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História

36 anos no ramo dos relógios

História de: Jair Massaro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/07/2021

Sinopse

Jair Massaro, nascido em 30 de novembro de 1953 em Ribeirão Preto. Filho de taxista que rodava no centro de uma cidade em exponencial crescimento. Gostava de brincadeira de bola na rua, molecagem, mas não tinha apreço pela escola. Seu primeiro emprego foi sete anos, com serviço na alfaiataria. Cuidava com carinho e proteção do irmão deficiente, alvo de preconceitos. Começou cedo o trabalho com relojoaria, ofício ensinado por Antônio Conaço. De lá para cá se passaram 59 anos de experiência profissional com relógio, e uma família inteira na área de relojoaria. Se aposentou com 36 anos de serviço. Nos conta que antigamente o trabalho de regulação de relógio era manual, feita pela Existiam cinquenta mil eixos de relógio. Hoje eixos são padronizados. Inclusive, observa que os relógios atuais de pilha são lentos. Guarda uma coleção de relógios na loja. Para ele, o Carrilhão, relógio pendurado, é especial. Afinal, são notas musicais minuciosamente tocadas a cada 15 minutos. Os Carrilhôes com alavancas tocam Westminster e Ave Maria, basta ter sensibilidade e atenção. Jair chegou na velhice feliz por ter deixado o trabalho com relógio no sangue da família. Nos deixa seu relato com uma mensagem inspiradora: Sempre procure fazer o bem antes de julgar.

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História completa

         Meu nome é Jair Massaro, nascido em 30 de novembro de 1953 em Ribeirão Preto. Meu pai era taxista e tinha um ponto lá na rodoviária. Na minha infância, eu morava na Rua Dois de Julho, 571. Eu brincava muito de bola na rua, mas eu queria trabalhar, não queria estudar. Então, o meu pai foi caçando um jeito de arrumar um emprego para mim. Eu tinha sete para oito anos, estava na escola, mas não queria estudar de jeito nenhum.

            Aí, eu pensei comigo: "Como eu não quero estudar, eu vou aprender alguma coisa". Aí meu pai me arrumou um serviço na alfaiataria. Mas a criançada mexia comigo, dizendo que era serviço de mulher, e eu fiquei desarrumado, porque começou todo mundo: "Ah, isso aí é serviço de mulher. É serviço de mulher". Aí apareceu um rapaz lá e perguntou se eu queria trabalhar com ele - chamava Antônio Conaço, a relojoaria que eu comecei. Era numa portinha muito pequenininha. Depois, nós saímos dessa porta pequena, fomos trabalhar de baixo de uma escada, isso tudo na São Sebastião, tudo no centro da cidade. Eu fiquei com ele até meus 17 anos, mas aí eu falei assim: "Eu vou montar uma oficininha para mim". Então eu arrumei um lugar que era uma portinha, que tinha um metro por um e cinquenta, na Avenida Jerônimo Gonçalves.

            Dali, ela ficou muito pequena para mim, e eu comecei a procurar algum outro lugar. Mudei pra outro número na mesma rua, mas era um salão maior. A partir disso, eu comecei a pegar gente mais nova pra trabalhar comigo: primos, sobrinho... e muitos deles se tornaram relojoeiros.

            Quando já fazia uns 22 anos que eu estava ali na Jerônimo Gonçalves, veio uma enchente. Eu já tinha montado duas lojas com meus filhos, uma na José Bonifácio e outra na General. Aí veio essa enchente e perdi tudo que tinha lá. Desanimei daquele lugar e fiquei na General Osório. Coloquei um filho em cada loja. Depois eu ainda tive que sair da loja da General, pois pediram o prédio, e meu filho arrumou um espaço lá no novo Mercadão.

            Agora estou mais sossegado. Eu trabalho lá pra eles, pros meus filhos, mas fico mais na chácara. Mas até aqui, foi um caminho longo, porque no passado tudo era diferente. Agora tem as máquinas, que fazem a precisão. Antigamente, a gente usava o ouvido e tinha que entender para regular, porque não existia essas coisas, né? Hoje não. Hoje tem máquina para regular, máquina para parafusar, máquina para trocar vidro. Antigamente, era feito tudo nas mãos da gente mesmo. Existiam, vamos pôr assim, 50 mil eixos de relógio. Hoje não. Hoje quase que é tudo padronizado. O que usa em um, usa no outro e no outro. Antes, a gente fazia a relação de eixo, numerava, mandava para São Paulo, e de São Paulo ia para o Rio, para vir esses eixos para nós trabalharmos. Aí acumulava muito eixo, porque era muito número. Eu tenho até hoje, tenho um monte de caixinha cheia, mas nem se usa mais. Eu só uso porque eu faço serviço antigo, e o pessoal procura. Por isso que eu fico aí trabalhando de vez em quando, para fazer esse servicinho ainda.

            E o rubi é muito importante no caso do relógio, né? Porque é uma peça sintética, que não deixa o óleo sair dali e não deixa o eixo gastar com o tempo de funcionamento. Ele tem um coxim que segura o óleo. Mas não é rubi de verdade, é sintético. Mas hoje não, porque os relógios usam pilha. Só relógio muito bom para ter rubi, hoje.

            Quanto aos carrilhões, que eram muito usados antigamente, tinha o carrilhão de pedestal e carrilhão de parede - é o que fica pendurado. Mas o carrilhão tem uma música dentro dele, e foi inventado para tocar a cada 15 minutos. Então, quando dá o primeiro toque, que são os 15 minutos, ele vai falar que horas são no som da música. Depois, quando for meia hora, ele vai falar que horas são. Todos eles... todo carrilhão faz o mesmo som, as mesmas notas musicais. A não ser o carrilhão que vem com uma alavanca, que você muda a alavanca, e ele toca Westminster e Ave Maria. Porque o pessoal fala: “Ah, ele toca música”. Não, não é nada disso; a pessoa tem que prestar atenção. Então, você está dormindo e escuta a música, você sabe: “Agora são 10:15; 10:30; 10:45...” Você vai saber pelo som da música.

            E na vida, a gente tem que se reinventar. Às vezes você sofre uma derrota, como eu sofri o baque na enchente... tive que reinventar. Aí eu sofri um baque com ladrão, que também me roubou bastante... tive que reinventar. Quando eu fui para General Osório, por exemplo, era rua normal, não era calçadão. Aí fecharam, fizeram calçadão, meio pedaço do calçadão... também já foi outro transtorno, porque demorou muito, e eu passei um aperto danado. Depois disso daí, veio o outro prefeito e quebrou todo aquele calçadão que fez, para fazer o outro.

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