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História

A antropóloga interculturalista

História de: Lucy Paixão Linhares "Cisinha"
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/03/2016

Sinopse

Lucy Paixão Linhares, conhecida como Cisinha, nascida no dia 12 de junho de 1954, no Rio de Janeiro, inicia sua história de vida falando um pouco de seus pais. Filha de um advogado e professor universitário e um dona de casa, a figura de sua mãe a marcou muito, uma mulher muito forte que coordenava a casa cuidando até das finanças da família. Cisinha tem mais três irmãs, cresceu no bairro da Tijuca e, desde de sempre, ela e suas irmãs questionavam a política e o conservadorismo da época. Foi intercambista pelo AFS no EUA, em Los Angeles, Califórnia, e esse ano mudou sua vida. Lucy conta como morou com uma família muito liberal que inclusive virou um ponto de apoio para o envio e recebimento de cartas de brasileiros que estavam exilados na Europa e não conseguiam se comunicar diretamente com o Brasil, que atravessava um período de ditadura militar. Como intercambista, aos 17 anos, teve a experiência de uma vida política intensa e trocas de experiências com pessoas do mundo inteiro, isso a mudou para sempre. Narra como seu intercâmbio foi determinante na escolha de estudar Ciências Sociais. Posteriormente, atuou no AFS como Gerente de Desenvolvimento coordenando programas de bolsa de estudo e criando projetos na área de educação. Novamente, o AFS abriu sua mente para um novo campo, o interculturalismo. Lucy hoje um dos principais nomes na área de intercultura.

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História completa

Meu nome é Lucy Paixão Linhares e meu apelido é Cisinha. Eu nasci no Rio [Rio de Janeiro] em 12 de junho de 1954. [O nome dos meus pais é] Havanir Brito Paixão Linhares e Rodolfo Paixão Linhares. Meu pai era advogado e professor universitário e a minha mãe era dona de casa, ambos cariocas.

Nós moramos a vida toda na Tijuca. Eu tenho três irmãs, nós éramos uma família de quatro filhas. Eu acho que tinha alguma coisa de realmente especial porque embora a minha mãe fosse conservadora no que dizia respeito aos costumes, de alguma forma, ela teve quatro filhas muito liberais, principalmente praquela época da Tijuca. Morávamos numa rua da Tijuca muito calma, muito tranquila, quase não tinha carro. A lembrança é de crianças brincando na rua, é uma coisa muito da minha geração, a gente ainda teve acesso à brincadeira de rua, de queimado na rua. Eu frequentava um clube, que era o Tijuca Tênis Clube, e foi uma infância bem de classe média mesmo, aquela coisa que a mãe está em casa, o pai trabalha, o provedor; você tem os amigos de bairro.

O AFS aparece na minha vida quando eu tinha 14 anos porque meu namorado de adolescente viajou pros Estados Unidos pelo AFS. Eu fiquei muito curiosa com essa possibilidade, meus pais meio receosos, mas quando [ele] voltou dos Estados Unidos tinha sido uma experiência tão legal, tão bem sucedida que os meus pais permitiram que dois anos depois eu me candidatasse. Na época que eu fui, [era início do] programa Global. Eu viajei em 1972. Eu fui morar em Los Angeles, em um bairro chamado Palisades,. E era um bairro maravilhoso, eu tive uma sorte. Além de ser uma família maravilhosa, eu tinha milhares de amigos, a minha irmã mais velha estudava em Berkeley, era plena guerra do Vietnã, com Los Angeles e a Califórnia pegando fogo. Minha irmã brasileira nessa época estava exilada no Chile e a minha mãe americana era uma pessoa super liberal e o nosso endereço na Califórnia passou a ser um endereço onde os exilados brasileiros no Chile mandavam cartas pros Estados Unidos.

A história do AFS na minha vida é essa história que me define como pessoa. Eu acho que a pessoa que eu sou é definida pela minha experiência do AFS. A minha opção de ser antropóloga, de olhar pro outro que é culturalmente distinto de mim, longe de rejeitar esse outro diferente eu fui em busca desse outro diferente. Então eu fiz Ciências Sociais, depois eu fiz um mestrado em Antropologia e fui trabalhar com índio, que era o outro mais radicalmente diferente que eu pude encontrar.

Eu acho que eu voltei com a percepção de que o mundo existia, de que o mundo estava ali ao alcance da gente, que eu não queria viver uma vida limitada à Tijuca, ao Rio, ao Brasil, que tinha um monte de coisa interessante acontecendo fora. Aí na faculdade eu acho que eu me encontrei. Na verdade aqueles amigos de escola anteriormente no Brasil não tinham a mesma cabeça que eu.

Quando eu me formei e virei uma profissional, eu fui trabalhar com índio, profissionalmente. A minha militância política virou na área, eu fui fundadora e da primeira diretoria da Comissão Pró-Índio no Rio de Janeiro. Nós fundamos essa ONG [Organização Não Governamental]. Na época lutávamos pela demarcação das terras indígenas. Eu começo um período de 17 anos de militância na questão política e na questão indígena. Em 1993, eu fiquei grávida da minha segunda filha e o meu marido, o Bernardo, me disse: “Olha, você quer ter outro filho tudo bem, mas você não vai pro mato me largando no Rio [Rio de Janeiro] com neném”.

Eu comecei a procurar e surgiu uma vaga do AFS. Eu fiquei no AFS quatro anos e no início eu trabalhava com programas e depois eu fui gerenciar a área de desenvolvimento. Porque o AFS tinha recebido uma verba da Fundação Kellogg e eles precisavam de alguém que gerenciasse esse fundo da Fundação Kellogg e que criasse novos programas e pensasse em outras coisas. Nós criamos com o dinheiro da Fundação Kellogg o Centro Intercultura para a Cidadania e a gente tinha três projetos super interessantes com o dinheiro do Centro Intercultura. Uma das coisas legais que o Centro Intercultura fez foi fazer um intercâmbio interno, a gente mandava menino de escola pública e meninos pobres que não teriam condições de viajar no intercâmbio internacional e que a gente também não tinha bolsa suficiente pra mandar aquele monte de menino, a gente fez durante dois anos um intercâmbio interno. O menino saía do Nordeste e ia pra Santa Catarina; o menino saía de Santa Catarina e vinha pro Rio, a gente trocou menino no Brasil inteiro [Programa Jovem Cidadão]. Foi um momento muito legal, foram anos em que eu cresci profissionalmente pra caramba.

O AFS tem uma importância na minha vida espetacular. Primeiro como adolescente, pra perceber o mundo, e depois já como profissional, como adulta, me permitindo descobrir um espaço novo, uma atividade profissional nova.

Eu acho que essa sacação de que o AFS não é uma organização de intercâmbio, é uma organização educacional, a gente fala isso há 20 anos, há 30 anos e parece que agora é uma tendência na organização como um todo. Porque isso é óbvio. Só vem buscar o AFS quem está interessado no aprendizado intercultural. AFS é uma organização de base voluntária, você tem que acreditar no valor da aprendizagem intercultural pra você querer que o seu filho viaje pelo AFS.

Assim que eu saí do AFS eu abri uma consultoria chamada ICA que é  International Cultural Assistance, onde eu dou treinamentos e consultoria pra empresas em duas áreas diferentes. Uma é na área do treinamento intercultural e na diversidade, que é um prazer que vocês não podem imaginar, muito legal.

Eu acho que são dois momentos mesmo, é o momento de intercambista que é uma sensibilização pra questão da cultura e depois como profissional, o AFS me abrindo de novo, mais uma vez na minha vida, me abrindo as portas do mundo profissional que eu desconhecia. Porque eu vim pro AFS como antropóloga e saí daqui interculturalista, eu acho que realmente o AFS na minha vida foi muito marcante mesmo, foi espetaculoso (risos). Ele providenciou, possibilitou experiências muito profundas na minha vida.

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