Eu não te perguntei nada! Você só fala quando eu te pergunto!”. O outro, que também era um artista experiente, disse: “Está bem, desculpe a vergonha que eu estou passando!” Isso pegou da televisão para o mundo inteiro: “Desculpe a vergonha que eu estou passando!”

 

P/1 – Virou um chavão?

 

R – Virou um chavão na época.

 

P/1 – O senhor tem mais histórias da TV ao vivo, desses problemas que aconteciam por causa da transmissão?

 

R – No momento, eu não tenho muito. Tinha. Eu gostava, por exemplo, muito de auditório e estação de rádio e lá se via muitos ‘foras’ que aconteciam.

O Paulo Gracindo, esse você sabe quem é? Paulo Gracindo tinha um programa ao vivo; aliás, só podia ser ao vivo naquela época. Tinha um programa na Rádio Tupi, lá no Rio, na Avenida Venezuela. Uma vez, [com] o auditório cheio, ele tinha um programinha em que fazia umas perguntas e a pessoa ganhava não sei quanto em dinheiro. Coisa pouca, vamos supor que fosse hoje, talvez uns dez reais. E fazia uma pergunta: “O que é isso?” Alguém levantava o braço e se respondia certo, ganhava o dinheiro. Um dia ele diz assim, em pleno auditório: “Qual é o país, que tirando a última sílaba fica uma coisa que todo mundo gosta?” Um cara deu um berro: “Cuba!”  Putz, aquilo naquele tempo dava polícia. Botaram o cara para fora e o Paulo Gracindo levou uma bronca: “Vai ser cafajeste!”, mas o país era Canadá. Ele não pensou na outra hipótese. Isso tinha bastante. Outra vez tinha um programa de calouros que antecedia, acho, o programa do César de Alencar. O calouro vai lá para cantar, apareceu um rapaz numa época perto do Carnaval e havia uma música, aquela assim: “Branca é branca, preta é preta, mas a mulata é a tal, a tal...” O cretino chega lá: “Branca é branca, preta é bicho, bota a mulata no lixo!” Saiu preso dali também e o camarada desceu uma lenha que não tem nem tamanho. Isso acontecia bastante, era muito comum. Tem outras assim, mas essa está legal.

 

P/1 – Se o senhor se lembra de mais, pode contar!

 

R – Tem coisas que a gente não lembra e vai lembrando com o tempo.

 

P/1 – Então, voltando um pouco para a sua esposa, como foi o noivado? Vocês ficaram noivos, como foi?

 

R – Primeiro você namora um tempo sem nem encostar o dedo nela, todo mundo era assim. Depois de uns tempos, você consegue pegar na mão da moça.  Naquela noite você nem dorme porque a moça deixou você pegar na mão dela. Aí fica mais quente, beija, abraça, faz e acontece. Passam uns tempos, você fica noivo, prepara-se para o casamento e você se casa. O resultado disso foram cinco filhos.

 

P/1 – O senhor se lembra do dia do casamento?

 

R – Não, eu sei que eu casei na Igreja Imaculada Conceição, na [Avenida] Brigadeiro [Luís Antônio]. O casamento civil foi em Santo Amaro, na Catedral de Santo Amaro. Houve uma festinha muito íntima, só para parentes; eu nunca gostei de festões. Não é o meu jeito, nada desse negócio, de um monte de confusão. Cada um cuida de si e deixa o resto sossegado! (risos)

 

P/1 – Como foi o cotidiano do seu casamento?

 

R – Quando nos casamos, fomos passar a lua de mel no Rio de Janeiro, porque a minha mulher não conhecia. Fomos para o Rio de Janeiro, onde tomamos o trem - era Santa Cruz ou Vera Cruz, que circulava de dia e de noite. Era um trem muito chique, cheio de onda e nós fomos para lá. O casamento continuou comum, ela lecionava piano e eu lecionava nos colégios. Quando não estava nos colégios, estava em alguma empresa trabalhando e foi essa a vida…

 

P/1 – O senhor teve um filho?

 

R – Cinco!

 

P/1 – Com ela?

 

R – Com ela, cinco filhos!

 

P/1 – Quais são os nomes dos seus filhos?

 

R – Luis Roberto, Sérgio Augusto, que vocês conhecem, Marco Antônio, Carmem Lúcia, a única mulher, e Carlos Eduardo.

 

P/1 – E o senhor chegou a se casar novamente?

 

R – Casei novamente.

 

P/1 – Como foi essa história?

 

R – Foi vários anos depois. Depois conheci a minha esposa, de origem japonesa, chama-se Satiko.

P/1 – Sua primeira esposa faleceu…

 

R – Faleceu, infelizmente. Ela teve câncer, operou, foi tudo bem, mas depois deu o raio das coisas correlatas, como é que chama? Que faz...?

 

P/1 – Metástase.

 

R – Metástase. Não teve mais jeito. Aí [me] casei com a segunda esposa. Estamos juntos até hoje. Tudo bem, tudo ótimo.

 

P/1 – Qual o nome da sua segunda esposa?

 

R – Satiko.

 

P/1 – Com ela, o senhor não teve filhos?

 

R – Com ela, não. Como já tinha filhos, [eu disse] “vamos viver sossegado essa vida”, porque já não tinha mais idade. Se eu colocar uma criança no mundo com bastante idade, na minha opinião não é muito conveniente porque a distância de mentalidade se torna muito grande. Acho que um homem com, por exemplo, 50 anos ter um filho pequeno, dá muito conflito. Principalmente nos dias de hoje, que a criança vai crescendo com as ideias totalmente diferentes das ideias do meu tempo. Como vamos conciliar tudo isso?

 

P/1 – Como foi a experiência de ser pai?

 

R – Eu já era preparado, já sabia que a vida era isso. Aliás, todo mundo sabia no meu tempo, isso não teve… Não é fácil porque [eram] cinco filhos: preparar todos eles para colégio, faculdade. Todo mundo estudou, todo mundo formou-se, então acho que foi bom. Foi bom não, é bom!

 

P/1 – O senhor acredita que esta experiência de ser pai modificou as suas crenças de alguma maneira?

 

R – Não, foi mudado um pouco depois que eu tive netos! Eu tenho 11 netos. Hoje, com toda a certeza, eu seria um melhor pai do que fui. Não fui um mau pai, pelo menos é isso que dizem os filhos, mas eu acho que seria mil vezes melhor se eu tivesse sido primeiro avô, para depois ser pai. Você aprende muito mais com os netos, fica muito mais experiente, então aprende a entender a vida um pouco melhor. E depois é o próprio tempo, você vai aprender a compreender melhor as pessoas, principalmente entender as crianças porque eles têm uma forma de entender diferente, né?

Por exemplo, quando meus filhos brigavam entre si, eu nunca fui de ficar atrás do que tinha razão e castigar aquele que não tinha. Castigava os dois, colocava os dois de castigo para que eles se entendessem. “Você brigou com ela, não estão se entendendo? Você senta lá e você senta ali, vocês ficam aí. A hora que vocês resolverem conversar e se entenderem, vocês me chamem, aí vamos ver se a combinação foi feita certa”. Isso acarretou como resultado que os meus filhos nunca brigam. Nunca brigaram, não tem problema; quando tem, logo procuram se entender. E porque eu parti de um certo momento da vida. Criança dá informação: mesmo que ela esteja errada, ela sempre acha que tem razão. Se você dá razão ao irmão, à outra criança, ela se sente injustiçada porque não tem a capacidade de entender ainda bem o certo do errado, pelo menos em coisas mais sofisticadas. Então ficavam os dois, a minha providência era essa. Pôr de castigo os dois e vamos lá: “A hora que vocês se entenderem, me chamem!”

“O que é que há?”, “Nós já chegamos a um acordo!” “Já? Tudo bem!” Eu escolhia um. Sabia que ali, no momento, era melhor ver o acordo que ele tinha aceito: “Fala você, como é o negócio?” e você fica calado. “Quando estiver errado, eu vou deixar você falar!” Então você falava que estava certo, dá um beijo em cada um e podem brincar, era assim (risos).

 

P/1 – Muito legal. Qual é a atividade atual dos seus filhos?

 

R – Um é gerente de vendas de uma empresa que trabalha com material de precisão, hospitais. O outro é o Sérgio, que é professor e trabalha hoje em dia com programas de computação. O terceiro, que é o Marco Antônio, é diretor comercial de uma empresa de grandes estruturas; tem a Carmem Lúcia, que é professora de Educação Física, mas que exerce função numa empresa de... Dessas que instituem programas de empresa. Ela é gerente de uma coisa dessas e tem o caçula, que é o Carlos Eduardo. Esse é engenheiro civil e hoje é responsável pelas obras de uma das maiores empresas do ramo da construção daqui de São Paulo, a AZT. Se vocês forem para o bairro de Moema, por exemplo, onde se concentra muito [o trabalho] deles, na maioria das placas de obras e prédios de 25 a 30 andares você vê: “Engenheiro responsável: Carlos Eduardo Monteiro”. Sempre está o nome dele na ‘coisa’ da empresa, se saiu muito bem.

 

P/1 –  O senhor disse que foi um professor que o motivou a fazer o curso superior.

R – Não, a estudar matemática... O curso superior, eu me interessei porque gostava. É um caminho que eu decidi porque eu adorava.

 

P/1 – Havia uma pressão da família para que o senhor seguisse uma carreira?

 

R – Não. Meus pais, principalmente o meu pai, que sempre foi um homem muito durão… A escolha era minha, eu fazia o que quisesse. Ele nunca foi de decidir. Ele falava: “Você é quem sabe o que quer estudar ou fazer, só que tem que fazer uma coisa. Vagabundo, não!” Então eu decidi o que ia estudar, o que ia fazer.

 

P/1 – O senhor já entrou pensando em dar aulas mesmo?

 

R – Já entrei pensando em dar aulas.

 

P/1 – E qual era a expectativa que o senhor tinha da carreira?

 

R – A expectativa que perdura até hoje: você vai lecionar mais por um sacerdócio, porque gosta daquilo. Esperar ficar rico, ganhar dinheiro com magistério não dá.  Não dá mesmo, não tem a mínima condição, tanto que optei em trabalhar com outras coisas para resolver a vida.

 

P/1 – O senhor trabalhou em marketing também? O senhor fez faculdade também?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Como foi?

 

R – Tinha cursos que se fazia. Depois veio a DVB, com esses cursos regulares. A DVB antes só fazia cursos de marketing, que foi o que eu fiz. Eu fui sempre gerente, ora de promoção, ora de vendas, ora de vendas e promoção, depende da empresa. Fui gerente da Deca, dessa [empresa] de torneira, fui gerente da Abbott Laboratórios, esse norte-americano especializado em anestesia - pelo menos era, hoje não sei o que eles fazem da vida. Trabalhei na Eternit, onde foi menos desenvolvimento, até em termos de Brasil inteirinho… Ah, antes trabalhei com andaimes e estive também numa fábrica de esquadrias de alumínio. Acho que é só!

 

P/1 – Isso foi antes ou depois de lecionar?

 

R – Durante certo período era ao mesmo tempo, depois passou a ser essa a minha função especial, porque comecei a ver que lecionar não levava a nada, em termos de dinheiro. Afinal de contas, dei aula por anos e anos e não tinha nada. Comecei a trabalhar na indústria e todo mundo me falava: “Vai trabalhar na indústria, você vai ganhar dinheiro!” Fui trabalhar na indústria, porque enquanto era só no magistério, era aquela vidinha…

 

P/1 – O senhor estava falando do conceito de marketing. Explique qual é o conceito de marketing.

 

R – O conceito de marketing, na minha opinião, são todos os esforços feitos no sentido da venda. O que aparece de definição de marketing - e hoje é muito comum isso, todo mundo quer dar em todas as áreas muitas definições importantes - na verdade não é nada disso. Marketing são todos os esforços feitos no sentido da venda. Desde o limpador, desde o homem que limpa as salas, as mesas, até o presidente da empresa. A forma como o mensageiro entrega uma carta é marketing, dependendo da maneira como ele fez. O cobrador - principalmente o cobrador, que é normalmente um homem mal visto, ninguém gosta de ser cobrado -, se ele souber trabalhar, ele está fazendo um bom marketing pela empresa. Uma recepcionista, uma secretária, dependendo da maneira como essas moças ou rapazes trabalham, fazem com que o indivíduo fique voltado para a empresa. Ele acaba achando bom fazer negócios com aquela empresa. Nós temos, por exemplo, uma empresa que tem um marketing muito bom, que eu tenho notado. É esse supermercado Carrefour. No Carrefour, o que aconteceu no caso de eu comprar DVD... Levei para casa, abri, assisti e achei uma droga. Não era exatamente aquilo que haviam dito no estojo do filme, levei lá e expliquei. Me deram o crédito: “Você compra outra coisa, o que você quiser!”  Nunca discutiram. Eu cheguei a dizer: “Eu não gostei deste filme!”. Eu tive experiência em outras empresas e não vi esse resultado, mas no Carrefour eu vi isso. E não é só comigo. Com todo mundo, eu cansei de ver.

 

P/1 – Isso é marketing?

 

R – É, isso é marketing. Eu comprei um televisor grandão, tela plana, não sei o que lá, aqueles troços todos. Quando no outro dia eu vou ao Carrefour comprar não sei o que com ela, vejo o televisor 50 reais mais barato e disse: “Olha só! Agora está mais barato que ontem, quando eu comprei!” Procurei o responsável e perguntei: “Que negócio é esse?” Ele disse: “Não, tudo bem!” Fizeram a papelada e me deram 50 reais na hora. O Carrefour, me parece, procede dessa maneira. Tudo está na maneira como o cliente chega e se faz esclarecer, porque o que se vê normalmente são pessoas que chegam com as quatro patas em cima do indivíduo. Ninguém tem sangue de barata, então a reação é diferente. É natural, somos todos seres humanos. Você tem que entender que aquele funcionário que está ali, ditando normas da empresa, está fazendo aquilo que a empresa mandou.  Necessariamente não é aquilo que pensa, e você tem que entender por esse lado.

P/1 – Vamos retomar um pouco o período em que o senhor deu aulas. O senhor disse para mim que deu aula em vários lugares, não é?

 

R – Muitos colégios. Foi XII de Outubro, Ginásio Prof. Alberto Gomes, Ginásio Princesa Isabel, que depois virou faculdade, Ginásio Santo Afonso da Penha, tem muitos deles. As aulas eram mais fáceis de você dar porque havia um suporte por parte da própria família. A família apoiava muito os professores, as salas de aula eram amplas e talvez não tivesse tanto ‘luxinho’ como tem nos colégios de hoje, mas o indivíduo em si era infinitamente mais eficiente. Os professores obrigatoriamente tinham que conhecer a matéria que lecionavam. Hoje isso não existe, nem tanto, e eu falo isso de cátedra por falar com os professores [dos] meus netos, dos meus filhos durante algum tempo. Eu já conversei uma vez com um professor de matemática que me perguntou: “Por que quando eu tenho a incógnita negativa sou obrigado a multiplicar por menos um?” Perguntei para ele: “Você está brincando comigo?” Ele disse: “Não, estou falando sério! Nunca ninguém me explicou!” , aí eu expliquei para ele, mas…

 

P/1 – E por que? Explique para nós!

 

R – Porque a incógnita não pode ficar negativa; ela é uma coisa que você já determinou que é o resultado. O resultado é X, quer dizer, aquilo existe. Se ele for negativo, não existe, então você tem que multiplicar por menos um para que ela se torne positiva.

O resultado final pode ser menos 15, menos 18, tudo bem. 18 graus abaixo de zero, 18 graus acima de zero, tudo bem, mas a incógnita em si não pode ser negativa porque não pode existir denominador negativo e a parte do valor absoluto nunca pode ser o que vai como denominador, então ele não vai entrar negativo lá embaixo. Se entrar, você vai ter que multiplicar por menos um para que ela fique positiva e o de cima passe a ser negativa. O numerador pode até ser negativo, em alguns casos, mas nunca totalmente.

Então o que falta? Bom professor, falta esclarecimento e explicação! Hoje eu noto, por exemplo, que os professores fogem muito de Geometria. Trigonometria então, nem pensar, eles fogem disso, por que? Porque não tiveram preparo suficiente para isso.

 

P/1 – Eles não entendem o que estão lecionando, é isso?

 

R – O que se percebe é que entende-se muito pouco. Hoje em dia o professor trabalha com um tal Livro do Professor. Quando eu fiquei sabendo disso achei sensacional, o professor já recebe da editora o livro do professor, então eles te passam o exercício, eles te falam do exercício, mas ele tem o exercício desenvolvido no outro livro e é isso que ele passa. Se no livro estiver errado, vai continuar errado.

O Sérgio, esse [filho] que vocês conhecem, ele estudava em um colégio, não me lembro o nome, e uma vez ele veio com uma prova que tinha feito com um exercício da prova errado. Ele parece que tirou oito e queria tirar dez porque ele tinha acertado o exercício, o professor que estava errado... A gente, como conhece bem criança [diz]: “Está errado o que, rapaz! É claro que está certo! Deixa para lá!”. Mas ele insistiu, insistiu e eu corrigi o exercício. Não é que estava certo mesmo e o professor colocou errado? Eu disse: “Isso aí acontece, meu caro, professor é gente como os outros. Você vai lá amanhã, fala para o professor que ele vai corrigir e reconsiderar a nota.” Noutro dia, ele volta para casa e diz: “O professor disse que você que está errado! Que está certinho isto aqui!”

Fui ao colégio - aí já feriu o lado profissional. O professor me atendeu e eu [disse]: “É isso assim assado!’ Ele disse: “A resposta do teu filho está errada, a resposta é tanto!”, “Não é!” Ele disse: “É sim, está aqui no livro do professor” e mostrou. Eu disse: “Então está errado, você e seu livro do professor! Os dois estão errados!”. Como tinha sala de aula, eu falei: “Vem cá que eu vou fazer para você!”, aí fiz o problema para ele, cheguei no resultado e disse: “Você está vendo?” Ele disse: “Caramba, é mesmo!” Quer dizer, não que ele não soubesse, ele confiava no que estava no livro e você não pode confiar assim.  “Eu nunca pensei que pudesse ter erros assim!” Eu disse: “Tem e o aluno está brigando porque ele está certo!” Ele disse: “Ah, não caio mais nessa não!” Isso tem acontecido!

 

P/1 – E quando o senhor começou a lecionar, você se lembra do primeiro dia que entrou em uma sala de aula? Como foi?

 

R – Ah, lembro. Meu primeiro dia foi no Colégio XVII de Outubro, em Santo Amaro. Nunca havia lecionado em sala de aula!

 

P/1 – Foi durante a faculdade ou já depois de formado?

 

R – Já depois de formado. Foi o meu primeiro dia aqui em São Paulo, porque antes eu dava aulas particulares, como eu lhe falei. Dava aula até de latim, dava aula particular. No colégio foi a primeira vez, todo nervoso, o primeiro dia de aula. Eu chego para começar a dar aula, chegam os alunos e eu não atentei para o detalhe porque tem o estrado e você fica em cima daquele estrado com a sua mesa.  Não me atentei para a coisa e encostei na mesa com tudo. Ah, lá fui eu e a mesa para frente e blum no chão! Aquilo para os alunos foi uma farra incrível! Eu me esparramei no chão, foi uma farra desgraçada, um acontecimento para os alunos. Nessa hora você aprende, deixa. Claro, se eu estivesse lá eu ia rir também. Deixei extravasarem bastante, já tinha levantado, peguei um para me ajudar a colocar a mesa no lugar,  colocou e eu digo: “Bom, agora acabou a farra e nós vamos estudar!” Todo mundo passou a ficar quieto, tanto que adotei como prática, Chegava em sala de aula para começar uma aula, dava cinco minutos de farra. Fala o que quiser, brinca, faz o que quiser. Cinco minutos depois, quando eu disse, “acabou”, acabava mesmo, porque aí eles sabiam que eu pegava firme, e eu pegar firme era fácil.

Como é errado você dar um zero a um aluno indisciplinado, dado que, na minha opinião, cultura não tem nada a ver com comportamento, o que eu fazia? Cara que não ficar quieto vai fazer prova aqui comigo, aí ficava todo mundo quieto.  Se insistisse na brincadeira: “Vem cá, você!” e eu dava coisa difícil mesmo, que é para que ele não acertasse e tirasse um zero! Mas era matéria dele, calhava que às vezes eles acertavam... Então com isso eu não tinha problema, muito benquisto pelos alunos. Nunca tive problemas de disciplina em salas de aula, nunca.

 

P/1 – Algum aluno foi mais marcante? Alguma história com algum aluno?

 

R – Não, não teve. Pelo menos que eu me lembre, não. Naquele tempo, de um certo modo, eram todos mais ou menos do mesmo nível; para começar, você tinha exames de admissão ao ginásio… Está falando no tempo do ginásio, né?

 

R – Sim.

 

R – Naquele tempo tinha os exames de admissão, que já filtravam bastante. Os que não tinham preparo e capacidade já ficavam por lá mesmo, então você normalmente tinha classes homogêneas. Diferente de hoje, que numa mesma classe você pega alunos dos mais diferentes níveis de cultura. Dão níveis bem diferentes, aí o professor tem dificuldade.

 

P/1 – O senhor se lembra do primeiro salário?

 

R – Não.

 

P/1 – O que foi feito?

 

R – Não. Eu só me lembro do meu primeiro salário que eu ainda era estudante no Dom Pedro II, no Rio. Arrumei um emprego em um escritório de contabilidade, onde o meu trabalho era ir à rua levar os livros contábeis das firmas. Era um escritório de contabilidade que tinha como clientes padarias, açougues, mercearias, armazém e eu ia fazer a venda do tal livro de vendas à vista, que eu nem sei se existe ou como se faz um negócio daquele. Eu trabalhava, tinha aula, acho que de manhã, e trabalhava à tarde, até eu fazer essa coisa. Aquilo foi muito útil para mim porque, em termos de Rio de Janeiro, eu conheço tudo! Eu conheço o Rio inteirinho, porque era um trabalho em que ia nas empresas fazer o serviço, então você aprende as ruas. Aprende tudo, tal rua é para lá, para cá, você vai. Em São Paulo, que é a minha terra, eu conheço pouco, eu tenho dificuldade em São Paulo. No Rio, eu não tenho até hoje. Eu já levei gente para passear no Rio de janeiro, vou para cá, para lá. Por mais que modifiquem o Rio, ele não tem muito o que modificar. O Rio é uma faixa estreita, de um lado é o morrinho e do outro lado é o mar. Não é como São Paulo, que se expande para todos os lados.

 

P/1 – O senhor menciona que no fim da carreira foi indo mais para a área de marketing de trabalho e deixando um pouco as dar aulas. Quais foram as maiores mudanças que aconteceram por causa dessa mudança de trabalho?

 

R – Não houve nenhuma mudança marcante porque foi um negócio que já vinha estruturando, pensando fazia tempo. O professor que se envolve com marketing, dentro da área de vendas, por exemplo, não há uma grande mudança, porque o que é um gerente de vendas? É a arte de convencer o cliente a comprar uma coisa, é a arte de lidar com as pessoas na empresa porque você sempre encontra muitas pessoas com conflitos. E você tem que dar um jeito [para] que aquele conflito acabe, porque deixar levar o conflito em banho-maria não dá. Você tem que ter um pouco de discernimento para fazer que aquilo acabe numa boa entre todos. Não deixa de ser como em uma sala de aula, porque tem um cara que daqui a pouco não quer prestar atenção, tem outro que não gosta daquilo e você tem que tentar motivar todo mundo, então eu não vi grandes diferenças.

 

P/1 – É a mesma arte, aplicada de maneiras diferentes?

 

R – É a mesma arte, a arte do conhecimento e mais nada! Numa sala de aula, o professor primeiro tem que se vender ao aluno. Eu primeiro preciso comprar a boa vontade de vocês para que queiram ouvir a minha aula, porque se eu chego e já crio um ambiente de antipatia entre nós, não vai rolar de jeito nenhum, não tem jeito. Por maiores verdades e coisas bem feitas que eu faça, sempre vão achar que aquilo deve estar errado, então você compra a boa vontade dos seus alunos,  você compra a boa vontade dos seus clientes. O gerente de vendas é um homem que só vai se entender diretamente com o cliente quando as coisas apertam muito, aí vem o gerente de área te pedir auxílio, vem o supervisor, o próprio vendedor. Lá vai você, aí você tem que estar preparado como um professor e saber mais que os outros! Não pode chegar um aluno e te fazer perguntas que você não tenha noção da resposta. Você pode até dizer “Nesse momento não estou lembrando, daqui a pouco eu vejo e te dou a resposta”, aí você vai ver e vai dar a resposta para ele depois. É muito comum um professor mal preparado numa sala de aula dizer: “Não quero perguntas, hein? Não me atrapalhem!” Os alunos não entenderam, mas também não vão perguntar porque normalmente é aquele professor que diz: “Eu só dou dez para professor! Para aluno, o máximo que dou é nove!” Eu me pergunto: ele está dando aula para professor ou estudantes? São considerações diferentes, então o aluno, se foi bem tira dez, por que não? Não significa que ele está sendo comparado a um professor dele, ele está dentro da matéria dele!

É muito comum a gente perceber isso e acontece em vendas também. Aquele supervisor que não gosta muito de atender os vendedores, porque tem medo das perguntas. Daquele cliente que o vendedor fica meio receoso de atender, porque é um cliente que pergunta muito. “Eu não vou saber as respostas!”, então você pega a mão, pega o vendedor, vai junto com ele. O cara vai fazendo as perguntas e você vai ensinando por telepatia como ele decide aquilo. E aquelas reuniões que você faz normalmente para esclarecer as dúvidas? Só isso, não muda muito de um professor para gerente de empresa, não?

 

P/1 – Quais foram as principais lições que você tirou da sua história de vida?

 

R – As minhas lições de vida começaram nas minhas próprias aulas de Filosofia. Ali você aprende muito, há coisas que acontecem que você sabe que é assim e tem que ter o cuidado de aplicar aquilo. Você aprende que as pessoas não são perfeitas, nem você mesmo. Por mais que você saiba, que você tenha estudado, se preparado exatamente em cima daquele tema, daquela maneira de ser, você tem que aprender a respeitar o direito dos outros. Até de pensar de forma errada e não aquilo que você quer que ele pense, então [é] lição de vida que você tira: ‘dar corda’ e tentar trazer a pessoa para a realidade. Quando ela não vem à realidade,  você está demonstrando os erros que ela comete, mas ela insiste, não te resta outro caminho senão deixar aquilo. O que você vai fazer?

Sempre que puder você vai dar um toque, mas se não resolve, não resolve, afinal de contas nem Cristo conseguiu resolver os problemas do mundo, não conseguiu! Você pega todos os ensinamentos de Cristo - não estou discutindo Igreja nem coisa nenhuma, mas os ensinamentos de Cristo são perfeitos! As pessoas nem isso conseguiram adotar! Então quem sou eu para dizer que vai ter que ser do jeito que eu falo? Você vai adquirindo muita experiência; é claro que o magistério, o trabalho em empresas me ensinou muito e que eu, de uma forma ou outra, passo isso para os meus netos, filhos... Até hoje os meus filhos, quando têm problemas, recorrem a mim: “Isso, assim assado, como eu faço? Como eu resolvo isso? Como resolvo aquilo?”

 

P/1 – Que bom. O que o senhor achou de dar esse depoimento?

 

R – Gostei, pelo menos me fez recordar bastante coisa. Achei muito bacana, só não sei se alguma coisa foi de valia. Foi interessante, porque, por outro lado, eu não considero nada do que eu faço importante.

 

P/1 – Acho que o senhor está enganado!

 

R – Eu acho que foi a Ana que tinha me dito isso no telefone, mas eu continuo achando.

 

P/1 – Então, em nome do Museu da Pessoa nós agradecemos a sua entrevista, obrigado!

 

R – Eu é que fico grato com vocês. Houve bastante paciência, demonstraram bastante interesse e eu acho, pelo pouco que eu conheci, que eu já li de alguma coisa -  o próprio Sérgio me explicou - um trabalho maravilhoso, muitíssimo bem feito. Eu gostei disso, é bom! Serve para manter a lembrança, talvez não para os familiares de imediato, mas sim para os familiares de um futuro.

Eu tenho um neto de cinco anos - o mais novo, são onze netos - e tenho neto de 13 anos. Evidentemente, no futuro, quando quiserem saber quem foi o avô, e parte da família do avô, ali eles irão ter a resposta!

Acho isso muito importante porque fora disso você se perde. Por exemplo, a vida do meu pai, que foi uma vida que eu achei muito profícua e muito exemplar, muito interessante, só quem conhece mesmo essas coisas sou eu, de conhecer com profundidade. Precisará que outro membro da família se interesse para pesquisar as coisas, principalmente porque eu sou muito relapso e nunca me detive em escrever a minha história, da família ou do meu pai, embora eu ache que deveria ter feito. A família toda insiste que eu deveria escrever um livro. Eu também acho, só que nunca comecei!

 

P/1 – Quem sabe não aparece uma inspiração aqui!

 

R – Tá certo!

 

P/1 – Obrigada!

 

R – Eu que agradeço, agradeço mesmo!


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