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História

50 anos de balcão

História de: Hélio Micelli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/07/2005

Sinopse

Identificação e atividade dos pais. As brincadeiras na infância. O footing e o Baile do Atirador, evento onde conheceu sua mulher. O casamento e a decisão de se mudar para São Carlos. O trabalho em empório. A abertura do primeiro supermercado em São Carlos e os fornecedores. A evolução do empório para supermercado, das maneiras de vender e dos tipos de cliente. O racionamento durante o período de guerra e os motivos que o levaram a fechar, em 1978, o supermercado. O envolvimento com a Associação Comercial. Os períodos com mudança de moeda. A participação no Rotary e em grupo de terceira idade do Sesc. As principais diferenças no comércio ao longo dos anos. Família atual e lições do comércio.

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História completa

P/2 – Gostaria que o senhor dissesse o seu nome, local e data de nascimento.

 

R – Nasci em São José do Rio Preto no dia 11 de abril de 1921.

 

P/2 – Nome completo?

 

R – Helio Micelli.

 

P/2 – O nome dos seus pais?

 

R – Antonio Miceli, Tereza Alario Miceli.

 

P/2 – E o nome dos seus avós?

 

R – Por parte do pai, Elvira e por parte da mãe, meu avô chamava Brás minha avó, Maria.

 

P/2 – Qual era atividade profissional dos seus pais?

 

R – Minha mãe era do lar, né, e o meu pai, sapateiro.

 

P/2 – A origem do seu nome ?

 

R – A origem do...

 

P/2 – Do sobrenome, do nome da família?

 

R – É italiano, né.

 

P/2 – O senhor tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P/2 – Quantos?

 

R – Em tudo tem sete.

 

P/2 – Como foi a sua infância ?

 

 R – Infância minha, uma coisa muito boa, meus pais eram pobre, mas souberam nos orientar na vida.

 

P/2 – Como era o bairro onde morava, a rua, as brincadeiras?

 

R – E, Rio Preto morava na Rua Amaral.

 

P/2 – E como era essa rua?

 

R – Era uma rua de movimento que nem, vamos dizer, essa aqui, que nem a Episcopal, uma rua assim, travessa assim, passava onde lá é a Tiradentes o outro era, e passava em frente a catedral, você não conhece, né, Rio Preto?

 

P/2 – Não.

 

R – Tem a catedral no centro, é um quarteirão, dois quarteirões, uma ia pro cemitério a outra ia pra Vila Vereadora.

 

P/2 – Como eram as suas brincadeiras favoritas, da molecada da época.

 

R – Brincadeira não tinha tempo, porque precisava trabalhar, inclusive quando eu tinha oito anos eu vendia jornal na rua, hoje você vai buscar na banca, naquele tempo pegava lá na banca dez, quinze exemplar e saía gritando: “Ô, aconteceu isso, tal.” Tá lembrada (riso) e aí vendia, ganhava dinheirinho porque precisava e acabei aprendendo o ofício de barbeiro, porque precisava levar pra casa 100 cruzeiros pra pagar o aluguel, eu era responsável pelo aluguel tinha o quê, uns oito, nove anos e depois eu acabei, era empregado de salão aprendi o ofício e acabei ficando com o salão, porque o proprietário morreu, ele era alfaiate, tinha um irmão, mas também não sabia nada do ofício, nem ele não sabia e fiz uma proposta pra ele, eu ensinaria o moço o ofício de barbeiro e com isso não precisava pagar e ia adquirindo dinheiro pra poder continuar no ofício.

 

P/1 – Voltando pra sua infância, o senhor se lembra como era a casa, era pequena, grande, tinha quintal?

 

R – Minha casa vou falar da penúltima, não vou falar da última, é essa penúltima casa.

 

P/1 – A gente queria falar daquela lá da sua infância, onde morava em São José.

 

R – Lá é uma casinha mal e mal tinha dois quarto, uma cozinha, um fogão de lenha do lado, onde todo dia a tarde eu tinha que moer o café pro dia seguinte, não é que nem hoje não.

 

P/1 – Naquela época se comprava o café em grão.

 

R – Grão, torrava, a água pegava do poço, hoje tem balde, naquele tempo não tinha nem balde nem pra tomar banho. Tinha os meus irmãos, todos trabalhavam, tudo ganhava pouco, né, estão falando em crise agora, então não conhecia aqueles...

 

P/1 –Quantas pessoas moravam nessa casa nessa época?

 

R – Sete, oito, nove, meu pai tinha, era um salão pequeno na frente, tinha uma mesona grande, é só fazer uma arte e a cinta de couro mesmo, ficava amarrado lá no pé da mesa..

 

P/1 – E quais eram as artes, assim?

 

R – Ah isso, uma vez eu trabalhava num salão perto dum açougue e aquele tempo, pra limpar aquelas peças do açougue, ia no rio buscar areia e o dono lá estava com a mão toda suja, eu não sei o que o irmão dele fez, eu dei um soco nele e ele me pegou no pescoço, pegou a roupa aqui me sujou tudo de areia, ficou tudo preto, foi lá em casa reclamar, apanhei dele e apanhei em casa ainda.

 

P/1 – Tem mais estórias, o que a molecada aprontava na época?

 

R - É, jogava bolinha de gude, né, pique, que a geração de hoje nem sabe o que é isso, né, aí eu continuei naquele salão, comecei a namorar essa minha garota, só cinqüenta e oito anos de casado.

 

‘P/1 – E o senhor estava falando que a sua casa ficava perto da igreja, tal e como era, fale um pouco mais, como era essa movimentação lá na rua, o que é que tinha, como as pessoas andavam na época? De carro?

 

R - Não, carro não tinha, era cavalo, né.

 

P/1 – Tudo a cavalo?

 

R – Tudo a cavalo, carro, quem tinha carro era super milionário, nem ônibus não tinha, fazia tudo a pé, eu ia pro serviço, andava acho que uns 1000 metros, ficava um pouquinho, aí almoçava, voltava pro serviço, voltava à tarde pra casa, fazia a lição e começava a entrar na escola às 7 horas, ia pra casa, almoçava, jantava, ia fazer a lição e depois ia dormir.

 

P/1 – E o senhor estudava onde? Qual era o nome da escola?

 

R – Estudei aqui, Dom Pedro II.

 

P/1 – No Dom Pedro II, o senhor fez o primário, onde o senhor aprendeu a ler?

 

R – Fiz o primário, inclusive com tudo isso tive uma grata satisfação agora há pouco tempo, no Estado de São Paulo publicou um concurso pra fazer um livro sobre o sonho, eu falei: “Ah, eu vou arriscar”, fiz o artigo e mandei. Qual foi a surpresa minha? Em 11430 autores que mandaram, eu peguei o quarto lugar.

 

P/1 – Que legal!

 

R – Legal porque eu não tenho cultura, tudo que eu sei aprendi comigo sozinho.

 

P/1 – E lá em São José do Rio Preto o senhor estudou também, foi lá que aprendeu a ler?

 

R – O primário, é.

 

P/1 – O primário foi lá, qual que era o nome da escola, o senhor se lembra?

 

R - É do comércio também, antigamente não existia outra escola, só comércio.

 

P/1 – Tá, Escola do Comércio?

 

R – Do Comércio.

 

P/1 – O senhor se lembra como era a escola, como eram as brincadeiras ?

 

R – É era difícil, porque o povo era pobre, de lá tinha que vir pra São Paulo a Campinas, mas que jeito, num vim, não tinha jeito de vim.

 

P/1 – E era longe a escola da sua casa?

 

R – Ah era, era uns dois quilômetros e meio mais ou menos, que morava no bairro, né.

 

P/2 – O senhor disse que a escola era comercial, é isso, do Comércio?

 

R – É.

 

P/2 – E ela influenciou alguma coisa na sua atividade comercial?

 

R – Influenciou, porque eu sabendo ler, eu era muito dinâmico, fazia as coisas, gostava de fazer, estudava de noite, lia muito, mas não tenho curso superior não.

 

P/1 – A gente falou da sua infância tal, vamos falar um pouco de quando o senhor era mais jovem, como foi a sua juventude?

 

R – Bom, a juventude, eu vou primeiro fazer um detalhe, depois nós entramos. Em 1938 eu fiz o Tiro de Guerra, passei, aliás devia até ter trazido pra vocês verem o certificado do Tiro, e a gente fazia o Tiro lá na catedral, ficava em uns degraus bem no alto assim, o sargento ficava lá em cima fazendo instrução e a moçaiada, criançada, ficava em volta fazendo farra e caçoando da gente. Inclusive tinha um atirador que não acertava os passos, quando era direita ele punha esquerda, quando era esquerda ele punha direita. Então o sargento, que se chamava Valdemar, ele era bravo, feito uma onça, ele punha sempre um sujeito mau atrás dele pra dar pontapé na perna dele. E o que se jogava, o que se brincava era bolinha de gude, peteca, essas coisas, não tinha outra coisa, à noite não tinha nada desses barzinhos, essas coisas aí, não.

 

P/1 – O pessoal ia pra praça, não ia?

 

R – Ia pra praça fazer o footing que eles falavam, né.

 

P/1 – E como que era o footing, o senhor também fazia o footing?

 

R – Fazia, o footing é o seguinte: os homens ficavam de um lado e a calçada bem larga, parado e as moças passavam, depois interessava, dava uma piscadinha, né, e assim em 1938 foi onde eu conheci a minha esposa, teve um Baile do Atirador. Lá tinha, aqui não tem, mas lá naquele tempo tinha o Baile do Atirador e foi no Salão Comercial e eu fui e vi essa menina lá também e comecei paquerar. Depois, como tinha o salão ali em frente a catedral, ela todo dia ia na igreja e fomos namorando um ano, dois anos, três anos, quatro anos, aí casamos e viemos pra cá, sem um vintém no bolso, sem crédito, sem nada, sem casa, sem nada, não é que nem hoje, vou casar, geladeira, máquina de lavar roupa, lavar prato.

 

P/1 – O senhor casou e foi morar lá mesmo em...

 

R – Morei uma temporada lá porque tive um problema lá no bar porque precisei vender o salão e afastei o dinheiro tudo pro bar lá. Depois eu tive um problema lá, desisti e vim embora pra cá.

 

P/1 – Esse bar era do seu irmão?

 

R – Meu irmão.

 

P/1 – Qual era o nome dele?

 

R – Chamava, o meu irmão, Jaime e o meu pai chamava Antônio.

 

P/1 – Nessa época que o senhor conheceu a sua esposa, os jovens não iam no cinema, não tinha?

 

R – Muito difícil, tinha um cinema lá, na quarta-feira tinha a sessão das moças, então o moço ia lá pra encontrar com a namorada, pagava o ingresso dele e o ingresso da noiva, da namorada, 20 centavos custava e era uma senhora orquestra Milani, hoje nem existe mais e tinha no salão do Cine Rio Preto um salão bem grande e a gente ia pra lá, 2 e meia, 2 horas, que a orquestra estava tocando pra gente dançar antes de ir no cinema.

 

P/2 – E o senhor tinha um grupo de amigos?

 

R – Tinha um grupos de amigos.

 

P/2 – Quem eram os seus amigos?

 

R – Bom, quando eu vim pra cá eu tinha uns parentes da mulher aí, nesse grupo de amigo inclusive tinha um de São José do Rio Preto que chamava Hellio Bonfá. Esse posto na estrada aí era dele, inclusive um dia ele veio falando coisa, que não sei o que, ele corria com o carro, eu falei: “Não faça isso rapaz, 135 por hora é uma loucura, você vai perder direção, bater numa ponte e aí você vai ver como vai ser difícil.” E o que aconteceu, no fim da semana ele saiu com o carro nessa estrada que vai pra Rio Claro, tem uma ponte ali e ele bateu com o carro dele e morreu.

 

P/1 – E falando ainda da sua juventude, naquela época os bailes de Carnaval eram famosos, o senhor freqüentava ?

 

R – Era sucesso, freqüentava, o Carnaval de rua, né, que tinha aqueles automóveis abertos, porque hoje o automóvel fechado não faz Carnaval. A gente gastava sacos e sacos de confete e serpentina e alegria, né, com respeito e tudo era uma beleza.

 

P/1 – E o senhor freqüentava bastante esse, era uma diversão?

 

R – Freqüentava, é o único dia que se freqüentava esse baile de Carnaval ou se não quando a gente, num sábado, o pai permitia que você fosse no baile, se não ia, também não... 9 horas em casa.

 

P/1 – Era rígido?

 

R – Oh. Não é essa vida mole que o pessoal aí tem hoje não, viu.?

 

P/1 – E o senhor praticava algum esporte?

 

R – Gostava de jogar futebol, né.

 

P/1 – E jogava sempre assim com os amigos?

 

R – Não, não jogava sempre não, ah só pra distrair um pouquinho.

 

P/1 – Bom, o senhor falou que conheceu a sua esposa num baile, né?

 

R – No baile do Tiro de Guerra, 1938.

 

P/1 – E depois, quanto tempo de noivado até casar?

 

R – Foi quatro anos namorando, dentro dos quatro anos eu casei, ela era muito nova e eu também, ela tinha 18 anos e eu tinha 22.

 

P/2 – O senhor se lembra do dia do casamento?

 

R – Lembro.

 

P/2 – Como foi?

 

R – Eu notei que a igreja estava lotada e meu sogro era o padrinho, quando chegou na porta parou e eu falei: “E agora, o que foi que aconteceu?” Aí mandei o padre esperar um pouquinho. Com um vestido comprido, ela foi dar um passo e descosturou o vestido aqui em cima, toca arrumar um alfinete, linha pra costurar e eu na igreja esperando e o pessoal lá fora esperando consertar, né?

 

P/1 – E depois, onde o senhor passou a lua-de-mel?

 

R – Eu vim pra São Paulo, não conhecia São Paulo, nunca tinha saído de Rio Preto, o meu sogro trabalhava na estrada de ferro e tinha passe pra vir, que dinheiro pra vir também eu não tinha. Chegou o trem, tinha lá a cabine de casal e cheguei em São Paulo fui procurar hotel e tive sorte, encontramos um hotel muito bom, perto da Estação da Luz, aí nós fiquemos uns três dias, aí fui pra Santos. Depois voltei de Santos, parei em São Paulo, parei aqui em São Carlos, parei em Araraquara e Jaboticabal, que eu tinha parente lá, fiquei lá dois ou três dias em cada lugar, depois fui embora.

 

P/1 – Tudo isso era pela Companhia Paulista?

 

R – Pra viajar e pra fazer hotel no casamento, emprestei de um amigo 1000 reais.

 

P/1 – E ainda nessa época que o senhor casou, o senhor trabalhava como, tinha o salão?

 

R - Tinha o salão.

 

P/1 – E aí o senhor vendeu o salão?

 

R – Vendi o salão e emprestei, dei dinheiro pro meu irmão lá pra, eu reformei o salão, o bar inteirinho e pus coisas que não tinha, aumentei bastante o movimento, as coisas, né.

 

P/1 – E depois saiu da sociedade ?

 

R – Da sociedade. E vim pra São Carlos.

 

P/1 – Como foi essa mudança de cidade, como é que chegou aqui em São Carlos?

 

R – Bom, 1945 eu vim pra cá, cheguei aqui com a mala e a mão vazia, com um dinheirinho que o meu sogro deu pra filha, aí fui ficar na casa de um tio meu, tio da mulher Helena, depois arrumei uma pensão e comecei trabalhar no empório, né. E graças a Deus comecei a trabalhar bem, tinha recurso de trabalhar, que eu trabalhei em Rio Preto e o pessoal gostava, me deram apoio, paguei tudo e continuei trabalhando, aumentando, aí onde está a Receita Federal hoje, tinha um terreno lá de esquina 22 por 22 e não vendia aquilo lá, ninguém queria, perguntei o preço, se facilitava. Facilita, então é meu. Comprei o terreno e depois de uns tempo eu construí um sobrado lá e abri o primeiro supermercado de São Carlos, nunca tinha ouvido falar em supermercado, nem visto, nem lido, nem nada e eu bolei um sistema de gôndola diferente desses aí de hoje, era isso, uma calçada assim, depois subia vamos supor 30 centímetro, punha mercadoria ali e ali subia lá e daí começou a aparecer o supermercado e a gente foi aperfeiçoando.

 

P/1 – Quer dizer que o senhor foi o pioneiro aqui na área de supermercados, foi o primeiro a fazer.

 

R – Foi.

 

P/1 – E quando veio pra cá pra São Carlos, começou trabalhar como empregado, aí o senhor comprou...

 

R – Não, eu comprei o estabelecimento, a pessoa também me entregou e tive uma felicidade muito grande, uma sorte, porque eu sempre fui protegido por Deus e comecei a trabalhar, né, aí começou a aparecer os vendedores, os recebedores. Quando era vendedor tava bom, né, porque me mandava mercadoria, mas quando queria receber eu não tinha dinheiro, tive muita sorte que o pai desse que me vendeu, ele chamava João Ataíde, sujeito 100%, ele me chamou um dia e falou: “Olha seu Hellio, tudo que tiver aí que é do meu filho pra pagar, eu pago, pode mandar lá em casa que eu pago.” Dito e feito, pagou tudo.

 

 

P/1 – E as dificuldades eram sempre essas de receber... a gente precisa dar uma paradinha que tá com um probleminha no microfone... Então a gente estava falando das dificuldades, do início, quando o senhor começou com a loja aqui em São Carlos, podia falar mais dessa dificuldade com os fornecedores, pagamentos, essas coisas?

 

R – É, graças a Deus, tive boa orientação, encontrei amigos e como eu trabalhava honestamente, o negócio progrediu, que não existia nada da forma que eu fiz pra São Carlos, não existia nada e eu que criei. Não tinha, você queria uma maçã, não tinha, queria uma pêra não tinha, queria um presunto não tinha, então fui entrosando e vendo que o povo necessitava, que podia fazer pra comprar pra vender.

 

P/1 – E o senhor comprava essas mercadorias onde?

 

R – Diretamente, da Swift, da Armour, da Nestlé.

 

P/1 – O senhor ia até lá ou os vendedores vinham?

 

R – Não, eles que vinham aqui.

 

P/1 – Entendo.

 

R – Mas tinha que pagar pra comprar, se não pagasse não vinha, se estava devendo não vinha mesmo, precisava pagar.

 

P/1 – Qual era o nome desse supermercado?

 

R – A Econômica.

 

P/1 – A Econômica. E antes do supermercado qual foi a primeira loja que o senhor teve aqui, qual era o nome?

 

R – Era o Empório, aqui, era o Empório, que passou pra supermercado.

 

P/1 – E o nome sempre foi o mesmo, A Econômica?

 

R – A Econômica, isso.

 

P/1 – De empório passou pra supermercado.

 

R – Ali em frente onde é o Gullo, Calçado Gullo, tinha o sorveteria ali, Sorvetão e eu tinha aquele salão lá.

 

P/2 – E como vendia os produtos, na época era a granel?

 

R – Era.

 

P/2 – E como que era feito isso?

 

R – Tinha balança, né, tinha uma pazinha assim pra pegar, pesava, já via o preço.

 

P/2 – E os pacotes?

 

R – Em saquinhos, saquinho de, não tinha saquinho plástico, saquinho de papel e pra entregar, eu tinha primeiro uma carrocinha manual de duas roda, o empregado ia levar, depois arrumei um carroceiro que também fazia o mesmo serviço e atendia muito por telefone pra mandar entregar.

 

P/2 – Por telefone, então as pessoas ligavam e faziam as encomendas?

 

R – Pediam o pedido e eu levava lá, quando era freguês de mês deixava, depois pagava. mas se não era freguês de mês chegava na casa, entregava e recebia.

 

P/1 – E como anotava isso, era uma caderneta?

 

R – Era, uma caderneta e tinha um fichário, né?

 

P/1 – E como é que era essa relação com o cliente, com o comprador, como era a confiança?

 

R – A confiança era muito grande, né, porque eu trabalhava sempre no princípio de honestidade, sempre trabalhei na minha vida, Inclusive tem diversos fato que fiquei com as firmas de São Paulo muito credenciado pela forma que eu agia. Um dia chegou do Cardoso, chegou a mercadoria, conferi, tinha dez latas a mais de sardinha portuguesa. Peguei meu contador: “Faça uma carta e devolve isso aqui ou eles abrem, fazem uma duplicata pra mim pagar”. Ah, meu nome foi lá em cima, com essa atitude.

 

P/1 – E os seus clientes, como é que o supermercado atraia os clientes, fazia propaganda?

 

R – Fazia propaganda e tinha um moço aqui que ele tinha um auditório também, né, e eu patrocinava e era aquela revolução naquele tempo. Quando ele chegava pra fazer, dava presente, adivinhava, queria saber da onde que eu vim, então criei uma porção de mística pra poder vender e o freguês vinha e a gente tratava bem, com carinho, com respeito, com educação. E foi adquirindo cada vez mais gente, cheguei nesse ponto de ser premiado presidente da Associação Comercial. Sem ser candidato e sem ser eleito, fui eleito mas não fui candidato, me elegeram sem eu saber. Quando vi, estava eleito.

 

P/2 – E os clientes vinham da onde, dos bairros, das fazendas?

 

R – De toda cidade, mais do centro, né?

 

P/2 – E do campo também?

 

R – Porque era uma loja classificada, a primeira loja assim que... no mercado não tem aquela loja bem grã-fina lá dentro, como é que chama?

 

P/2 – Brigantti.

 

R – Brigantti, nós trabalhávamos em comum os dois, né, quando eu não tinha mercadoria eu telefonava pra ele, ia buscar, depois acertava.

 

P/2 – E vinha pessoas do campo também fazer?

 

R – Tinha, pra sítio, pra fazenda, chácara, aqui tem um sítio que fica, quando vai pra Araraquara, tinha fábrica de leite lá em frente, vinha de São Paulo, mais ou menos umas 40, 50, 60 crianças passar férias aí. E era uma fazenda, eles e tinha todo conforto, vinha os instrutores e depois eles iam embora, no ano seguinte eles corriam aí.

 

P/2 – O pessoal dessa fazenda fazia compra na A Econômica. E qual era o horário de maior freqüência da A Econômica, o horário que ficava cheio mesmo?

 

R – A tarde, né, depois das 4.

 

P/2 – Tinha algum motivo que enchia depois das 4?

 

R – Não é hora da mulher, o homem tem tempo de fazer compra, né, ia lá escolher mercadoria.

 

P/2 – E os horários de funcionamento da A Econômica?

 

R – Primeiro horário de funcionamento era das 7 horas da manhã, às 6 da tarde, com uma hora de almoço, depois foi mudando, fechava meio-dia e depois evoluiu mais e fechava 1 hora, 2 horas agora não fecha hora nenhuma.

 

P/2 – E aos finais de semana como era o funcionamento?

 

R – Esse horário, não tinha.

 

P/2 – Trabalhava domingo também ou não?

 

R – Domingo trabalhava, eu mesmo saia às 4 horas da madrugada aqui pra ir até Catanduva, Ariranha pra buscar mercadoria.

 

P/2 – Que tipo de mercadoria o senhor buscava?

 

R – Arroz, feijão, batata, cebola, alho eu tinha um caminhãozinho pequeno e tinha um funcionário que guiava bem, era todo domingo.

 

P/2 – Como as mercadorias eram dispostas na loja?

 

R – Como era exposta?

 

P/2 – É, qual era a organização delas, o senhor disse que mudou, né, o esquema de pôr...em degraus?

 

R – É, por exemplo aqui tinha, dava mais largo aqui, né, e aqui subia uma outra parte que nem isso aqui, em cima punha uma tábua aqui em cima, punha a mercadoria aqui, aqui e aqui.

 

P/1 – Quando é que percebeu uma grande mudança no comércio na sua atividade de supermercado?

 

R – Acho que depois que acabou a guerra, né, 1943 estourou bomba e rojão, aquele dia que acabou a guerra.

 

P/1 – O senhor se lembra bem desse dia?

 

R – Aquilo que era a dureza, você pra comprar sal tinha que entrar na fila, pra comprar um saquinho de as. Só a prefeitura que vendia, esse óleo de soja não existia, isso aí é coisa de uns 15, 20 anos pra cá.

 

P/1 – Como o supermercado conseguia, durante a guerra, sobreviver?

 

R – A gente tinha cota também, né, tinha cota da Prefeitura, Se você vendia 100 quilos de arroz, você tinha cota de 100 quilos de arroz, depois tinha que provar que você vendeu os 100 quilos de arroz.

 

P/1 – Pois é, as mercadorias o senhor só comprava da Prefeitura?

 

R – Só da Prefeitura.

 

P/1 – Esse controle acabou quando a guerra acabou?

 

R – Acabou, porque começou progredir, entrar dinheiro, entrar quem aplicasse, né, então melhorou.

 

P/1 – E o senhor não foi chamado pra servir?

 

R – Não eu era menino ainda.

 

P/1 – O senhor conheceu alguém aqui que foi chamado?

 

R – Aqui tinha bastante. Inclusive na Nove de Julho aí, entre os amigos aí que foram fazer desfile e eu tive um irmão menor de idade e ele pegou o trem lá em São José do Rio Preto pra se alistar aqui em Araraquara e se alistou. Aí meu pai veio aí, provou que era menor de idade, ele voltou.

 

P/1 – Ele queria ir pra guerra?

 

P/3 – Seu Hellio, quais eram as outras dificuldades com relação ao comércio aqui durante essa época da guerra, por que tinha essa dificuldade?

 

R – Era todo lugar, não era só aqui. No Brasil todo era farinha, era macarrão, se você quisesse farinha, você tinha que comprar macarrão, ferver, desmanchar e fazer virar farinha pra poder se você quisesse fazer um bolo, alguma coisa diferente. (riso)

 

P/1 – Dureza, né?

 

R – Agora vejo quando aparece na televisão aqueles moço morto, envenenado...É a troco do quê, mocidade taí com tudo na mão.

 

P/1 - E nessa época ainda, já do pós- guerra, né, que começou a melhorar, como é que o senhor foi incrementando, melhorando o supermercado, o que foi mudando?

 

R – É, depois que acalmou tudo, os presidente tomaram posse, sabe que tivemos o primeiro presidente, o Castelo Branco, que foi uma maravilha.

 

P/1 – Então vamos, esse trabalho da A Econômica, do supermercado, o senhor teve ele até quando?

 

R – É 1978, quando fechei. E eu cansei, era minha mulher mais eu, era pra trabalhar em contato com o povo, em 78 falei, em 77 eu falei na minha casa e minha sogra morou comigo, isso é bom pra você, minha sogra morou comigo 30 anos, sem nós tivemos uma palavra mais áspera um com o outro

 

P/1 – E diga-me uma coisa senhor Hellio, quando é que começou a se envolver com a Associação Comercial?

 

R – A Associação estava numa situação difícil.

 

P/1 – Isso quando?

 

R – 1954, não tinha prédio, não tinha sala, não tinha secretária, não tinha nada, sócio tinha 55. Aí um amigo meu me convidou pra assistir a reunião, eu fui e aquele dia tinha eleição e eu de gaiato entrei como segundo secretário. E comecei a movimentar, convidar o pessoal pra entrar, pra chamar, pra colaborar, né? Trabalhei muito quando tinha as Cooperativas de Consumo, não sei se vocês lembram, você deve lembrar, você não. Cooperativa de Consumo, ela evoluiu de tal forma prejudicando o comércio, porque ela trabalhava em função de não pagar imposto. Então começou a evoluir muito e comecei a trabalhar pra derrubar isso e não é que consigo? Consegui derrubar e fechar a Cooperativa. Ah, se eu não tivesse feito isso, tinha acabado o comércio. Eles eram pra vender só arroz, feijão, açúcar, farinha, macarrão. Então, vendemos tudo, geladeira, máquina de lavar, tudo e tá prejudicando intensamente o comércio. Entrei nesse movimento, pessoal aqui apoiaram e em São Paulo e comecei a trabalhar na Federação do Comércio de São Paulo que também apoiou. E eu tive uma sorte grande que no Posto Fiscal tinha um amigo meu chamado Leitão. Um dia me deu uma coisa na cabeça, eu falei: “Vou ganhar essa questão já”. Perguntei pro seu Leitão, falei: ”Leitão, você não tem uns dados, quanto que o governo tá perdendo com a Cooperativa de não receber imposto? “ Tenho, eu trago pra você amanhã.” E me trouxe e eu fui pra São Paulo e levei a questão pra lá. Ah, na primeira reunião o Adhemar de Barros mandou fechar.

 

P/1 – Isso foi quando, em mil novecentos e...

 

R – 55, 56, por aí, o Adhemar de Barros era o governador e o Vicente... era o secretário da Fazenda. Quando o Adhemar viu isso ele apresentou na hora pro Congresso e aprovaram, meus amigo quase que me mataram.

 

P/1 – E quais foram as outras propostas, outras colaborações aí que o senhor trouxe para Associação Comercial?

 

R – É, eu tive na Associação Comercial, depois de secretário passei pra presidente. Também foi uma eleição que não participei e ganhei a eleição. E começou a progredir o comércio de São Carlos. Comecei a entrar com propaganda, o pessoal gostaram, que São Carlos era uma tristeza o comércio, quem estava acostumado em Rio Preto, Nossa Senhora, aqui não tinha nada.

 

P/1 – E voltando à essa época que o senhor tinha um supermercado, como era quando tinha aquelas mudanças de moeda, tal, chegou a pegar essa coisa da inflação?

 

R – Peguei, peguei bastante, diversas vezes.

 

P/1 – E como é que foi?

 

R – Ah, foi fácil, que nem o pessoal agora que pega o computador e faz de conta que tá batendo na máquina, mesma coisa.

 

P/1 – Foi tranqüilo esse período, não teve nenhuma dificuldade de fazer a adaptação, essas coisas?

 

R – Não, já deixava as contas mais ou menos prontas, né?

 

P/1 – Assim, os devedores, como é que o senhor cobrava os devedores?

 

R – Ah, eles iam pagar lá, não precisava mandar cobrar.

 

P/1 – O senhor nunca teve nenhum problema?

 

R – Eu estava contando lá do fechamento, então falei em casa: “O fim do ano vou fechar no dia primeiro de 78 eu não estou mais trabalhando aqui, encerrou.” “ Ah, não acredito” “ Então vocês vão ver.” Comecei me preparar, quando chegou no dia 15 de novembro, fiz uma propaganda direta, anunciando o fechamento e a promoção das vendas, né, quando chegou no dia 31 de 78, fechei as portas e não abri mais. Recebi tudo o que tinha que receber, paguei tudo o que eu tinha que pagar.

 

P/2 – O senhor criou a Semana do Comerciante é isso, como foi?

 

R – Bom, estava o comércio, já estava muito sem entusiasmo sem nada, então criei o Dia do Comerciante, que seria homenageado e a Semana do Comerciante, do comércio, que é pra pessoa fazer propaganda, como tão fazendo hoje em dia. Naquela época não existia e eu já estava fazendo.

 

P/2 – Em que ano foi isso?

 

R – 1965, 62, 58 por aí, 59.

 

P/2 – E existe até hoje?

 

R – Existe até hoje e agora na sexta-feira, fiquei bem contente com a festa que fizeram, pena aquele vento frio, mas estava bonito, uma coisa que ficou marcada.

 

P/1 – Bom, aí o senhor teve essa atividade na Associação Comercial, chegou até a ser presidente, né?

 

R – Fui dez anos presidente.

 

P/1 – Dez anos?

 

R – Dez anos, peguei a Associação com 60 sócios e larguei com 550.

 

P/1 – Em que período senhor ficou lá?

 

R – Não, eu não queria ficar mais não, o pessoal queria que eu voltasse lá.

 

P/1 – O senhor começou em que ano?

 

R – 60, como presidente.

 

P/1 – Como presidente?

 

R – Como presidente foi em 59.

 

P/2 – O título de Comerciante do Ano é dado pela Associação Comercial, e como é feito?

 

R – Eles escolhem lá o que mais progrediu, o mais velho, no meu tempo escolhiam o mais velho, percorriam o comércio e homenageavam o comerciante que estava trabalhando há mais tempo.

 

P/2 – E o senhor recebeu o prêmio em 78?

 

R – Não, 62.

 

P/2 – 62.

 

R – E comprei aquele prédio, quando comprei me chamaram de louco, que ele vinha comprar pra mim, falei não, meu nome vai ficar marcado aí, vocês tem que engolir agora, até quando eu morrer.

 

P/1 – E como é que era a relação patrão/empregado, que o senhor foi patrão, foi empregado antes também.

 

R – Na época, num tinha problema nenhum Porque eu sempre fui uma pessoa comunicativa, não discuto com ninguém, não brigo com ninguém, acho que tudo é bobagem. Inclusive, faz uma abertura aqui pequena, quero ler uma oração pra vocês e guardem bem: “No silêncio deste dia que amanhece, venho pedir-te a paz, a sabedoria e a força, quero ser, Senhor, como o sonho e o amor que dás na carestia, quero ser tão bondoso e alegre, todos que aproximarem de mim sintam Sua presença. Reveste-me Senhor da Tua beleza e no princípio de existir eu me revelo a todos.”. Você começa a ficar meio assim e o resto dessa oração... tem essa e tem aquela outra oração “Obrigado Senhor”, essa é muito importante, a gente se queixa com coisinha de nada, acha ruim, você olha do lado assim. Tem um tá sem perna, então “Obrigado Senhor por esses braços sadios quando tantos estão mutilados, por esta voz que canta quando tantos se emudeceram, por esta mão que trabalha quando tantos mendigam, é maravilhoso Senhor, sonhar, amar e sorrir, que tantos não têm onde ir e o Senhor dá sua benção, Amém”. 

 

P/1 – O senhor sempre desenvolveu alguma atividade religiosa?

 

R – É, sempre fui católico, né?

 

P/1 – O senhor sempre freqüentou igreja?

 

R – Freqüento.

 

P/1 –Continua freqüentando?

 

R – Freqüento as missas, freqüento, quantas reuniões aí no Rotary a gente fazia a prece e no grupo dos idosos também a gente faz prece antes de começar a reunião.

 

P/1 –Como o senhor entrou pro Rotary?

 

R – O Rotary é assim né, quer dizer, você pra entrar no Rotary não é fácil. Porque, vamos dizer que na época que eu entrei tinha 35 Rotaryanos e não sei por que cargas d’água lá puseram meu nome e passou. E me convidaram pra entrar. Entrei e aí eu continuei, 30 anos, freqüentei muita assembléia, escrevia muito no jornalzinho no Rotary e também escrevi diversas vezes lá nos EUA, onde foi publicado um artigo meu e pra São Paulo também.

 

P/1 – E nesses artigos o senhor escrevia sobre o quê?

 

R – Ah eu falo nos artigos é sobre o amor. Inclui tudo no amor, contra o ódio, contra a briga, a inveja, então se fala em esperança, se fala em paz e nada de briga, nada disso, eu falo isso. Podia ter trazido alguns artigos aí, mas não trouxe, tenho lá, publico toda semana aqui na cidade.

 

P/1 – Depois que o senhor fechou o comércio, passou a se dedicar a ...

 

R –Entrei numa imobiliária. Que comprei aquele apartamento que eu tenho lá e depois o dinheiro não dava. Aí precisei trabalhar e voltei pro trabalho outra vez, trabalhei uns quatro, cinco anos, até vir um fiscal aí do, me multou bem caro e falou: “Você não pode trabalhar se num fizer carteira.” Tinha que sair daqui, ir em Ribeirão Preto pra tirar carteira. “ Ah, não vou. “ Larguei.

 

P/1 –Trabalhou durante cinco anos?

 

R – Mais ou menos.

 

P/1 – E começou mais ou menos quando, aí na imobiliária?

 

R – 1970, mais ou menos.

 

P/1 – E depois da imobiliária, o senhor teve mais alguma atividade profissional?

 

R – Atividade que eu, no grupo da Terceira Idade do SESC, ele me nomearam diretor cultural, que tinha que cuidar da parte das coisas que fazia, do ambiente, das festas, né, e depois também cansei, larguei.

 

P/1 – O senhor passou a freqüentar o grupo da Terceira Idade a partir de quando?

 

R – Mil novecentos e, são 25 anos que eu estou lá.

 

P/1 – Há 25 anos?

 

R – 25 anos que eu estou lá, uma existência.

 

P/1 – Atualmente ainda continua freqüentando?

 

R – Continuo, inclusive sábado agora tem um baile com desfile e eu vou desfilar, sair com a minha mulher, eu de um lado e ela do outro.

 

P/1 – E hoje, a sua principal atividade é com o grupo do SESC?

 

R – É, ah, dá muito trabalho. A gente quer fazer, dá trabalho, estou no coral, minha mulher tá no teatro, agora mesmo apresentamos um teatro esses dias aí.

 

P/1 – O que o senhor faz nas horas de lazer?

 

R – Eu escrevo, leio, né, vou passear, agora mesmo vou pra Bertioga.

 

P/1 – E, vendo o comércio hoje, o senhor, que trabalhou tanto tempo no comércio, o que acha hoje da atividade comercial?

 

R – Custou pra chegar nesse ponto em São Carlos. Mas ainda tá atrasado, em São Carlos está muito atrasado o comércio.

 

P/1 – Mas há muita diferença entre o comércio de antigamente e o de hoje?

 

R – Ah bem diferente, muito diferente. Hoje você chega lá, senta numa mesa, numa cadeira lá, que é que você vai comprar isso, quanto custa, tanto, ah você paga em 10 vezes, cê paga tanto. No meu tempo não tinha nada disso, era caderneta no duro, cê tinha que marcar logo quem era, o que tinha levado.

 

P/1 – E atualmente, o que o senhor gosta de comprar, onde gosta de ir?

 

R – Varia muito, né, que tá com muita concorrência, então a gente sempre procura ganhar um pouquinho numa coisa, pouquinho na outra coisa, que cê chegar num estabelecimento e comprar tudo lá, cê se ferrou.

 

P/1 – E o senhor sente falta da atividade de comerciante?

 

R – Ah sinto, sinto falta porque eu vejo principalmente os empregados e os próprio proprietário. Eles não ligam pro freguês, chega lá, quero esse sapato, tá bom, só, então tchau, você não compra. Que antigamente cê pegava lá ia lá na prateleira, ia lá no depósito, tá aqui ó, hoje não.

 

P/1 – Acha que o atendimento era melhor.

 

R – Melhor, hoje o atendimento é péssimo, fiz muito curso dessa parte de relações humana, né, fiz muito, vinha os especialistas de São Paulo pra Associação, pra Federação fazer esses curso.

 

P/2 – Seu Hellio, quando trabalhava no comércio, os fregueses eram fiéis, só compravam em um lugar?

 

R – Geralmente quem comprava por caderneta, era assim, ele comprava sempre num lugar porque não tinha dinheiro. Era aquilo e acabou. Agora tinha outras que continua que nem hoje, né, hoje vai comprar, anuncia aqui uma coisa, ali outra, diferença de preço, acaba comprando aquilo.

 

P/2 – Mas na época não tinha tanto anúncio assim, como que era feita a propaganda?

 

R – Era muito simples, por jornal, se não, papelzinho na rua.

 

P/2 – Então, era assim que as pessoas sabiam diferenciar, conseguiam diferenciar o valor, a diferença de uma mercadoria pra outra?

 

R – É, e ele comprava, né, depois ele via mais barato num lugar ele não voltava pra comprar, porque ele precisava, precisava de massa de tomate, precisava do macarrão, então ia saber.

 

P/2 – E o que o senhor mais vendia?

 

R – Ah naquela época o arroz e feijão, né, macarrão, batata, cebola só artigo de primeira necessidade, açúcar, farinha depois foi alargando, né, inclusive agora tem um supermercado francês, o maior supermercado do mundo vai instalar no Brasil porque eles acharam aqui campo aberto pra eles ganhar dinheiro, porque lá na Europa ele não pode misturar venda de máquinas de escrever, máquina de lavar, máquina disso, no supermercado não pode, ele pode vender mas tem que abrir uma loja separada, agora aqui eles podem vir aqui, abrir a loja, abrir aquela seção de utensílios e pode trabalhar a vontade, lá não pode.

 

P/1 – Seu Hellio, a gente vai ter que dar uma paradinha, porque tá ligada a bomba d’água aqui, tá atrapalhando o som, tá. É a gente queria falar mais da época, voltar um pouco, falar mais da barbearia, quem que eram os clientes?

 

R – Barbearia minha era no centro, só trabalhava com cliente da média pra cima, que ali só tinha a minha barbearia e uma pra cima e tinha quatro cadeiras, uma era eu que trabalhava, a outra era aquele rapaz que eu tinha que obrigação de ensinar ele cortar cabelo e essa barbearia antes de passar pra esse segundo dono, o túmulo chamava José Melara e o túmulo teve duas vezes lá e eu que partiu ele, e eu tive lá agora a pouco tempo e então fui ver o túmulo lá.

 

P/1 – E na barbearia, o que tinha de interessante, qual que era o corte de cabelo preferido da época?

 

R – Não na época era aquele cabelo que ficava tudo empinado que nem eles estão fazendo hoje, naquele tempo já veio isso, né, e interessante que os padres da catedral iam cortar o cabelo comigo e aquele tempo o padre tinha uma rodinha aqui e eles gostavam de cortar comigo porque eu fazia aquilo bem redondinho, bonitinho e eles gostavam de cortar o cabelo comigo.

 

P/2 – O senhor sabe porque que eles tinham essa, é tonsura que chama, né, o senhor sabe porque que eles faziam?

 

R – Nunca tive curiosidade de perguntar pra eles.

 

P/1 – Nessa época aí da, falando um pouquinho mais ainda da barbearia, né, o senhor trabalhava o dia inteiro, trabalhava a noite também, como que era o horário de trabalho?

 

R – A noite não, era só, era das 7 às 6.

 

P/1 – Tinha clientela o dia inteiro?

 

R – Tinha, o dia todo.

 

P/2 – Seu Miceli, vamos ver pra Econômica, né, eu sei que o Ari já lhe perguntou uma série de coisas, pode ser que eu repita, mas a sua clientela, quem seriam os seus concorrentes em São Carlos, que vendiam os mesmos produtos na época?

 

R – O Brigantti é um, não tinha outro nessa categoria não tinha.

 

P/2 – Era bem secos e molhados?

 

R – Era secos e molhados.

 

P/2 – Mas ao mesmo tempo que ele era seu concorrente, vocês faziam umas trocas de mercadoria, o senhor disse, né, então existia concorrência, mas não existia inimizade.

 

R – Fazia, inimizade não, eu mandava freguês pra ele, mandava freguês pra mim.

 

P/2 – E quem era, tinha uma outra pessoa o Doto, era semelhante ou não?

 

R – Não, o Doto já era um ‘armazémzão’, né, que punha aqueles feijão aberto na porta, açúcar preto, passava lá e pegava um pouco de açúcar e chupava, o Doto já era outra, depois ele partiu pra supermercado, quando ele ficou doente.

 

P/2 – Hoje o supermercado tá com o filho dele?

 

R – Tá.

 

P/2 – Quem era a sua clientela?

 

R – Clientela minha era da média pra cima, né?

 

P/2 – O que é a média?

 

R – Média, a pessoa média que tinha o dinheiro suficiente pra sobreviver.

 

P/2 – E onde morava esse pessoal na região?

 

R – No centro, a freguesia maior por exemplo era professores, funcionário público, naquele tempo eles ganhavam bem, hoje os coitados não ganham nem pra comprar arroz e feijão.

 

P/1 – E quais eram os produtos mais vendidos lá no supermercado?

 

R – O produto comum, né, que é esse arroz, feijão, açúcar, sal, macarrão, peixe, óleo.

 

P/1 – Tinha algum produto mais especial, mais...

 

R – Especial quando dava por exemplo, gostava de um presunto bom, ia comprar um queijo bom ia lá comprar, um vinho bom ia lá comprar.

 

P/2 – Azeite também?

 

R – Azeite.

 

P/2 – Mas ela vinha a granel ou já vinha em embalagem própria.

 

R – Em lata.

 

P/2 – Em lata já.

 

R – A granel começou vim quando começou vim o óleo de algodão, que era horroroso por na panela pra fritar, fedia.

 

P/2 – É mesmo, e como que o senhor vendia esse óleo, se ele vinha a granel?

 

R – Vinha em tambores, esses tambores grandes assim, fez uma torneira, né, precisava vinha com o litro lá, enchia o litro, pagava e ia embora.

 

P/1 – Nessa época quais as marcas que as pessoas mais gostavam, já existia alguma marca assim?

 

R – A marca preferida dessa época de óleo era o Bertoli italiano e tinha o Galo português, era as duas marcas que mais vendia.

 

P/2 – E de presunto?

 

R – Presunto era Swift ou Matarazzo.

 

P/2 – E que outro tipo de frios que o senhor vendia, queijo?

 

 R – Vendia queijo, bacalhau, azeitona.

 

P/2 – Bacalhau vinha de onde, como o senhor encomendava o bacalhau?

 

R – Ah vinha da Europa, né?

 

P/1 – E comprava de um distribuidor aqui ou importava direto?

 

R – Não comprava.

 

P/1 – Em São Paulo ou...

 

R – Eu comprava aqui, vinha aí pra vender aqui, depois entregava em caixinha fechada, né?

 

P/2 – Em caixinha, mas como que era, por peso também?

 

R – Por peso, aqueles bacalhau grande assim, cortava no meio.

 

P/2 – Então ele não vinha cortado, como vem hoje?

 

R – Não, que esse cortado ele é feito aqui no Brasil, não vem de fora esse cortado.

 

P/3 – Seu Hellio, eu estou com uma curiosidade muito grande, o senhor foi fazer a publicidade aqui, né, como era a publicidade do tempo que o senhor começou a fazer até o tempo em que o senhor resolveu parar de trabalhar?

 

R – Ah teve uma revolução, né, porque não tinha por exemplo uma firma especializada em promoções, em propaganda, não tinha depois foi evoluindo e chegou nesse ponto pra acabar de evoluir veio aí esse supermercado aí que esse tá na ponta das coisas.

 

P/3 – E a propaganda era feita em rádio, em jornal?

 

R – Em rádio, jornal ou papel na rua, né?

 

P/3 – E como era a propaganda feita pro senhor se lembra ?

 

R – Lembro: ‘Compra em tal lugar o melhor preço’, né?

 

P/1 – E tinha jingle, aquelas musiquinhas no rádio não?

 

R – Não existia nada disso, não existia isso não.

 

P/1 – E nessa época aí da publicidade, o senhor sentia que realmente a publicidade ajudou muito nas vendas?

 

R – Ah ajudou e ajuda se não for uma publicidade bem feita, ajuda que tem cada publicidade aí que pelo amor de Deus, esse deve ir pra cadeia, ô loco! Quase mata a gente de raiva, tá falando, não é gostoso você entrar num estabelecimento aí, qualquer lugar que você for, ser bem atendido, não custa nada, um sorriso não custa nada pra ninguém, um boa tarde, não custa nada pra ninguém, quem dá fica contente e quem recebe mais contente fica.

 

P/2 – O senhor acha que essa é a grande diferença de quando o senhor estava no comércio?

 

R – Ah isso muito demais.

 

P/2 – É a maior diferença que o senhor acha no comércio ou não?

 

R – É agora mudou tudo, as moça, os moço, volta esses barzinho e fica até as 2 horas da madrugada, de amanhã cedo tá que não pode nem abrir a boca, né, aí de você se pergunta duas vezes.

 

P/1 – Atualmente, o senhor mora com a sua esposa e mais alguém, mais algum filho?

 

R – Não primeiro morou minha sogra comigo 30 anos, meu sogro também morreu em casa.

 

P/1 – E as suas duas filhas são casadas?

 

R – São casadas, uma mora em Bauru é catedrática, e a outra mora em São Carlos, toma conta do asilo.

 

P/1 – E neto, o senhor tem netos?

 

R – Não, ainda não, tem uma filha casada só.

 

P/1 – E assim, atualmente, o que gostaria, o senhor contou pra gente a sua vida, falou das dificuldades, das lutas, das vitórias, dos problemas, e se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória da vida, o que mudaria?

 

R – Primeira coisa que ia ser mudado é a educação de pequenininho, começar dentro de casa e ir pra escola, criança não pode deixar ficar 17, 18 anos que aí num tem mais conserto, você vê, cê passa na rua aí tem uma mãe com duas crianças e tá com pressa vai arrastando aquela duas crianças que eu vou te contar dá até dó viu, ela tem que saber que a perna dela é duas vezes maior que a outra, se não pode ir com as crianças, não vai então agora vai machucar uma menina e voltar a responsabilidade das escolas que o professor possa chamar atenção do aluno, que hoje ele não pode chamar, tem que mudar tudo de novo porque se não vai muito mal esse negócio.

 

P/1 – E com relação ao comércio, a sua atividade profissional, quais as principais lições que tirou da sua atividade profissional, do comércio mesmo?

 

R – É eu tiro que o pessoal se adaptar ao novo sistema, né, se ele não se adaptar ele vai pro vinagre, assim foi o Matarazzo, assim foi a Mesbla, foi outras firmas importantes que quiseram manter aquele padrão de 20, 30, 40 anos atrás se bombardeou.

 

P/1 – Agora a gente tá encerrando, e queria saber o que achou ter dado essa entrevista, fazer esse exercício de buscar as informações que estão guardadas lá na memória, o que o senhor achou dessa experiência aqui?

 

R – Eu acho que isso é uma coisa importante porque nós brasileiros, infelizmente, esquecemos que existe pátria, que existe bandeira, que existe nacional e não existe, cê vê, vai uma seleção brasileira jogar pra fora se é pra televisão focalizam, não abre a boca pra dizer nem uma palavra do hino nacional, primeira coisa que devia fazer, cê vai jogar na seleção começando cantar o hino nacional, porque acabou o patriotismo, meu tempo todo dia de manhã, entrava na fila pra cantar o hino nacional e cantar o hino à bandeira, noutro dia o soldado militar daqui, que teve o hasteamento da bandeira lá, ele falou: “Óh, vamo cantar o hino nacional, cantar com amor o hino nacional e vocês que estão sentado levante.” Se desses paísinhos, aí qualquer paísinho quando chega na hora de cantar, de apresentar a pátria deles, eles representam mesmo.

 

P/1 – Bom senhor. Miceli, em nome do Museu da Pessoa e do SESC, eu queria agradecer a sua presença aqui, e perguntar se gostou de tá fazendo esse exercício aí de...

 

R – Espero que tenha colaborado.

 

P/1 – Lógico, então queria agradecer, muito obrigado por tudo.

 

R – Obrigado, vocês estão num passo muito bom, queria só observar isso, a história não vai acabando, porque eu digo assim sempre a gente tem que lembrar da pátria, você não pode jogar ela fora, por isso que não existe mais paz, esperança, sossego, amor, porque ninguém interessa por ninguém.

 

P/1 – Então muito obrigado mais uma vez.

 

R – Espero que tenha colaborado porque acho que na vida cê sabe das coisas não é pra você guardar, pra você ensinar o seu próximo, o seu filho, o seu irmão, o seu parente, o seu amigo, não é pra ficar guardado isso, não adianta falar isso pra você, cê tem que falar isso pra aquele que está precisando.

 

P/2 – É isso aí muito obrigado.

 

R – Nada, espero que tenha colaborado.

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