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História

A arte da arte correio

História de: Paulo Roberto Barbosa Bruscky
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/02/2014

Sinopse

Paulo Bruscky relata em seu depoimento como os pais se conheceram em Recife, no teatro Santa Isabel durante uma turnê de artistas da Bielorrússia. Fala sobre sua infância, cheia de brincadeiras no bairro da Boa Vista e sobre como começou o curso de Medicina e trocou pelo Jornalismo. Recorda o envolvimento com a arte desde muito cedo e fala sobre as exposições e os trabalhos que fez, principalmente com a arte correio.

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História completa

O meu nome completo é Paulo Roberto Barbosa Bruscky, eu nasci no Recife em 21 de março de 1949. Meus pais se chamam Eufêmius Bruscky e Graziela Irene Barbosa Bruscky. Ele veio com uma trupe de artistas, na época era Bielorrússia. Ele conheceu minha mãe numa apresentação no Teatro Santa Isabel, em Recife. Ele não falava uma palavra em português, enamoraram mais por gestos. Isso foi nos anos 20. Ele era fotógrafo também, depois ele montou um ateliê fotográfico de onde vem praticamente a minha formação. Eu muito pequeno ia para lá. Depois, botou um restaurante chamado Volga, especializado em comida russa, que demorou pouco tempo. Minha mãe nasceu em Fernando de Noronha, na ilha, porque o meu avô era meteorologista de lá., Quando os filhos nasciam ele mandava para Recife com três anos para se educar. São sete comigo filhos comigo. Do mais velho para baixo eu sou o terceiro. Meus pais se casaram logo em seguida depois que se conheceram. Meu pai morreu cedo num acidente. O ônibus da universidade, o motorista estava embriagado e atropelou ele com o sinal fechado. Eu tinha acho que 17 anos e minha mãe morreu agora recentemente. Eu nasci e me criei, nos primeiros anos, na Praça do Hipódromo. Eu me lembro das casas onde eu morei, todas elas, sempre em Boa Vista. Morei um período em Olinda, cerca de quatro anos, depois voltei novamente por coincidência para Boa Vista. Nessa praça, era uma casa como uma vila as casas iguais, sendo que eram casas com quintais. Minha infância foi fantástica, porque eu brincava, rua descalçada, para jogar bola e bola de gude. Minha infância foi genial, nos meus trabalhos eu vou buscar muita coisa atrás na minha infância. Me vem à tona coisas na minha obra, eu tenho trabalho com bolas de gude, porque eu joguei muito, com futebol... Eu tenho anotações, a minha carreira toda, eu tenho uns livros que eu chamo banco de ideias, que eu vou anotando tudo, muita coisa que eu faço em bar, em ônibus, ou em qualquer lugar. Eu comecei na Escola de Aplicação, que ainda existe no Parque 13 de Maio. Depois fui para o Colégio Nóbrega e do Nóbrega para o Ginásio Pernambucano e depois para universidade. Eu fiz Jornalismo, eu sou técnico em comunicação. Dentro de casa, meu pai ouvia muita música, eu conheci a música clássica e também a literatura russa muito cedo. Sempre li muito, então eu tive amigo mais de literatura e música de que de artes visuais. Isso para mim foi muito importante, por papai ser tenor, ele cantava também muito bem. Depois fiz um projeto com um pessoal da USP, a cada segundo uma fonte nunca se repete, eu vim montar esse trabalho agora, apesar de ser do início dos anos 80, pela dificuldade de fazer uma instalação dessa. Dentro de casa eu sempre tive muito apoio. Ás vezes eu era repreendido por estar desenhando a própria sala e algumas coisas. Me marcou a literatura russa, o Dostoievski, por exemplo, “Crime e castigo”. São vários livros, é difícil você apontar um, a poesia, por exemplo. Sempre li muita poesia também na minha vida, então é difícil você dizer, o próprio João, João Cabral, que eu cheguei a fazer um livro com os poetas pernambucanos na voz deles, um livro e um CD. Já editei cerca de 18 livros, coordenado e idealizado por mim. Perto de 64 eu cheguei a fazer vestibular de Medicina, a cursar. Acho que influência, meu irmão mais velho e minha irmã são médicos, cheguei até o segundo ano e abandonei e cheguei a fazer parte do diretório. Então, eu fazia parte da turma que pichava, por eu ser artista. Me arrisquei muito, ia incendiar, eu sabia fazer molotov. A minha primeira prisão, foi na passeata dos cem mil, eu tinha 18 anos. Quando foi de noite eles soltaram a gente, de tanto estudante que foi preso, a gente estava amontoado. Minha mãe sempre me deu apoio, nunca me reprimiu. Eu sempre fiz minha produção, exatamente, eu sempre trabalhei, meu pai morreu muito cedo, a gente teve que começar a trabalhar muito cedo até por sobrevivência. Eu trabalhava na Joaquim Nabuco e eu fui demitido muito jovem, com 18 anos, considerado comunista. Depois eu fiz um concurso para INAMPS, que hoje é Ministério da Saúde e passei. Eu comecei trabalhando no hospital no setor de pessoal. Terminei meu curso, abriu um concurso logo em seguida e, por minha sorte, de técnico de comunicação. Tirei primeiro lugar no concurso e depois assumi. Me aposentei como coordenador geral de Recursos Humanos aqui do INAMPS em Pernambuco. Quando chegava fim de mês, antes era necessário muito trabalho e eu trabalhava, eu ficava até tarde da noite, então, eu sempre tinha as minhas folgas. E os próprios laboratoristas, eu comecei meus trabalhos, esse trabalho com o cérebro, eu fiz amizade com o Gilson Edmar e ele me cedia o consultório dele, uma vez por semana para eu fazer minhas pesquisas. Então eu trabalhei com raio X, com eletrocardiograma, que eu chamo “Sentimentos, um poema feito com o coração”. A minha formação é de desenhista, que é a base de tudo, você para fazer um instalação, você para fazer um filme, você para fazer tudo você tem que desenhar. Então, é uma formação, eu desenhei muito, eu muito novo, eu com 20 anos ganhei o grande prêmio de desenho aqui de Pernambuco, já tinha ganho com 17 o terceiro, eu acho, e em 71 entrei no Salão de Verão, com 22 anos. Entrei no Jovem Arte Contemporânea de São Paulo também com 21 anos, no Salão Nacional eu entrei com 21, 22 anos. Eu chamo arte correio, porque postal é um dos elementos que faz parte das coisas reguladas pelos Correios. Arte postal foi uma coisa de Pierre Restany, que organizou uma exposição que até teve aqui no Brasil, que eram só postais. Mas os Correios oferecia uma série de coisas que você podia explorar, veicular, geniais, não só postal. Então, em 71 eu participei do salão de Curitiba com uma obra conceitual com telex, que é um dos primeiros trabalhos a nível internacional, telex como proposta conceitual. A gente trabalhou com tudo que os Correios tinham, o envelope, o selo de artista, o próprio envelope como obra, o conteúdo, o postal, o aerograma, o telegrama, que era mais veloz, o telex, o fax em seguida, que já era transmissão em tempo real. O primeiro trabalho de fax arte no Brasil foi eu, aqui no Recife e Roberto Sandoval em São Paulo, em 1980. Na Arte correio, existia uma consciência de rede. O genial da arte correio é que existia uma corrente e os Correios era o único meio de comunicação incontrolável, hoje é um sistema digital, mas naquela época era manual. Existiam as correntes, como corrente de dinheiro, que você mandava um trabalho para o primeiro da lista, tirava dez cópias, botava nas cópias o seu nome embaixo e mandava. Isso cada um ia mandando e existia uma espécie de ética, que você recebia um trabalho mesmo sem conhecer a pessoa, você respondia com outro, claro que você não trocava correspondência com todo mundo, que era uma rede muito grande. E os Correios brasileiro eram muito eficiente, que era só correio, era um dos mais eficientes do mundo na época, era um prazo mais ou menos de uma semana para qualquer lugar do mundo, eu olhava a data do que eu mandava a correspondência e data que eu recebia. Meu arquivo é um dos maiores do mundo e está preservado. Tinha Liechtenstein, Nova Caledônia, vários países que eu nunca tinha ouvido falar, e recebi cartas. Preservar a minha vida, a minha história, eu tive proposta de compra milionárias pelo acervo, mas isso é a minha vida. Os países chamados socialistas sempre participaram... Eram utilizados pelos artistas tudo, do lixo a qualquer material, colagem, texto, não existia premiação, julgamento para exposições. Não existia uma estética, como não existia censura. Existia censura por parte dos governos, mas não existia nenhum tipo de negação de qualquer trabalho, eu acho que cada um se expressa da forma que quer. Eu utilizei as coisas do próprio correio, eu fiz uma performance com uma carta de dois metros por um Em 71 eu fiz uma exposição na Empetur, que o Exército fechou. Porque eu fiz o enterro deles, tinham vários trabalhos criticando o próprio regime, a censura. No dia seguinte eu fiz um caixão pequeno e convidei os amigos, fizemos o enterro da censura, eu nunca tive medo. Em 74 eu fui preso, exatamente por fazer trabalho de rua, intervenções. Quando eu saí da prisão eles disseram “Você vai parar com isso, porque a gente tem gente especializada no exterior, nos Estados Unidos, em acidente, eu posso lhe matar acidentalmente na hora que eu quiser. Eu vou lhe soltar, mas você está aqui na minha mão a sua vida e sua própria família, porque tem gente especializada”. Depois de seis meses eu fiz uma exposição chamada: “Nadaísmo”, uma exposição denúncia a Galeria vazia e fiz um manifesto e li. Também fiz um projeto chamado: “Os multimeios na reeducação da percepção sensorial”, voltada mais para um público infantil, para a bolsa do Guggenheim. Fui o artista mais jovem que ganhou, com 31 anos. Foi um período que eu passei em que eu dormia pensando e acordava para pensar, Tinha uma produção muito grande nessa época, a Xerox em Nova Iorque me deu uma semana para eu fazer meus filmes e outras pesquisas, que eu inventei um processo com filme, que eu chamo xerofilmes. Então eu trabalhei muito. Fiquei 2 anos em Nova York. A fotografia é outra coisa básica. Não tenho uma linha de trabalho, eu trabalho com várias mídias agora integradas uns aos outros. Pesquiso muito, eu disseco muito os equipamentos e para ver até um aliado ao outro, eu sempre misturei muito uma técnica com a tecnologia com outra e, por exemplo, slide com a xerografia, eu inventei um equipamento em Nova Iorque que acoplei à máquina. Eu mesmo criei uma geringonça que eu acoplei na máquina movido a raiado. Na 26ª bienal de São Paulo refizeram o meu apartamento dentro da Bienal, que minha obra praticamente não aparecia. O meu ateliê é a obra de outros artistas que eu gosto, eu vejo normalmente mais obras de outros artistas do que as minhas, aqui não porque eu tive mais espaço. Mais o importante, o ateliê eu concordei, foi proposta do curador, não foi proposta minha. Foi uma experiência muito importante de reflexão, de pensar no próprio processo de criação, no meu comportamento de criação, entrar num ateliê, o meu comportamento de vida, que para mim não faz diferença. Teve uma experiência no início dos anos 70 de Wlademir Dias Pino, que abriu o espaço dele para vários artistas. Eu participei, mas não é uma participação oficial. Em 89 eu participei com o fax e xerografia, com fax arte e xerografia, fiz fax performance. Lá fora eu já participei da Polônia agora a pouco, o ano passado, participei na Itália, uma de livro de artista, já participei de uma em Liechtenstein de fax, que foi a primeira bienal de fax arte internacional. E para mim é a mesma coisa. Estou agora nessa bienal das bienais, mas para mim nenhuma exposição modifica e nem nenhum prêmio modifica o meu modo de pensar nem de fazer nada. O Gutai é de 56, quando eles fazem o primeiro evento. Eu já conhecia o grupo há muito tempo, quer dizer, quando começaram as primeiras exposições. É uma coisa recente na Europa, tem poucos livros publicados sobre o Gutai até hoje, se você olhar na internet você achar pouquíssima coisa. O Fluxus é o primeiro grupo internacional, que eles começam a fazer a experiência de arte correio. O Fluxus tem japoneses que participaram do grupo Fluxus, não exatamente do Gutai, como Yoko e outros japoneses, eu acho que ainda tem um do Gutai que participou do Fluxus no começo. Ficava essa discussão e foi um grupo, o Gutai é importante por quê? Porque eles trabalharam com arte tecnologia, coisas pioneiras que ninguém falava praticamente. E o Fluxus também extrapola essa questão, quer dizer, a arte é tudo. O sedex é muito prático, como fotos, outras obras pequenas eu uso sedex, e correspondência eu continuo usando correspondência, objetos eu mando de presente para pessoas amigas, objetozinho eu mando de surpresa de fim de ano, eu faço às vezes uma tiragenzinha só para dar aos amigos e utilizo. O sedex é muito, eu considero até hoje muito eficiente. Eu sempre gosto de falar com as pessoas, discutir o que penso, como eu penso o que é arte e vida para mim é uma coisa que eu gosto de falar sobre o que eu faço.

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