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História

40 anos de amizade com os clientes na ZN

História de: Wilson Fernando Neves da Silva
Autor: Maria Aparecida Cruz de Souza
Publicado em: 08/10/2019

Sinopse

Wilson nasceu na cidade de São Paulo, capital, em 26 de julho de 1949. Filho de João Osterval Neves da Silva e Hilda Graic. Seu pai trabalhava na parte administrativa de um hotel, pessoa que, de acordo com Wilson, era muito moderna, gostava de ir ao cinema, ao teatro, ouvir boa música, e que adorava levar Wilson e sua irmã para passear. Uma pessoa muito aberta para a época, sem autoritarismos, sem repressões. Sua mãe era um doce e sempre trabalhou cuidando da casa, também adorava cinema e levava Wilson desde o colo às sessões. Uma das histórias familiares era justamente sobre um dia que eles não puderam entrar na sala devido à tenra idade de Wilson. 

Diagnosticado como Asperger Hiperléxico, Wilson conta que quando aprendeu a falar, ele já sabia ler sozinho. Tornou-se um leitor voraz, de tudo. Conta que seu pai comprava o jornal e ele o lia com 2 anos de idade. Diz que não gostava muito de ouvir histórias porque achava tudo muito devagar, o que ele gostava mesmo, era de ler.

Lembra que quando moravam no Brás, ele entrou para a escola, o primeiro ano, ali no Grupo Romão Puiggari, na Avenida Celso Garcia.  Conta que nem sabia o que iria fazer na escola. Ele tinha 6 anos, inclusive entrou um mês atrasado. Sua professora lhe disse: “É, você vai ter problemas para acompanhar...” Na sala, abriu a cartilha: “Caminho Suave”. A lição era do “Cedo, o cão bebe na cuia”. Diz que olhou tudo aquilo, ficou lendo, e enquanto isso, a professora foi colocar uns cartazes para explicar as letras, o alfabeto. Ela disse: “Olha, você vai sentir uma dificuldade, mas depois a gente vai ver como é que faz”. E ele disse: “Não, por mim tudo bem, eu estou lendo, na verdade, não sei o que eu vim fazer aqui porque eu já estou lendo”. Wilson já sabia ler e não sabia que isto era uma coisa diferente. Não sabia que enquanto o pessoal estava engatinhando, ele já terminava um jornal inteiro sozinho. Ele permaneceu na escola, mas ficou como um turista. 

Wilson apresenta uma excelente memória, em sua história conta com detalhes sobre sua infância, sua antiga casa na Rua Sumatra, nº 36, as brincadeiras, as brigas de rua, as diferentes escolas às quais estudou. Diz que morava entre vários primos e primas, os quais brincava muito, caminhavam pelas ruas de terra do bairro, subiam nas árvores, brincavam no rio, que passava numa parte mais baixa da Avenida Antônio Moreira de Barros, antigamente, a Estrada do Bispo, exploravam os matos dali, marchavam pela linha do trem da Cantareira, sem se esquecer do Horto Florestal. 

Em sua casa não havia televisão, seu pai alegava que aquilo atrapalharia seus estudos. Então, com 13, 14 anos, ele já ia sozinho aos cinemas de bairro, aqueles que se passavam apenas dois filmes, pelo menos uma ou duas vezes por semana, desacompanhado ou com amigos, vizinhos, parentes. 

Se lembra bem de sua adolescência nos anos 60, uma época de Beatles, de música romântica italiana, aquela coisa toda, muitos amigos, bailes... Conheceu sua esposa, Gláucia, um pouco depois, já com seus 22 anos. Se conheceram no bairro onde moravam, no Pari. Depois noivaram e se casaram no dia 30 de janeiro de 1976. É sua parceira até hoje. 

Refletindo, lembrou do baque que é ser pai, algo que parece impossível de se preparar. O primeiro filho faleceu dias depois de seu nascimento, e isso foi muito difícil... Mas um ano e meio depois já nasceu a segunda e depois a terceira filha. “O duplo V”, Vanessa e Virgínia, hoje adultas, beirando seus quarenta anos. 

Wilson segue sua narrativa contando sobre seus trabalhos. Começou como office boy na RCA Victor, uma experiência rápida por ter brigado com seu chefe. Em seguida, entrou para o First National City Bank, na Avenida Ipiranga, esquina com a São João, uma ótima empresa onde trabalhou por três anos. Por volta de 1969, entrou na Centrais Elétricas de São Paulo (CESP), outra grande experiência, onde pôde viajar muito, conhecer diferentes usinas, com muito trabalho prático. Sua próxima empresa foi a Philips, onde trabalhou no setor de compras, suprimentos, e por fim, foi para a área comercial da Salus, uma empresa de filtros cerâmicos, a qual até hoje, depois de se aposentar, continua atuando como representante comercial.

Era início dos anos 1980, a Salus havia lançado filtros de água de acrílico, com boia e nitrato de prata, um bactericida para a purificação da água. O filtro havia se tornado mais leve e mais eficaz. Concomitantemente, a questão do saneamento básico da cidade, o mote da qualidade da água de São Paulo estava em debate na sociedade civil. Wilson estava na área comercial e conta que vendeu muito. Na época, ele cobria uma faixa extensa, atuava em uma área que pega a Vila Maria, Guarulhos, Mogi das Cruzes. 

Uma de suas lembranças é em relação aos funcionários da fábrica. Conta que nos anos 80, 1990, tinham muitos funcionários antigos, funcionários simples, peões de fábrica, os chamados oleiros. O filtro era feito à mão, não saía de uma máquina, no máximo era possível modelá-lo com um aparelho, mas a olaria sempre estava presente.  Nisso, Wilson conheceu muitos desses antigos funcionários que faziam os filtros, que davam acabamento aos filtros, nas moringas. Todos moravam por ali em volta, na Vila Guilherme, na avenida Joaquina Ramalho. Eram pessoas simples, mas eram bem quistos porque eram conhecedores do negócio, estavam lá há anos, dezenas de anos, e se não tivesse eles para fazer, não tinha mais quem fizesse, porque precisava de uma escola para fazer aquilo. Aos poucos, isso se tornou um problema, a mão de obra com esse conhecimento específico foi rareando. Em breve não terá mais ninguém para fazê-lo. 

A área de vendas foi o que lhe deu sentido, pois ela se encaixava melhor ao seu temperamento. Wilson nunca gostou de ficar fechado num lugar, conversando sempre com as mesmas pessoas, não, ele era mais expansivo. Sempre gostou de entrar em uma loja e conversar com todos, o dono, o repositor, o estoquista, todos. Além de dirigir, outra paixão em sua vida. 

No ano de 1997, Wilson se aposentou, mas continuou atuando como representante comercial da empresa. Em 2019, comemorou 70 anos de vida, e em 2020, comemorará 40 anos de Salus. 

 

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História completa

Nós íamos para a Cantareira de trem. Ele saía ali do bairro do Pari, da Rua João Teodoro, e ele se subdividia ali na Cruzeiro do Sul, à esquerda, ele pegava a Dr. Cesar, ia para a Cantareira, à direita, ia para o Jaçanã, perto de Guarulhos. Não me lembro mais a estação, era perto da Chácara dos Padres, onde tem uma espécie de convento, alguma coisa assim. E nós tínhamos oito, nove, dez anos de idade. A gente pegava a condução, andava pra cima e pra baixo, de qualquer jeito, não havia nenhuma preocupação. 

A Marginal não existia. Na verdade, era a margem do Rio Tietê. Cheio de campos de futebol de várzea. Em um ou outro lugar tinha um lixão e tal, mas assim, você tinha liberdade total para andar. Ali no estádio da Portuguesa - eles nem tinham o estádio ainda - tinha o Clube da Portuguesa e o que era chamada de “A lagoa da Portuguesa”; no Rio Tietê formava uma lagoa onde o pessoal ia pescar, eu já fui com meus vizinhos ali, meus colegas, até os anos 60. Do lado de Santana, onde os meus primos moravam, era a mesma coisa. Eu me lembro até de a gente jogar bola num campo de futebol que era da Aeronáutica no Campo de Marte. A molecada circulava muito, não precisava andar com o pai, ninguém, se andava grandes distâncias a pé, sem problema nenhum. 

Não existia a Ponte do Tatuapé, nem a Ponte da Vila Maria, não me lembro da Ponte da Casa Verde, só tinha a Ponte das Bandeiras, que era nova, que a gente gostava de passar por lá e ficar observando os associados do Esperia e do Tietê andarem a remo. Eu ficava ali olhando, e tinha o Pontilhão, a Ponte da Vila Guilherme, que era uma ponte rasa, uma ponte bem à beira do rio mesmo, e no máximo se passava um carro, que ia sair bem ali na Avenida Guilherme. Eu me lembro que ou a gente vinha por ali, normalmente com o ônibus elétrico, ou pegávamos o trem, que passava sobre a Cruzeiro do Sul, lembrando que não existia a Ponte Cruzeiro do Sul, era só a ponte do trem. 

Pois é, trabalhar na rua tem disso também. Por exemplo, andar na zona norte toda, andar em lugares onde andei quando era moleque, criança, é totalmente diferente. Andar com 70 anos onde eu já andei com seis... ia quebrar a cabeça para saber onde é que era que eu morava, por que tudo mudou muito, não é?


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