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Mulher, profissão coragem

História de: Clarice Herzog
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2020

Sinopse

Clarice Herzog lembra em seu depoimento da infância e juventude vividas no bairro de Pinheiros, na zona oeste paulistana. Fala da sua relação com os pais e das amizades da rua e da escola. Recorda como conheceu Vladimir Herzog, numa banca de livros na faculdade de Filosofia da USP, então na rua Maria Antônia, e refere os momentos dramáticos que se seguiram ao assassinato do marido. Enfrentou com denodo a batalha jurídica que terminou por responsabilizar a União pela tortura e morte de Vladimir Herzog, que havia sido sepultado sob a versão fantasiosa de “suicídio”. A família recebeu um novo atestado de óbito.

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História completa

Escola e família

[Estudei em] escola pública. Toda semana tinha que cantar o hino nacional, ficava lá penduradinha, todas, cantando. E era muito gostoso porque as minhas amigas da rua eram minhas amigas da escola, porque era pertinho assim, muito perto, e entre a escola e a casa em que eu morava tinha uma casa enorme da minha avó paterna, era uma casa grande, tinha árvore, a gente pulava nas árvores, e pulava. Foi uma época gostosa, era uma época bem gostosa. Bem gostosa. Se bem que minha mãe não se dava muito bem com a avó, de tanto que amolou meu pai, tantas vezes, que foi morando cada vez mais longe, que acabou lá no sítio [em Bragança Paulista]. Mas era muito gostoso, eu tinha uns amigos lá, e era gostoso porque eu tinha aula com eles.

[Minha avó] ficava esperando os filhos às cinco da tarde, iam lá, iam beijar ela antes de ir para casa, e minha mãe detestava isso. E cada vez ficava mais longe. Eu tinha muito contato era com os meus avós maternos, avós maternos que eu amava, amava. O meu avô era italiano, ele chegou com 18 anos, e tinha a minha avó, Inês, de origem alemã. E chegou aqui, ficou com o meu avô, eles eram maravilhosos os dois, amava os dois. Eu tenho uma impressão interessante, minha avó era muito, muito... A gente ia para a casa dela, eu chegava e levava amigas para lá, e ela preparava macarrão, fazia comidinha. Meu avô trabalhava no cemitério do Araçá, ele fazia os designs das coisinhas. Aí ele chegava às vezes com dez [amigos], porque ele fazia os designs e tinha uns caras que faziam, ele levava todo mundo, minha avó sempre recebia numa boa. Minha avó era maravilhosa. Eu tinha muito contato com os meus avós do lado da minha mãe; não do meu pai, que não tinha muito contato.

Eles perderam a casa, foi uma tristeza isso. Como chama aquela rua? Oscar Freire. Eles perderam um pedaço da casa. Meu avô nessa época estava internado e minha avó não teve coragem de falar para ele, porque ele construiu a casa e eles perderam a casa porque foi tomada, um espaço enorme lá. Tanto que você anda, às vezes eu ando para ver se vejo alguma coisa que eu possa lembrar, porque eu era criança. Eu gostava muito, eu morava em Pinheiros, pegava a bicicleta, subia lá tudo, e ia de bicicleta para casa deles. Depois voltava de bicicleta. Eu adorava eles. Não tinha muito contato com a família do meu pai, porque minha mãe já era meio contra e eu não tinha, eu só sabia que eu tinha um avô, que ele tinha... Era uma casa grandona e tinha dois espaços dele, um que ele dormia e outro que ele escrevia, sei lá o que ele fazia. Eu sei que um dia eu entrei por trás assim, não sei por que eu resolvi entrar lá, e veio ele todo de preto, eu virei as costas e saí correndo.

Ele foi um cara rico. Ele chegou, foi o que todo mundo falava, foi o primeiro cara que chegou com um carro aqui. Veio de Portugal, sei lá de onde ele veio, para falar a verdade. E eu não tive, não tinha contato, de conversar. A minha mãe disse que quando eu era pequenininha, eu ficava penteando o cabelinho dele, não sei o quê, mas ele ficava trancado lá, eu nunca via, nunca via. Ah, tem essa história. Ele teve uma outra, e teve umas três mulheres, três filhas. E elas iam visitá-lo, e minha avó sempre dizia: "Coitadinha dela, o velho fez mal para ela, coitada, deixa", então ela ia lá. E quando ele estava para morrer, ele tinha três filhas. Falou: "Eu não vou conseguir entrar na igreja com elas, mas eu quero". E chamou os três filhos, cada um deles entrou com uma das filhas dele, quando casaram, eu lembro disso, que eu achei bonito. Ele chamou e falou: "Eu não posso, não tenho condições de caminhar, nada", e chamou os três filhos e falou: "Eu quero que cada um de vocês entra com uma, você entra com fulano, fulano e fulano". Para os três filhos. E minha avó não tinha problema nenhum, ao contrário, dizia assim: "Coitadinha da fulana, o velho fez mal para ela". A minha avó era sossegada, "fez mal para ela".

Minha mãe era brava. Brava. Muito brava. Eu, por exemplo, sempre fui de comer mal, então eu ficava beliscando. Aí ela falava: "Sai da mesa", e eu saía da mesa. "Sai da mesa, Clarice. Não vai comer, sai da mesa." E meu pai, escondido, levava sobremesa para mim, porque ele sabia que a sobremesa eu gostava. E escondido, porque senão... Minha mãe era brava, muito brava. E a gente precisava tomar cuidado. Não sei se ela me batia, não lembro, de apanhar assim não lembro, mas ela era brava.

 

Encontro com Vlado

O Vlado tinha uma amiga, Nilce Tranjan, que gostava muito do Vlado, era muito ligada com o Vlado. E uma vez eu estava na USP vendendo livros, que naquela entrada lá, que agora não tem nada disso: fui espiar, fiquei tão frustrada... Tinha um lugar lá, então eu estava lá vendendo livros. Aí apareceu o Vlado. "O que você está fazendo?" "Estou vendendo." A gente não se conhecia direito. Não, não se conhecia: se conheceu lá. Ele fez Filosofia. Já tinha terminado. Eu acho que já tinha terminado, ou se estava nos finais, finalmentes. E aí ele me convidou para ir ao cinema, fomos ao cinema, ele morava lá no centro, aí resolvemos fazer uma festa lá, que a Fátima [Pacheco Jordão] estava, um grupo lá, fizemos a festa, e aí uma vez ele, nessa festa, falou: "Eu te levo para casa". Reclamou que era no fim do mundo; claro que era o fim do mundo, eu morava na [perto do colégio] Fernão Dias, ali. E ele morava no centro, ele morava lá no centro. E aí me trouxe: "Você foi morar no fim do mundo". Eu falei: “Ué, é onde eu moro, você quer vir aqui, você quis vir, não precisava vir". Depois a gente começou a namorar.

 

Motorista inconfiável

Filme, cinema, muito, [Vlado] tinha ligação. Ele queria fazer cinema. Ele chegou a fazer alguma coisa em teatro, que eu não lembro o nome agora, que ele participou de um negócio aí no teatro, mas ele queria fazer cinema mesmo, cinema. E ele cantava sabe, cantava óperas em tons diferentes, então gente viajava, eu dirigia, ele não dirigia, e ele sempre ia cantando no caminho, cantando. Foi interessante, uma vez saímos de onde ele morava, eu estava dirigindo o carro, na Europa isso, e aí paramos, não sei por que, ele começou a falar – eu não entendia nada – como uma senhorinha, uma senhorinha falando com ele, falando, falando. Ele quieto, ela falando. Quando acabou tudo, falei: "Vlado, o que vocês falaram tanto? Não entendi nada que foi falado". "Nada, ela estava reclamando que é um absurdo você dirigindo e eu estar do lado". A senhorinha deu uma bronca nele, que ele não dirigia. O Vlado nunca dirigiu. Imagina, era um cara que escrevia em jornais, tudo, foi fazer o teste para tirar a carta e não passou no teste. Falei: "Meu Deus". Ele não era para dirigir mesmo.

 

Tom de voz

Suave, ele era suave. Nunca ele berrou, nunca, não lembro disso, dele ter berrado com um filho, comigo, nunca.

 

Na “Última Hora”

Escrevia. Eu tinha um espaço para mim. Quer dizer, eu era a única mulher lá dentro, quando eu comecei eu era a única mulher. Eu fui aprendendo coisas, aprendendo, de repente eles perceberam que eu escrevia bem, me deram um espaço. Eu tinha na “Última Hora” um espaço que eu escrevia coisas, escrevia. E passava para o Vlado. Às vezes eu chegava e falava: "Dá uma olhadinha, vê se você não melhora isso". Ele sempre dava uma melhoradinha, sempre achava que melhorava, às vezes ele mudava duas ou três coisinhas, mas eu achava que ficava muito mais interessante.

Eu escrevia sobre várias coisas, eu escrevia muito sobre as mulheres, o que as mulheres têm que fazer, porque não ficar nessa, não tem que ficar... Sobre aceitar qualquer coisa que vem do marido, eu inventava coisas. Outro dia eu comecei a procurar, mas como eu mudei de um lugar para o outro... Se você for na minha casa você vai ver, eu tenho uma livraria, e eu tinha outra livraria. Quando eu mudei, eu perdi muita coisa. Eu escrevia, tinha um espaço meu. Eu escrevia muito coisas sobre mulheres, eu focava isso. Claro que eu fazia outras coisas, mas o meu foco era esse mesmo.

 

Temporada londrina

Ele foi trabalhar na Inglaterra, na BBC, porque um amigo resolveu. Nós éramos três, o Fernando Jordão, aquele que está lá no sítio, o Nemércio, que está lá no sítio, e ele. E eles resolveram ir para lá, então nós nos mudamos para lá. Ah, todo mundo, achou que tinha trabalho, que era um negócio interessante. Ele trabalhou um bom tempo, meus filhos nasceram lá. Uns quatro anos, acho, que nós moramos lá. E a tristeza foi a volta, porque eu voltei antes com as crianças e ele estava querendo fazer um filme lá. E ele falou: "Eu vou ficar para terminar isso e você vai com as crianças". "Tudo bem, eu vou e fico esperando você." Nesse meio tempo, eu lembro que gente estava conversando e ficou discutindo se ele vinha para cá, porque estava péssima a situação política.

Aí veio o AI-5 depois, eu estava discutindo se era o caso dele vir, ou de eu pegar as crianças e ir para lá. Aí, nessa discussão, veio o AI-5. E aí nós ficamos conversando, se vai, se eu vou com as crianças para lá, se ele vem para cá, e depois tomou a decisão de vir para cá. E aí foi uma porcaria. Tinha essa preocupação, sim. E não era só ele, tinha uns amigos que discutiam, se encontravam, tudo isso, para discutir. Mas ao mesmo tempo sentia que eles não tinham poder, sabe? Tinha essa coisa toda. Uma coisa que eu falei: "Vai fazer cinema, você quer fazer cinema. Vai fazer cinema, é isso que vai te deixar feliz". Não deu certo. Estava na ditadura, ficamos discutindo para onde que a gente ia, se voltávamos para lá ou ficávamos, e a decisão foi ficar.

 

Repressão à porta

Ele estava querendo fazer [uma TV pública de qualidade]. Mas não deu. É uma coisa que eu falo, não deu tempo. Faleceu antes. É, foi terrível aquele negócio com ele. Mataram ele. Eu, na minha cabeça, eu não estava lá, eu não vi, eu fico imaginando o que aconteceu. Eles foram procurar o Vlado, bateram na [minha] porta. "Queria falar com o Vlado." "Não, ele está trabalhando." "Mas ele precisa tirar umas fotos." Eu falei: "Mas ele não é fotógrafo, ele está trabalhando". "E onde ele está trabalhando?" "Ah, ele trabalha em tal lugar." "E como que eu chego lá?" "Não tenho nem ideia, eu sei que é lá, mas eu não sei chegar lá", e não sabia mesmo chegar. Mas eu acabei de falar e liguei para o Vlado. Eu percebi uns homões grandes que chegaram lá, falei: "Vlado, está chegando gente aí. Vão querer te pegar, vão te pegar". E já fui para lá, e peguei meus dois filhos. Eu falei: “Eu vou fazer o seguinte: eu chego lá com as crianças, pego o Vlado e vamos para o sítio. Eles não vão descobrir onde nós estamos, vamos para o sítio”. Só que quando eu cheguei [na TV Cultura], eles já estavam. Eles já estavam lá. Começaram a negociar, ele falou: "Olha, vamos fazer o seguinte: eu não sou ladrão, eu não vou fugir, eu não vou fazer nada, eu quero me apresentar". E ele se apresentou, porque ele foi para casa, ficou em casa, dormiu lá. E ele se apresentou no outro dia. Eu acredito que lá no outro dia, o que aconteceu... é na minha cabeça, é que ele... Porque tinha uns rapazinhos que trabalhavam com ele, o pessoal que ficou mais ou menos vendo que eles machucavam ele, sabe, para dizer não sei o que tinha que dizer. Alguns ouviram, porque tinha o barulho e eles me falaram, depois vieram conversar comigo, que estavam lá. E eu não sei o que aconteceu. Eu acho que aconteceu o seguinte: eles estavam exigindo que ele desse nomes, nomes, nomes, e ele não ia dar nome de porra nenhuma, desculpa, porque ele não ia nunca fazer isso. E numa dessa ele reagiu. É o que eu acho: que ele reagiu e os caras foram em cima. Mataram ele. E fizeram tão mal feito, porque diziam que ele tinha se enforcado. Você já viu gente que se enforca com o pé no chão? Agora, eles se sentiam tão poderosos que eles podiam mostrar isso, as fotos que vinham em revistas, em jornais, tudo, ele com o pé... e dizendo que ele se enforcou. Ninguém se enforca com os pés no chão.

 

Ação contra o Estado

[Depois da farsa do suicídio] eu entrei com um processo. Eu fiz um negócio lá, entrei, fomos discutindo as coisas, discutindo, e eu percebi que esse cara estava entendendo tudo, como chamava esse [juiz]? João Gomes Martins. Sabe o que fizeram? Tiraram ele fora. Tiraram. Tanto que ele tem um livro que... Como chama o livro dele? “O tempo que não foi”. Eles tiraram ele. E aí veio um jovenzinho, eu falei: "Ai, meu Deus, não vai dar, não vai dar, e é o fim", e o jovem, como ele chama lá? [Márcio José de Moraes.] Ele assumiu, era um garotinho, eu falei: "Meu Deus do céu, é agora que eu vou me estrepar toda". Mas esse rapazinho, jovenzinho, fez um trabalho importantíssimo. E o antes [o juiz anterior, João Gomes Martins] ele escreveu um livro, só que esse livro não conseguiu acordo, eles tiraram, tiraram, puseram de férias. Você acredita nisso?

O problema é que eu achava que eu tinha que fazer isso. Eu tinha que fazer, e eu fui em frente. Fui em frente. Sei lá, eu tenho essa tristeza, não tenho raiva. A tristeza sempre; ódio, não. Porque eu fiz isso como uma coisa que era para importante eu fazer, entende? Se isso explodiu e ficou uma coisa marcante, eu não sei, não tenho essa percepção, não tenho. Inclusive, porque toda vez que eu entro nessa eu fico mal, fico mal.

[Em 1978, a Família Herzog moveu uma ação declaratória contra a União Federal a fim de contestar a versão oficial então vigente de que Vladimir Herzog havia se suicidado e de responsabilizar o Estado pela prisão arbitrária, tortura e morte do jornalista. Os advogados responsáveis por propor a ação contra o Estado foram Sérgio Bermudes, Samuel Mac Dowell de Figueiredo e Marco Antônio Rodrigues Barbosa. No primeiro momento, o juiz responsável pelo caso seria João Gomes Martins, mas o regime militar entrou com um mandado de segurança e impediu que Martins prolatasse a sentença. O raciocínio dos militares era de que Martins, às vésperas de completar 70 anos e se aposentar compulsoriamente, teria menos a perder condenando a União do que um jovem juiz substituto, com toda a carreira pela frente. O caso então caiu nas mãos de Márcio José de Moraes, auxiliar de Martins e juiz federal havia apenas dois meses. Ele conta que tirou férias para se dedicar ao processo e, para garantir a segurança da esposa e das duas filhas, mandou-as para o interior. Até que no dia 27 de outubro de 1978, três anos depois do crime, o juiz proferiu a sentença: “Pelo exposto, julgo a presente ação procedente e o faço para declarar a existência de relação jurídica entre os autores e a ré, consistente na obrigação desta, indenizar aqueles danos materiais e morais decorrentes da morte do jornalista Vladimir Herzog, marido e pai dos autores”. Graças à sentença do juiz Márcio José de Moraes, a Família Herzog recebeu, em março de 2013, um novo atestado de óbito que, ao invés do suicídio, aponta como causas da morte do jornalista lesões e maus-tratos. No entanto, falta ainda determinar os culpados. E o julgamento na Corte Interamericana de Direitos Humanos pode, finalmente, fazer isso.]

 

Bilhete fatídico

Aquele bilhete é um horror. É, eu acho que aconteceu isso. Exigiram alguma coisa estúpida, e ele escreveu, e acabou ali. Deve ter jogado na cara do cara e xingou. E aí pegaram ele. Massacraram. É o que eu acho. É o que eu acredito que aconteceu. Mas você não sabe. Mas eu acredito que aconteceu isso: ele reagiu, ele não ia entregar ninguém. Não tinha por que entregar. Ele nunca ia entregar, ele nunca faria uma coisa dessas. E ele reagiu. Fizeram ele escrever uma besteira lá, e ele rasgou. Eu acredito, rasgou e jogou. Foi aí que acabaram com ele. É o que vem na minha cabeça. Não quer dizer que seja, é o que vem, que eu acho que possa ter acontecido. Aquele negócio que ele escreveu, vocês lembram o que está escrito? Eu não lembro, eu precisaria pegar aquilo lá. Nunca ele escreveria aquilo. Nunca. Nunca.

Quem se mata com o pé no chão? Foi uma farsa e todo mundo engoliu. Tem um problema sério, que tem as pessoas que sabiam o que acontecia na ditadura, e tinha pessoas que estavam em outra. Eu lembro que um amigo do meu pai o encontrou e falou: "Mas o seu [genro] está louco? Tem filhos, tem tudo e se mata?". [Havia] pessoas que não tinham essa percepção do que acontecia na ditadura. Então foi cobrar do meu pai: "Como que seu genro faz uma coisa dessa, se suicida? Com duas crianças". Muitos que não acompanhavam o que acontecia nesse país achavam que ele tinha se matado mesmo. E é uma foto terrível, ele com os pés no chão. Mataram e penduraram ele. Que coisa terrível. É duro ficar falando essas coisas. Desculpe, mas me incomoda muito, me incomoda muito.

 

Enterro e ato ecumênico

Se você vir as fotos você vai ver: eu estou com os meus dois filhinhos, fui com os dois meninos. Eles participaram de tudo. Eles foram quando ele foi enterrado. Eu lembro que o Vlado estava indo lá no negócio [no caixão], o menor, o André, falou: "Mãe, você tem certeza que o meu pai está aí?". Aí eu falei: "Tenho. Infelizmente está". Mas aquele ato foi uma beleza. Dom Paulo [Evaristo Arns] estava lá, eram o Dom Paulo e mais dois. [Jaime Nelson Wright e Henry Sobel.] O Wright, que veio do Rio de Janeiro. Um deles veio do Rio de Janeiro, acho que era o Wright, não sei. E foi uma coisa impressionante. Eu lembro que eu estava trabalhando e fui para lá, e o presidente [da agência] falou assim: "Você não vai, está um perigo. Cercaram tudo, os policiais". Lá por cima a gente viu o pessoal com armas e tudo. Eu fui, claro que eu fui, imagina se eu não iria? Eu fui, eu falei: "Eu vou e pronto". Peguei os filhos e fui para lá. E foi um negócio bonito. E você sabe que eu, no final, fui falar com o Dom Paulo, dar um abraço no Dom Paulo e Dom Paulo estava chorando, chorando. E eu estava chorando, chorando. E ele: "Acalma, acalma". Aí tinha o Dom Hélder [Câmara, que] falou: "Não, deixa ela pôr toda a raiva dela, ela tem que botar o ódio dela para fora; deixa ela berrar, deixa ela chorar". Eu lembro dele pequenininho, ele era pequenininho. E eu lembro dele pequeninho dizendo: "Paulo, deixa, ela tem que pôr essa raiva para fora".

 

“O bêbado e a equilibrista”

[A primeira vez que ouviu a canção.] Eu lembro que eu estava fora, estava trabalhando, fazendo um trabalho para a Ogilvy, quando chegou um colega e falou: "Olha, saiu uma música". E veio cantar para mim a música, que ele tinha acabado de ouvir. Veio trazer para mim, porque tinha que ver comigo. Eu lembro que eu estava fazendo um trabalho para a Ogilvy, no interior, e ele veio com a música para mim: "A música é sua, é para você, a música foi feita para você". Um negócio, eu me lembro disso. Eu lembro disso.

 

Pesquisas qualitativas

Eu fazia tudo. E eu inventei isso, porque não existia isso: as pessoas faziam aquelas coisas complicadas, e eu fiz um negócio de conversa. Eu faço o grupo e vamos discutindo, pega um problema e nós vamos discutindo, ver o que está funcionando, o que não está funcionando, é papo. É mais do que um trabalho, sabe? Porque a gente descobre coisas discutindo, discutindo. É uma sala para oito pessoas e você jogava os problemas, ia colocando. Existe uma empresa que eu falava: "Eu preciso de pessoas, homens e mulheres, tais idades, e não sei o quê". Mandava todo o perfil que eu queria, eles contratavam e essas pessoas chegavam lá. Não é eu que contrato. Eu fazia a discussão, fazia análise e apresentava para o cliente.

 

Sonhos

Não tenho sonhos. Eu não tenho sonhos. Ah, sonhos acordados. Acordados. Não sei se eu já sonhei alguma vez. As minhas vontades de futuro são justamente essas: a gente começar a viajar. Viajar, conhecer coisas novas.

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