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História

A alfaiataria de meu avô

História de: Lucas Durães
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Em sua entrevista, Lucas nos conta a história da família de seu pai e de sua mãe, com ênfase na trajetória de seu avô, o renomado alfaiate Hermano do Carmo, o maior “Tesoura de Ouro” de Minas Gerais. Conta sobre a casa deste avô na Rua Santa Rita Durão e de como passou grande parte de sua infância lá inventando e observando. Relata as dificuldades que passou pelas escolas onde transitou, por conta de sua sexualidade, e a mudança de ares na Faculdade de Arquitetura da UFMG. Fala também de seus primeiros romances, a experiência de intercâmbio na Itália e a inspiração para fundar o coworking Guaja, o centro de sua vida atualmente.

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História completa

Meu avô Hermano se mudou do interior de Minas para Belo Horizonte muito jovem. Ele ficou órfão muito cedo e começou a trabalhar com 16 anos. Ele buscou algum trabalho que não machucasse, teve um critério muito estranho. "Qual será minha profissão?" E ele não queria mexer com marcenaria, serralheria, ser pedreiro, não queria nada que tivesse o risco de se machucar. Ele pensou: "Bom, talvez costurando, o máximo que pode me acontecer é furar o dedo". Ele se tornou aprendiz de uma alfaiataria e isso é um fato muito importante, porque a família do meu pai acabou se gerando totalmente em volta da alfaiataria e depois, num segundo momento, da moda como um todo. O meu avô conheceu a minha avó ainda muito jovem. Minha avó era enfermeira, Irene, e eles tiveram cinco filhos. Uma família muito louca, muito festeira, com muito grito, muita comida, uma casa sempre muito confusa, com tudo misturado, trabalho misturado com a casa. Eles sempre tiveram essa coisa de fazer tudo no mesmo lugar, com os funcionários entrando, saindo e eles comendo. A casa da alfaiataria do meu avô foi comprada na década de 70, logo após ele ter vencido o prêmio "Tesoura de Ouro", que era um prêmio da época, reconhecido como o Oscar da alfaiataria. A alfaiataria era uma atividade que ainda era muito importante então, tinha premiações e tudo mais. Na época, ele realmente ficou muito famoso, saiu uma matéria grande sobre ele na Revista Vogue, que, na época, foi o auge. E ele começou a atender clientes como Presidente da República, governadores, senadores, os mais altos empresários de Minas Gerais… Ele sempre foi uma pessoa muito simples, acho que não terminou nem o ensino fundamental, ele era super autodidata, mas gostava muito de conversas com os clientes e fazia questão que os atendimentos fossem longos e lentos. Então, seja quando ele ia à casa dos clientes ou quando ou clientes iam no ateliê dele, no bairro Funcionários, eram duas ou três horas de atendimento e muita conversa. Ele gostava de mostrar que conseguia conversar com um cara importante ou com um cara rico, sabe? E essa casa se tornou uma lenda, sem tanto exagero. Claro que para mim, vai ser sempre um ponto de vista muito mais afetivo, mas, não sei, depois mais para frente na conversa, posso te contar. Na década de 80, ele e meu pai abriram uma segunda marca, que se chamava "Blade Runner", porque eles assistiram ao filme e ficaram completamente extasiados com aquela história daquele mundo apocalíptico. Eles abriram uma marca de jeans, que chamava "Blade Runner", num total ato de direitos autorais (risos), ou não sei como essas coisas funcionavam na época, só sei que a coisa existiu durante muito tempo. Os jeans e as camisas "Blade Runner" ficaram famosos no Brasil inteiro, eles chegaram a ter mais de 120 costureiras trabalhando dentro de casa, porque meu avô destelhou a casa, bateu uma laje, fez um galpão em cima da casa e uma escada lateral. Eles moravam embaixo, as costureiras chegavam de manhã e iam trabalhar nesse galpão, fazendo calça jeans para o país inteiro. Ao mesmo tempo, todo dia, 11 da manhã, o almoço estava na mesa; cinco da tarde, tinha que ter pão quente, comprado na padaria, e café com leite. Era um lugar em que qualquer pessoa podia chegar, sentar, puxar um prato e fazer, mas podia mesmo, não estou falando do clichê mineiro, era realmente um organismo muito vivo. A casa, originalmente, tinha um murinho muito baixinho com uma grade baixinha também. Esse é um dado super importante porque eu cresci escutando milhares de casos sobre a famosa "turma do murinho", que era a galera do bairro que se encontrava ali na frente da casa do meu avô para fumar maconha, jogar conversa fora e andar de moto no quarteirão - porque era essa época de moto. Então o pessoal encontrava e dizia: "Ai, deixa eu dar uma volta na sua". Atrás desse murinho, tinha um pequeno jardim e a casa era uma casa que tinha um… Aqui em Belo Horizonte é muito comum isso: são umas casas que têm um torreão, que, por sua vez, abrigava uma sala redonda do lado de dentro, que era o quarto de prova, que era o lugar para onde meu avô levava os clientes. Lá tinha os biombos e espelhos para poder tirar as medidas e tudo mais. Então, era uma casa pequena, simples, muito marcada por esse torreão cilíndrico e uma fachada com uma textura meio batida, não sei, meio… Não sei nem como é que descreve, mas era bonito. Tinha um alpendre, uma varanda que dava acesso à sala principal. Então, era isso. Eu olhava para ela e era uma casa bem com cara de casa de boneca, com esse torreão e essa varanda. Depois, eles desconfiguraram bastante, porque fizeram esse galpão no segundo andar, que tirou aquela informação do telhado, então virou um blocão. Esse galpão foi uma parte muito importante da minha infância, porque quando eu já devia ter meus seis ou sete anos de idade, a Blade Runner tinha falido, porque cresceu tão rápido e de forma tão violenta que eles não souberam administrar uma empresa daquele porte, a coisa ricocheteou e, realmente, acabou se tornando um prejuízo enorme. Então, nas primeiras memórias que tenho de infância, o galpão já era um lugar muito estranho, um lugar vazio, com muita tralha, e era um parque de diversões para mim e para a Irene, minha prima que morava na casa. A Irene é nossa única prima por parte de pai e morou lá a vida toda, então, eu passava muitos finais de semana lá com ela e a gente usava o galpão como um estúdio de filmagem: a gente gostava de fazer pequenos "filmetes". A gente tinha aquelas câmeras que gravavam naquelas fitinhas e a gente lia alguns livros, tipo "O menino maluquinho"... Tinha um outro, que não vou lembrar o nome agora, mas era muito engraçado, era de assassinato, meio Agatha Christie. A Irene era a roteirista e eu era cenógrafo. Não tinha videomaker, era a câmera apoiada em cima de uma cadeira e a gente encenava os livros. Então, a gente tinha aquele galpão enorme à nossa disposição, era um luxo. Só que saíamos pretos de lá, porque acho que ninguém limpava aquele lugar; então, era maravilhoso. Nós mesmos faziamos tudo. Na fase de pré-produção eu fazia o cenário e ela fazia o roteiro e o figurino. Depois a gente entrava em cena, chamávamos alguns amigos, mas tínhamos mania disso, era uma coisa que levávamos a sério mesmo. Tipo: "Então, daqui a três finais de semana nós vamos filmar O menino maluquinho. Tem que ir arrumar uma panela para pôr na cabeça". A gente realmente levava aquilo a sério. Então, uns dois ou três finais de semana eram para fazer o cenário e ensaiar, e, no quarto, a gente ia ensaiar. Era legal demais porque aquele galpão ali era um lugar nosso, ninguém ia entrar lá, então podia ir lá, montava um pouquinho, ensaiava, deixava… Uma semana depois, a gente voltava e estava tudo lá ainda!

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