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História

A adaptação a uma nova terra

História de: Eva Nussenbaum
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2005

Sinopse

Eva e Henrique se conheceram em 1922, na Polônia. Namoraram e se casaram em 1923. Devido às dificuldades impostas pela ascensão do nazismo na Polônia, vieram para o Rio de Janeiro em 1926, sem conhecer ninguém e sem falar português. Nessa entrevista, eles nos contam como foi a adaptação ao Brasil e sobre episódios históricos da época, como a ação do integralismo contra os judeus em Petrópolis, para onde se mudaram. 

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História completa

P/1 - Sr. Henrique, em primeiro lugar eu vou pedir que o senhor nos dê seu nome completo, data e local de nascimento. Em que dia o senhor nasceu e onde. Qual é o seu nome completo?

 

R/1 - Meu nome completo é, em português, Henrique Nussenbaum.

 

P/1 - O senhor nasceu onde?

 

R/1 - Eu nasci na roça.

 

P/1 - Mas como se chamava?

 

R/1 - Chamava-se a mesma coisa. Heine Nussenbaum. Heine é Henrique, aqui.

 

P/1 - Não, o lugar onde o senhor nasceu. Na Europa, na...

 

R/1 - Na Europa. Na Polônia.

 

P/1 - Como era o nome da sua cidade?

 

R/1 - Onde eu nasci? Konskie.

 

P/1 - Em que parte da Polônia era isso?  Perto de que cidade grande isso estava?

 

R/1 - Grande cidade? Ou Varsóvia ou Cracóvia. É Polônia.

 

P/1 - Era perto?

 

R/1 - É, sim. Hein? Não escutei.

 

P/1 - A sua pátria era numa outra cidade?

 

P/2 - Ele falou. Essa sua cidade chamada Konskie era perto de que cidade grande?

 

R/1 - Lublin.  

 

R/1 - Lublin. Não, Eva, pode ser… Você pode… Eu vou falar com elas porque… Tem umas… Eva, vem cá, filha.

 

R/2 - Ah, não vou.

 

P/1 - Deixa ela lá. A gente conversa com o senhor.

 

R/1 - Porque o que Eva falou é uma coisa. Desse lado, o Vístula; o rio, grande rio, que é conhecido no mundo inteiro, desse lado. Vamos dizer, é como Rio de Janeiro, sabe? Do outro lado, no mesmo lugar, é Lublin.

 

P/1 - Mas o nome da sua cidadezinha, onde o senhor nasceu, era Konskie.

 

R/1 - Konskie. É isso mesmo. A rocinha, mas do estado do Lublin. Vamos dizer...

 

P/1 - Ah, entendi.

 

R/1 - Está me compreendendo? Como aqui, nasce em Petrópolis, mas perto de Petrópolis tem Rio de Janeiro, tem outra cidade grande desse lado. Tem… Aqui,  como se chama aquela cidade grande também, quando se vai para o… Tem cidades. Estou só dando exemplo.

 

P/1 - Diz para mim, que dia que o senhor nasceu?

 

R/1 - Quinze de novembro.

 

P/1 - Quinze de novembro ou quinze de maio, que o senhor tinha falado antes? Que dia que o senhor nasceu?

 

R/1 - Ah, que eu nasci? É quinze de maio mesmo.

 

P/1 - De que ano?

 

R/1 - Em 1900.

 

P/1 - Como era o nome do seu pai?

 

R/1 - Isaac Nussenbaum.

 

P/1 - E da sua mãe?

 

R/1 - Bertha Beider.

 

P/1 - Quantos irmãos o senhor tinha?

 

R/1 - Nós fomos quatro...Cinco irmãos.

 

P/1 - Como era o nome deles?

 

R/1 - O mais velho chamava-se Schneier, outro chamava-se Jacob. Está escrevendo já?

 

P/1 - Tá, não se preocupe com ela.

 

R/1 - Sim. Jacob. E [o] terceiro chamava-se… Schneier, Jaki e Moltre. Como Maurício, sabe? E [o] quarto fui eu.

 

P/1 - Henrique. E tinha outro mais?

 

R/1 - Tinha outro mais. Esse eu não me lembro nada. Nunca sabia dele. E eu sou dos irmãos homens o mais novo. Sou eu.

 

P/2 - E tinha o Max, né.

 

R/1 - Aquele que morreu, eu não me lembro. Não era nascido, não posso saber.

 

P/1 - Ele não lembrava.

 

P/2 - Não, o Max. Tinha o Max.

 

R/1 - Ah, esse aqui, é verdade.

 

P/2 - Max, Schneier, Jacob...

 

R/1 - Schneier. Sabe o que é a palavra Schneier? Schneie é neve. Schneier.

 

P/1 - Schnee.

 

R/1 - Isso, Schnee. É isso mesmo.

 

P/1 - O seu pai, em que ele trabalhava?

 

R/1 - Em que ele se ocupava?  Ele era… Schuhmacher, era sapateiro. Tinha muita gente. Sapateiro.

 

P/1 - A sua cidadezinha era pequena?

 

R/1 - Pequena. Não era cidade, quase.

 

P/1 - Era um povoadozinho.

 

R/1 - Era povoadozinho. Chama...

 

P/1 - Só tinha judeu?

 

R/1 - Só tinha quase nós, só.

 

P/1 - Judeus?

 

R/1 - Judeus. Eu, meu pai, tudo lá. Uma cidade pequeninha, perto da cidade maior, mas do lado.

 

P/1 - Eu entendi.

 

R/1 - A mesma coisa que aqui é Petrópolis. Mas você vai pra Mosela ou vai pra...

 

P/2 - Eu não entendi outra coisa. Vocês eram praticamente os únicos judeus ou essa roça só tinha quase judeus?

 

R/1 - Não,  não. Nessa roça, [os] únicos judeus.  Meu pai com os filhos, com as filhas, tudo.

 

P/1 - Ah, não tinha mais judeus?

 

R/1 - Não. Nesse tempo, que eu me lembro, não tinha mais.

 

P/1 - Mas o senhor está dizendo que tinha irmãs também?

 

R/1 - Tinha. Se eu não tinha irmã? Tinha irmãs.

 

P/1 - Então, o senhor não deu o nome de suas irmãs.

 

R/1 - Ainda não falou, não me perguntou.

 

P/1 - Ah, então, diz o nome das suas irmãs também.

 

R/1 - A mais velha chamava-se Sima.

 

P/2 - Quantas eram? Mulheres?

 

R/1 - Sima. Assim como se chama...

 

P/2 - Mas quantas irmãs? Quantas mulheres?

 

R/1 - Irmãs...

 

P/1 - Três. Sima e outra que faleceu, que eu não sei.

 

R/1 - A Rosa, é isso mesmo. Reisl, Rosa e Feige. Está certo, só três. 

Nós temos mania... Minha mania, assim se faz. Tudo quanto vai adiante, tudo que nasce, a gente dá o nome daquele que morreu. E como quase isso estou falando.  Todos morreram.  

A Rosa era minha irmã. A Feige era a mais nova. E Sima era a mais velha dos filhos. Depois, eu falei aqui. Schneier...

 

P/2 - Você era o mais moço de todos os homens?

 

R/1 - Schneier era o mais velho. Segundo era Jacob... Jacob, isso mesmo. Eu tenho que saber tudo.

 

P/1 - E seus avós moravam assim nessa cidadezinha, nessa roça?

 

R/1 - Ainda encontrei. Ainda me lembro dos meus avós.

 

P/1 - Eles moravam em Konskie também ou não?

 

R/1 - Eles moravam em Konskie. Está se falando só dos meus pais, sabe? Eles moravam pertinho, onde eu falei, na cidadezinha. E nós moramos mesmo na roça. Era  [a] única família ídiche na roça.

 

P/1 - E por que vocês moravam ali?

 

R/1 - Porque nós queríamos. Aqui também tem gente que...

 

P/1 - Mas vocês não preferiram morar onde tinha mais judeus?

 

R/1 - Não, não. Ele preferiu. Não tem nada a ver uma coisa com outra.

 

P/2 - Era por causa do trabalho do seu pai?

 

R/1 - Nem [foi] por causa do trabalho. Ele cismou. O meu pai cismou de morar lá. Depois mudamos outra vez, para cá, depois.

 

P/2 - Além do seu pai, que era sapateiro, vocês também trabalhavam no campo, nesse povoado?

 

R/1 - Não, nada de campo. Nada, nada. Ele tinha ofício. Falei agora. Era uma sapataria. Sapateiro, vamos dizer assim.

 

P/1 - E o senhor morou lá até quando?  De 1900 até quando o senhor ficou lá?

 

R/1 - Não posso saber.

 

P/1 - Não lembra, né? O senhor começou a estudar onde?

 

R/1 - Hein?

 

P/1 - Estudar.

 

R/1 - Naquela cidade, como eu falei. Zawichost. Porque eu só estudei religião.

 

P/1 - Só no cheider.

 

R/1 - No cheider, isso mesmo. Só no cheider. Depois, quando já era bem crescido, comecei a estudar latim também. Como se diz? Com polonês. Qualquer coisa, pode me perguntar duas vezes, tentando dizer.

 

P/1 - Tá bom. Quer dizer que o senhor, primeiro, nasceu em Konskie e depois vocês foram pra Zawichost.

 

R/1 - Porque minha mãe não queria mais morar nessa cidade, sozinha. Ela disse: “Não quero.” Então papai resolveu, com _____ e tudo, e nos mudamos para Zawichost. 

É pertinho, só atravessar o Vístula.  O Vístula é conhecido no mundo inteiro.

 

P/1 - Eu conheço também. De nome, lógico.

 

R/1 - Mas eu lá… Da sua família, tinha a vista grande. Um rio grande mesmo que se foi desde nós até Varsóvia. A mesma coisa que vou dizer, a nossa Vístula foi até… Onde posso falar que tem muitos… Os rios grandes. Como se chama?

 

P/1 - Amazonas.

 

R/1 - Não, esse aqui pertinho. A mesma coisa que… Ah, já sei. A mesma coisa que se vai para Niterói. Ah, agora… Tenho que explicar. Esse tamanho, sabe? Do Rio para Niterói, atravessar.

 

P/1 - Quer dizer que quando vocês estavam em Zawichost o senhor estava com sua...

 

R/1 - Zawichost já era cidade.

 

P/1 - É. Mas aí estavam seus tios também, tinha mais gente.

 

R/1 - Tudo, tudo. Mais, muitos judeus. Zawichost tinha muitos judeus. Por causa disso eu expliquei, minha mãe, que era muito religiosa, tinha que atravessar o rio para ir rezar, então ela resolveu… Depois, dizia: “Eu não vou ficar aqui.” Então nós vendemos aquela casa, tudo lá, e mudamos para Zawichost.

 

P/2 - Então o motivo da mudança foi pra ficar mais perto da sinagoga. E da escola do cheider.

 

R/1 - Sim, sim. E nunca mais mudamos. Nunca mais voltamos lá.

 

P/1 - O senhor gostava do cheider

 

R/1 - Do cheider? Eu tinha nome no cheider. Não é só cheider. Eu nunca perdi nada, desde pequeninho. Nós não podíamos perder nada. Na minha casa tinha o máximo respeito que existe. Eu ainda agora chamo atenção a muita gente aqui,  sabe? Aqui mesmo, de judeus. Havia respeito.  

Lá, quando… Sábado não se pode carregar nada. Para ir no schie, não pode  carregar nada; aqueles talis, qualquer coisa. Se não tem algum filho, algum neto para carregar, eles botam o talis e passam toda a Avenida XV para ir para a sinagoga, aqui, porque não pode carregar embrulho nenhum. Tá compreendendo? E eu que carregava, quando pequininho, o talis para o papai.  Estou explicando isso, mais ou menos.

 

P/1 - Não. Tá ótimo.

 

R/1 - E você escolhe o que interessa a você.

 

P/2 - Você se lembra, vô, quantos anos você tinha, mais ou menos, quando  vocês se mudaram pra Zawichost? Mais ou menos a idade. Menos de dez, mais de dez... O Bar Mitzvah já foi em Zawichost.

 

R/1 - Em Zawichost. Isso você sabe, né?

 

P/2 - Quanto tempo antes do Bar Mitzvah você mudou pra lá?

 

R/1 - Eu tinha, quando mudamos para lá, oito anos. Já tinha. A prova que eu mudei aonde a minha irmã, Sima… Sima morava lá, em Zawichost, então… E nós moramos, já falei, em Konskie. Está escrito lá ou não está?

 

P/2 - Está.

 

R/1 - Eu fui para Zawichost para ficar na casa, como garoto pequeno, para estudar. Para estudar em ídiche que eu fui lá, então eu fui pra casa da minha irmã mais velha.

 

P/1 - Ela já estava casada?

 

R/1 - Ela estava casada, sim.

 

P/1 - O senhor lembra do casamento dela?

 

R/1 - Quando ela se casou?  Não, isso quase não me lembro.  Eu era pequetitito, já tinha nascido. E o marido dela chamava-se Schneier. 

Ela chamava-se Sima, já falei isso aqui. Agora, outra irmã também...  Outro irmão, sabe, chamava-se Jacob. Também está lá. E outro terceiro chamava-se  Mo...., Maurício, isso já falei também. Em quarto sou eu. Aquele que morreu, tinha um irmão [que] morreu com dez anos. Eu me lembro ainda dele. Eu ainda não estava..... Com a Sima.

 

P/1 - O senhor lembra da sua Bar Mitzvah

 

R/1 - Ah, lembro.

 

P/1 - Conte pra gente como é que foi, o que o senhor lembra.

 

R/1 - Ah, eu vou lembrar. Bar Mitzvah era uma coisa fora do comum. O que eu disse, que nós morávamos lá naquela fazenda, onde era a água, o rio, como aqui, como atravessar de Rio para Niterói… Então tinha gente assim, chegaram  com… Como chama aquela que vai para Niterói? 

 

P/1 - Barca.

 

R/1 - Hein?

 

P/1 - Com a barca.

 

R/1 - Com  barca, mas sozinho,  cada um se… Não tinha barca para aqui como em Niterói. Eles atravessaram...

 

P/1 - Com remo?

 

R/1 - Com re… Sozinho. Muita gente chegou no meu Bar Mitzvah. Puxa! Chegava sempre.

 

P/1 - Fizeram uma festa?

 

R/1 - Grande festa.

 

P/1 - Mas fizeram a festa em Konskie?

 

R/1 - Em Konskie. Eu ainda estava em Konskie. 

 

P/1 - Mas a Bar Mitzvah não foi em Zawichost?

 

R/1 - Não, Bar Miztvah ainda foi lá. Treze anos, ainda foi em Konskie. Para Zawichost mudamos depois.

 

P/2 - Ele só foi estudar, antes.

 

P/1 - E tinha sinagoga em Konskie ou foi na sua casa?

 

R/1 - Não,  não. O que eu falei? Tinha que ir a pé, mas todo lugar tinha sinagoga.  Vamos dizer, Petrópolis já tem sinagoga agora, por que eu moro aqui? Mas antigamente não tinha sinagoga. Quem fez em Petrópolis, que está conhecida  em todo Brasil, fui eu que fiz a sinagoga aqui. Porque tinha um lugar onde morava judeus e tinha lugar aonde...Lá que se rezava. Vamos dizer, eles conheciam mais, vamos dizer, Henrique, aqui em Petrópolis. Onde se rezava era no Henrique, na casa do Henrique.

 

P/1 - Mas o quê…? Em Konskie tinha Sefer Torá?

 

R/1 - Tinha. Em todo lugar onde se rezava tinha que ter Sefer Torá. Sabe, o que  que eu expliquei agora. Vamos dizer, escolheram Petrópolis, onde não tem onde botar o Sefer Torá, então eles escolheram a mim. Aqui vem-se rezar.

 

P/1 - Entendi. Quer dizer que tinha o Sefer Torá na sua casa em Konskie, aí podia fazer a Bar Mitzvah lá.

 

R/1 - Isso mesmo.

 

P/1 - Aí todo mundo atravessou o rio de barco, pra… Fazendo a festa.

 

R/1 - Atravessou o rio pra… Isso, isso mesmo.

 

P/1 - Estava todo mundo junto?

 

R/1 - Todo mundo junto, sim. Isso precisa na reza, sabe? Mas quando vamos  dizer que… Veio muita gente de lá de Zawichost, como do Rio para Petrópolis. Veio para a festa aqui, que se fez no… Mesma coisa.

 

P/1 - Mas o senhor, antes disso, já tinha ido estudar, tinha ficado na casa da sua irmã, em Zawichost? Pra poder estudar, né?

 

R/1 - Foi isso. Na irmã, porque o meu pai não ia se mudar por causa de mim, porque tinha  mais filhos e não fez. Mas como eu era o último...

 

P/1 - Ah, o senhor foi o único filho que estudou no cheider?

 

R/1 - Não, todos eles estudaram. Mas eu estou falando de… Meu irmão.

 

P/2 - O último que foi foi você.

 

R/1 - Pois é. Helena já tem lá. Ela tem lá Schneier, Jacob, Moltre, Maurício. E eu era mais novo. Entretanto eu fui para também estudar ídiche, saber, então fui para

a casa da minha irmã mais velha em Zawichost. Era lá que [se] estudava.

 

P/1 - E o senhor… Quer dizer que quando começou a… E o senhor estudou o  quê? Até começar a Primeira Guerra, o senhor ainda estava estudando no cheider?

 

R/1 - A Primeira Guerra? Na Primeira Guerra eu já tinha acabado o cheider.

 

P/2 - Tinha quatorze anos.

 

P/1 - Tinha quatorze. Aí o senhor estava o que, estava trabalhando?

 

R/1 - Naquela época ainda não trabalhava.

 

P/1 - E o que o senhor fazia com quatorze anos?

 

R/1 - O que eu fazia? Com quatorze anos ainda não fazia nada, só estava  estudando no cheider. Depois do cheider eu comecei estudar alfaiataria, quando já era grande, aqui. Lá eu tinha cheider, tinha que estudar. 

Depois do cheider, em 1918, eu fui ao [serviço] militar. Em 1920, eu ainda estava no [serviço] militar.

 

P/1 - Mas já tinha acabado a guerra. E o senhor conti...

 

R/1 - Não tem nada com a guerra. Naquela grande guerra eu não fui, ainda era novo. Naquela grande guerra, eu ainda não… Eu não tinha nada ainda. Era muito novo.

 

P/2 - Mas aquela história...

 

P/1 - Eu vou dar uma parada. Um minuto. 

 

(PAUSA)



 

P/1 - Dona Eva, a primeira coisa que eu quero saber é seu nome completo.

 

R/2 - Eva...

 

P/1 - Nome de solteira, sim.

 

R/2 - De solteira. Flaumenhaft.

 

P/1 - Como se escreve, não se preocupe. Depois a gente fala. Quando e onde a senhora nasceu?

 

R/2 - Numa aldeia a seis quilômetros de Tarnóvia. Nasci em Koszysze-Mawle.

 

P/1 - Em que dia que a senhora nasceu?

 

R/2 - Eu posso lhe dizer que é o segundo dia de Rosh Hashanah. 1922.

 

P/1 - Não, que a senhora nasceu.

 

R/2 - Nasci? 1902.

 

P/1 - Não, 1902. Aí pode. (risos) Tá bom.

 

R/2 - Ah, te digo que não estou… Ainda não estou certa que vá responder bem.

 

P/1 - Não, que é isso... Como era o nome do seu pai?

 

R/2 - Joel Flaumenhaft. 

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R/2 - Ratzel Fisch Flaumenhaft.

 

P/1 - E a senhora tinha irmãos ou irmãs?

 

R/2 - Tinha, tinha. Nós éramos, primeiro, seis. Um morto. Então, era a mais velha da família.

 

P/1 - Mais velha da família. Depois vem aquela que faleceu, logo depois de nascida. Depois nasceu a outra irmã, Dora.

 

P/1 - Do Seu Maurício.

 

R/2 - É. Depois, nasceu um irmão… Tem que dar nome?

 

P/1 - Vai dizendo os nomes.

 

R/2 - Max, depois nasceu Regina.

 

P/1 - A mãe da Belinha.

 

P/2 - É, mãe da Belinha. Depois, nasceu Haim. Depois, nasceu irmão Fruel. São seis. Estavam seis vivos. Depois de treze anos, a mamãe deu à luz a mais três irmãos.

 

P/1 - Oito?

 

P/2 - Não. Nove.

 

R/2 - Um é Itzhak,  outro é Schil e o último Leike. Que mais querem saber?

 

P/1 - O seu pai, em que que ele trabalhava?

 

R/2 - Ele era um pequeno negociante. Não tinha lojas. Nós estávamos morando numa rua muito grande, que vinha das outras aldeias… Vinha muita gente com mercadorias. E ele comprava no meio do caminho, antes de eles… Os aldeões que iam pra cidade vendiam pra meu pai. Ele depois ajuntava aquelas.. Todas as mercadorias e levava para a cidade, ele já tinha lá as fregueses certos.

 

P/1 - E vocês tinham.. Viviam bem? Tinham uma casinha boa?

 

R/2 - Nós tínhamos uma casa, duas vacas, um cavalo, e vivamos mais ou menos bem. Não faltava comida.

 

P/2 - Vó, essa mercadoria que seu pai comprava era agrícola ou já era tecido? Que mercadoria que era?

 

R/2 - Agrícola. Ele comprava carnes e comprava "pomar" em flor, naquela  redondeza. Estava esperando pra nascer os frutos. Nessa época, tirava os frutos e carregava para a cidade, que estava a seis quilômetros de nossa casa.

 

P/1 - Ele ia com uma carroça?

 

R/2 - Ele tinha carroça.

 

R/1 - E cavalo.

 

R/2 - Cavalo, carroça. E quando faltava carro, dava mais que a carroça dele, os aldeões davam seus cavalos e carroças para ele carregar a mercadoria para a cidade.

 

P/2 - Essa cidade era a Tarnóvia, né?

 

R/2 - Tarnóvia.

 

R/1 - Cidade da… Mas onde morava é Koszysze-Mawle.

 

P/1 - Nessa cidadezinha pequena, sua aldeiazinha, eram só judeus que moravam lá?

 

R/2 - Não. Tinha só três judeus na aldeia, nossos avós e nós. E tinha um...

 

R/1 - Longe.

 

R/2 - Não é longe. Era que ele comprava leite, ele ia nas aldeias e tirava leite de vaca para… De kasher, e levava para a cidade, para judeus. Para revender para judeus.

 

R/1 - Sabe que é kasher, não é?

 

R/2 - Ela não sabe o que é kasher.

 

P/2 - Eu sei. (risos)

 

P/1 - A senhora estudou no cheider, Dona...

 

R/2 - Não, não tinha. Tinha um colégio goi, então nós frequentamos...

 

P/1 - Onde? Em Tarnóvia ou em Koszysce-Mawle?

 

R/2 - Não, em Koszysce-Mawle. Nós frequentamos muito pouco, mas ajuntamos, das outras aldeias, os filhos de judeus e arrumamos um professor que ficava, por exemplo, na nossa casa. E as crianças judias  vinham à nossa casa aprender com aquele professor.

 

P/1 - Homens. Meninos e meninas?

 

R/2 - Tudo junto. 

 

P/1 - Todo mundo junto. E vocês estudavam o quê? Ídiche...

 

R/2 - Ídiche. [Para estudar] polonês, nós tínhamos o colégio, tínhamos ido pra colégio goi.

 

P/1 - Ah, a senhora foi no colégio goi também?

 

R/2 - [Por] pouco tempo. Porque não deu tempo, eu era mais velha e tinha que tomar conta de meus irmãozinhos menores.

 

P/1 - Tinha que ajudar sua mãe, né?

 

R/2 - Para ajudar minha mãe.

 

P/2 - Conte como era um dia seu de trabalho na sua casa. Conte o que você fazia.

 

P/1 - A que horas que a senhora acordava, como é que vocês faziam?

 

R/2 - Acordava muito cedo. Tomava conta, lavava as crianças, dava comida às crianças e ajudávamos na compras de papai. Tomava conta daquelas compras que ele comprava, botávamos num lugar certo pra não ocupar a casa toda.  Depois, carregávamos na carroça e papai levava pra cidade. Que mais?

 

P/1 - A senhora conta… A senhora lembra como era um shabat? Conte pra gente.

 

R/2 - Shabat era… Era shabat mesmo. Sexta-feira a gente, de manhã, já começava a trabalhar, arrumar a casa toda e preparava todo o shabat. Acendia velas na hora certa e tudo estava tilintando de limpeza, porque a gente fazia a limpeza da casa ma...

 

R/1 - Pode falar com ela tudo.

 

R/2 - Eu comecei muito cedo. Com dez anos já tomava conta da casa, da cozinha, do pão. Amassava pão, fazia challos, fazia uma porção de fluden para shabat.  A gente fazia um shabat muito bonito.

 

P/1 - O que vocês faziam pra shabat de comida? Conte pra gente.

 

R/2 - Sempre a gente procurava ter peixe. Peixe não tinha na… E depois carne, porque não era todo dia que a gente comia carne. Fazíamos macarrão em casa,  fazíamos ferfel em casa. Fazíamos tudo que… Ameixas, frutas, fazíamos doce de frutas para shabat. Tinha um pão enorme quando tinha tempo de maçã; a gente botava no pão, aquelas maçãs ficavam assando. No shabat a gente comia à vontade, de tudo.

 

P/1 - E vocês faziam o tchulendt? Sexta-feira botava no forno?

 

R/2 - Tchulendt também, levamos também. Tudo no tchulendt. Quando a gente tirava o pão e o challos, a gente… Nós botávamos as panelas com tchulendt e ficava até o dia seguinte, mas tinha que fazer em volta, aquela abertura do forno  tinha que fechar com alguma coisa. Então nós tínhamos um latão, fechávamos com isso para segurar o calor.

 

P/1 - E os seus avós vinham comer com vocês?

 

R/2 - Não. Eles tinham casa própria, nós tínhamos nossa casa.

 

P/1 - Nem shabat?

 

R/2 - Nem shabat, porque cada um tinha família. Meus avós também tinham família, tinham filhos que tinha… Eles não queriam. Ninguém queria ficar na casa dos outros.

 

P/1 - E vocês tinham… Quando chegava uma pessoa estranha, vocês convidavam?

 

R/2 - Convidávamos. Sempre tínhamos gente dentro da casa, estranhos. E tínhamos… Ao anoitecer, quando parava uma pessoa mais humilde, tinha lugar pra eles, [a gente] dava comida.

 

P/1 - Como era Pessach ou Rosh Hashanah? Qual era a festa que a senhora mais gostava, além de shabat?

 

R/2 - O que ele… Pessach, a gente trabalhava muito. Nós fazíamos matze em casa, juntávamos também os vizinhos de outras aldeias e nós queimávamos o forno com muita com muita lenha...

 

P/1 - Com brasa viva.

 

R/2 - É, com muita lenha e depois com brasa e ficamos… E nós, sozinhos, amassávamos e alguém fazia… Pode imaginar quanto tempo a gente ficava em  pé fazendo massa.

 

P/1 - E o que que vocês faziam com a louça? Vocês botavam em água quente pra “kasherizar”? O que vocês faziam?

 

R/2 - Nós tínhamos separado.

 

P/1 - Ah, tinham uma louça separada.

 

R/2 - Louça separada para o Rosh… Para Pessach e para o dia. Tinha... Como se chama? Panelas de carne, de leite, separadas. E tinha aquelas louças que a gente… Não louça, panelas, que a gente podia comer um milch, um fleisch junto daquela panela.

 

P/1 - Uma panela parva.

 

R/2 - Parva. É isso mesmo.

 

P/1 - E como era quando tinha… A senhora lembra de algum Brit [Milá] quando a senhora era pequenininha? Ou lembra de algum casamento, de alguma Bar Mitzvah? Alguma festa que marcou a senhora?

 

R/2 - Não, não. Não era... Porque a gente fazia na vizinha. Trazia o mohel, ajuntávamos dez judeus e fazia; vinha e fazia Brit. Só.

 

P/1 - Quando que vocês se reuniam com os judeus das outras aldeias?

 

R/2 - No shabat a gente ia rezar. Às vezes, quando era um tempo muito bom,  íamos… Não eu, ia meu pai, meu avô iam seis quilômetros [no] shabat para rezar. Eles iam a pé, então as crianças… Eles iam bem vestidos e as crianças  carregavam o talis...

 

P/1 - As crianças que a senhora diz [eram] os meninos. As meninas ficavam em casa.

 

R/2 - Os meninos. As moças, não. Nem as senhoras iam pra rezar, só os homens.

 

P/1 - E quando sua mãe tinha neném, ela tinha em casa? Quem a ajudava?

 

R/2 - Tinha em casa. 

 

P/1 - Quem a ajudava?

 

R/2 - Uma parteira. Quem ajudava?

 

P/1 - Bom, a senhora. Eu já sei que a senhora ajudava.

 

R/2 - Eu ajudava. Eu ajudava desde o primeiro até o último.

 

P/1 - Sempre com esse sorriso bonito?

 

R/2 - Não. (risos) Quando minha mãe… Pequeninha, eu não sei...  Quando eu tinha um ano e pouco - não, dois anos e pouco, já ninava a Dora, que a outra, a segunda, tinha falecido, então já comecei a trabalhar. 

Mamãe me deixava. Ela ia fazer o serviço dela; quando a criança chorava, ela mandava ninar. Tinha uma caminha com os pés [de] balanço, balançava assim.  Eu já sabia tomar conta e assim ia cada vez melhor, porque quando fiquei mais velha tinha mais juízo e mais competência pra tomar conta das crianças.

 

P/1 - E quando… Como era quando alguém ficava doente? Em Koszysze eram só vocês, com seus avós. Mas a senhora sabia que na outra cidadezinha tinha alguém doente, que a mamãe de outra família estava doente? As outras senhoras  se juntavam pra ajudar?

 

R/2 - Juntavam, quando era perto...

 

R/1 - Imediatamente.

 

R/2 - Quando era perto, porque na aldeia éramos só duas famílias. Tinha três, mas depois da Primeira Guerra eles foram embora do lugar, porque os goim não gostaram deles. Ou o avô tomava conta da gente ou nós tomávamos conta dos avós.

 

P/1 - Todo mundo tinha que se ajudar, né?

 

R/2 - É. Para ajudar.

 

P/1 - Como era... Vocês tinham relações com os goim?

 

R/2 - Muito.

 

P/1 - Mas boas relações?

 

R/2 - Muito boas relações. Tinha  antissemitas, mas… Às vezes, escondidos, mas tinha muitos goim bons, que eram nossos amigos. Muito amigos.

 

P/1 - Quer dizer que a senhora, de pequenininha, não sentia… Sabia que tinha um lá que não gostava mas, normalmente, se dava bem.

 

R/2 - Mas eles não demostravam. A gente sabia. Com certas coisas, com certas conversas,  às vezes chamavam judeu, judeu, então a gente sabia. Não era gente idosa, era criança. Já estava começando ficar com antissemitismo. 

Assim a gente vivia, até...

 

P/1 - Da Primeira Guerra, a senhora se lembra de alguma coisa?

 

R/2 - Lembro. Muita coisa.

 

P/1 - Conte, a gente só está escutando. A senhora vai contando o que a senhora lembra.

 

P/2 - Mas você se lembrar mais, fala.

 

R/2 - Nós éramos pequenos ainda. Eu devia ter dez anos quando… Dez, doze anos? 

 

P/1 - Doze anos.

 

R/2 - Quando começou a guerra. Os russos invadiram a Áustria. Primeiro, a Áustria perdeu os… Mandamentos.

 

P/1 - Mandato.

 

R/2 - Mandato. Nós vivíamos muito bem dentro do… Os judeus viviam muito  bem, com consciência… Como é? Os lugares, os botequins, eles tinham licença para abrir; as lojas, os botequins e armazéns eram de judeus. Mas depois da guerra nós perdemos tudo isso.

 

P/1 - Porque com os russos não tinha sopa.

 

R/2 - Não eram russos. Depois, poloneses. Porque no tempo, quando a Áustria guerreava, aquilo ainda estava muito calmo para judeus. Mas quando acabou a guerra...

 

P/1 - Que os poloneses foram… Mandavam e desmandavam...

 

R/2 - Começaram a combater a favor deles, então lá começou a… Um antissemitismo grande. Aqueles que combateram junto com alemães… Porque era guerra em todos os lugares, em todos os países, então muitos goim foram para Alemanha e serviram lá o [serviço] militar. Quando voltaram, eram antissemitas, que a gente nem podia.. Eles nem podiam olhar pra judeu. Já  começou desde esse tempo.

Falaram que os russos estavam invadindo nosso lugar, onde moramos, lá no… Meu avô tinha filhas novas, [de] dezoito, dezesseis anos, e falavam que os  russos... Serviam... Como se diz?

 

P/1 - Seduziam.

 

R/2 - Seduziam as moças, então nós… Eu era a mais velha. Meu avô disse:  “Não, nós vamos ficar porque temos que salvar nossos filhos.” Então fomos… Não era longe, eram quatro milhas da nossa cidade; nós fomos para as montanhas, [a] quatro milhas. E nós encontramos lá um judeu nas montanhas, a gente nem sabia que tinha viva alma lá. Lá nós pousamos mais de seis meses.

 

P/1 - Estavam escondidos dos russos.

 

R/2 - Dos russos. Estava numa casa de um conhecido do meu avô. 

Meu avô era muito judeu e muito moderno, muito inteligente. Era uma pessoa  que sabia escrever o polonês, alemão, hebraico. Muito… Ele serviu na Áustria, serviu [por] seis anos [o serviço] militar.

 

P/1 - Por que a senhora diz que ele era moderno?

 

R/2 - Porque ele era moderno, não era um judeu fanático. Era religioso, fazia todos os deveres...

 

P/2 - Como é o nome dele, vó? Se lembra o nome dele?

 

R/2 - Isaac Fisch. Então...

 

P/1 - Ele era pai da sua mãe?

 

R/2 - Pai da minha mãe?

 

P/1 - Seu pai também era de Koszysze ou era de outro lugar?

 

R/2 - Não, ele era de outro lugar. Ele era de… Perto de Cracóvia, mas ele trabalhava em Tarnóvia, então minha avó o conheceu num sábado, na reza, que ele...

 

P/1 - E gostou dele?

 

R/2 - E gostou dele porque ele era muito… Rezava muito bem, muito direitinho. E era obediente. Então ele quis… Arrumou um casamento com [a] filha mais velha. Era minha mãe.

 

P/1 - E tinha um ambiente… A senhora lembra do ambiente da sua casa? Eles se davam bem, eles se gostavam, depois?

 

R/2 - Não muito, como os sogros com genro. Não é… Sempre tinha alguma… Alguma aven...

 

P/1 - Mas eu digo, o seu pai e a sua mãe… Foi um casamento arranjado, mas eles depois viveram bem?

 

R/2 - Eles viveram bem, sim. 

Nós fomos, ficamos seis meses naquela aldeia, entre montanhas. E depois,  quando nós voltamos...

 

P/1 - Vocês voltaram quando acabou a guerra?

 

R/2 - Não, quando os russos saíram do lugar. Foram mais… Para a Rússia.  Voltaram para… Quando eles combateram e foram retirados para a Rússia. Foi quando… Nesse tempo, meu pai foi chamado ao [serviço] militar. Ficou a mãe...

 

P/1 - 1918, então, no final da guerra.

 

R/2 - Quase final da guerra.  Ele foi chamado, foi servir na Itália.

 

P/1 - Coisa boa. Pelo exército polonês?

 

R/2 - Polonês.

 

P/1 - E como foi isso?

 

R/2 - Voltamos para o lugar onde nós tínhamos casa. Não tinha casa.

 

P/2 - Não tinha mais?

 

R/2 - Não tinha. Os goi derrubaram, tiraram a madeira e tudo isso. Quando nós chegamos, só tinha o lugar. Mamãe ficou só, com seis crianças… Sem casa. 

Nós alugamos uma pequena casinha [que] estava vazia e ficamos. Mamãe começou a se preparar e procurava arranjar madeira, arranjar trabalhador pra construir [uma] casa. Primeiro, os avós construíram a casa. Depois construíram nossa casa, no mesmo lugar.

 

P/1 - E sua mãe tinha que trabalhar também?

 

R/2 - Nós tínhamos que trabalhar. Estávamos trabalhando muito ainda naquele… Naquela aldeia onde estivemos, eu e minha mãe trabalhamos, sabe como é.  Embaixo, muito embaixo, tinha o caminho de muitos lugares, então os militares ficavam lá e estavam esperando ser chamados para guerrear. No intervalo, eles ficavam embaixo, escondidos. 

Eu e minha mãe compra… Mamãe  comprava lá ovos, manteiga, em cima, lá  nas montanhas, e feno para cavalos. Quando nós arranjávamos aquelas  mercadorias, carregamos para baixo. E meu pai, nessa época, ainda estava...

 

P/1 - Em casa.

 

R/2 - Não, embaixo.

 

P/1 - Ah, esperando.

 

P/2 - Entre os militares.

 

R/2 - Não. Entre militares, ele também negociava a mesma coisa. Então, couros de vacas ele comprava, comprava outras coisas pra ganhar a vida. E nós ajudamos. 

Depois ele foi chamado, foi para a Itália. Nós ficamos em casa, começamos a trabalhar juntas, eu e minha mãe. Trabalhamos muito e...

 

P/1 - Faziam a mesma coisa que seu pai fazia?

 

R/2 - Sustentamos o resto da família.  Mamãe construiu uma casa para nós e da mãe, como estava antes.

 

P/1 - Mas vocês faziam o mesmo trabalho que seu pai fazia?

 

R/2 - O que nós podíamos, nós fazíamos. Tudo. Negociantes.

 

P/2 - Vó, você se lembra, mais ou menos, quanto tempo demorou pra reconstruir a casa? Quanto tempo levou?

 

R/2 - Demorou bastante.

 

R/1 - Aquela casa que você morava, essa aqui que foi construída por vocês. É isso?

 

R/2 - É isso.

 

R/1 - Fala lá com ela. É essa a pergunta.

 

R/2 - Então, assim foi… Depois....

 

P/1 - Seu pai voltou depois da guerra?

 

R/2 - Voltou. Ele  foi… É uma história muito grande. Ele foi, depois voltou doente da Itália. Foi tomar conta dos soldados que foram...

 

P/1 - Feridos?

 

R/2 - Não. Soldados que… Foram...

 

P/1 - Presos?

 

R/2 - Presos.

 

P/2 - Prisioneiros.

 

R/2 - Prisioneiros. Os prisioneiros não ficaram à toa, tinham que trabalhar. Quando a gente procurava um lugar grande, aquelas fazendas grandes que foram abandonadas, lá puseram os soldados prisioneiros e eles tomavam conta daqueles prisioneiros. Trabalhavam lá.

 

P/1 - E quando seu pai voltou pra casa?

 

R/2 - Quando ele… De prisioneiros e ficaram numa aldeia, porque o pai ainda procurava... E quando ele foi a uma aldeia, porque papai tomava conta desses  prisioneiros, tinha uma senhora viúva, com dois filhos, ídiche. Ele queria frequentar lá.

 

P/1 - Pra comer.

 

R/2 - Não. Pra comer, se distrair,  pra… Pra ser kosher, comer kosher. Ela não quis, porque era viúva.

 

P/1 - Ficava mal, né?

 

R/1 - Ela tinha medo.

 

R/2 - Não medo, mas não queria que falassem mal dela. Como eu era a mais velha, eu ia visitar meu pai. Levava as coisas para ele pra comer. 

[Era] muito longe, muito longe mesmo. A gente viajava mais que uma hora de trem. Depois, tinha que andar a pé também.

 

P/2 - Você ia sozinha. Conte essa história. Ia sozinha,  andava à beça.

 

R/2 - É.  E quando ela me conheceu, ela disse assim: “Se sua filha vai ficar na minha casa, você vai poder frequentar a minha casa também. Pelo menos a sua  filha…” Então, eu era… Ela tinha armazém e eu era… Tomava conta das crianças, tomava conta do armazém. Ela às vezes viajava, me deixava com vacas e tudo isso, me deixava com essas duas crianças muito ruins, muito nervosas, muito… Ficava [e] tomava conta de tudo isso.

 

P/1 - E ela pagava pra senhora?

 

R/2 - Não, Deus me livre! Eu ainda fiz fa… Ela fez favor, deixava meu pai ficar na casa.  

[Ele] foi transferido pra outro lugar para tomar conta dos prisioneiros. Muito longe,  muito longe mesmo, eram mais que três horas de trem. Depois, quando… Ninguém me disse. 

Quando minha mãe me mandou pra lá, eu vinha de trem. Eu era tão medrosa,  tão covarde… Pra dizer, eu tinha medo de tudo, mas quando me mandavam eu ia. Quando cheguei de trem no lugar onde precisava descer, na estação eu perguntei “onde tem aquela fazenda tal, tal”, eu tinha o endereço. Ele disse assim… E já era anoitecer. Quando ele disse assim: “Você sabe, menina. Você precisa ir mais que duas horas pela uma floresta.” E eu… Olha, e era inverno...

 

P/1 - Devia fazer um frio fora do comum.

 

R/2 - Frio. Mas eu, com medo, achava o caminho tão rapidamente que eu pensei que estava voando. Num.. [Em] cada tronco eu via um bichinho. Tinha medo, eu me assustava. Eu tinha muito medo, não era corajosa, não. 

 

P/1 - Puxa, como não era corajosa? Enfrentou cada coisa...

Dona  Eva, continue a contar pra gente. A senhora conseguiu chegar lá.

 

R/2 - Cheguei lá, fiquei com meu pai um tempo, uns dias, no meio de soldados.  Lá também era destruído, tudo. Só tinha um galpão muito grande, que era onde ficavam os soldados prisioneiros.

Depois eu voltei pra casa e meu pai foi mandado outra vez pra Itália.  Ele foi, mas lá não demorou; já era mais calmo, já acabara a guerra, então ele foi e voltou para casa. 

Nós já tínhamos uma casa pronta e ele começou no negocinho dele,  trabalhando. Mas voltou doente. Foi ferido na perna e depois ele… Não sei se ele tinha câncer na garganta ou tuberculose, mas viveu bastante tempo ainda.  Ele faleceu quando nós já estávamos no Brasil. Ele foi continuando essa vida.

 

P/1 - Essa vidinha. Aí, com 22, vocês se conheceram?

 

R/2 - Em 22 nos conhecemos. Eu trabalhava, primeiro… Depois que [meu] pai  voltou não tinha homens pra trabalhar, então as moças trabalhavam. Eu trabalhava na fábrica de licores. Ia todo dia.

 

P/1 - Em Tarnóvia?

 

R/2 - Em Tarnóvia, [a] seis quilômetros para [o] trabalho e seis quilômetros para  voltar. Trabalhava das seis às seis.

 

P/1 - De seis da manhã às seis da tarde?

 

R/2 - Até seis da tarde. Muito trabalho pesado.

 

P/1 - A senhora tinha que sair de casa a que horas? Às cinco? 

 

R/2 - Cinco. Às vezes, eu tirava [o] sapato para… Estava atrasada, tirava [o] sapato pra poder correr mais depressa, descalça, para [o] trabalho. Porque  quando a gente chegava mais tarde, não deixavam entrar.

 

P/2 - Essa fábrica era em que cidade?

 

R/2 - Tarnóvia.

 

P/1 - Puxa, trabalhava doze horas por dia?

 

R/2 - Doze horas por dia.

 

P/1 - Mas shabat não trabalhava?

 

R/2 - Não, eram judeus. E eu tinha… [No] domingo eu tinha que voltar para a fábrica; ninguém trabalhava, eu tinha que ir trabalhar para pagar o sábado.

 

P/1 - Porque não tinha dia livre?

 

R/2 - Não, tinha livre sábado.

 

P/1 - Mas os outros que não eram judeus?

 

R/2 - Era domingo. Ninguém trabalhava na fábrica, mas eu ia para a fábrica...

 

P/2 - Todo mundo folgava um dia, só que ela folgava no sábado, então tinha que ir no domingo.

 

P/1 - Ah, trabalhar no domingo. E a senhora trabalhava sozinha no domingo?

 

R/2 - É. O que eu fazia… Foi um trabalho. Eram feitos licores e outras bebidas.. O que eu fazia no domingo? Lavava utensílios que se usava a semana toda. Tinha que lavar, arear, para a semana seguinte ficar tudo bonito. Eu trabalhava sozinha lá na fábrica.

 

P/1 - E lá pagavam já a senhora?

 

R/2 - Pagavam-me a semana, não falta. Porque faltava sábado, trabalhava no domingo. Foi quase… Foi uma semana.

 

P/1 - E a senhora dava esse dinheiro em casa, pra ajudar?

 

R/2 - Pra ajudar.

 

P/2 - Essa cidade, Tarnóvia, tinha muitas indústrias? Já tinha muitas indústrias, era uma cidade importante?

 

R/2 - Tinha. Tinha indústrias.

 

R/1 - Assim como São Paulo.

 

P/2 - Muito operários, muitas indústrias, muitos operários?

 

R/2 - É, muitos operários. Mas depois da guerra tinha mais moças que trabalhavam.

 

P/2 - E a maioria dessas fábricas eram de judeus ou não?

 

R/2 - Não. Eram de tesouras, de ferro, não eram de judeus. Mais essas coisas finas eram de judeus.

 

P/1 - E como é que a senhora conheceu o Seu Henrique lá?

 

R/2 - Depois, quando fiquei um pouquinho mais velha, ficaram envergonhados  que eu estivesse trabalhando na fábrica.

 

P/1 - Seus pais tinham vergonha?

 

R/2 - Não, todo mundo. Amigas e tudo isso. Então fui trabalhar nos chapéus de homem. O que eu fazia? Botava as fitas nos chapéus, aquele forro de couro dentro, e cosia em volta as beiradinhas. Isso que eu fazia lá.

 

P/1 - Ah, as beiradinhas. Era um trabalho mais leve. 

 

R/2 - Mais fino.  Na fábrica, o que a gente fazia o homem que tinha que fazer.  Vinha um vagão de vidros, de garrafas. As moças que carregavam nas… Eram caixões com alças, as mulheres que carregavam para o segundo andar, a pé.  Isso era muito pesado. E lavavam isto. No frio, com água gelada, no inverno, não era bom, mas a gente aguentou. 

Depois, eu foi trabalhar naquele… Na chapelaria.

 

P/1 - E a senhora trazia almoço de casa?

 

R/2 - Trazia comida de casa, com qualquer coisa assim, pra não… 

Depois, eu fiquei com minha tia, que morava perto. A minha tia morava pertinho daquela fábrica. 

Depois da guerra, meu tio tinha quatro filhos. Meu tio morava muito pobrezinho.  Quatro quartos, cozinhazinha, e tinha quatro filhos, por isso não tinha lugar pra ninguém. Quando meu tio foi para a América do Norte fiquei com minha tia, já tinha lugar pra mim. Ficou mais fácil pra mim, só ia na sexta-feira pra casa, pra passar sábado com os pais. 

Depois, fui trabalhar naquela chapelaria. Tinha um rapaz que os pais eram alfaiates. O rapaz me apresentou o Henrique.

 

P/1 - E aí começou o namoro?

 

R/2 - Mas um namoro assim… Namoro que gente… Sabe, lá não era… Quando se falava… Porque aqui, quando se fala um dia com um rapaz,  já se chama namoro. A gente andava bastante tempo, não sabia, porque ninguém podia imaginar que ele seria meu marido. A gente conversava, andava, passeava  juntos. Depois que nós nos conhecemos e ele… Não sei se agradou, se eu tinha… Não sei como é, disse que queria namorar mesmo. A tia também estava junto enquanto ele vinha me visitar, titia gostava dele. Gostava mesmo, porque ele é muito carinhoso...

 

R/1 - Eu era malandro daquele jeito.

 

R/2 - Carinhoso e sabia agradar. A mulher não precisa mais nada. A minha tia gostava dele como eu nunca vi.

 

R/1 - Toda a família. Os pais dela me adoravam.

 

P/2 - E você?

 

R/2 - Eu… Não estava acertado que ele iria casar comigo, não queria me expandir. (risos)

 

P/2 - Mas você gostava de outra pessoa?

 

R/2 - Não.

 

P/1 - Depois, vocês fizeram o tenaim?

 

R/2 - Ficamos namorando quase um ano, ficamos noivos e casamos.

 

P/1 - Na sua casa, em Koszysze.

 

R/2 - É. 23, nos casamos.

 

P/1 - E quem casou vocês?

 

R/1 e R/2 - O rabino. 

 

P/1 - Foi lá casar e fizeram uma festa?

 

R/2 - Fizemos uma festinha, como a gente podia. As possibilidades da gente.

 

R/1 - Modesta.

 

R/1 - Até aqui...  Era uma festa, sim.  Ela perguntou. Tem que dizer a verdade.

 

P/1 - Festinha. Tinha os que tocaram [um] pouquinho de violino pra gente, também [se] dançava um pouquinho, acabou.

 

P/1 - _________

 

R/2 - Fazia-se… Como se diz? Depois do casamento, oito dias de...

 

P/1 - Isso eu sei. Vai visitando de família em família.

 

R/2 - Não. Não. Depois do casamento tem oito dias...

 

P/2 - Lua-de-mel?

 

R/2 - Não é lua-de-mel. Fazia-se, toda noite se chamava um número…

 

P/1 - Numa outra casa, em outra casa.

 

R/2 - Não, na mesma casa. Chamava-se dez homens que faziam a reza. Scheive bruches! Scheive... Sabe isso...

 

P/1 - _________

 

R/2 - É, Scheive bruches.  Oito dias - não, eu não me lembro dez.  Depois, cada um foi para… 

E a minha tia, que o marido, que estava muito pobre… Quando ele foi para a América do Norte, ele num instantinho arrumou dinheiro. Ele era açougueiro. Arrumou dinheiro, ela comprou uma casa, onde ela morava. Comprou essa casa e tinha um pedaço de terra; ela construiu pra nós, mandou construir pra nós um quarto na cozinha e depois nos casamos.  Quando ela fez isso, nos casamos e ficamos lá. 

Ele trabalhava numa confecção muito importante. Fazia trabalho pra casa.   Tínhamos duas máquinas. Ele é muito trabalhador, meu marido. Muito mesmo.

 

P/1 - E a senhora já não trabalhava mais, depois de casada?  Só em casa?

 

R/2 - Não. A minha falecida sogra não me deixava trabalhar. Mas aquela  chapelaria onde eu trabalhava, eles queriam toda vida que eu trabalhasse.  Porque a chapelaria era embaixo, no sótão. E eu trabalhava aqueles… Meu trabalho, eu fazia dentro da casa daquela família da fábrica de chapéus e a senhora era muito caprichosa. Ninguém a agradava.

 

P/1 - Só a senhora.

 

R/2 - Só eu. 

Quando eu casei, minha falecida sogra não quis que eu trabalhasse. [Disse:] “Uma mulher casada não vai trabalhar fora.” O que se pode fazer? Então...

 

R/1 - A minha mãe gostava muito dela.

 

R/2 - Espera aí. 

Eu não trabalhei. E depois nasceu o primeiro filho...

 

P/1 - O Samuel ainda nasceu lá?

 

R/2 - Nasceu entre nós. Ele nasceu lá.

 

R/1 - Ele chegou aqui com treze meses.

 

R/2 - Com quatorze meses.

 

R/1 - Quatorze, treze.

 

R/2 - Quatorze. Ele nasceu em 24 de novembro. Nós casamos em 25 de...de [19]23. Em 1923, 25 de novembro... Dezembro. E Samuel nasceu [em] quinze de novembro de [19]24.

 

P/1 - Por que vocês vieram pro Brasil?

 

R/2 - Porque… Henrique tinha duas máquinas, eu o ajudava um pouquinho.  Como os poloneses eram muito caprichosos, a pessoa que não estudava, não fazia ginásio, não podia trabalhar para ter indústria maiorzinha, compreendeu? [Com] duas máquinas já não podia trabalhar. Ele tinha que estudar primeiro para poder ter mais uma pessoa dentro da casa trabalhando, então lacraram aquela máquina. E nós começamos a ficar muito tristes com essa vida, porque perseguiam os judeus, porque judeus isso, judeus aquilo… Não podia trabalhar e os judeus não podem ter... Então...

 

R/1 - Esta é uma verdade.

 

R/2 - Nós tínhamos duas tias na América do Norte. Pedimos à nossa tia pra mandar a passagem...

 

P/1 - Chamada.

 

R/2 - Chamada e passagem para a gente. Como a cota de poloneses era muita,  na América do Norte não tinha mais lugar. Tinha que esperar três anos. E nós sempre recebemos uns… Chamados, como se manda papeladas de… De bibliotecários, chamando gente para o Brasil - operários, trabalhadores, quem tinha ofício, então nós pegamos nisso. 

A tia também consentiu. Disse: “Vocês vão ficar três anos no Brasil e depois nós vamos levar vocês pra América do Norte.” E nós fizemos isso, mas levávamos a Dora conosco.

 

P/1 - A Dora tinha dois anos a menos, tinha dezoito?

 

R/2 - É, e solteira. Ela veio junto conosco para o Brasil. 

[Quando] nós já tínhamos nos acostumado aqui, já falávamos um pouco de idioma, veio a chamada. Chegaram as papeladas da América do Norte nos chamando, mas a Dora não estava incluída e era solteira. Por causa disso, nós não fomos para a  América do Norte.

 

P/1 - Um momentinho, antes de continuar a história. Os seus pais não ficaram tristes que vocês vieram pro Brasil?

 

R/2 - Ficaram tristes, mas ficaram mais tristes quando viram que a gente não tinha de onde viver. 

Ficaram muito tristes quando nós fomos embora.  Depois recebemos cartas e a gente se escrevia muito, contava toda a vida daqui e...

 

P/1 - Como foi a viagem de vocês?

 

R/2 - Nós  fomos… Fizemos as papeladas todas, ficamos na Varsóvia quanto? Oito dias?

 

R/1 - Oito dias, só esperando.

 

R/2 - Oito dias na Varsóvia, esperando navios. Nós viemos com navio holandês.

 

P/1 - Onde vocês tomaram o navio?

 

R/2 - Na Holanda.

 

P/1 - Na Holanda. Quer dizer, de Varsóvia pra Amsterdã vocês foram de trem?

 

R/2 - De  trem. E num lugarzinho, nós fomos com um pequeno naviozinho até navio grande. Não me lembro como foi.

 

P/1 - Vocês lembram do navio que vocês vieram pro Brasil? Como era o nome dele?

 

R/1 - O navio de… Não era bem conhecido, mas a gente pode se lembrar.

 

R/2 - Viajamos um mês.

 

P/1 - E chegaram em 24?

 

R/2 - Nós chegamos em 26 no Rio.

 

P/1 - Vocês chegaram direto no Rio de Janeiro? E não conheciam ninguém?

 

R/2 - Nós chegamos… Ninguém. No navio os marinheiros contaram histórias do  Brasil, que não valia nada, que as mulheres… Não era… Que a gente não podia… As mulheres eram enganadas, não sei o quê. Uma porção de coisas. Quando nós chegamos no navio, tinha uma porção de rapazes ídiches.

 

R/1 - Perto do navio.

 

R/2 - É.  Perguntamos, cada um queria saber e também aqueles que vieram um pouco antes de nós, então cada um queria saber como estava na Europa, como estava tudo isso...

 

R/1 - Como está na Polônia. Eram quase todos poloneses.

 

R/2 - É. A gente foi primeiro, levaram-nos para a Ilha das Cobras. Lá  tinha que mostrar os passaportes e… Depois nós voltamos. E levaram… Tinha Relief. Nós tínhamos endereço, ficar no Relief até a gente se arrumar, mas não foi assim. “Arrumem-se o mais depressa possível que já vem outro navio com outras pessoas.”

 

P/2 - E tinha que pagar depósito pro governo?  Tinha que fazer depósito em dinheiro?

 

R/2 - Não. 

 

P/2 - Foi direto? E tinha que… Para conseguir visto pra vir pro Brasil, teve que pagar algum tipo de depósito?

 

R/2 - Ah, isso teve. Lá na Europa.

 

R/1 - Pagar.

 

P/2 - Depositar e depois retirar?

 

R/2 - Não. Não tirar nada.

 

P/2 - Não. Vocês pagaram a passagem.

 

R/2 - Nós pagamos a passagem e chegamos com cinco dólares.

 

P/1 - E vocês ficaram no Rio, depois que saíram da Ilha das Cobras. Como é que foi?

 

R/2 - Desce… Na volta, nós chegamos; [o] navio ainda estava parado, nós levamos todos nossos pertences e tinha rapazes que disseram assim: “Vocês vão conosco.” E o medo? Eu e a Dora, uma moça. Mas disse que para Relief que a gente ia, então aqueles marinheiros disseram: “Fiquem com os olhos bem abertos, porque eles podem carregar vocês para uma casa que vocês não podem sair depois.” 

Mas foi muito bem, levaram a gente, nós tínhamos cama para dormir. Ainda, quando nós chegamos, tinha, um tempo… Tinha uma seção de roupas que alfaiate era pago muito bem. Perguntaram o ofício que ele [Henrique] tinha. Ele ganhou uma porção de cartões de alfaiates. “Quando você quiser trabalhar, vem na minha casa.” Isso tudo assim. 

Nós chegamos [na] terça-feira de noite. Fomos, dormimos no Relief; eu tinha que ficar com Samuel no Relief e a Dora com… De manhã ele tirou, tinha uma porção de cartões. Ele disse: “O primeiro cartão que eu ti...”

 

R/1 - Pensei que ela ia esquecer essa palavra. 

 

R/2 - Disse:  “O primeiro cartão que eu tirar, aqui eu vou trabalhar.” Tirou um cartão que era no Regente Feijó. Alfaiate, judeu.

 

R/1 - Por acaso.

 

R/2 - Alfaiate. Ele foi com o cartão, de manhã cedo, com a Dora junto, já  procurando… E não voltou mais. Ele ficou lá trabalhando logo.

 

R/1 - No mesmo dia.

 

R/2 - No mesmo dia que ele foi com o cartão, de manhã, ele já… Ele ficou lá trabalhando. O pessoal precisava ver se ele era alfaiate ou não, se sabia trabalhar. Às vezes não valia a pena, mas ele ficou muito tempo lá naquele alfaiate. 

No alfaiate, logo depois… [Na] quarta-feira  começou a trabalhar. [No] sábado, na alfaiataria tinha um rapaz alemão. Eles se conheceram no trabalho.  Recebeu o primeiro pagamento e aquele rapaz levou a gente num… Na Rua Itaperu, no Catumbi… Rua Navarro. Disse assim: “Vocês chegaram da Europa, não vão aguentar o calor daqui. Lá, [na] Rua Navarro, é um clima muito bom, mais europeu. Muita vegetação. Vocês vão lá, eu vou levar vocês, que eu tenho uma.. As famílias alemães que alugam os quartos.”

 

P/1 - Mas não judeus?

 

R/2 - Não. E nós fomos morar numa casa, [na] Rua Navarro...

 

R/1 - Rua Navarro. Essa mesmo. Eu não podia falar nada.

 

R/2 - Rua Navarro, uma ruazinha no Catumbi. 

Chegamos lá. Eram famílias alemãs… Não eram alemães, eram austríacos.

Alugamos dois quartos. Por que dois quartos? Porque nós chegamos com rapazes, nós conhecemos dois rapazes no navio que eram da mesma nossa cidade, então ficamos amigos. Eles queriam [vir] junto. Esses dois rapazes ficaram com um quarto e nós com outro. 

Depois, aquelas famílias alemães melhoraram um pouquinho de vida e foram morar nos melhores lugares.  Ele era… Não vou contar da… Não me lembro. Nós ficamos com essa casa e alugamos pras outras pessoas. Onde  aquelas três famílias alemãs moravam [os cômodos] ficaram vazios; nós ficamos nessa casa, alugamos três quartos. Só para judeus.

 

P/1 - Quer dizer que vocês, em pouco tempo no Brasil, já tinham vida melhor do que tinha na Europa?

 

R/2 - Muito melhor porque, oito dias depois, a gente alugou dois quartos. Trabalhava das cinco até meia-noite, às vezes. 

Eles não conheciam aquela rua e eu… Isso foi… Nós alugamos no sábado,  domingo; aquele rapaz mostrou onde… Tinha dois bondes. Um ia para...

 

R/1 - Ia pra Tijuca.

 

R/2 - Não. Que Tijuca! Não, um ia para Regente Feijó e outro ia… Não, na  Praça… Tiradentes. Não era Tiradentes que era aquele lugar?

 

R/1 - Sim, sim.

 

R/2 - Então, eu tinha que levar comida pra eles.

 

P/1 - E a Dona Dora trabalhava também?

 

R/2 - Trabalhava junto. Foi aceita junto com ele [para] trabalhar na mesma alfaiataria. Ela...

 

R/1 - Trabalhava comigo.

 

R/2 - É. [A] primeira saída com almoço, com Samuel, criança, no colo, e a sacola com comida. E eu...

 

P/1 - A senhora, ao meio-dia, levava comida pra ele e pra D. Dora?

 

R/2 - É. Então, eu tomei ônibus… Bonde errado.

 

P/1 - E não falava nada de português.

 

R/2 - Não falava nenhuma palavra [de] português.

 

P/1 - E foi para onde? Na Praça Tiradentes?

 

R/2 - Foi… E Praça Tiradentes. Não sabia onde tinha que entrar. Eu mostrando o cartão onde eu queria ir, um me disse lá, outro disse cá. Até… Eu fiquei...

 

P/1 - Que nervoso, hein? (risos)

 

R/2 - Nervosa. Eu estava suando em bicas. Com criança no colo e a sacola e  nervosismo pra chegar lá. Até encontrei um rapaz, brasileiro, mostrei. Ele  já viu que eu estava quase caindo de cansaço. Ele me levou até a porta, mostrou onde [era]. Quando eu cheguei, tinha que subir a escada, [era no] primeiro andar.  Quando eu cheguei na última escada eu não sei como não caí. Sentei, não podia nem falar.

 

P/1 - De tanto susto.

 

R/2 - Susto não. Cansaço e… Susto.

 

P/1 - O que a senhora achou, no princípio, do Brasil? O que a senhora achou do Rio?

 

R/2 - Eu achei muito bom, mas tinha muita saudade. Eu estava ficando sozinha em casa; eles trabalhavam muito à noite, levantavam muito cedo e eu ficava sozinha. Quando eu levava comida, ainda moravam aqueles alemães [lá].  Quando eu fazia kosher, eles riam de mim. Quando eu lavava a louça na bacia - comprei uma bacia pra não lavar na pia - eles riam de mim, caçoavam. Eu era uma judia suja, não sei o que, e isso me doía muito. Mas quando eles saíram, já me aliviou. Eu morava...

 

P/1 - E vocês não procuraram outros judeus? Assim pra…

 

R/2 - Onde? Como? Lá  naquele lugarzinho, naquela rua não tinha nenhum judeu.

 

P/1 - Não tinha, mas [tinha] o Campo de Santana.

 

R/2 - Eu ia todo dia. Quando eu chegava do almoço, eu ia para [o] açougue no Santana. Comprava carne todo dia.

 

R/1 - Kosher.

 

R/2 - Kosher. Eu fiz tudo sempre kosher, quando estava no Rio.

 

R/1 - Ela era muito religiosa.

 

R/2 - Fazia tudo kosher. Tudo, tudo.

 

P/1 - E todo o tempo vocês mandavam, escreviam para a tia nos Estados Unidos e para a família na Europa?

 

R/2 - Nós escrevíamos. E eu era tão… Em casa era… Vou te dizer que ninguém sabia que eu sabia escrever, não sabiam se eu podia. Mas quando comecei escrever cartas, me falaram...

 

P/1 - A senhora escreve em quê? Em ídiche?

 

R/2 - Escrevia em polonês, escrevia em ídiche. Eles admiraram minhas cartas.  Eu escrevia cartas, escrevia. E tinha muita tristeza na alma, porque estava sozinha. Não tinha amizades aqui por perto, não tinha ninguém, e o marido  trabalhando, a irmã trabalhando. E todo o tempo que nós estivemos lá dormimos no chão. Não tinha móvel nenhum.

 

P/1 - No princípio, né?

 

R/2 - No princípio. Depois, quando nós mudamos… Quando passou um tempo,  nós mudamos pra Regente Feijó. Lá encontramos uma sala… Duas salas, onde ele já podia trabalhar por própria conta, e outro quarto pra dormir. E mais o quê? Posso dizer?

 

P/1 - Pode.

 

(PAUSA)

 

P/1 - Conte agora. Quer dizer que, na época, a senhora sofria pra burro com percevejos?

 

R/2 - Como nós sofríamos naquele lugar, com percevejos, com… Samuel era criança, não dormia a noite toda. Sabe o que nós fazíamos? Às três horas da madrugada nós íamos à Praça XV, onde gente ficava nas pedras tomando banho de mar; ficávamos [ali] e a criança dormia [um] pouco.

 

R/1 - Tão longe.

 

R/2 - É. Nós íamos a pé, em casa a gente não aguentava. Lá, nós encontramos um rapaz que veio… Ele viu… Ele trabalhava junto com Henrique, já era… Henrique trabalhava num salão pra ele mesmo...Trabalhava por própria conta. Um rapaz ídiche trabalhava com ele. E minha irmã estava sofrendo muito de calor, não podia aguentar. Ele disse assim: “Eu tenho um cunhado em Petrópolis que é… Petrópolis, se viaja duas horas de trem; lá a gente pode viver como na Europa. Fresquinho, bonitinho, tudo limpinho.” 

Pouco depois, rapidamente, meu marido pega aquele rapaz, num domingo, e vai pra Petrópolis. Aliás, [na] viagem de trem pra cima já ficava frio, ficava ____. E  aqui tinha bastante judeus que trabalhavam em prestação. Nós chegamos num… Um casal, sem filhos. Ele disse que trabalhava a prestação, tinha muitos ternos para fazer, muito trabalho de costura. Se ele viesse para Petrópolis, ele daria [para Henrique] um trabalho quando ele pudesse trabalhar. 

Foi rapidamente aceito aquele pedido. Nós desarrumamos tudo e chegamos para Petrópolis. Em Petrópolis...

 

P/1 - Isso foi o quê? Em 1927?

 

R/2 - 27. 

 

R/1 - 26.

 

R/2 - Que 26? 27.

 

R/1 - Ah, [em] 26 chegamos para o Rio. É isso mesmo. 27.

 

R/2 - 27 para 28. E quando nós chegamos aqui [em Petrópolis], aquele casal morava numa casa e embaixo tinha um porão muito bom. Lá nós instalamos, lá trabalhamos e lá dormimos. Depois alugamos uma casa, fomos morar separados e trabalhávamos. 

Ficamos até agora em Petrópolis. Mas de lugar, nós saímos da Rua Teresa, chegamos... Moramos, depois, no Souza Franco, e de Souza Franco, nós chegamos aqui na esquina, na esquina ficamos no.... Até hoje.

 

P/1 - E quando a Dona Regina veio pro Brasil?

 

R/2 - Três anos depois, nós a trouxemos.

 

P/1 - Vocês mandaram chamar?

 

R/2 - Mandamos chamar. Chamada e mandamos passagem pra eles. Ela já veio com o marido.

 

P/1 - E quem mais veio de vocês ou da sua família? Veio alguém?

 

R/2 - Vem, depois da guerra, de Hitler, da Alemanha, o meu irmão, o Schie. Não sei se você já pegou.

 

P/1 - Não. Ele ainda não.

 

R/2 - Ele saiu vivo do campo de concentração, ficou um pouco tempo na França com meu irmão, que estava lá na França. Ele também saiu da Polônia, ficou na França; ele ficou pouco tempo [porque] nós fizemos chamado e o trouxemos pra cá.  Agora faz três anos que ele faleceu, mas casou, teve quatro filhos...

 

P/1 - E ele morava onde? No Rio?

 

R/2 - No Rio. Morou conosco [por] dois anos. Depois ele… Ele queria melhorar  a situação dele. Foi trabalhar no Rio, trabalhou como alfaiate; não agradou, foi trabalhar com prestação. Lá conheceu uma moça, Olaris… Casou e...

 

P/1 - E por que mais da sua família não veio?

 

R/2 - Porque a minha mãe tinha três filhos que eram menores de idade e dois filhos que era maiores de idade, então já não podia trazê-los pra cá. Não sei, o governo já não deixava muito os judeus emigrarem. Ela disse que não largaria os filhos...

 

P/1 - Quer dizer que da sua família só quem veio pro Brasil é que se salvou?  Vocês tiveram comunicação até quando? Até quando vocês se escreveram?

 

R/2 - Veio da Europa? Não sei, acho que 40.

 

P/2 - Vovó, mas depois da guerra o tio da França também estava vivo.

 

R/2 - Vivo. É, da matança, ele ficou vivo.

 

P/2 - Além dele, ainda ficou mais gente viva?

 

R/2 - O Schie.

 

P/2 - Mas o Schie estava aqui. Sem esses do Brasil...

 

R/2 - Não.

 

P/2 - Ah, o Schie ainda estava lá na guerra.

 

R/2 - Em campo de concentração. Foram dois irmãos, ficaram vivos. O Schie...

 

P/1 - Esses anos de guerra pra senhora devem ter sido horríveis, sem saber o que que estava acontecendo.

 

R/2 - Horrível. Não sabia. O Schie contou, quando veio para o Brasil. Ele estava  com mais dois irmãos na concentra.. Na mesma concentração. Um foi… Morreu tuberculoso, de tanto trabalho ele ficou tuberculoso. E outro foi morto pelo tiro de um soldado que pediu um cigarro. Ele não fumava e na concentração ninguém tinha cigarro, então ele disse que ele não podia dar.  Não deu um cigarro, ele atirou nele e acabou-se, matou.

 

P/1 - E na família do Sr. Henrique, alguém se salvou?

 

R/2 - Não, não.

 

R/1 - A minha… Minha família disse, a minha mãe disse que eles nunca chegariam num país goi. Eles acharam esse aqui, quer dizer, não tem ídiche quase nenhum no Brasil.

 

R/2 - Não, depois de… Meu pai faleceu antes da guerra do Hitler. Ficou minha avó _____ depois da Primeira Guerra. E a avó ficou sozinha… E a minha mãe com um filho menor, que era garotinho pequeno. Quando os alemães entraram, ficaram… Porque as nossas casas não eram grandes, lá faziam um… Para aqueles… Os soldados alemães ficaram, não sei se eles precisavam um do outro, então se davam muito bem. 

De princípio tinha alemães, soldados já idosos, que respeitavam um pouquinho, mas quando eles saíram do lugar, levaram... Até hoje não se sabe o que aconteceu com minha avó e com minha mãe, com o garotinho mais novo. Os católicos, os goim de lá… Meu irmão da França ainda foi visitar a Polônia, depois da guerra...

 

P/1 - A senhora nunca foi?

 

R/2 - Não, nunca fui. Então… Mas não se abriram pra dizer onde eles morreram,  não sabem como… Eles não abriram a boca pra dizer o que aconteceu com eles.

 

P/1 - Que coisa dura deve ter sido a guerra aqui, sem saber...

 

R/2 - Muito triste. Muito triste.

 

P/1 - Vocês só souberam mesmo da desgraça toda da Europa quando acabou a guerra?

 

R/2 - Nós sabíamos que tinha muitos ju… Todo mundo estava desgraçado, mas não sabíamos certo. Tanto [que] depois [que] o Schie voltou da concentração, a gente ficou muito contente que ele pelo menos ficou vivo e [que] o irmão da França ficou vivo porque as pessoas boas guardaram, o esconderam já casado, ele com a mulher. Ele ficou na França, depois nós soubemos que ele estava vivo,  mandamos o chamado e ele veio pro Brasil. Ele contou muita coisa triste da concentração e a gente sentiu muito mesmo.

 

R/1 - Chegou aqui, mas morreu aqui...

 

P/1 - Quando vocês fundaram a sinagoga de Petrópolis?

 

R/2 - Quando? Em 40 e...

 

R/1 - Em 40 e… 48. 

 

R/2 - 48. Nós trabalhamos aqui.

 

R/1 - Como eu falei, graças a Deus, a sinagoga tem judeus para ir. 

Já tinha uma colônia aqui. Eu cheguei aqui, quem deu na cabeça pra fazer uma sinagoga? Aliás, eu não falei em sinagoga. Eles ficaram zangados porque eu  falei [em] fazer uma Schule, pra estudar. Eles perguntaram: “Mas por que chama de Schule?” “Porque quando vocês aprenderem a rezar qualquer coisa, lá que vai-se dar o nome de sinagoga. Por enquanto, é assim.”  Então, eu que construí a sinagoga. Não entrou, aí [não] veio ninguém aqui.

 

P/1 - Seu Isidoro já estava aqui naquela época?

 

R/1 - Eu estava aqui. Cheguei muito antes que Isidoro.

 

P/1 - Não o senhor. Seu Isidoro.

 

R/1 - Isidoro, eu cheguei antes, estou falando. Isidoro era muito amigo meu. Eu cheguei antes que ele.

 

P/2 - Vovó, durante o período do Getúlio Vargas o que aconteceu aqui em Petrópolis?

 

R/1 - Que aconteceu, com Getúlio Vargas?

 

P/2 - É, aqui em Petrópolis. Como é que aconteceu em relação aos judeus?

 

R/1 - Gosto dele. 

 

P/2 - Você sabe.

 

R/2 - Eu sei, mas ele não lembra.

 

R/1 - Não, eu lembro. Eu não tinha [nada] contra ele. Getúlio Vargas? 

 

(PAUSA)

 

R/1 - Eu tive uma discussão com Getúlio Vargas lá na Rua Köeler, mas ele não falou mal dos judeus. Aconteceu uma vez com um judeu que estava doente aqui, que morreu depois, Stefan, que eu não queria… Eu queria que aquele judeu ficasse enterrado no Rio de Janeiro. Esse aqui.

 

R/2 - Stefan Zweig.

 

R/1 - Stefan Zweig, isso mesmo. Então... Mas ele não queria, ele disse: “Não, eu queria…” Ele disse que aquele judeu tinha que ficar enterrado aqui porque [em] Petrópolis queriam que ele ficasse aqui enterrado. E mais nada. O resto não foi...  Foi uma discussão grande dentro lá do gabinete da Avenida Köeler, que eu vi.

 

(PAUSA)

 

P/1 - A senhora lembra de histórias da época de Getúlio Vargas?

 

R/2 - Eu me lembro.

 

P/1 -  Então conta aqui pra gente.

 

R/2 - O Getúlio Vargas deixou o integralismo muito à vontade. E eles só queriam os judeus para matar, porque… Não só judeus, porque muitos goim foram também naquela lista, no tempo de integralismo. Naquela lista [de] quem tinha que ser morto [estavam] primeiro os judeus; as árvores daqui, na frente, tinha tudo marcado, cada judeu que seria pendurado naquela árvore. 

E tinha uma família, no Bingen, que era contra o integralismo. Pra ela tinham escrito que primeira coisa que fariam seria arrancar a língua dela.

 

P/1 - Mas fizeram alguma coisa ou só falaram?

 

R/2 - Não  fizeram porque… Não  fizeram nada porque o Getúlio Vargas, não sei o que é… Posso contar uma coisa? Nós estávamos num nervosismo porque  ouvimos tanta coisa. Tinha tiroteio aqui, queriam… Um queria matar o outro. 

Eu sonhei, no final, que tinha acontecer a desgraça… Eu sonhei que a esposa do Getúlio Vargas tinha falado com ele, tinha dito assim: “Getúlio, você não está vendo que Petrópolis está pegando fogo, que ninguém vai se salvar? Porque uma desgraça vem para Petrópolis toda. Você precisa dizer pra apagar esse fogo.” Eu sonhei. Não contei? No dia seguinte, veio um mandato de Getúlio Vargas, disse: “Para.” Foram todos os integralistas, os chefes foram presos. Tiraram aqueles camisas verdes, todo mundo, e ficou… Lá ficou calmo. 

Encontrava-se aqueles livros onde alguém era… Era Doutor.... Como se chama? Doutor Rangel Pestana. Rangel Pestana era… Morava no morro onde tem agora o edifício, ele morava aqui. Rangel Pestana era a favor dos judeus, era amigo dos judeus, então ele combatia esses desgraçados integralistas. Um dia, fizeram um tiroteio; ele se escondeu na nossa casa e a esposa com os filhos ficaram lá na casa dele, na frente, aquela casinha que estava num morrozinho. Ela quase morria de tristeza. Não tinha telefonema, não tinha nada para se… Eu  disse assim: “Doutor, eu vou me arriscar. Eu vou avisar a sua esposa que o senhor está bem guardado na nossa casa, senão ela é capaz de…” Quando eu cheguei lá, ela desmaiou. Disse que vinha com uma notícia tão boa, que ela nunca podia… Ela pensou que o marido já estava morto. 

Mas foi um… Então se encontraram naquele sede, em frente onde está agora a confecção; encontraram os livros [descrevendo] quem seria morto assim, outro seria morto assim. Iam fazer um massacre aqui.

 

R/1 - Acho que eram os integralistas.

 

R/2 - Integralistas. E desse tempo [em diante], ele pegou aquela rede de uma vez e acabou com o integralismo.

 

P/1 - Isso deve ter sido em 32, por aí?

 

R/1 - Não, não, foi mais.

 

R/2 - Não sei como… Mas foi muito feio. Muito feio.

 

P/1 - E na época da guerra, os alemães, aqui em Petrópolis? Eles...

 

R/2 - Eles também ficaram felizes. 

 

P/1 - Com quê?

 

R/2 - Felizes consigo mesmos. Até os judeus. Tinha um judeu alemão que era antissemita. Bebia cerveja com Hi… Como se chama?

 

R/1 - Hitler não.

 

P/1 - Rack.

 

R/2 - Era amigo de Rack. Ele se vestia de… Vestimenta militar alemã, e ficaram grandes amigos, bebiam cerveja juntos. Até quando estava para morrer, ele foi pra Alemanha; se vestiu de soldado e foi para Alemanha. Lá morreu e lá o enterraram, aquele judeu. Sabe quem é? Era o pai da Dona Elizabeth Feine.

 

P/1 - Ah, não conheci. Ela eu conheço. A Lizelote.

 

R/2 - Lizelote. Era pai dela.

 

P/1 - Quer que eles falem dos judeus alemães?

 

P/2 - E como é que os judeus se organizaram aqui em Petrópolis? Tinha também separação de alemães, de poloneses? Como é que vocês conseguiram juntar tudo na sinagoga? Ou não juntaram?

 

R/1 - Não, os alemães, no último tempo, eles queriam...

 

R/2 - Judeus. Porque eles estavam mais seguros quando… Aquele que entrou na sinagoga estava mais seguro. Então seu avô, quando eles queriam ir pra Rio de Janeiro, tinha que pedir um… Passe pela sinagoga. Compreendeu? Aqueles que iriam para o Rio. Mas aqueles que não tinham passe não podiam passar.

 

P/1 - Isso na época da guerra?

 

R/2 - Na época da guerra.

 

P/2 - Eles tinham que vir pedir ao vovô? Vovô dava o passe?

 

R/2 - É. Aquele que conhecia. Quem ele conhecia, que merecia, que era um judeu mesmo, [ele] dava passe.

 

R/1 - Eu tinha que assinar os pedidos.

 

R/2 - Não, estava muito bom.

 

                           

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